terça-feira, 24 de março de 2026

 Tempo Quaresmal -2026- Ano A

Solenidade da Anunciação do Senhor

Não há outro dia na Liturgia, que possa ser comparado ao anúncio que hoje celebramos. Alguém poderia indagar: “E a Páscoa?”. Sim, é verdade, a Páscoa é a nossa certeza da ressurreição. Mas, para quem acreditou até ao fim na Anunciação do anjo, a Páscoa seria uma consequência lógica: não seria possível que a morte prendesse para sempre o Filho de Deus. Ao tomarmos a sério e com profundidade o anúncio do anjo, descobrimos que nada nos pode afastar de Deus. Ele veio morar connosco, “armou a sua tenda entre nós”. Desde que o anjo nos anunciou a vinda do “Emanuel”, tudo o mais é uma espera confiante. Quem crê que Deus está presente sabe que a morte “não terá a ultima palavra”. Nós cremos e confiamos que o Menino Deus está connosco e que nem a morte, nem a vida nos poderão separar do Seu Amor.

in site Ignatiana - Jesuítas, Brasil

"Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra»."

No Evangelho da Solenidade de hoje, o Anjo Gabriel toma a palavra por três vezes para se dirigir à Virgem Maria.

A primeira vez, quando A saúda com estas palavras: «Alegra-Te, ó cheia de graça: o Senhor está contigo» (Lc 1, 28). O motivo para rejubilar, o motivo da alegria, é desvendado em poucas palavras: o Senhor está contigo. Irmão, irmã, hoje podes ouvir estas palavras dirigidas a ti, dirigidas a cada um de nós; podes fazê-las tuas sempre que te abeiras do perdão de Deus, porque nessa ocasião te diz o Senhor: «Eu estou contigo». Muitas vezes pensamos que a Confissão consiste em ir de cabeça inclinada ao encontro de Deus. Mas voltar para o Senhor não é primariamente obra nossa; é Ele que nos vem visitar, cumular da sua graça, alegrar com o seu júbilo. Confessar-se é dar ao Pai a alegria de nos levantar de novo. No centro daquilo que vamos viver, não estão os nossos pecados; estarão, mas não estão no centro. O seu perdão: este é o centro. Tentemos imaginar se, no centro do Sacramento, estivessem os nossos pecados: então dependeria quase tudo de nós, do nosso arrependimento, dos nossos esforços, do nosso empenhamento. Mas não, no centro está Ele, que nos liberta e põe de pé.

Restituamos à graça o primado e peçamos o dom de compreender que a Reconciliação consiste antes de tudo, não num passo nosso para Deus, mas no seu abraço que nos envolve, deslumbra, comove. É o Senhor que entra em nossa casa, como na de Maria em Nazaré, e traz um deslumbramento e uma alegria antes desconhecidos: a alegria do perdão. Como primeiro plano foquemos a perspetiva em Deus: voltaremos a gostar da Confissão. Precisamos dela, porque cada renascimento interior, cada viragem espiritual começa daqui, do perdão de Deus. Não negligenciemos a Reconciliação, mas voltemos a descobri-la como o Sacramento da alegria. Sim, o Sacramento da alegria, onde o mal que nos faz envergonhar se torna ocasião para experimentar o abraço caloroso do Pai, a força suave de Jesus que nos cura, a «ternura materna» do Espírito Santo. Aqui está o coração da Confissão.

E então, queridos irmãos e irmãs, aproximemo-nos para receber o perdão. Vós, irmãos que administrais o perdão de Deus, sede aqueles que oferecem a quem se aproxima de vós a alegria deste anúncio: Alegra-te, o Senhor está contigo. Sem qualquer rigidez, por favor, sem criar obstáculos nem incómodos; portas abertas à misericórdia! De forma especial na Confissão, somos chamados a personificar o Bom Pastor que toma as suas ovelhas nos braços e as acaricia; somos chamados a ser canais de graça que derramam, na aridez do coração, a água viva da misericórdia do Pai. Se um sacerdote não tem este comportamento, se não tem estes sentimentos no coração, é melhor que não vá confessar.

A segunda vez que o Anjo fala a Maria, perturbada com a saudação recebida, é para Lhe dizer: «Não temas» (Lc 1, 30). A primeira: «O Senhor está contigo»; a segunda palavra: «Não temas». Na Sagrada Escritura, quando Deus aparece, gosta de dirigir estas duas palavras a quem O acolhe: não temas. Di-las a Abraão (cf. Gn 15, 1), repete-as a Isaac (cf. Gn 26, 24), a Jacob (cf. Gn 46,3) e a muitos outros até chegarmos a José (cf. Mt 1, 20) e a Maria: não temas, não temas. Deste modo transmite-nos uma mensagem clara e reconfortante: sempre que a vida se abre a Deus, o medo deixa de poder ter-nos como reféns. Pois o medo mantém-nos reféns. Tu, irmã, irmão, se os teus pecados te assustam, se o teu passado te preocupa, se as tuas feridas não cicatrizam, se as quedas constantes te desmoralizam e cresce a sensação de teres perdido a esperança, por favor não temas. Deus conhece as tuas fraquezas e é maior que as tuas falhas. Deus é maior do que os nossos pecados: é muito maior! Só te pede uma coisa: as tuas fragilidades, as tuas misérias, não as guardes dentro de ti; leva-as a Ele, entrega-as a Ele e, de motivo de desolação, tornar-se-ão oportunidade de ressurreição. Não temas! O Senhor pede-nos os nossos pecados. Vem-me ao pensamento a história daquele monge do deserto, que tinha dado tudo a Deus, tudo, e levava uma vida de jejum, de penitência, de oração. Mas o Senhor pedia-lhe mais. «Senhor, dei-Vos tudo – diz o monge – que falta?». «Dá-me os teus pecados». O mesmo nos pede o Senhor. Não temas!

A Virgem Maria acompanha-nos: Ela mesma deixou a sua perturbação em Deus. O anúncio do Anjo dava-Lhe razões sérias para não temer. Propunha-Lhe algo de inimaginável, que estava para além das suas forças e, sozinha, não poderia levá-lo para diante: haveria muitas dificuldades, problemas com a lei mosaica, com José, com as pessoas da sua terra e do seu povo. Todas estas são dificuldades: não temas!

Mas Maria não levanta objeções. Basta-Lhe aquele não temas, basta-Lhe a garantia de Deus. Agarra-Se a Ele, como queremos nós fazer esta noite. Porque muitas vezes fazemos o contrário: partimos das nossas certezas e, só quando as perdemos, é que vamos ter com Deus. Nossa Senhora ensina-nos o contrário: partir de Deus, com a confiança de que, assim, tudo o mais nos será dado (cf. Mt 6, 33). Convida-nos a ir à fonte, a ir ao Senhor, que é o remédio radical contra o medo e os perigos da existência. Recorda-no-lo uma bela frase, gravada num confessionário aqui no Vaticano, que se dirige a Deus com estas palavras: «Afastar-se de Vós é cair, voltar a Vós é ressuscitar, permanecer em Vós é existir» (cf. Santo Agostinho, Soliloquium I, 3).

Nestes dias, notícias e imagens de morte continuam a entrar pelas nossas casas dentro, enquanto as bombas destroem as casas de muitos dos nossos irmãos e irmãs ucranianos inermes. A guerra brutal, que se abateu sobre tantos e que a todos faz sofrer, provoca em cada um medo e consternação. Notamos dentro de nós uma sensação de impotência e inadequação. Precisamos de ouvir dizer-nos: «não temas». Mas não bastam as garantias humanas, é necessária a presença de Deus, a certeza do perdão divino, o único que apaga o mal, desativa o rancor, restitui a paz ao coração. Voltemos a Deus, voltemos ao seu perdão.

E, pela terceira vez, o Anjo retoma a palavra, para dizer a Nossa Senhora: «O Espírito Santo virá sobre Ti» (Lc 1, 35). «O Senhor está contigo»; «Não temas» e agora a terceira palavra: «o Espírito Santo virá sobre Ti». É assim que Deus intervém na história: dando o seu próprio Espírito. Porque nas coisas que contam, não bastam as nossas forças. Porque nós, sozinhos, somos incapazes de resolver as contradições da história ou mesmo as do nosso coração. Precisamos da força sapiente e suave de Deus, que é o Espírito Santo. Precisamos do Espírito de amor, que dissolve o ódio, apaga o rancor, extingue a ganância, desperta-nos da indiferença. Aquele Espírito que nos dá harmonia, porque Ele é harmonia. Precisamos do amor de Deus, porque o nosso amor é precário e insuficiente. Pedimos tantas coisas ao Senhor, mas muitas vezes esquecemo-nos de Lhe pedir o que é mais importante e que Ele nos deseja dar: o Espírito Santo, isto é, a força para amar. Com efeito, sem amor, o que é que havemos de oferecer ao mundo? Alguém disse que um cristão sem amor é como uma agulha que não cose: pica, fere, mas se não cose, se não tece, se não conjuga, é inútil. Eu ousaria dizer: não é cristão. Por isso há necessidade de beber do perdão de Deus a força do amor, beber o mesmo Espírito que desceu sobre Maria.

Pois, se quisermos que o mundo mude, tem de mudar primeiro o nosso coração. Para o conseguirmos, deixemos hoje que Nossa Senhora nos leve pela mão. Olhemos para o seu Imaculado Coração, onde Deus descansou, para o único Coração de criatura humana sem sombras. Ela é «cheia de graça» (Lc 1, 28) e, portanto, vazia de pecado: n’Ela não há vestígios de mal e, assim, com Ela Deus pôde iniciar uma história nova de salvação e de paz. Naquele ponto, a história deu uma viragem. Deus mudou a história, batendo à porta do Coração de Maria.

E hoje também nós, renovados pelo perdão de Deus, batemos à porta daquele Coração. Em união com os Bispos e os fiéis do mundo inteiro, desejo solenemente levar ao Imaculado Coração de Maria tudo o que estamos a viver: renovar-Lhe a consagração da Igreja e da humanidade inteira e consagrar-Lhe todos os povos que sofrem por causa da guerra, em particular o povo ucraniano, o povo russo, que, com afeto filial, a veneram como Mãe. Não se trata duma fórmula mágica; não é isto! Trata-se dum ato espiritual. É o gesto da entrega plena dos filhos que, na tribulação desta guerra cruel, desta guerra insensata que ameaça o mundo, recorrem à Mãe. Como as crianças que, quando estão assustadas, vão ter com a mãe a chorar, à procura de proteção, recorremos à Mãe, lançando no seu Coração medo e sofrimento, entregando-nos nós mesmos a Ela. É colocar naquele Coração límpido, incontaminado, onde Deus Se espelha, os bens preciosos da fraternidade e da paz, tudo quanto temos e somos, para que seja Ela – a Mãe que o Senhor nos deu – a proteger-nos e guardar-nos.

Dos lábios de Maria brotou a frase mais bela que o Anjo pudesse referir a Deus: «Faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Esta aceitação por parte de Nossa Senhora não é uma aceitação passiva nem resignada, mas o desejo vivo de aderir a Deus, que tem «desígnios de paz e não de desgraça» (Jr 29, 11). É a participação mais íntima no seu plano de paz para o mundo. Consagramo-nos a Maria para entrar neste plano, para nos colocarmos à inteira disposição dos desígnios de Deus. A Mãe de Deus, depois de ter dito o seu sim, empreendeu uma longa viagem subindo até uma região montanhosa para visitar a prima grávida (cf. Lc 1, 39). Foi apressadamente. Gosto de pensar em Nossa Senhora com pressa, sempre assim, Nossa Senhora que Se apressa para nos ajudar, para nos guardar. Hoje que Ela tome pela mão o nosso caminho e o guie, através das veredas íngremes e cansativas da fraternidade e do diálogo, o guie pela senda da paz.

Papa Francisco
(Homilia - Celebração Penitencial - 25 de março de 2022)

Avé-Maria cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte. Ámen.

sábado, 21 de março de 2026

 Tempo Quaresmal -2026- Ano A

Domingo V da Quaresma


Hoje, quinto Domingo da Quaresma, as leituras desafiam-nos a perscrutar até onde vai a nossa fé: Acredito mesmo que Jesus é a ressurreição e a vida? Acredito na ressurreição dos mortos? Acredito que a fé faz viver? Acredito que Jesus me pode ressuscitar a mim? É o próprio Jesus que nos interroga, como o fez com as irmãs de Lázaro, Marta e Maria. Deixemos que o Espírito Santo nos preencha por inteiro, a fim de também cada um de nós, ao seu jeito, dar a sua resposta a Jesus.

Na 1ª leitura, (Ez 37, 12-14) o profeta Ezequiel projeta-nos para a ressurreição, que vence a morte e nos dá a vida. Também nós, nos tempos que vivemos, pela ação do Espírito Santo, havemos de reconhecer o Senhor, que infunde em nós o Seu Espírito de Vida. Ele está connosco, sempre presente nas nossas vidas, esta é a certeza que a fé nos dá. 

“Assim fala o Senhor Deus: «Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, digo e faço».

Na 2ª leitura (Rom 8, 8-11) S.Paulo desafia-nos a deixarmo-nos habitar pelo Espírito Santo, a deixarmo-nos repassar pelo Amor sem fim, a deixarmo-nos amar por Deus, a entregarmo-nos de corpo e alma a Jesus Cristo ressuscitado. 

“Irmãos: Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence. Se Cristo está em vós, embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado, o espírito permanece vivo por causa da justiça. E se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós.”

O Evangelho (Jo 11, 1-45) é uma revelação profunda de Jesus homem e simultaneamente Deus. Não conseguimos separar estas duas naturezas de Jesus. É impossível! Mas, contemplando o homem, como o sentimos perto de nós, nestes dias. Ele tem amigos, emociona-se, chora porque sente como seu, o sofrimento deles. Mas, continuando a nossa contemplação, Jesus eleva-nos até Deus, levanta os olhos ao Céu e reza ao Pai. Dessa comunhão íntima vemos Deus a agir, a dar a vida e a libertar.  Jesus, eu creio que és o Filho de Deus, que estás vivo e ressuscitado e que continuas a dar-nos a Vida e a libertar-nos da morte. 

“Naquele tempo, estava doente certo homem, Lázaro de Betânia, aldeia de Marta e de Maria, sua irmã. Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos. Era seu irmão Lázaro que estava doente. As irmãs mandaram então dizer a Jesus: «Senhor, o teu amigo está doente». Ouvindo isto, Jesus disse: «Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem». Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente, ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava. Depois disse aos discípulos: «Vamos de novo para a Judeia». Os discípulos disseram-Lhe: «Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te e voltas para lá?». Jesus respondeu: «Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem luz consigo». Dito isto, acrescentou: «O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo». Disseram então os discípulos: «Senhor, se dorme, estará salvo». Jesus referia-se à morte de Lázaro, mas eles entenderam que falava do sono natural. Disse-lhes então Jesus abertamente: «Lázaro morreu; por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá, para que acrediteis. Mas, vamos ter com ele». Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros: «Vamos nós também, para morrermos com Ele». Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias. Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros. Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria, para lhes apresentar condolências pela morte do irmão. Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar, Marta saiu ao seu encontro, enquanto Maria ficou sentada em casa. Marta disse a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará». Marta respondeu: «Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia». Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?». Disse-Lhe Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo». Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria, a quem disse em segredo: «O Mestre está ali e manda-te chamar». Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus. Jesus ainda não tinha chegado à aldeia, mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro. Então os judeus que estavam com Maria em casa para lhe apresentar condolências, ao verem-na levantar-se e sair rapidamente, seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar. Quando chegou aonde estava Jesus, Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido». Jesus, ao vê-la chorar, e vendo chorar também os judeus que vinham com ela, comoveu-Se profundamente e perturbou-Se. Depois perguntou: «Onde o pusestes?». Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor». E Jesus chorou. Diziam então os judeus: «Vede como era seu amigo». Mas alguns deles observaram: «Então Ele, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito que este homem não morresse?». Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo. Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada. Disse Jesus: «Tirai a pedra». Respondeu Marta, irmã do morto: «Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias». Disse Jesus: «Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus?». Tiraram então a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste». Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora». O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir». Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria, ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.”

Jesus, fonte da Vida, dá-nos a Vida, liberta-nos de todo o mal.

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho deste quinto domingo de Quaresma narra-nos a ressurreição de Lázaro. É o ápice dos «sinais» prodigiosos realizados por Jesus: trata-se de um gesto muito, demasiado grande, claramente divino para ser tolerado pelos sumos sacerdotes, os quais, tendo sabido do facto, tomaram a decisão de matar Jesus (cf. Jo 11, 53).

Lázaro já estava morto há três dias; e às irmãs Marta e Maria Ele disse palavras que se gravaram para sempre na memória da comunidade cristã. Jesus diz assim: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem acredita em Mim, mesmo morrendo, viverá; todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá eternamente» (Jo 11, 25). Sobre esta Palavra do Senhor nós acreditamos que a vida de quem crê em Jesus e segue os seus mandamentos, depois da morte será transformada numa vida nova, plena e imortal. Assim como Jesus ressuscitou com o próprio corpo, mas não voltou a uma vida terrena, também nós ressurgiremos com os nossos corpos que serão transfigurados em corpos gloriosos. Ele espera por nós junto do Pai, e a força do Espírito Santo, que O ressuscitou, ressuscitará também quem estiver unido a Ele.

Diante do túmulo fechado do amigo Lázaro, Jesus «bradou em voz alta: Lázaro, sai para fora! E o morto saiu, com os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto com um sudário» (vv. 43-44). Este brado perentório é dirigido a cada homem, porque todos estamos marcados pela morte, todos nós; é a voz d’Aquele que é o dono da vida e quer que todos «a tenhamos em abundância» (Jo 10, 10). Cristo não se resigna com os sepulcros que nós construímos com as nossas escolhas de mal e de morte, com os nossos erros, com os nossos pecados. Ele não se resigna a isto! Ele convida-nos, quase nos ordena, que saiamos do túmulo no qual os nossos pecados nos fizeram cair. Chama-nos insistentemente a sair da escuridão da prisão na qual nos fechamos, contentando-nos com uma vida falsa, egoísta, medíocre. «Sai!», diz-nos, «Sai!». É um bom convite à verdadeira liberdade, a deixar-nos alcançar por estas palavras de Jesus que hoje repete a cada um de nós. Um convite a deixar-nos libertar das «faixas», das faixas do orgulho. Porque o orgulho torna-nos escravos, escravos de nós mesmos, escravos de tantos ídolos, de tantas coisas. A nossa ressurreição começa por aqui: quando decidimos obedecer a este mandamento de Jesus saindo para a luz, para a vida; quando caem do nosso rosto as máscaras — muitas vezes nós estamos mascarados pelo pecado, as máscaras devem cair! — e não encontramos a coragem do nosso rosto original, criado à imagem e semelhança de Deus.

O gesto de Jesus que ressuscita Lázaro mostra até onde pode chegar a força da Graça de Deus, e portanto até onde pode chegar a nossa conversão, a nossa mudança. Mas reparai: não há limite algum à misericórdia divina oferecida a todos! Não há limite algum à misericórdia divina oferecida a todos! Recordai-vos bem desta frase. E podemos dizê-la todos juntos: «Não há limite algum à misericórdia divina oferecida a todos». Digamo-lo juntos: «Não há limite algum à misericórdia divina oferecida a todos». O Senhor está sempre pronto a levantar a pedra do sepulcro dos nossos pecados, que nos separa d’Ele, a luz dos vivos.

Papa Francisco
(Angelus, 6 de abril de 2014)

quinta-feira, 19 de março de 2026

 Solenidade de S.José

No dia em que recordamos o carpinteiro de Nazaré, oferecemos algumas reflexões dos Papas sobre essa figura a quem Deus confiou a proteção de seus tesouros mais preciosos: Jesus e Maria.

"Este Menino é Aquele que dirá: 'Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes'" (Mt 25:40). Portanto, cada pessoa necessitada, cada pobre, cada sofredor, cada moribundo, cada estrangeiro, cada prisioneiro, cada doente é "o Menino" que José continua a proteger. É por isso que São José é invocado como protetor dos miseráveis, dos necessitados, dos exilados, dos aflitos, dos pobres, dos moribundos. E é por isso que a Igreja não pode deixar de amar o menor deles". Essas são algumas das reflexões contidas na carta apostólica "Patris Corde", com a qual o Papa Francisco proclamou um Ano especial de São José, de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021, por ocasião do 150º aniversário do Decreto Quemadmodum Deus, com o qual Pio IX declarou o esposo de Maria Patrono da Igreja Universal.

Protetor dos cristãos

A São José, escreve o Papa Leão XIII na sua carta encíclica Quamquam pluries, é confiado o "berço da Igreja nascente". "Decorre daí que o beatíssimo Patriarca se deve considerar protetor, de modo especial, da multidão de cristãos da qual a Igreja é formada, ou seja, dessa inumerável família espalhada pelo mundo, sobre a qual ele, como esposo de Maria e pai de Jesus Cristo, tem uma autoridade quase paternal". "É, portanto, uma coisa justa", continua a enfatizar o Papa Pecci, "que, assim como ele costumava proteger santamente a família de Nazaré em todos os eventos, agora, com seu patrocínio celestial, ele protege e defende a Igreja de Cristo".

São José, esposo de Maria

Em 8 de dezembro de 2020 o Papa Francisco proclamou o Ano de São José com a carta apostólica “Patris corde” dedicada ao Santo Padroeiro da Igreja universal com o objetivo de ajudar ...

Protetor da Igreja

A vida de São José, protetor da Igreja, é, portanto, inteiramente dedicada a Maria e a Jesus: cuida deles, protege-os. O Papa Francisco o recorda durante a missa do início de seu Pontificado, em 19 de março de 2013, na solenidade do esposo da Virgem Maria: "José é um guardião, porque sabe escutar a Deus, deixa-se guiar por sua vontade". Ao pai adotivo de Jesus, o Papa Francisco também dedicou um ciclo de 12 catequeses. Na primeira, em 17 de novembro de 2021, o Pontífice, em particular, envia uma mensagem a todos os homens e mulheres que vivem nas "periferias geográficas mais esquecidas do mundo" ou que vivem em situações de marginalidade: "Que vocês encontrem em São José", diz Francisco, " o testemunho e o protetor para o qual podem olhar". Na sua Audiência Geral de 16 de fevereiro de 2022, Francisco incentivou "a pedir a intercessão de São José nos momentos mais difíceis da vida". "Quantos santos se voltaram para ele! Quantas pessoas - na história da Igreja - enfatiza Francisco - encontraram nele um patrono, um guardião, um pai":

“São José não pode deixar de ser o Guardião da Igreja, porque a Igreja é o prolongamento do Corpo de Cristo na história e ao mesmo tempo, na maternidade da Igreja, espelha-se a maternidade de Maria. José, continuando a proteger a Igreja, continua a proteger o Menino e sua mãe; e também nós, amando a Igreja, continuamos a amar o Menino e sua mãe.”

Protetor dos trabalhadores

A figura de São José "embora permaneça um pouco escondida, é de fundamental importância na história da salvação". Assim enfatizou o Papa Bento XVI que, no Angelus de 19 de março de 2006, dirigiu os seus pensamentos primeiramente "aos pais e mães de família":

“Penso antes de tudo, nos pais e nas mães de família, e rezo para que saibam sempre apreciar a beleza de uma vida simples e laboriosa, cultivando com solicitude o relacionamento conjugal e cumprindo com entusiasmo a grande e difícil missão educativa. Aos sacerdotes, que exercem a paternidade em relação às comunidades eclesiais, São José obtenha que amem a Igreja com afeto e dedicação total, e ampare as pessoas consagradas na sua jubilosa e fiel observância dos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. Proteja os trabalhadores de todo o mundo, para que contribuam com as suas várias profissões para o progresso de toda a humanidade, e ajude cada cristão a realizar com confiança e com amor a vontade de Deus, cooperando assim para o cumprimento da obra da salvação.”

Protetor das famílias

Na exortação apostólica Redemptoris Custos, o Papa João Paulo II recomenda a todos "a proteção daquele a quem o próprio Deus confiou a guarda de seus maiores e mais preciosos tesouros". E espera que São José, definido como "o protótipo das famílias cristãs", se torne para todos "um mestre singular no serviço da missão salvadora de Cristo". O Papa Wojtyła, na celebração eucarística na paróquia romana de São José, em 15 de dezembro de 1985, confia as famílias ao pai adotivo de Jesus:

“Saibam, como ele, proteger e reunir com amor, com fé cristã, com atenção cuidadosa a presença santificadora de Cristo. Desejo que São José seja lembrado não apenas como o patrono da Igreja, mas como o protetor de todas as famílias desta paróquia, e que em seu exemplo apreciemos o valor do serviço à vontade de Deus, o sentido da fé, a preocupação com o respeito e a proteção da vida…”

Protetor em todas as circunstâncias da vida

Em 1969, na festa de São José, o Papa Paulo VI lembrou que o esposo de Maria foi declarado protetor da Igreja "por causa da função que exerceu em relação a Cristo durante sua infância e juventude". "Nenhuma palavra sobre ele", enfatiza o Papa Montini, "está registada no Evangelho; a sua linguagem é o silêncio".

"Não obstante, essa figura humilde, tão próxima de Jesus e Maria, a Virgem Mãe de Cristo, uma figura tão inserida em suas vidas, tão ligada à genealogia messiânica a ponto de representar a descendência fatídica e terminal da prole de David (Mt 1,20), se observada cuidadosamente, é considerada tão rica em aspectos e significados, a ponto da Igreja prestar culto a São José e a devoção dos fiéis reconhecer nele uma série de invocações diversas que lhe são dirigidas em forma de ladainha."

Paulo VI recorda então os numerosos títulos que fazem de São José "protetor da infância, protetor dos esposos, protetor da família, protetor dos trabalhadores, protetor das religiosas, protetor dos refugiados, protetor dos moribundos". Invocar a proteção de São José, como afirma Santa Teresa de Ávila, também significa reconhecer seu papel protetor em todas as circunstâncias da vida: "Para outros santos, parece que Deus nos concedeu ajuda nesta ou naquela necessidade, ao passo que eu experimentei que o glorioso São José estende sua intercessão a tudo".

Amedeo Lomonaco - Cidade do Vaticano

sábado, 14 de março de 2026

Tempo Quaresmal -2026- Ano A

Domingo IV da Quaresma

Em momentos tão “escuros” como os que agora atravessamos, as leituras deste domingo guiam-nos através da Luz, que é o Senhor Jesus. Bem precisamos da Sua luz nestes tempos conturbados! Se, na semana passada, Jesus nos matou a sede, hoje, quando se faz encontro com cada um de nós, revela-se-nos como a Luz, que nos ilumina e conduz até Deus. Só o Senhor é a Luz, só Ele nos pode guiar. Deixemo-nos iluminar por Ele.

Na 1ªleitura (1 Sam 16, 1b.6-7.10-13a) o profeta Samuel deixa-se  guiar por Deus na escolha do ungido do Senhor, David. Só o Senhor sabe quem é cada um de nós, no mais íntimo do seu coração, no mais profundo da sua alma, não olhando apenas para o nosso aspeto exterior. Mesmo assim, sabendo do que somos capazes, para o bem e para o mal, ama-nos infinitamente e escolhe-nos no Amor, para O servirmos e n’Ele estarmos ao serviço dos outros.

“Naqueles dias, o Senhor disse a Samuel: «Enche a âmbula de óleo e parte. Vou enviar-te a Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos». Quando chegou, Samuel viu Eliab e pensou consigo: «Certamente é este o ungido do Senhor». Mas o Senhor disse a Samuel: «Não te impressiones com o seu belo aspeto, nem com a sua elevada estatura, pois não foi esse que Eu escolhi. Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». Jessé fez passar os sete filhos diante de Samuel, mas Samuel declarou-lhe: «O Senhor não escolheu nenhum destes». E perguntou a Jessé: «Estão aqui todos os teus filhos?». Jessé respondeu-lhe: «Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o rebanho». Samuel ordenou: «Manda-o chamar, porque não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar». Então Jessé mandou-o chamar: era ruivo, de belos olhos e agradável presença. O Senhor disse a Samuel: «Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo». Samuel pegou na âmbula do óleo e ungiu-o no meio dos irmãos. Daquele dia em diante, o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.”

Na 2ªleitura (Ef 5, 8-14) S.Paulo convida-nos a vivermos como filhos da Luz e a deixarmos que a Luz de Cristo, por nós recebida no Batismo, realize em cada um de nós obras da Luz. Desafia-nos a despertamos e a deixarmos que , nestes dias tão difíceis e negros, a Luz de Cristo ilumine o mundo em que vivemos.

“Irmãos: Outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade. Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor. Não tomeis parte nas obras das trevas, que nada trazem de bom; tratai antes de as denunciar abertamente, porque o que eles fazem em segredo até é vergonhoso dizê-lo. Mas todas as coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz, e tudo o que assim se manifesta torna-se luz. É por isso que se diz: «Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti».”

No evangelho (Jo 9, 1-41) Jesus, perante os nosso olhos, realiza obras de Amor, obras de Luz: cura um cego de nascença. Ao longo deste evangelho, vemos todo um processo de crescimento, na aproximação e entrega a Deus, por parte deste homem: primeiro, é a cura física, com a perplexidade natural face ao acontecimento; depois, é a força do testemunho perante os fariseus - impressionante o desassombro com que fala do que aconteceu e desafia os "doutores da lei"; por fim, um ato de fé total, reconhecendo Jesus como o Filho de Deus - é o único culminar possível, pois este homem já estava todo entregue a Deus e através dele é o Espírito Santo que se manifesta. Deixemo-nos encontrar por esta Luz de Amor, que é o Senhor Jesus e abramos-lhe o nosso coração, para com Ele progredirmos na fé. 

“Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. Os discípulos perguntaram-Lhe: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?». Jesus respondeu-lhes: «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus. É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo». Dito isto, cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: «Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e ficou a ver. Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que antes o viam a mendigar: «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?». Uns diziam: «É ele». Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu». Perguntaram-lhe então: «Como foi que se abriram os teus olhos?». Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’. Eu fui, lavei-me e comecei a ver». Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?». O homem respondeu: «Não sei». Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um pecador fazer tais milagres?». E havia desacordo entre eles. Perguntaram então novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?». O homem respondeu: «É um profeta». Os judeus não quiseram acreditar que ele tinha sido cego e começara a ver. Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes: «É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego? Como é que ele agora vê?». Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». Foi por medo que eles deram esta resposta, porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga quem reconhecesse que Jesus era o Messias. Por isso é que disseram: «Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido cego e disseram-lhe: «Dá glória a Deus. Nós sabemos que esse homem é pecador». Ele respondeu: «Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo». Perguntaram-lhe então: «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?». O homem replicou: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?». Então insultaram-no e disseram-lhe: «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés. Nós sabemos que Deus falou a Moisés; mas este, nem sabemos de onde é». O homem respondeu-lhes: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer». Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?». E expulsaram-no. Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?». Ele respondeu-Lhe: «Quem é, Senhor, para que eu acredite n'Ele?». Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é quem está a falar contigo». O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor». Então Jesus disse: «Eu vim a este mundo para exercer um juízo: os que não veem ficarão a ver; os que veem ficarão cegos». Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto, perguntaram-Lhe: «Nós também somos cegos?». Respondeu-lhes Jesus: «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece».”

Senhor, ilumina-me com a Tua Luz. Converte-me Senhor.

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje o Evangelho mostra-nos Jesus que restitui a vista a um homem cego de nascença (cf. Jo 9, 1-41). Mas este prodígio é mal recebido por várias pessoas e grupos. Vejamos nos pormenores.

Mas primeiro gostaria de vos dizer: hoje, pegai no Evangelho de João e lede este milagre de Jesus, é muito bonito o modo como João o narra. Capítulo 9, lê-se em dois minutos. Mostra o modo de proceder de Jesus e do coração humano: o coração humano bondoso, o coração humano tíbio, o coração humano medroso, o coração humano corajoso. Capítulo 9 do Evangelho de João. Lede-o hoje, far-vos-á muito bem! E como recebem as pessoas este sinal?

Em primeiro lugar, há os discípulos de Jesus, que diante do homem cego de nascença acabam no mexerico: interrogam-se se a culpa é dos pais ou dele (cf. v. 2). Procuram um culpado; e nós caímos muitas vezes nisto, que é muito cómodo: procurar um culpado, em vez de nos colocarmos interrogações desafiadoras na vida. E hoje, podemos questionar-nos: o que significa para nós a presença desta pessoa, que nos pede? Depois da cura, as reações aumentam. A primeira é a dos vizinhos, que são céticos: «Este homem sempre foi cego: não é possível que agora veja, não pode ser ele, é outro»: ceticismo (cf. vv. 8-9). Para eles isto é inaceitável, é melhor deixar tudo como era antes (cf. v. 16) e não se intrometer neste problema. Têm medo, temem as autoridades religiosas e não se pronunciam (cf. vv. 18-21). Em todas estas reações, emergem corações fechados perante o sinal de Jesus, por vários motivos: porque procuram um culpado, porque não sabem maravilhar-se, porque não querem mudar, porque são impedidos pelo medo. E hoje muitas situações são parecidas com esta. Diante de algo que é precisamente uma mensagem de testemunho de uma pessoa, é uma mensagem de Jesus, caímos nisto: procuramos outra explicação, não queremos mudar, procuramos uma saída mais elegante do que aceitar a verdade.

O único que reage bem é o cego: feliz por ver, ele testemunha do modo mais simples o que lhe aconteceu: «Eu era cego e agora vejo» (v. 25). Diz a verdade. Antes, era obrigado a pedir esmola para viver e sofria os preconceitos do povo: «É pobre e cego de nascença, deve sofrer, deve pagar pelos seus pecados ou pelos pecados dos seus antepassados». Agora, livre no corpo e no espírito, dá testemunho de Jesus: nada inventa, nada esconde. «Eu era cego e agora vejo». Não tem medo do que os outros dirão: já conheceu o gosto amargo da marginalização, durante a sua vida inteira; já sentiu em si a indiferença, o desprezo dos transeuntes, daqueles que o consideravam um descarte da sociedade, no máximo útil para o pietismo de algumas esmolas. Agora, curado, já não teme essas atitudes de desprezo, porque Jesus lhe deu plena dignidade. E isto é claro, como sempre acontece: quando Jesus no cura, restitui-nos a dignidade, a dignidade da cura de Jesus, plena dignidade, uma dignidade que vem do fundo do coração, que abrange a vida inteira; e Ele, no sábado, diante de todos, libertou-o e restituiu-lhe a vista, sem lhe pedir nada, nem sequer um agradecimento, e o homem dá testemunho disto. Esta é a dignidade de uma pessoa nobre, de uma pessoa que sabe que foi curada, e restabelece-se, renasce; o renascimento na vida, de que se falava hoje em “A Sua Immagine”: renascer!

Irmãos, irmãs, com todos estes personagens o Evangelho de hoje coloca-nos também a nós no meio da cena, de modo que nos perguntamos: que posição assumimos, o que teríamos dito em tal situação? E acima de tudo, o que fazemos hoje? Como o cego, sabemos ver o bem e estar gratos pelos dons que recebemos? Pergunto-me: como é a minha dignidade? Como é a tua dignidade? Somos testemunhas de Jesus, ou espalhamos críticas e suspeitas? Somos livres perante os preconceitos, ou associamo-nos aos que espalham negativismo e mexericos? Estamos felizes por dizer que Jesus nos ama, nos salva ou, como os pais do homem cego de nascença, nos deixamos aprisionar pelo medo do que pensarão as pessoas? Os tíbios de coração, que não aceitam a verdade e não têm a coragem de dizer: “Não, isto é assim”. E ainda, como enfrentamos as dificuldades e a indiferença dos outros? Como acolhemos as pessoas que têm muitos limites na vida? Quer sejam físicas, como este cego; ou sociais, como os mendigos que encontramos na rua? Vemos isto como uma maldição, ou como uma ocasião para nos aproximarmos deles com amor?

Irmãos e irmãs, hoje peçamos a graça de nos maravilharmos todos os dias pelos dons de Deus e de ver as várias circunstâncias da vida, até as mais difíceis de aceitar, como ocasiões para praticar o bem, como Jesus fez com o cego. Que Nossa Senhora nos ajude nisto, com São José, homem justo e fiel.

Papa Francisco
(Angelus, 19 de março de 2023)