sábado, 4 de abril de 2026
DOMINGO DE PÁSCOA
DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR
As leituras do
Domingo de Páscoa introduzem-nos no mistério maior da nossa fé, a ressurreição
de Jesus. Mergulhados no imenso Amor de Deus, que Seu Filho nos revela,
percebemos que a partir da ressurreição de Jesus tudo passa a ser diferente, a
vida ganha outro sentido. Sabemos, agora, o quanto somos preciosos para Deus, o
quanto Deus ama cada um de nós, a ponto de sermos redimidos pelo Seu
Único e Muito Amado Filho. Agora podemos branquear a nossa alma n’Ele, que
de braços abertos nos acolhe e estreita contra o Seu peito. Deixemo-nos habitar
por este Amor sem fim, para que também os que connosco convivem, ou se cruzam
nas estradas da vida, possam sentir-se totalmente amados por Deus.
Na 1ª
leitura (At.10,34a,37-43), escutamos Pedro,
completamente entregue à missão que Jesus lhe confiou, proclamando a Boa
Nova de Jesus ressuscitado com todo o desassombro e coragem, que só
quem se sente verdadeiramente amado, pelo Senhor, tem, apesar de saber os
riscos que corria.
“Naqueles dias, Pedro tomou a palavra e disse: «Vós sabeis o que aconteceu
em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou:
Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo
o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava
com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em
Jerusalém; e eles mataram-n'O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao
terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, não a todo o povo, mas às
testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com
Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. Jesus mandou-nos pregar ao povo e
testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É d'Ele
que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe
pelo seu nome a remissão dos pecados».”
Na 2ª leitura (Col. 3, 1-4) S.Paulo reintroduz-nos no nosso batismo,
pelo qual recebemos o Espírito Santo e a garantia da ressurreição. N’Ele somos
exortados a viver conforme Jesus nos ensinou, afeiçoando-nos às coisas do alto
e não às da terra.
“Irmãos: Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde
Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e
não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo
em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos
haveis de manifestar com Ele na glória.”
No Evangelho (Jo 20,1-9) acompanhamos, primeiro Maria Madalena e depois
João e Pedro na ida ao sepulcro, onde estava depositado o corpo de Jesus. As
reações são diferentes, mas, com maior ou menor dificuldade, cada um ao seu
jeito, acabam por acreditar que Jesus ressuscitou. Se, para alguns deles, que
tinham convivido diariamente com Jesus, foi difícil acreditar que Ele tinha
ressuscitado, não admira que, ainda hoje, haja muita gente que não acredite na
ressurreição de Cristo. Que, pelo nosso testemunho e oração, testemunhemos que
Jesus ressuscitou, está vivo, nos habita por inteiro e que o Seu Amor por cada
um de nós não tem fim.
“No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.”
Senhor, eu te louvo e bendigo por nos amares tão infinitamente. A ti o
louvor a glória a honra e o poder pelos séculos sem fim. Ámen
Queridos irmãos
e irmãs, bom dia! E bem-vindos a todos.
A Páscoa de Jesus é um acontecimento que não
pertence a um passado distante, agora sedimentado na tradição como tantos
outros episódios da história humana. A Igreja ensina-nos a fazer memória
atualizante da Ressurreição todos os anos no Domingo de Páscoa e todos os dias
na celebração eucarística, durante a qual se realiza de forma mais plena a
promessa do Senhor ressuscitado: «E eu estarei sempre convosco, até ao fim do
mundo» (Mt 28, 20).
Por isso, o mistério pascal constitui o eixo
da vida do cristão, em torno do qual giram todos os outros acontecimentos.
Podemos dizer, então, sem qualquer irenismo ou sentimentalismo, que todos os
dias são Páscoa. De que maneira?
Vivemos, de hora em hora, tantas experiências
diferentes: dor, sofrimento, tristeza, entrelaçadas com alegria, admiração,
serenidade. Mas, em todas as situações, o coração humano anseia pela plenitude,
por uma felicidade profunda. Uma grande filósofa do século XX, Santa Teresa
Benedita da Cruz, cujo nome de batismo era Edith Stein, que tanto aprofundou o
mistério da pessoa humana, recorda-nos este dinamismo de busca constante da
realização. «O ser humano – escreve ela – anseia sempre por receber novamente o
dom do ser, para poder aproveitar o que o momento lhe dá e, ao mesmo tempo, lhe
tira» (Essere finito ed Essere eterno. Per
una elevazione al senso dell’essere [Ser finito e ser eterno. Ensaio
de uma ascensão ao sentido do ser], Roma
1998, 387). Estamos imersos no limite, mas também nos esforçamos por superá-lo.
O anúncio pascal é a notícia mais bela,
alegre e comovedora que ressoou ao longo da história. É o “Evangelho” por
excelência, que atesta a vitória do amor sobre o pecado e da vida sobre a
morte, e por isso é o único capaz de saciar a demanda de sentido que inquieta a
nossa mente e o nosso coração. O ser humano é animado por um movimento
interior, voltado para um além que o atrai constantemente. Nenhuma realidade
contingente o satisfaz. Tendemos para o infinito e para o eterno. Isso
contrasta com a experiência da morte, antecipada pelos sofrimentos, pelas
perdas, pelos fracassos. Da morte «nullu homo vivente po skampare», canta São
Francisco (cf. Cântico do irmão sol).
Tudo muda graças àquela manhã em que as
mulheres, indo ao sepulcro para ungir o corpo do Senhor, o encontraram vazio. A
pergunta feita pelos Magos que chegaram do Oriente a Jerusalém: «Onde está
aquele que nasceu, o rei dos judeus?» (Mt 2,
1-2), encontra a sua resposta definitiva nas palavras do misterioso jovem
vestido de branco que fala às mulheres na madrugada pascal: «Vós procurais
Jesus Nazareno, o crucificado. Não está aqui. Ressuscitou» (Mc 16, 6).
Desde aquela manhã até hoje, todos os dias,
Jesus terá também este título: o Vivente, como Ele mesmo se apresenta no
Apocalipse: «Eu sou o Primeiro e o Último, o que Vive. Conheci a morte, mas
eis-me aqui vivo pelos séculos dos séculos» (Ap 1,
17-18). E n’Ele temos a certeza de poder encontrar sempre a estrela polar para
orientar a nossa vida de aparente caos, marcada por factos que muitas vezes nos
parecem confusos, inaceitáveis, incompreensíveis: o mal, nas suas múltiplas
facetas, o sofrimento, a morte, eventos que dizem respeito a todos e a cada um.
Meditando o mistério da Ressurreição, encontramos resposta à nossa sede de
significado.
Perante a nossa humanidade frágil, o anúncio
pascal torna-se cuidado e cura, alimenta a esperança diante dos desafios
assustadores que a vida nos apresenta todos os dias, a nível pessoal e
planetário. Na perspetiva da Páscoa, a Via
Crucis transfigura-se em Via
Lucis. Precisamos de saborear e meditar a alegria após a dor, reviver na
nova luz todas as etapas que precederam a Ressurreição.
A Páscoa não elimina a cruz, mas vence-a no duelo prodigioso que mudou a história humana. Também o nosso tempo, marcado por tantas cruzes, invoca o amanhecer da esperança pascal. A Ressurreição de Cristo não é uma ideia, uma teoria, mas o Acontecimento que está na base da fé. Ele, o Ressuscitado, através do Espírito Santo, continua a recordar-no-lo para que possamos ser suas testemunhas também onde a história humana não vê luz no horizonte. A esperança pascal não dececiona. Acreditar verdadeiramente na Páscoa através do caminho diário significa revolucionar a nossa vida, ser transformados para transformar o mundo com a força suave e corajosa da esperança cristã.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Sexta-feira Santa
Do Evangelho segundo São João (19, 28-30)
Depois
disso, Jesus, sabendo que tudo se consumara, para se cumprir totalmente a
Escritura, disse: «Tenho sede!». Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. Então,
ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-lha à
boca. Quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado». E, inclinando
a cabeça, entregou o espírito.
Dos escritos de São Francisco de Assis (2Lfed 11-13: FF 184)
A vontade desse Pai foi que seu Filho, bendito e glorioso, que nos deu e nasceu por nós, se oferecesse por seu próprio sangue, como sacrifício e hóstia na ara da cruz; não para si, por quem foram feitas todas as coisas, mas por nossos pecados, deixando-nos exemplo, para que sigamos suas pegadas.
«Tudo está consumado». Não
significa que tudo acabou, mas que a razão pela qual Vós, ó Jesus, vos
tornastes um de nós chegou ao seu fim: cumpristes a missão que o Pai vos
confiou e agora podeis regressar a Ele e levar-nos convosco.
Doravante, sabemos que, ao
deixarmo-nos atrair por Vós, ao erguermos o nosso olhar para Vós,
encontramo-nos diante d’Aquele que nos reconcilia, que salda a nossa “dívida”,
que nos introduz no Santuário que é a própria vida de Deus. Encontramo-nos
diante d’Aquele que, realizando o fim da encarnação, nos dá a possibilidade de
realizar o sentido profundo da nossa própria vida: tornar-se filhos de Deus,
ser a obra-prima de Deus.
Ajudai-nos, Senhor, a acolher o
dom do Espírito Santo, que derramastes sobre nós já na hora da vossa morte na
cruz, e fazei com que, convosco, também nós possamos passar deste mundo para o
Pai.
Oremos dizendo: Dai-nos vosso Espírito, Senhor.
|
Para que nos
tornemos novas criaturas e vivamos em Deus: |
Dai-nos vosso Espírito, Senhor |
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Para que experimentemos que a nossa dívida está perdoada: |
Dai-nos vosso Espírito, Senhor |
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Para que
possamos clamar «Abba, Pai»: |
Dai-nos vosso Espírito, Senhor |
|
Para que acolhamos cada pessoa como irmão e irmã: |
Dai-nos vosso Espírito, Senhor |
Para que descubramos o sentido último da vida: |
Dai-nos vosso Espírito, Senhor |
sábado, 28 de março de 2026
Tempo Quaresmal -2026- Ano A
Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor
Ao entrarmos na semana, a que os cristãos chamam de, “Semana Maior”, somos
convidados a contemplar, num silêncio mais interior e profundo, os mistérios de
Deus, que em Jesus, o todo inocente, o todo de Deus, assumem, na brutalidade e
injustiça que os textos revelam, até onde vai o Amor de Deus, Uno e Trino, por
cada um de nós.
Na 1ªleitura (Is. 50, 4-7) o autor sagrado
transporta-nos para o evangelho, é o inocento, o cordeiro puro, que é levado ao
matadouro e todo Se entrega. Não resiste, sabe que está inocente, mas por Amor
ao Pai e aos homens, não recua um passo, não desvia o rosto, mas entra numa
comunhão total com o Pai e entrega-nos a todos e a cada um de nós, como oferta
ao Pai. Porque nos amas assim, neste Amor sem fim? Não há explicação, mas
podemos aprender, se nos abrirmos à ação do Espírito Santo, que todo o que, em
Ti, se entrega a Deus nunca está só, porque Tu o habitas. A vida passa a ter
outro sentido!
“O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.”
Na 2ªleitura (Filip 2, 6-11) S.Paulo apresenta-nos
Jesus, o Filho de Deus e não olha a meios termos, traça claramente qual é o
caminho dos que seguem Cristo. Se Jesus, sendo o Filho de Deus assumiu a
condição de servo, nós que somos filhos, no Filho, só temos de aprender com o
nosso irmão mais velho. Não há outra volta a dar, o caminho é o da cruz, mas
por amor. Em Jesus, e só n’Ele, é possível, pois se assim não fosse Ele não
no-lo pediria.
“Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade
com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um
nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se
ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus
Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.”
O texto do evangelho (Mt 26, 14 – 27,66), introduz-nos em duas
multidões diferentes: uma, a dos que vêm a Jerusalém celebrar a Páscoa, gente
simples, temente a Deus, que louva Jesus e o aclama como Filho de David; a
outra, gente importante, socialmente falando, muitos deles fariseus, que querem
acabar com Jesus, querem que Ele morra. E é nesta dialética de morte e de vida,
de festa e de tristeza, que somos conduzidos, sem nunca perder de vista o Amor
maior de Deus que atinge o pico, quando Jesus todo se entrega, por Amor, no
Jardim das Oliveiras. É aí que Jesus, o inocente, que é também homem, num
sofrimento sem paralelo, verdadeiramente se sente só e abandonado e no limite
das Suas forças, todo se entrega por Amor ao Pai, para restabelecer, de uma vez
para sempre, a Aliança entre Deus e a humanidade, por nosso Amor. E esta
entrega completa-se quando, no alto da cruz, atrai todos para Deus. Meu Senhor
e meu Deus, como nos amais! Bendito e louvado sejais pelo vosso eterno amor.
“Naquele tempo, um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os
príncipes dos sacerdotes e disse-lhes:
R «Que estais dispostos a dar-me para vos
entregar Jesus?».
N Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.
E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar.
No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram
ter com Jesus e perguntaram-Lhe:
R «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?».
N Ele respondeu:
J «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda
dizer: O meu tempo está próximo. É
em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’».
N Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha
mandado e prepararam a Páscoa.
Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, declarou:
J «Em verdade vos digo: Um de vós há de entregar-Me».
N Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar-Lhe:
R «Serei eu, Senhor?».
N Jesus respondeu:
J «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que há de entregar-Me. O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser
entregue! Melhor seria para esse
homem não ter nascido».
N Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:
R «Serei eu, Mestre?».
N Respondeu Jesus:
J «Tu o disseste».
N Enquanto comiam, Jesus
tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:
J «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».
N Tomou em seguida um cálice, deu
graças e entregou-lho, dizendo:
J «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados.
Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».
N Cantaram os salmos e
seguiram para o monte das Oliveiras.
N Então, Jesus disse-lhes:
J «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa, como está escrito: ‘Ferirei o
pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho’. Mas, depois de ressuscitar, preceder-vos-ei a caminho
da Galileia».
N Pedro interveio, dizendo:
R «Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei».
N Jesus respondeu-lhe:
J «Em verdade te digo: Esta
mesma noite, antes de o galo cantar, Me
negarás três vezes».
N Pedro disse-lhe:
R «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».
N E o mesmo disseram todos os discípulos.
Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani, e disse aos discípulos:
J «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».
N E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a
angustiar-Se. Disse-lhes então:
J «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo».
N E adiantando-Se um pouco mais, caiu
com o rosto por terra, enquanto orava e dizia:
J «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça
como Eu quero, mas como Tu queres».
N Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os
a dormir e disse a Pedro:
J «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo!
Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».
N De novo Se afastou, pela segunda vez, e orou, dizendo:
J «Meu Pai, se
este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade».
N Voltou novamente e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados de sono. Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:
J «Dormi agora e descansai. Chegou
a hora em que o Filho do homem vai
ser entregue às mãos dos pecadores. Levantai-vos,
vamos. Aproxima-se aquele que Me vai
entregar».
N Ainda Jesus estava a falar, quando
chegou Judas, um dos Doze, e com ele
uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. O traidor tinha-lhes dado este sinal:
R «Aquele que eu beijar, é esse mesmo.
Prendei-O».
N Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:
R «Salve, Mestre!».
N E beijou-O.
Jesus respondeu- lhe:
J «Amigo, a que vieste?».
N Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-n’O.
Um dos que estavam com Jesus levou a mão à
espada, desembainhou-a e feriu um
servo do sumo sacerdote, cortando-lhe
a orelha. Jesus disse-lhe:
J «Mete a tua espada na bainha, pois
todos os que puxarem da espada morrerão à espada. Pensas que não posso rogar a meu Pai que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos? Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim tem de acontecer?».
N Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:
J «Viestes com espadas e varapaus para Me prender como se fosse um salteador! Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar e não Me prendestes... Mas, tudo isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas».
N Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.
N Os que tinham prendido Jesus levaram-n’O
à presença do sumo sacerdote Caifás, onde
os escribas e os anciãos se tinham reunido. Pedro foi-O seguindo de longe, até
ao palácio do sumo sacerdote. Aproximando-se,
entrou e sentou-se com os guardas, para
ver como acabaria tudo aquilo. Entretanto,
os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para O condenarem à morte, mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Por fim, apresentaram-se duas que disseram:
R «Este homem afirmou: ‘Posso
destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias’».
N Então o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:
R «Não respondes nada? Que
dizes ao que depõem contra Ti?».
N Mas Jesus continuava calado.
Disse-Lhe o sumo sacerdote:
R «Eu Te conjuro pelo Deus vivo, que
nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».
N Jesus respondeu-lhe:
J «Tu o disseste. E
Eu digo-vos: vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu».
N Então o sumo sacerdote rasgou as vestes,
dizendo:
R «Blasfemou. Que
necessidade temos de mais testemunhas? Acabais de ouvir a blasfémia. Que
vos parece?».
N Eles responderam:
R «É réu de morte».
N Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas. Outros
esbofeteavam-n’O, dizendo:
R «Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?».
N Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:
R «Tu também estavas com Jesus, o galileu».
N Mas ele negou diante de todos, dizendo:
R «Não sei o que dizes».
N Dirigindo-se para a porta, foi
visto por outra criada que disse aos circunstantes:
R «Este homem estava com Jesus de Nazaré».
N E, de novo, ele negou com juramento:
R «Não conheço tal homem».
N Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro:
R «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia».
N Começou então a dizer imprecações e a jurar:
R «Não conheço tal homem».
N E, imediatamente, um galo cantou.
Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera: «Antes de o galo
cantar, tu Me negarás três vezes». E, saindo, chorou amargamente.
Ao romper da manhã, todos
os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para Lhe darem a morte. Depois de Lhe atarem as mãos, levaram-n’O e
entregaram-n’O ao governador Pilatos. Então
Judas, que entregara Jesus, vendo
que Ele tinha sido condenado, tocado
pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:
R «Pequei, entregando sangue inocente».
N Mas eles replicaram:
R «Que nos importa? É lá contigo».
N Então arremessou as moedas para o santuário, saiu dali e foi-se enforcar. Mas os príncipes dos sacerdotes apanharam as moedas e disseram:
R «Não se podem lançar no tesouro, porque
são preço de sangue».
N E, depois de terem deliberado, compraram
com elas o Campo do Oleiro, que
servia para a sepultura dos estrangeiros.
Por este motivo se tem chamado àquele campo, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue». Cumpriu-se
então o que fora dito pelo profeta: «Tomaram
trinta moedas de prata, preço em que
foi avaliado Aquele que os filhos de
Israel avaliaram e deram-nas pelo
Campo do Oleiro, como o Senhor me
tinha ordenado».
N Entretanto, Jesus foi levado à presença do governador, que lhe perguntou:
R «Tu és o Rei dos judeus?».
N Jesus respondeu:
J «É como dizes».
N Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. Disse-Lhe então Pilatos:
R «Não ouves quantas acusações levantam contra
Ti?».
N Mas Jesus não respondeu coisa alguma, a
ponto de o governador ficar muito admirado. Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha do povo. Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. E, quando eles se reuniram, disse-lhes Pilatos:
R «Qual quereis que vos solte? Barrabás,
ou Jesus, chamado Cristo?».
N Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja.
Enquanto estava sentado no tribunal, a
mulher mandou-lhe dizer:
R «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele».
N Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse
Barrabás e fizesse morrer Jesus. O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:
R «Qual dos dois quereis que vos solte?».
N Eles responderam:
R «Barrabás».
N Disse-lhes Pilatos:
R «E que hei de fazer de Jesus, chamado Cristo?».
N Responderam todos:
R «Seja crucificado».
N Pilatos insistiu:
R «Que mal fez Ele?».
N Mas eles gritavam cada vez mais:
R «Seja crucificado».
N Pilatos, vendo que não conseguia nada e
aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:
R «Estou inocente do sangue deste homem. Isso
é lá convosco».
N E todo o povo respondeu:
R «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».
N Soltou-lhes então Barrabás.
E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O
para ser crucificado. Então os
soldados do governador levaram Jesus
para o pretório e reuniram à volta
d’Ele toda a coorte. Tiraram-Lhe a
roupa e envolveram-n’O num manto
vermelho. Teceram uma coroa de
espinhos e puseram-Lha na cabeça e
colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo:
R «Salve, Rei dos judeus!».
N Depois, cuspiam-Lhe no rosto e,
pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n’O para ser crucificado.
N Ao saírem, encontraram
um homem de Cirene, chamado Simão, e
requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, deram-Lhe a beber vinho misturado
com fel. Mas Jesus, depois de o
provar, não quis beber. Depois de O
terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardá-l’O. Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus». Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:
R «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz».
N Os príncipes dos sacerdotes, juntamente
com os escribas e os anciãos, também
troçavam d’Ele, dizendo:
R «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos
n’Ele. Confiou em Deus: Ele que
O livre agora, se O ama, porque
disse: ‘Eu sou Filho de Deus’».
N Até os salteadores crucificados com Ele O insultavam.
Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz
forte:
J «Eli, Eli, lemá sabactáni?»,
N que quer dizer: «Meu
Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?».
Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:
R «Está a chamar por Elias».
N Um deles correu a tomar uma esponja, embebeu-a
em vinagre, pô-la na ponta duma cana
e deu-Lhe a beber. Mas os outros
disseram:
R «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O».
N E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.
N Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos
que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o
tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram:
R «Este era verdadeiramente Filho de Deus».
N Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a
Galileia, para O servirem. Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Ao cair da tarde, veio um homem rico de
Arimateia, chamado José, que também
se tinha tornado discípulo de Jesus. Foi
ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. E Pilatos ordenou que lho entregassem. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu sepulcro novo, que tinha mandado escavar na rocha. Depois rolou uma grande pedra para a entrada do
sepulcro e retirou-se. Entretanto,
estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro. No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos e disseram-lhe:
R «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia, para que não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’. E a última impostura seria pior do que a primeira».
N Pilatos respondeu:
R «Tendes à vossa disposição a guarda: ide
e guardai-o como entenderdes».
N Eles foram e guardaram o sepulcro, selando
a pedra e pondo a guarda.
Senhor, Tu que és o Filho de Deus e, como homem,
sofreste como ninguém, mas, como Deus tudo podes, salva-nos, lembra-te de nós
no Teu Reino.
Muitos foram
os sofrimentos de Jesus e, sempre que ouvimos a narração da paixão,
penetram-nos na alma. Foram sofrimentos do corpo: pensemos nas
bofetadas, nas pancadas, na flagelação, na coroa de espinhos, na tortura da
cruz. Foram sofrimentos da alma: a traição de Judas, as negações de
Pedro, as condenações religiosa e civil, a zombaria dos guardas, os insultos ao
pé da cruz, a rejeição de tantos, a falência de tudo, o abandono dos
discípulos. E contudo, no meio de todo este sofrimento, restava a Jesus uma
certeza: a proximidade do Pai. Mas agora acontece o impensável; antes de
morrer, clama: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» O abandono
de Jesus.
Estamos
perante o sofrimento mais dilacerante, que é o sofrimento do espírito:
na hora mais trágica, Jesus experimenta o abandono por parte de Deus. Antes
disto, nunca chamara o Pai pelo nome genérico de Deus. Para nos fazer sentir a
intensidade daquele momento, o Evangelho apresenta a frase também em aramaico;
dentre as palavras pronunciadas por Jesus na cruz, esta é a única que nos chega
na língua original. O acontecimento real é o abaixamento extremo, ou seja, o
abandono de seu Pai, o abandono de Deus. Aquilo que o Senhor chega a sofrer por
nosso amor, até temos dificuldade de o entender. Vê o céu fechado, experimenta
o viver no seu amargo limite, o naufrágio da existência, o colapso de toda a
certeza: grita «o porquê dos porquês». «Tu, ó Deus, porquê?»
«Meu Deus,
meu Deus, porque Me abandonaste?» Na Bíblia, o verbo «abandonar» é forte;
aparece em momentos de dor extrema: em amores fracassados, rejeitados e
traídos; em filhos enjeitados e abortados; em situações de repúdio, viuvez e
orfandade; em casamentos gorados, em exclusões que privam dos laços sociais, na
opressão da injustiça e na solidão da doença. Em suma, nas mais drásticas
dilacerações dos vínculos, aplica-se esta palavra: «abandono». Cristo levou
tudo isto para a cruz, ao carregar sobre Si o pecado do mundo. E, no auge, Ele
– Filho unigénito e predileto – experimentou a situação mais estranha no seu
caso: o abandono, a distância de Deus.
E porque foi
tão longe? Por nós; não há outra resposta. Por nós. Irmãos e irmãs,
isto hoje não é um espetáculo. Cada um de nós, ouvindo referir o abandono
sofrido por Jesus, diga para si mesmo: por mim. Este abandono é o
preço que pagou por mim. Fez-Se solidário com cada um de nós até ao ponto
extremo, para estar connosco até ao fim. Experimentou o abandono
para não nos deixar reféns da desolação e permanecer ao nosso lado para sempre.
Fê-lo por mim, por ti, para que, quando eu, tu ou qualquer outro se vir
encurralado à parede, perdido num beco sem saída, precipitado no abismo do abandono,
sorvido no redemoinho de tantos «porquês» sem resposta, saibamos que há uma
esperança: Ele, uma esperança para ti, para mim. Não é o fim, porque Jesus
esteve ali e agora está contigo: Ele que sofreu a distância causada pelo
abandono para acolher no seu amor todas as nossas distâncias. A fim de que
possa cada um de nós dizer: nas minhas quedas (cada um de nós caiu tantas
vezes!), na minha desolação, quando me sinto traído ou traí os outros, quando
me sinto descartado ou descarto os outros, quando me sinto abandonado ou
abandonei os outros, pensemos que Ele foi abandonado, traído, descartado. Nisto
encontramo-Lo a Ele. Quando me sinto transviado e perdido, quando não aguento
mais, Ele está comigo; nos meus tantos porquês sem resposta, Ele está neles.
É assim que o
Senhor nos salva: a partir de dentro dos nossos «porquês». De lá,
descerra a esperança que não desilude. De facto, na cruz,
enquanto experimenta o abandono extremo, não Se deixa cair no desespero – este
é o limite –, mas reza e entrega-Se: grita o seu «porquê» com as palavras de um
Salmo (22/21, 2) e entrega-Se nas mãos do Pai, embora O sinta distante (cf. Lc 23, 46)
ou nem O sinta sequer, porque Se encontra abandonado. No abandono, entrega-Se.
No abandono, continua a amar os Seus que O deixaram sozinho. No abandono,
perdoa aos que O crucificaram (cf. Lc 23,
34).
E assim o abismo dos nossos inúmeros males é imerso num amor
maior, de tal modo que cada uma das nossas separações se transforma em
comunhão.
Irmãos e
irmãs, um amor assim como o de Jesus, que dá tudo por nós, até ao fim, é capaz
de transformar os nossos corações de pedra em corações de carne. É um amor de
piedade, ternura e compaixão. Este é o estilo de Deus: proximidade, compaixão e
ternura. Deus é assim. Cristo, abandonado, impele-nos a procurá-Lo e a amá-Lo
nos abandonados. Porque neles, não temos apenas necessitados, mas temo-Lo a
Ele, Jesus Abandonado, Aquele que nos salvou descendo até ao fundo da nossa
condição humana. Ele está com cada um deles, abandonados até à morte... Penso
naquele homem sem abrigo, alemão, que morreu sob a colunata, sozinho,
abandonado. É Jesus para cada um de nós. Muitos precisam da nossa proximidade,
tantos abandonados. Também eu preciso que Jesus me acaricie e Se aproxime de
mim, e, para isso, vou encontrá-Lo nos abandonados, nas pessoas sozinhas. Ele
deseja que cuidemos dos irmãos e irmãs que mais se parecem com Ele, com Ele no
ato extremo do sofrimento e da solidão. Hoje, queridos irmãos e irmãs, há
tantos «cristos abandonados». Há povos inteiros explorados e deixados à própria
sorte; há pobres que vivem nas encruzilhadas das nossas estradas e cujo olhar
não temos a coragem de fixar; há migrantes, que já não são rostos, mas números;
há reclusos rejeitados, pessoas catalogadas como problema. Mas há também muitos
cristos abandonados invisíveis, escondidos, que são descartados de forma
«elegante»: crianças impedidas de nascer, idosos deixados sozinhos – podem
porventura ser o teu pai, a tua mãe, o avô, a avó, abandonados nos lares de
terceira idade –, doentes não visitados, pessoas portadoras de deficiência
ignoradas, jovens que sentem dentro um grande vazio sem que ninguém escute
verdadeiramente o seu grito de dor. E não encontram outra estrada senão o
suicídio. Os abandonados de hoje. Os cristos de hoje.
Jesus
abandonado pede-nos para termos olhos e coração para os abandonados. Para nós,
discípulos do Abandonado, ninguém pode ser marginalizado, ninguém pode ser
deixado a si mesmo; porque – recordemo-lo – as pessoas rejeitadas e excluídas
são ícones vivos de Cristo, recordam-nos o seu amor louco, o seu abandono que
nos salva de toda a solidão e desolação. Irmãos e irmãs, peçamos hoje esta
graça: saber amar Jesus abandonado e saber amar Jesus em cada abandonado, em
cada abandonada. Peçamos a graça de saber ver, saber reconhecer o Senhor que
continua a clamar neles. Não permitamos que a sua voz se perca no silêncio
ensurdecedor da indiferença. Não fomos deixados sozinhos por Deus; cuidemos de
quem é deixado só. Então, só então, faremos nossos os desejos e os sentimentos
d’Aquele que por nós «Se esvaziou a Si mesmo» (Flp 2, 7). Esvaziou-se
totalmente por nós.
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