sábado, 5 de setembro de 2026

 DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM

As leituras de hoje lançam-nos o desafio de nos amarmos uns aos outros sempre, sempre mais e mais, perdidamente (em Deus), em todas as circunstâncias, mas, sobretudo, quando necessitamos de ajuda para modificar comportamentos e atitudes. Todos erramos, errar é humano, por isso também todos precisamos de ser ajudados a corrigir, no que fazemos de mal e, ao mesmo tempo, todos necessitamos de ser perdoados no amor, isso é divino.

Pela 1ªleitura (Ez 33, 7-9)  percebemos que a prática da correção fraterna já vem de longe. Hoje continua a ser assim, como já no tempo dos profetas se fazia: 

Eis o que diz o Senhor: «Filho do homem, coloquei-te como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires a palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte. Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás de morrer’, e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte. Se tu, porém, avisares o ímpio, para que se converta do seu caminho, e ele não se converter, morrerá nos seus pecados, mas tu salvarás a tua vida»”

Na 2ª leitura (Rom 13, 8-10) S.Paulo centra-nos no essencial da nossa fé: o Amor de Deus. Só em Deus tudo tem sentido, incluindo a correção aos irmãos. Sem Deus nada somos, só Ele nos ama infinitamente.

“Irmãos: Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei. De facto, os mandamentos que dizem: «Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás», e todos os outros mandamentos, resumem-se nestas palavras: «Amarás ao próximo como a ti mesmo». A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei.”

Ao  conviver com os outros, percebemos o quanto precisamos deles, para avançarmos no caminho do amor. Não é fácil, acho mesmo que as relações humanas, no nosso quotidiano, são muito complicadas, mas quando a correção é feita em Deus, o Pai vem em nosso auxílio e, mesmo que demore tempo, tudo se resolverá pelo melhor. Façamos como Jesus nos diz no Evangelho de hoje (Mt 18, 15-20), peçamos ajuda a Deus, oremos ao Senhor.

"Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles»." 

Senhor, habita o meu coração, por inteiro, para que eu Te ame nos irmãos.

 Queridos irmãos e irmãs!

As leituras bíblicas da missa deste domingo convergem sobre o tema da caridade fraterna na comunidade dos crentes, que tem a sua nascente na comunhão da Trindade. O apóstolo Paulo afirma que toda a Lei de Deus encontra a sua plenitude no amor, de modo que, nas nossas relações com os outros, os dez mandamentos e qualquer outro preceito se resumem nisto: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (cf. Rm 13, 8-10). O texto do Evangelho, tirado do capítulo 18 de Mateus, dedicado à vida da comunidade cristã, diz-nos que o amor fraterno exige também um sentido de responsabilidade recíproca, pelo que, se o meu irmão comete uma falta contra mim, devo usar de caridade para com ele e, antes de tudo, falar-lhe pessoalmente, recordando-lhe que quanto disse ou fez não é bom. Este modo de agir chama-se correção fraterna: ela não é uma reação à ofensa de que se foi vítima, mas é movida pelo amor ao irmão. Santo Agostinho comenta: «Aquele que te ofendeu, ao ofender-te, causou em si mesmo uma ferida grave, e não te preocupas tu pela ferida de um teu irmão? ... Deves esquecer a ofensa que recebeste, mas não a ferida de um teu irmão» (Discursos 82, 7).

E se o irmão não me ouve? No evangelho de hoje Jesus indica uma gradualidade: primeiro, voltar a falar-lhe com outras duas ou três pessoas, para o ajudar a dar-se conta do que fez; se, mesmo assim, ele não aceita a observação, é preciso dizê-lo à comunidade; e se não ouve nem sequer a comunidade, é necessário fazer-lhe sentir o afastamento que ele mesmo causou, separando-se da comunhão da Igreja. Tudo isto indica que há uma co-responsabilidade no caminho da vida cristã: cada um, consciente dos próprios limites e defeitos, está chamado a aceitar a correção fraterna e a ajudar os outros com este serviço especial.

Outro fruto da caridade na comunidade é a oração concorde. Jesus diz: «Se dois de entre vós se unirem, na terra, para pedir qualquer coisa, obtê-la-ão de Meu Pai que está nos céus. Pois onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 19-20). Certamente a oração pessoal é importante, aliás, indispensável, mas o Senhor garante a sua presença à comunidade que — mesmo se for muito pequena — está unida e é unânime, porque reflete a própria realidade de Deus Uno e Trino, comunhão perfeita de amor. Orígenes dizia que «nos devemos exercitar nesta sinfonia» (Comentário ao Evangelho de Mateus 14, 1), ou seja, nesta concórdia no âmbito da comunidade cristã. Devemos exercitar-nos quer na correção fraterna, que exige muita humildade e simplicidade de coração, quer na oração, para que se eleve a Deus de uma comunidade deveras unida em Cristo. Peçamos tudo isto por intercessão de Maria Santíssima, Mãe da Igreja, e de São Gregório Magno, Papa e Doutor, que ontem recordamos na liturgia.

Papa Bento XVI
(Angelus , 4 de setembro de 2011)

Intenção de oração para setembro convida católicos a rezar pela defesa da água como um direito universal - Ecclesia

sábado, 29 de agosto de 2026

 DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM

A liturgia de hoje faz-nos, mais do que um convite, propõe-nos um desafio: ouvirmos o chamamento de Jesus e deixarmo-nos encantar, seduzir, pelo Senhor, pelo Seu amor infinito por cada um de nós. 

Na 1ªleitura (Jer 20, 7-9)  Jeremias mostra-nos que não é fácil viver uma vida toda entregue a Deus, mas que, quando deixamos que o Seu Amor nos preencha, por inteiro, então é Ele que em nós se dá e se comunica amorosamente, em todos os momentos, “bons” e “maus. Façamos como Jeremias, deixemo-nos seduzir pelo Senhor!

Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; Vós me do­minastes e vencestes. Em todo o tempo sou objeto de escárnio, toda a gente se ri de mim; porque sempre que falo é para gritar e proclamar: «Violência e ruína!». E a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias. Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele, não falarei mais em seu nome». Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia.”

A 2ªleitura (Rom 12, 1-2)  vem na sequência do que nos dizia Jeremias , na leitura anterior, pois S.Paulo indica-nos o caminho a seguir, como cristãos, ou seja, como os que se deixam seduzir pelo Senhor.

Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito.

No evangelho (Mt 16, 21-27) é o próprio Jesus que nos desafia a vivermos d’Ele, para n’Ele assumirmos a nossa resposta de amor ao Pai. Deixemo-nos seduzir por Jesus, pois, para mim, só n’Ele é possível viver o Amor e da cruz fazer árvore de vida!

“Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!». Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens». Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».” 

Senhor, que eu me deixe seduzir por Ti; Senhor, que eu nunca duvide do Teu Amor.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

O trecho evangélico hodierno (cf. Mt 16, 21-27) é a continuação do de domingo passado, no qual se realçava a profissão de fé de Pedro, “rocha” sobre a qual Jesus quer construir a sua Igreja. Hoje, em estridente contraste, Mateus mostra-nos a reação do próprio Pedro quando Jesus revela aos discípulos que deverá padecer em Jerusalém, ser assassinado, ressuscitar (cf. v. 21). Pedro chamou de parte o Mestre e repreende-o, porque isto — diz-lhe — não poderá acontecer com Ele, com Cristo. Mas Jesus, por sua vez, repreende Pedro com palavras duras: «Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!» (v. 23). Pouco antes, o apóstolo tinha sido abençoado pelo Pai, tinha recebido d’Ele aquela revelação, era uma «pedra» sólida a fim de que Jesus pudesse construir sobre ela a sua comunidade; e logo a seguir torna-se um obstáculo, uma pedra mas não para construir, uma pedra de tropeço no caminho do Messias. Jesus sabe bem que Pedro e os outros têm ainda muita estrada a percorrer para se tornarem seus apóstolos!

Neste ponto, o Mestre dirige-se a todos os que o seguiam, apresentando-lhes com clareza o caminho que devem percorrer: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz e siga-me» (v. 24). Também hoje, há a tentação de querer sempre seguir um Cristo sem cruz, aliás, de ensinar a Deus a estrada certa, como fez Pedro: “Não, não Senhor, isto não, nunca acontecerá”. Mas Jesus recorda-nos que o seu caminho é o do amor, e não há amor verdadeiro sem o sacrifício de si mesmo. Somos chamados a não nos deixarmos absorver pela visão deste mundo, mas a estar cada vez mais cientes da necessidade e da fadiga para nós cristãos de caminhar contracorrente e em subida.

Jesus contempla a sua proposta com palavras que exprimem uma grande sabedoria sempre válida, porque desafiam a mentalidade e os comportamentos egocêntricos. Ele exorta: «Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recuperá-la-á» (v. 25). Neste paradoxo está contida a regra de ouro que Deus inscreveu na natureza humana criada em Cristo: a regra que só o amor dá sentido e felicidade à vida. Dedicar os próprios talentos, as próprias energias e o próprio tempo só para salvar, proteger e realizar-se a si mesmos, leva na realidade a perder-se, ou seja, a uma existência triste e estéril. Ao contrário, vivamos pelo Senhor e construamos a nossa vida no amor, como fez Jesus: poderemos saborear a alegria autêntica, e a nossa vida não será estéril, será fecunda.

Na celebração da Eucaristia revivemos o mistério da cruz; não só recordamos, mas compreendemos o memorial do Sacrifício redentor, em que o Filho de Deus se perde completamente a Si mesmo para se receber de novo do Pai e assim nos reecontrar, a nós que estávamos perdidos, juntamente com todas as criaturas. Todas as vezes que participamos na Santa Missa, o amor de Cristo crucificado e ressuscitado comunica-se a nós como alimento e bebida, para que possamos segui-Lo no caminho de cada dia, no serviço concreto dos irmãos.

Maria Santíssima, que seguiu Jesus até ao Calvário, nos acompanhe também a nós e nos ajude a não ter medo da cruz, mas com Jesus crucificado, e não uma cruz sem Jesus, a cruz com Jesus, ou seja, a cruz de sofrer por amor de Deus e dos irmãos, porque esse sofrimento, pela graça de Cristo, é fecundo de ressurreição.

Papa Francisco
(Angelus , 3 de setembro de 2017)

sábado, 22 de agosto de 2026

 DOMINGO XXI DO TEMPO COMUM

As leituras de hoje centram-nos em duas realidades fundamentais da nossa fé: Jesus Cristo e a Igreja. Somos convidados a viver numa Igreja, centrada em Jesus Cristo, em que cada um tem a sua missão, estando esta sempre ao serviço da transmissão do Amor de Deus numa perspetiva de entrega e ajuda concreta a todo aquele que o Senhor coloca nos nossos caminhos.

Na 1ªleitura (Is 22, 19-23) as chaves “do poder” são entregues a Eliacim, que personifica Pedro, que vamos encontrar no evangelho. Ajuda-nos a percecionar que o poder é serviço de Amor, de comunhão e de relação total com Deus. Só assim valerá a pena servir, “ter o poder”, pois só o Amor de Deus preenche o coração de cada ser por Ele criado, tudo o mais é falível e efémero. 

“Eis o que diz o Senhor a Chebna, administrador do palácio: «Vou expulsar-te do teu cargo, remover-te do teu posto. E nesse mesmo dia chamarei o meu servo Eliacim, filho de Elcias. Hei de revesti-lo com a tua túnica, hei de pôr-lhe à cintura a tua faixa, entregar-lhe nas mãos os teus poderes. E ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei aos seus ombros a chave da casa de David: há de abrir, sem que ninguém possa fechar; há de fechar, sem que ninguém possa abrir. Fixá-lo-ei como uma estaca em lugar firme e ele será um trono de glória para a casa de seu pai».”

Na 2ª leitura (Rom 11, 33-36) S.Paulo, mais uma vez, leva-nos a contemplar Deus através de um hino lindíssimo.  Acompanhemos S.Paulo neste poema-oração. 

“Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus! Como são insondáveis os seus desígnios e incompreensíveis os seus caminhos! Quem conheceu o pensamento do Senhor? Quem foi o seu conselheiro? Quem Lhe deu primeiro, para que tenha de receber retribuição? D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas. Glória a Deus para sempre. Ámen.”

O Evangelho (Mt 16, 13-20) convida-nos a escutar Jesus, a olhar bem para o mais íntimo do nosso ser e a responder, em verdade, às questões que nos põe: quem dizes tu que Eu sou?; o que represento Eu na tua vida?; que testemunho dás tu de Mim, no concreto do teu dia a dia?

“Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?». Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas». Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus». Então, Jesus ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias.”

Eu creio Senhor que é Jesus, o Filho de Deus Vivo, que ressuscitou dos mortos e vives em cada um de nós!


Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, no Evangelho (cf. Mt 16, 13-20), Jesus faz uma boa pergunta aos discípulos: «Quem dizeis que é o Filho do homem?» (v. 13).

É uma pergunta que também podemos fazer a nós próprios: o que dizem as pessoas de Jesus? Geralmente coisas positivas: muitos vêem-no como um grande mestre, como uma pessoa especial: boa, justa, coerente, corajosa... Mas será isto suficiente para compreender quem é e, sobretudo, será suficiente para Jesus? Parece que não. Se Ele fosse apenas uma figura do passado - como as figuras mencionadas no mesmo Evangelho, João Batista, Moisés, Elias e os grandes profetas eram para as pessoas da época - seria apenas uma bela recordação de um tempo passado. E isso não agrada a Jesus. Portanto, logo a seguir, o Senhor faz aos discípulos a pergunta decisiva: «Mas vós - vós! - quem dizeis que eu sou?» (v. 15). Quem sou eu para vós agora? Jesus não quer ser um protagonista da história, mas quer ser protagonista do teu hoje, do meu hoje; não um profeta distante: Jesus quer ser o Deus próximo!

Cristo, irmãos e irmãs, não é uma memória do passado, mas o Deus do presente. Se fosse apenas uma figura histórica, imitá-lo hoje seria impossível: encontrar-nos-íamos perante a grande vala do tempo e, sobretudo, perante o seu modelo, que é como uma montanha muito alta e inalcançável; desejosos de a escalar, mas desprovidos da capacidade e dos meios necessários. Em vez disso, Jesus está vivo: recordemo-lo, Jesus está vivo, Jesus vive na Igreja, vive no mundo, Jesus acompanha-nos, Jesus está ao nosso lado, oferece-nos a sua Palavra, oferece-nos a sua graça, que iluminam e restabelecem no caminho: Ele, guia experiente e sábio, está feliz por nos acompanhar nos caminhos mais difíceis e nas subidas mais árduas.

Queridos irmãos e irmãs, no caminho da vida não estamos sozinhos, porque Cristo está connosco, Cristo ajuda-nos a caminhar, como fez com Pedro e com os outros discípulos. É precisamente Pedro, no Evangelho de hoje, que compreende isto e, por graça, reconhece em Jesus «o Cristo, o Filho de Deus vivo» (v. 16): «Tu és o Cristo, Tu és o Filho de Deus vivo», diz Pedro; não é um personagem do passado, mas o Cristo, isto é, o Messias, aquele que é esperado; não um herói morto, mas o Filho de Deus vivo, feito homem e vindo partilhar as alegrias e as fadigas do nosso caminho. Não desanimemos se por vezes o cume da vida cristã parecer demasiado alto e o caminho demasiado íngreme. Olhemos para Jesus, sempre; olhemos para Jesus que caminha ao nosso lado, que acolhe as nossas fragilidades, partilha os nossos esforços e apoia o seu braço firme e suave sobre os nossos ombros fracos. Com Ele ao nosso lado, estendamos também a mão uns aos outros e renovemos a confiança: com Jesus, o que parece impossível por nós próprios já não é impossível, com Jesus podemos ir em frente!

Hoje, far-nos-á bem repetir a pergunta decisiva que sai da sua boca: «Quem dizeis que eu sou?» (cf. v. 15). Tu - diz-te Jesus - tu, quem dizes que eu sou? Ouvimos a voz de Jesus a perguntar-nos isto. Por outras palavras: quem é Jesus para mim? Um grande personagem, um ponto de referência, um modelo inatingível? Ou é o Filho de Deus, que caminha ao meu lado, que me pode levar ao cume da santidade, onde não posso chegar sozinho? Jesus está realmente vivo na minha vida, Jesus vive comigo? É o meu Senhor? Confio-me a Ele nos momentos de dificuldade? Cultivo a sua presença através da Palavra, através dos Sacramentos? Deixo-me guiar por Ele, juntamente com os meus irmãos e irmãs, na comunidade?

Maria, Mãe do Caminho, nos ajude a sentir o seu Filho vivo e presente ao nosso lado.

Papa Francisco
(Angelus , 27 de agosto de 2023)

sábado, 15 de agosto de 2026

 DOMINGO XX DO TEMPO COMUM

As leituras de hoje conduzem-nos pelos caminhos da universalidade do amor de Deus. Ainda que tenha começado no povo eleito, o destino final, do Seu Amor infinito, são todos os que O acolhem de coração sincero, independentemente da sua raça, país, ou época histórica.

Na 1ªleitura (I 56, 1.6-7) , Isaías vem em socorro de nós, os gentios, e traz-nos a garantia de que, se tivermos fé, Deus também vem para nós, aliás,  já veio e para todos os povos: 

«Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, hei de conduzi-los ao meu santo monte, hei de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada 'casa de oração para todos os povos'»

Na 2ªleitura (Rom 11, 13-15.29-32)  S.Paulo, por graça de Deus, apóstolo dos gentios, abre-nos uma perspectiva muito interessante, pois se foi pela recusa do povo eleito que todos beneficiámos do anúncio privilegiado da Ressurreição de Jesus, quem sabe se não será, através dos gentios, que os judeus chegarão a acreditar que Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus, que veio ao mundo para salvar toda a humanidade. 

“Irmãos: É a vós, os gentios, que eu falo: Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, procurarei prestigiar o meu ministério a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça e salvo alguns deles. Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração senão uma ressurreição de entre os mortos? Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis. Vós fostes outrora desobedientes a Deus e agora alcançastes misericórdia, devido à desobediência dos judeus. Assim também eles desobedecem agora, de modo que, devido à misericórdia obtida por vós, também eles agora alcancem misericórdia. Efetivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos.”

No Evangelho de hoje (Mt 15, 21-28), primeiro estranhamos a forma como Jesus, aparentemente, não escuta o pedido da mulher cananeia, mas depois percebemos que foi a forma mais bonita e, ao mesmo tempo, mais pedagógica, quer para os discípulos, quer também para nós hoje, de realçar a força da fé daquela mãe. Por outro lado, o evangelho também nos desperta para a necessidade de intercedermos uns pelos outros, como fizeram os discípulos, ao pedirem a Jesus para atender as súplicas daquela mulher. Deus nunca nos deixa sem resposta, nós é que, muitas vezes, demasiado depressa, desistimos de orar. Não somos como esta mãe. Que testemunho de fé impressionante!

“Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia. Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós». Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor». Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.” 

Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.

Caros irmãos e irmãs

Neste 20º domingo do tempo comum, a liturgia propõe à nossa reflexão as palavras do profeta Isaías:  "Aos estrangeiros que aderiram ao Senhor para lhe prestar culto / ... Vou levá-los para a minha montanha santa / vou fazê-los felizes na minha casa de oração / ... porque a minha casa será chamada / casa de oração para todos os povos" (Is 56, 6-7). À universalidade da salvação faz referência também o Apóstolo Paulo na segunda leitura, assim como a página evangélica que narra o episódio da mulher cananeia, uma estrangeira em relação aos judeus, atendida por Jesus em virtude da sua grande fé. A Palavra de Deus oferece-nos, assim, a oportunidade de refletir sobre a universalidade da missão da Igreja, constituída por povos de todas as raças e culturas. É precisamente daqui que provém a grandiosa responsabilidade da comunidade eclesial, chamada a ser uma casa hospitaleira para todos, sinal e instrumento de comunhão para toda a família humana.

Como é importante, sobretudo no nosso tempo, que cada comunidade cristã aprofunde cada vez mais esta sua consciência, com a finalidade de ajudar também a sociedade civil a superar toda a possível tentação de racismo, de intolerância e de exclusão, e a organizar-se com opções respeitosas da dignidade de cada ser humano! Com efeito, uma das grandes conquistas da humanidade é precisamente a superação do racismo. No entanto, infelizmente, em vários países registam-se novas e preocupantes manifestações do mesmo, ligadas muitas vezes a problemas sociais e económicos, que todavia jamais podem justificar o desprezo e a discriminação racial. Oremos a fim de que em toda a parte aumente o respeito por todas as pessoas, juntamente com a responsável consciência de que somente no acolhimento recíproco de todos é possível construir um mundo caracterizado pela justiça autêntica e pela paz verdadeira.

Agora, gostaria de propor mais uma intenção pela qual rezar, tendo em consideração as notícias que chegam, especialmente neste período, de numerosos e graves acidentes rodoviários. Não podemos habituar-nos a esta triste realidade! Efetivamente, é demasiado precioso o bem da vida humana, e demasiado indigno do homem, morrer ou encontrar-se inválido por causas que, na maior parte dos casos, poderiam ser evitadas. Sem dúvida, é necessário um maior sentido de responsabilidade. Antes de mais nada da parte dos automobilistas, porque os acidentes são frequentemente devidos à velocidade excessiva e a comportamentos imprudentes. Guiar um veículo nas estradas públicas exige sentido moral e sentido cívico. Para a promoção deste último, é indispensável a constante obra de prevenção, vigilância e repressão da parte das autoridades. No entanto, como Igreja sentimo-nos diretamente interpelados no plano ético:  antes de tudo, os cristãos devem fazer um exame de consciência pessoal sobre o seu comportamento de automobilistas; além disso, as comunidades eduquem todos a considerar também a condução como um campo onde defender a vida e exercer concretamente o amor pelo próximo.

Confiemos as problemáticas sociais que recordei à intercessão materna de Maria, que agora invocamos coralmente com a recitação do Angelus.

Papa Bento XVI

(Angelus, 17 de agosto de 2008)

Amados irmãos e irmãs!

O trecho evangélico deste domingo inicia com a indicação da região para onde Jesus se dirigia: Tiro e Sidónia, no nordeste da Galileia, terra pagã. E é ali que Ele se encontra com uma mulher cananeia, que lhe pede para curar a filha atormentada pelo demónio (cf. Mt 15, 22). Já podemos entrever neste pedido um início do caminho da fé, que no diálogo com o Mestre divino cresce e se reforça. A mulher não tem medo de bradar a Jesus: «Tem piedade de mim, Senhor», uma expressão que se repete nos Salmos (cf. 50, 1), chama-lhe «Senhor» e «Filho de David» (cf. Mt 15, 22), manifestando assim uma esperança firme de que será atendida. Qual é a atitude do Senhor diante daquele grito de dor de uma mulher pagã? Poderia parecer desconcertante o silêncio de Jesus, a ponto de suscitar a intervenção dos discípulos, mas não se trata de insensibilidade ao sofrimento daquela mulher. Santo Agostinho comenta justamente: «Cristo mostrava-se indiferente para com ela, não para lhe negar a misericórdia mas para lhe inflamar o desejo» (Sermo 77, 1: pl 38, 483). A indiferença aparente de Jesus, que diz: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» (v. 24), não desencoraja a cananeia, que insiste: «Socorre-me, Senhor» (v. 25). E mesmo quando recebe uma resposta que parece impedir toda a esperança — «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorros» (v. 26) — não desiste. Nada quer tirar aos outros: na sua simplicidade e humildade basta-lhe pouco, são suficientes as migalhas, bastam-lhe somente um olhar, uma boa palavra do Filho de Deus. E Jesus admira-se por esta resposta de fé tão grande e diz-lhe: «Faça-se como desejas» (v. 28)

Queridos amigos, também nós somos chamados a crescer na fé, a abrir-nos e receber com liberdade o dom de Deus, a ter confiança e bradar a Jesus: «dá-nos fé, ajuda-nos a encontrar o caminho!». O caminho que Jesus fez realizar aos seus discípulos, à cananeia, aos homens de todos os tempos e povos e a cada um de nós. A fé abre-nos para conhecer e receber a identidade real de Jesus, a sua novidade e unicidade, a sua Palavra, como fonte de vida, a fim de viver uma relação pessoal com Ele. O conhecimento da fé cresce com o desejo de encontrar a estrada e, enfim, é um dom de Deus que se nos revela não como algo abstracto sem rosto nem nome, mas a fé corresponde a uma Pessoa, que quer entrar numa relação de amor profundo connosco e envolver toda a nossa vida. Por isso, todos os dias o nosso coração deve viver a experiência da conversão, realizar a nossa passagem de homens fechados em nós mesmos para homens abertos à ação de Deus, homens espirituais (cf. 1 Cor 2, 13-14), que se deixam interpelar pela Palavra do Senhor e abrem a própria vida ao seu Amor.

Estimados irmãos e irmãs, por isso alimentemos todos os dias a nossa fé com a escuta profunda da Palavra de Deus, com a celebração dos Sacramentos, com a oração pessoal como «grito» a Ele e com a caridade pelo próximo. Invoquemos a intercessão da Virgem Maria, que amanhã contemplaremos na sua gloriosa assunção ao céu de corpo e alma, para que nos ajude a anunciar e testemunhar com a vida a alegria de ter encontrado o Senhor.

Papa Bento XVI

(Angelus, 14 de agosto de 2011)