sábado, 18 de abril de 2026

 DOMINGO III DA  PÁSCOA

Continuamos, com as leituras de hoje, a viver o grande Dia da Páscoa de Jesus Ressuscitado. Ao escutar a Palavra proclamada  neste domingo, há um denominador comum a todas as leituras, o anúncio de que Jesus ressuscitou, está vivo e continua "nosso companheiro" em todos os caminhos e encruzilhadas da vida.

Na 1ª leitura (Atos 2, 14.22-33) ficamos espantados com a coragem desassombrada de Pedro ao anunciar Jesus Ressuscitado. É impressionante a ação de Deus num coração que todo se Lhe entrega. A transformação em Pedro é total. Hoje, S.Pedro através das Escrituras, quando recorre a David, abre-nos o caminho para Deus:  não há nada, nem ninguém que nos possa afastar do Amor de Deus, manifestado em Jesus Ressuscitado. Entreguemo-nos de alma e coração, com tudo, mas mesmo tudo, por pior que nos sintamos, pois Ele está vivo, caminha connosco.

“No dia de Pentecostes, Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: «Homens da Judeia e vós todos que habitais em Jerusalém, compreendei o que está a acontecer e ouvi as minhas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem acreditado por Deus junto de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio, como sabeis. Depois de entregue, segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós destes-Lhe a morte, cravando-O na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-O, livrando-O dos laços da morte, porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio. Diz David a seu respeito: ‘O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção. Destes-me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em vossa presença’. Irmãos, seja-me permitido falar-vos com toda a liberdade: o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo encontra-se ainda hoje entre nós. Mas, como era profeta e sabia que Deus lhe prometera sob juramento que um descendente do seu sangue havia de sentar-se no seu trono, viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo, dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos, nem a sua carne conheceu a corrupção. Foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos nós somos testemunhas. Tendo sido exaltado pelo poder de Deus, recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo, que Ele derramou, como vedes e ouvis».

Na 2ªleitura (1 Pedro 1, 17-21) S.Pedro continua a sua evangelização e anúncio do Senhor Ressuscitado, penhor e garantia da nossa salvação. É em Jesus, morto e ressuscitado, que está vivo e caminha connosco, no dia a dia da vida, que está o fundamento da nossa fé.

“Caríssimos: Se invocais como Pai Aquele que, sem aceção de pessoas, julga cada um segundo as suas obras, vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo. Lembrai-vos que não foi por coisas corruptíveis, como prata e oiro, que fostes resgatados da vã maneira de viver, herdada dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo, Cordeiro sem defeito e sem mancha, predestinado antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por vossa causa. Por Ele acreditais em Deus, que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória, para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.”

No evangelho (Lc 24, 13-35) somos convidados a colocarmo-nos no papel de cada um daqueles discípulos, mas no dia a dia da nossa vida, deixando que Jesus nos vá explicando o sentido das escrituras, como fez com eles. Às vezes o nosso coração anda demasiado atarefado “com muitas coisas” e não O reconhece, mas Ele, caminha connosco, pelas estradas da vida, repartindo o pão. Deixemos que o nosso coração “arda cá dentro” quando O escutamos e estejamos atentos aos sinais, pois Ele continua a “partir o pão” com todos os que fazem parte da nossa vida e O procuram de coração sincero. 

“Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?». Pararam, com ar muito triste, e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou estes dias». E Ele perguntou: «Que foi?». Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: «Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?». Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante. Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.”

Senhor, eu te louvo e bendigo pelo dom da Eucaristia. Mil graças Senhor.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje gostaria de vos convidar a refletir sobre um aspeto surpreendente da Ressurreição de Cristo: a sua humildade. Se repensarmos nas narrações evangélicas, damo-nos conta de que o Senhor ressuscitado não faz nada de espetacular para se impor à fé dos seus discípulos. Não se apresenta circundado de plêiades de anjos, não faz gestos sensacionais, não pronuncia discursos solenes para revelar os segredos do universo. Pelo contrário, aproxima-se discretamente, como um viandante qualquer, como um homem faminto que pede para compartilhar um pouco de pão (cf. Lc 24, 15.41).

Maria de Magdala confunde-o com um jardineiro (cf. Jo 20, 15). Os discípulos de Emaús acreditam que se trata de um forasteiro (cf. Lc 24, 18). Pedro e os demais pescadores pensam que é um simples transeunte (cf. Jo 21, 4). Nós teríamos esperado efeitos especiais, sinais de poder, provas esmagadoras. Mas o Senhor não procura isto: prefere a linguagem da proximidade, da normalidade, da mesa compartilhada.

Irmãos e irmãs, nisto há uma mensagem preciosa: a Ressurreição não é um golpe de teatro, é uma transformação silenciosa que enche de sentido cada gesto humano. Jesus ressuscitado come uma porção de peixe diante dos seus discípulos: não é um detalhe marginal, é a confirmação de que o nosso corpo, a nossa história, as nossas relações não são um embrulho a descartar. Estão destinados à plenitude da vida. Ressuscitar não significa tornar-se espírito evanescente, mas entrar numa comunhão mais profunda com Deus e com os irmãos, numa humanidade transfigurada pelo amor.

Na Páscoa de Cristo, tudo pode tornar-se graça. Até as coisas mais simples: comer, trabalhar, esperar, cuidar da casa, apoiar um amigo. A Ressurreição não subtrai vida ao tempo e ao esforço, mas transforma o seu sentido e “sabor”. Cada gesto feito com gratidão e na comunhão antecipa o Reino de Deus.

No entanto, existe um obstáculo que muitas vezes nos impede de reconhecer esta presença de Cristo na vida diária: a pretensão de que a alegria deve ser desprovida de feridas. Os discípulos de Emaús caminham tristes porque esperavam outro final, um Messias que não conhecesse a cruz. Não obstante tenham ouvido dizer que o sepulcro está vazio, não conseguem sorrir. Mas Jesus põe-se ao lado deles, ajudando-os pacientemente a compreender que a dor não é a negação da promessa, mas o caminho ao longo do qual Deus manifestou a medida do seu amor (cf. Lc 24, 13-27).

Quando finalmente se sentam à mesa com Ele e partem o pão, abrem-se-lhes os olhos. E sentem que o seu coração já ardia, embora não o soubessem (cf. Lc 24, 28-32). Esta é a maior surpresa: descobrir que, sob as cinzas do desencanto e do cansaço, há sempre uma brasa viva, que só espera ser reavivada.

Irmãos e irmãs, a Ressurreição de Cristo ensina-nos que não há história tão marcada pela desilusão ou pelo pecado que não possa ser visitada pela esperança. Nenhuma queda é definitiva, nenhuma noite é eterna, nenhuma ferida está destinada a permanecer aberta para sempre. Por mais distantes, confusos ou indignos que nos possamos sentir, não há distância que possa extinguir a força infalível do amor de Deus.

Às vezes, pensamos que o Senhor só nos vem visitar nos momentos de recolhimento ou de fervor espiritual, quando nos sentimos à altura, quando a nossa vida parece ordenada e luminosa. Pelo contrário, o Ressuscitado aproxima-se precisamente nos lugares mais obscuros: nos nossos fracassos, nas relações desgastadas, nos trabalhos diários que pesam sobre os nossos ombros, nas dúvidas que nos desencorajam. Nada do que somos, nenhum fragmento da nossa existência lhe é alheio.

Hoje, o Senhor ressuscitado põe-se ao lado de cada um de nós, precisamente enquanto percorremos os nossos caminhos - do trabalho e do compromisso, mas também do sofrimento e da solidão - e, com delicadeza infinita, pede-nos que deixemos aquecer o coração. Não se impõe com clamor, não pretende ser reconhecido imediatamente. Com paciência, espera o momento em que os nossos olhos se abrirão para vislumbrar o seu rosto amigo, capaz de transformar a desilusão em espera confiante, a tristeza em gratidão, a resignação em esperança.

O Ressuscitado só quer manifestar a sua presença, tornar-se nosso companheiro de caminho e acender em nós a certeza de que a sua vida é mais forte do que qualquer morte. Então, peçamos a graça de reconhecer a sua presença humilde e discreta, de não pretender uma vida sem provações, de descobrir que cada dor, se for habitada pelo amor, pode tornar-se lugar de comunhão.

E assim, como os discípulos de Emaús, também nós voltaremos para casa com um coração que arde de alegria. Uma alegria simples, que não elimina as feridas, mas que as ilumina. Uma alegria que nasce da certeza de que o Senhor está vivo e caminha ao nosso lado, oferecendo-nos em cada instante a possibilidade de recomeçar.

Papa Leão XIV
(Audiência Geral - 8 de outubro de 2025)

sábado, 11 de abril de 2026

 DOMINGO II DA  PÁSCOA 

ou DA DIVINA MISERICÓRDIA

Nas leituras de hoje, continuamos a vivência do grande dia da Ressurreição do Senhor Jesus. A Páscoa, de Jesus Cristo, prolonga-se no tempo sem fim, mas, todo este tempo, desde o Domingo de Páscoa até à Sua Ascensão, parece tratar-se de um único dia, o grande dia da Páscoa de Jesus Ressuscitado. Sempre num crescendo, Jesus vai-nos abrindo o coração à certeza de que está sempre connosco, mesmo quando não O vemos, principalmente quando mais d’Ele precisamos. Não há portas, nem paredes, nem abismos, nem profundidades, que impeçam Jesus de ser um connosco, de nos habitar por inteiro, de ser a força que nos sustenta e diz: “ A Paz esteja convosco”.  Podemos, agora mais do que nunca anunciar, cantar: Jesus está vivo, ressuscitou. Aleluia!

Na 1ªleitura (Atos 2, 42-47) o que mais impressiona é a forma como os primeiros cristãos viviam em comunidade, em união e, ao mesmo tempo, eram assíduos e solidários. Um só era Aquele que os unia e d’Ele faziam a razão de ser das suas vidas. Tiveram problemas também, e muitos, por certo, mas o amor a Jesus era a sua força. Que o Espírito do Senhor repasse cada uma das fibras do nosso ser, nos encha a alma e, n´Ele possamos voltar a ser, quem sabe, um dia…, uma só Igreja unida no seu único Senhor.

“Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, toda a gente se enchia de temor. Todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam propriedades e bens e distribuíam o dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um. Todos os dias frequentavam o templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração, louvando a Deus e gozando da simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava todos os dias o número dos que deviam salvar-se.”

Na 2ªleitura (1 Pedro 1, 3-9) louvamos e damos graças a Deus, com S.Pedro, pelo dom do Seu infinito Amor. É Deus, quem nos ama assim perdidamente, de tal forma, que, por Jesus, Seu único Filho, morto e ressuscitado, fomos resgatados, fomos salvos. Hoje, por e em Jesus ressuscitado, somos, cada um de nós também, Seus filhos. Bendito e louvado sejas Senhor, hoje e sempre, pelos séculos sem fim.

“Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, na sua grande misericórdia, nos fez renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos, para uma esperança viva, para uma herança que não se corrompe, nem se mancha, nem desaparece. Esta herança está reservada nos Céus para vós que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que se vai revelar nos últimos tempos. Isto vos enche de alegria, embora vos seja preciso ainda, por pouco tempo, passar por diversas provações, para que a prova a que é submetida a vossa fé – muito mais preciosa que o ouro perecível, que se prova pelo fogo – seja digna de louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo Se manifestar. Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, acreditais n’Ele. E isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa, porque conseguis o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas.

No evangelho (Jo 20, 19-31) S.João vai-nos conduzindo, vai-nos preparando para a necessidade de descobrirmos Jesus em Igreja. Realmente, é numa dimensão comunitária, isto é em Igreja, que vamos descobrindo e compreendendo Jesus Cristo, que conduz ao Pai. Senhor, que aprendamos a descobrir-Te no outro, que caminha comigo, que não gosta de mim, ou, quem sabe, até me detesta, mas que é tão precioso para Ti, quanto eu, que até deste a vida por ele(a). Que verdadeiramente se possa dizer da Igreja, vede como eles se amam.

“Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!». Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

Jesus está vivo. Ressuscitou dos mortos. Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, Domingo da Divina Misericórdia, o Evangelho narra-nos duas aparições de Jesus Ressuscitado aos discípulos e em particular a Tomé, o “Apóstolo incrédulo” (cf. Jo 20, 24-29).

Na realidade, Tomé não é o único que tem dificuldade em acreditar, aliás, representa um pouco todos nós. Com efeito, nem sempre é fácil acreditar, especialmente quando, como no seu caso, se sofreu uma grande desilusão. Depois de uma grande desilusão, é difícil acreditar. Seguiu Jesus durante anos, correndo riscos e suportando dificuldades, mas o Mestre foi crucificado como um bandido e ninguém o libertou, ninguém fez nada! Morreu e todos têm medo. Como voltar a ter confiança? Como confiar na notícia segundo a qual Ele está vivo? A dúvida estava dentro dele.

No entanto, Tomé demonstra que tem coragem: enquanto os outros, receosos, estão fechados no cenáculo, ele sai, correndo o risco de que alguém o possa reconhecer, denunciar e prender. Até poderíamos pensar que, com a sua coragem, mereceria mais do que os outros encontrar o Senhor ressuscitado. Ao contrário, precisamente porque se tinha afastado, quando Jesus aparece pela primeira vez aos discípulos na noite de Páscoa, Tomé não está presente e perde a ocasião. Afastou-se da comunidade. Como poderá recuperá-la? Só voltando a estar com os outros, voltando para aquela família que tinha deixado assustada e triste. Quando o faz, quando regressa, dizem-lhe que Jesus veio, mas ele tem dificuldade em acreditar; gostaria de ver as suas feridas. E Jesus satisfá-lo: oito dias depois, aparece novamente no meio dos seus discípulos e mostra-lhe as suas chagas, as mãos, os pés, aquelas feridas que são as provas do seu amor, que são os canais sempre abertos da sua misericórdia.

Reflitamos sobre estes acontecimentos. Para acreditar, Tomé gostaria de um sinal extraordinário: tocar as chagas. Jesus mostra-lhas, mas de modo ordinário, diante de todos, na comunidade, não fora. Como se lhe dissesse: se quiseres encontrar-me, não procures longe, fica na comunidade, com os outros; e não te vás embora, reza com eles, parte o pão com eles. E di-lo também a nós. É ali que me poderás encontrar, é aí que te mostrarei, gravados no meu corpo, os sinais das chagas: os sinais do Amor que vence o ódio, do Perdão que desarma a vingança, os sinais da Vida que derrota a morte. É aí, na comunidade, que descobrirás o meu rosto, enquanto partilhares momentos de dúvida e de medo com os irmãos, estreitando-te ainda mais fortemente a eles. Fora da comunidade, é difícil encontrar Jesus!

Caros irmãos e irmãs, o convite feito a Tomé também é válido para nós. Onde procuramos o Ressuscitado? Nalgum evento especial, nalguma manifestação religiosa espetacular ou marcante, unicamente nas nossas emoções e sensações? Ou na comunidade, na Igreja, aceitando o desafio de permanecer nela, mesmo que não seja perfeita? Apesar de todos os seus limites e quedas, que são os nossos limites e quedas, a nossa Mãe Igreja é o Corpo de Cristo; e é ali, no Corpo de Cristo, que estão gravados, ainda e para sempre, os maiores sinais do seu amor. Mas perguntemo-nos se, em nome deste amor, em nome das chagas de Jesus, estamos dispostos a abrir os braços aos feridos da vida, sem excluir ninguém da misericórdia de Deus, mas aceitando todos; cada um como irmão, como irmã. Deus acolhe a todos, Deus acolhe a todos!

Maria, Mãe de Misericórdia, nos ajude a amar a Igreja e a fazer dela uma casa acolhedora para todos!

Papa Francisco
(Regina Caeli - 16 de abril de 2023)

Vigília de Oração pela Paz presidida pelo Papa Leão XIV

 

Queridos irmãos e irmãs

Esta tarde, juntamente com Maria, a Mãe de Jesus, estamos reunidos em oração, tal como costumava fazer a Igreja primitiva de Jerusalém (cf. Act 1, 14). Todos juntos, perseverantes e concordes, não nos cansamos de interceder pela paz, dom de Deus que deve tornar-se nossa conquista e nosso compromisso.

Autêntica espiritualidade mariana

Neste Jubileu da espiritualidade mariana, o nosso olhar de cristãos busca na Virgem Maria a guia para a nossa peregrinação na esperança, contemplando as suas virtudes humanas e evangélicas, cuja imitação constitui a mais autêntica devoção mariana (cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, 65.67). Como Ela, a primeira entre os fiéis, queremos ser o ventre que acolhe o Altíssimo, «tenda humilde do Verbo, movida apenas pelo sopro do Espírito» (S. João Paulo II, Angelus, 15 de agosto de 1988). Como Ela, a primeira discípula, suplicamos o dom de um coração que escuta e se torna fragmento de um universo que acolhe. Por meio d’Ela, Mulher dolorosa, forte, fiel, rogamos que nos conceda o dom da compaixão para com cada irmão e irmã que sofre e para com todas as criaturas.

Olhemos para a Mãe de Jesus e para aquele pequeno grupo de mulheres corajosas que estão junto à Cruz a fim de que também nós aprendamos a permanecer, do mesmo modo que elas, junto às infinitas cruzes do mundo, onde Cristo ainda está crucificado nos seus irmãos, para levar-lhes conforto, comunhão e ajuda. Reconhecemo-nos n’Ela, que é irmã da humanidade e dizemos-lhe, com as palavras de um poeta:

«Mãe, vós sois cada mulher que ama;
Mãe, vós sois cada mãe que chora
um filho morto, um filho traído.
Esses filhos que nunca cessam de serem mortos»
(D. M. Turoldo).

À vossa proteção recorremos, Virgem da Páscoa, junto com todos aqueles em quem continua a realizar-se a paixão do vosso Filho.

Fazei o que Ele vos disser

No Jubileu da espiritualidade mariana, a nossa esperança é iluminada pela luz suave e perseverante das palavras de Maria que o Evangelho nos transmite. E, entre todas, são preciosas as últimas pronunciadas nas bodas de Caná, quando, indicando Jesus, Ela diz aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!» (Jo 2, 5). Depois disso, não voltará a falar. Portanto, estas palavras, que são quase um testamento, devem ser muito estimadas pelos filhos, como qualquer testamento de uma mãe.

Tudo o que Ele vos disser. Ela tem a certeza de que o Filho falará, pois a Sua Palavra não terminou e ainda cria, gera, opera, enche o mundo de primaveras e as ânforas da festa de vinho. Maria, como um sinal que indica o caminho, orienta para além de si mesma, mostra que o ponto de chegada é o Senhor Jesus e a sua Palavra, o centro para o qual tudo converge, o eixo em torno do qual giram o tempo e a eternidade.

Obedecei à Sua Palavrarecomenda. Realizai o Evangelho, transformai-o em gesto e corpo, sangue e carne, esforço e sorriso. Realizai o Evangelho, e a vida transformar-se-á, de vazia em plena, de apagada em acesa.

Fazei tudo o que Ele vos disser: todo o Evangelho, a palavra exigente, a carícia consoladora, a repreensão e o abraço. O que compreendeis e também o que não compreendeis. Maria exorta-nos a ser como os profetas: a não deixar que nenhuma das suas palavras se perca em vão (cf. 1 Sm 3, 19).

E entre as palavras de Jesus que queremos que não caiam no esquecimento, uma ressoa de modo particular hoje, nesta vigília de oração pela paz: aquela que dirigiu a Pedro no horto das oliveiras: «Mete a espada na bainha» (cf. Jo 18, 11). Desarma as mãos, mas sobretudo o coração. Como já tive a oportunidade de recordar noutras ocasiões, a paz é desarmada e desarmante. Não é dissuasão, mas fraternidade; não é ultimato, mas diálogo. Não virá como fruto de vitórias sobre o inimigo, mas como resultado da disseminação da justiça e do perdão corajoso.

Mete a espada na bainha é uma palavra dirigida aos poderosos do mundo, aos que conduzem o destino dos povos: tende a audácia do desarmamento! Ao mesmo tempo, é dirigida a cada um de nós, para nos tornar cada vez mais conscientes de que não podemos matar por nenhuma ideia, fé ou política. O primeiro a ser desarmado é o coração, porque se não há paz em nós, não daremos paz.

Entre vós não seja assim

Ouçamos ainda o Senhor Jesus: os grandes deste mundo constroem impérios com poder e dinheiro (cf. Mt 20, 25; Mc 10, 42), «convosco, não deve ser assim» (Lc 22, 26). Deus não faz desse modo: o Mestre não tem tronos, mas cinge-se com uma toalha e ajoelha-se aos pés de cada um. O Seu império é aquele pequeno espaço suficiente para lavar os pés dos seus amigos e cuidar deles.

É também o convite a adotar uma perspetiva diferente, a fim de observar o mundo a partir de baixo, com os olhos de quem sofre, e não com a ótica dos grandes; considerar a história sob o prisma dos pequenos, e não com o dos poderosos; interpretar os acontecimentos da história a partir do ponto de vista da viúva, do órfão, do estrangeiro, da criança ferida, do exilado, do fugitivo. Com o olhar de quem naufraga, do pobre Lázaro, jogado à porta do rico epulão. Caso contrário, nada nunca mudará, e não surgirá um tempo novo, um reino de justiça e paz.

Assim faz também a Virgem Maria no cântico do Magnificat, quando fixa o seu olhar nas fraturas que marcam a humanidade, onde ocorre a distorção do mundo no contraste entre humildes e poderosos, entre pobres e ricos, entre saciados e famintos. E escolhe os pequenos, permanece ao lado dos últimos da história, para nos ensinar a imaginar e, com Ela, sonhar novos céus e uma nova terra.

Felizes sois vós

Fazei tudo o que Ele vos disser. E nós comprometemo-nos a fazer nossa carne e paixão, história e ação, a grande palavra do Senhor: «Felizes os pacificadores» (cf. Mt 5, 9).

Felizes sois vós: Deus dá alegria àqueles que produzem amor no mundo, alegria àqueles que, em vez de vencer o inimigo, preferem a paz com ele.

Coragem, sigam em frente, vós que criais as condições para um futuro de paz, na justiça e no perdão; sede mansos e determinados, não desanimeis. A paz é um caminho e Deus caminha convosco. O Senhor cria e difunde a paz através dos seus amigos pacificados no coração, que se tornam, por sua vez, pacificadores, instrumentos da Sua paz.

Reunimo-nos esta tarde em oração em torno de Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, como os primeiros discípulos no cenáculo. A ela, mulher profundamente pacificada, rainha da paz, nos dirigimos:

Rezai connosco, Mulher fiel, ventre sagrado do Verbo.
Ensinai-nos a ouvir o clamor dos pobres e da mãe Terra,
atentos aos apelos do Espírito no segredo do coração,
na vida dos irmãos, nos acontecimentos da história,
no gemido e no júbilo da criação.
Santa Maria, mãe dos viventes,
mulher forte, dolorosa, fiel,
Virgem esposa junto à Cruz
onde se consuma o amor e brota a vida,
sede Vós a guia do nosso compromisso em servir.

Ensinai-nos a permanecer convosco junto às infinitas cruzes
onde o vosso Filho ainda está crucificado,
onde a vida está mais ameaçada;
a viver e testemunhar o amor cristão
acolhendo em cada homem um irmão;
a renunciar ao egoísmo opaco
para seguir Cristo, verdadeira luz do homem.

Virgem da paz, porta de esperança segura,
Aceitai a oração dos vossos filhos!

sábado, 4 de abril de 2026

Uma Santa e Feliz Páscoa!

 DOMINGO DE PÁSCOA 

DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

As leituras do Domingo de Páscoa introduzem-nos no mistério maior da nossa fé, a ressurreição de Jesus. Mergulhados no imenso Amor de Deus, que Seu Filho nos revela, percebemos que a partir da ressurreição de Jesus tudo passa a ser diferente, a vida ganha outro sentido. Sabemos, agora, o quanto somos preciosos para Deus, o quanto Deus ama cada um de nós, a ponto de sermos redimidos pelo Seu Único e Muito Amado Filho. Agora podemos branquear a nossa alma n’Ele, que de braços abertos nos acolhe e estreita contra o Seu peito. Deixemo-nos habitar por este Amor sem fim, para que também os que connosco convivem, ou se cruzam nas estradas da vida, possam sentir-se totalmente amados por Deus.

Na 1ª leitura (At.10,34a,37-43), escutamos Pedro, completamente entregue à missão que Jesus lhe confiou, proclamando a Boa Nova de Jesus ressuscitado com todo o desassombro e coragem, que só quem se sente verdadeiramente amado, pelo Senhor, tem, apesar de  saber os riscos que corria.

“Naqueles dias, Pedro tomou a palavra e disse: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n'O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É d'Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».”

Na 2ª leitura (Col. 3, 1-4) S.Paulo reintroduz-nos no nosso batismo, pelo qual recebemos o Espírito Santo e a garantia da ressurreição. N’Ele somos exortados a viver conforme Jesus nos ensinou, afeiçoando-nos às coisas do alto e não às da terra.

“Irmãos: Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.”

No Evangelho (Jo 20,1-9) acompanhamos, primeiro Maria Madalena e depois João e Pedro na ida ao sepulcro, onde estava depositado o corpo de Jesus. As reações são diferentes, mas, com maior ou menor dificuldade, cada um ao seu jeito, acabam por acreditar que Jesus ressuscitou. Se, para alguns deles, que tinham convivido diariamente com Jesus, foi difícil acreditar que Ele tinha ressuscitado, não admira que, ainda hoje, haja muita gente que não acredite na ressurreição de Cristo. Que, pelo nosso testemunho e oração, testemunhemos que Jesus ressuscitou, está vivo, nos habita por inteiro e que o Seu Amor por cada um de nós não tem fim.

“No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.” 

Senhor, eu te louvo e bendigo por nos amares tão infinitamente. A ti o louvor a glória a honra e o poder pelos séculos sem fim. Ámen

Queridos irmãos e irmãs, bom dia! E bem-vindos a todos.

A Páscoa de Jesus é um acontecimento que não pertence a um passado distante, agora sedimentado na tradição como tantos outros episódios da história humana. A Igreja ensina-nos a fazer memória atualizante da Ressurreição todos os anos no Domingo de Páscoa e todos os dias na celebração eucarística, durante a qual se realiza de forma mais plena a promessa do Senhor ressuscitado: «E eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20).

Por isso, o mistério pascal constitui o eixo da vida do cristão, em torno do qual giram todos os outros acontecimentos. Podemos dizer, então, sem qualquer irenismo ou sentimentalismo, que todos os dias são Páscoa. De que maneira?

Vivemos, de hora em hora, tantas experiências diferentes: dor, sofrimento, tristeza, entrelaçadas com alegria, admiração, serenidade. Mas, em todas as situações, o coração humano anseia pela plenitude, por uma felicidade profunda. Uma grande filósofa do século XX, Santa Teresa Benedita da Cruz, cujo nome de batismo era Edith Stein, que tanto aprofundou o mistério da pessoa humana, recorda-nos este dinamismo de busca constante da realização. «O ser humano – escreve ela – anseia sempre por receber novamente o dom do ser, para poder aproveitar o que o momento lhe dá e, ao mesmo tempo, lhe tira» (Essere finito ed Essere eterno. Per una elevazione al senso dell’essere [Ser finito e ser eterno. Ensaio de uma ascensão ao sentido do ser], Roma 1998, 387). Estamos imersos no limite, mas também nos esforçamos por superá-lo.

O anúncio pascal é a notícia mais bela, alegre e comovedora que ressoou ao longo da história. É o “Evangelho” por excelência, que atesta a vitória do amor sobre o pecado e da vida sobre a morte, e por isso é o único capaz de saciar a demanda de sentido que inquieta a nossa mente e o nosso coração. O ser humano é animado por um movimento interior, voltado para um além que o atrai constantemente. Nenhuma realidade contingente o satisfaz. Tendemos para o infinito e para o eterno. Isso contrasta com a experiência da morte, antecipada pelos sofrimentos, pelas perdas, pelos fracassos. Da morte «nullu homo vivente po skampare», canta São Francisco (cf. Cântico do irmão sol).

Tudo muda graças àquela manhã em que as mulheres, indo ao sepulcro para ungir o corpo do Senhor, o encontraram vazio. A pergunta feita pelos Magos que chegaram do Oriente a Jerusalém: «Onde está aquele que nasceu, o rei dos judeus?» (Mt 2, 1-2), encontra a sua resposta definitiva nas palavras do misterioso jovem vestido de branco que fala às mulheres na madrugada pascal: «Vós procurais Jesus Nazareno, o crucificado. Não está aqui. Ressuscitou» (Mc 16, 6).

Desde aquela manhã até hoje, todos os dias, Jesus terá também este título: o Vivente, como Ele mesmo se apresenta no Apocalipse: «Eu sou o Primeiro e o Último, o que Vive. Conheci a morte, mas eis-me aqui vivo pelos séculos dos séculos» (Ap 1, 17-18). E n’Ele temos a certeza de poder encontrar sempre a estrela polar para orientar a nossa vida de aparente caos, marcada por factos que muitas vezes nos parecem confusos, inaceitáveis, incompreensíveis: o mal, nas suas múltiplas facetas, o sofrimento, a morte, eventos que dizem respeito a todos e a cada um. Meditando o mistério da Ressurreição, encontramos resposta à nossa sede de significado.

Perante a nossa humanidade frágil, o anúncio pascal torna-se cuidado e cura, alimenta a esperança diante dos desafios assustadores que a vida nos apresenta todos os dias, a nível pessoal e planetário. Na perspetiva da Páscoa, a Via Crucis transfigura-se em Via Lucis. Precisamos de saborear e meditar a alegria após a dor, reviver na nova luz todas as etapas que precederam a Ressurreição.

A Páscoa não elimina a cruz, mas vence-a no duelo prodigioso que mudou a história humana. Também o nosso tempo, marcado por tantas cruzes, invoca o amanhecer da esperança pascal. A Ressurreição de Cristo não é uma ideia, uma teoria, mas o Acontecimento que está na base da fé. Ele, o Ressuscitado, através do Espírito Santo, continua a recordar-no-lo para que possamos ser suas testemunhas também onde a história humana não vê luz no horizonte. A esperança pascal não dececiona. Acreditar verdadeiramente na Páscoa através do caminho diário significa revolucionar a nossa vida, ser transformados para transformar o mundo com a força suave e corajosa da esperança cristã.

Papa Leão XIV
(Audiência Geral - 5 de novembro de 2025)