segunda-feira, 5 de outubro de 2026
sábado, 3 de outubro de 2026
DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM
Neste domingo a temática da vinha mantém-se, mas surge numa perspetiva diferente, pois o Senhor mostra-nos até onde vai o Seu amor pela vinha, que somos nós. Deus espera que O reconheçamos e a Ele nos entreguemos na totalidade do nosso ser, de forma a produzirmos “boas uvas”.
Na 1ªleitura (Is 5, 1-7) o profeta Isaías apresenta-nos O Senhor a cuidar com todo o carinho do Seu povo, que lhe responde com infidelidades e traições.
“Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha. O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços. E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e a minha vinha: Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito? Quando eu esperava que viesse a dar uvas, porque é que apenas produziu agraços? Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha: vou tirar-lhe a vedação e será devastada; vou demolir-lhe o muro e será espezinhada. Farei dela um terreno deserto: não voltará a ser podada nem cavada, e nela crescerão silvas e espinheiros; e hei de mandar às nuvens que sobre ela não deixem cair chuva. A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror.”
Como respondemos nós, hoje, ao Amor que Deus nos tem?
Para que não tenhamos dúvidas, S. Paulo, na 2ªleitura (Filip 4, 6-9) diz-nos o que se espera de nós, como resposta ao Amor de Deus. Escutemo-lo de coração sincero e façamos o que nos propõe.
“Irmãos: Não vos inquieteis com coisa alguma. Mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim é o que deveis praticar. E o Deus da paz estará convosco.”
No Evangelho (Mt 21, 33-43) é próprio Jesus que nos conta uma nova parábola sobre a vinha. E nela fala-nos do profundo amor de Deus por todos os homens, a ponto de enviar o Seu próprio Filho pela salvação da humanidade. Quanto nos amas Senhor! Ninguém pode ficar indiferente perante a manifestação do Amor de Deus!
“Naquele
tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi
outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma
sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns
vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os
seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém,
lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro
apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os
primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu
próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem
o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua
herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o
dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar
sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe
entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto
veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á
tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».”
Senhor, que eu
me deixe amar por Ti, na totalidade do meu ser.
Amados irmãos
e irmãs, bom dia!
Hoje o
Evangelho apresenta-nos uma parábola dramática, com um epílogo triste (cf. Mt
21, 33-43). O proprietário de um terreno plantou ali uma vinha e cuidou bem
dela; depois, tendo de partir, confia-a a alguns camponeses. Na altura da
colheita, manda os seus servos fazer a colheita. Mas os camponeses
maltratam-nos e matam-nos; depois o dono manda o seu filho, e também o matam.
Porquê? O que é que correu mal? Há uma mensagem de Jesus nesta parábola.
O dono faz
tudo bem, com amor: trabalha ele próprio, planta a vinha, rodeia-a com uma sebe
para a proteger, cava um buraco para o lagar e constrói uma torre de vigia (cf.
v. 33). Em seguida, confia a vinha a agricultores, alugando-lhes a sua preciosa
propriedade e tratando-os assim com equidade, para que a vinha seja bem
cultivada e dê fruto. Tendo em conta estas premissas, a vindima deveria
terminar de forma feliz, num ambiente de festa, com uma partilha justa da
colheita, para satisfação de todos.
Em vez disso,
pensamentos ingratos e ávidos insinuaram-se no espírito dos
agricultores. Vede que, na origem dos conflitos, há sempre pensamentos de
ingratidão e de avidez, de posse imediata de coisas. “Não precisamos de dar
nada ao patrão. O produto do nosso trabalho é só nosso. Não temos de prestar
contas a ninguém”! Assim é o discurso desses trabalhadores. E isso não é
verdade: deviam estar gratos pelo que receberam e pela forma como foram
tratados. Pelo contrário, a ingratidão alimenta a avidez e cresce neles um
progressivo sentimento de revolta, que os leva a ver a realidade de uma forma
distorcida, a sentirem-se em crédito e não em dívida para com o dono que lhes
deu trabalho. Quando veem o filho, chegam até a dizer: «Este é o herdeiro.
Matemo-lo, e ficaremos com a sua herança»! (v. 38). E, de agricultores,
tornam-se assassinos. É tudo um processo. E este processo acontece muitas vezes
no coração das pessoas, também no nosso coração.
Com esta
parábola, Jesus recorda-nos o que acontece quando o homem se ilude é
autossuficiente e esquece a gratidão, esquece a realidade fundamental da vida:
que o bem vem da graça de Deus, que o bem vem do seu dom gratuito. Quando se
esquece disto, da gratuidade de Deus, acaba por viver a própria condição e a
própria limitação já não com a alegria de se sentir amado e salvo, mas com a
triste ilusão de não precisar nem de amor nem de salvação. Não nos deixamos
amar e ficamos prisioneiros da própria avidez, prisioneiros da necessidade de
ter algo mais do que os outros, de querer sobressair sobre os outros. É feio,
este processo, e acontece-nos muitas vezes. Pensemos seriamente nisto. Daí
nascem tantas insatisfações e recriminações, tantas incompreensões e tanta
inveja; e, movidos pelo ressentimento, podemos precipitar-nos no vórtice da
violência. Sim, queridos irmãos e irmãs, a ingratidão gera violência, tira-nos
a paz e faz-nos ouvir e falar aos gritos, sem paz, enquanto um simples
“obrigado” pode trazer a paz!
Perguntemo-nos
então: tenho consciência de que recebi a vida e a fé como um dom? Apercebo-me
de que eu mesmo, eu mesma sou um dom? Tenho consciência de que tudo começa com
a graça do Senhor? Apercebo-me de que sou beneficiado sem mérito, amado e salvo
gratuitamente? E, sobretudo, em resposta à graça, sei dizer “obrigado”? Sei
dizer “obrigado”? As três palavras que são o segredo da convivência humana:
obrigado, com licença, perdão. Será que sei dizer estas três palavras?
Obrigado, com licença, perdão, desculpa. Sei como dizer estas três palavras? É
uma pequena palavra, “obrigado” - é uma pequena palavra, “com licença”, é uma
pequena palavra, “perdão” - esperada todos os dias de Deus e dos irmãos.
Perguntemo-nos se esta pequena palavra, “obrigado”, “com licença”, “perdão,
desculpa”, está presente na nossa vida. Sei agradecer, sei dizer “obrigado”?
Sei pedir desculpa, perdão? Sei como não ser intrusivo – “com licença”?
Obrigado, perdão, com licença.
Que Maria, cuja alma enaltece o Senhor, nos ajude a fazer da gratidão a luz que nasce todos os dias do coração.
sábado, 26 de setembro de 2026
XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM
O Senhor
continua na Sua vinha. Hoje, vem até nós e dirige-nos um pedido especial
“Filho, vai hoje trabalhar na vinha”. Cabe a cada um dar-Lhe a sua resposta:
sim, sim; não, não. Mais do que as palavras, o que interessa verdadeiramente é
fazer a Sua vontade, nada mais é necessário.
Na 1ªleitura (Ez 18, 25-28) Ezequiel continua, na linha das leituras
dos últimos domingos, a revelar-nos Deus como o único justo, como Aquele que
vai sempre mais além, quando se trata de nos amar. A medida da justiça de Deus
é o Seu Amor infinito por todo e cada ser, hoje e sempre, para além do tempo e do espaço.
“Eis o que diz o Senhor: «Vós dizeis: ‘A maneira de proceder do Senhor não é justa’. Escutai, casa de Israel: Será a minha maneira de proceder que não é justa? Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto? Quando o justo se afastar da justiça, praticar o mal e vier a morrer, morrerá por causa do mal cometido. Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida. Se abrir os seus olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, há de viver e não morrerá».”
S.Paulo, na 2ªleitura (Filip 2, 1-11) exorta-nos a amar os nossos irmãos, tendo como expoente o Amor de Jesus Cristo por cada um de nós. Deixemo-nos amar totalmente por Jesus, entreguemo-nos de coração e seremos elos na cadeia de transmissão do Seu Amor, por este mundo além.
“Irmãos: Se há em Cristo alguma consolação, algum
conforto na caridade, se existe alguma comunhão no Espírito, alguns sentimentos
de ternura e misericórdia, então completai a minha alegria, tendo entre vós os
mesmos sentimentos e a mesma caridade, numa só alma e num só coração. Não
façais nada por rivalidade nem por vanglória; mas, com humildade, considerai os
outros superiores a vós mesmos, sem olhar cada um aos seus próprios interesses,
mas aos interesses dos outros. Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em
Cristo Jesus. Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade
com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus O exaltou e Lhe deu um
nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se
ajoelhem, no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus
Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.
No
Evangelho (Mt 21,
28-32) o Senhor Jesus conta-nos uma parábola em que nos
desafia a colocarmo-nos totalmente nas mãos de Deus. Se Lhe dissermos sim, que
a nossa palavra corresponda aos nossos atos, caso contrário, mais vale fazermos
como o primeiro filho.
“Naquele
tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Que vos
parece? Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho,
vai hoje trabalhar na vinha’. Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’. Depois,
porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do
mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’. Mas de facto não foi. Qual dos
dois fez a vontade ao pai?». Eles responderam-Lhe: «O primeiro». Jesus
disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão
diante de vós para o reino de Deus. João Baptista veio até vós, ensinando-vos o
caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de
má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes,
acreditando nele».”
Senhor, que
aprenda de Ti a dizer sim, por palavras, mas também de coração. Que, ainda que
te diga não, mesmo nessas alturas, me coloque nas Tuas mãos e faça o que Tu
queres de mim.
Amados irmãos
e irmãs, bom dia!
Hoje o
Evangelho fala de dois filhos, a quem o pai pede que vão trabalhar na vinha (cf. Mt 21, 28-32).
Um deles responde imediatamente “sim”, mas depois não vai. O outro, pelo
contrário, diz que não, mas depois arrepende-se e vai.
O que dizer
destes dois comportamentos? Pensa-se imediatamente que ir trabalhar na vinha
requer sacrifício, e que o sacrifício custa e não é espontâneo, mesmo na beleza
de saber que somos filhos e herdeiros. Mas o problema aqui não está tão ligado
à resistência a ir trabalhar na vinha, mas à sinceridade ou não diante
do pai e de si próprio. Com efeito, na realidade nenhum dos dois filhos se
comporta corretamente, o primeiro mente, enquanto que o outro erra mas é
sincero.
Vejamos o caso
do filho que diz “sim” mas depois não vai. Ele não quer fazer a vontade do pai,
mas também não quer discutir e falar sobre isso. Por isso, esconde-se por
detrás de um “sim”, de um falso assentimento, que esconde a sua preguiça e lhe
salva a cara momentaneamente, é um hipócrita. Passa sem conflitos, mas engana e
desilude o seu pai, desrespeitando-o de uma forma pior do que teria feito com
um “não” direto. O problema de um homem que se comporta assim é que não é
apenas um pecador, mas um corrupto, porque mente sem problemas
para cobrir e disfarçar a sua desobediência, sem aceitar qualquer diálogo ou
confronto honesto.
O outro filho,
o que diz “não” mas vai, é sincero. Não é perfeito, mas é sincero. Claro que
teríamos gostado de o ver dizer “sim” imediatamente. Não o faz, mas, pelo
menos, manifesta diretamente e num certo sentido com coragem a sua relutância.
Ou seja, assume a responsabilidade pelo seu comportamento e age à luz do dia.
Depois, com esta honestidade básica, acaba por se questionar, por se aperceber
de que estava errado e por retomar os seus passos. É, podemos dizer, um pecador,
mas não um corrupto. Ouvi bem: é um pecador, mas não é um corrupto. E
para o pecador há sempre uma esperança de redenção; para o corrupto, porém, é
muito mais difícil. De facto, os seus falsos “sins”, as suas aparências
elegantes mas hipócritas e os seus fingimentos que se tornaram hábitos são como
uma espessa “parede de borracha”, atrás da qual ele se protege das chamadas de
consciência. E estes hipócritas fazem tanto mal! Irmãos e irmãs, pecadores sim
- todos o somos -, corruptos não! Pecadores sim, corruptos não!
Olhemos agora
para nós próprios e, à luz de tudo isto, coloquemo-nos algumas questões.
Perante o esforço de viver uma vida honesta e generosa, de me empenhar segundo
a vontade do Pai, estou disposto a dizer “sim” todos os dias, mesmo que isso
custe? E quando não consigo, sou sincero no confronto com Deus sobre as minhas
dificuldades, as minhas quedas, as minhas fragilidades? E quando digo “não”,
volto atrás? Falemos com o Senhor sobre isto. Quando cometo um erro, estou
disposto a arrepender-me e a corrigir-me? Ou faço vista grossa e vivo com uma
máscara, preocupando-me apenas de me mostrar uma boa pessoa e honesto? Em
última análise, sou um pecador, como toda a gente, ou há algo de corrupto em
mim? Não esqueçais: pecadores sim, corruptos não.
Maria, espelho
de santidade, nos ajude a ser cristãos sinceros.
sábado, 19 de setembro de 2026
DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM
Hoje as
leituras colocam a fasquia a um nível muito alto. O desafio vai, à primeira vista, para
além do que nos parece razoável. Na verdade, só quem se deixa habitar,
totalmente, por Deus consegue aderir à proposta que o Senhor hoje nos faz: amar o outro, que é sempre imagem de Deus, seja ele trabalhador desde a primeira
hora, ou apenas após a última hora. Para Deus não há diferença, pois todos são
seus filhos queridíssimos, a quem ama sempre e infinitamente.
Isaías, na
1ªleitura (Is 55, 6-9), prepara-nos para a escuta do Evangelho. Como os nossos pensamentos, os
nossos juízos, estão a miríades de distância dos de Deus! Quantas discussões
travadas por causa do evangelho de hoje, sem conseguirmos chegar a acordo…
Certezas de quem é jovem! Mas mesmo hoje, passados tantos anos, com tantos
caminhos percorridos, com a cabeça já branca, ainda assim, continua a não ser
fácil. Só Deus ama, mas n'Ele, por Jesus também nós podemos amar. Deixemo-nos
fazer por Ele.
“Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar, invocai-O, enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos. Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele, ao nosso Deus, que é generoso em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus - oráculo do Senhor -. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os meus pensamentos.”
Na 2ª leitura (Filip 1, 20c-24.27a) o apóstolo prova-nos que é possível viver de Deus e apoiado só n'Ele, por Jesus Cristo, Seu Único Filho. O texto de hoje , que S.Paulo nos deixou, é exemplo desta sua entrega total a Deus.
“Irmãos: Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva quer eu morra. Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Mas, se viver neste corpo mortal me permite um trabalho útil, não sei o que escolher. Sinto-me constrangido por este dilema: desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor; mas é mais necessário para vós que eu permaneça neste corpo mortal. Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo.”
No Evangelho (Mt 20, 1-16a ), Jesus conta-nos uma parábola que revela o quanto Deus ama cada um dos
seus filhos, isto é, infinitamente. A medida do Amor de Deus não cabe no nossos
esquemas, na nossa justiça, na nossa forma de tudo calcularmos e legislarmos.
Deus vai muito para além de todos os nossos critérios. Deus é todo Amor e dá-se
continuamente em Jesus Cristo, por cada um de nós. Assim, dá tudo, dá-se todo,
tanto ao trabalhador da primeira hora, como ao da última. Fazer diferente seria
contrariar a Sua Natureza. Deus é Amor sempre e para sempre, por todos e por
cada uma das suas criaturas. Assim, a esta luz, a parábola faz todo o sentido.
Bendito e louvado seja Deus pelo Amor que nos tem.
“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».”
Senhor, que eu me deixe inundar, fazer por Ti, a cada momento e responda
sempre ao Teu convite de amor. Louvado sejas hoje e sempre, pelos
séculos sem fim.
Estimados
irmãos e irmãs!
Desejo
refletir novamente sobre uma parábola de Jesus. Também neste caso se trata de
uma narração que alimenta a nossa esperança. Com efeito, às vezes temos a
impressão de não conseguir encontrar um sentido para a nossa vida: sentimo-nos
inúteis, inadequados, precisamente como os operários que aguardam na praça do
mercado, à espera que alguém os leve para trabalhar. Mas por vezes o tempo
passa, a vida corre, e não nos sentimos reconhecidos nem apreciados. Talvez não
tenhamos chegado a tempo, talvez outros se tenham apresentado antes de nós, ou
porventura as preocupações nos tenham detido noutro lugar.
A metáfora da
praça do mercado é muito adequada até aos nossos tempos, pois o mercado é o
lugar dos negócios, onde infelizmente as pessoas compram e vendem até o afeto e
a dignidade, procurando obter algum lucro. E quando não se sentem valorizadas,
reconhecidas, chegam a correr o risco de se vender ao primeiro licitante. Ao
contrário, o Senhor recorda-nos que a nossa vida tem valor, e o seu desejo é
ajudar-nos a descobri-lo.
Também na
parábola que hoje comentamos, há operários que esperam que alguém os faça
trabalhar por um dia. Estamos no capítulo 20 do Evangelho de Mateus e inclusive
aqui encontramos uma figura que tem um comportamento insólito, que surpreende e
questiona. É o dono de uma vinha que sai pessoalmente para ir em busca dos seus
operários. Evidentemente, quer estabelecer uma relação pessoal com eles.
Como eu dizia,
trata-se de uma parábola que infunde esperança, porque nos diz que este dono
sai várias vezes à procura de quem espera dar um sentido à sua vida. O dono sai
imediatamente de madrugada e depois, de três em três horas, volta a procurar
trabalhadores para enviar à sua vinha. Seguindo este esquema, depois de sair às
três horas da tarde, já não haveria razão para sair novamente, dado que o dia
de trabalho terminava às seis horas.
Pelo
contrário, este dono incansável, que quer valorizar a vida de cada um a todo o
custo, sai também às cinco horas. Os trabalhadores que permaneceram na praça do
mercado provavelmente tinham perdido toda a esperança. Aquele dia tinha sido em
vão. E, no entanto, alguém ainda acreditou neles. Que sentido tem chamar
operários só para a última hora do dia de trabalho? Que sentido tem ir
trabalhar apenas uma hora? Contudo, até quando nos parece que podemos fazer
pouco na vida, vale sempre a pena. Há sempre a possibilidade de encontrar um
sentido, pois Deus ama a nossa vida!
Eis que a
originalidade deste dono se vê também no fim do dia, na hora do pagamento. Com
os primeiros trabalhadores, aqueles que vão para a vinha de madrugada, o dono
tinha estabelecido um denário, que era o custo típico de um dia de trabalho.
Para os outros, diz que lhes dará o que for justo. E é precisamente aqui que a
parábola volta a provocar-nos: o que é justo? Para o dono da vinha, isto é,
para Deus, é justo que cada um tenha o necessário para viver. Ele chamou
pessoalmente os trabalhadores, conhece a sua dignidade e quer pagar-lhes com
base nela. E dá a todos um denário.
A história diz
que os trabalhadores da primeira hora ficam desiludidos: não conseguem ver a
beleza do gesto do dono, que não foi injusto, mas simplesmente generoso, não
considerou apenas o mérito, mas também a necessidade. Deus quer dar a todos o
seu Reino, ou seja, a vida plena, eterna e feliz. E é o que Jesus faz em
relação a nós: não faz classificações, dá tudo de Si mesmo a quantos lhe abrem
o coração!
À luz desta
parábola, o cristão de hoje poderia ser tentado a pensar: “Por que começar a
trabalhar imediatamente? Se a remuneração é a mesma, por que trabalhar mais?”.
Santo Agostinho respondia assim a estas dúvidas: «Por que razão, pois, demoras
em seguir quem te chama, enquanto estás certo da remuneração, mas incerto
quanto ao dia? Presta atenção a não tirares de ti, devido à tua hesitação, o
que ele te oferecer em conformidade com a sua promessa» (Discurso 87, 6, 8).
Gostaria de
dizer, especialmente aos jovens, que não esperem, mas que respondam com
entusiasmo ao Senhor que nos chama a trabalhar na sua vinha. Não demoreis,
arregaçai as mangas, pois o Senhor é generoso e não ficareis desiludidos!
Trabalhando na sua vinha, encontrareis a resposta àquela pergunta profunda que
trazeis dentro de vós: qual é o sentido da minha vida?
Caros irmãos e irmãs, não desanimemos! Até nos momentos obscuros da vida, quando o tempo passa sem nos dar as respostas que procuramos, peçamos ao Senhor que volte a sair e nos alcance onde estamos à sua espera. O Senhor é generoso e virá em breve!
sábado, 12 de setembro de 2026
DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM
As leituras
deste domingo, a meu ver, estão na mesma linha (amor infinito de Deus por cada
um de nós) dos textos da semana passada, mas numa sequência crescente. Se,
então, éramos exortados a “corrigir os que erram”, hoje somos desafiados a ir
muito mais longe, no caminho que nos leva a Jesus, perdoando totalmente (no
amor divino) sempre, sempre, sempre e cada vez mais, os que connosco convivem,
ou se cruzam nos caminhos da vida, tendo como meta o encontro, de cada um, com
o amor infinito de Deus.
A 1ªleitura (Sir 27, 33 – 28, 9) traz-nos um confronto, ou melhor, uma correlação entre o perdão de Deus e o
perdão dos homens. Acredito sinceramente que só perdoamos verdadeiramente quem
nos ofende, quando Deus, no nosso coração, ama a outra pessoa. Então, sim o
perdão é verdadeiro e total, passa a ato de amor.
“O rancor e a ira são coisas detestáveis, e o pecador é mestre nelas. Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor, que pedirá minuciosa conta de seus pecados. Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas. Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus que o cure? Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados? Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor, quem lhe alcançará o perdão das suas faltas? Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos. Recorda os mandamentos e não tenhas rancor ao próximo; pensa na aliança do Altíssimo e não repares nas ofensas que te fazem.”
Na 2ª leitura (Rom 14, 7-9) S. Paulo diz-nos que somos de Cristo e que só n’Ele seremos completamente felizes, porque a Ele pertencemos, uma vez que nos reconquistou para Deus.
“Irmãos: Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos.”
No evangelho (Mt 18, 21-35) Jesus, através de uma parábola, leva-nos a reconhecer o quanto Deus é misericordioso para connosco. Como Deus é diferente de nós. Deus só sabe amar! Nós, precisamos de aprender d’Ele a perdoar, a amar.
“Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:«Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».
Ensina-me Senhor a amar aqueles com quem convivo diariamente, mas também os que ocasionalmente pões no meu caminho.
Estimados
irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje o
Evangelho fala-nos de perdão (cf.
Mt 18, 21-35). Pedro pergunta a Jesus: «Senhor,
se o meu irmão me ofender quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» (v. 21).
Sete, na
Bíblia, é um número que indica plenitude, e por isso Pedro é muito generoso nas
hipóteses da sua pergunta. Mas Jesus vai mais longe e responde-lhe: «Não te
digo sete vezes, mas setenta vezes sete» (v.
22).
Diz-lhe, portanto, que quando se perdoa não se calcula, que é bom perdoar tudo
e sempre! Tal como Deus faz connosco, e como são chamados a fazer aqueles que
administram o perdão de Deus: perdoar sempre. Digo isto aos padres, aos
confessores: perdoai sempre como Deus perdoa.
Jesus ilustra
então esta realidade através de uma parábola, que tem sempre a ver com números.
Um rei, depois de ter sido implorado, perdoa a um servo a dívida de 10.000
talentos: é um valor exagerado, imenso, que varia entre 200 e 500 toneladas de
prata: exagerado. Era uma dívida impossível de saldar, mesmo trabalhando toda a
vida: mas aquele senhor, que recorda o nosso Pai, perdoa-lhe por pura
«compaixão» (v. 27).
É assim o coração de Deus: perdoa sempre, porque Deus é compassivo. Não
esqueçamos como é Deus: próximo, compassivo e terno; este é o modo de ser de
Deus. Mas depois este servo, ao qual a dívida foi perdoada, não tem piedade de
outro servo que lhe deve 100 denários. Também esta é uma soma substancial,
equivalente a cerca de três meses de salário - como se quisesse dizer que
perdoar uns aos outros tem um preço! - mas não é de modo algum comparável à
quantia anterior, que o patrão tinha perdoado.
A mensagem de
Jesus é clara: Deus perdoa incalculavelmente, ultrapassando todas as medidas.
Ele é assim, age por amor e por gratuidade. Deus não pode ser comprado, Deus é
gratuito, é todo gratuidade. Não podemos retribuir-lhe, mas quando perdoamos ao
nosso irmão ou irmã, imitamo-lo. Perdoar não é, portanto, uma boa ação que se
pode fazer ou deixar de fazer: perdoar é uma condição fundamental para quem é
cristão. Cada um de nós, de facto, é um “perdoado” ou uma “perdoada”: não
esqueçamos isto, nós somos perdoados, Deus deu a vida por nós e de modo algum
podemos compensar a sua misericórdia, que ele nunca retira do coração. Mas,
correspondendo à sua gratuidade, isto é, perdoando-nos uns aos outros, podemos
dar testemunho dele, semeando vida nova à nossa volta. Porque fora do perdão
não há esperança, fora do perdão não há paz. O perdão é o oxigénio que purifica
o ar poluído pelo ódio, o perdão é o antídoto que cura os venenos do
ressentimento, é o caminho para desarmar a raiva e curar tantas doenças do
coração que contaminam a sociedade.
Perguntemo-nos
então: acredito que recebi de Deus o dom de um perdão imenso? Sinto a alegria
de saber que Ele está sempre pronto a perdoar-me quando peco, até quando os
outros não o fazem, ou até quando nem eu próprio me consigo perdoar? Ele
perdoa: acredito que Ele perdoa? E depois: sei perdoar, por minha vez, aqueles
que me ofenderam? A este respeito, gostaria de vos propor um pequeno exercício:
procuremos, agora, cada um de nós, pensar numa pessoa que nos ofendeu e peçamos
ao Senhor a força para a perdoar. E perdoemo-la por amor ao Senhor: irmãos e
irmãs, isso far-nos-á bem, restaurará a paz nos nossos corações.
Maria, Mãe de
Misericórdia, nos ajude a aceitar a graça de Deus e a perdoarmo-nos uns aos
outros.





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