sábado, 30 de maio de 2026

 Domingo IX do Tempo Comum 

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Ainda na semana passada retomámos o Tempo Comum e já a liturgia nos oferece hoje, com a solenidade da Santíssima Trindade, uma ocasião especial para contemplarmos Deus – Uma Só Natureza –  no Seu Amor tão grande, tão total, tão infinito, em Três Pessoas distintas – Pai, Filho e Espírito Santo. Jesus, Deus Filho, vem até nós e, assumindo a nossa condição humana, vai-nos revelando, com a linguagem quotidiana, naquilo que nos é possível entender, o quanto Deus ama toda a humanidade em geral, e cada um de nós em particular. É Deus Amor, em toda a Sua ternura e misericórdia, enamorado da sua criatura, que se nos revela, assim, Amor sem fim por cada um de nós. Neste mistério sublime, que nos mereceu tão maravilhoso redentor, louvemos o Senhor, que, todo Amor, continua a manifestar-se, a viver, a habitar, na totalidade do que somos e fazemos hoje, séc.XXI, em comunhão com todos aqueles com quem partilhamos a existência do nosso ser.


Moisés, na 1ªleitura (Ex 34, 4b-6.8-9) , ensina-nos a voltar sempre para o Senhor, a interceder pelos pecadores e a confiar na Misericórdia de Deus. A forma como Deus responde a Moisés é a confirmação do seu Amor por nós. Prostremo-nos, como Moisés, e deixemo-nos amar por Deus, que é todo Amor, ou melhor dito, que não é senão  Amor.

“Naqueles dias, Moisés levantou-se muito cedo e subiu ao monte Sinai, como o Senhor lhe ordenara, levando nas mãos as tábuas de pedra. O Senhor desceu na nuvem, ficou junto de Moisés, que invocou o nome do Senhor. O Senhor passou diante de Moisés e proclamou: «O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade». Moisés caiu de joelhos e prostrou-se em adoração. Depois disse: «Se encontrei, Senhor, aceitação a vossos olhos, digne-Se o Senhor caminhar no meio de nós. É certo que se trata de um povo de dura cerviz, mas Vós perdoareis os nossos pecados e iniquidades e fareis de nós a vossa herança».”

Esta 2ªleitura (2 Cor 13, 11-13) de S.Paulo é uma desafio para vivermos como filhos de Deus no Seu Único Filho, Jesus Cristo. Somos batizados, por isso louvamos o Pai, que tomou a iniciativa de nos salvar, damos glória ao Filho, que, por amor ao Pai, todo Se entregou, na concretização do plano de Amor do Pai e agradecemos ao Espírito Santo, que age em nós, para continuarmos a obra do Filho.

“Irmãos: Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição, animai-vos uns aos outros, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Todos os santos vos saúdam. A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco.” 

No evangelho (Jo 3, 16-18) S.João, ao trazer, até nós, esta conversa de Jesus com Nicodemos, ajuda-nos a entrar, mais um pouco, na compreensão do Mistério de Deus. É o apóstolo que melhor nos transmite que Deus é todo Amor e, mais uma vez, neste evangelho, escolhe momentos em que Jesus, porque nos ama, revela aspetos da sua intimidade com o Pai.

“Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita n'Ele já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».”

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, Solenidade da Santíssima Trindade, o Evangelho é tirado do diálogo de Jesus com Nicodemos (cf. Jo 3, 16-18). Nicodemos era um membro do Sinédrio, apaixonado pelo mistério de Deus: reconhece em Jesus um mestre divino e, secretamente, à noite, vai falar com Ele. Jesus escuta-o, compreende que se trata de um homem em busca e, primeiro, surpreende-o, respondendo-lhe que, para entrar no Reino de Deus, é preciso renascer; depois, revela-lhe o centro do mistério, dizendo que Deus amou de tal modo a humanidade que enviou o seu Filho ao mundo. Jesus, então, o Filho, fala-nos do Pai e do seu imenso amor.

Pai e Filho. É uma imagem familiar que, se pensarmos bem, altera a nossa imaginação sobre Deus. Com efeito, a própria palavra “Deus” sugere-nos uma realidade singular, majestosa e distante, enquanto que ouvir falar de um Pai e de um Filho nos reconduz a casa. Sim, podemos pensar em Deus desta forma, através da imagem de uma família reunida à volta de uma mesa, onde a vida é partilhada. De resto, a imagem da mesa, que é ao mesmo tempo um altar, é um símbolo com o qual certos ícones representam a Trindade. É uma imagem que nos fala de um Deus-comunhão. Pai, Filho e Espírito Santo: comunhão.

Mas não é apenas uma imagem, é realidade! É realidade porque o Espírito Santo, o Espírito que o Pai, através de Jesus, derramou nos nossos corações (cf. Gl 4, 6), faz-nos saborear, faz-nos pregustar a presença de Deus: uma presença sempre próxima, compassiva e terna. O Espírito Santo faz connosco como Jesus fez com Nicodemos: introduz-nos no mistério do novo nascimento - o nascimento da fé, da vida cristã -, revela-nos o coração do Pai e torna-nos participantes da própria vida de Deus.

O convite que nos dirige, poderíamos dizer, é o de nos sentarmos à mesa com Deus para partilhar o seu amor. Esta é a imagem. É o que acontece em cada missa, no altar da mesa eucarística, onde Jesus se oferece ao Pai e se oferece por nós. Sim, é assim, irmãos e irmãs, o nosso Deus é comunhão de amor: assim Jesus no-lo revelou. E sabeis como podemos recordar isto? Com o gesto mais simples, que aprendemos quando éramos crianças: o sinal da cruz. Fazendo o sinal da cruz no nosso corpo, lembramo-nos de quanto Deus nos amou, a ponto de dar a sua vida por nós; e repetimos a nós mesmos que o seu amor nos envolve completamente, do alto para baixo, da esquerda para a direita, como um abraço que nunca nos abandona. E, ao mesmo tempo, comprometemo-nos a dar testemunho de Deus-amor, criando comunhão em seu nome. Talvez agora, cada um de nós, e todos juntos, façamos o sinal da cruz em nós [faz o sinal da cruz].

Então, hoje podemos perguntar-nos: damos testemunho de Deus-amor? Ou será que o próprio Deus-amor se tornou um conceito, uma coisa já ouvida, que já não desperta nem provoca a vida? Se Deus é amor, as nossas comunidades testemunham-no? Sabem amar? As nossas comunidades sabem amar? E as nossas famílias, sabemos amar em família? Mantemos a porta sempre aberta, sabemos acolher todos, friso todos, como irmãos e irmãs? Oferecemos a todos o alimento do perdão de Deus e a alegria evangélica? Respiramos ar de casa ou assemelhamo-nos mais a um escritório ou a um lugar reservado onde só entram os eleitos? Deus é amor, Deus é Pai, Filho e Espírito Santo e deu a vida por nós, por isso fazemos o sinal da cruz. 

E que Maria nos ajude a viver a Igreja como a casa onde amamos de maneira familiar, para a glória de Deus Pai e Filho e Espírito Santo.

Papa Francisco

(Angelus - 4 de junho de 2023)

                                                                   


sábado, 23 de maio de 2026

DOMINGO DE PENTECOSTES

Com a celebração de Pentecostes terminamos o tempo Pascal. O grande dia de Páscoa chegou ao fim e começa o tempo comum, que é o tempo, por excelência, da missão da Igreja - anunciar a todos os homens a Boa Nova do Reino: Jesus Ressuscitou, vive em cada batizado, quer viver em quem se disponha a recebê-lo e O deseje de coração sincero.

Na 1ªleitura (Atos 2, 1-11) S.Lucas, que coloca este dia a acontecer 50 dias após a ressurreição de Jesus, dá-nos conta da transformação dos apóstolos sob a ação do Espírito Santo e de como, os que os ouviam, os entendiam, apesar de serem oriundos de países com idiomas diferentes.  Abramos também nós o coração à ação do Espírito Santo a fim de que os nossos medos e angústias deem lugar às maravilhas do Senhor, junto dos que nos são próximos.

“Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».”

Na 2ªleitura (1 Cor 12, 3b-7.12-13) S.Paulo leva-nos a reviver o nosso batismo e a reencontrar aí, no Espírito Santo que então recebemos, o fundamento do nosso ser comunidade. Só, pela ação do Espírito Santo em nós, seremos capazes de ver no outro a  imagem de Deus e de o amar como só Deus ama e assim n’Ele partilharemos, em comunidade, os dons que o Senhor nos dá.

“Irmãos: Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela ação do Espírito Santo. De facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.”

No evangelho (Jo 20, 19-23) S.João, que coloca todos os acontecimentos pascais a terem lugar num mesmo dia, o primeiro da semana, desafia-nos a deixarmo-nos conduzir pelo Espírito Santo, vivendo numa mesma confiança em Jesus ressuscitado. É pela ação do Espírito Santo que recebemos a Paz de Jesus e seremos anunciadores do Amor de Deus por todos os homens em geral e por cada um em particular. Assim nos deixemos repassar e inundar pelo Espírito Santo.

“Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».” 

Enviai Senhor o Vosso Espírito e renovai os nossos corações.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, Solenidade de Pentecostes, o Evangelho leva-nos ao Cenáculo, onde os apóstolos se tinham refugiado depois da morte de Jesus (Jo 20, 19-23). O Ressuscitado, na noite de Páscoa, apresenta-se precisamente naquela situação de medo e angústia e, soprando sobre eles, diz: «Recebei o Espírito Santo»(v.22). Assim, com o dom do Espírito, Jesus quer libertar os discípulos do medo, este medo que os mantém fechados em casa, e liberta-os para que possam sair e tornar-se testemunhas e anunciadores do Evangelho. Reflitamos um pouco sobre aquilo que o Espírito faz: liberta do medo

Os discípulos tinham fechado as portas, diz o Evangelho, «por temor» (v.19). A morte de Jesus tinha-os perturbado, os seus sonhos tinham sido desfeitos, as suas esperanças tinham desaparecido. E fecharam-se em si mesmos. Não apenas naquela sala, mas dentro, no coração. Gostaria de sublinhar este facto: fechados dentro. Quantas vezes também nós nos fechamos em nós mesmos? Quantas vezes, por causa de uma situação difícil, de um problema pessoal ou familiar, do sofrimento que nos marca ou por causa do mal que respiramos à nossa volta, caímos lentamente na perda da esperança e na falta de coragem para continuar? Muitas vezes isto acontece. E então, como os apóstolos, fechamo-nos dentro, barricando-nos no labirinto das preocupações.

Irmãos e irmãs, este “fecharmo-nos dentro” acontece quando, nas situações mais difíceis, deixamos que o medo se apodere de nós e faça a “levante a voz” dentro de nós. Quando o medo entra, fechamo-nos. A causa, portanto, é o medo: medo de não ser capaz de enfrentar, de estar sozinho para enfrentar as batalhas diárias, de correr riscos e depois ficar desiludido, de fazer escolhas erradas. Irmãos e irmãs, o medo bloqueia, o medo paralisa. E também isola: pensemos no medo do outro, dos estrangeiros, dos diferentes, dos que pensam de forma diferente. E pode até haver medo de Deus: que me castigue, que se ressinta de mim... Se dermos espaço a estes falsos medos, as portas fecham-se: as do coração, as da sociedade e até as da Igreja! Onde há medo, há fechamento. E isto não é bom.

Contudo, o Evangelho oferece-nos o remédio do Ressuscitado: o Espírito Santo. Ele liberta das prisões do medo. Ao receberem o Espírito - que hoje celebramos - os apóstolos deixam o cenáculo e saem pelo mundo para perdoar os pecados e anunciar a boa nova. Graças a Ele, os receios são vencidos e as portas abrem-se. Pois é isto que o Espírito faz: faz-nos sentir a proximidade de Deus e, assim, o seu amor afasta o temor, ilumina o caminho, consola, sustenta na adversidade. Diante dos medos e dos fechamentos, invoquemos então o Espírito Santo para nós, para a Igreja e para o mundo inteiro: a fim de que um novo Pentecostes afaste os receios que nos assaltam e reacenda o fogo do amor de Deus. 

Maria Santíssima, a primeira a ser repleta do Espírito Santo, interceda por nós.

Papa Francisco

(Regina Caeli - 28 de maio de 2023)


sábado, 16 de maio de 2026

 DOMINGO VII DA PÁSCOA

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR

Hoje, centramo-nos na festa da Ascensão, dia para o qual Jesus nos tem vindo a preparar desde a Sua Ressurreição, até hoje, deixando-nos as Suas instruções e recomendações finais. Na solenidade de hoje celebramos a partida de Jesus para o Pai.  Do Céu saiu, para lá volta, e para aí nos atrai, através da ação do Espírito Santo, que nos move a fazer o bem, a testemunhar a presença de Jesus entre nós, a anunciá-l’O onde nos movemos e existimos.  

Na 1ªleitura (Atos 1, 1-11) o autor projeta-nos para a Ascensão de Jesus. Ao mesmo tempo, desafia-nos a, sobre a ação do Espírito Santo, continuarmos, hoje, no nosso tempo, a ação evangelizadora dos primeiros cristãos, dos que conheceram e conviveram com Jesus, o Filho de Deus, que encarnou entre nós. Deixemos que o Espírito Santo, que recebemos no dia do nosso batismo, nos preencha por inteiro e nos transforme, no nosso dia a dia, no concreto da vida, em verdadeiros anunciadores da Boa Nova do Amor, que quer comunicar-se, revelar-se, amar a todos, sem exceção.

“No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, desde o princípio até ao dia em que foi elevado ao Céu, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera. Foi também a eles que, depois da sua paixão, Se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus. Um dia em que estava com eles à mesa, mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, «da qual – disse Ele – Me ouvistes falar. Na verdade, João batizou com água; vós, porém, sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias». Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?». Ele respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». Dito isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos. E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco, que disseram: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».”

Na 2ªleitura  (Ef 1, 17-23) S.Paulo exorta-nos a glorificar Jesus e a contemplar, na Sua Ascensão, a volta da humanidade para o Pai.

“Irmãos: O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de revelação para O conhecerdes plenamente e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o mostra a eficácia da poderosa força que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há de vir. Tudo submeteu aos seus pés e pô-l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.


No evangelho (Mt 28, 16-20) S.Mateus propõe-nos, tal como o fez S. Lucas, na 1ªleitura, a continuação do anúncio do Evangelho de Nossos Senhor Jesus Cristo, hoje, no nosso tempo e na nossa história, em Igreja. Com a certeza de que, apesar de subir para o Pai, Jesus continua connosco, no meio da humanidade inteira, agora, já não de forma física, mas de um modo diferente, pois sobre a ação do Espírito Santo habita-nos por inteiro. Se Lhe quisermos abrir o nosso coração será um connosco, até ao fim dos tempos.

Naquele tempo, os Onze discípulos partiram para a Galileia, em direção ao monte que Jesus lhes indicara. Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram. Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».”

Senhor Jesus, que eu me deixe habitar pelo Espírito Santo, na totalidade do meu ser.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia! 

Hoje, em Itália e em muitos outros países, celebra-se a Ascensão do Senhor. É uma festa que conhecemos bem, mas que pode suscitar algumas perguntas, pelo menos duas. A primeira: por que festejar a partida de Jesus da terra? Poderia parecer que a sua partida é um momento triste, não propriamente um motivo de alegria! Por que festejar uma partida? Primeira pergunta. Segunda pergunta: o que está a fazer Jesus agora no céu? Primeira pergunta: porquê festejar? Segunda pergunta: o que está a fazer Jesus no céu? 

Por que festejamos? Porque com a Ascensão aconteceu uma coisa nova e bela: Jesus levou a nossa humanidade, a nossa carne para o céu – pela primeira vez!  – ou seja, levou-a a Deus. Aquela humanidade, que ele assumira na terra, não ficou aqui. Jesus ressuscitado não era um espírito, não, tinha o seu corpo humano, a carne, os ossos, tudo, ali, com Deus, estará para sempre. Podemos dizer que a partir do dia da Ascensão, o próprio Deus, “mudou”: desde então, já não é apenas um espírito, mas, por quanto nos ama, tem em si a nossa própria carne, a nossa humanidade! Pois o nosso lugar é indicado, o nosso destino está ali. Assim escrevia um antigo Pai na fé: «Notícia maravilhosa! Aquele que se fez homem por nós [...], para nos fazer seus irmãos, apresenta-se como homem diante do Pai, para levar consigo todos os que estão unidos a ele» (S. Gregório de Nissa, Discurso sobre a Ressurreição de Cristo, 1). Hoje celebramos “a conquista do céu”: Jesus que regressa ao Pai, mas com a nossa humanidade. E assim o céu já é um pouco nosso. Jesus abriu a porta e o seu corpo está lá. 

Segunda pergunta: o que está a fazer Jesus no céu? Ele representa-nos perante o Pai, mostra-lhe continuamente a nossa humanidade, mostra-lhe as feridas. Gosto de pensar que Jesus, diante do Pai, mostrando-lhe as chagas, reza assim. “Eis o que sofri pelos homens: faz alguma coisa!”. Mostra-lhe o preço da redenção, e o Pai comove-se. Gosto de pensar nisto. É assim que Jesus reza. Ele, não nos deixou sozinhos. De facto, antes de ascender, disse-nos, como relata o Evangelho de hoje: «Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20). Ele está sempre connosco, olha para nós, está «sempre vivo para interceder» (Hb 7, 25) em nosso favor. Para mostrar as feridas ao Pai, por nós. Numa palavra, Jesus intercede; está no melhor “lugar”, diante do Pai seu e nosso, para interceder por nós. 

A intercessão é fundamental. Também para nós esta fé é útil: ajuda-nos a não perder a esperança, a não desanimar. Perante o Pai, há alguém que lhe mostra as feridas e intercede. Que a Rainha do Céu nos ajude a interceder com a força da oração.

Papa Francisco
(Regina Caeli - 21 de maio de 2023)