sábado, 16 de maio de 2026

 DOMINGO VII DA PÁSCOA

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR

Hoje, centramo-nos na festa da Ascensão, dia para o qual Jesus nos tem vindo a preparar desde a Sua Ressurreição, até hoje, deixando-nos as Suas instruções e recomendações finais. Na solenidade de hoje celebramos a partida de Jesus para o Pai.  Do Céu saiu, para lá volta, e para aí nos atrai, através da ação do Espírito Santo, que nos move a fazer o bem, a testemunhar a presença de Jesus entre nós, a anunciá-l’O onde nos movemos e existimos.  

Na 1ªleitura (Atos 1, 1-11) o autor projeta-nos para a Ascensão de Jesus. Ao mesmo tempo, desafia-nos a, sobre a ação do Espírito Santo, continuarmos, hoje, no nosso tempo, a ação evangelizadora dos primeiros cristãos, dos que conheceram e conviveram com Jesus, o Filho de Deus, que encarnou entre nós. Deixemos que o Espírito Santo, que recebemos no dia do nosso batismo, nos preencha por inteiro e nos transforme, no nosso dia a dia, no concreto da vida, em verdadeiros anunciadores da Boa Nova do Amor, que quer comunicar-se, revelar-se, amar a todos, sem exceção.

“No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, desde o princípio até ao dia em que foi elevado ao Céu, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera. Foi também a eles que, depois da sua paixão, Se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus. Um dia em que estava com eles à mesa, mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, «da qual – disse Ele – Me ouvistes falar. Na verdade, João batizou com água; vós, porém, sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias». Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?». Ele respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». Dito isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos. E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco, que disseram: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».”

Na 2ªleitura  (Ef 1, 17-23) S.Paulo exorta-nos a glorificar Jesus e a contemplar, na Sua Ascensão, a volta da humanidade para o Pai.

“Irmãos: O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de revelação para O conhecerdes plenamente e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o mostra a eficácia da poderosa força que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há de vir. Tudo submeteu aos seus pés e pô-l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.


No evangelho (Mt 28, 16-20) S.Mateus propõe-nos, tal como o fez S. Lucas, na 1ªleitura, a continuação do anúncio do Evangelho de Nossos Senhor Jesus Cristo, hoje, no nosso tempo e na nossa história, em Igreja. Com a certeza de que, apesar de subir para o Pai, Jesus continua connosco, no meio da humanidade inteira, agora, já não de forma física, mas de um modo diferente, pois sobre a ação do Espírito Santo habita-nos por inteiro. Se Lhe quisermos abrir o nosso coração será um connosco, até ao fim dos tempos.

Naquele tempo, os Onze discípulos partiram para a Galileia, em direção ao monte que Jesus lhes indicara. Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram. Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».”

Senhor Jesus, que eu me deixe habitar pelo Espírito Santo, na totalidade do meu ser.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia! 

Hoje, em Itália e em muitos outros países, celebra-se a Ascensão do Senhor. É uma festa que conhecemos bem, mas que pode suscitar algumas perguntas, pelo menos duas. A primeira: por que festejar a partida de Jesus da terra? Poderia parecer que a sua partida é um momento triste, não propriamente um motivo de alegria! Por que festejar uma partida? Primeira pergunta. Segunda pergunta: o que está a fazer Jesus agora no céu? Primeira pergunta: porquê festejar? Segunda pergunta: o que está a fazer Jesus no céu? 

Por que festejamos? Porque com a Ascensão aconteceu uma coisa nova e bela: Jesus levou a nossa humanidade, a nossa carne para o céu – pela primeira vez!  – ou seja, levou-a a Deus. Aquela humanidade, que ele assumira na terra, não ficou aqui. Jesus ressuscitado não era um espírito, não, tinha o seu corpo humano, a carne, os ossos, tudo, ali, com Deus, estará para sempre. Podemos dizer que a partir do dia da Ascensão, o próprio Deus, “mudou”: desde então, já não é apenas um espírito, mas, por quanto nos ama, tem em si a nossa própria carne, a nossa humanidade! Pois o nosso lugar é indicado, o nosso destino está ali. Assim escrevia um antigo Pai na fé: «Notícia maravilhosa! Aquele que se fez homem por nós [...], para nos fazer seus irmãos, apresenta-se como homem diante do Pai, para levar consigo todos os que estão unidos a ele» (S. Gregório de Nissa, Discurso sobre a Ressurreição de Cristo, 1). Hoje celebramos “a conquista do céu”: Jesus que regressa ao Pai, mas com a nossa humanidade. E assim o céu já é um pouco nosso. Jesus abriu a porta e o seu corpo está lá. 

Segunda pergunta: o que está a fazer Jesus no céu? Ele representa-nos perante o Pai, mostra-lhe continuamente a nossa humanidade, mostra-lhe as feridas. Gosto de pensar que Jesus, diante do Pai, mostrando-lhe as chagas, reza assim. “Eis o que sofri pelos homens: faz alguma coisa!”. Mostra-lhe o preço da redenção, e o Pai comove-se. Gosto de pensar nisto. É assim que Jesus reza. Ele, não nos deixou sozinhos. De facto, antes de ascender, disse-nos, como relata o Evangelho de hoje: «Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20). Ele está sempre connosco, olha para nós, está «sempre vivo para interceder» (Hb 7, 25) em nosso favor. Para mostrar as feridas ao Pai, por nós. Numa palavra, Jesus intercede; está no melhor “lugar”, diante do Pai seu e nosso, para interceder por nós. 

A intercessão é fundamental. Também para nós esta fé é útil: ajuda-nos a não perder a esperança, a não desanimar. Perante o Pai, há alguém que lhe mostra as feridas e intercede. Que a Rainha do Céu nos ajude a interceder com a força da oração.

Papa Francisco
(Regina Caeli - 21 de maio de 2023)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

À imagem e semelhança de Deus – Trindade! (III) - Pe Manuel Armindo Janeiro - Facebook

Para que todos cumpram a sua humanidade!!

A recuperação teológica e pastoral da dimensão trinitária do mistério de Deus é decisiva para entender e viver o caminho sinodal da Igreja, pois nos mostra que “caminhar juntos” não é estratégia do momento, mas exigência do reflexo que somos da comunhão e reciprocidade vividas intimamente em Deus – Trindade Santíssima. O Papa Francisco dizia-nos que este é o estilo de vida que Deus espera da Igreja no Terceiro Milénio. 

A fé num “Deus uno em três Pessoas” implica reconhecer que Deus é unidade e diversidade, e que, por isso mesmo, em nós, antes da distinção pelos dons e carismas recebidos, há uma radical e igual dignidade de batizados, que não permite discriminações e a todos chama à participação corresponsável na missão da Igreja; é, pois, necessário o diálogo, a formação, a conversão de relações e de processos pela escuta recíproca para que os fiéis participem no discernimento comunitário.

Contudo, embora se deva apelar e dar espaço ao contributo de cada fiel, a verdade é que o protagonismo na Igreja não é individual, mas de todo o Povo Santo de Deus. Assim como na Trindade toda a Sua ação a nosso favor é coletiva, assim também a ação da Igreja no mundo é obra comum, participando cada um segundo o dom recebido. Neste sentido, a missão da Igreja sinodal é fazer transbordar para o mundo a comunhão trinitária e dela ser sinal no meio de todos os povos e nações. 

A Igreja vive deste dinamismo da comunidade eterna de amor que é a Trindade e procura imitá-La, trabalhando para que, entre todos, a igualdade e a diferença convivam em harmonia. Se, em Si mesma, a Trindade é mistério de mútuo acolhimento e doação recíproca, para nós, além de modelo inspirador de um novo estilo de relações, Ela é fonte de vida e missão, levando-nos a viver para os irmãos, especialmente para os que mais precisam.   

Tal como a Trindade Santíssima, que pela incarnação do Filho saiu de Si mesma para assumir a nossa frágil natureza humana, carente de salvação, e Se derramou em nossos corações no dia do nosso batismo, com ternura e misericórdia sem limites, assim também a Igreja é desafiada a sair de si mesma para fazer o mesmo, refletindo na história o amor de Deus. Cumprimos este mandato, quando vivemos em comunhão e juntos escutamos o Espírito Santo que nos convoca para a missão.

Se a reciprocidade amorosa de Deus – Trindade faz com que cada uma das pessoas divinas seja o que é – Pai, Filho e Espírito Santo –, também nos fará plenamente filhos adotivos se vivermos ao Seu jeito, à Sua Imagem e semelhança, em recíproco acolhimento e doação. O mesmo se diga da Igreja: ela cumpre-se na missão de anunciar, com a vida e a palavra – a boa nova do projecto de Deus – Trindade. Que o dinamismo trinitário de Deus informe o nosso caminho sinodal.

Pe. Armindo Janeiro

Publicado em 11/maio/2026


sábado, 9 de maio de 2026

DOMINGO VI DA PÁSCOA

Os textos da liturgia de hoje dão continuidade aos de domingo passado, centrando-nos no essencial da nossa fé: Deus-Trindade – em que o Pai se dá totalmente ao Filho e o Filho totalmente ao Pai, sendo a relação de ambos o próprio Espírito Santo, plenitude de entrega recíproca”.  Hoje somos conduzidos por Jesus através dos ensinamentos que nos deixou nas suas palavras de despedida, na Última Ceia com os discípulos.

Na 1ªleitura (Atos 8, 5-8.14-17) vemos como o Espírito Santo age em Filipe que leva o anúncio de Jesus, o Messias, aos habitantes da Samaria. O testemunho de Filipe, na sua fidelidade ao Espírito Santo, foi essencial, para que os samaritanos pudessem, também eles, aderir a Jesus Ressuscitado e receber o Espírito Santo.

“Naqueles dias, Filipe desceu a uma cidade da Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente. As multidões aderiam unanimemente às palavras de Filipe, ao ouvi-las e ao ver os milagres que fazia. De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados. E houve muita alegria naquela cidade. Quando os Apóstolos que estavam em Jerusalém ouviram dizer que a Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. Quando chegaram lá, rezaram pelos samaritanos, para que recebessem o Espírito Santo, que ainda não tinha descido sobre eles: só estavam batizados em nome do Senhor Jesus. Então impunham-lhes as mãos e eles recebiam o Espírito Santo.”

Na 2ª leitura (1 Pedro 3, 15-18) é S.Pedro quem continua a demonstrar-nos, através do seu testemunho, o quanto o Espírito Santo pode transformar um coração. O apóstolo desafia-nos a sermos, também nós, hoje, testemunhas do Amor de Deus, não impondo nada a ninguém, antes respeitando a natureza de cada um, mas, ao mesmo tempo, deixando que o Espírito Santo, através do nosso testemunho, junto dos que privam connosco, no dia a dia da vida, chegue ao coração dos que O buscam de verdade.

“Caríssimos: Venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança. Mas seja com brandura e respeito, conservando uma boa consciência, para que, naquilo mesmo em que fordes caluniados, sejam confundidos os que dizem mal do vosso bom procedimento em Cristo. Mais vale padecer por fazer o bem, se for essa a vontade de Deus, do que por fazer o mal. Na verdade, Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados – o Justo pelos injustos – para nos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito.”


No evangelho (Jo 14, 15-21) o discurso de despedida de Jesus, que S.João nos transmite, é um tesouro precioso, pois revela-nos até onde vai o Amor de Deus por cada um de nós: ”E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco”.

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco: Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis. Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós. Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

Vem, Espírito Santo, habita-me, inunda o meu coração e faz de mim verdadeira testemunha do Amor de Deus.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho de hoje, sexto domingo da Páscoa, fala-nos do Espírito Santo, a quem Jesus chama Paráclito (cf. Jo 14, 15-17)Paráclito é uma palavra que vem do grego e significa, ao mesmo tempo, consolador e advogado. Isto é, o Espírito Santo nunca nos deixa sozinhos, está ao nosso lado, como um advogado que assiste o réu, estando ao seu lado. E sugere-nos a forma de nos defendermos perante aqueles que nos acusam. Lembremo-nos de que o grande acusador é sempre o demónio, que coloca os pecados dentro de nós, o desejo de pecar, a maldade. Reflitamos sobre estes dois aspetos: a sua proximidade a nós e a sua ajuda contra aqueles que nos acusam.

A sua proximidade: o Espírito Santo, diz Jesus, «permanece convosco e está em vós» (cf. v. 17). Nunca nos abandona. O Espírito Santo quer estar connosco: não é um hóspede de passagem que vem fazer-nos uma visita de cortesia. É um companheiro de vida, uma presença estável, é Espírito e deseja habitar no nosso espírito. É paciente e fica connosco inclusive quando caímos. Fica porque nos ama verdadeiramente: não finge que nos ama e depois deixa-nos sozinhos nas dificuldades. Não. É leal, é transparente, é autêntico.

Aliás, quando nos encontramos na provação, o Espírito Santo consola-nos, trazendo-nos o perdão e a força de Deus. E quando nos confronta com os nossos erros e nos corrige, fá-lo com gentileza: na sua voz que fala ao coração há sempre o timbre da ternura e o calor do amor. Certamente, o Espírito Paráclito é exigente, porque é um amigo verdadeiro, fiel, que nada esconde, que nos sugere o que mudar e como crescer. Mas, quando nos corrige, nunca nos humilha nem infunde desconfiança; ao contrário, transmite-nos a certeza de que com Deus podemos vencer, sempre. Esta é a sua proximidade. É uma bonita certeza!

Segundo aspeto, o Espírito Paráclito, é o nosso advogado e defende-nos. Defende-nos diante daqueles que nos acusam: diante de nós mesmos, quando não nos amamos e não nos perdoamos, até ao ponto de nos dizer que somos fracassados e inúteis; diante do mundo, que descarta quem não corresponde aos seus esquemas e modelos; diante do demónio, que é por excelência o “acusador” e o divisor (cf. Ap 12, 10) e faz de tudo para que nos sintamos incapazes e infelizes.

Perante todos estes pensamentos acusadores, o Espírito Santo sugere-nos como devemos reagir. De que modo? O Paráclito é Aquele que «nos recorda tudo o que Jesus nos disse» (cf. Jo 14, 26). Por isso, recorda-nos as palavras do Evangelho e permite que respondamos ao demónio acusador não com as nossas palavras, mas com as palavras do Senhor. Sobretudo, recorda-nos que Jesus falou sempre do Pai que está nos céus, fez com que o conhecêssemos e revelou-nos o seu amor por nós, que somos seus filhos. Se invocarmos o Espírito, aprendemos a acolher e a recordar a realidade mais importante da vida, que nos protege das acusações do mal. E qual é essa realidade mais importante da vida? O facto de sermos filhos amados de Deus. Somos filhos amados de Deus: esta é a realidade mais importante, e o Espírito recorda-nos isso.

Irmãos e irmãs, perguntemo-nos hoje: invocamos o Espírito Santo, rezamos-Lhe com frequência? Não nos esqueçamos d’Aquele que está perto de nós, aliás, dentro de nós! E depois, escutamos a sua voz, quando nos encoraja e quando nos corrige? Respondemos com as palavras de Jesus às acusações do mal, aos “tribunais” da vida? Lembramo-nos de que somos filhos amados de Deus? Que Maria nos torne dóceis à voz do Espírito Santo e sensíveis à sua presença.

Papa Francisco
(Regina Caeli - 14 de maio de 2023)

Semana da Vida

À imagem e semelhança de Deus – Trindade! (II) - Pe Manuel Armindo Janeiro - Facebook

O Mistério de onde vimos e para onde vamos!...

Com o II Concílio do Vaticano e o movimento de renovação que o precedeu e acompanhou, o mistério fundamental da fé cristã, Deus – Trindade Santíssima, recuperou o lugar central na vida e missão da Igreja.  

Se até então parecia distante – isolado em tratados teológicos, profissões de fé e celebrações litúrgicas -, sem incidência prática na vida eclesial e pessoal, com o IIº Concílio do Vaticano o mistério de Deus – Trindade Santíssima tornou-se, por assim dizer, acessível e íntimo a cada fiel.  

É a partir dele que a Igreja se vai repensar e reorganizar, descobrindo nova luz para uma compreensão mais profunda do seu ser, tal como ficou patente na constituição dogmática Lumen Gentium onde, no primeiro capítulo, Deus – Trindade é apresentado como raiz e fonte do Mistério da Igreja e, no segundo capítulo, esta é definida como Povo de Deus, articulando e moldando as suas relações à imagem e semelhança do rosto trinitário de Deus.

De facto, somos batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; a liturgia da Igreja dirige-se ao Pai pelo Filho no Espírito Santo; a teologia, nas suas diferentes áreas, passou a dar justa relevância ao mistério central da nossa fé; e a Igreja iniciou um processo de renovação, a começar pela sua própria conceção, cujo impulso e dinamismo continua a produzir frutos, sendo o caminho sinodal, proposto pelo Papa Francisco, um dos últimos e mais importantes.  

A Igreja procede e participa do mistério e da vida da Trindade Santíssima e tem como missão ser ícone, isto é, ser Sua imagem e presença num mundo dilacerado por discórdias, ódios e violência. Através dela, pela ação do Filho e do Espírito Santo – as duas mãos de Deus Pai, no dizer de Santo Ireneu –, a Santíssima Trindade torna-se próxima de todos nós e atrai-nos para Si a fim de vivermos ao ritmo do Seu dinamismo de amor e doação, cuidando uns dos outros e procurando que cada um cresça à medida da estatura completa de Cristo (Ef 4,13). 

Viver imersos no mistério trinitário de Deus significa aprender a ser ponte, a saber ser amparo e suporte; significa fazer acontecer a fraternidade e ajudar a curar e a restaurar relações, superando ressentimentos, intolerâncias e vinganças; significa ser capaz de harmonizar igualdade com diferença, a pessoa com a comunidade, o particular com o universal. 

Esta experiência íntima e sublime, pessoal e comunitária de Deus – Trindade Santíssima, que se dá na contemplação e na ação, permite-nos descobrir a Sua presença em tudo e em todos, convertendo-nos em construtores da paz, em habitantes comprometidos da Casa Comum e cuidadores das suas criaturas. 

Talvez se possa vislumbrar no resgate teológico, eclesial e espiritual da dimensão trinitária do Mistério de Deus do nosso tempo e sua vivência no quotidiano, o caminho profético apontado por Karl Rahner no pós-Concílio, ao afirmar: “o cristão do século XXI ou será místico ou não será cristão”.

Nicolai Berdaieff, político cristão russo, dizia quando o interpelavam sobre o seu programa e respetivo quadro de valores: “O meu programa é a Santíssima Trindade, pois ela ensina-nos a salvaguardar a dignidade da pessoa e, ao mesmo tempo, a construir a comunidade humana no amor e na justiça”. Que este programa seja também o nosso!

Pe. Armindo Janeiro

Publicado  /4 de maio/2026