sábado, 21 de fevereiro de 2026

Tempo Quaresmal -2026- Ano A

As leituras, deste primeiro domingo da Quaresma, situam-nos na escolha entre o bem e o mal, num constante exercício da nossa liberdade, centrando-nos na única razão pela qual vale a pena optar pelo bem: Jesus Cristo. Se nos apoiarmos e radicarmos n’Ele conseguiremos, passo a passo, com Ele, chegar à vitória final. Jesus, como vemos no evangelho, é o primeiro a dar o exemplo, a guiar-nos a nós, caminhantes na estrada da vida, para Deus Amor, o único que nos ama infinitamente, tal qual somos, esperando que, no Filho, nos deixemos abraçar, amar totalmente por Ele.


Na 1ªleitura (Gen 2, 7-9; 3, 1-7) o autor sagrado insere-nos num dos problemas principais da nossa existência, enquanto seres pensantes, autónomos, no pleno uso das nossas capacidades, seja em vivência individual, ou coletiva, que é a opção entre o bem e o mal. Deixemo-nos cativar e habitar por Jesus, para que n’Ele, sob a ação do Espírito Santo, façamos as escolhas que Deus espera de nós.

“O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?». A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu fruto da árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.”

Na 2ªleitura (Rom 5, 12-19) é S.Paulo quem nos aponta o único caminho que leva ao encontro com Deus Amor: Jesus Cristo. S.Paulo deixa-nos a certeza de que, em  e por Jesus, todos podemos, se assim o quisermos, ser amados pelo Amor.

“Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens. E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.” 

No evangelho (Mt 4, 1-11) S.Mateus, nesta sua catequese, ajuda-nos a contemplar Jesus, que ao mesmo tempo que é de condição divina, é também homem. É investindo na condição humana de Jesus que o diabo joga a sua cartada. Dá para perceber que o diabo conhece muito bem a condição humana, pois vai tentar Jesus naquilo que é o mais importante para o ser humano: a riqueza, o poder e o prestígio. Jesus, que tinha feito um tempo muito longo de oração, de aprofundamento da Sua comunhão filial com o Pai, estando em união total com Deus, dá-nos o exemplo do quão é importante a oração para nos livrarmos das tentações. Ensina-nos a rezar, a entrar, por Ti, em comunhão com o Pai.

“Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo deixou-O e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O.” 

Jesus, Filho de Deus Vivo, tem compaixão de mim, que sou pecadora.

Pai Nosso que estais nos céus, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho deste primeiro Domingo da Quaresma apresenta-nos Jesus no deserto tentado pelo diabo (cf. Mt 4, 1-11). Diabo significa “divisor”. O diabo quer sempre criar divisão, e é isto que procura fazer também tentando Jesus. Vejamos então de quem o quer dividir e de que modo o tenta.

De quem o diabo quer dividir Jesus? Depois de ter recebido o Batismo por João no Jordão, Jesus foi chamado pelo Pai «meu Filho muito amado» (Mt 3, 17) e o Espírito Santo desceu sobre Ele sob forma de pomba (cf. v. 16). Assim, o Evangelho apresenta-nos as três Pessoas divinas unidas no amor. Depois, o próprio Jesus dirá que veio ao mundo para nos tornar também participantes da unidade entre Ele e o Pai (cf. Jo 17, 11). Por outro lado, o diabo faz o contrário: entra em cena para dividir Jesus do Pai e o desviar da sua missão de unidade para nós. Divide sempre.

Vejamos agora de que modo tenta fazê-lo. O diabo quer aproveitar da condição humana de Jesus, que é frágil porque jejuou durante quarenta dias e tem fome (cf. Mt 4, 2). Então, o maligno procura incutir-lhe três poderosos “venenos” para paralisar a sua missão de unidade. Estes venenos são o apego, a desconfiança e o poder. Antes de mais, o veneno do apego às coisas, às necessidades; com raciocínio persuasivo, o diabo tenta sugestionar Jesus: “Tens fome, porque deves jejuar? Ouve a tua necessidade, satisfá-lo, tens o direito e o poder: transforma as pedras em pão”. Depois o segundo veneno, a desconfiança: “Tens a certeza - insinua o maligno - de que o Pai quer o teu bem? Põe-no à prova, chantageia-o! Atira-te do ponto mais alto do templo e obriga-o a fazer o que tu queres”. Enfim o poder: “Do teu Pai, não tens necessidade! Por que esperar pelos seus dons? Segue os critérios do mundo, faz tudo sozinho e serás poderoso!”. As três tentações de Jesus. E também nós vivemos estas três tentações, sempre. É terrível, mas é assim, também para nós: apego às coisas, desconfiança e sede de poder são três tentações generalizadas e perigosas, que o diabo usa para nos dividir do Pai e já não nos faz sentir como irmãos e irmãs entre nós, para nos conduzir à solidão e ao desespero. Era o que queria fazer a Jesus e quer fazer-nos a nós: levar-nos ao desespero.

Mas Jesus vence as tentações. E como as vence? Evitando discutir com o diabo e respondendo com a Palavra de Deus. Isto é importante: com o diabo não se discute, com o diabo não se dialoga! Jesus enfrenta-o com a Palavra de Deus. Ele cita três frases da Escritura que falam de liberdade das coisas (cf. Dt 8, 3), de confiança (cf. Dt 6, 16), e de serviço a Deus (cf. Dt 6, 13), três frases opostas às tentações. Nunca dialoga com o diabo, não negocia com ele, mas rejeita as suas insinuações com as palavras benéficas da Escritura. É um convite também para nós: com o diabo não se discute! Não se negocia, não se dialoga; não o derrotamos negociando com ele, é mais forte do que nós. Derrotamos o diabo, opondo-lhe com fé a Palavra divina. Desta forma, Jesus ensina-nos a defender a unidade com Deus e entre nós dos ataques do divisor. A Palavra divina é a resposta de Jesus à tentação do diabo.

Perguntemo-nos: que lugar tem a Palavra de Deus na minha vida? Será que recorro a ela nas minhas lutas espirituais? Se tenho um vício ou uma tentação frequente, por que, ao procurar ajuda, não procuro um versículo da Palavra de Deus que responda a esse vício? Depois, quando tenho a tentação, recito-o, rezo-o, confiando na graça de Cristo. Experimentemos fazer isto, ajudar-nos-á nas tentações, ajudar-nos-á muito, pois, entre as vozes que se agitam dentro de nós, ressoará aquela benéfica da Palavra de Deus. Maria, que aceitou a Palavra de Deus e pela sua humildade venceu a soberba do divisor, nos acompanhe na luta espiritual da Quaresma.

Papa Francisco
(Angelus, 26 de fevereiro de 2023)

20 de fevereiro de 2026

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Tempo Quaresmal -2026- Ano A

Quarta-feira de Cinzas

Escutar e jejuar.

Quaresma como tempo de conversão

Queridos irmãos e irmãs!

A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano.

Todo o caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso, o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe a Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua paixão, morte e ressurreição.

Escutar

Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro.

O próprio Deus, revelando-se a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva do seu ser: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor» (Ex 3, 7). Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão.

É um Deus que nos envolve e, hoje, também vem até nós com os pensamentos que fazem vibrar o seu coração. Por isso, escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nesta disposição interior de recetividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que «a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja». 

Jejuar

Se a Quaresma é um tempo de escuta, o jejum constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus. Na verdade, a abstinência de alimentos é um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão. Precisamente porque implica o corpo, torna mais evidente aquilo de que temos “fome” e o que consideramos essencial para o nosso sustento. Portanto, é útil para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo.

Com grande sensibilidade espiritual, Santo Agostinho deixa transparecer a tensão entre o tempo presente e a realização futura que atravessa esta salvaguarda do coração, quando observa que: «Ao longo da vida terrena, cabe aos homens ter fome e sede de justiça, mas ser saciados pertence à outra vida. Os anjos saciam-se deste pão, deste alimento. Os homens, pelo contrário, sentem fome dele, estão inclinados ao seu desejo. Esta inclinação ao desejo dilata a alma, aumentando a sua capacidade». Compreendido neste sentido, o jejum permite-nos não só disciplinar o desejo, purificá-lo e torná-lo mais livre, mas também ampliá-lo, de tal modo que se volte para Deus e se oriente para agir no bem.

No entanto, para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade. Ele exige um permanente enraizar-se na comunhão com o Senhor, porque «não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus». Como sinal visível do nosso compromisso interior de, com o apoio da graça, nos afastarmos do pecado e do mal, o jejum deve incluir também outras formas de privação destinadas a fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio, pois «só a austeridade torna forte e autêntica a vida cristã».

Por isso, gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.

Juntos

Por fim, a Quaresma realça a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum. A Escritura sublinha também este aspeto de várias maneiras. Por exemplo, ao narrar no livro de Neemias que o povo se reuniu para escutar a leitura pública do livro da Lei e, praticando o jejum, se dispôs à confissão de fé e à adoração, a fim de renovar a aliança com Deus (cf. Ne 9, 1-3).

Do mesmo modo, as nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum e o jejum suporte um verdadeiro arrependimento. Neste contexto, a conversão diz respeito não só à consciência do indivíduo, mas também ao estilo das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela realidade e de reconhecer o que realmente orienta o desejo, tanto nas nossas comunidades eclesiais como na humanidade sedenta de justiça e reconciliação.

Caríssimos, peçamos a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos. Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor.

De coração, abençoo todos vós e o vosso caminho quaresmal. 

Papa Leão XIV
(Mensagem para a Quaresma, 5 de fevereiro de 2026)


sábado, 14 de fevereiro de 2026

DOMINGO VI DO TEMPO COMUM -2026- Ano A

Na quarta-feira, da semana que hoje se inicia, vamos entrar na Quaresma  e a liturgia deste domingo, como que , por antecipação, indica-nos, como ajuda para  a vivência desse tempo especial de conversão, que devemos seguir  os mandamentos da lei de Deus. Jesus veio a este mundo e não desfez a Lei antiga, mas levou-a à perfeição, ensinando o seu sentido profundo e a observá-la no íntimo do coração, no espírito e não na letra.

Na 1ªleitura Sir 15, 16-21 (15-20) o autor sagrado dá-nos uma leitura dos preceitos da lei que vai para além do cumprimento obrigatório de um ritual, passa antes por uma adesão pessoal, por uma escolha consciente e não imposta. O resultado dessa opção virá depois, porque o Senhor é fonte de alegria e de esperança e a ninguém deu licença para pecar.

“Se quiseres, guardarás os mandamentos: ser fiel depende da tua vontade. Deus pôs diante de ti o fogo e a água: estenderás a mão para o que desejares. Diante do homem estão a vida e a morte: o que ele escolher, isso lhe será dado. Porque é grande a sabedoria do Senhor, Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas. Seus olhos estão sobre aqueles que O temem, Ele conhece todas as coisas do homem. Não mandou a ninguém fazer o mal, nem deu licença a ninguém de cometer o pecado.”

Na 2ª leitura (1 Cor 2, 6-10) S. Paulo fala-nos do que verdadeiramente é importante para cada um nós, Jesus Cristo. Só em Jesus tudo ganha sentido e, pela ação do Espírito Santo vai-nos sendo revelado o plano de salvação que Deus tem para o mundo, o Amor infinito de Deus por todos e por cada um de nós, individualmente.

“Irmãos: Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos, mas de uma sabedoria que não é deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que vão ser destruídos. Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que já antes dos séculos Deus tinha destinado para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu; porque se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, como está escrito, «nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam». Mas a nós Deus o revelou por meio do Espírito Santo, porque o Espírito Santo penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus.”

No Evangelho (Mt 5, 17-37) abre-se perante nós a cartilha do Amor de Deus, que são os mandamentos. Jesus, nesta leitura, revela-nos que as leis, os mandamentos, não são uma série de nãos, mas um sim total ao Amor, ao nosso Deus e também ao próximo.

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus. Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo. Portanto, se fores apresentar a tua oferta ao altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. Reconcilia-te com o teu adversário, enquanto vais com ele a caminho, não seja caso que te entregue ao juiz, o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo. Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com maus desejos já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é melhor perder-se um só dos teus olhos do que todo o corpo ser lançado na geena. E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor que se perca um só dos teus membros, do que todo o corpo ser lançado na geena. Também foi dito: ‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que repudiar sua mulher, salvo em caso de união ilegítima, expõe-na ao adultério. E quem se casar com uma repudiada comete adultério. Ouvistes ainda que foi dito aos antigos: ‘Não faltarás ao que tiveres jurado, mas cumprirás diante do Senhor o que juraste’. Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum: nem pelo Céu, que é o trono de Deus; nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés; nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei. Também não jures pela tua cabeça, porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo. A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno».”

“Abri, Senhor, os meus olhos para ver as maravilhas da vossa lei”, “ensinai-me, Senhor”, “dai-me entendimento”, para viver de Ti na minha vivência com todos os que puseres no meu caminho.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

No Evangelho da liturgia de hoje Jesus diz: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas: não vim revogá-la, mas completá-la» (Mt 5, 17). Completar: esta é uma palavra-chave para compreender Jesus e a sua mensagem. Mas o que significa “completar”? Para o explicar, o Senhor começa por dizer o que não é completar. A Escritura diz “não matarás”, mas para Jesus isto não é suficiente se depois alguém ferir os irmãos com palavras; a Escritura diz “não cometerás adultério”, mas isto não é suficiente se alguém viver um amor manchado pela duplicidade e falsidade; a Escritura diz “não darás falso testemunho”, mas não é suficiente fazer um juramento solene se alguém agir com hipocrisia (cf. Mt 5, 21-37). Assim, não é completar.

Para nos dar um exemplo concreto, Jesus concentra-se no “rito do ofertório”. Ao fazer uma oferenda a Deus, retribui-se a gratuidade dos seus dons. Era um rito muito importante - fazer uma oferta para retribuir simbolicamente, digamos, a gratuidade dos seus dons - tão importante que era proibido interrompê-lo exceto por motivos graves. Mas Jesus afirma que é preciso interrompê-lo se um irmão tiver algo contra nós, para ir primeiro reconciliar-se com ele (cf. vv. 23-24): só então se completa o rito. A mensagem é clara: Deus ama-nos primeiro, gratuitamente, dando o primeiro passo na nossa direção sem que o mereçamos; e depois não podemos celebrar o seu amor sem, por nossa vez, dar o primeiro passo para nos reconciliarmos com aqueles que nos feriram. Assim, há o completamento aos olhos de Deus, caso contrário a observância externa, puramente ritual, é inútil, torna-se uma farsa. Por outras palavras, Jesus faz-nos compreender que as normas religiosas são úteis, são boas, mas são apenas o início: para as completar, é necessário ir além da letra e viver o seu significado. Os mandamentos que Deus nos deu não devem ser encerrados nos cofres asfixiados da observância formal, caso contrário, permanecemos numa religiosidade externa e desapegada, servos de um “deus-patrão” e não filhos de Deus Pai. Jesus quer isto: não ter a ideia de servir um Deus patrão, mas o Pai; e para isso é necessário ir além da letra.

Irmãos e irmãs, este problema não existia apenas no tempo de Jesus, existe também hoje. Às vezes, por exemplo, ouvimos: “Padre, eu não matei, não roubei, não fiz mal a ninguém...”, como se dissesse: “Estou bem”. Eis a observância formal, que se contenta com o mínimo indispensável, enquanto Jesus nos convida ao máximo possível. Isto é, Deus não raciocina por cálculos nem tabelas; Ele ama-nos como um apaixonado: não ao mínimo, mas ao máximo! Não nos diz: “Amo-te até a um certo ponto”. Não, o amor verdadeiro nunca chega a um certo ponto e nunca se sente perfeito; o amor vai sempre mais além, não pode fazer diferentemente. O Senhor mostrou-nos isto ao dar a vida na cruz e perdoando os seus assassinos (cf. Lc 23, 34). E confiou-nos o mandamento que lhe é mais querido: que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou (cf. Jo 15, 12). Este é o amor que completa a Lei, a fé, a vida verdadeira!

Então, irmãos e irmãs, podemos perguntar-nos: como vivo a fé? É uma questão de cálculos, de formalismos, ou é uma história de amor com Deus? Contento-me apenas em não fazer mal, em manter “a fachada”, ou procuro crescer no amor a Deus e ao próximo? E, de vez em quando, verifico-me sobre o grande mandamento de Jesus, pergunto a mim mesmo se amo o meu próximo como Ele me ama? Pois talvez sejamos inflexíveis no julgamento dos outros e nos esqueçamos de ser misericordiosos, como é Deus para connosco.

Que Maria, a qual observou perfeitamente a Palavra de Deus, nos ajude a cumprir a nossa fé e a nossa caridade.

Papa Francisco
(Angelus, 12 de fevereiro de 2023)

sábado, 7 de fevereiro de 2026

 DOMINGODO TEMPO COMUM -2026- Ano A

Após a proclamação das bem-aventuranças, somos chamados a testemunhar a luz que deve brilhar para todos. Mas de que luz se trata? Da luz que brota das boas obras de misericórdia. Hoje, a Palavra do Senhor também nos desafia a vivermos, no dia a dia da vida, seguros, radicados no Amor, “enraizados em Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado”. 

Na 1ªleitura (Is 58, 7-10) o profeta Isaías torna presente a forma como, os que nos rodeiam, se interrogarão, ou poderão compreender, quem é Aquele que nos move, quem é a razão de ser da nossa existência, isto é, relembra-nos que será através da prática das obras de misericórdia, que chegaremos àqueles a quem o Senhor se quer revelar, através de cada um de nós.

“Eis o que diz o Senhor: «Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa ao que não tem que vestir e não voltes as costas ao teu semelhante. Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor. Então, se chamares, o Senhor responderá, se O invocares, dir-te-á: ‘Aqui estou’. Se tirares do meio de ti a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia».”

Na 2ªleitura (Cor 2, 1-5) S.Paulo, que dominava as escrituras do seu tempo, como ninguém, não se arma em doutor da lei, mas, pelo contrário, confessa-se  cheio de temor e tremor ao anunciar o Evangelho. É assim que nos revela o segredo do êxito da sua ação missionária, quando nos diz que se apoia sempre e só em Jesus Cristo, crucificado, deixando-se guiar pelo Espírito Santo. Que humildade, meu Deus! Bendito seja Deus, nos Seus anjos e nos Seus santos.

“Quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria a anunciar-vos o mistério de Deus. Pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras. A minha palavra e a minha pregação não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana, mas na poderosa manifestação do Espírito Santo, para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus.”


No evangelho (Mt 5, 13-16)  Jesus, mesmo sabendo quem e como somos e, mais ainda, do que somos capazes, de bom, mas também de mau, entrega-nos a responsabilidade de O anunciarmos, na vida, na forma como nos movemos e existimos, na forma como nos relacionamos com todos, e cada um, à nossa volta. 

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa. Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».” 

Senhor, que arriscaste em nós, em cada um de nós, mesmo conhecendo-nos no mais íntimo de nós próprios, habita-nos por inteiro, preenche todo o nosso ser sempre, seja qual for a situação em que nos encontremos, ou venhamos a encontrar. Bendito sejas Senhor por nos amares assim, infinitamente. A Ti, a glória, hoje e sempre, pelos séculos sem fim. Ámen.

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

No Evangelho de hoje (cf. Mt 5, 13-16), Jesus diz aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra [...] Vós sois a luz do mundo» (vv. 13.14). Ele usa uma linguagem simbólica para indicar àqueles que pretendem segui-lo, alguns critérios para viver a presença e o testemunho no mundo.

Primeira imagem: o sal. O sal é o elemento que dá sabor, que conserva e preserva os alimentos contra a corrupção. Portanto, o discípulo é chamado a manter longe da sociedade os perigos, os germes corrosivos que poluem a vida das pessoas. Trata-se de resistir à degradação moral, ao pecado, dando testemunho dos valores da honestidade e da fraternidade, sem ceder às lisonjas mundanas do arrivismo, do poder e da riqueza. É “sal” o discípulo que, não obstante os fracassos diários – porque todos nós os temos – se levanta do pó dos próprios erros, recomeçando com coragem e paciência, todos os dias, a procurar o diálogo e o encontro com os outros. É “sal” o discípulo que não busca o consentimento nem o elogio, mas que se esforça por ser uma presença humilde e construtiva, na fidelidade aos ensinamentos de Jesus que veio ao mundo não para ser servido, mas para servir. E há tanta necessidade desta atitude!

A segunda imagem que Jesus propõe aos seus discípulos é a da luz: «Vós sois a luz do mundo». A luz dissipa a escuridão e permite ver. Jesus é a luz que dissipou as trevas, mas elas ainda permanecem no mundo e nas pessoas individualmente. É tarefa do cristão dispersá-las, fazendo resplandecer a luz de Cristo e anunciando o seu Evangelho. Trata-se de uma irradiação que pode derivar até das nossas palavras, mas deve brotar principalmente das nossas «boas obras» (v. 16). Um discípulo e uma comunidade cristã são luz no mundo quando orientam os outros para Deus, ajudando cada um a experimentar a sua bondade e misericórdia. O discípulo de Jesus é luz quando sabe viver a sua fé fora dos espaços restritos, quando contribui para eliminar preconceitos, para eliminar calúnias e para fazer entrar a luz da verdade nas situações corrompidas pela hipocrisia e pela mentira. Fazer luz. Mas não se trata da minha luz, é a luz de Jesus: nós somos instrumentos para que a luz de Jesus chegue a todos.

 Jesus convida-nos a não ter medo de viver no mundo, embora às vezes nele haja condições de conflito e de pecado. Diante da violência, da injustiça e da opressão, o cristão não pode fechar-se em si mesmo, nem esconder-se na segurança do próprio espaço; nem sequer a Igreja pode fechar-se em si mesma, não pode abandonar a sua missão de evangelização e de serviço. Na Última Ceia Jesus pediu ao Pai para não tirar os discípulos do mundo, para os deixar aqui, no mundo, mas para os proteger contra o espírito do mundo. A Igreja dedica-se com generosidade e ternura aos pequeninos e aos pobres: este não é o espírito do mundo, esta é a sua luz, é o sal. A Igreja escuta o grito dos últimos e dos excluídos, porque está consciente de que é uma comunidade peregrina, chamada a prolongar na história a presença salvífica de Jesus Cristo.

Que a Virgem Santa nos ajude a ser sal e luz no meio do povo, levando a todos, com a vida e a palavra, a Boa Nova do amor de Deus.

Papa Francisco
(Angelus, 9 de fevereiro de 2020)