sábado, 22 de agosto de 2026

 DOMINGO XXI DO TEMPO COMUM

As leituras de hoje centram-nos em duas realidades fundamentais da nossa fé: Jesus Cristo e a Igreja. Somos convidados a viver numa Igreja, centrada em Jesus Cristo, em que cada um tem a sua missão, estando esta sempre ao serviço da transmissão do Amor de Deus numa perspetiva de entrega e ajuda concreta a todo aquele que o Senhor coloca nos nossos caminhos.

Na 1ªleitura (Is 22, 19-23) as chaves “do poder” são entregues a Eliacim, que personifica Pedro, que vamos encontrar no evangelho. Ajuda-nos a percecionar que o poder é serviço de Amor, de comunhão e de relação total com Deus. Só assim valerá a pena servir, “ter o poder”, pois só o Amor de Deus preenche o coração de cada ser por Ele criado, tudo o mais é falível e efémero. 

“Eis o que diz o Senhor a Chebna, administrador do palácio: «Vou expulsar-te do teu cargo, remover-te do teu posto. E nesse mesmo dia chamarei o meu servo Eliacim, filho de Elcias. Hei de revesti-lo com a tua túnica, hei de pôr-lhe à cintura a tua faixa, entregar-lhe nas mãos os teus poderes. E ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei aos seus ombros a chave da casa de David: há de abrir, sem que ninguém possa fechar; há de fechar, sem que ninguém possa abrir. Fixá-lo-ei como uma estaca em lugar firme e ele será um trono de glória para a casa de seu pai».”

Na 2ª leitura (Rom 11, 33-36) S.Paulo, mais uma vez, leva-nos a contemplar Deus através de um hino lindíssimo.  Acompanhemos S.Paulo neste poema-oração. 

“Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus! Como são insondáveis os seus desígnios e incompreensíveis os seus caminhos! Quem conheceu o pensamento do Senhor? Quem foi o seu conselheiro? Quem Lhe deu primeiro, para que tenha de receber retribuição? D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas. Glória a Deus para sempre. Ámen.”

O Evangelho (Mt 16, 13-20) convida-nos a escutar Jesus, a olhar bem para o mais íntimo do nosso ser e a responder, em verdade, às questões que nos põe: quem dizes tu que Eu sou?; o que represento Eu na tua vida?; que testemunho dás tu de Mim, no concreto do teu dia a dia?

“Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?». Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas». Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus». Então, Jesus ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias.”

Eu creio Senhor que é Jesus, o Filho de Deus Vivo, que ressuscitou dos mortos e vives em cada um de nós!


Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, no Evangelho (cf. Mt 16, 13-20), Jesus faz uma boa pergunta aos discípulos: «Quem dizeis que é o Filho do homem?» (v. 13).

É uma pergunta que também podemos fazer a nós próprios: o que dizem as pessoas de Jesus? Geralmente coisas positivas: muitos vêem-no como um grande mestre, como uma pessoa especial: boa, justa, coerente, corajosa... Mas será isto suficiente para compreender quem é e, sobretudo, será suficiente para Jesus? Parece que não. Se Ele fosse apenas uma figura do passado - como as figuras mencionadas no mesmo Evangelho, João Batista, Moisés, Elias e os grandes profetas eram para as pessoas da época - seria apenas uma bela recordação de um tempo passado. E isso não agrada a Jesus. Portanto, logo a seguir, o Senhor faz aos discípulos a pergunta decisiva: «Mas vós - vós! - quem dizeis que eu sou?» (v. 15). Quem sou eu para vós agora? Jesus não quer ser um protagonista da história, mas quer ser protagonista do teu hoje, do meu hoje; não um profeta distante: Jesus quer ser o Deus próximo!

Cristo, irmãos e irmãs, não é uma memória do passado, mas o Deus do presente. Se fosse apenas uma figura histórica, imitá-lo hoje seria impossível: encontrar-nos-íamos perante a grande vala do tempo e, sobretudo, perante o seu modelo, que é como uma montanha muito alta e inalcançável; desejosos de a escalar, mas desprovidos da capacidade e dos meios necessários. Em vez disso, Jesus está vivo: recordemo-lo, Jesus está vivo, Jesus vive na Igreja, vive no mundo, Jesus acompanha-nos, Jesus está ao nosso lado, oferece-nos a sua Palavra, oferece-nos a sua graça, que iluminam e restabelecem no caminho: Ele, guia experiente e sábio, está feliz por nos acompanhar nos caminhos mais difíceis e nas subidas mais árduas.

Queridos irmãos e irmãs, no caminho da vida não estamos sozinhos, porque Cristo está connosco, Cristo ajuda-nos a caminhar, como fez com Pedro e com os outros discípulos. É precisamente Pedro, no Evangelho de hoje, que compreende isto e, por graça, reconhece em Jesus «o Cristo, o Filho de Deus vivo» (v. 16): «Tu és o Cristo, Tu és o Filho de Deus vivo», diz Pedro; não é um personagem do passado, mas o Cristo, isto é, o Messias, aquele que é esperado; não um herói morto, mas o Filho de Deus vivo, feito homem e vindo partilhar as alegrias e as fadigas do nosso caminho. Não desanimemos se por vezes o cume da vida cristã parecer demasiado alto e o caminho demasiado íngreme. Olhemos para Jesus, sempre; olhemos para Jesus que caminha ao nosso lado, que acolhe as nossas fragilidades, partilha os nossos esforços e apoia o seu braço firme e suave sobre os nossos ombros fracos. Com Ele ao nosso lado, estendamos também a mão uns aos outros e renovemos a confiança: com Jesus, o que parece impossível por nós próprios já não é impossível, com Jesus podemos ir em frente!

Hoje, far-nos-á bem repetir a pergunta decisiva que sai da sua boca: «Quem dizeis que eu sou?» (cf. v. 15). Tu - diz-te Jesus - tu, quem dizes que eu sou? Ouvimos a voz de Jesus a perguntar-nos isto. Por outras palavras: quem é Jesus para mim? Um grande personagem, um ponto de referência, um modelo inatingível? Ou é o Filho de Deus, que caminha ao meu lado, que me pode levar ao cume da santidade, onde não posso chegar sozinho? Jesus está realmente vivo na minha vida, Jesus vive comigo? É o meu Senhor? Confio-me a Ele nos momentos de dificuldade? Cultivo a sua presença através da Palavra, através dos Sacramentos? Deixo-me guiar por Ele, juntamente com os meus irmãos e irmãs, na comunidade?

Maria, Mãe do Caminho, nos ajude a sentir o seu Filho vivo e presente ao nosso lado.

Papa Francisco
(Angelus , 27 de agosto de 2023)

sábado, 15 de agosto de 2026

 DOMINGO XX DO TEMPO COMUM

As leituras de hoje conduzem-nos pelos caminhos da universalidade do amor de Deus. Ainda que tenha começado no povo eleito, o destino final, do Seu Amor infinito, são todos os que O acolhem de coração sincero, independentemente da sua raça, país, ou época histórica.

Na 1ªleitura (I 56, 1.6-7) , Isaías vem em socorro de nós, os gentios, e traz-nos a garantia de que, se tivermos fé, Deus também vem para nós, aliás,  já veio e para todos os povos: 

«Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, hei de conduzi-los ao meu santo monte, hei de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada 'casa de oração para todos os povos'»

Na 2ªleitura (Rom 11, 13-15.29-32)  S.Paulo, por graça de Deus, apóstolo dos gentios, abre-nos uma perspectiva muito interessante, pois se foi pela recusa do povo eleito que todos beneficiámos do anúncio privilegiado da Ressurreição de Jesus, quem sabe se não será, através dos gentios, que os judeus chegarão a acreditar que Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus, que veio ao mundo para salvar toda a humanidade. 

“Irmãos: É a vós, os gentios, que eu falo: Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, procurarei prestigiar o meu ministério a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça e salvo alguns deles. Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração senão uma ressurreição de entre os mortos? Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis. Vós fostes outrora desobedientes a Deus e agora alcançastes misericórdia, devido à desobediência dos judeus. Assim também eles desobedecem agora, de modo que, devido à misericórdia obtida por vós, também eles agora alcancem misericórdia. Efetivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos.”

No Evangelho de hoje (Mt 15, 21-28), primeiro estranhamos a forma como Jesus, aparentemente, não escuta o pedido da mulher cananeia, mas depois percebemos que foi a forma mais bonita e, ao mesmo tempo, mais pedagógica, quer para os discípulos, quer também para nós hoje, de realçar a força da fé daquela mãe. Por outro lado, o evangelho também nos desperta para a necessidade de intercedermos uns pelos outros, como fizeram os discípulos, ao pedirem a Jesus para atender as súplicas daquela mulher. Deus nunca nos deixa sem resposta, nós é que, muitas vezes, demasiado depressa, desistimos de orar. Não somos como esta mãe. Que testemunho de fé impressionante!

“Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia. Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós». Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor». Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.” 

Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.

Caros irmãos e irmãs

Neste 20º domingo do tempo comum, a liturgia propõe à nossa reflexão as palavras do profeta Isaías:  "Aos estrangeiros que aderiram ao Senhor para lhe prestar culto / ... Vou levá-los para a minha montanha santa / vou fazê-los felizes na minha casa de oração / ... porque a minha casa será chamada / casa de oração para todos os povos" (Is 56, 6-7). À universalidade da salvação faz referência também o Apóstolo Paulo na segunda leitura, assim como a página evangélica que narra o episódio da mulher cananeia, uma estrangeira em relação aos judeus, atendida por Jesus em virtude da sua grande fé. A Palavra de Deus oferece-nos, assim, a oportunidade de refletir sobre a universalidade da missão da Igreja, constituída por povos de todas as raças e culturas. É precisamente daqui que provém a grandiosa responsabilidade da comunidade eclesial, chamada a ser uma casa hospitaleira para todos, sinal e instrumento de comunhão para toda a família humana.

Como é importante, sobretudo no nosso tempo, que cada comunidade cristã aprofunde cada vez mais esta sua consciência, com a finalidade de ajudar também a sociedade civil a superar toda a possível tentação de racismo, de intolerância e de exclusão, e a organizar-se com opções respeitosas da dignidade de cada ser humano! Com efeito, uma das grandes conquistas da humanidade é precisamente a superação do racismo. No entanto, infelizmente, em vários países registam-se novas e preocupantes manifestações do mesmo, ligadas muitas vezes a problemas sociais e económicos, que todavia jamais podem justificar o desprezo e a discriminação racial. Oremos a fim de que em toda a parte aumente o respeito por todas as pessoas, juntamente com a responsável consciência de que somente no acolhimento recíproco de todos é possível construir um mundo caracterizado pela justiça autêntica e pela paz verdadeira.

Agora, gostaria de propor mais uma intenção pela qual rezar, tendo em consideração as notícias que chegam, especialmente neste período, de numerosos e graves acidentes rodoviários. Não podemos habituar-nos a esta triste realidade! Efetivamente, é demasiado precioso o bem da vida humana, e demasiado indigno do homem, morrer ou encontrar-se inválido por causas que, na maior parte dos casos, poderiam ser evitadas. Sem dúvida, é necessário um maior sentido de responsabilidade. Antes de mais nada da parte dos automobilistas, porque os acidentes são frequentemente devidos à velocidade excessiva e a comportamentos imprudentes. Guiar um veículo nas estradas públicas exige sentido moral e sentido cívico. Para a promoção deste último, é indispensável a constante obra de prevenção, vigilância e repressão da parte das autoridades. No entanto, como Igreja sentimo-nos diretamente interpelados no plano ético:  antes de tudo, os cristãos devem fazer um exame de consciência pessoal sobre o seu comportamento de automobilistas; além disso, as comunidades eduquem todos a considerar também a condução como um campo onde defender a vida e exercer concretamente o amor pelo próximo.

Confiemos as problemáticas sociais que recordei à intercessão materna de Maria, que agora invocamos coralmente com a recitação do Angelus.

Papa Bento XVI

(Angelus, 17 de agosto de 2008)

Amados irmãos e irmãs!

O trecho evangélico deste domingo inicia com a indicação da região para onde Jesus se dirigia: Tiro e Sidónia, no nordeste da Galileia, terra pagã. E é ali que Ele se encontra com uma mulher cananeia, que lhe pede para curar a filha atormentada pelo demónio (cf. Mt 15, 22). Já podemos entrever neste pedido um início do caminho da fé, que no diálogo com o Mestre divino cresce e se reforça. A mulher não tem medo de bradar a Jesus: «Tem piedade de mim, Senhor», uma expressão que se repete nos Salmos (cf. 50, 1), chama-lhe «Senhor» e «Filho de David» (cf. Mt 15, 22), manifestando assim uma esperança firme de que será atendida. Qual é a atitude do Senhor diante daquele grito de dor de uma mulher pagã? Poderia parecer desconcertante o silêncio de Jesus, a ponto de suscitar a intervenção dos discípulos, mas não se trata de insensibilidade ao sofrimento daquela mulher. Santo Agostinho comenta justamente: «Cristo mostrava-se indiferente para com ela, não para lhe negar a misericórdia mas para lhe inflamar o desejo» (Sermo 77, 1: pl 38, 483). A indiferença aparente de Jesus, que diz: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» (v. 24), não desencoraja a cananeia, que insiste: «Socorre-me, Senhor» (v. 25). E mesmo quando recebe uma resposta que parece impedir toda a esperança — «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorros» (v. 26) — não desiste. Nada quer tirar aos outros: na sua simplicidade e humildade basta-lhe pouco, são suficientes as migalhas, bastam-lhe somente um olhar, uma boa palavra do Filho de Deus. E Jesus admira-se por esta resposta de fé tão grande e diz-lhe: «Faça-se como desejas» (v. 28)

Queridos amigos, também nós somos chamados a crescer na fé, a abrir-nos e receber com liberdade o dom de Deus, a ter confiança e bradar a Jesus: «dá-nos fé, ajuda-nos a encontrar o caminho!». O caminho que Jesus fez realizar aos seus discípulos, à cananeia, aos homens de todos os tempos e povos e a cada um de nós. A fé abre-nos para conhecer e receber a identidade real de Jesus, a sua novidade e unicidade, a sua Palavra, como fonte de vida, a fim de viver uma relação pessoal com Ele. O conhecimento da fé cresce com o desejo de encontrar a estrada e, enfim, é um dom de Deus que se nos revela não como algo abstracto sem rosto nem nome, mas a fé corresponde a uma Pessoa, que quer entrar numa relação de amor profundo connosco e envolver toda a nossa vida. Por isso, todos os dias o nosso coração deve viver a experiência da conversão, realizar a nossa passagem de homens fechados em nós mesmos para homens abertos à ação de Deus, homens espirituais (cf. 1 Cor 2, 13-14), que se deixam interpelar pela Palavra do Senhor e abrem a própria vida ao seu Amor.

Estimados irmãos e irmãs, por isso alimentemos todos os dias a nossa fé com a escuta profunda da Palavra de Deus, com a celebração dos Sacramentos, com a oração pessoal como «grito» a Ele e com a caridade pelo próximo. Invoquemos a intercessão da Virgem Maria, que amanhã contemplaremos na sua gloriosa assunção ao céu de corpo e alma, para que nos ajude a anunciar e testemunhar com a vida a alegria de ter encontrado o Senhor.

Papa Bento XVI

(Angelus, 14 de agosto de 2011)

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Irmãs e irmãos caríssimos, hoje não é domingo, mas estamos a celebrar de maneira diversa a Páscoa de Jesus, que muda a história. Em Maria de Nazaré está a nossa história, está a história da Igreja imersa na humanidade comum. Tendo encarnado nela, o Deus da vida, o Deus da liberdade venceu a morte. Sim, hoje contemplamos como Deus vence a morte, sem nunca prescindir de nós. É d’Ele o reino, mas o “sim” ao seu amor, que tudo pode mudar, é nosso. Na cruz, Jesus pronunciou livremente o “sim” que deveria esvaziar o poder da morte, aquela morte que continua a alastrar quando as nossas mãos crucificam e os nossos corações estão prisioneiros do medo e da desconfiança. Na cruz, venceu a confiança, venceu o amor que vê o que ainda não existe, venceu o perdão.

E Maria estava presente: estava lá, unida ao Filho. Hoje podemos intuir que Maria somos nós quando não fugimos, somos nós quando respondemos com o nosso “sim” ao seu “sim”. Nos mártires do nosso tempo, nas testemunhas da fé e da justiça, da mansidão e da paz, aquele “sim” continua vivo e ainda contraria a morte. Assim, este dia de alegria é um dia que nos compromete a escolher como e para quem viver.

A liturgia desta solenidade da Assunção propôs-nos o trecho evangélico da Visitação. Nesta página, São Lucas transmite a memória de um momento crucial na vocação de Maria. É bonito voltar a esse momento no dia em que celebramos a meta da sua existência. Na terra, todas as histórias, mesmo a da Mãe de Deus, são breves e têm um fim. No entanto, nada se perde. Assim, quando uma vida se encerra, a sua unicidade brilha com mais clareza. O Magnificat, que o Evangelho coloca nos lábios da jovem Maria, agora irradia a luz de todos os seus dias. Um único dia, o do encontro com a sua prima Isabel, contém o segredo de todos os outros dias, de todas as outras estações. E as palavras não bastam: é preciso um cântico, que na Igreja continua a ser cantado, «de geração em geração» (Lc 1, 50), ao pôr do sol de cada dia. A surpreendente fecundidade da estéril Isabel confirmou Maria na sua confiança: antecipou a fecundidade do seu “sim”, que se prolonga na fecundidade da Igreja e de toda a humanidade, quando a Palavra renovadora de Deus é acolhida. Naquele dia, duas mulheres encontraram-se na fé e, depois, permaneceram juntas três meses a apoiar-se mutuamente, não só nas coisas práticas, mas numa nova maneira de ler a história.

Assim, irmãs e irmãos, a Ressurreição entra também hoje no nosso mundo. As palavras e as escolhas de morte parecem prevalecer, mas a vida de Deus interrompe o desespero através de experiências concretas de fraternidade e de novos gestos de solidariedade. Com efeito, antes de ser o nosso destino último, a Ressurreição modifica – alma e corpo – o nosso modo de habitar a terra. O cântico de Maria, o seu Magnificat, fortalece na esperança os humildes, os famintos, os dedicados servos de Deus. São as mulheres e os homens das Bem-aventuranças, que ainda no meio da tribulação veem já o invisível: os poderosos derrubados dos tronos, os ricos de mãos vazias, as promessas de Deus realizadas. São experiências que, em cada comunidade cristã, todos devemos poder dizer que já vivemos. Parecem impossíveis, mas a Palavra de Deus ainda vem à luz: quando nascem os vínculos com os quais opomos o bem ao mal, a vida à morte, então vemos que com Deus nada é impossível (cf. Lc 1, 37).

Às vezes, infelizmente, onde prevalecem as seguranças humanas, com um certo bem-estar material e a acomodação que adormece as consciências, a fé pode envelhecer. É então que surge a morte, sob a forma de resignação e lamentação, nostalgia e insegurança. Em vez de ver acabar o mundo antigo, continua a procurar-se o seu amparo: o amparo dos ricos e dos poderosos, que geralmente acompanha o desprezo pelos pobres e humildes. A Igreja, porém, vive nos seus membros frágeis e rejuvenesce graças ao Magnificat deles. Também hoje as comunidades cristãs pobres e perseguidas, os testemunhos de ternura e perdão nos locais de conflito, os construtores da paz e os edificadores de pontes num mundo despedaçado são a alegria da Igreja, a sua fecundidade permanente, os primeiros frutos do Reino que vem. Muitos deles são mulheres, como a idosa Isabel e a jovem Maria: mulheres pascais, apóstolas da Ressurreição. Deixemo-nos converter pelo seu testemunho!

Irmãos e irmãs, quando nesta vida «escolhemos a vida» (cf. Dt 30, 19), temos então motivos para ver, em Maria, assunta ao Céu, o nosso destino. Ela é-nos dada como sinal de que a Ressurreição de Jesus não foi um evento isolado, uma exceção. Todos nós, em Cristo, podemos tragar a morte (cf. 1 Cor 15, 54). Certamente, é obra de Deus, não nossa. No entanto, Maria é aquele entrelaçamento de graça e liberdade que impele cada um de nós à confiança, à coragem, ao envolvimento na vida de um povo. «O Todo-poderoso fez em mim maravilhas» (Lc 1, 49): possa cada um de nós experimentar esta alegria e testemunhá-la com um cântico novo. Não tenhamos medo de escolher a vida! Pode parecer perigoso, imprudente. Quantas vozes estão sempre lá a sussurrar-nos: «Quem te obriga a fazer isso? Deixa estar! Pensa nos teus próprios interesses». Estas são vozes de morte. Em contrapartida, nós somos discípulos de Cristo. É o seu amor que nos impele, corpo e alma, no nosso tempo. Como indivíduos e como Igreja, já não vivemos para nós mesmos. É precisamente isto – e só isto – que difunde a vida e a faz prevalecer. A nossa vitória sobre a morte começa precisamente agora.

Papa Leão XIV
(Homilia, 15 de agosto de 2025)

sábado, 8 de agosto de 2026

DOMINGO XIX DO TEMPO COMUM

As leituras de hoje são um apelo a percebermos a presença e as manifestações de Deus na nossa vida. Ao mesmo tempo, colocam-nos o desafio de confiarmos totalmente em Jesus, de humildemente pedirmos ajuda e de aceitarmos “a mão” que nos estende sempre, mesmo antes de gritarmos por socorro, mas tendo já o desejo d’Ele no coração.

A 1ªleitura (1 Reis 19, 9a.11-13a)  é um convite, muito belo, que Deus nos faz, para estarmos atentos às diferentes formas de Ele se nos revelar, nas várias circunstâncias da vida, boas, e más, através do e dos que põe no nosso caminho. Aprendamos com Elias e permaneçamos à espera do Senhor, na certeza, porém, de que Ele já veio e está vivo no meio de nós. Escutemo-l'O com os olhos do coração. 

“Diante d’Ele, uma forte rajada de vento fendia as montanhas e quebrava os rochedos; mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, sentiu-se um terramoto; mas o Senhor não estava no terramoto. Depois do terramoto, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa. Quando a ouviu, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou à entrada da gruta.”

S.Paulo, na 2ª leitura de hoje (Rom 9, 1-5), mostra, mais uma vez, como o seu zelo é anunciar Jesus Cristo, o Filho de Deus, a todos os homens. Começando pelo seu próprio povo, o povo escolhido, que rejeita o anúncio, sai da sua terra e nada o detém. Percorre montes e vales, distâncias curtas e longas, atravessa mares e rios, é ameaçado, perseguido, mas continua sempre com a sua missão: Anunciar Jesus Ressuscitado a todos os povos. Impressionante a força apostólica do Apóstolo dos gentios. 

“Irmãos: Em Cristo digo a verdade, não minto, e disso me dá testemunho a consciência no Espírito Santo. Sinto uma grande tristeza e uma dor contínua no meu coração. Quisera eu próprio ser anátema, separado de Cristo para bem dos meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu, que são israelitas, a quem pertencem a adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas, a quem pertencem os Patriarcas e de quem procede Cristo segundo a carne, Ele que está acima de todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos. Ámen.”

No Evangelho (Mt 14, 22-33) Mateus  coloca, perante os nossos olhos, Jesus a descer do monte, depois de estar, mais intimamente, em comunhão com o Pai, para se encontrar com os discípulos, que sozinhos, na barca, com o mar revolto, se sentem um pouco perdidos. É aí, no meio da tempestade, que Jesus se lhes revela como Aquele que ama sempre e está atento ao ritmo do caminhar de cada um, abrindo janelas de oportunidade a todo o coração que se lhe entrega, mas segurando, amparando, amando, talvez mais ainda, quando a dúvida gera a desconfiança e nos sentimos a afundar. Também é aí, no meio das dificuldades e das tristezas da vida, dos medos, das angústias, mas também das alegrias, que Jesus se encontra connosco. Ele nunca nos abandona. Tenhamos a coragem de S.Pedro e deixemos que o Senhor Jesus nos liberte dos “medos” e nos conduza à verdadeira Vida. 

"Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l’O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho. O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo. Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais». Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». «Vem!» – disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus. Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!». Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». Logo que subiram para o barco, o vento amainou. Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus»."

Senhor, estende a Tua mão e segura-me, como fizeste com S.Pedro. Salva-me, Senhor.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho de hoje narra um prodígio particular de Jesus: Ele, à noite, caminha sobre as águas do mar da Galileia para ir ao encontro dos discípulos que faziam a travessia num barco (cf. Mt 14, 22-33). Perguntamo-nos: por que fez isto Jesus? Para dar espetáculo? Não! Mas porquê? Talvez por uma necessidade urgente e imprevisível, para ir em socorro dos seus que estavam encalhados por causa do vento contrário? Não, porque foi o Ele que programou tudo, que os fez partir ao fim da tarde, até - diz o texto – “obrigando-os” (cf. v. 22). Talvez para lhes dar uma demonstração de grandeza e de poder? Mas isto não é próprio d’Ele, que é tão simples. Então, por que o fez? Por que quis caminhar sobre as águas?

Por detrás do caminhar sobre as águas, há uma mensagem que não é imediata, uma mensagem que devemos captar. Naquele tempo, de facto, as grandes extensões de água eram consideradas como a sede de forças malignas que não podiam ser dominadas pelo homem; especialmente se agitados pela tempestade os abismos eram um símbolo do caos e lembravam as trevas do mundo subterrâneo. Naquele momento, os discípulos encontram-se no meio do lago, na escuridão: neles há o medo de afundar, de ser absorvidos pelo mal. E eis que surge Jesus, que caminha sobre as águas, isto é, sobre as forças do mal, Ele caminha sobre as forças do mal e diz aos seus: «Coragem, sou eu, não tenhais medo!» (v. 27). Tudo isto é uma mensagem que Jesus nos transmite. Eis o significado do sinal: os poderes malignos, que nos assustam e que não conseguimos dominar, com Jesus são imediatamente redimensionados. Ele, caminhando sobre as águas, quer dizer-nos: “Não tenhais medo, eu ponho os vossos inimigos debaixo dos pés” - bela mensagem: “ponho os vossos inimigos debaixo dos pés” – não as pessoas! –  não são elas os inimigos, mas a morte, o pecado, o diabo: estes são os inimigos das pessoas, os nossos inimigos. E Jesus esmaga esses inimigos por nós.

Cristo repete hoje a cada um de nós: “Coragem, sou eu, não tenhais medo!”. Coragem, pois eu estou aqui, porque já não estás sozinho nas águas agitadas da vida. Então, o que fazer quando nos encontramos em alto mar e à mercê de ventos contrários? O que fazer no medo, que é um mar aberto, quando só vemos escuridão e nos sentimos perdidos? Devemos fazer duas coisas, que no Evangelho os discípulos fazem. O que fazem os discípulos? Invocam e acolhem Jesus. Nos momentos piores, mais escuros, mais tempestuosos, invocar Jesus e acolher Jesus.

Os discípulos invocam Jesus: Pedro caminha um pouco sobre as águas em direção de Jesus, mas depois tem medo, afunda e grita: «Senhor, salva-me!» (v. 30). Invoca Jesus, chama por Jesus. Esta oração é bonita, exprime a certeza de que o Senhor pode salvar-nos, que Ele vence o nosso mal e os nossos medos. Convido-vos a repeti-la agora todos juntos: Senhor, salva-me! Juntos, três vezes: Senhor salva-me, Senhor salva-me, Senhor salva-me!

E depois os discípulos acolhem. Primeiro invocam, depois acolhem Jesus no barco. O texto diz que, logo que ele entra a bordo, «o vento cessou» (v. 32). O Senhor sabe que a barca da vida, assim como a barca da Igreja, está ameaçada por ventos contrários e que o mar no qual navegamos é muitas vezes agitado. Ele não nos livra do cansaço da navegação, pelo contrário - o Evangelho sublinha-o - exorta os seus a partir: isto é, convida-nos a enfrentar as dificuldades, para que também elas se tornem lugares de salvação, porque Jesus as vence, tornam-se oportunidades de encontro com Ele. De facto, nos nossos momentos de escuridão Ele vem ao nosso encontro, pedindo para ser acolhido, como naquela noite no lago.

Perguntemo-nos então: nos medos, nas dificuldades, como me comporto? Vou em frente sozinho, com as minhas forças, ou invoco o Senhor com confiança? E como está a minha fé? Acredito que Cristo é mais forte do que as ondas e os ventos adversos? Mas sobretudo: navego com Ele? Acolho-O, dou-Lhe lugar no barco da minha vida - nunca sozinho, sempre com Jesus - confio-Lhe o leme?

Maria, Mãe de Jesus, Estrela do Mar, ajuda-nos a procurar, nas travessias escuras, a luz de Jesus.

Papa Francisco
(Angelus , 13 de agosto de 2023)