Domingo IX do Tempo Comum
SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
Ainda na semana passada retomámos o Tempo Comum e já a liturgia nos oferece hoje, com a solenidade da Santíssima Trindade, uma ocasião especial para contemplarmos Deus – Uma Só Natureza – no Seu Amor tão grande, tão total, tão infinito, em Três Pessoas distintas – Pai, Filho e Espírito Santo. Jesus, Deus Filho, vem até nós e, assumindo a nossa condição humana, vai-nos revelando, com a linguagem quotidiana, naquilo que nos é possível entender, o quanto Deus ama toda a humanidade em geral, e cada um de nós em particular. É Deus Amor, em toda a Sua ternura e misericórdia, enamorado da sua criatura, que se nos revela, assim, Amor sem fim por cada um de nós. Neste mistério sublime, que nos mereceu tão maravilhoso redentor, louvemos o Senhor, que, todo Amor, continua a manifestar-se, a viver, a habitar, na totalidade do que somos e fazemos hoje, séc.XXI, em comunhão com todos aqueles com quem partilhamos a existência do nosso ser.
“Naqueles dias, Moisés levantou-se muito cedo e subiu ao monte Sinai, como
o Senhor lhe ordenara, levando nas mãos as tábuas de pedra. O Senhor desceu na
nuvem, ficou junto de Moisés, que invocou o nome do Senhor. O Senhor passou
diante de Moisés e proclamou: «O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e
compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade».
Moisés caiu de joelhos e prostrou-se em adoração. Depois disse: «Se encontrei,
Senhor, aceitação a vossos olhos, digne-Se o Senhor caminhar no meio de nós. É
certo que se trata de um povo de dura cerviz, mas Vós perdoareis os nossos
pecados e iniquidades e fareis de nós a vossa herança».”
Esta 2ªleitura (2 Cor 13, 11-13) de S.Paulo é uma desafio para
vivermos como filhos de Deus no Seu Único Filho, Jesus Cristo. Somos batizados,
por isso louvamos o Pai, que tomou a iniciativa de nos salvar, damos glória
ao Filho, que, por amor ao Pai, todo Se entregou, na concretização do plano de
Amor do Pai e agradecemos ao Espírito Santo, que age em nós, para continuarmos
a obra do Filho.
“Irmãos: Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição, animai-vos uns aos outros, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Todos os santos vos saúdam. A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco.”
No evangelho (Jo 3, 16-18) S.João, ao trazer, até nós, esta conversa de Jesus com Nicodemos, ajuda-nos
a entrar, mais um pouco, na compreensão do Mistério de Deus. É o apóstolo que
melhor nos transmite que Deus é todo Amor e, mais uma vez, neste evangelho,
escolhe momentos em que Jesus, porque nos ama, revela aspetos da sua intimidade
com o Pai.
“Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita n'Ele já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».”
Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, Solenidade da Santíssima Trindade, o
Evangelho é tirado do diálogo de Jesus com Nicodemos (cf. Jo 3, 16-18). Nicodemos era um membro do Sinédrio, apaixonado pelo mistério de
Deus: reconhece em Jesus um mestre divino e, secretamente, à noite, vai falar
com Ele. Jesus escuta-o, compreende que se trata de um homem em busca e,
primeiro, surpreende-o, respondendo-lhe que, para entrar no Reino de Deus, é
preciso renascer; depois, revela-lhe o centro do mistério, dizendo que Deus
amou de tal modo a humanidade que enviou o seu Filho ao mundo. Jesus, então, o
Filho, fala-nos do Pai e do seu imenso amor.
Pai e
Filho. É uma imagem familiar que, se pensarmos
bem, altera a nossa imaginação sobre Deus. Com efeito, a própria palavra “Deus”
sugere-nos uma realidade singular, majestosa e distante, enquanto que ouvir
falar de um Pai e de um Filho nos reconduz a casa. Sim, podemos pensar em Deus
desta forma, através da imagem de uma
família reunida à volta de uma mesa, onde a vida é partilhada. De resto, a
imagem da mesa, que é ao mesmo tempo um altar, é um símbolo com o qual certos
ícones representam a Trindade. É uma imagem que nos fala de um Deus-comunhão. Pai, Filho e Espírito Santo: comunhão.
Mas não é apenas uma imagem, é realidade! É
realidade porque o Espírito Santo, o Espírito que o Pai, através de Jesus,
derramou nos nossos corações (cf. Gl 4, 6), faz-nos saborear, faz-nos pregustar a presença de Deus: uma
presença sempre próxima, compassiva e terna. O Espírito Santo faz connosco como
Jesus fez com Nicodemos: introduz-nos no mistério do novo nascimento - o
nascimento da fé, da vida cristã -, revela-nos o coração do Pai e torna-nos
participantes da própria vida de Deus.
O convite que nos dirige, poderíamos dizer, é
o de nos sentarmos à mesa com Deus para partilhar o seu amor. Esta é a imagem.
É o que acontece em cada missa, no altar da mesa eucarística, onde Jesus se
oferece ao Pai e se oferece por nós. Sim, é assim, irmãos e irmãs, o nosso Deus
é comunhão de amor: assim Jesus
no-lo revelou. E sabeis como podemos recordar isto? Com o gesto mais simples,
que aprendemos quando éramos crianças: o sinal da cruz. Fazendo o sinal da cruz
no nosso corpo, lembramo-nos de quanto Deus nos amou, a ponto de dar a sua vida
por nós; e repetimos a nós mesmos que o seu amor nos envolve completamente, do
alto para baixo, da esquerda para a direita, como um abraço que nunca nos
abandona. E, ao mesmo tempo, comprometemo-nos a dar testemunho de Deus-amor,
criando comunhão em seu nome. Talvez agora, cada um de nós, e todos juntos,
façamos o sinal da cruz em nós [faz o sinal da cruz].
Então, hoje podemos perguntar-nos: damos
testemunho de Deus-amor? Ou será que o próprio Deus-amor se tornou um conceito,
uma coisa já ouvida, que já não desperta nem provoca a vida? Se Deus é amor, as
nossas comunidades testemunham-no? Sabem amar? As nossas comunidades sabem
amar? E as nossas famílias, sabemos amar em família? Mantemos a porta sempre
aberta, sabemos acolher todos, friso todos, como irmãos e irmãs? Oferecemos a
todos o alimento do perdão de Deus e a alegria evangélica? Respiramos ar de casa
ou assemelhamo-nos mais a um escritório ou a um lugar reservado onde só entram
os eleitos? Deus é amor, Deus é Pai, Filho e Espírito Santo e deu a vida por
nós, por isso fazemos o sinal da cruz.
E que Maria nos ajude a viver a Igreja como a
casa onde amamos de maneira familiar, para a glória de Deus Pai e Filho e
Espírito Santo.
Papa Francisco
(Angelus - 4 de junho de 2023)














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