DOMINGO IV DO ADVENTO -2025- Ano A
As leituras de
hoje falam-nos do cumprimento das promessas do Senhor Deus, com o envio do
Salvador – Emanuel – Deus connosco e centram-nos em duas figuras fundamentais,
Maria e José.
Na
1ªleitura (Is 7, 10-14) Isaías esclarece-nos que será o
próprio Deus quem nos enviará um sinal do cumprimento da promessa: «a virgem
conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel».
“Naqueles
dias, o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: «Pede um sinal ao Senhor
teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». Acaz
respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». Então Isaías disse:
«Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para
quererdes também molestar o meu Deus? Por isso, o próprio Senhor vos dará um
sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel».
Na 2ªleitura (Rom 1, 1-7) S. Paulo situa-nos em Jesus, o Filho de Deus, mas, ao
mesmo tempo, na descendência de David, como a Boa Nova do Senhor prometida,
através dos profetas.
“Paulo,
servo de Jesus Cristo, apóstolo por chamamento divino, escolhido para o
Evangelho que Deus tinha de antemão prometido pelos profetas nas Sagradas
Escrituras, acerca de seu Filho, nascido, segundo a carne, da descendência de
David, mas, segundo o Espírito que santifica, constituído Filho de Deus em todo
o seu poder pela sua ressurreição de entre os mortos: Ele é Jesus Cristo, Nosso
Senhor. Por Ele recebemos a graça e a missão de apóstolo, a fim de levarmos
todos os gentios a obedecerem à fé, para honra do seu nome, dos quais fazeis
parte também vós, chamados por Jesus Cristo. A todos os que habitam em Roma,
amados por Deus e chamados a serem santos, a graça e a paz de Deus nosso Pai e
do Senhor Jesus Cristo.”
O
Evangelho (Mt 1, 18-24) é um
convite a contemplarmos Maria e José, que, pela forma como deixaram que o
Espírito Santo os habitasse, se tornaram totalmente disponíveis, para que Deus,
através deles, realizasse o Seu plano de salvação para toda a humanidade.
Deixemo-nos cativar pelo seu exemplo.
"O
nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José,
antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito
Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu
repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o
Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria,
tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz
um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus
pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio
do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será
chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono,
José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa."
Virgem Maria e
S. José ensinai-nos a dizer, sempre, sim a Deus.
Estimados
irmãos e irmãs, bom dia!
Continuemos o
nosso caminho de reflexão sobre a figura de São José. Hoje gostaria de explorar
o seu ser “justo” e “noivo de Maria”, e assim dar uma mensagem a todos os
noivos, incluindo os recém-casados. Muitos acontecimentos ligados a José são
contados nos evangelhos apócrifos, ou seja, evangelhos não canónicos, que
também influenciaram a arte e vários lugares de culto. Estes escritos, que não
estão na Bíblia – são histórias que a piedade cristã narrava naquele tempo –
respondem ao desejo de preencher as lacunas narrativas dos Evangelhos
canónicos, aqueles que estão na Bíblia, os quais nos dão tudo o que é essencial
para a fé e a vida cristã.
O evangelista
Mateus. Isto é importante: o que diz o Evangelho sobre José? Não o que dizem os
evangelhos apócrifos, que não são negativos nem maus; são bonitos, mas não são
a Palavra de Deus. Ao contrário, os Evangelhos, que estão na Bíblia, são a
Palavra de Deus. Entre eles está o evangelista Mateus que define José um
homem “justo”. Ouçamos a sua narração: «Eis como nasceu Jesus
Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem,
aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que
era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente» (1, 18-19).
Pois os noivos, quando a noiva não era fiel ou engravidava, deviam denunciá-la!
E as mulheres naquele tempo eram apedrejadas. Mas José era justo. E disse:
“Não, eu não farei isto. Ficarei calado”.
Para
compreender o comportamento de José em relação a Maria, é útil recordar os
costumes matrimoniais do antigo Israel. O matrimónio compreendia duas fases bem
definidas. A primeira era como um noivado oficial, que já implicava uma nova
situação: em particular, a mulher, embora continuasse a viver na casa do seu
pai por mais um ano, era de facto considerada a “esposa” do noivo. Ainda não
viviam juntos, mas era como se ela fosse sua esposa. O segundo ato era a
transferência da noiva da casa do seu pai para a casa do noivo. Isto acontecia
com uma procissão festiva, que completava o matrimónio. E as amigas da noiva
acompanhavam-na até lá. De acordo com estes costumes, o facto que «antes que
fossem viver juntos, Maria estava grávida», expunha a Virgem à acusação de
adultério. E esta culpa, segundo a Lei antiga, devia ser punida com a lapidação
(cf. Dt 22,
20-21).
No entanto, na prática judaica posterior, uma interpretação mais moderada
tinha-se tornado realidade e apenas impunha o ato de repúdio, com consequências
civis e criminais para a mulher, mas não o apedrejamento.
O Evangelho
diz que José era “homem de bem” precisamente porque estava sujeito à lei como
qualquer israelita piedoso. Mas dentro dele, o amor por Maria e a confiança
nela sugeriam um modo de salvar a observância da lei e a honra da sua esposa:
ele decidiu dar-lhe o ato de repúdio em segredo, sem clamor, sem a sujeitar à
humilhação pública. Escolheu o caminho do segredo, sem julgamento nem vingança.
Mas quanta santidade em José! Nós, que assim que temos um pouco de notícias
folclóricas ou negativas sobre alguém, vamos imediatamente à tagarelice! José,
ao contrário, fica calado.
Mas o
evangelista Mateus acrescenta: «José, filho de Davi, não temas receber Maria
por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz
um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo de seus
pecados» (1, 20-21).
A voz de Deus intervém no discernimento de José e, através de um sonho,
revela-lhe um significado maior do que a sua própria justiça. E como é
importante para cada um de nós cultivar uma vida justa e, ao mesmo tempo,
sentir que estamos sempre a precisar da ajuda de Deus! Para poder alargar os
nossos horizontes e considerar as circunstâncias da vida sob um ponto de vista
diferente e mais amplo. Muitas vezes sentimo-nos prisioneiros pelo que nos
aconteceu: “Mas vejam o que me aconteceu!” e continuamos prisioneiros daquela
situação má que nos aconteceu; mas precisamente perante algumas circunstâncias
da vida, que inicialmente parecem dramáticas, existe uma Providência que com o
tempo toma forma e ilumina com significado até a dor que nos atingiu. A
tentação é fecharmo-nos nessa dor, nesse pensamento das coisas desagradáveis
que nos aconteceram. E isto não é bom. Leva à tristeza e à amargura. O coração
amargo é tão triste.
Gostaria que
fizéssemos uma pausa e refletíssemos sobre um pormenor desta história narrada
no Evangelho que muitas vezes ignoramos. Maria e José são dois noivos que
provavelmente tinham sonhos e expetativas sobre as suas vidas e o seu futuro.
Deus parece intervir como um acontecimento inesperado na sua vicissitude,
embora com alguma dificuldade inicial, ambos abrem o coração para a realidade
que lhes é apresentada.
Estimados
irmãos e irmãs, muitas vezes as nossas vidas não são como as imaginamos.
Especialmente nas relações de amor, de afeto, temos dificuldade em passar da
lógica do apaixonamento para a do amor maduro. E temos de passar do
apaixonamento para o amor maduro. Vós, recém-casados, pensai bem nisto. A
primeira fase é sempre marcada por um certo encantamento, que nos faz viver
imersos num mundo imaginário que muitas vezes não corresponde à realidade dos
factos. Mas precisamente quando o apaixonamento com as suas expetativas parece
chegar ao fim, neste momento o verdadeiro amor pode começar. Com efeito, amar
não é pretender que o outro ou a vida corresponda à nossa imaginação; pelo
contrário, significa escolher com total liberdade assumir a responsabilidade pela
vida que nos é oferecida. É por isso que José nos dá uma lição importante, ele
escolheu Maria “com olhos abertos”. E podemos dizer que com todos os riscos.
Pensai, no Evangelho de João, uma reprimenda que fazem os doutores da lei a
Jesus é esta: “Não somos filhos que provêm de lá”, referindo-se à prostituição.
Porque sabiam como Maria tinha engravidado e queriam difamar a mãe de Jesus.
Para mim este é o trecho mais sujo e demoníaco do Evangelho. E o risco de José
dá-nos esta lição: assumir a vida como vem. Deus interveio nela? Assumo-a. E
José comportou-se como o anjo do Senhor lhe ordenara: de facto o Evangelho diz:
«Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua
casa a sua esposa. E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu
filho, que recebeu o nome de Jesus» (Mt 1,
24-25).
Os noivos cristãos são chamados a dar testemunho deste amor, que tem a coragem
de passar da lógica do apaixonamento para a do amor maduro. E esta é uma
escolha exigente que, em vez de aprisionar a vida, pode fortalecer o amor para
que seja duradouro face às provações do tempo. O amor de um casal continua na
vida e amadurece todos os dias. O amor do noivado é um pouco – permiti-me que o
diga – um pouco romântico. Vós vivestes-o, mas depois começa o amor
maduro, quotidiano, o trabalho, as crianças que chegam. E, por vezes, aquele
romantismo desaparece um pouco. Mas não há amor? Sim, mas amor maduro. “Mas
sabe, padre, por vezes discutimos...”. Isto acontece desde o tempo de Adão e
Eva até aos dias de hoje: que os esposos brigam é o pão nosso de cada dia. “Mas
não deveríamos discutir?”. Sim, é possível. “E padre, mas por vezes erguemos a
voz” – “Acontece”. “E também por vezes os pratos voam” – “Acontece”. Mas como
assegurar que não prejudica a vida do matrimónio? Escutai bem: nunca termineis
o dia sem fazer a paz. Tivemos uma discussão, disse-te coisas más, meu Deus,
disse-te palavras más. Mas agora o dia acaba: tenho de fazer a paz. Sabei porquê?
Porque a guerra fria do dia seguinte é muito perigosa. Não deixeis que no dia
seguinte comece uma guerra. É por isso que se deve fazer as pazes antes de ir
para a cama. Lembrai-vos sempre: nunca terminar o dia sem fazer a paz. E isto
irá ajudar-vos na vida de casado. Este percurso do apaixonamento para o amor
maduro é uma escolha exigente, mas devemos seguir por esse caminho.
E também desta
vez concluímos com uma oração a São José.
São José,
vós que amastes Maria com liberdade
e optastes por renunciar à imaginação para criar espaço à realidade,
ajudai cada um de nós a deixarmo-nos surpreender por Deus
e a acolher a vida não como um acontecimento imprevisto do qual nos devemos
defender,
mas como um mistério que esconde o segredo da verdadeira alegria.
Obtende alegria e radicalidade para todos os noivos cristãos,
Mas conservando sempre a consciência
de que só a misericórdia e o perdão tornam o amor possível. Amén.


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