Tempo Quaresmal -2026- Ano A
As leituras, deste primeiro domingo da Quaresma, situam-nos na escolha
entre o bem e o mal, num constante exercício da nossa liberdade, centrando-nos
na única razão pela qual vale a pena optar pelo bem: Jesus Cristo. Se nos
apoiarmos e radicarmos n’Ele conseguiremos, passo a passo, com Ele, chegar à
vitória final. Jesus, como vemos no evangelho, é o primeiro a dar o exemplo, a
guiar-nos a nós, caminhantes na estrada da vida, para Deus Amor, o único que
nos ama infinitamente, tal qual somos, esperando que, no Filho, nos deixemos
abraçar, amar totalmente por Ele.
“O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um
sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou
um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. Fez
nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons
para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da
ciência do bem e do mal. Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os
animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É
verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do
jardim’?». A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim;
mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos:
‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». A serpente replicou à
mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. Mas Deus sabe que, no dia em que o
comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer
o bem e o mal». A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e
agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu fruto da
árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela.
Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso,
entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.”
Na 2ªleitura (Rom 5, 12-19) é S.Paulo quem nos aponta
o único caminho que leva ao encontro com Deus Amor: Jesus Cristo. S.Paulo deixa-nos
a certeza de que, em e por Jesus, todos podemos, se assim o
quisermos, ser amados pelo Amor.
“Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens. E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.”
No evangelho (Mt 4, 1-11) S.Mateus, nesta sua
catequese, ajuda-nos a contemplar Jesus, que ao mesmo tempo que é de condição
divina, é também homem. É investindo na condição humana de Jesus que o diabo
joga a sua cartada. Dá para perceber que o diabo conhece muito bem a condição humana,
pois vai tentar Jesus naquilo que é o mais importante para o ser humano: a
riqueza, o poder e o prestígio. Jesus, que tinha feito um tempo muito longo de
oração, de aprofundamento da Sua comunhão filial com o Pai, estando em união
total com Deus, dá-nos o exemplo do quão é importante a oração para nos
livrarmos das tentações. Ensina-nos a rezar, a entrar, por Ti, em comunhão com
o Pai.
“Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo deixou-O e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O.”
Jesus, Filho de Deus Vivo, tem compaixão de mim, que sou pecadora.
Pai Nosso que estais nos céus, santificado seja o
Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja
feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos
dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos
tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.
Estimados
irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho
deste primeiro Domingo da Quaresma apresenta-nos Jesus no deserto tentado pelo
diabo (cf. Mt 4, 1-11). Diabo significa “divisor”. O diabo
quer sempre criar divisão, e é isto que procura fazer também tentando Jesus.
Vejamos então de quem o quer dividir e de que
modo o tenta.
De
quem o
diabo quer dividir Jesus? Depois de ter recebido o Batismo por João no Jordão,
Jesus foi chamado pelo Pai «meu Filho muito amado» (Mt 3, 17) e o
Espírito Santo desceu sobre Ele sob forma de pomba (cf. v. 16). Assim, o
Evangelho apresenta-nos as três Pessoas divinas unidas no amor. Depois, o
próprio Jesus dirá que veio ao mundo para nos tornar também participantes da
unidade entre Ele e o Pai (cf. Jo 17, 11). Por outro lado, o
diabo faz o contrário: entra em cena para dividir Jesus do Pai e o desviar da sua
missão de unidade para nós. Divide sempre.
Vejamos
agora de que modo tenta fazê-lo. O diabo quer aproveitar da
condição humana de Jesus, que é frágil porque jejuou durante quarenta dias e
tem fome (cf. Mt 4, 2). Então, o maligno procura incutir-lhe
três poderosos “venenos” para paralisar a sua missão de unidade. Estes venenos
são o apego, a desconfiança e o poder.
Antes de mais, o veneno do apego às coisas, às necessidades;
com raciocínio persuasivo, o diabo tenta sugestionar Jesus: “Tens fome, porque
deves jejuar? Ouve a tua necessidade, satisfá-lo, tens o direito e o poder:
transforma as pedras em pão”. Depois o segundo veneno, a desconfiança:
“Tens a certeza - insinua o maligno - de que o Pai quer o teu bem? Põe-no à
prova, chantageia-o! Atira-te do ponto mais alto do templo e obriga-o a fazer o
que tu queres”. Enfim o poder: “Do teu Pai, não tens necessidade!
Por que esperar pelos seus dons? Segue os critérios do mundo, faz tudo sozinho
e serás poderoso!”. As três tentações de Jesus. E também nós vivemos estas três
tentações, sempre. É terrível, mas é assim, também para nós: apego às coisas,
desconfiança e sede de poder são três tentações generalizadas e perigosas, que
o diabo usa para nos dividir do Pai e já não nos faz sentir como irmãos e irmãs
entre nós, para nos conduzir à solidão e ao desespero. Era o que queria fazer a
Jesus e quer fazer-nos a nós: levar-nos ao desespero.
Mas Jesus
vence as tentações. E como as vence? Evitando discutir com o diabo e
respondendo com a Palavra de Deus. Isto é importante: com o diabo não se
discute, com o diabo não se dialoga! Jesus enfrenta-o com a Palavra de Deus.
Ele cita três frases da Escritura que falam de liberdade das coisas (cf. Dt 8,
3), de confiança (cf. Dt 6, 16), e de serviço a Deus
(cf. Dt 6, 13), três frases opostas às tentações. Nunca
dialoga com o diabo, não negocia com ele, mas rejeita as suas insinuações com
as palavras benéficas da Escritura. É um convite também para nós: com o diabo
não se discute! Não se negocia, não se dialoga; não o derrotamos negociando com
ele, é mais forte do que nós. Derrotamos o diabo, opondo-lhe com fé a Palavra
divina. Desta forma, Jesus ensina-nos a defender a unidade com Deus e entre nós
dos ataques do divisor. A Palavra divina é a resposta de Jesus à tentação do
diabo.
Perguntemo-nos:
que lugar tem a Palavra de Deus na minha vida? Será que recorro a ela nas
minhas lutas espirituais? Se tenho um vício ou uma tentação frequente, por que,
ao procurar ajuda, não procuro um versículo da Palavra de Deus que responda a
esse vício? Depois, quando tenho a tentação, recito-o, rezo-o, confiando na
graça de Cristo. Experimentemos fazer isto, ajudar-nos-á nas tentações,
ajudar-nos-á muito, pois, entre as vozes que se agitam dentro de nós, ressoará
aquela benéfica da Palavra de Deus. Maria, que aceitou a Palavra de Deus e pela
sua humildade venceu a soberba do divisor, nos acompanhe na luta espiritual da
Quaresma.
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