sábado, 6 de dezembro de 2025

DOMINGO II DO ADVENTO -2025- Ano A 

Se na 1ª semana do advento fomos convidados a estar vigilantes, nas leituras de hoje somos desafiados a arrependermo-nos e à conversão de coração. Todas as leituras nos convidam ao arrependimento, mas este apelo é mais sentido, quando é um homem de coração sincero e radical, como S. João Batista, que no-lo propõe.

Na 1ªleitura (Is 11, 1-10) Isaías profetiza a vinda de um rebento da tribo de Jessé. Com esse rebento iniciar-se-á um mundo novo, um reino de paz e justiça, de harmonia e de coexistência pacífica entre o “lobo e o cordeiro”. E, como veremos no evangelho, em Jesus realizou-se a profecia de Isaías. 

“Naquele dia, sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus. Animado assim do temor de Deus, não julgará segundo as aparências, nem decidirá pelo que ouvir dizer. Julgará os infelizes com justiça e com sentenças retas os humildes do povo. Com o chicote da sua palavra atingirá o violento e com o sopro dos seus lábios exterminará o ímpio. A justiça será a faixa dos seus rins e a lealdade a cintura dos seus flancos. O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. A vitela e a ursa pastarão juntamente, suas crias dormirão lado a lado; e o leão comerá feno como o boi. A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora. Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas enchem o leito do mar. Nesse dia, a raiz de Jessé surgirá como bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa.”

Na 2ªleitura (Rom 15, 4-9) S. Paulo, continuando a mesma linha da 1ªleitura, também nos lança um desafio: “Acolhei-vos, portanto, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus.”

“Irmãos: Tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança. O Deus da paciência e da consolação vos conceda que alimenteis os mesmos sentimentos uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que, numa só alma e com uma só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Acolhei-vos, portanto, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus. Pois Eu vos digo que Cristo Se fez servidor dos judeus, para mostrar a fidelidade de Deus e confirmar as promessas feitas aos nossos antepassados. Por sua vez, os gentios dão glória a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: «Por isso eu Vos bendirei entre as nações e cantarei a glória do vosso nome».”

No evangelho (Mt 3, 1-12) é S.João Batista quem nos faz um apelo direto ao arrependimento, à conversão, para assim acolhermos verdadeiramente o Menino Deus que vem ao nosso encontro. Escutemos João, com as portas do nosso coração abertas de par em par, para Jesus entrar e nos encher com o Seu Espírito.

“Naqueles dias, apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, dizendo: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». João tinha uma veste tecida com pelos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu batismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Praticai ações que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores. Por isso, toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu batizo-vos com água, para vos levar ao arrependimento. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Tem a pá na sua mão: há de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro. Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».”

Senhor, que o meu coração se abra à ação da Tua Graça e se deixe amar por Ti. Converte-me Senhor.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia, feliz domingo!

Hoje, segundo domingo do Advento, o Evangelho da Liturgia apresenta-nos a figura de João Batista. O texto diz que «trazia um traje de pelos de camelo», que se «alimentava de gafanhotos e mel silvestre» (Mt 3, 4) e que convidava todos à conversão: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus» (v. 2). Ele pregou a proximidade do Reino. Em suma, um homem austero e radical, que à primeira vista pode parecer um pouco duro e incutir algum temor. Mas, então perguntemo-nos: por que a Igreja o propõe todos os anos como o principal companheiro de viagem durante este tempo de Advento? O que está por detrás da sua severidade, por detrás da sua aparente dureza? Qual é o segredo de João? Qual é a mensagem que a Igreja nos transmite hoje com João?

Na realidade, o Batista, mais do que um homem duro, é um homem alérgico à duplicidade. Por exemplo, quando fariseus e saduceus, conhecidos pela sua hipocrisia, se aproximam dele, a sua “reação alérgica” é muito forte! De facto, alguns deles, provavelmente vieram ter com ele por curiosidade ou oportunismo, pois João tinha-se tornado muito popular. Aqueles fariseus e saduceus sentiam-se justos e, perante o apelo do Batista, argumentavam dizendo: «Temos por pai a Abraão» (v. 9). Assim, entre duplicidades e presunção, não aproveitaram a ocasião de graça, a oportunidade de começar uma vida nova; estavam fechados na presunção de serem justos. Por isso João diz-lhes: «Produzi frutos dignos de arrependimento!», (v. 8). É um grito de amor, como o de um pai que vê o filho arruinado e lhe diz: “Não deites fora a tua vida!”. Com efeito, prezados irmãos e irmãs, a hipocrisia é o maior perigo, porque pode arruinar também as realidades mais sagradas. A hipocrisia é um grave perigo! É por isso que o Batista - como depois também Jesus - é duro com os hipócritas. Podemos ler, por exemplo, o capítulo 23 de Mateus, onde Jesus fala tão energicamente aos hipócritas da época! E por que fazem isto o Batista e também Jesus? Para os despertar. Mas, aqueles que se sentiam pecadores «iam ter com ele e eram por ele batizados» (v. 5). É assim: para acolher Deus, não importa a habilidade, mas a humildade. Esta é a maneira de acolher Deus, não a bravura: “somos fortes, somos um grande povo...”, não, a humildade: “sou um pecador”; mas não em abstrato, não, “por isto, isso e aquilo”, cada um de nós deve confessar, antes de mais a si mesmo, os próprios pecados, as próprias falhas, as próprias hipocrisias; devemos descer do pedestal e mergulhar na água do arrependimento.

Estimados irmãos e irmãs, João, com as suas “reações alérgicas”, faz-nos refletir. Não somos por vezes também um pouco como aqueles fariseus? Talvez olhemos para os outros de cima para baixo, pensando que somos melhores do que eles, que temos a nossa vida nas mãos, que não precisamos todos os dias de Deus, da Igreja, dos irmãos. Esquecemos que existe apenas um caso em que é lícito olhar para o outro de cima para baixo: quando é necessário ajudá-lo a levantar-se; o único caso, os outros não são lícitos. O Advento é um tempo de graça para tirar as nossas máscaras - cada um de nós as tem - e pôr-se na fila com os humildes; para nos libertarmos da presunção de acreditarmos que somos autossuficientes, para irmos confessar os nossos pecados, os escondidos, e receber o perdão de Deus, para pedirmos desculpa a quantos ofendemos. Começa assim uma nova vida. E o caminho é apenas um, o da humildade: purificar-nos do sentido de superioridade, do formalismo e da hipocrisia, para ver os outros como irmãos e irmãs, pecadores como nós, e ver em Jesus o Salvador que vem por nós - não pelos outros, por nós - como somos, com as nossas pobrezas, misérias e defeitos, sobretudo com a nossa necessidade de sermos levantados, perdoados e salvos.

E lembremo-nos de mais uma coisa: com Jesus há sempre uma oportunidade de recomeçar: nunca é tarde demais, há sempre a possibilidade de recomeçar. Tende coragem, Ele está próximo de nós e este é um tempo de conversão. Cada um pode pensar: “Tenho esta situação aqui dentro, este problema que me faz envergonhar...”. Mas Jesus está ao teu lado, recomeça, há sempre a possibilidade de dar um passo a mais. Ele espera por nós e nunca se cansa de nós. Nunca se cansa! E nós somos tediosos, mas Ele nunca se cansa. Ouçamos o apelo de João Batista para voltarmos a Deus, e não deixemos passar este Advento como os dias do calendário, pois este é um tempo de graça, de graça também para nós, agora, aqui! Que Maria, a humilde serva do Senhor, nos ajude a encontrar a Ele e aos irmãos no caminho da humildade, que é a única que nos fará ir em frente.

Papa Francisco
(Angelus, 4 de dezembro de 2022)

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