sábado, 7 de fevereiro de 2026

 DOMINGODO TEMPO COMUM -2026- Ano A

Após a proclamação das bem-aventuranças, somos chamados a testemunhar a luz que deve brilhar para todos. Mas de que luz se trata? Da luz que brota das boas obras de misericórdia. Hoje, a Palavra do Senhor também nos desafia a vivermos, no dia a dia da vida, seguros, radicados no Amor, “enraizados em Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado”. 

Na 1ªleitura (Is 58, 7-10) o profeta Isaías torna presente a forma como, os que nos rodeiam, se interrogarão, ou poderão compreender, quem é Aquele que nos move, quem é a razão de ser da nossa existência, isto é, relembra-nos que será através da prática das obras de misericórdia, que chegaremos àqueles a quem o Senhor se quer revelar, através de cada um de nós.

“Eis o que diz o Senhor: «Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa ao que não tem que vestir e não voltes as costas ao teu semelhante. Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor. Então, se chamares, o Senhor responderá, se O invocares, dir-te-á: ‘Aqui estou’. Se tirares do meio de ti a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia».”

Na 2ªleitura (Cor 2, 1-5) S.Paulo, que dominava as escrituras do seu tempo, como ninguém, não se arma em doutor da lei, mas, pelo contrário, confessa-se  cheio de temor e tremor ao anunciar o Evangelho. É assim que nos revela o segredo do êxito da sua ação missionária, quando nos diz que se apoia sempre e só em Jesus Cristo, crucificado, deixando-se guiar pelo Espírito Santo. Que humildade, meu Deus! Bendito seja Deus, nos Seus anjos e nos Seus santos.

“Quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria a anunciar-vos o mistério de Deus. Pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras. A minha palavra e a minha pregação não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana, mas na poderosa manifestação do Espírito Santo, para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus.”


No evangelho (Mt 5, 13-16)  Jesus, mesmo sabendo quem e como somos e, mais ainda, do que somos capazes, de bom, mas também de mau, entrega-nos a responsabilidade de O anunciarmos, na vida, na forma como nos movemos e existimos, na forma como nos relacionamos com todos, e cada um, à nossa volta. 

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa. Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».” 

Senhor, que arriscaste em nós, em cada um de nós, mesmo conhecendo-nos no mais íntimo de nós próprios, habita-nos por inteiro, preenche todo o nosso ser sempre, seja qual for a situação em que nos encontremos, ou venhamos a encontrar. Bendito sejas Senhor por nos amares assim, infinitamente. A Ti, a glória, hoje e sempre, pelos séculos sem fim. Ámen.

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

No Evangelho de hoje (cf. Mt 5, 13-16), Jesus diz aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra [...] Vós sois a luz do mundo» (vv. 13.14). Ele usa uma linguagem simbólica para indicar àqueles que pretendem segui-lo, alguns critérios para viver a presença e o testemunho no mundo.

Primeira imagem: o sal. O sal é o elemento que dá sabor, que conserva e preserva os alimentos contra a corrupção. Portanto, o discípulo é chamado a manter longe da sociedade os perigos, os germes corrosivos que poluem a vida das pessoas. Trata-se de resistir à degradação moral, ao pecado, dando testemunho dos valores da honestidade e da fraternidade, sem ceder às lisonjas mundanas do arrivismo, do poder e da riqueza. É “sal” o discípulo que, não obstante os fracassos diários – porque todos nós os temos – se levanta do pó dos próprios erros, recomeçando com coragem e paciência, todos os dias, a procurar o diálogo e o encontro com os outros. É “sal” o discípulo que não busca o consentimento nem o elogio, mas que se esforça por ser uma presença humilde e construtiva, na fidelidade aos ensinamentos de Jesus que veio ao mundo não para ser servido, mas para servir. E há tanta necessidade desta atitude!

A segunda imagem que Jesus propõe aos seus discípulos é a da luz: «Vós sois a luz do mundo». A luz dissipa a escuridão e permite ver. Jesus é a luz que dissipou as trevas, mas elas ainda permanecem no mundo e nas pessoas individualmente. É tarefa do cristão dispersá-las, fazendo resplandecer a luz de Cristo e anunciando o seu Evangelho. Trata-se de uma irradiação que pode derivar até das nossas palavras, mas deve brotar principalmente das nossas «boas obras» (v. 16). Um discípulo e uma comunidade cristã são luz no mundo quando orientam os outros para Deus, ajudando cada um a experimentar a sua bondade e misericórdia. O discípulo de Jesus é luz quando sabe viver a sua fé fora dos espaços restritos, quando contribui para eliminar preconceitos, para eliminar calúnias e para fazer entrar a luz da verdade nas situações corrompidas pela hipocrisia e pela mentira. Fazer luz. Mas não se trata da minha luz, é a luz de Jesus: nós somos instrumentos para que a luz de Jesus chegue a todos.

 Jesus convida-nos a não ter medo de viver no mundo, embora às vezes nele haja condições de conflito e de pecado. Diante da violência, da injustiça e da opressão, o cristão não pode fechar-se em si mesmo, nem esconder-se na segurança do próprio espaço; nem sequer a Igreja pode fechar-se em si mesma, não pode abandonar a sua missão de evangelização e de serviço. Na Última Ceia Jesus pediu ao Pai para não tirar os discípulos do mundo, para os deixar aqui, no mundo, mas para os proteger contra o espírito do mundo. A Igreja dedica-se com generosidade e ternura aos pequeninos e aos pobres: este não é o espírito do mundo, esta é a sua luz, é o sal. A Igreja escuta o grito dos últimos e dos excluídos, porque está consciente de que é uma comunidade peregrina, chamada a prolongar na história a presença salvífica de Jesus Cristo.

Que a Virgem Santa nos ajude a ser sal e luz no meio do povo, levando a todos, com a vida e a palavra, a Boa Nova do amor de Deus.

Papa Francisco
(Angelus, 9 de fevereiro de 2020)

sábado, 31 de janeiro de 2026

DOMINGO IV DO TEMPO COMUM -2026- Ano A

As leituras deste domingo apresentam-nos uma proposta de felicidade que vai totalmente contra a corrente. De facto, a pobreza não é boa para ninguém se a restringirmos à falta de dinheiro, ou das condições essenciais para se poder viver com dignidade. Mas a pobreza, de que nos falam as leituras de hoje, vai muito para além de qualquer critério meramente economicista ou hedonista, pois projeta-nos para: o amor sem limites; a entrega de nós próprios, a cem por cento, ao outro; o encontro de comunhão total com Deus e o(s) outro(s). Só quem é verdadeiramente pobre de si mesmo se deixa amar, na totalidade do seu ser, pelo Amor, que é Deus. É esta a proposta de felicidade que a liturgia hoje nos oferece.

Na 1ªleitura (Sof 2, 3; 3, 12-13) Sofonias embora fale no reino de Judá, em Jerusalém, durante o reinado de Josias, século VII a.C.,  ao anunciar o “dia do Senhor” fá-lo para os povos de todos e de cada tempo. Diz-nos, também a nós, cidadãos do séc. XXI, que esse há de ser um dia de salvação universal para os humildes da terra e para todo o que permanecer fiel ao Senhor.

“Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra, que obedeceis aos seus mandamentos. Procurai a justiça, procurai a humildade; talvez encontreis proteção no dia da ira do Senhor. Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde, que buscará refúgio no nome do Senhor. O resto de Israel não voltará a cometer injustiças, não tornará a dizer mentiras, nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora. Por isso, terão pastagem e repouso, sem ninguém que os perturbe.”

Na 2ªleitura (1 Cor 1, 26-31)  S. Paulo é muito claro na forma como nos apresenta o critério que Deus tem para escolher os seus ungidos. Esta leitura ajuda-nos imenso a centrar em Deus tudo o que somos e temos, só n’Ele a verdadeira felicidade é possível.

“Irmãos: Vede quem sois vós, os que Deus chamou: não há muitos sábios, naturalmente falando, nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos. Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios; escolheu o que é fraco, para confundir o forte; escolheu o que é vil e desprezível, o que nada vale aos olhos do mundo, para reduzir a nada aquilo que vale, a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus. É por Ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção. Deste modo, conforme está escrito, «quem se gloria deve gloriar-se no Senhor».”

No evangelho (Mt 5, 1-12a) Jesus apresenta aos homens do seu tempo, mas também aos de hoje, a única proposta de felicidade realmente verdadeira. Num tempo, como este em que vivemos, quem ousa propor este projeto de felicidade? Penso que toda a Igreja de inspiração cristã o faz, mas será que a nossa vida de cristãos reflete que o seguimos de facto?! E, no entanto, são imensas e das mais variadas, as outras propostas de que ouvimos falar e que têm seguidores, algumas muitos até… Afinal, o homem de hoje, tal como o de ontem continua à procura da felicidade… Senhor, que nos deixemos iluminar e repassar por Ti de forma a darmos testemunho do Amor infinito que és Tu, hoje e sempre.

“Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».”

Senhor, que eu nunca duvide do Teu Amor. Que Tu sejas o único amor da minha vida.

Catequeses sobre as Bem-aventuranças - 1

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje iniciamos uma série de catequeses sobre as Bem-aventuranças no Evangelho de Mateus (5, 1-11). Este texto abre o “Sermão da Montanha” e iluminou a vida dos crentes, e também de muitos não-crentes. É difícil não se comover com estas palavras de Jesus, e é justo o desejo de as compreender e acolher cada vez mais plenamente. As Bem-aventuranças contêm o “bilhete de identidade” do cristão — este é o nosso bilhete de identidade — porque delineiam o rosto do próprio Jesus, o seu estilo de vida.

Agora enquadremos estas palavras de Jesus globalmente; nas próximas catequeses comentaremos cada uma das bem-aventuranças, uma de cada vez.

Antes de tudo, é importante como surgiu o anúncio desta mensagem: Jesus, vendo a multidão que o seguia, sobe à suave encosta que rodeia o lago da Galileia, senta-se e, dirigindo-se aos discípulos, anuncia as bem-aventuranças. Portanto, a mensagem é dirigida aos discípulos, mas no horizonte está a multidão, ou seja, toda a humanidade. É uma mensagem para toda a humanidade.

Além disso, a “montanha” faz recordar o Sinai, onde Deus entregou os Mandamentos a Moisés. Jesus começa a ensinar uma nova lei: ser pobre, ser manso, ser misericordioso... Estes “novos mandamentos” são muito mais que normas. De facto, Jesus nada impõe, mas revela o caminho da felicidade — o seu caminho — repetindo a palavra “felizes” oito vezes.

Cada Bem-aventurança compõe-se de três partes. Inicia sempre com a palavra “felizes”; depois vem a situação na qual os felizes se encontram: pobreza de espírito, aflição, fome e sede de justiça, e assim por diante; por fim há o motivo da bem-aventurança, introduzido pela conjunção “porque”: “Felizes estes porque, felizes aqueles porque...” Assim as Bem-aventuranças são oito e seria bom aprendê-las de cor para as repetir, a fim de ter na mente e no coração esta lei que Jesus nos deu.

Prestemos atenção a este facto: o motivo da bem-aventurança não é a situação atual, mas a nova condição que os bem-aventurados recebem como dom de Deus: “porque deles é o reino do céu”, “porque serão consolados”, “porque possuirão a terra”, e assim por diante.

No terceiro elemento, que é precisamente o motivo da felicidade, Jesus usa muitas vezes um futuro passivo: “serão consolados”, “possuirão a terra”, “serão saciados”, “alcançarão a misericórdia”, “serão chamados filhos de Deus”.

Mas o que significa a palavra “feliz”? Por que começa cada uma das oito Bem-aventuranças com a palavra “feliz”? O termo original não indica alguém que tem a barriga cheia ou está bem na vida, mas é uma pessoa que está em condição de graça, que progride na graça de Deus e no caminho de Deus: a paciência, a pobreza, o serviço aos outros, a consolação... Quantos progridem nestes aspetos são felizes e serão bem-aventurados.

Deus, para se doar a nós, escolhe muitas vezes caminhos impensáveis, talvez os dos nossos limites, das nossas lágrimas, das nossas derrotas. É a alegria pascal da qual falam os nossos irmãos orientais, aquela que tem os estigmas, mas está viva, atravessou a morte e experimentou o poder de Deus. As Bem-aventuranças conduzem-nos à alegria, sempre; são o caminho para alcançar a alegria. Far-nos-á bem hoje abrir o Evangelho de Mateus, capítulo cinco, versículos de um a onze e ler as Bem-aventuranças — talvez várias vezes durante a semana — para compreender este caminho tão bonito, tão seguro da felicidade que o Senhor nos propõe.

Papa Francisco
(Audiência geral, 29 de janeiro de 2020)

sábado, 24 de janeiro de 2026

DOMINGO III DO TEMPO COMUM -2026- Ano A

VII DOMINGO DA PALAVRA DE DEUS

Hoje, III Domingo do Tempo Comum, é um dia muito especial na Igreja, pois: celebramos a Festa da conversão de S.Paulo; conclui-se  a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos; é o VII Domingo da Palavra de Deus.

A Palavra proclamada, em cada Eucaristia, é um momento único de comunhão de Deus com cada um que O escuta e faz, desse encontro íntimo, caminho, estrada, para em e com Jesus, ir comunicando, transmitindo o Amor que Ele é. Mais ainda, mesmo no local mais recôndito, sós, ou acompanhados, podemos sempre meditar e gravar no mais profundo do nosso ser, a Tua Palavra. Obrigada, Senhor, pelas Tuas maravilhas.

Na 1ªleitura (Is 8, 23b – 9, 3 (9, 1-4))  Isaías transmite-nos que o Senhor está sempre connosco, que a Sua Luz nos ilumina e o Seu Amor nos alimenta, transforma e liberta a nós e a todos aqueles a quem quer chegar através do nosso testemunho de vida.

“Assim como no tempo passado foi humilhada a terra de Zabulão e de Neftali, também no futuro será coberto de glória o caminho do mar, o Além do Jordão, a Galileia dos gentios. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou. Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor.”

Na 2ªleitura (1 Cor 1, 10-13.17) S.Paulo exorta-nos a viver em unidade com todos os cristãos, num único e mesmo Senhor - Jesus Cristo. Pelos vistos, desde o início houve divisões, mas a verdade é que só Cristo, o Filho de Deus, é que deu a Sua vida por cada um de nós e nos reconquistou para Deus Pai. Se, só um é o Nosso Senhor, o nosso Deus, porquê tanta divisão e contenda? Que Deus tenha compaixão de nós e nos santifique.

 “Irmãos: Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós, permanecendo bem unidos, no mesmo pensar e no mesmo agir. Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé, que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga: «Eu sou de Paulo», «eu de Apolo», «eu de Pedro», «eu de Cristo». Estará Cristo dividido? Porventura Paulo foi crucificado por vós? Foi em nome de Paulo que recebestes o Batismo? Na verdade, Cristo não me enviou para batizar, mas para anunciar o Evangelho; não, porém, com sabedoria de palavras, a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo.”

No evangelho de hoje (Mt 4, 12-23) Jesus inicia a Sua vida pública, na Galileia, ao saber que João Batista tinha sido preso. E fá-lo dando continuidade ao que o precursor tinha iniciado, apelando a uma conversão de coração e ao arrependimento. É nesta fase inicial da Sua vida pública, que Jesus chama os seus colaboradores diretos. Deus continua a chamar… Peçamos ao Senhor por todos aqueles a quem Ele já chamou, mas também por aqueles a quem ainda vai convidar. Que Jesus seja a única força de todos.

Quando Jesus ouviu dizer que João Baptista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu, a consertar as redes. Jesus chamou-os e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O. Depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.”

Senhor, que sejas sempre o único Amor da minha vida.

1. "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz" (Is. 9, 1).

São palavras do profeta Isaías, que escutámos há pouco na primeira leitura. Elas, que evocam ainda o Natal, apresentam-nos o povo numa situação de "angústia e trevas e de angustiosa escuridão" (Is. 8, 22). Mas eis que, de repente, brilha a luz: a "escuridão será dissipada, pois não haverá mais obscuridade onde existe angústia" (cf. Is. 8, 23). As terras de Zabulão e de Neftali, no norte da Palestina, expostas ao contínuo perigo de invasões e saques, serão finalmente libertadas e o grande "caminho do mar", que da Mesopotâmia chegava ao Egipto passando pela Palestina, tornar-se-á glorioso.

O Evangelista São Mateus usa esta profecia como prólogo da atividade de Jesus como mestre na Galileia, quando, da casa de Nazaré, fora habitar na cidade de Cafarnaum. O primeiro Evangelho sublinha o cumprimento das palavras do Livro de Isaías: "Jesus... foi habitar em Cafarnaum, cidade à beira-mar, para que se cumprisse o que o profeta Isaías anunciara: "Terra de Zabulão e Neftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios. O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz, e aos que jaziam na sombria região da morte, surgiu-lhes uma luz' " (Mt. 4, 13-16; cf. Is. 8, 22; 9, 1).

Jesus começa a ensinar em Cafarnaum; e o conteúdo do seu magistério está contido nas palavras: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mt. 4, 17).

"Arrepender-se" significa exatamente ver "uma luz"!

Ver "uma grande luz"!

A luz, que provém de Deus.

A luz, que é Deus mesmo.

Mediante o Evangelho, anunciado por Cristo, têm cumprimento as palavras proféticas de Isaías: "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz" (Is. 9, 1).

Nas trevas — símbolo de confusão, de erro e também de morte — surge de repente a luz, que é o próprio Filho de Deus, que assumiu a natureza humana; Ele, o Verbo, "a luz verdadeira que a todo o homem ilumina" (Jo. 1, 9).

2. A liturgia deste domingo concentra-se de modo particular nesta luz: "O Senhor é a minha luz e a minha salvação" (Sl. 27/26, 1), escutámos no Salmo responsorial, que é todo um hino, carregado de confiança firme e de esperança indefectível em relação a Deus, que é a luz da nossa salvação.

Imitando a atitude do Salmista, o cristão abandona-se a Deus, com a plena segurança da criança que se lança nos braços firmes e amorosos do próprio pai, porque se encontra segura de encontrar nele o forte defensor: "O Senhor é o baluarte da minha vida, de quem me amedrontarei?" (Sl. 27/26, 1); não só, Deus é a fonte e a garantia da certeza e da coragem reconquistadas por dádiva sua: "O Senhor abriga-me na Sua tenda no dia da adversidade" (ibid., 5); Deus é a fonte da alegria verdadeira, que o cristão prova depois de ter superado, com a graça divina, os perigos do mal, feliz de poder "habitar na casa do Senhor todos os dias da sua vida" (ibid., 4); esta "casa" de seguro refúgio, para o Salmista, era o Templo de Jerusalém, centro religioso do inteiro Povo eleito; para o batizado, ela é a Igreja, templo vivo, construído com pedras vivas (cf. 1 Ped. 2, 5).

Não só, mas a esperança cristã abre-nos para o infinito: o homem é chamado à eterna e inefável visão de Deus! Visão de Deus e presença eterna de Deus, que hão de satisfazer as exigências de felicidade, contidas no coração humano! "A tua face, Senhor, eu procuro... Creio firmemente poder contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos" (Sl. 27/26, 8.13).

Mas aqui, na terra, nós somos peregrinos não na visão, mas na , que nos conduz à tão esperada e sublime visão de Deus!

A vida do homem é apresentada portanto, na meditação cristã do esplêndido Salmo responsorial, como uma corajosa expetativa de Deus!

3. Tudo isto teve o seu início em Jesus Cristo; no facto de que Ele estava no meio dos homens.

Anunciava o Evangelho (cf. Mt. 4, 23).

Curava as doenças e as enfermidades (ibid., 4, 24).

Desse modo Ele deu início a uma nova Comunidade do Povo de Deus: a Comunidade da Luz e da Vida; a Comunidade do Evangelho e da Fé.

Ele deu início a uma Nova Aliança e a um novo Caminho. Deu início a uma nova Expectativa e deu uma nova coragem.

À existência humana deu uma nova certeza.

Com isto Ele começa a plasmar a Igreja; tendo-a em vista chama os Apóstolos a seguirem-n'O: Simão (Pedro), André, Tiago, João (cf. Mt. 4, 18.21); e diz-lhes: "Vinde após Mim e eu farei de vós pescadores de homens" (Mt. 4, 19).

Estas palavras indicam o empenho e a missão da evangelização e também a nova Comunidade dos crentes: a Igreja.

4. A Liturgia de hoje é realizada durante o Oitavário de oração pela união dos cristãos e mostra-nos também a verdade sobre a unidade da Igreja.

A unidade da Igreja tem o seu fundamento na unidade de Cristo mesmo: "Estará Cristo dividido?" (1 Cor. 1, 13), exclama perturbado São Paulo, a quem tinham sido referidas as dolorosas divisões, provocadas por diversas fações existentes na jovem comunidade cristã de Corinto.

O Apóstolo pede aos cristãos daquela Igreja particular que superem e eliminem tais fações, causa de profundas lacerações e de deploráveis discórdias; recomenda "unanimidade" no falar e "perfeita união no mesmo espírito e no mesmo parecer" (1 Cor. 1, 10). Cristo é uno! Cristo não pode ser dividido! Cristo que foi crucificado por todos os homens! É no nome de Cristo que os fiéis foram batizados!

Infelizmente divisões e discórdias ao longo dos séculos dilaceraram dolorosamente a união dos cristãos, provocando também nos não-crentes, perturbações e escândalos, e danificando a causa da propagação do Evangelho.

O Concílio Vaticano II teve como um dos seus intentos o restabelecimento da unidade entre todos os cristãos, empenho que envolve a Igreja toda, quer os Fiéis, quer os Pastores, e cada um segundo as próprias capacidades.

O mesmo Concílio sublinhou com particular insistência que "não há verdadeiro Ecumenismo sem conversão interior. É, que os anseios de unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente (cf. Heb. 4, 23), da abnegação de si mesmo e da libérrima efusão da caridade... Esta conversão do coração e esta santidade de vida, juntamente com as orações particulares e públicas pela unidade dos cristãos, devem ser tidas como a alma de todo o movimento ecuménico" (Decr. Unitatis redintegratio, 7.8).

Nesta Semana de oração pela união dos cristãos, todos os que, espalhados pelo mundo, creem em Cristo são convidados a meditar juntos no tema: "Chamados à unidade pela Cruz do Senhor"; este tema — disse eu a 18 de janeiro corrente — é "central no mistério da salvação; ele recorda o fundamento da nossa fé. Sim, é uma graça, e grande, que os cristãos sejam chamados a estar juntos à sombra e proteção da Cruz — daquela Cruz que para nós é ao mesmo tempo motivo de sofrimento e de alegria, e é símbolo daquele 'escândalo' que para os crentes é verdadeira alegria".

No dia 25 de Janeiro concluirei solenemente o Oitavário de oração na patriarcal Basílica romana dedicada a São Paulo, cujo incansável apostolado e cuja ardente palavra são um exemplo e um estímulo para se viver e confirmar entre nós cristãos aquela plena unidade, pela qual Cristo orou intensamente durante a sua dolorosa Paixão.

5. À Paixão de Jesus foi intimamente unida e inserida a grande Santa, a quem é dedicada a vossa paróquia e de quem vós sois profundamente devotos: Santa Rita de Cássia! 

(...)

Sei quanto os vossos sacerdotes e vós mesmos trabalhastes e continuais a trabalhar para que esta variedade encontre na fé em Cristo o seu centro de serena união e de autêntica fraternidade e solidariedade. Juntos, sacerdotes e leigos, deveis orientar os vossos esforços para a construção de uma Comunidade paroquial que seja cada vez mais viva e vital, segundo as exigências do Evangelho; e além disso, para que seja mais consciente da própria vocação de seguir Jesus e de participar na missão evangelizadora da Igreja.

É este o empenho que desejo dar hoje a todos vós, a cada um de vós, nesta significativa e privilegiada circunstância da minha visita pastoral.

Neste empenho generoso vos ajude e vos sustenha a intercessão de Santa Rita, que na sua vida terrena tanto orou e trabalhou pela Igreja de Deus.

6. Hoje, quando tenho a alegria de poder visitar como Bispo de Roma a vossa paróquia, desejo que este meu serviço constitua verdadeiramente uma continuação daquela missão evangélica que o próprio Cristo iniciou na Galileia; desejo além disso que neste meu serviço se realizem as palavras do Apóstolo: "Cristo enviou-me a pregar o Evangelho, não, porém, com sabedoria de palavras, a fim de se não desvirtuar a Cruz de Cristo (cf. 1 Cor. 1, 17); desejo enfim que este Evangelho se torne para todos nós, para mim e para vós, caros Irmãos e Irmãs da Paróquia de Santa Rita em Torre Angela, "uma grande luz", que nos preparará já desde esta terra para "contemplarmos a bondade do Senhor na terra dos vivos" (Sl. 27/26, 13).

Amén!

Papa S.João Paulo II
(Homilia na paróquia de Santa Rita, 22 de janeiro de 1984)