DOMINGO V DA PÁSCOA
A liturgia deste domingo continua a vivência do grande dia da Páscoa de Jesus ressuscitado. As leituras de hoje, projetam-nos para o essencial da nossa fé, Jesus é um com o Pai. E é aí, na comunhão íntima e profundíssima de Jesus com o Pai, num Amor infinito e total, que Ele se nos vai revelando como o único caminho para o Pai. Deixemo-nos guiar por Ele.
Na 1ªleitura (Atos 6,1-7) apercebemo-nos de que também as primeiras comunidades tiveram os seus problemas internos. No entanto o que mais nos desafia e cativa é a forma como resolviam os seus conflitos, ou vicissitudes, sempre numa grande docilidade ao Espírito Santo para decidirem e, assim, serem fiéis ao seu Senhor e mestre, Jesus ressuscitado.
“Naqueles dias, aumentando o número dos
discípulos, os helenistas começaram a murmurar contra os hebreus, porque no
serviço diário não se fazia caso das suas viúvas. Então os Doze convocaram a
assembleia dos discípulos e disseram: «Não convém que deixemos de pregar a
palavra de Deus, para servirmos às mesas. Escolhei entre vós, irmãos, sete
homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para lhes
confiarmos esse cargo. Quanto a nós, vamos dedicar-nos totalmente à oração e ao
ministério da palavra». A proposta agradou a toda a assembleia; e escolheram
Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor,
Timão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos
Apóstolos e estes oraram e impuseram as mãos sobre eles. A palavra de Deus
ia-se divulgando cada vez mais; o número dos discípulos aumentava
consideravelmente em Jerusalém e obedecia à fé também grande número de
sacerdotes.”
“Caríssimos: Aproximai-vos do Senhor, que é a
pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus.
E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual,
para constituirdes um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios
espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso se lê na Escritura:
«Vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa; e quem nela puser a
sua confiança não será confundido». Honra, portanto, a vós que acreditais. Para
os incrédulos, porém, «a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra
angular», «pedra de tropeço e pedra de escândalo». Tropeçaram por não
acreditarem na palavra, pois foram para isso destinados. Vós, porém, sois
«geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para
anunciar os louvores» d’Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz
admirável.”
No evangelho (Jo 14, 1-12) S.João revela, no diálogo que nos traz hoje,
Jesus e a Sua relação de Amor com o Pai, numa comunhão tão profunda, tão total
e infinita, que como diz a Filipe, quem O vê, vê o Pai. E, melhor ainda, é o
próprio Jesus quem nos diz que é o Caminho para o Pai. Se temos dúvidas, ao
menos acreditemos nas Suas obras.
«Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. Em casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, Eu vos teria dito que vou preparar-vos um lugar? Quando Eu for preparar-vos um lugar, virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também. Para onde Eu vou, conheceis o caminho». Disse-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?». Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». Disse-Lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta». Respondeu-lhe Jesus: «Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheces, Filipe? Quem Me vê, vê o Pai. Como podes tu dizer: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio; mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras. Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; acreditai ao menos pelas minhas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fará obras ainda maiores, porque Eu vou para o Pai».
Senhor, eu creio que é Jesus, o Filho de Deus
feito homem, que ressuscitou dos mortos, um com o Pai. Aleluia!
O Concílio
Vaticano II, na Constituição sobre a Revelação Divina Dei Verbum, afirma que a verdade íntima de
toda a Revelação de Deus resplandece para nós «em Cristo, que é o mediador e ao
mesmo tempo a plenitude de toda a Revelação» (n. 2). O Antigo Testamento
narra-nos como Deus, depois da criação, não obstante o pecado original e apesar
da arrogância do homem ao querer colocar-se no lugar do seu Criador, oferece de
novo a possibilidade da sua amizade, sobretudo através da aliança com Abraão, e
caminho de um pequeno povo, o povo de Israel, que Ele escolhe não com critérios
de poder, mas simplesmente por amor. É uma escolha que permanece um mistério e
revela o estilo de Deus, que chama alguns não para excluir os outros, mas para
que sirvam de ponte conduzindo para Ele: escolha é sempre eleição pelo outro.
Na história do povo de Israel podemos voltar a percorrer as etapas de um longo
caminho em que Deus se faz conhecer, se revela e entra na história com palavras
e ações. Para esta obra Ele serve-se de mediadores, como Moisés, os Profetas e
os Juízes, que comunicam ao povo a sua vontade, recordam a exigência de
fidelidade à aliança e mantêm viva a expetativa da realização plena e
definitiva das promessas divinas.
E foi
precisamente o cumprimento destas promessas que pudemos contemplar no Santo
Natal: a Revelação de Deus alcança o seu ápice, a sua plenitude. Em Jesus de
Nazaré, Deus visita realmente o seu povo, visita a humanidade de um modo que
vai além de todas as expetativas: envia o seu Único Filho; o próprio Deus
faz-se homem. Jesus não nos diz algo de Deus, não fala simplesmente do Pai, mas
é Revelação de Deus, porque é Deus, e assim revela-nos o rosto de Deus. No
Prólogo do seu Evangelho, são João escreve: «Ninguém nunca viu Deus. O Filho
único, que está no seio do Pai, foi quem O revelou» (Jo 1, 18).
Gostaria de
meditar sobre este «revelar o rosto de Deus». A este propósito são João, no seu
Evangelho, recorda-nos um acontecimento significativo que há pouco ouvimos.
Aproximando-se da Paixão, Jesus tranquiliza os seus discípulos, convidando-os a
não ter medo e a ter fé; depois, instaura um diálogo com eles, no qual fala de
Deus Pai (cf. Jo 14, 2-9). Numa certa altura, o apóstolo
Filipe pede a Jesus: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso basta-nos» (Jo 14,
8). Filipe é muito prático e concreto, e diz também o que nós desejamos dizer:
«Queremos ver, mostra-nos o Pai», pede para «ver» o Pai, para ver o seu rosto.
A resposta de Jesus não se dirige apenas a Filipe, mas também a nós, e
introduz-nos no coração da fé cristológica; o Senhor afirma: «Aquele que me
viu, viu também o Pai» (Jo 14, 9). Nesta expressão encerra-se
sinteticamente a novidade do Novo Testamento, aquela novidade que apareceu na
gruta de Belém: é possível ver Deus, Deus manifestou o seu rosto, é visível em
Jesus Cristo.
Em todo o
Antigo Testamento está bem presente o tema da «procura do rosto de Deus», o
desejo de conhecer esta face, o desejo de ver Deus como Ele é, a tal ponto que
o termo hebraico pānîm, que significa «rosto», aparece 400 vezes,
das quais 100 se referem a Deus: refere-se a Deus 100 vezes, deseja-se ver o
rosto de Deus. E no entanto, a religião judaica proíbe totalmente as imagens,
porque Deus não pode ser representado, como ao contrário faziam os povos
vizinhos, com a adoração dos ídolos; por conseguinte, com esta proibição de
imagens, o Antigo Testamento parece excluir totalmente o «ver» do culto e da
piedade. Então, o que significa para o israelita piedoso procurar o rosto de
Deus, na consciência de que não pode haver qualquer imagem sua? A pergunta é
importante: por um lado, deseja-se dizer que Deus não pode ser reduzido a um
objeto, como uma imagem que se toma nas mãos, mas também não se pode pôr algo
no lugar de Deus; por outro lado, contudo, afirma-se que Deus tem um rosto, ou
seja que é um «Tu» que pode entrar em relação, que não está fechado no seu Céu
a olhar do alto a humanidade. Sem dúvida, Deus está acima de todas as coisas,
mas dirige-se a nós, ouve-nos, vê-nos, fala-nos, faz uma aliança e é capaz de
amar. A história da salvação é a história de Deus com a humanidade, é a
história desta relação de Deus que se revela progressivamente ao homem, que se
faz conhecer a si mesmo, o seu rosto.
Precisamente
no início do ano, no dia 1 de Janeiro, ouvimos na liturgia a linda prece de
bênção sobre o povo: «O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor te mostre a sua
face e te conceda a sua graça! O Senhor dirija o seu rosto para ti e te dê a
paz!» (Nm 6, 24-26). O esplendor do rosto divino é a fonte da vida,
é aquilo que permite ver a realidade; a luz da sua face é a guia da vida. No
Antigo Testamento existe uma figura à qual está ligado de modo totalmente
especial o tema do «rosto de Deus»; trata-se de Moisés, Aquele que Deus escolhe
para libertar o povo da escravidão do Egito, para lhe confiar a Lei da aliança
e para o guiar rumo à Terra prometida. Pois bem, no capítulo 33 do Livro
do Êxodo afirma-se que Moisés tinha uma relação estreita e
confidencial com Deus: «O Senhor entretinha-se com Moisés face a face, como um
homem que fala com o seu amigo» (v. 11). Em virtude desta confidência, Moisés
pede a Deus: «Mostrai-me a vossa glória!», e a resposta de Deus é clara: «Farei
passar diante de ti todo o meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o nome do
Senhor... Mas não poderás ver a minha face, pois o homem não me poderia ver e
continuar a viver... Eis um lugar perto de mim... ver-me-ás só de costas.
Quanto à minha face, ela não pode ser vista» (vv. 18-23). Então, por um lado há
o diálogo face a face como entre amigos, mas por outro há a impossibilidade de
ver nesta vida o rosto de Deus, que permanece escondido; a visão é limitada. Os
Padres afirmam que estas palavras, «ver-me-ás só de costas», querem dizer: só
podes seguir Cristo e, seguindo-o, vês de costas o mistério de Deus; Deus só
pode ser seguindo vendo-o de costas.
Porém,
mediante a Encarnação acontece algo completamente novo. A busca do rosto de
Deus passa por uma transformação inimaginável, porque agora é possível ver este
rosto: é o rosto de Jesus, do Filho de Deus que se faz homem. Nele encontra
cumprimento o caminho de Revelação de Deus, encetado com a chamada de Abraão,
Ele é a plenitude desta Revelação porque é o Filho de Deus e, ao mesmo tempo,
«mediador e plenitude de toda a Revelação» (Constituição dogmática Dei Verbum, 2), e nele o conteúdo da
Revelação e o Revelador coincidem. Jesus mostra-nos o rosto de Deus e faz-nos
conhecer o nome de Deus. Na Oração sacerdotal, na Última Ceia, Ele diz ao Pai:
«Manifestei o teu nome aos homens... Manifestei-lhes o teu nome» (cf. Jo 17,
6.26). A expressão «nome de Deus» significa Deus como Aquele que está presente
no meio dos homens. A Moisés, junto da sarça ardente, Deus tinha revelado o seu
nome, ou seja, tornou-se invocável, lançou um sinal concreto do seu «estar» no
meio dos homens. Tudo isto, em Jesus, tem o seu cumprimento e plenitude: Ele
inaugura de um modo novo a presença de Deus na história, pois quem O vê, vê o
Pai, como diz a Filipe (cf. Jo 14, 9). O Cristianismo — afirma
são Bernardo — é a «religião da Palavra de Deus»; e não de «uma palavra escrita
e muda, mas do Verbo encarnado e vivo» (Hom. super missus est, IV, 11:
PL 183, 86b). Na tradição patrística e medieval utiliza-se uma fórmula
particular para expressar esta realidade: afirma-se que Jesus é o Verbum
abbreviatum (cf. Rm 9, 28, com referência a Is 10, 23), o Verbo abreviado, a Palavra breve, abreviada e substancial do Pai, que
nos disse tudo dele. Em Jesus, toda a Palavra está presente.
Em Jesus,
também a mediação entre Deus e o homem encontra a sua plenitude. No Antigo
Testamento existe um exército de figuras que desempenharam esta função, de modo
particular Moisés, o libertador, o guia, o «mediador» da aliança, como o define
também o Novo Testamento (cf. Gl 3, 19; Act 7,
35; Jo 1, 17). Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não
é simplesmente um dos mediadores entre Deus e o homem, mas é «o Mediador» da
nova e eterna aliança (cf. Hb 8, 6; 9, 15; 12, 24); «Porque há
um só Deus — diz são Paulo — e há um só mediador entre Deus e
os homens: Jesus Cristo, homem» (1 Tm 2, 5; cf. Gl 3,
19-20). N'Ele nós vemos e encontramos o Pai; n'Ele podemos invocar Deus com o
nome de «Abá, Pai»; n'Ele é-nos conferida a salvação.
O desejo de
conhecer Deus realmente, ou seja, de ver o rosto de Deus, está ínsito em cada
homem, inclusive nos ateus. E nós talvez tenhamos, de modo inconsciente, este
desejo de ver simplesmente quem Ele é, o que Ele é, quem é Ele para nós. Mas
este desejo só se realiza seguindo Cristo, porque assim O vemos de costas e
enfim vemos também Deus como amigo, a sua face no rosto de Cristo. O importante
é que sigamos Cristo não apenas no momento em que temos necessidade, e quando
encontramos um espaço nas nossas ocupações diárias, mas com toda a nossa vida
enquanto tal. Toda a nossa existência deve ser orientada para o encontro com
Jesus Cristo, para o amor por Ele; e, nela, um lugar central deve ser ocupado
também pelo amor ao próximo, aquele amor que, à luz do Crucificado, nos faz
reconhecer o rosto de Jesus no pobre, no frágil e no sofredor. Isto só é
possível se o verdadeiro rosto de Jesus se tornar familiar para nós na escuta
da Sua Palavra, no falar interiormente, no entrar nesta Palavra, de maneira que
deveras O encontremos, e naturalmente no Mistério da Eucaristia. No Evangelho
de são Lucas é significativo o trecho dos dois discípulos de Emaús, que
reconhecem Jesus na fracção do pão, mas preparados pelo caminho com Ele,
preparados pelo convite que lhe apresentaram, de permanecer com eles,
preparados pelo diálogo que fez arder o peito deles; assim, no final, eles veem
Jesus. Também para nós a Eucaristia é a grande escola na qual aprendemos a ver
o rosto de Deus, entramos em relação íntima com Ele; e aprendemos, ao mesmo
tempo, a dirigir o olhar para o momento derradeiro da história, quando Ele nos
saciar com a luz do seu rosto. Na terra, nós caminhamos rumo a esta plenitude,
na expetativa jubilosa de que se cumpra realmente o Reino de Deus. Obrigado!




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