sábado, 17 de outubro de 2026

 DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM

Hoje, a liturgia alerta-nos para a necessidade de cumprimos as nossas obrigações para com o poder justo e as instituições políticas e sociais que nos governam, sejam elas fiscais, ou de outra natureza. 

Na 1a leitura (Is 45, 1.4-6) o profeta mostra como Deus, o único Senhor, se serve de alguém que não pertence ao povo escolhido, para chegar ao coração de Israel. É assim, estejamos atentos aos sinais, pois nunca sabemos de quem Deus se serve para chegar ao nosso coração.

“Assim fala o Senhor a Ciro, seu ungido, a quem tomou pela mão direita, para subjugar diante dele as nações e fazer cair as armas da cintura dos reis, para abrir as portas à sua frente, sem que nenhuma lhe seja fechada: «Por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito, Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso, quando ainda não Me conhecias. Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus. Eu te cingi, quando ainda não Me conhecias, para que se saiba, do Oriente ao Ocidente, que fora de Mim não há outro. Eu sou o Senhor e mais ninguém».”

Na 2ªleitura (1 Tes 1, 1-5b) S.Paulo dá graças e louvores a Deus, porque a comunidade dos Tessalonicenses dá testemunho de Jesus vivo e ressuscitado demonstrando, no seu tempo, a atividade da sua fé, o esforço da caridade e a firmeza na esperança. Que este seja um desafio para também nós deixarmos que o Espírito Santo nos habite de forma a vivermos de Jesus em todos os momentos da nossa vida.

“Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos Tessalonicenses, que está em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo: A graça e a paz estejam convosco. Damos continuamente graças a Deus por todos vós, ao fazermos menção de vós nas nossas orações. Recordamos a atividade da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo, na presença de Deus, nosso Pai. Nós sabemos, irmãos amados por Deus, como fostes escolhidos. O nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras, mas também com obras poderosas, com a ação do Espírito Santo.” 

No Evangelho (Mt 22, 15-21) Jesus não se deixa enganar pelos falsos elogios, através dos quais os fariseus achavam que O iam “apanhar”.  É linda a forma como Jesus desmonta sempre os seus “mafiosos” esquemas! Às vezes somos mesmo duros de coração e não nos abrimos à ação de Deus em nós. É uma pena! Ainda assim, Deus continua a amar-nos infinitamente e a escolher-nos para darmos testemunho do Amor junto de todos os que coloca nos nossos caminhos. Deixemos que Ele seja o nosso único Senhor, o nosso Amor, a Luz que nos conduz. Demos a Deus o que é de Deus e a César o que é de César.

“Naquele tempo, os fariseus reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse. Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos, juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes aceção de pessoas. Diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar tributo a César?». Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: «Porque Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo». Eles apresentaram-Lhe um denário e Jesus perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Eles responderam: «De César». Disse-Lhes Jesus: «Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».

Senhor, que sejas para mim sempre e só o meu único Deus. Que eu aprenda a viver de Ti e só de Ti.

Venerados Irmãos; 

Estimados irmãos e irmãs:

(...) Comentemos agora as Leituras bíblicas, nas quais hoje o Senhor nos fala. A primeira, tirada do Livro de Isaías, diz-nos que Deus é um só, é único; não existem outros deuses fora do Senhor, e até o poderoso Ciro, imperador dos persas, faz parte de um desígnio maior, que só Deus conhece e faz progredir. Esta Leitura apresenta-nos o sentido teológico da história: as revoluções epocais, a sucessão dos governos das grandes potências, encontram-se sob o domínio supremo de Deus; nenhum poder terreno pode colocar-se no seu lugar. A teologia da história é um aspeto importante, essencial da nova evangelização, porque os homens do nosso tempo, depois da nefasta época dos impérios totalitários do século XX, têm necessidade de reencontrar um olhar abrangente sobre o mundo e o tempo, um olhar verdadeiramente livre, pacífico, aquele olhar que o Concílio Vaticano II transmitiu nos seus Documentos, e que os meus Predecessores, os Servos de Deus Paulo VI e João Paulo II, explicaram com o seu Magistério.

A segunda Leitura é o início da Primeira Carta aos Tessalonicenses, e já isto é muito sugestivo, porque se trata da carta mais antiga que chegou até nós do maior evangelizador de todos os tempos, o apóstolo Paulo. Ele diz-nos, antes de tudo, que não se evangeliza de maneira isolada: com efeito, também ele tinha como colaboradores Silvano e Timóteo (cf. 1 Ts 1, 1), além de muitos outros. E imediatamente acrescenta outro elemento muito importante: que o anúncio deve ser precedido, acompanhado e seguido pela oração. Com efeito, escreve: «Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-nos sem cessar de vós nas nossas orações» (v. 2). Depois, o apóstolo diz que está bem consciente de que os membros da comunidade não foram escolhidos por ele, mas por Deus: «fostes escolhidos por Ele» — afirma (cf. v. 4). Cada missionário do Evangelho deve ter sempre presente esta verdade: é o Senhor que sensibiliza os corações com a sua Palavra e com o seu Espírito, chamando as pessoas à fé e à comunhão na Igreja. Enfim, Paulo deixa-nos um ensinamento muito precioso, tirado da sua própria experiência: Ele escreve: «O nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras, mas também com poder, com o Espírito Santo e com convicção» (v. 5). Para ser eficaz, a evangelização tem necessidade da força do Espírito, que anime o anúncio e infunda em quem o traz, aquela «plena convicção» de que o apóstolo fala. Este termo «convicção», «plena convicção», no original grego, é pleroforía: uma palavra que não exprime tanto o aspeto subjetivo, psicológico, quanto sobretudo a plenitude, a fidelidade, a integridade — neste caso, do anúncio de Cristo. Anúncio que, para ser completo e fiel, deve ser acompanhado por sinais e gestos, como a pregação de Jesus. Portanto, Palavra, Espírito e convicção — assim entendida — são inseparáveis e concorrem para fazer com que a mensagem evangélica se difunda com eficácia.

Meditemos agora sobre o trecho do Evangelho. Trata-se do texto sobre a legitimidade do tributo a pagar a César, que contém a célebre resposta de Jesus: «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22, 21). Mas antes de chegar a este ponto há uma passagem que se pode referir a quantos têm a missão de evangelizar. Com efeito, os interlocutores de Jesus — discípulos dos fariseus e herodianos — dirigem-se a Ele com uma apreciação, dizendo: «Sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te preocupares com ninguém» (v. 16). É precisamente esta afirmação, embora suscitada pela hipocrisia, que deve chamar a nossa atenção. Os discípulos dos fariseus e os herodianos não acreditam naquilo que dizem. Afirmam-no como uma captatio benevolentiae, para se fazerem ouvir, mas o seu coração está muito distante daquela verdade; aliás, eles querem fazer cair Jesus numa armadilha, para O poder acusar. Para nós, ao contrário, aquela expressão é preciosa e verdadeira: com efeito, Jesus é sincero e ensina o caminho de Deus segundo a verdade, sem se preocupar com ninguém. Ele mesmo é aquele «caminho de Deus», que nós somos chamados a percorrer. Aqui podemos evocar as palavras do próprio Jesus, no Evangelho de João: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (14, 6). A este propósito, é iluminador o comentário de santo Agostinho: «Era necessário que Jesus dissesse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” porque, uma vez que se conhecia o caminho, ainda era preciso conhecer a meta. O caminho conduzia para a verdade, levava para a vida... E nós, para onde vamos, senão para Ele, e por que via caminhamos, senão através dele?» (In Ioh 69, 2). Os novos evangelizadores são os primeiros que são chamados a percorrer este Caminho, que é Cristo, para fazer conhecer aos outros a beleza do Evangelho que dá a vida. E por esta senda nunca caminhamos sozinhos, mas em companhia: uma experiência de comunhão e de fraternidade é oferecida a quantos encontramos, para lhes comunicar a nossa experiência de Cristo e da sua Igreja. Assim, o testemunho unido ao anúncio pode abrir o coração de quantos procuram a verdade, a fim de que possam alcançar o sentido da própria vida.

Uma breve reflexão também sobre a questão central do tributo a César. Jesus responde com um surpreendente realismo político, vinculado ao teocentrismo da tradição profética. O tributo a César deve ser pago, porque a efígie na moeda é sua; mas o homem, cada homem, traz em si mesmo outra imagem, a de Deus, e portanto é a Ele, e somente a Ele que cada um é devedor da própria existência. Os Padres da Igreja, inspirando-se no facto de que Jesus faz referência à efígie do imperador, gravada na moeda do tributo, interpretaram este trecho à luz do conceito fundamental de homem-imagem de Deus, contido no primeiro capítulo do Livro do Génesis. Um autor anónimo escreve: «A imagem de Deus não está gravada no ouro, mas no género humano. A moeda de César é ouro, a de Deus é a humanidade... Portanto, concede a tua riqueza material a César, mas conserva para Deus a inocência singular da tua consciência, onde Deus é contemplado... Com efeito, César pediu que a sua imagem fosse gravada em cada moeda, mas Deus escolheu o homem, que Ele mesmo criou, para refletir a sua glória» (Anónimo, Obra incompleta sobre Mateus, Homilia 42). E santo Agostinho recorreu várias vezes a esta referência nas suas homilias: «Se César reclama a própria imagem impressa na moeda — afirma — não exigirá Deus do homem a imagem divina esculpida nele?» (En. in Ps., Salmo 94, 2). E ainda: «Do mesmo modo que se devolve a moeda a César, assim se restitui a Deus a alma iluminada e impressa pela luz do seu rosto... Com efeito, Cristo habita no homem interior» (Ibid., Salmo 4, 8).

Esta palavra de Jesus é rica de conteúdo antropológico, e não pode ser reduzida unicamente ao âmbito político. Portanto, a Igreja não se limita a recordar aos homens a justa distinção entre a esfera da autoridade de César e a de Deus, entre o âmbito político e o religioso. A missão da Igreja, como também a de Cristo, consiste essencialmente em falar de Deus, fazer memória da sua soberania, recordando a todos, especialmente aos cristãos que perderam a própria identidade, o direito de Deus sobre aquilo que lhe pertence, ou seja, a nossa vida.

(...)

Amados irmãos e irmãs, vós estais entre os protagonistas da nova evangelização, que a Igreja empreendeu e faz progredir, não sem dificuldades, mas com o mesmo entusiasmo dos primeiros cristãos. Em conclusão, faço minhas as expressões do apóstolo Paulo, que ouvimos: dou graças a Deus por todos vós, e asseguro-vos que vos conservo nas minhas orações, recordando o vosso compromisso na fé, a vossa diligência na caridade e a vossa esperança constante em nosso Senhor Jesus Cristo. A Virgem Maria, que não teve medo de responder «sim» à Palavra do Senhor e, depois de a ter concebido no seu seio, se pôs a caminho cheia de alegria e de esperança, seja sempre o vosso modelo e a vossa guia. Aprendei da Mãe do Senhor e nossa Mãe, a ser humildes e ao mesmo tempo corajosos; simples e prudentes; mansos e fortes, não com o vigor do mundo, mas com a força da verdade. Ámen!

Papa Bento XVI
(in Homilia da Santa Missa: 16 de outubro de 2011)

Nos 800 anos da morte de S.Francisco - S.N. Pastoral da Cultura

sábado, 10 de outubro de 2026

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Deixando o tema da vinha, que nos acompanhou nos últimos domingos, Jesus apresenta-nos hoje o Reino dos Céus, recorrendo a uma parábola que tem como personagem principal um rei que prepara um banquete para celebrar as núpcias do seu filho e nos convida, a todos, para a festa. Respondamos ao convite que o Senhor nos faz para participarmos na Eucaristia, no banquete do Senhor.

Na 1ª leitura (Is 25, 6-10a), toda ela em linguagem festiva, de ânimo e esperança para o povo de Israel, mas também para nós, hoje, escutamos Isaías. Nesta o profeta fala-nos da promessa de Deus de preparar um banquete para todos os povos, com suculentos manjares e com vinhos deliciosos, fazendo-nos presente o milagre do Amor Vivo no meio de nós, que é cada Eucaristia.

“Sobre este monte, o Senhor do Universo há de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Porque o Senhor falou. Dir-se-á naquele dia: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte».”

Na 2ªleitura (Filip 4, 12-14.19-20) S.Paulo, numa linguagem muito bela e, ao mesmo tempo, pessoal, vivencial, forte e profunda, dá-nos testemunho de que é possível viver em Jesus a tempo inteiro. Por outro lado, agradece aos Filipenses a ajuda que recebeu deles. Apoiado em Deus e atento aos irmãos, eis como vive Paulo. 

“Irmãos: Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta. No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. O meu Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus. Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Ámen.”

No Evangelho (Mt 22, 1-14) é o próprio Jesus quem nos convida, por meio da parábola que nos conta, a participar no banquete que o Pai nos prepara em cada Eucaristia. Festejamos Jesus ressuscitado, vivo no meio de nós. E, sempre que o nosso coração se abre, sob a ação do Espírito Santo, e se deixa inundar do Amor de Deus, participamos em cheio neste banquete de manjares suculentos e vinho puríssimo, preparado para nós desde toda a eternidade. Deixemo-nos cativar pelo Seu convite de amor infinito.

“Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’. Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados. O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’. Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na ver­dade, muitos são os chamados, mas poucos os esco­lhidos».” 

Senhor, Pai Santo eu te louvo e bendigo pelo dom da Eucaristia. Que eu me coração se deixe repassar por Ti e assim eu responda ao Teu convite de Amor.

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho de hoje fala-nos de um rei que prepara um banquete de núpcias para o seu filho (cf. Mt 22, 1-14). É um homem poderoso, mas é sobretudo um pai generoso, que convida a participar na sua alegria. Em particular, revela a bondade do seu coração no facto de não obrigar ninguém, mas convida todos, mesmo que este modo de agir o exponha à possibilidade de rejeição. Reparemos: ele prepara um banquete, oferecendo gratuitamente a oportunidade de se encontrar, de festejar. É isto que Deus prepara para nós: um banquete, para estarmos em comunhão com Ele e uns com os outros. E nós, todos nós, somos portanto os convidados de Deus. Mas um banquete de núpcias exige tempo e participação da nossa parte, requer um “sim”: ir, responder ao convite do Senhor, Ele convida, mas deixa-nos livres.

É este o tipo de relação que o Pai nos oferece: chama-nos a estar com Ele, deixando-nos a possibilidade de aceitar ou não. Não nos propõe uma relação de sujeição, mas de paternidade e de filiação, necessariamente condicionada pelo nosso livre consentimento. Deus é muito respeitador da liberdade, muito respeitador. Santo Agostinho usa uma expressão muito bonita a este respeito, dizendo: «Deus, que te criou sem ti, não te pode salvar sem ti» (Sermo CLXIX, 13). E certamente não porque não tenha capacidade para isso - Ele é omnipotente! - mas porque, sendo amor, respeita plenamente a nossa liberdade. Deus propõe-se, não se impõe, nunca.

Voltamos assim à parábola: o rei - diz o texto - «mandou os seus servos chamar os convidados para o casamento, mas eles não quiseram vir» (v. 3). Aqui está o drama da história: o “não” a Deus. Mas porque recusam os homens o seu convite? Será porventura um convite desagradável? Não, e, no entanto, - diz o Evangelho – «não se importaram e foram uns para o seu campo, outros para os seus negócios» (v. 5). Não se importaram, porque pensavam nos seus próprios assuntos. E aquele rei que é pai, Deus, o que faz? Não desiste, continua a convidar, aliás alarga o convite, até encontrar quem o aceite, entre os pobres. Entre eles, que sabem que não têm muito, vêm em grande número, até encherem a sala (cf. vv. 8-10).

Irmãos e irmãs, quantas vezes não atendemos ao convite de Deus porque estamos ocupados com os nossos assuntos! Muitas vezes lutamos para ter o nosso tempo livre, mas hoje Jesus convida-nos a encontrar o tempo que liberta: o tempo a dedicar a Deus, que alivia e cura o nosso coração, que aumenta em nós a paz, a confiança e a alegria, que nos salva do mal, da solidão e da perda de sentido. Vale a pena, porque é bom estar com o Senhor, dar-se-Lhe. Onde? Na Missa, na escuta da Palavra, na oração e também na caridade, pois ajudando quem é fraco ou pobre, fazendo companhia a quem está só, escutando quem pede atenção, consolando quem sofre, estamos com o Senhor, presente em quem está em necessidade. Muitos, porém, pensam que estas coisas são “perda de tempo” e fecham-se no seu mundo privado; é triste. E isto gera tristeza. Quantos corações tristes! Porque estão fechados.

Perguntemo-nos então: como respondo eu aos convites de Deus? Que espaço lhe dou nos meus dias? A qualidade da minha vida depende dos meus negócios e do meu tempo livre ou do meu amor ao Senhor e aos irmãos, especialmente aos mais necessitados?

Maria, que com um "sim" abriu espaço para Deus, nos ajude a não sermos surdos aos seus convites.

Papa Francisco
(Angelus , 15 de outubro de 2023)

(...) "No entanto, o Senhor apresenta uma condição: usar o hábito nupcial. E voltemos à parábola. Quando o salão está cheio, o rei chega e cumprimenta os convidados da última hora, mas vê um deles sem o hábito nupcial, uma espécie de capa que cada convidado recebia de presente à entrada. As pessoas iam como estavam, como podiam vestir-se, sem hábito de festa. Mas à entrada era-lhes dada uma espécie de capa, um presente. Aquele convidado, ao recusar o presente, auto-excluiu-se: assim o rei mais não pode fazer do que mandá-lo embora. Este homem aceitou o convite, mas depois decidiu que  para ele ele não significava nada: era uma pessoa auto-suficiente, não tinha desejo de mudar ou de deixar que o Senhor o mudasse. O hábito nupcial - esta capa - simboliza a misericórdia que Deus nos concede gratuitamente, ou seja, a graça. Sem a graça não se pode dar um passo em frente na vida cristã. Tudo é graça. Não basta aceitar o convite para seguir o Senhor, é necessário estar aberto a um caminho de conversão que mude o coração. O hábito da misericórdia, que Deus nos oferece incessantemente, é um dom gratuito do seu amor, é precisamente a graça. E requer ser recebido com maravilha e alegria: “Obrigado, Senhor, por me teres concedido este dom”."

Papa Francisco
(in Angelus , 11 de outubro de 2020)