sábado, 18 de julho de 2026

 DOMINGO XVI DO TEMPO COMUM

Os textos litúrgicos deste domingo vão contra a corrente dos nossos dias, pois situam-nos na paciência de Deus, que é infinita. Na verdade o “é para hoje”, se não for para ontem, a que a corrida frenética do nosso viver obriga, não tem nada a ver com o tempo de reflexão, de interiorização, ou de espera confiante que as leituras nos propõem. Aprendamos de Deus a saber esperar o tempo de reação de cada um, pois todos somos diferentes e na variedade de cada um é que está a maravilha do sermos um povo, em igreja. 

Na 1ªleitura (Sab 12, 13.16-19) o autor sagrado revela-nos Deus como um ser indulgente e misericordioso, com um Amor sem fim por cada um de nós, de tal forma que nos dá a esperança feliz de que o Senhor está sempre pronto, de braços abertos, para receber o coração arrependido que se Lhe entrega.

“Não há Deus, além de Vós, que tenha cuidado de todas as coisas; a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente. O vosso poder é o princípio da justiça e o vosso domínio soberano torna-Vos indulgente para com todos. Mostrais a vossa força aos que não acreditam na vossa omni­potência e confundis a audácia daqueles que a conhecem. Mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência, porque sempre podeis usar da força quando quiserdes. Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo que o justo deve ser humano e aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.”

Na 2ªleitura (Rom 8, 26-27) S. Paulo desafia-nos a vivermos do Espírito Santo, a deixar que nos habite, por inteiro, e assim, em nós reze ao Senhor. Que o Espírito Santo nos inunde com a Sua luz e n’Ele oremos a Deus.  

“Irmãos: O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, pois é em conformidade com Deus que o Espírito intercede pelos cristãos.”

No evangelho (Mt 13, 24-43) Jesus conta-nos três parábolas, em que nos revela a paciência infinita de Deus, o Seu Amor sem fim por cada um de nós, dando a todos a oportunidade de com Ele se encontrar. Vai esperando, não exige a todos que se convertam, que se entreguem da mesma forma e ao mesmo tempo. Respeita o tempo de reação de cada um, deixa cada um crescer a seu tempo e espera até à época da colheita. 

“Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?’. Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez isso’. Disseram-lhe os servos: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’. ‘Não! – disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro’». Jesus disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado». Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia, a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo». Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo». Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do Maligno e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os Anjos. Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do homem enviará os seus Anjos, que tirarão do seu reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade, e hão de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes. E os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça».”

Vem Espírito Santo ao meu coração, habita-me e reza em mim a Deus, Nosso Senhor.

Estimados irmãos e irmãs!

As parábolas evangélicas são breves narrações que Jesus utiliza para anunciar os mistérios do Reino dos céus. Utilizando imagens e situações da vida quotidiana, o Senhor «deseja indicar-nos o verdadeiro fundamento de todas as coisas. Ele mostra-nos... o Deus que age, que entra na nossa vida e quer guiar-nos pela mão» (Jesus de Nazaré, 2007). Com este tipo de discursos, o Mestre divino convida a reconhecer antes de tudo a primazia de Deus Pai: onde Ele não está, nada pode ser bom. Trata-se de uma prioridade decisiva para tudo. Reino dos céus significa, precisamente, senhorio de Deus, e isto quer dizer que a Sua vontade deve ser assumida como o critério-guia da nossa existência.

O tema contido no Evangelho deste domingo é precisamente o Reino dos céus. O «céu» não deve ser entendido unicamente no sentido da altura que nos ultrapassa, porque tal espaço infinito possui também a forma da interioridade do homem. Jesus compara o Reino dos céus com um campo de trigo, para nos levar a compreender que dentro de nós foi semeado algo de pequeno e escondido que, no entanto, possui uma força vital insuprimível. Não obstante todos os obstáculos, a semente desenvolver-se-á e o fruto amadurecerá. Este fruto só será bom, se o terreno da vida for cultivado em conformidade com a vontade divina. Por isso, na parábola do trigo bom e do joio (cf. Mt 13, 24-30), Jesus admoesta-nos que, depois da sementeira realizada pelo dono, «enquanto todos dormiam», interveio «o seu inimigo», que semeou a erva daninha. Isto significa que devemos estar prontos para conservar a graça recebida desde o dia do Baptismo, continuando a alimentar a fé no Senhor, a qual impede que o mal ganhe raízes. Santo Agostinho, comentando esta parábola, observa que «muitos, primeiro são joio e depois tornam-se trigo bom», e acrescenta: «Se eles, quando são malvados, não fossem tolerados com paciência, não chegariam à mudança louvável» (Quaest. septend. in Ev. sec. Matth., 12, 4: pl 35, 1371).

Queridos amigos, o Livro da Sabedoria — do qual foi tirada a primeira Leitura de hoje — põe em evidência esta dimensão do Ser divino, dizendo: «Não há fora de Vós um Deus que se ocupa de tudo... Porque a vossa força é o fundamento da vossa justiça e o facto de serdes Senhor de todos torna-vos indulgente para com todos» (Sb 12, 13.16); e o Salmo 85 confirma-o: «Porque Vós sois clemente e bom, Senhor, cheio de misericórdia para com aqueles que vos invocam» (v. 5). Portanto, se somos filhos de um Pai tão grande e bom, procuremos assemelhar-nos a Ele! Esta era a finalidade que Jesus se propunha com a sua pregação; com efeito, a quantos O ouviam, Ele dizia: «Sede perfeitos, como o vosso Pai que está nos céus é perfeito» (Mt 5, 48). Dirijamo-nos com confiança a Maria, (...), a fim de que nos ajude a seguir fielmente Jesus e, deste modo a viver como verdadeiros filhos de Deus.

Papa Bento XVI

(Angelus - 17 de julho de 2011)

sábado, 11 de julho de 2026

 DOMINGO XV DO TEMPO COMUM

A liturgia deste domingo desperta-nos para a importância da escuta da Palavra de Deus. Em cada liturgia, em que participamos, o Senhor vem ao nosso encontro e fala-nos, chega ao nosso coração, ao mais profundo da nossa alma, também através da Palavra proclamada. Estejamos sempre prontos para responder a cada desafio que o nosso Deus nos coloca,  quando O escutamos na Eucaristia, quando Ele lança a semente nos nossos corações. Deixemo-nos “fazer” pela Sua Palavra.

Na 1ªleitura (Is 55, 10-11) o profeta Isaías, ao usar a linguagem da natureza para nos explicar a força da Palavra de Deus, transpõe-nos para a fidelidade, para a infinitude do Amor de Deus, em tudo o que diz e faz. Só nos é pedido que O escutemos, de coração disponível e sincero. 

”Eis o que diz o Senhor: «Assim como a chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão».”

Na 2ªleitura (Rom 8, 18-23) S.Paulo fala, não só para os homens do seu tempo, mas também para nós hoje, homens e mulheres do séc.XXI. Até parece que está aqui connosco a viver os condicionalismos e dificuldades desta vida, com todas as agruras, medos e angústias que dela fazem parte! S.Paulo, no entanto, para além de nos situar no concreto da nossa existência, nas labutas da vida, projeta-nos para a esperança da nova vida, a da libertação em Deus, Nosso Senhor. Só n’Ele seremos verdadeiramente livres! 

“Irmãos: Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que se há de manifestar em nós. Na verdade, as criaturas esperam ansiosamente a revelação dos filhos de Deus. Elas estão sujeitas à vã situação do mundo, não por sua vontade, mas por vontade d’Aquele que as submeteu, com a esperança de que as mesmas criaturas sejam também libertadas da corrupção que escraviza, para receberem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. E não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adoção filial e a libertação do nosso corpo.”

No evangelho (Mt 13, 1-23), que nos é explicado por Jesus, ficamos com a certeza de que é Deus quem lança sempre a semente. A Sua Palavra é proclamada e nunca falha, mas a forma como é recebida vai depender da nossa disponibilidade e abertura do coração. Aliás, a mesma Palavra, proclamada em alturas diferentes, é recebida de forma completamente distinta, pela mesma pessoa, consoante a situação de vida concreta em que se encontra no momento da escuta. É sempre uma Palavra viva e atuante. O fruto depende de sermos, ou não, “uma boa terra”.

“Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar. Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e sentar-Se, enquanto a multidão ficava na margem. Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos: «Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram, porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz. Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e afogaram-nas. Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um. Quem tem ouvidos, oiça». Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Porque lhes falas em parábolas?». Jesus respondeu: «Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus, mas a eles não. Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. É por isso que lhes falo em parábolas, porque veem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender. Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz: ‘Ouvindo ouvireis, mas sem compreender; olhando olhareis, mas sem ver. Porque o coração deste povo tornou-se duro: endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para não acontecer que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos e compreendendo com o coração, se convertam e Eu os cure’. Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque veem e os vossos ouvidos porque ouvem! Em verdade vos digo: muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes e não viram e ouvir o que vós ouvis e não ouviram. Escutai, então, o que significa a parábola do semeador: Quando um homem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo. Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto. E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».

Senhor abre o meu coração à escuta da Tua Palavra.

Prezados irmãos e irmãs!

Estou feliz por vos dar as boas-vindas a esta minha primeira Audiência geral. Hoje retomo o ciclo de catequeses jubilares, sobre o tema «Jesus Cristo, nossa esperança», iniciadas pelo Papa Francisco.

Hoje continuamos a meditar sobre as parábolas de Jesus, que nos ajudam a redescobrir a esperança, porque nos mostram como Deus age na história. Hoje gostaria de meditar sobre uma parábola um pouco especial, pois é uma espécie de introdução a todas as parábolas. Refiro-me à do semeador (cf. Mt 13, 1-17). Em certo sentido, nesta história podemos reconhecer o modo de comunicar de Jesus, que tem muito a ensinar-nos para o anúncio do Evangelho hoje.

Cada parábola narra uma história tirada da vida de todos os dias, mas quer dizer-nos algo mais, remetendo-nos para um significado mais profundo. A parábola desperta em nós interrogações, convida-nos a não nos limitarmos às aparências. Perante a história que me é contada ou a imagem que me é dada, posso interrogar-me: onde estou nesta história? O que diz esta imagem à minha vida? Aliás, o termo parábola vem do verbo grego paraballein, que significa lançar para a frente. A parábola projeta diante de mim uma palavra que me desperta, levando-me a questionar-me.

A parábola do semeador fala exatamente da dinâmica da palavra de Deus e dos efeitos que ela produz. Com efeito, cada palavra do Evangelho é como uma semente lançada no terreno da nossa vida. Jesus usa muitas vezes a imagem da semente, com diferentes significados. No capítulo 13 do Evangelho de Mateus, a parábola do semeador introduz uma série de outras pequenas parábolas, algumas das quais falam precisamente do que acontece na terra: o trigo e o joio, o grãozinho de mostarda, o tesouro escondido no campo. No que consiste, então, este solo? É o nosso coração, mas é também o mundo, a comunidade, a Igreja. Com efeito, a palavra de Deus fecunda e suscita cada realidade.

No início, vemos Jesus que sai de casa e à sua volta reúne-se uma grande multidão (cf. Mt 13, 1). A sua palavra fascina e intriga. Entre as pessoas, há obviamente muitas situações diferentes. A palavra de Jesus é para todos, mas age em cada um de modo diverso. Este contexto permite-nos compreender melhor o sentido da parábola.

Um semeador muito original sai para semear, mas não se preocupa com o lugar onde a semente cai. Lança a semente até onde é improvável que dê fruto: ao longo da estrada, entre as pedras, no meio dos arbustos. Esta atitude surpreende o ouvinte, levando-o a questionar-se: como é possível?

Estamos habituados a calcular as coisas - e às vezes é necessário - mas isto não vale no amor! O modo como este semeador “esbanjador” lança a semente é uma imagem da maneira como Deus nos ama. Aliás, é verdade que o destino da semente depende também do modo como o terreno a acolhe e da situação em que se encontra, mas nesta parábola Jesus diz-nos sobretudo que Deus lança a semente da sua palavra em todos os tipos de solo, isto é, em qualquer uma das nossas situações: às vezes somos mais superficiais e distraídos, outras vezes deixamo-nos levar pelo entusiasmo, por vezes sentimo-nos oprimidos pelas preocupações da vida, mas há também momentos em que estamos disponíveis e somos acolhedores. Deus confia e espera que, mais cedo ou mais tarde, a semente floresça. É assim que nos ama: não espera que nos tornemos o melhor terreno, concede-nos sempre generosamente a sua palavra. Talvez precisamente vendo que Ele confia em nós, nasça em nós o desejo de ser uma terra melhor. Esta é a esperança, fundada na rocha da generosidade e da misericórdia de Deus.

Narrando o modo como a semente dá fruto, Jesus fala também da sua vida. Jesus é a Palavra, a Semente. E para dar fruto, a semente deve morrer. Então, esta parábola diz-nos que Deus está pronto a “desperdiçar” por nós e que Jesus está disposto a morrer para transformar a nossa vida.

Tenho em mente aquela maravilhosa pintura de van Gogh: O semeador ao pôr do sol. Aquela imagem do semeador sob o sol ardente fala-me também do trabalho do camponês. E surpreende-me que, por detrás do semeador, van Gogh tenha representado o grão já maduro. Parece-me exatamente uma imagem de esperança: de uma maneira ou de outra, a semente deu fruto. Não sabemos bem como, mas é assim! Contudo no centro da cena não está o semeador, que se encontra de lado, mas toda a pintura é dominada pela imagem do sol, talvez para nos recordar que é Deus quem move a história, embora às vezes pareça ausente ou distante. É o sol que aquece os torrões da terra, fazendo amadurecer a semente.

Caros irmãos e irmãs, em que situação da vida de hoje a palavra de Deus nos alcança? Peçamos ao Senhor a graça de acolher sempre esta semente, que é a sua palavra. E se nos dermos conta de que não somos um terreno fecundo, não desanimemos, mas peçamos-lhe que nos trabalhe ainda mais para fazer de nós uma terra melhor.

Papa Leão XIV

(Audiência Geral, 21 de maio de 2025)

sábado, 4 de julho de 2026

DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM


Nos dias em que vivemos, nos tempos que atravessamos, as leituras deste domingo são um “refrigério dulcíssimo”, pois precisamos de descansar no Único que nos pode dar a Paz, o Amor, porque só Ele o é: Nosso Senhor.


Na primeira leitura (Zac 9, 9-10) Zacarias torna presente para os tempos de antigamente, mas também para os dias de hoje, que Deus vem ter connosco, que é Ele quem toma a iniciativa de Se fazer encontro com cada um de nós, e que n’Ele tudo é possível. Como não exultar de alegria e cantar e louvar o nosso Deus, que nos ama assim, desta forma total e infinita. Bendito e louvado sejas Senhor, hoje e sempre, pelos séculos sem fim!

Eis o que diz o Senhor: «Exulta de alegria, filha de Sião, solta brados de júbilo, filha de Jerusalém. Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta. Destruirá os carros de combate de Efraim e os cavalos de guerra de Jerusalém; e será quebrado o arco de guerra. Anunciará a paz às nações: o seu domínio irá de um mar ao outro mar e do Rio até aos confins da terra». 

Na 2ªleitura (Rom 8, 9.11-13) S.Paulo projeta-nos para a vivência do nosso batismo no dia a dia da vida. Se nos deixarmos repassar pelo Espírito Santo que recebemos no Batismo, o Espírito “ d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos “ habitará em nós e n’Ele teremos a verdadeira vida. Só em Jesus ressuscitado tal será possível.
“Irmãos: Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence. Se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós. Assim, irmãos, não somos devedores à carne, para vivermos segundo a carne. Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis.” 

No evangelho (Mt 11, 25-30) Jesus, o Filho,vai-Se dando a conhecer, vai-Se-nos revelando mais um pouco, na Sua relação filial com o Pai. A forma como Jesus nos vai revelando a Sua identidade é única, pois Ele envolve-nos e, ao mesmo tempo, estende sobre nós a Sua bênção divina. O convite que nos faz a descansar n’Ele, a deixar cair tudo o que nos afasta de Deus, a entregarmo-nos na totalidade do que somos e temos, a colocar nas Suas mãos os nossos medos e angústias, tudo o que nos preocupa e aflige, desperta-nos para o que é essencial para o cristão: o Amor que Deus tem por cada um de nós. Em Jesus este Amor é visível. Por Jesus também cada um de nós é chamado a viver de e para Deus. Deixemo-nos amar por Deus!

“Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve». 

Senhor Jesus, que eu aprenda de Ti, a descansar em Deus, a, em Ti, entregar-Lhe tudo, mas mesmo tudo, seja o que for, de bom, ou de mau.

Bom dia, prezados irmãos e irmãs!

(...) Hoje meditamos sobre um trecho comovedor do Evangelho (cf. Mt 11, 28-30), no qual Jesus diz: «Vinde a mim, vós todos que estais aflitos, e Eu aliviar-vos-ei [...] Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis o repouso para as vossas almas» (vv. 28-29). O convite do Senhor é surpreendente: chama a segui-l'O pessoas simples e oprimidas por uma vida difícil, chama a segui-l'O pessoas com tantas necessidades, prometendo-lhes que n'Ele encontrarão repouso e alívio. O convite é dirigido de forma imperativa: «Vinde a mim», «tomai o meu jugo», «aprendei de mim». Se todos os líderes do mundo pudessem dizer isto! Procuremos entender o significado destas palavras.

O primeiro imperativo é: «Vinde a mim». Dirigindo-se àqueles que estão cansados e oprimidos, Jesus apresenta-se como o Servo do Senhor, descrito no livro do profeta Isaías. Assim reza o trecho de Isaías: «O Senhor Deus deu-me a língua de discípulo para que eu saiba confortar pela palavra o que está abatido» (50, 4). Ao lado destes abatidos da vida, o Evangelho põe muitas vezes também os pobres (cf. Mt 11, 5), os mais pequeninos (cf. Mt 18, 6). Trata-se de quantos não podem contar com os próprios meios, nem com amizades importantes. Eles podem confiar só em Deus. Conscientes da sua condição humilde e miserável, sabem que dependem da misericórdia do Senhor e d'Ele esperam a única ajuda possível. No convite de Jesus finalmente encontram resposta à sua expetativa: tornando-se seus discípulos recebem a promessa de encontrar alívio para toda a sua vida. Uma promessa que no final do Evangelho é ampliada a todos: «Ide, pois — diz Jesus aos Apóstolos — e ensinai a todas as nações...» (Mt 28, 19). (...) Este caminho exprime a conversão de cada discípulo que se põe no seguimento de Jesus. E a conversão consiste sempre em descobrir a misericórdia do Senhor. Ela é infinita e inesgotável: é grande a misericórdia do Senhor! Portanto, (...) professamos «que o amor está presente no mundo e que o amor é mais forte do que todo mal em que o homem, a humanidade e o mundo estão envolvidos» (João Paulo II, Enc. Dives in misericordia, 7).

O segundo imperativo diz: «Tomai o meu jugo». No contexto da Aliança, a tradição bíblica usa a imagem do fardo para indicar o vínculo estreito que une o povo a Deus e, portanto, a submissão à sua vontade expressa na Lei. Na controvérsia com os escribas e os doutores da lei, Jesus põe sobre os seus discípulos o seu jugo, no qual a Lei encontra o seu cumprimento. Quer ensiná-los a descobrir a vontade de Deus, mediante a Sua pessoa: através de Jesus, não por meio de leis e prescrições frias que o próprio Jesus condena. É suficiente ler o capítulo 23 de Mateus! Ele está no centro da Sua relação com Deus, no núcleo das relações entre os discípulos e põe-se como fulcro da vida de cada um. Recebendo o «jugo de Jesus», cada discípulo entra em comunhão com Ele e participa no mistério da Sua cruz e do Seu destino de salvação.

Segue-se o terceiro imperativo: «Aprendei de mim». Aos seus discípulos Jesus indica um caminho de conhecimento e imitação. Jesus não é um mestre que impõe, severamente a outros, pesos que Ele não carrega: era esta a acusação que fazia aos doutores da lei. Ele dirige-se aos humildes, frágeis, pobres, necessitados, porque Ele mesmo se fez pequenino e humilde. Entende os pobres e sofredores porque Ele mesmo é pobre, provado pelas dores. Para salvar a humanidade Jesus não trilhou um caminho fácil; ao contrário, a Sua senda foi dolorosa e árdua. Como recorda a Carta aos Filipenses: «Humilhou-se, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz» (2, 8). O fardo dos pobres e oprimidos é o mesmo jugo que Ele carregou antes deles: por isso é suave. Ele carregou nos ombros as dores e os pecados da humanidade inteira. Para o discípulo, portanto, carregar o jugo de Jesus significa receber a Sua revelação e aceitá-la: n'Ele a misericórdia de Deus assumiu a pobreza do homem, oferecendo assim a todos a possibilidade da salvação. Mas por que é capaz Jesus de dizer isto? Porque Ele se fez tudo por todos, aproximou-se de todos, dos mais pobres! Era um pastor no meio do povo, dos pobres: labutava o dia inteiro com eles. Jesus não era um príncipe. É negativo para a Igreja, quando os pastores se tornam príncipes, longe do povo, distantes dos mais pobres: este não é o espírito de Jesus. Jesus repreendia estes pastores, dizendo ao povo: «Fazei o que eles dizem, não o que fazem».

Caros irmãos e irmãs, também nós temos momentos de fadiga e desilusão. Então, recordemos estas palavras do Senhor; elas dão-nos muita consolação e fazem-nos entender se pomos as nossas forças ao serviço do bem. Com efeito, às vezes o cansaço deriva da nossa confiança em coisas que não são essenciais, porque nos afastamos do que realmente tem valor na vida. O Senhor ensina-nos a não ter medo de O seguir, porque a esperança que temos n'Ele não será desiludida. Assim, somos chamados a aprender d'Ele o que significa viver de misericórdia para sermos instrumentos de compaixão. Viver de misericórdia é sentir-se necessitado da misericórdia de Jesus, e quando nos sentimos carentes de perdão e consolação, aprendemos a ser misericordiosos com o próximo. Manter o olhar fixo no Filho de Deus faz-nos entender como é longo o caminho que ainda devemos percorrer; ao mesmo tempo, infunde-nos a alegria de saber que caminhamos com Ele e nunca estamos sozinhos. Ânimo, pois, coragem! Não deixemos que nos tirem a alegria de ser discípulos do Senhor. «Mas Padre, sou pecador, como posso fazer?» — «Deixa que o Senhor olhe para ti, abre o teu coração, sente sobre ti o Seu olhar, a Sua misericórdia, e o teu coração será cheio de alegria, do júbilo do perdão, se te aproximares para pedir perdão». Não permitamos que nos roubem a esperança de levar esta vida com Ele e com a força da sua consolação. Obrigado!

Papa Francisco
(Audiência Geral - 14 de setembro de 2016 )