Tempo
Quaresmal -2026- Ano A
Domingo IV da Quaresma
Em momentos tão “escuros” como os que agora atravessamos, as leituras deste
domingo guiam-nos através da Luz, que é o Senhor Jesus. Bem precisamos da Sua
luz nestes tempos conturbados! Se, na semana passada, Jesus nos matou a sede,
hoje, quando se faz encontro com cada um de nós, revela-se-nos como a Luz, que
nos ilumina e conduz até Deus. Só o Senhor é a Luz, só Ele nos pode guiar.
Deixemo-nos iluminar por Ele.
Na 1ªleitura (1 Sam 16, 1b.6-7.10-13a) o profeta Samuel deixa-se guiar por
Deus na escolha do ungido do Senhor, David. Só o Senhor sabe quem é cada um de
nós, no mais íntimo do seu coração, no mais profundo da sua alma, não olhando apenas para o nosso aspeto exterior. Mesmo assim, sabendo do que somos capazes,
para o bem e para o mal, ama-nos infinitamente e escolhe-nos no Amor, para O
servirmos e n’Ele estarmos ao serviço dos outros.
“Naqueles dias, o Senhor disse a Samuel: «Enche a âmbula de óleo e parte.
Vou enviar-te a Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos».
Quando chegou, Samuel viu Eliab e pensou consigo: «Certamente é este o ungido
do Senhor». Mas o Senhor disse a Samuel: «Não te impressiones com o seu belo
aspeto, nem com a sua elevada estatura, pois não foi esse que Eu escolhi. Deus
não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». Jessé
fez passar os sete filhos diante de Samuel, mas Samuel declarou-lhe: «O Senhor
não escolheu nenhum destes». E perguntou a Jessé: «Estão aqui todos os teus
filhos?». Jessé respondeu-lhe: «Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o
rebanho». Samuel ordenou: «Manda-o chamar, porque não nos sentaremos à mesa,
enquanto ele não chegar». Então Jessé mandou-o chamar: era ruivo, de belos
olhos e agradável presença. O Senhor disse a Samuel: «Levanta-te e unge-o,
porque é este mesmo». Samuel pegou na âmbula do óleo e ungiu-o no meio dos
irmãos. Daquele dia em diante, o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.”
Na 2ªleitura (Ef 5, 8-14) S.Paulo convida-nos a
vivermos como filhos da Luz e a deixarmos que a Luz de Cristo, por nós recebida
no Batismo, realize em cada um de nós obras da Luz. Desafia-nos a despertamos e
a deixarmos que , nestes dias tão difíceis e negros, a Luz de Cristo ilumine o mundo
em que vivemos.
“Irmãos: Outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como
filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade.
Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor. Não tomeis parte nas obras das
trevas, que nada trazem de bom; tratai antes de as denunciar abertamente,
porque o que eles fazem em segredo até é vergonhoso dizê-lo. Mas todas as
coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz, e tudo o que assim
se manifesta torna-se luz. É por isso que se diz: «Desperta, tu que dormes;
levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti».”
No evangelho (Jo 9, 1-41) Jesus, perante os nosso
olhos, realiza obras de Amor, obras de Luz: cura um cego de nascença. Ao longo
deste evangelho, vemos todo um processo de crescimento, na aproximação e
entrega a Deus, por parte deste homem: primeiro, é a cura física, com a perplexidade
natural face ao acontecimento; depois, é a força do testemunho perante os
fariseus - impressionante o desassombro com que fala do que aconteceu e desafia
os "doutores da lei"; por fim, um ato de fé total, reconhecendo Jesus
como o Filho de Deus - é o único culminar possível, pois este homem já estava
todo entregue a Deus e através dele é o Espírito Santo que se manifesta.
Deixemo-nos encontrar por esta Luz de Amor, que é o Senhor Jesus e abramos-lhe
o nosso coração, para com Ele progredirmos na fé.
“Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. Os
discípulos perguntaram-Lhe: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele
ou os seus pais?». Jesus respondeu-lhes: «Isso não tem nada que ver com os
pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as
obras de Deus. É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me
enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto Eu estou no
mundo, sou a luz do mundo». Dito isto, cuspiu em terra, fez com a saliva um
pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: «Vai lavar-te à
piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que antes o viam a mendigar: «Não é este
o que costumava estar sentado a pedir esmola?». Uns diziam: «É ele». Outros
afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
Perguntaram-lhe então: «Como foi que se abriram os teus olhos?». Ele respondeu:
«Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e
disse-me: ‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’. Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?». O homem respondeu: «Não sei». Levaram
aos fariseus o que tinha sido cego. Era sábado esse dia em que Jesus fizera
lodo e lhe tinha aberto os olhos. Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
depois fui lavar-me e agora vejo». Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não
vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um
pecador fazer tais milagres?». E havia desacordo entre eles. Perguntaram então
novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?». O homem
respondeu: «É um profeta». Os judeus não quiseram acreditar que ele tinha sido
cego e começara a ver. Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes: «É este
o vosso filho? É verdade que nasceu cego? Como é que ele agora vê?». Os pais
responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não
sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já
tem idade para responder; perguntai-lho vós». Foi por medo que eles deram esta
resposta, porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga quem
reconhecesse que Jesus era o Messias. Por isso é que disseram: «Ele já tem
idade para responder; perguntai-lho vós». Os judeus chamaram outra vez o que
tinha sido cego e disseram-lhe: «Dá glória a Deus. Nós sabemos que esse homem é
pecador». Ele respondeu: «Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e
agora vejo». Perguntaram-lhe então: «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?».
O homem replicou: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo
novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?». Então insultaram-no e
disseram-lhe: «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés. Nós
sabemos que Deus falou a Moisés; mas este, nem sabemos de onde é». O homem
respondeu-lhes: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a
verdade é que Ele me deu a vista. Ora, nós sabemos que Deus não escuta os
pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. Nunca se
ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se Ele não
viesse de Deus, nada podia fazer». Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste
inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?». E expulsaram-no. Jesus soube
que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do
homem?». Ele respondeu-Lhe: «Quem é, Senhor, para que eu acredite n'Ele?».
Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é quem está a falar contigo». O homem prostrou-se
diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor». Então Jesus disse: «Eu vim a
este mundo para exercer um juízo: os que não veem ficarão a ver; os que veem
ficarão cegos». Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto,
perguntaram-Lhe: «Nós também somos cegos?». Respondeu-lhes Jesus: «Se fôsseis
cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado
permanece».”
Senhor, ilumina-me com a Tua Luz. Converte-me Senhor.
Prezados
irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje o
Evangelho mostra-nos Jesus que restitui a vista a um homem cego de nascença
(cf. Jo 9, 1-41). Mas este prodígio é mal recebido por várias
pessoas e grupos. Vejamos nos pormenores.
Mas primeiro
gostaria de vos dizer: hoje, pegai no Evangelho de João e lede este milagre de
Jesus, é muito bonito o modo como João o narra. Capítulo 9, lê-se em dois
minutos. Mostra o modo de proceder de Jesus e do coração humano: o coração
humano bondoso, o coração humano tíbio, o coração humano medroso, o coração
humano corajoso. Capítulo 9 do Evangelho de João. Lede-o hoje, far-vos-á muito
bem! E como recebem as pessoas este sinal?
Em primeiro
lugar, há os discípulos de Jesus, que diante do homem cego de nascença acabam
no mexerico: interrogam-se se a culpa é dos pais ou dele (cf. v. 2). Procuram
um culpado; e nós caímos muitas vezes nisto, que é muito cómodo: procurar um
culpado, em vez de nos colocarmos interrogações desafiadoras na vida. E hoje,
podemos questionar-nos: o que significa para nós a presença desta pessoa, que
nos pede? Depois da cura, as reações aumentam. A primeira é a dos vizinhos, que
são céticos: «Este homem sempre foi cego: não é possível que agora veja, não
pode ser ele, é outro»: ceticismo (cf. vv. 8-9). Para eles isto é inaceitável,
é melhor deixar tudo como era antes (cf. v. 16) e não se intrometer neste
problema. Têm medo, temem as autoridades religiosas e não se pronunciam (cf.
vv. 18-21). Em todas estas reações, emergem corações fechados perante o sinal
de Jesus, por vários motivos: porque procuram um culpado, porque não sabem
maravilhar-se, porque não querem mudar, porque são impedidos pelo medo. E hoje muitas
situações são parecidas com esta. Diante de algo que é precisamente uma
mensagem de testemunho de uma pessoa, é uma mensagem de Jesus, caímos nisto:
procuramos outra explicação, não queremos mudar, procuramos uma saída mais
elegante do que aceitar a verdade.
O único que
reage bem é o cego: feliz por ver, ele testemunha do modo mais simples o que
lhe aconteceu: «Eu era cego e agora vejo» (v. 25). Diz a verdade. Antes, era
obrigado a pedir esmola para viver e sofria os preconceitos do povo: «É pobre e
cego de nascença, deve sofrer, deve pagar pelos seus pecados ou pelos pecados
dos seus antepassados». Agora, livre no corpo e no espírito, dá testemunho de
Jesus: nada inventa, nada esconde. «Eu era cego e agora vejo». Não tem medo do
que os outros dirão: já conheceu o gosto amargo da marginalização, durante a
sua vida inteira; já sentiu em si a indiferença, o desprezo dos transeuntes,
daqueles que o consideravam um descarte da sociedade, no máximo útil para o
pietismo de algumas esmolas. Agora, curado, já não teme essas atitudes de
desprezo, porque Jesus lhe deu plena dignidade. E isto é claro, como sempre
acontece: quando Jesus no cura, restitui-nos a dignidade, a dignidade da cura
de Jesus, plena dignidade, uma dignidade que vem do fundo do coração, que
abrange a vida inteira; e Ele, no sábado, diante de todos, libertou-o e
restituiu-lhe a vista, sem lhe pedir nada, nem sequer um agradecimento, e o
homem dá testemunho disto. Esta é a dignidade de uma pessoa nobre, de uma
pessoa que sabe que foi curada, e restabelece-se, renasce; o renascimento na
vida, de que se falava hoje em “A Sua Immagine”: renascer!
Irmãos, irmãs,
com todos estes personagens o Evangelho de hoje coloca-nos também a nós no meio
da cena, de modo que nos perguntamos: que posição assumimos, o que teríamos
dito em tal situação? E acima de tudo, o que fazemos hoje? Como o cego, sabemos
ver o bem e estar gratos pelos dons que recebemos? Pergunto-me: como é a minha
dignidade? Como é a tua dignidade? Somos testemunhas de Jesus, ou espalhamos
críticas e suspeitas? Somos livres perante os preconceitos, ou associamo-nos
aos que espalham negativismo e mexericos? Estamos felizes por dizer que Jesus
nos ama, nos salva ou, como os pais do homem cego de nascença, nos deixamos
aprisionar pelo medo do que pensarão as pessoas? Os tíbios de coração, que não
aceitam a verdade e não têm a coragem de dizer: “Não, isto é assim”. E ainda,
como enfrentamos as dificuldades e a indiferença dos outros? Como acolhemos as
pessoas que têm muitos limites na vida? Quer sejam físicas, como este cego; ou
sociais, como os mendigos que encontramos na rua? Vemos isto como uma maldição,
ou como uma ocasião para nos aproximarmos deles com amor?
Irmãos e irmãs, hoje peçamos a graça de nos maravilharmos todos os dias pelos dons de Deus e de ver as várias circunstâncias da vida, até as mais difíceis de aceitar, como ocasiões para praticar o bem, como Jesus fez com o cego. Que Nossa Senhora nos ajude nisto, com São José, homem justo e fiel.



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