sábado, 9 de maio de 2026

DOMINGO VI DA PÁSCOA

Os textos da liturgia de hoje dão continuidade aos de domingo passado, centrando-nos no essencial da nossa fé: Deus-Trindade – em que o Pai se dá totalmente ao Filho e o Filho totalmente ao Pai, sendo a relação de ambos o próprio Espírito Santo, plenitude de entrega recíproca”.  Hoje somos conduzidos por Jesus através dos ensinamentos que nos deixou nas suas palavras de despedida, na Última Ceia com os discípulos.

Na 1ªleitura (Atos 8, 5-8.14-17) vemos como o Espírito Santo age em Filipe que leva o anúncio de Jesus, o Messias, aos habitantes da Samaria. O testemunho de Filipe, na sua fidelidade ao Espírito Santo, foi essencial, para que os samaritanos pudessem, também eles, aderir a Jesus Ressuscitado e receber o Espírito Santo.

“Naqueles dias, Filipe desceu a uma cidade da Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente. As multidões aderiam unanimemente às palavras de Filipe, ao ouvi-las e ao ver os milagres que fazia. De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados. E houve muita alegria naquela cidade. Quando os Apóstolos que estavam em Jerusalém ouviram dizer que a Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. Quando chegaram lá, rezaram pelos samaritanos, para que recebessem o Espírito Santo, que ainda não tinha descido sobre eles: só estavam batizados em nome do Senhor Jesus. Então impunham-lhes as mãos e eles recebiam o Espírito Santo.”

Na 2ª leitura (1 Pedro 3, 15-18) é S.Pedro quem continua a demonstrar-nos, através do seu testemunho, o quanto o Espírito Santo pode transformar um coração. O apóstolo desafia-nos a sermos, também nós, hoje, testemunhas do Amor de Deus, não impondo nada a ninguém, antes respeitando a natureza de cada um, mas, ao mesmo tempo, deixando que o Espírito Santo, através do nosso testemunho, junto dos que privam connosco, no dia a dia da vida, chegue ao coração dos que O buscam de verdade.

“Caríssimos: Venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança. Mas seja com brandura e respeito, conservando uma boa consciência, para que, naquilo mesmo em que fordes caluniados, sejam confundidos os que dizem mal do vosso bom procedimento em Cristo. Mais vale padecer por fazer o bem, se for essa a vontade de Deus, do que por fazer o mal. Na verdade, Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados – o Justo pelos injustos – para nos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito.”


No evangelho (Jo 14, 15-21) o discurso de despedida de Jesus, que S.João nos transmite, é um tesouro precioso, pois revela-nos até onde vai o Amor de Deus por cada um de nós: ”E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco”.

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco: Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis. Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós. Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

Vem, Espírito Santo, habita-me, inunda o meu coração e faz de mim verdadeira testemunha do Amor de Deus.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho de hoje, sexto domingo da Páscoa, fala-nos do Espírito Santo, a quem Jesus chama Paráclito (cf. Jo 14, 15-17)Paráclito é uma palavra que vem do grego e significa, ao mesmo tempo, consolador e advogado. Isto é, o Espírito Santo nunca nos deixa sozinhos, está ao nosso lado, como um advogado que assiste o réu, estando ao seu lado. E sugere-nos a forma de nos defendermos perante aqueles que nos acusam. Lembremo-nos de que o grande acusador é sempre o demónio, que coloca os pecados dentro de nós, o desejo de pecar, a maldade. Reflitamos sobre estes dois aspetos: a sua proximidade a nós e a sua ajuda contra aqueles que nos acusam.

A sua proximidade: o Espírito Santo, diz Jesus, «permanece convosco e está em vós» (cf. v. 17). Nunca nos abandona. O Espírito Santo quer estar connosco: não é um hóspede de passagem que vem fazer-nos uma visita de cortesia. É um companheiro de vida, uma presença estável, é Espírito e deseja habitar no nosso espírito. É paciente e fica connosco inclusive quando caímos. Fica porque nos ama verdadeiramente: não finge que nos ama e depois deixa-nos sozinhos nas dificuldades. Não. É leal, é transparente, é autêntico.

Aliás, quando nos encontramos na provação, o Espírito Santo consola-nos, trazendo-nos o perdão e a força de Deus. E quando nos confronta com os nossos erros e nos corrige, fá-lo com gentileza: na sua voz que fala ao coração há sempre o timbre da ternura e o calor do amor. Certamente, o Espírito Paráclito é exigente, porque é um amigo verdadeiro, fiel, que nada esconde, que nos sugere o que mudar e como crescer. Mas, quando nos corrige, nunca nos humilha nem infunde desconfiança; ao contrário, transmite-nos a certeza de que com Deus podemos vencer, sempre. Esta é a sua proximidade. É uma bonita certeza!

Segundo aspeto, o Espírito Paráclito, é o nosso advogado e defende-nos. Defende-nos diante daqueles que nos acusam: diante de nós mesmos, quando não nos amamos e não nos perdoamos, até ao ponto de nos dizer que somos fracassados e inúteis; diante do mundo, que descarta quem não corresponde aos seus esquemas e modelos; diante do demónio, que é por excelência o “acusador” e o divisor (cf. Ap 12, 10) e faz de tudo para que nos sintamos incapazes e infelizes.

Perante todos estes pensamentos acusadores, o Espírito Santo sugere-nos como devemos reagir. De que modo? O Paráclito é Aquele que «nos recorda tudo o que Jesus nos disse» (cf. Jo 14, 26). Por isso, recorda-nos as palavras do Evangelho e permite que respondamos ao demónio acusador não com as nossas palavras, mas com as palavras do Senhor. Sobretudo, recorda-nos que Jesus falou sempre do Pai que está nos céus, fez com que o conhecêssemos e revelou-nos o seu amor por nós, que somos seus filhos. Se invocarmos o Espírito, aprendemos a acolher e a recordar a realidade mais importante da vida, que nos protege das acusações do mal. E qual é essa realidade mais importante da vida? O facto de sermos filhos amados de Deus. Somos filhos amados de Deus: esta é a realidade mais importante, e o Espírito recorda-nos isso.

Irmãos e irmãs, perguntemo-nos hoje: invocamos o Espírito Santo, rezamos-Lhe com frequência? Não nos esqueçamos d’Aquele que está perto de nós, aliás, dentro de nós! E depois, escutamos a sua voz, quando nos encoraja e quando nos corrige? Respondemos com as palavras de Jesus às acusações do mal, aos “tribunais” da vida? Lembramo-nos de que somos filhos amados de Deus? Que Maria nos torne dóceis à voz do Espírito Santo e sensíveis à sua presença.

Papa Francisco
(Regina Caeli - 14 de maio de 2023)

Semana da Vida

À imagem e semelhança de Deus – Trindade! (II) - Pe Manuel Armindo Janeiro - Facebook

Com o II Concílio do Vaticano e o movimento de renovação que o precedeu e acompanhou, o mistério fundamental da fé cristã, Deus – Trindade Santíssima, recuperou o lugar central na vida e missão da Igreja.  

Se até então parecia distante – isolado em tratados teológicos, profissões de fé e celebrações litúrgicas -, sem incidência prática na vida eclesial e pessoal, com o IIº Concílio do Vaticano o mistério de Deus – Trindade Santíssima tornou-se, por assim dizer, acessível e íntimo a cada fiel.  

É a partir dele que a Igreja se vai repensar e reorganizar, descobrindo nova luz para uma compreensão mais profunda do seu ser, tal como ficou patente na constituição dogmática Lumen Gentium onde, no primeiro capítulo, Deus – Trindade é apresentado como raiz e fonte do Mistério da Igreja e, no segundo capítulo, esta é definida como Povo de Deus, articulando e moldando as suas relações à imagem e semelhança do rosto trinitário de Deus.

De facto, somos batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; a liturgia da Igreja dirige-se ao Pai pelo Filho no Espírito Santo; a teologia, nas suas diferentes áreas, passou a dar justa relevância ao mistério central da nossa fé; e a Igreja iniciou um processo de renovação, a começar pela sua própria conceção, cujo impulso e dinamismo continua a produzir frutos, sendo o caminho sinodal, proposto pelo Papa Francisco, um dos últimos e mais importantes.  

A Igreja procede e participa do mistério e da vida da Trindade Santíssima e tem como missão ser ícone, isto é, ser Sua imagem e presença num mundo dilacerado por discórdias, ódios e violência. Através dela, pela ação do Filho e do Espírito Santo – as duas mãos de Deus Pai, no dizer de Santo Ireneu –, a Santíssima Trindade torna-se próxima de todos nós e atrai-nos para Si a fim de vivermos ao ritmo do Seu dinamismo de amor e doação, cuidando uns dos outros e procurando que cada um cresça à medida da estatura completa de Cristo (Ef 4,13). 

Viver imersos no mistério trinitário de Deus significa aprender a ser ponte, a saber ser amparo e suporte; significa fazer acontecer a fraternidade e ajudar a curar e a restaurar relações, superando ressentimentos, intolerâncias e vinganças; significa ser capaz de harmonizar igualdade com diferença, a pessoa com a comunidade, o particular com o universal. 

Esta experiência íntima e sublime, pessoal e comunitária de Deus – Trindade Santíssima, que se dá na contemplação e na ação, permite-nos descobrir a Sua presença em tudo e em todos, convertendo-nos em construtores da paz, em habitantes comprometidos da Casa Comum e cuidadores das suas criaturas. 

Talvez se possa vislumbrar no resgate teológico, eclesial e espiritual da dimensão trinitária do Mistério de Deus do nosso tempo e sua vivência no quotidiano, o caminho profético apontado por Karl Rahner no pós-Concílio, ao afirmar: “o cristão do século XXI ou será místico ou não será cristão”.

Nicolai Berdaieff, político cristão russo, dizia quando o interpelavam sobre o seu programa e respetivo quadro de valores: “O meu programa é a Santíssima Trindade, pois ela ensina-nos a salvaguardar a dignidade da pessoa e, ao mesmo tempo, a construir a comunidade humana no amor e na justiça”. Que este programa seja também o nosso!

sábado, 2 de maio de 2026

 DOMINGO V DA PÁSCOA

A liturgia deste domingo continua a vivência do grande dia da Páscoa de Jesus ressuscitado. As leituras de hoje, projetam-nos para o essencial da nossa fé, Jesus é um com o Pai. E é aí, na comunhão íntima e profundíssima de Jesus com o Pai, num Amor infinito e total, que Ele se nos vai revelando como o único caminho para o Pai. Deixemo-nos guiar por Ele.

Na 1ªleitura (Atos 6,1-7) apercebemo-nos de que também as primeiras comunidades tiveram os seus problemas internos. No entanto o que mais nos desafia e cativa é a forma como resolviam os seus conflitos, ou vicissitudes, sempre numa grande docilidade ao Espírito Santo para decidirem e, assim, serem fiéis ao seu Senhor  e mestre, Jesus ressuscitado. 

“Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, os helenistas começaram a murmurar contra os hebreus, porque no serviço diário não se fazia caso das suas viúvas. Então os Doze convocaram a assembleia dos discípulos e disseram: «Não convém que deixemos de pregar a palavra de Deus, para servirmos às mesas. Escolhei entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para lhes confiarmos esse cargo. Quanto a nós, vamos dedicar-nos totalmente à oração e ao ministério da palavra». A proposta agradou a toda a assembleia; e escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos Apóstolos e estes oraram e impuseram as mãos sobre eles. A palavra de Deus ia-se divulgando cada vez mais; o número dos discípulos aumentava consideravelmente em Jerusalém e obedecia à fé também grande número de sacerdotes.”


Na segunda leitura (1 Pedro 2, 4-9) S.Pedro centra-nos na pedra viva da Igreja, na pedra angular que os construtores rejeitaram: Jesus Cristo. Nós todos, cada um com os dons que Deus lhe deu, é uma pedra viva que faz parte e é necessária, mas só se Jesus for a nossa razão de ser e existir, a  raiz e o fundamento da nossa vida.

“Caríssimos: Aproximai-vos do Senhor, que é a pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual, para constituirdes um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso se lê na Escritura: «Vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa; e quem nela puser a sua confiança não será confundido». Honra, portanto, a vós que acreditais. Para os incrédulos, porém, «a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular», «pedra de tropeço e pedra de escândalo». Tropeçaram por não acreditarem na palavra, pois foram para isso destinados. Vós, porém, sois «geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para anunciar os louvores» d’Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável.”

No evangelho (Jo 14, 1-12) S.João revela, no diálogo que nos traz hoje, Jesus e a Sua relação de Amor com o Pai, numa comunhão tão profunda, tão total e infinita, que como diz a Filipe, quem O vê, vê o Pai. E, melhor ainda, é o próprio Jesus quem nos diz que é o Caminho para o Pai. Se temos dúvidas, ao menos acreditemos nas Suas obras.

«Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. Em casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, Eu vos teria dito que vou preparar-vos um lugar? Quando Eu for preparar-vos um lugar, virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também. Para onde Eu vou, conheceis o caminho». Disse-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?». Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». Disse-Lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta». Respondeu-lhe Jesus: «Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheces, Filipe? Quem Me vê, vê o Pai. Como podes tu dizer: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio; mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras. Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; acreditai ao menos pelas minhas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fará obras ainda maiores, porque Eu vou para o Pai».

Senhor, eu creio que é Jesus, o Filho de Deus feito homem, que ressuscitou dos mortos, um com o Pai. Aleluia!

Queridos irmãos e irmãs,

O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Revelação Divina Dei Verbum, afirma que a verdade íntima de toda a Revelação de Deus resplandece para nós «em Cristo, que é o mediador e ao mesmo tempo a plenitude de toda a Revelação» (n. 2). O Antigo Testamento narra-nos como Deus, depois da criação, não obstante o pecado original e apesar da arrogância do homem ao querer colocar-se no lugar do seu Criador, oferece de novo a possibilidade da sua amizade, sobretudo através da aliança com Abraão, e caminho de um pequeno povo, o povo de Israel, que Ele escolhe não com critérios de poder, mas simplesmente por amor. É uma escolha que permanece um mistério e revela o estilo de Deus, que chama alguns não para excluir os outros, mas para que sirvam de ponte conduzindo para Ele: escolha é sempre eleição pelo outro. Na história do povo de Israel podemos voltar a percorrer as etapas de um longo caminho em que Deus se faz conhecer, se revela e entra na história com palavras e ações. Para esta obra Ele serve-se de mediadores, como Moisés, os Profetas e os Juízes, que comunicam ao povo a sua vontade, recordam a exigência de fidelidade à aliança e mantêm viva a expetativa da realização plena e definitiva das promessas divinas.

E foi precisamente o cumprimento destas promessas que pudemos contemplar no Santo Natal: a Revelação de Deus alcança o seu ápice, a sua plenitude. Em Jesus de Nazaré, Deus visita realmente o seu povo, visita a humanidade de um modo que vai além de todas as expetativas: envia o seu Único Filho; o próprio Deus faz-se homem. Jesus não nos diz algo de Deus, não fala simplesmente do Pai, mas é Revelação de Deus, porque é Deus, e assim revela-nos o rosto de Deus. No Prólogo do seu Evangelho, são João escreve: «Ninguém nunca viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem O revelou» (Jo 1, 18).

Gostaria de meditar sobre este «revelar o rosto de Deus». A este propósito são João, no seu Evangelho, recorda-nos um acontecimento significativo que há pouco ouvimos. Aproximando-se da Paixão, Jesus tranquiliza os seus discípulos, convidando-os a não ter medo e a ter fé; depois, instaura um diálogo com eles, no qual fala de Deus Pai (cf. Jo 14, 2-9). Numa certa altura, o apóstolo Filipe pede a Jesus: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso basta-nos» (Jo 14, 8). Filipe é muito prático e concreto, e diz também o que nós desejamos dizer: «Queremos ver, mostra-nos o Pai», pede para «ver» o Pai, para ver o seu rosto. A resposta de Jesus não se dirige apenas a Filipe, mas também a nós, e introduz-nos no coração da fé cristológica; o Senhor afirma: «Aquele que me viu, viu também o Pai» (Jo 14, 9). Nesta expressão encerra-se sinteticamente a novidade do Novo Testamento, aquela novidade que apareceu na gruta de Belém: é possível ver Deus, Deus manifestou o seu rosto, é visível em Jesus Cristo.

Em todo o Antigo Testamento está bem presente o tema da «procura do rosto de Deus», o desejo de conhecer esta face, o desejo de ver Deus como Ele é, a tal ponto que o termo hebraico pānîm, que significa «rosto», aparece 400 vezes, das quais 100 se referem a Deus: refere-se a Deus 100 vezes, deseja-se ver o rosto de Deus. E no entanto, a religião judaica proíbe totalmente as imagens, porque Deus não pode ser representado, como ao contrário faziam os povos vizinhos, com a adoração dos ídolos; por conseguinte, com esta proibição de imagens, o Antigo Testamento parece excluir totalmente o «ver» do culto e da piedade. Então, o que significa para o israelita piedoso procurar o rosto de Deus, na consciência de que não pode haver qualquer imagem sua? A pergunta é importante: por um lado, deseja-se dizer que Deus não pode ser reduzido a um objeto, como uma imagem que se toma nas mãos, mas também não se pode pôr algo no lugar de Deus; por outro lado, contudo, afirma-se que Deus tem um rosto, ou seja que é um «Tu» que pode entrar em relação, que não está fechado no seu Céu a olhar do alto a humanidade. Sem dúvida, Deus está acima de todas as coisas, mas dirige-se a nós, ouve-nos, vê-nos, fala-nos, faz uma aliança e é capaz de amar. A história da salvação é a história de Deus com a humanidade, é a história desta relação de Deus que se revela progressivamente ao homem, que se faz conhecer a si mesmo, o seu rosto.

Precisamente no início do ano, no dia 1 de Janeiro, ouvimos na liturgia a linda prece de bênção sobre o povo: «O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor te mostre a sua face e te conceda a sua graça! O Senhor dirija o seu rosto para ti e te dê a paz!» (Nm 6, 24-26). O esplendor do rosto divino é a fonte da vida, é aquilo que permite ver a realidade; a luz da sua face é a guia da vida. No Antigo Testamento existe uma figura à qual está ligado de modo totalmente especial o tema do «rosto de Deus»; trata-se de Moisés, Aquele que Deus escolhe para libertar o povo da escravidão do Egito, para lhe confiar a Lei da aliança e para o guiar rumo à Terra prometida. Pois bem, no capítulo 33 do Livro do Êxodo afirma-se que Moisés tinha uma relação estreita e confidencial com Deus: «O Senhor entretinha-se com Moisés face a face, como um homem que fala com o seu amigo» (v. 11). Em virtude desta confidência, Moisés pede a Deus: «Mostrai-me a vossa glória!», e a resposta de Deus é clara: «Farei passar diante de ti todo o meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o nome do Senhor... Mas não poderás ver a minha face, pois o homem não me poderia ver e continuar a viver... Eis um lugar perto de mim... ver-me-ás só de costas. Quanto à minha face, ela não pode ser vista» (vv. 18-23). Então, por um lado há o diálogo face a face como entre amigos, mas por outro há a impossibilidade de ver nesta vida o rosto de Deus, que permanece escondido; a visão é limitada. Os Padres afirmam que estas palavras, «ver-me-ás só de costas», querem dizer: só podes seguir Cristo e, seguindo-o, vês de costas o mistério de Deus; Deus só pode ser seguindo vendo-o de costas.

Porém, mediante a Encarnação acontece algo completamente novo. A busca do rosto de Deus passa por uma transformação inimaginável, porque agora é possível ver este rosto: é o rosto de Jesus, do Filho de Deus que se faz homem. Nele encontra cumprimento o caminho de Revelação de Deus, encetado com a chamada de Abraão, Ele é a plenitude desta Revelação porque é o Filho de Deus e, ao mesmo tempo, «mediador e plenitude de toda a Revelação» (Constituição dogmática Dei Verbum, 2), e nele o conteúdo da Revelação e o Revelador coincidem. Jesus mostra-nos o rosto de Deus e faz-nos conhecer o nome de Deus. Na Oração sacerdotal, na Última Ceia, Ele diz ao Pai: «Manifestei o teu nome aos homens... Manifestei-lhes o teu nome» (cf. Jo 17, 6.26). A expressão «nome de Deus» significa Deus como Aquele que está presente no meio dos homens. A Moisés, junto da sarça ardente, Deus tinha revelado o seu nome, ou seja, tornou-se invocável, lançou um sinal concreto do seu «estar» no meio dos homens. Tudo isto, em Jesus, tem o seu cumprimento e plenitude: Ele inaugura de um modo novo a presença de Deus na história, pois quem O vê, vê o Pai, como diz a Filipe (cf. Jo 14, 9). O Cristianismo — afirma são Bernardo — é a «religião da Palavra de Deus»; e não de «uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo» (Hom. super missus est, IV, 11: PL 183, 86b). Na tradição patrística e medieval utiliza-se uma fórmula particular para expressar esta realidade: afirma-se que Jesus é o Verbum abbreviatum (cf. Rm 9, 28, com referência a Is 10, 23), o Verbo abreviado, a Palavra breve, abreviada e substancial do Pai, que nos disse tudo dele. Em Jesus, toda a Palavra está presente.

Em Jesus, também a mediação entre Deus e o homem encontra a sua plenitude. No Antigo Testamento existe um exército de figuras que desempenharam esta função, de modo particular Moisés, o libertador, o guia, o «mediador» da aliança, como o define também o Novo Testamento (cf. Gl 3, 19; Act 7, 35; Jo 1, 17). Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não é simplesmente um dos mediadores entre Deus e o homem, mas é «o Mediador» da nova e eterna aliança (cf. Hb 8, 6; 9, 15; 12, 24); «Porque há um só Deus — diz são Paulo — e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem» (1 Tm 2, 5; cf. Gl 3, 19-20). N'Ele nós vemos e encontramos o Pai; n'Ele podemos invocar Deus com o nome de «Abá, Pai»; n'Ele é-nos conferida a salvação.

O desejo de conhecer Deus realmente, ou seja, de ver o rosto de Deus, está ínsito em cada homem, inclusive nos ateus. E nós talvez tenhamos, de modo inconsciente, este desejo de ver simplesmente quem Ele é, o que Ele é, quem é Ele para nós. Mas este desejo só se realiza seguindo Cristo, porque assim O vemos de costas e enfim vemos também Deus como amigo, a sua face no rosto de Cristo. O importante é que sigamos Cristo não apenas no momento em que temos necessidade, e quando encontramos um espaço nas nossas ocupações diárias, mas com toda a nossa vida enquanto tal. Toda a nossa existência deve ser orientada para o encontro com Jesus Cristo, para o amor por Ele; e, nela, um lugar central deve ser ocupado também pelo amor ao próximo, aquele amor que, à luz do Crucificado, nos faz reconhecer o rosto de Jesus no pobre, no frágil e no sofredor. Isto só é possível se o verdadeiro rosto de Jesus se tornar familiar para nós na escuta da Sua Palavra, no falar interiormente, no entrar nesta Palavra, de maneira que deveras O encontremos, e naturalmente no Mistério da Eucaristia. No Evangelho de são Lucas é significativo o trecho dos dois discípulos de Emaús, que reconhecem Jesus na fracção do pão, mas preparados pelo caminho com Ele, preparados pelo convite que lhe apresentaram, de permanecer com eles, preparados pelo diálogo que fez arder o peito deles; assim, no final, eles veem Jesus. Também para nós a Eucaristia é a grande escola na qual aprendemos a ver o rosto de Deus, entramos em relação íntima com Ele; e aprendemos, ao mesmo tempo, a dirigir o olhar para o momento derradeiro da história, quando Ele nos saciar com a luz do seu rosto. Na terra, nós caminhamos rumo a esta plenitude, na expetativa jubilosa de que se cumpra realmente o Reino de Deus. Obrigado!

Papa Bento XVI
(Audiência Geral - 16 de janeiro de 2013)

À imagem e semelhança de Deus - Trindade! (I) - Pe Manuel Armindo Janeiro - Facebook

De tão habituados que estamos em definir a nossa realidade partindo da afirmação do livro dos Géneses – “criados à imagem e semelhança de Deus” (1,26) – que nos esquecemos da novidade trazida pela revelação do mistério da vida íntima de Deus, manifestada na encarnação, morte e ressurreição de Jesus, a qual redefine a compreensão da nossa condição e relações humanas.

Herdeiros de uma visão estática do ser que via o movimento como imperfeição, só no último século foi possível desenvolver novas aproximações ao mistério de Deus-Trindade e começar a pensar de outro modo o fundamento das nossas relações e respectivas consequências.

O problema vem das origens, da dificuldade em articular o pensamento grego com a novidade que brota do pensar-se da fé cristã, impedindo, quer no primeiro quer no segundo milénios, uma visão mais ampla e dinâmica do mistério de Deus – Trindade Santíssima e das Suas relações com toda a Criação.  

Sendo o Mistério fundamental da nossa fé e tendo ficado na sombra a sua dimensão trinitária, este esquecimento empobreceu a compreensão da fé e teve consequências negativas para a vida da Igreja, para a relação dos cristãos entre si e com outras tradições religiosas, e para o diálogo com os dinamismos sociais e culturais das sociedades.  

No último século, a reflexão teológica viu na oferta pascal de Jesus – da Última Ceia à manhã da Ressurreição – o caminho para entrar no íntimo de Deus e contemplar o mistério das suas relações: naquela hora – a Sua –, Jesus mostrou-nos, para escândalo de uns e loucura de outros, como viveu e morreu: por amor. Um amor que quer que o outro seja (eu, tu, nós, a humanidade inteira!), mesmo à custa da Sua própria vida. Mais… Jesus permitiu-nos intuir como é Deus-Trindade Santíssima em Si mesmo: mistério de amor em total e recíproca doação!

Tudo o que Ele disse e fez tem a sua raiz no Deus-Trindade – em que o Pai se dá totalmente ao Filho e o Filho totalmente ao Pai, sendo a relação de ambos o próprio Espírito Santo, plenitude de entrega recíproca –, concebido, não no seu carácter estático, mas como dom contínuo, como fogo devorador, como dedicação incondicional, para que também o outro (cada um de nós…) viva e seja divino. Jesus, na cruz, ao dar a sua vida por nós, não foi pura contingência histórica, mas antes expressão divina de amor que atrai e dá vida e vida em abundância! 

Que significa isto para a imagem do homem? É o que nos diz, em síntese, a expressão: «O homem encontra-se a si próprio no dom de si mesmo.» Corresponde, por isso, à vida de tantos santos e mártires que abandonaram o próprio interesse e vantagens pessoais para servir a Deus e aos irmãos. É deste mesmo espírito que nos fala o convite de Jesus: «Vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois vem e segue-me» (Mt 19,21). 

Há, portanto, uma misteriosa correspondência entre o ser íntimo de Deus, que é puro dom e vontade de dar lugar ao outro, e tudo aquilo que aqui na Terra se pode dizer sobre a caridade como plenitude da lei. Por isso, quanto mais penetrarmos na contemplação do mistério de Deus – Trindade, mais conheceremos o mistério do homem e vice-versa: esta feliz reciprocidade cumprir-se-á plenamente no Céu e dela viveremos eternamente. Que comece já aqui!…