DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM
As leituras de
hoje lançam-nos o desafio de nos amarmos uns aos outros sempre, sempre mais e
mais, perdidamente (em Deus), em todas as circunstâncias, mas, sobretudo,
quando necessitamos de ajuda para modificar comportamentos e atitudes. Todos
erramos, errar é humano, por isso também todos precisamos de ser ajudados a
corrigir, no que fazemos de mal e, ao mesmo tempo, todos necessitamos de ser perdoados no amor,
isso é divino.
Pela
1ªleitura (Ez 33, 7-9) percebemos
que a prática da correção fraterna já vem de longe. Hoje continua a ser assim,
como já no tempo dos profetas se fazia:
“Eis o que diz o Senhor: «Filho do homem,
coloquei-te como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires a palavra da minha
boca, deves avisá-los da minha parte. Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio,
hás de morrer’, e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o
ímpio morrerá por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua
morte. Se tu, porém, avisares o ímpio, para que se converta do seu caminho, e
ele não se converter, morrerá nos seus pecados, mas tu salvarás a tua vida»”
Na 2ª
leitura (Rom 13, 8-10) S.Paulo
centra-nos no essencial da nossa fé: o Amor de Deus. Só em Deus tudo tem
sentido, incluindo a correção aos irmãos. Sem Deus nada somos, só Ele nos ama
infinitamente.
“Irmãos: Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei. De facto, os mandamentos que dizem: «Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás», e todos os outros mandamentos, resumem-se nestas palavras: «Amarás ao próximo como a ti mesmo». A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei.”
Ao conviver com os outros, percebemos o
quanto precisamos deles, para avançarmos no caminho do amor. Não é fácil, acho
mesmo que as relações humanas, no nosso quotidiano, são muito complicadas, mas
quando a correção é feita em Deus, o Pai vem em nosso auxílio e, mesmo que
demore tempo, tudo se resolverá pelo melhor. Façamos como Jesus nos diz no
Evangelho de hoje (Mt 18, 15-20), peçamos ajuda a Deus, oremos
ao Senhor.
"Naquele
tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com
ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te
escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique
resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der
ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja,
considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que
ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será
desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para
pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na
verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio
deles»."
Senhor, habita
o meu coração, por inteiro, para que eu Te ame nos irmãos.
As leituras
bíblicas da missa deste domingo convergem sobre o tema da caridade fraterna na
comunidade dos crentes, que tem a sua nascente na comunhão da Trindade. O
apóstolo Paulo afirma que toda a Lei de Deus encontra a sua plenitude no amor,
de modo que, nas nossas relações com os outros, os dez mandamentos e qualquer outro
preceito se resumem nisto: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (cf. Rm 13, 8-10).
O texto do Evangelho, tirado do capítulo 18 de Mateus, dedicado à vida da
comunidade cristã, diz-nos que o amor fraterno exige também um sentido de
responsabilidade recíproca, pelo que, se o meu irmão comete uma falta contra
mim, devo usar de caridade para com ele e, antes de tudo, falar-lhe
pessoalmente, recordando-lhe que quanto disse ou fez não é bom. Este modo de
agir chama-se correção fraterna: ela não é uma reação à ofensa de que se foi
vítima, mas é movida pelo amor ao irmão. Santo Agostinho comenta: «Aquele que
te ofendeu, ao ofender-te, causou em si mesmo uma ferida grave, e não te
preocupas tu pela ferida de um teu irmão? ... Deves esquecer a ofensa que recebeste,
mas não a ferida de um teu irmão» (Discursos 82,
7).
E se o irmão
não me ouve? No evangelho de hoje Jesus indica uma gradualidade: primeiro,
voltar a falar-lhe com outras duas ou três pessoas, para o ajudar a dar-se
conta do que fez; se, mesmo assim, ele não aceita a observação, é preciso
dizê-lo à comunidade; e se não ouve nem sequer a comunidade, é necessário
fazer-lhe sentir o afastamento que ele mesmo causou, separando-se da comunhão
da Igreja. Tudo isto indica que há uma co-responsabilidade no caminho da vida
cristã: cada um, consciente dos próprios limites e defeitos, está chamado a
aceitar a correção fraterna e a ajudar os outros com este serviço especial.
Outro fruto da
caridade na comunidade é a oração concorde. Jesus diz: «Se dois de entre vós se
unirem, na terra, para pedir qualquer coisa, obtê-la-ão de Meu Pai que está nos
céus. Pois onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio
deles» (Mt 18,
19-20).
Certamente a oração pessoal é importante, aliás, indispensável, mas o Senhor
garante a sua presença à comunidade que — mesmo se for muito pequena — está
unida e é unânime, porque reflete a própria realidade de Deus Uno e Trino,
comunhão perfeita de amor. Orígenes dizia que «nos devemos exercitar nesta
sinfonia» (Comentário
ao Evangelho de Mateus 14, 1), ou seja, nesta concórdia no
âmbito da comunidade cristã. Devemos exercitar-nos quer na correção fraterna,
que exige muita humildade e simplicidade de coração, quer na oração, para que
se eleve a Deus de uma comunidade deveras unida em Cristo. Peçamos tudo isto
por intercessão de Maria Santíssima, Mãe da Igreja, e de São Gregório Magno,
Papa e Doutor, que ontem recordamos na liturgia.




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