sábado, 3 de outubro de 2026

 DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM

Neste domingo a temática da vinha mantém-se, mas surge numa perspetiva diferente, pois o Senhor mostra-nos até onde vai o Seu amor pela vinha, que somos nós. Deus espera que O reconheçamos e a Ele nos entreguemos na totalidade do nosso ser, de forma a produzirmos “boas uvas”.

Na 1ªleitura (Is 5, 1-7) o profeta Isaías apresenta-nos O Senhor a cuidar com todo o carinho do Seu povo, que lhe responde com infidelidades e traições. 

“Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha. O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços. E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e a minha vinha: Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?” 

Como respondemos nós, hoje,  ao Amor que Deus nos tem?

Para que não tenhamos dúvidas, S. Paulo, na 2ªleitura (Filip 4, 6-9)  diz-nos o que se espera de nós, como resposta ao Amor de Deus. Escutemo-lo de coração sincero e façamos o que nos propõe. 

“Irmãos: Não vos inquieteis com coisa alguma. Mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim é o que deveis praticar. E o Deus da paz estará convosco.”

No Evangelho (Mt 21, 33-43) é próprio Jesus que nos conta uma nova parábola sobre a vinha. E nela fala-nos do profundo amor de Deus por todos os homens, a ponto de enviar o Seu próprio Filho pela salvação da humanidade. Quanto nos amas Senhor! Ninguém pode ficar indiferente perante a manifestação do Amor de Deus! 

“Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».”

Senhor, que eu me deixe amar por Ti, na totalidade do meu ser.

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje o Evangelho apresenta-nos uma parábola dramática, com um epílogo triste (cf. Mt 21, 33-43). O proprietário de um terreno plantou ali uma vinha e cuidou bem dela; depois, tendo de partir, confia-a a alguns camponeses. Na altura da colheita, manda os seus servos fazer a colheita. Mas os camponeses maltratam-nos e matam-nos; depois o dono manda o seu filho, e também o matam. Porquê? O que é que correu mal? Há uma mensagem de Jesus nesta parábola.

O dono faz tudo bem, com amor: trabalha ele próprio, planta a vinha, rodeia-a com uma sebe para a proteger, cava um buraco para o lagar e constrói uma torre de vigia (cf. v. 33). Em seguida, confia a vinha a agricultores, alugando-lhes a sua preciosa propriedade e tratando-os assim com equidade, para que a vinha seja bem cultivada e dê fruto. Tendo em conta estas premissas, a vindima deveria terminar de forma feliz, num ambiente de festa, com uma partilha justa da colheita, para satisfação de todos.

Em vez disso, pensamentos ingratos e ávidos insinuaram-se no espírito dos agricultores. Vede que, na origem dos conflitos, há sempre pensamentos de ingratidão e de avidez, de posse imediata de coisas. “Não precisamos de dar nada ao patrão. O produto do nosso trabalho é só nosso. Não temos de prestar contas a ninguém”! Assim é o discurso desses trabalhadores. E isso não é verdade: deviam estar gratos pelo que receberam e pela forma como foram tratados. Pelo contrário, a ingratidão alimenta a avidez e cresce neles um progressivo sentimento de revolta, que os leva a ver a realidade de uma forma distorcida, a sentirem-se em crédito e não em dívida para com o dono que lhes deu trabalho. Quando veem o filho, chegam até a dizer: «Este é o herdeiro. Matemo-lo, e ficaremos com a sua herança»! (v. 38). E, de agricultores, tornam-se assassinos. É tudo um processo. E este processo acontece muitas vezes no coração das pessoas, também no nosso coração.

Com esta parábola, Jesus recorda-nos o que acontece quando o homem se ilude é autossuficiente e esquece a gratidão, esquece a realidade fundamental da vida: que o bem vem da graça de Deus, que o bem vem do seu dom gratuito. Quando se esquece disto, da gratuidade de Deus, acaba por viver a própria condição e a própria limitação já não com a alegria de se sentir amado e salvo, mas com a triste ilusão de não precisar nem de amor nem de salvação. Não nos deixamos amar e ficamos prisioneiros da própria avidez, prisioneiros da necessidade de ter algo mais do que os outros, de querer sobressair sobre os outros. É feio, este processo, e acontece-nos muitas vezes. Pensemos seriamente nisto. Daí nascem tantas insatisfações e recriminações, tantas incompreensões e tanta inveja; e, movidos pelo ressentimento, podemos precipitar-nos no vórtice da violência. Sim, queridos irmãos e irmãs, a ingratidão gera violência, tira-nos a paz e faz-nos ouvir e falar aos gritos, sem paz, enquanto um simples “obrigado” pode trazer a paz!

Perguntemo-nos então: tenho consciência de que recebi a vida e a fé como um dom? Apercebo-me de que eu mesmo, eu mesma sou um dom? Tenho consciência de que tudo começa com a graça do Senhor? Apercebo-me de que sou beneficiado sem mérito, amado e salvo gratuitamente? E, sobretudo, em resposta à graça, sei dizer “obrigado”? Sei dizer “obrigado”? As três palavras que são o segredo da convivência humana: obrigado, com licença, perdão. Será que sei dizer estas três palavras? Obrigado, com licença, perdão, desculpa. Sei como dizer estas três palavras? É uma pequena palavra, “obrigado” - é uma pequena palavra, “com licença”, é uma pequena palavra, “perdão” - esperada todos os dias de Deus e dos irmãos. Perguntemo-nos se esta pequena palavra, “obrigado”, “com licença”, “perdão, desculpa”, está presente na nossa vida. Sei agradecer, sei dizer “obrigado”? Sei pedir desculpa, perdão? Sei como não ser intrusivo – “com licença”? Obrigado, perdão, com licença.

Que Maria, cuja alma enaltece o Senhor, nos ajude a fazer da gratidão a luz que nasce todos os dias do coração.

Papa Francisco
(Angelus , 8 de outubro de 2023)

sábado, 26 de setembro de 2026

  XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM

O Senhor continua na Sua vinha. Hoje, vem até nós e dirige-nos um pedido especial “Filho, vai hoje trabalhar na vinha”. Cabe a cada um dar-Lhe a sua resposta: sim, sim; não, não. Mais do que as palavras, o que interessa verdadeiramente é fazer a Sua vontade, nada mais é necessário.

Na 1ªleitura (Ez 18, 25-28)   Ezequiel continua, na linha das leituras dos últimos domingos, a revelar-nos Deus como o único justo, como Aquele que vai sempre mais além, quando se trata de nos amar. A medida da justiça de Deus é o Seu Amor infinito por todo e cada ser, hoje e sempre, para além do tempo e do espaço. 

“Eis o que diz o Senhor: «Vós dizeis: ‘A maneira de proceder do Senhor não é justa’. Escutai, casa de Israel: Será a minha maneira de proceder que não é justa? Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto? Quando o justo se afastar da justiça, praticar o mal e vier a morrer, morrerá por causa do mal cometido. Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida. Se abrir os seus olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, há de viver e não morrerá».”

S.Paulo, na 2ªleitura (Filip 2, 1-11)  exorta-nos a amar os nossos irmãos, tendo como expoente o Amor de Jesus Cristo por cada um de nós. Deixemo-nos amar totalmente por Jesus, entreguemo-nos de coração e seremos elos na cadeia de transmissão do Seu Amor, por este mundo além.

“Irmãos: Se há em Cristo alguma consolação, algum conforto na caridade, se existe alguma comunhão no Espírito, alguns sentimentos de ternura e misericórdia, então completai a minha alegria, tendo entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade, numa só alma e num só coração. Não façais nada por rivalidade nem por vanglória; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós mesmos, sem olhar cada um aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros. Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus. Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.”

No Evangelho (Mt 21, 28-32) o Senhor Jesus conta-nos uma parábola em que nos desafia a colocarmo-nos totalmente nas mãos de Deus. Se Lhe dissermos sim, que a nossa palavra corresponda aos nossos atos, caso contrário, mais vale fazermos como o primeiro filho. 

“Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’. Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’. Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’. Mas de facto não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?». Eles responderam-Lhe: «O primeiro». Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus. João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele».” 

Senhor, que aprenda de Ti a dizer sim, por palavras, mas também de coração. Que, ainda que te diga não, mesmo nessas alturas, me coloque nas Tuas mãos e faça o que Tu queres de mim. 

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje o Evangelho fala de dois filhos, a quem o pai pede que vão trabalhar na vinha (cf. Mt 21, 28-32). Um deles responde imediatamente “sim”, mas depois não vai. O outro, pelo contrário, diz que não, mas depois arrepende-se e vai.

O que dizer destes dois comportamentos? Pensa-se imediatamente que ir trabalhar na vinha requer sacrifício, e que o sacrifício custa e não é espontâneo, mesmo na beleza de saber que somos filhos e herdeiros. Mas o problema aqui não está tão ligado à resistência a ir trabalhar na vinha, mas à sinceridade ou não diante do pai e de si próprio. Com efeito, na realidade nenhum dos dois filhos se comporta corretamente, o primeiro mente, enquanto que o outro erra mas é sincero.

Vejamos o caso do filho que diz “sim” mas depois não vai. Ele não quer fazer a vontade do pai, mas também não quer discutir e falar sobre isso. Por isso, esconde-se por detrás de um “sim”, de um falso assentimento, que esconde a sua preguiça e lhe salva a cara momentaneamente, é um hipócrita. Passa sem conflitos, mas engana e desilude o seu pai, desrespeitando-o de uma forma pior do que teria feito com um “não” direto. O problema de um homem que se comporta assim é que não é apenas um pecador, mas um corrupto, porque mente sem problemas para cobrir e disfarçar a sua desobediência, sem aceitar qualquer diálogo ou confronto honesto.

O outro filho, o que diz “não” mas vai, é sincero. Não é perfeito, mas é sincero. Claro que teríamos gostado de o ver dizer “sim” imediatamente. Não o faz, mas, pelo menos, manifesta diretamente e num certo sentido com coragem a sua relutância. Ou seja, assume a responsabilidade pelo seu comportamento e age à luz do dia. Depois, com esta honestidade básica, acaba por se questionar, por se aperceber de que estava errado e por retomar os seus passos. É, podemos dizer, um pecador, mas não um corrupto. Ouvi bem: é um pecador, mas não é um corrupto. E para o pecador há sempre uma esperança de redenção; para o corrupto, porém, é muito mais difícil. De facto, os seus falsos “sins”, as suas aparências elegantes mas hipócritas e os seus fingimentos que se tornaram hábitos são como uma espessa “parede de borracha”, atrás da qual ele se protege das chamadas de consciência. E estes hipócritas fazem tanto mal! Irmãos e irmãs, pecadores sim - todos o somos -, corruptos não! Pecadores sim, corruptos não!

Olhemos agora para nós próprios e, à luz de tudo isto, coloquemo-nos algumas questões. Perante o esforço de viver uma vida honesta e generosa, de me empenhar segundo a vontade do Pai, estou disposto a dizer “sim” todos os dias, mesmo que isso custe? E quando não consigo, sou sincero no confronto com Deus sobre as minhas dificuldades, as minhas quedas, as minhas fragilidades? E quando digo “não”, volto atrás? Falemos com o Senhor sobre isto. Quando cometo um erro, estou disposto a arrepender-me e a corrigir-me? Ou faço vista grossa e vivo com uma máscara, preocupando-me apenas de me mostrar uma boa pessoa e honesto? Em última análise, sou um pecador, como toda a gente, ou há algo de corrupto em mim? Não esqueçais: pecadores sim, corruptos não.

Maria, espelho de santidade, nos ajude a ser cristãos sinceros.

Papa Francisco
(Angelus , 1 de outubro de 2023)

sábado, 19 de setembro de 2026

DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM

Hoje as leituras colocam a fasquia a um nível muito alto. O desafio vai, à primeira vista, para além do que nos parece razoável. Na verdade, só quem se deixa habitar, totalmente, por Deus consegue aderir à proposta que o Senhor hoje nos faz: amar o outro, que é sempre imagem de Deus, seja ele trabalhador desde a primeira hora, ou apenas após a última hora. Para Deus não há diferença, pois todos são seus filhos queridíssimos, a quem ama sempre e infinitamente.

Isaías, na 1ªleitura (Is 55, 6-9), prepara-nos para a escuta do Evangelho. Como os nossos pensamentos, os nossos juízos, estão a miríades de distância dos de Deus! Quantas discussões travadas por causa do evangelho de hoje, sem conseguirmos chegar a acordo… Certezas de quem é jovem! Mas mesmo hoje, passados tantos anos, com tantos caminhos percorridos, com a cabeça já branca, ainda assim, continua a não ser fácil. Só Deus ama, mas n'Ele, por Jesus também nós podemos amar. Deixemo-nos fazer por Ele.

“Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar, invocai-O, enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos. Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele, ao nosso Deus, que é generoso em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus - oráculo do Senhor -. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os meus pensamentos.”

Na 2ª leitura (Filip 1, 20c-24.27a) o apóstolo prova-nos que é possível viver de Deus e apoiado só n'Ele, por Jesus Cristo, Seu Único Filho. O texto de hoje  , que S.Paulo nos deixou, é exemplo desta sua entrega total a Deus.

“Irmãos: Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva quer eu morra. Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Mas, se viver neste corpo mortal me permite um trabalho útil, não sei o que escolher. Sinto-me constrangido por este dilema: desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor; mas é mais necessário para vós que eu permaneça neste corpo mortal. Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo.”

No Evangelho (Mt 20, 1-16a ), Jesus conta-nos uma parábola que revela o quanto Deus ama cada um dos seus filhos, isto é, infinitamente. A medida do Amor de Deus não cabe no nossos esquemas, na nossa justiça, na nossa forma de tudo calcularmos e legislarmos. Deus vai muito para além de todos os nossos critérios. Deus é todo Amor e dá-se continuamente em Jesus Cristo, por cada um de nós. Assim, dá tudo, dá-se todo, tanto ao trabalhador da primeira hora, como ao da última. Fazer diferente seria contrariar a Sua Natureza. Deus é Amor sempre e para sempre, por todos e por cada uma das suas criaturas. Assim, a esta luz, a parábola faz todo o sentido. Bendito e louvado seja Deus pelo Amor que nos tem.

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um pro­prie­tário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizen­do: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primei­ros e os primeiros serão os últimos».” 

Senhor, que eu me deixe inundar, fazer por Ti, a cada momento e responda sempre ao Teu convite de amor. Louvado sejas hoje e sempre, pelos séculos sem fim.

Estimados irmãos e irmãs!

Desejo refletir novamente sobre uma parábola de Jesus. Também neste caso se trata de uma narração que alimenta a nossa esperança. Com efeito, às vezes temos a impressão de não conseguir encontrar um sentido para a nossa vida: sentimo-nos inúteis, inadequados, precisamente como os operários que aguardam na praça do mercado, à espera que alguém os leve para trabalhar. Mas por vezes o tempo passa, a vida corre, e não nos sentimos reconhecidos nem apreciados. Talvez não tenhamos chegado a tempo, talvez outros se tenham apresentado antes de nós, ou porventura as preocupações nos tenham detido noutro lugar.

A metáfora da praça do mercado é muito adequada até aos nossos tempos, pois o mercado é o lugar dos negócios, onde infelizmente as pessoas compram e vendem até o afeto e a dignidade, procurando obter algum lucro. E quando não se sentem valorizadas, reconhecidas, chegam a correr o risco de se vender ao primeiro licitante. Ao contrário, o Senhor recorda-nos que a nossa vida tem valor, e o seu desejo é ajudar-nos a descobri-lo.

Também na parábola que hoje comentamos, há operários que esperam que alguém os faça trabalhar por um dia. Estamos no capítulo 20 do Evangelho de Mateus e inclusive aqui encontramos uma figura que tem um comportamento insólito, que surpreende e questiona. É o dono de uma vinha que sai pessoalmente para ir em busca dos seus operários. Evidentemente, quer estabelecer uma relação pessoal com eles.

Como eu dizia, trata-se de uma parábola que infunde esperança, porque nos diz que este dono sai várias vezes à procura de quem espera dar um sentido à sua vida. O dono sai imediatamente de madrugada e depois, de três em três horas, volta a procurar trabalhadores para enviar à sua vinha. Seguindo este esquema, depois de sair às três horas da tarde, já não haveria razão para sair novamente, dado que o dia de trabalho terminava às seis horas.

Pelo contrário, este dono incansável, que quer valorizar a vida de cada um a todo o custo, sai também às cinco horas. Os trabalhadores que permaneceram na praça do mercado provavelmente tinham perdido toda a esperança. Aquele dia tinha sido em vão. E, no entanto, alguém ainda acreditou neles. Que sentido tem chamar operários só para a última hora do dia de trabalho? Que sentido tem ir trabalhar apenas uma hora? Contudo, até quando nos parece que podemos fazer pouco na vida, vale sempre a pena. Há sempre a possibilidade de encontrar um sentido, pois Deus ama a nossa vida! 

Eis que a originalidade deste dono se vê também no fim do dia, na hora do pagamento. Com os primeiros trabalhadores, aqueles que vão para a vinha de madrugada, o dono tinha estabelecido um denário, que era o custo típico de um dia de trabalho. Para os outros, diz que lhes dará o que for justo. E é precisamente aqui que a parábola volta a provocar-nos: o que é justo? Para o dono da vinha, isto é, para Deus, é justo que cada um tenha o necessário para viver. Ele chamou pessoalmente os trabalhadores, conhece a sua dignidade e quer pagar-lhes com base nela. E dá a todos um denário.

A história diz que os trabalhadores da primeira hora ficam desiludidos: não conseguem ver a beleza do gesto do dono, que não foi injusto, mas simplesmente generoso, não considerou apenas o mérito, mas também a necessidade. Deus quer dar a todos o seu Reino, ou seja, a vida plena, eterna e feliz. E é o que Jesus faz em relação a nós: não faz classificações, dá tudo de Si mesmo a quantos lhe abrem o coração!

À luz desta parábola, o cristão de hoje poderia ser tentado a pensar: “Por que começar a trabalhar imediatamente? Se a remuneração é a mesma, por que trabalhar mais?”. Santo Agostinho respondia assim a estas dúvidas: «Por que razão, pois, demoras em seguir quem te chama, enquanto estás certo da remuneração, mas incerto quanto ao dia? Presta atenção a não tirares de ti, devido à tua hesitação, o que ele te oferecer em conformidade com a sua promessa» (Discurso 87, 6, 8).

Gostaria de dizer, especialmente aos jovens, que não esperem, mas que respondam com entusiasmo ao Senhor que nos chama a trabalhar na sua vinha. Não demoreis, arregaçai as mangas, pois o Senhor é generoso e não ficareis desiludidos! Trabalhando na sua vinha, encontrareis a resposta àquela pergunta profunda que trazeis dentro de vós: qual é o sentido da minha vida?

Caros irmãos e irmãs, não desanimemos! Até nos momentos obscuros da vida, quando o tempo passa sem nos dar as respostas que procuramos, peçamos ao Senhor que volte a sair e nos alcance onde estamos à sua espera. O Senhor é generoso e virá em breve!

Papa Leão XIV
(Angelus , 4 de junho de 2025)

sábado, 12 de setembro de 2026

 DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM

As leituras deste domingo, a meu ver, estão na mesma linha (amor infinito de Deus por cada um de nós) dos textos da semana passada, mas numa sequência crescente. Se, então, éramos exortados a “corrigir os que erram”, hoje somos desafiados a ir muito mais longe, no caminho que nos leva a Jesus, perdoando totalmente (no amor divino) sempre, sempre, sempre e cada vez mais, os que connosco convivem, ou se cruzam nos caminhos da vida, tendo como meta o encontro, de cada um, com o amor infinito de Deus.

A 1ªleitura (Sir 27, 33 – 28, 9)  traz-nos um confronto, ou melhor, uma correlação entre o perdão de Deus e o perdão dos homens. Acredito sinceramente que só perdoamos verdadeiramente quem nos ofende, quando Deus, no nosso coração, ama a outra pessoa. Então, sim o perdão é verdadeiro e total, passa a ato de amor.

“O rancor e a ira são coisas detestáveis, e o pecador é mestre nelas. Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor, que pedirá minuciosa conta de seus pecados. Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas. Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus que o cure? Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados? Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor, quem lhe alcançará o perdão das suas faltas? Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos. Recorda os mandamentos e não tenhas rancor ao próximo; pensa na aliança do Altíssimo e não repares nas ofensas que te fazem.” 

Na 2ª leitura (Rom 14, 7-9) S. Paulo diz-nos que somos de Cristo e que só n’Ele seremos completamente felizes, porque a Ele pertencemos, uma vez que nos reconquistou para Deus.

“Irmãos: Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos.”

No evangelho (Mt 18, 21-35) Jesus, através de uma parábola, leva-nos a reconhecer o quanto Deus é misericordioso para connosco. Como Deus é diferente de nós. Deus só sabe amar! Nós, precisamos de aprender d’Ele a perdoar, a amar.

“Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:«Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».

Ensina-me Senhor a amar aqueles com quem convivo diariamente, mas também os que ocasionalmente pões no meu caminho.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje o Evangelho fala-nos de perdão (cf. Mt 18, 21-35). Pedro pergunta a Jesus: «Senhor, se o meu irmão me ofender quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» (v. 21).

Sete, na Bíblia, é um número que indica plenitude, e por isso Pedro é muito generoso nas hipóteses da sua pergunta. Mas Jesus vai mais longe e responde-lhe: «Não te digo sete vezes, mas setenta vezes sete» (v. 22). Diz-lhe, portanto, que quando se perdoa não se calcula, que é bom perdoar tudo e sempre! Tal como Deus faz connosco, e como são chamados a fazer aqueles que administram o perdão de Deus: perdoar sempre. Digo isto aos padres, aos confessores: perdoai sempre como Deus perdoa.

Jesus ilustra então esta realidade através de uma parábola, que tem sempre a ver com números. Um rei, depois de ter sido implorado, perdoa a um servo a dívida de 10.000 talentos: é um valor exagerado, imenso, que varia entre 200 e 500 toneladas de prata: exagerado. Era uma dívida impossível de saldar, mesmo trabalhando toda a vida: mas aquele senhor, que recorda o nosso Pai, perdoa-lhe por pura «compaixão» (v. 27). É assim o coração de Deus: perdoa sempre, porque Deus é compassivo. Não esqueçamos como é Deus: próximo, compassivo e terno; este é o modo de ser de Deus. Mas depois este servo, ao qual a dívida foi perdoada, não tem piedade de outro servo que lhe deve 100 denários. Também esta é uma soma substancial, equivalente a cerca de três meses de salário - como se quisesse dizer que perdoar uns aos outros tem um preço! - mas não é de modo algum comparável à quantia anterior, que o patrão tinha perdoado.

A mensagem de Jesus é clara: Deus perdoa incalculavelmente, ultrapassando todas as medidas. Ele é assim, age por amor e por gratuidade. Deus não pode ser comprado, Deus é gratuito, é todo gratuidade. Não podemos retribuir-lhe, mas quando perdoamos ao nosso irmão ou irmã, imitamo-lo. Perdoar não é, portanto, uma boa ação que se pode fazer ou deixar de fazer: perdoar é uma condição fundamental para quem é cristão. Cada um de nós, de facto, é um “perdoado” ou uma “perdoada”: não esqueçamos isto, nós somos perdoados, Deus deu a vida por nós e de modo algum podemos compensar a sua misericórdia, que ele nunca retira do coração. Mas, correspondendo à sua gratuidade, isto é, perdoando-nos uns aos outros, podemos dar testemunho dele, semeando vida nova à nossa volta. Porque fora do perdão não há esperança, fora do perdão não há paz. O perdão é o oxigénio que purifica o ar poluído pelo ódio, o perdão é o antídoto que cura os venenos do ressentimento, é o caminho para desarmar a raiva e curar tantas doenças do coração que contaminam a sociedade.

Perguntemo-nos então: acredito que recebi de Deus o dom de um perdão imenso? Sinto a alegria de saber que Ele está sempre pronto a perdoar-me quando peco, até quando os outros não o fazem, ou até quando nem eu próprio me consigo perdoar? Ele perdoa: acredito que Ele perdoa? E depois: sei perdoar, por minha vez, aqueles que me ofenderam? A este respeito, gostaria de vos propor um pequeno exercício: procuremos, agora, cada um de nós, pensar numa pessoa que nos ofendeu e peçamos ao Senhor a força para a perdoar. E perdoemo-la por amor ao Senhor: irmãos e irmãs, isso far-nos-á bem, restaurará a paz nos nossos corações.

Maria, Mãe de Misericórdia, nos ajude a aceitar a graça de Deus e a perdoarmo-nos uns aos outros.

Papa Francisco
(Angelus , 17 de setembro de 2023)