sábado, 19 de setembro de 2026

DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM

Hoje as leituras colocam a fasquia a um nível muito alto. O desafio vai, à primeira vista, para além do que nos parece razoável. Na verdade, só quem se deixa habitar, totalmente, por Deus consegue aderir à proposta que o Senhor hoje nos faz: amar o outro, que é sempre imagem de Deus, seja ele trabalhador desde a primeira hora, ou apenas após a última hora. Para Deus não há diferença, pois todos são seus filhos queridíssimos, a quem ama sempre e infinitamente.

Isaías, na 1ªleitura (Is 55, 6-9), prepara-nos para a escuta do Evangelho. Como os nossos pensamentos, os nossos juízos, estão a miríades de distância dos de Deus! Quantas discussões travadas por causa do evangelho de hoje, sem conseguirmos chegar a acordo… Certezas de quem é jovem! Mas mesmo hoje, passados tantos anos, com tantos caminhos percorridos, com a cabeça já branca, ainda assim, continua a não ser fácil. Só Deus ama, mas n'Ele, por Jesus também nós podemos amar. Deixemo-nos fazer por Ele.

Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar, invocai-O, enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos. Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele, ao nosso Deus, que é generoso em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus - oráculo do Senhor -. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os meus pensamentos.

Na 2ª leitura (Filip 1, 20c-24.27a) o apóstolo prova-nos que é possível viver de Deus e apoiado só n'Ele, por Jesus Cristo, Seu Único Filho. O texto de hoje  , que S.Paulo nos deixou, é exemplo desta sua entrega total a Deus.

“Irmãos: Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva quer eu morra. Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Mas, se viver neste corpo mortal me permite um trabalho útil, não sei o que escolher. Sinto-me constrangido por este dilema: desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor; mas é mais necessário para vós que eu permaneça neste corpo mortal. Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo.”

No Evangelho (Mt 20, 1-16a ), Jesus conta-nos uma parábola que revela o quanto Deus ama cada um dos seus filhos, isto é, infinitamente. A medida do Amor de Deus não cabe no nossos esquemas, na nossa justiça, na nossa forma de tudo calcularmos e legislarmos. Deus vai muito para além de todos os nossos critérios. Deus é todo Amor e dá-se continuamente em Jesus Cristo, por cada um de nós. Assim, dá tudo, dá-se todo, tanto ao trabalhador da primeira hora, como ao da última. Fazer diferente seria contrariar a Sua Natureza. Deus é Amor sempre e para sempre, por todos e por cada uma das suas criaturas. Assim, a esta luz, a parábola faz todo o sentido. Bendito e louvado seja Deus pelo Amor que nos tem.

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um pro­prie­tário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizen­do: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primei­ros e os primeiros serão os últimos».” 

Senhor, que eu me deixe inundar, fazer por Ti, a cada momento e responda sempre ao Teu convite de amor. Louvado sejas hoje e sempre, pelos séculos sem fim.

Estimados irmãos e irmãs!

Desejo refletir novamente sobre uma parábola de Jesus. Também neste caso se trata de uma narração que alimenta a nossa esperança. Com efeito, às vezes temos a impressão de não conseguir encontrar um sentido para a nossa vida: sentimo-nos inúteis, inadequados, precisamente como os operários que aguardam na praça do mercado, à espera que alguém os leve para trabalhar. Mas por vezes o tempo passa, a vida corre, e não nos sentimos reconhecidos nem apreciados. Talvez não tenhamos chegado a tempo, talvez outros se tenham apresentado antes de nós, ou porventura as preocupações nos tenham detido noutro lugar.

A metáfora da praça do mercado é muito adequada até aos nossos tempos, pois o mercado é o lugar dos negócios, onde infelizmente as pessoas compram e vendem até o afeto e a dignidade, procurando obter algum lucro. E quando não se sentem valorizadas, reconhecidas, chegam a correr o risco de se vender ao primeiro licitante. Ao contrário, o Senhor recorda-nos que a nossa vida tem valor, e o seu desejo é ajudar-nos a descobri-lo.

Também na parábola que hoje comentamos, há operários que esperam que alguém os faça trabalhar por um dia. Estamos no capítulo 20 do Evangelho de Mateus e inclusive aqui encontramos uma figura que tem um comportamento insólito, que surpreende e questiona. É o dono de uma vinha que sai pessoalmente para ir em busca dos seus operários. Evidentemente, quer estabelecer uma relação pessoal com eles.

Como eu dizia, trata-se de uma parábola que infunde esperança, porque nos diz que este dono sai várias vezes à procura de quem espera dar um sentido à sua vida. O dono sai imediatamente de madrugada e depois, de três em três horas, volta a procurar trabalhadores para enviar à sua vinha. Seguindo este esquema, depois de sair às três horas da tarde, já não haveria razão para sair novamente, dado que o dia de trabalho terminava às seis horas.

Pelo contrário, este dono incansável, que quer valorizar a vida de cada um a todo o custo, sai também às cinco horas. Os trabalhadores que permaneceram na praça do mercado provavelmente tinham perdido toda a esperança. Aquele dia tinha sido em vão. E, no entanto, alguém ainda acreditou neles. Que sentido tem chamar operários só para a última hora do dia de trabalho? Que sentido tem ir trabalhar apenas uma hora? Contudo, até quando nos parece que podemos fazer pouco na vida, vale sempre a pena. Há sempre a possibilidade de encontrar um sentido, pois Deus ama a nossa vida! 

Eis que a originalidade deste dono se vê também no fim do dia, na hora do pagamento. Com os primeiros trabalhadores, aqueles que vão para a vinha de madrugada, o dono tinha estabelecido um denário, que era o custo típico de um dia de trabalho. Para os outros, diz que lhes dará o que for justo. E é precisamente aqui que a parábola volta a provocar-nos: o que é justo? Para o dono da vinha, isto é, para Deus, é justo que cada um tenha o necessário para viver. Ele chamou pessoalmente os trabalhadores, conhece a sua dignidade e quer pagar-lhes com base nela. E dá a todos um denário.

A história diz que os trabalhadores da primeira hora ficam desiludidos: não conseguem ver a beleza do gesto do dono, que não foi injusto, mas simplesmente generoso, não considerou apenas o mérito, mas também a necessidade. Deus quer dar a todos o seu Reino, ou seja, a vida plena, eterna e feliz. E é o que Jesus faz em relação a nós: não faz classificações, dá tudo de Si mesmo a quantos lhe abrem o coração!

À luz desta parábola, o cristão de hoje poderia ser tentado a pensar: “Por que começar a trabalhar imediatamente? Se a remuneração é a mesma, por que trabalhar mais?”. Santo Agostinho respondia assim a estas dúvidas: «Por que razão, pois, demoras em seguir quem te chama, enquanto estás certo da remuneração, mas incerto quanto ao dia? Presta atenção a não tirares de ti, devido à tua hesitação, o que ele te oferecer em conformidade com a sua promessa» (Discurso 87, 6, 8).

Gostaria de dizer, especialmente aos jovens, que não esperem, mas que respondam com entusiasmo ao Senhor que nos chama a trabalhar na sua vinha. Não demoreis, arregaçai as mangas, pois o Senhor é generoso e não ficareis desiludidos! Trabalhando na sua vinha, encontrareis a resposta àquela pergunta profunda que trazeis dentro de vós: qual é o sentido da minha vida?

Caros irmãos e irmãs, não desanimemos! Até nos momentos obscuros da vida, quando o tempo passa sem nos dar as respostas que procuramos, peçamos ao Senhor que volte a sair e nos alcance onde estamos à sua espera. O Senhor é generoso e virá em breve!

Papa Leão XIV
(Angelus , 4 de junho de 2025)

sábado, 12 de setembro de 2026

 DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM

As leituras deste domingo, a meu ver, estão na mesma linha (amor infinito de Deus por cada um de nós) dos textos da semana passada, mas numa sequência crescente. Se, então, éramos exortados a “corrigir os que erram”, hoje somos desafiados a ir muito mais longe, no caminho que nos leva a Jesus, perdoando totalmente (no amor divino) sempre, sempre, sempre e cada vez mais, os que connosco convivem, ou se cruzam nos caminhos da vida, tendo como meta o encontro, de cada um, com o amor infinito de Deus.

A 1ªleitura (Sir 27, 33 – 28, 9)  traz-nos um confronto, ou melhor, uma correlação entre o perdão de Deus e o perdão dos homens. Acredito sinceramente que só perdoamos verdadeiramente quem nos ofende, quando Deus, no nosso coração, ama a outra pessoa. Então, sim o perdão é verdadeiro e total, passa a ato de amor.

O rancor e a ira são coisas detestáveis, e o pecador é mestre nelas. Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor, que pedirá minuciosa conta de seus pecados. Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas. Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus que o cure? Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados? Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor, quem lhe alcançará o perdão das suas faltas? Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos. Recorda os mandamentos e não tenhas rancor ao próximo; pensa na aliança do Altíssimo e não repares nas ofensas que te fazem.” 

Na 2ª leitura (Rom 14, 7-9) S. Paulo diz-nos que somos de Cristo e que só n’Ele seremos completamente felizes, porque a Ele pertencemos, uma vez que nos reconquistou para Deus.

“Irmãos: Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos.”

No evangelho (Mt 18, 21-35) Jesus, através de uma parábola, leva-nos a reconhecer o quanto Deus é misericordioso para connosco. Como Deus é diferente de nós. Deus só sabe amar! Nós, precisamos de aprender d’Ele a perdoar, a amar.

“Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:«Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».

Ensina-me Senhor a amar aqueles com quem convivo diariamente, mas também os que ocasionalmente pões no meu caminho.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje o Evangelho fala-nos de perdão (cf. Mt 18, 21-35). Pedro pergunta a Jesus: «Senhor, se o meu irmão me ofender quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» (v. 21).

Sete, na Bíblia, é um número que indica plenitude, e por isso Pedro é muito generoso nas hipóteses da sua pergunta. Mas Jesus vai mais longe e responde-lhe: «Não te digo sete vezes, mas setenta vezes sete» (v. 22). Diz-lhe, portanto, que quando se perdoa não se calcula, que é bom perdoar tudo e sempre! Tal como Deus faz connosco, e como são chamados a fazer aqueles que administram o perdão de Deus: perdoar sempre. Digo isto aos padres, aos confessores: perdoai sempre como Deus perdoa.

Jesus ilustra então esta realidade através de uma parábola, que tem sempre a ver com números. Um rei, depois de ter sido implorado, perdoa a um servo a dívida de 10.000 talentos: é um valor exagerado, imenso, que varia entre 200 e 500 toneladas de prata: exagerado. Era uma dívida impossível de saldar, mesmo trabalhando toda a vida: mas aquele senhor, que recorda o nosso Pai, perdoa-lhe por pura «compaixão» (v. 27). É assim o coração de Deus: perdoa sempre, porque Deus é compassivo. Não esqueçamos como é Deus: próximo, compassivo e terno; este é o modo de ser de Deus. Mas depois este servo, ao qual a dívida foi perdoada, não tem piedade de outro servo que lhe deve 100 denários. Também esta é uma soma substancial, equivalente a cerca de três meses de salário - como se quisesse dizer que perdoar uns aos outros tem um preço! - mas não é de modo algum comparável à quantia anterior, que o patrão tinha perdoado.

A mensagem de Jesus é clara: Deus perdoa incalculavelmente, ultrapassando todas as medidas. Ele é assim, age por amor e por gratuidade. Deus não pode ser comprado, Deus é gratuito, é todo gratuidade. Não podemos retribuir-lhe, mas quando perdoamos ao nosso irmão ou irmã, imitamo-lo. Perdoar não é, portanto, uma boa ação que se pode fazer ou deixar de fazer: perdoar é uma condição fundamental para quem é cristão. Cada um de nós, de facto, é um “perdoado” ou uma “perdoada”: não esqueçamos isto, nós somos perdoados, Deus deu a vida por nós e de modo algum podemos compensar a sua misericórdia, que ele nunca retira do coração. Mas, correspondendo à sua gratuidade, isto é, perdoando-nos uns aos outros, podemos dar testemunho dele, semeando vida nova à nossa volta. Porque fora do perdão não há esperança, fora do perdão não há paz. O perdão é o oxigénio que purifica o ar poluído pelo ódio, o perdão é o antídoto que cura os venenos do ressentimento, é o caminho para desarmar a raiva e curar tantas doenças do coração que contaminam a sociedade.

Perguntemo-nos então: acredito que recebi de Deus o dom de um perdão imenso? Sinto a alegria de saber que Ele está sempre pronto a perdoar-me quando peco, até quando os outros não o fazem, ou até quando nem eu próprio me consigo perdoar? Ele perdoa: acredito que Ele perdoa? E depois: sei perdoar, por minha vez, aqueles que me ofenderam? A este respeito, gostaria de vos propor um pequeno exercício: procuremos, agora, cada um de nós, pensar numa pessoa que nos ofendeu e peçamos ao Senhor a força para a perdoar. E perdoemo-la por amor ao Senhor: irmãos e irmãs, isso far-nos-á bem, restaurará a paz nos nossos corações.

Maria, Mãe de Misericórdia, nos ajude a aceitar a graça de Deus e a perdoarmo-nos uns aos outros.

Papa Francisco
(Angelus , 17 de setembro de 2023)

sábado, 5 de setembro de 2026

 DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM

As leituras de hoje lançam-nos o desafio de nos amarmos uns aos outros sempre, sempre mais e mais, perdidamente (em Deus), em todas as circunstâncias, mas, sobretudo, quando necessitamos de ajuda para modificar comportamentos e atitudes. Todos erramos, errar é humano, por isso também todos precisamos de ser ajudados a corrigir, no que fazemos de mal e, ao mesmo tempo, todos necessitamos de ser perdoados no amor, isso é divino.

Pela 1ªleitura (Ez 33, 7-9)  percebemos que a prática da correção fraterna já vem de longe. Hoje continua a ser assim, como já no tempo dos profetas se fazia: 

Eis o que diz o Senhor: «Filho do homem, coloquei-te como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires a palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte. Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás de morrer’, e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte. Se tu, porém, avisares o ímpio, para que se converta do seu caminho, e ele não se converter, morrerá nos seus pecados, mas tu salvarás a tua vida»”

Na 2ª leitura (Rom 13, 8-10) S.Paulo centra-nos no essencial da nossa fé: o Amor de Deus. Só em Deus tudo tem sentido, incluindo a correção aos irmãos. Sem Deus nada somos, só Ele nos ama infinitamente.

“Irmãos: Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei. De facto, os mandamentos que dizem: «Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás», e todos os outros mandamentos, resumem-se nestas palavras: «Amarás ao próximo como a ti mesmo». A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei.”

Ao  conviver com os outros, percebemos o quanto precisamos deles, para avançarmos no caminho do amor. Não é fácil, acho mesmo que as relações humanas, no nosso quotidiano, são muito complicadas, mas quando a correção é feita em Deus, o Pai vem em nosso auxílio e, mesmo que demore tempo, tudo se resolverá pelo melhor. Façamos como Jesus nos diz no Evangelho de hoje (Mt 18, 15-20), peçamos ajuda a Deus, oremos ao Senhor.

"Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles»." 

Senhor, habita o meu coração, por inteiro, para que eu Te ame nos irmãos.

 Queridos irmãos e irmãs!

As leituras bíblicas da missa deste domingo convergem sobre o tema da caridade fraterna na comunidade dos crentes, que tem a sua nascente na comunhão da Trindade. O apóstolo Paulo afirma que toda a Lei de Deus encontra a sua plenitude no amor, de modo que, nas nossas relações com os outros, os dez mandamentos e qualquer outro preceito se resumem nisto: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (cf. Rm 13, 8-10). O texto do Evangelho, tirado do capítulo 18 de Mateus, dedicado à vida da comunidade cristã, diz-nos que o amor fraterno exige também um sentido de responsabilidade recíproca, pelo que, se o meu irmão comete uma falta contra mim, devo usar de caridade para com ele e, antes de tudo, falar-lhe pessoalmente, recordando-lhe que quanto disse ou fez não é bom. Este modo de agir chama-se correção fraterna: ela não é uma reação à ofensa de que se foi vítima, mas é movida pelo amor ao irmão. Santo Agostinho comenta: «Aquele que te ofendeu, ao ofender-te, causou em si mesmo uma ferida grave, e não te preocupas tu pela ferida de um teu irmão? ... Deves esquecer a ofensa que recebeste, mas não a ferida de um teu irmão» (Discursos 82, 7).

E se o irmão não me ouve? No evangelho de hoje Jesus indica uma gradualidade: primeiro, voltar a falar-lhe com outras duas ou três pessoas, para o ajudar a dar-se conta do que fez; se, mesmo assim, ele não aceita a observação, é preciso dizê-lo à comunidade; e se não ouve nem sequer a comunidade, é necessário fazer-lhe sentir o afastamento que ele mesmo causou, separando-se da comunhão da Igreja. Tudo isto indica que há uma co-responsabilidade no caminho da vida cristã: cada um, consciente dos próprios limites e defeitos, está chamado a aceitar a correção fraterna e a ajudar os outros com este serviço especial.

Outro fruto da caridade na comunidade é a oração concorde. Jesus diz: «Se dois de entre vós se unirem, na terra, para pedir qualquer coisa, obtê-la-ão de Meu Pai que está nos céus. Pois onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 19-20). Certamente a oração pessoal é importante, aliás, indispensável, mas o Senhor garante a sua presença à comunidade que — mesmo se for muito pequena — está unida e é unânime, porque reflete a própria realidade de Deus Uno e Trino, comunhão perfeita de amor. Orígenes dizia que «nos devemos exercitar nesta sinfonia» (Comentário ao Evangelho de Mateus 14, 1), ou seja, nesta concórdia no âmbito da comunidade cristã. Devemos exercitar-nos quer na correção fraterna, que exige muita humildade e simplicidade de coração, quer na oração, para que se eleve a Deus de uma comunidade deveras unida em Cristo. Peçamos tudo isto por intercessão de Maria Santíssima, Mãe da Igreja, e de São Gregório Magno, Papa e Doutor, que ontem recordamos na liturgia.

Papa Bento XVI
(Angelus , 4 de setembro de 2011)

Intenção de oração para setembro convida católicos a rezar pela defesa da água como um direito universal - Ecclesia

sábado, 29 de agosto de 2026

 DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM

A liturgia de hoje faz-nos, mais do que um convite, propõe-nos um desafio: ouvirmos o chamamento de Jesus e deixarmo-nos encantar, seduzir, pelo Senhor, pelo Seu amor infinito por cada um de nós. 

Na 1ªleitura (Jer 20, 7-9)  Jeremias mostra-nos que não é fácil viver uma vida toda entregue a Deus, mas que, quando deixamos que o Seu Amor nos preencha, por inteiro, então é Ele que em nós se dá e se comunica amorosamente, em todos os momentos, “bons” e “maus. Façamos como Jeremias, deixemo-nos seduzir pelo Senhor!

Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; Vós me do­minastes e vencestes. Em todo o tempo sou objeto de escárnio, toda a gente se ri de mim; porque sempre que falo é para gritar e proclamar: «Violência e ruína!». E a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias. Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele, não falarei mais em seu nome». Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia.”

A 2ªleitura (Rom 12, 1-2)  vem na sequência do que nos dizia Jeremias , na leitura anterior, pois S.Paulo indica-nos o caminho a seguir, como cristãos, ou seja, como os que se deixam seduzir pelo Senhor.

Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito.

No evangelho (Mt 16, 21-27) é o próprio Jesus que nos desafia a vivermos d’Ele, para n’Ele assumirmos a nossa resposta de amor ao Pai. Deixemo-nos seduzir por Jesus, pois, para mim, só n’Ele é possível viver o Amor e da cruz fazer árvore de vida!

“Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!». Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens». Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».” 

Senhor, que eu me deixe seduzir por Ti; Senhor, que eu nunca duvide do Teu Amor.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

O trecho evangélico hodierno (cf. Mt 16, 21-27) é a continuação do de domingo passado, no qual se realçava a profissão de fé de Pedro, “rocha” sobre a qual Jesus quer construir a sua Igreja. Hoje, em estridente contraste, Mateus mostra-nos a reação do próprio Pedro quando Jesus revela aos discípulos que deverá padecer em Jerusalém, ser assassinado, ressuscitar (cf. v. 21). Pedro chamou de parte o Mestre e repreende-o, porque isto — diz-lhe — não poderá acontecer com Ele, com Cristo. Mas Jesus, por sua vez, repreende Pedro com palavras duras: «Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!» (v. 23). Pouco antes, o apóstolo tinha sido abençoado pelo Pai, tinha recebido d’Ele aquela revelação, era uma «pedra» sólida a fim de que Jesus pudesse construir sobre ela a sua comunidade; e logo a seguir torna-se um obstáculo, uma pedra mas não para construir, uma pedra de tropeço no caminho do Messias. Jesus sabe bem que Pedro e os outros têm ainda muita estrada a percorrer para se tornarem seus apóstolos!

Neste ponto, o Mestre dirige-se a todos os que o seguiam, apresentando-lhes com clareza o caminho que devem percorrer: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz e siga-me» (v. 24). Também hoje, há a tentação de querer sempre seguir um Cristo sem cruz, aliás, de ensinar a Deus a estrada certa, como fez Pedro: “Não, não Senhor, isto não, nunca acontecerá”. Mas Jesus recorda-nos que o seu caminho é o do amor, e não há amor verdadeiro sem o sacrifício de si mesmo. Somos chamados a não nos deixarmos absorver pela visão deste mundo, mas a estar cada vez mais cientes da necessidade e da fadiga para nós cristãos de caminhar contracorrente e em subida.

Jesus contempla a sua proposta com palavras que exprimem uma grande sabedoria sempre válida, porque desafiam a mentalidade e os comportamentos egocêntricos. Ele exorta: «Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recuperá-la-á» (v. 25). Neste paradoxo está contida a regra de ouro que Deus inscreveu na natureza humana criada em Cristo: a regra que só o amor dá sentido e felicidade à vida. Dedicar os próprios talentos, as próprias energias e o próprio tempo só para salvar, proteger e realizar-se a si mesmos, leva na realidade a perder-se, ou seja, a uma existência triste e estéril. Ao contrário, vivamos pelo Senhor e construamos a nossa vida no amor, como fez Jesus: poderemos saborear a alegria autêntica, e a nossa vida não será estéril, será fecunda.

Na celebração da Eucaristia revivemos o mistério da cruz; não só recordamos, mas compreendemos o memorial do Sacrifício redentor, em que o Filho de Deus se perde completamente a Si mesmo para se receber de novo do Pai e assim nos reecontrar, a nós que estávamos perdidos, juntamente com todas as criaturas. Todas as vezes que participamos na Santa Missa, o amor de Cristo crucificado e ressuscitado comunica-se a nós como alimento e bebida, para que possamos segui-Lo no caminho de cada dia, no serviço concreto dos irmãos.

Maria Santíssima, que seguiu Jesus até ao Calvário, nos acompanhe também a nós e nos ajude a não ter medo da cruz, mas com Jesus crucificado, e não uma cruz sem Jesus, a cruz com Jesus, ou seja, a cruz de sofrer por amor de Deus e dos irmãos, porque esse sofrimento, pela graça de Cristo, é fecundo de ressurreição.

Papa Francisco
(Angelus , 3 de setembro de 2017)