Natal do Senhor – 2025
Missa da Noite
Hoje, estamos
em festa, pois a Igreja celebra o nascimento do Menino Deus. Hoje, mais do que
nunca, o nosso coração alegra-se porque o Filho de Deus habita entre nós, mora
no nosso coração, habita todo o nosso ser, corpo e alma. Sim, esta é a razão da
nossa festa, da nossa alegria, pois Jesus veio habitar entre nós, melhor ainda,
em cada um de nós, para nos elevar à dignidade de filhos de Deus. N’Ele, Seu
Único e muito amado Filho, fomos conquistados para Deus, tornados também nós
Seus filhos.
Na 1ªleitura ((Is 9, 2-7(1-6)) Isaías anuncia que é Deus
quem faz brilhar a luz nas trevas e aumentar a alegria dos povos. É Ele que
vence as guerras, de ontem e de hoje, n’Aquele Menino que fez nascer para nós e que
continua a habitar-nos: o príncipe da Paz. Deus, em Jesus, Seu Filho, vem libertar,
resgatar toda a humanidade, por isso rejubilamos de alegria.
“O povo que andava nas trevas viu
uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou
a brilhar. Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento.
Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como
exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo
que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do
opressor. Todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue
serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. Porque um menino nasceu
para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado
«Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». O seu poder
será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino,
para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para
sempre. Assim o fará o Senhor do Universo.”
Na 2ªleitura (Tito 2, 11-14) S.Paulo leva-nos a
contemplar o Mistério do Amor que veio habitar no meio dos homens, Jesus
Cristo, o Filho de Deus. Aponta-nos o caminho a seguir para podermos, também
nós, n’Ele alcançar a bem-aventurança eterna.
“Caríssimo: Manifestou-se a graça
de Deus, fonte de salvação para todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à
impiedade e aos desejos mundanos, para vivermos, no tempo presente, com
temperança, justiça e piedade, aguardando a ditosa esperança e a manifestação
da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que Se entregou por
nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e preparar para Si mesmo um povo
purificado, zeloso das boas obras.”
No evangelho (Lc 2, 1-14) S.Lucas, salienta especialmente alguns detalhes do nascimento de Jesus como: ser envolto em panos; deitado numa manjedoura;
o anúncio celestial do nascimento de Jesus aos pastores. Com os pormenores descritos, Lucas ajuda-nos a contemplar o mistério do Amor de Deus por
cada ser criado. Neste Menino, cujo nascimento hoje celebramos, fomos gerados
para Deus, somos filhos no Filho. Quão infinito é o amor de Deus por cada
um de nós!
“Naqueles dias, saiu um decreto de
César Augusto, para ser recenseada toda a terra. Este primeiro recenseamento efetuou-se
quando Quirino era governador da Síria. Todos se foram recensear, cada um à sua
cidade. José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade
de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, a fim de
se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. Enquanto ali se
encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito.
Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para
eles na hospedaria. Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e
guardavam de noite os rebanhos. O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória
do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. Disse-lhes o Anjo: «Não
temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos
hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de
sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa
manjedoura». Imediatamente juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste,
que louvava a Deus, dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos
homens por Ele amados».
Glória a Deus
nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade. Bendito e louvado seja o
Senhor, hoje e sempre, pelos séculos dos séculos sem fim. Ámen.
Que o Senhor Jesus, nascido da
Virgem Maria, traga a todos vós o amor de Deus, fonte de confiança e esperança,
juntamente com o dom da paz, que os anjos anunciaram aos pastores de Belém:
«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado» (Lc 2,
14).
Neste dia de festa, voltemos o
olhar para Belém. O Senhor vem ao mundo numa gruta e é recostado numa
manjedoura para os animais, porque os seus pais não conseguiram encontrar
hospedagem, apesar de estar quase na hora de Maria dar à luz. Vem entre nós no silêncio
e escuridão da noite, porque o Verbo de Deus não precisa de holofotes nem do
clamor das vozes humanas. Ele mesmo é a Palavra que dá sentido à existência.
Ele é a luz que ilumina o caminho. «O Verbo era a Luz verdadeira que, ao vir ao
mundo – diz o Evangelho –, a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9).
Jesus nasce no meio de nós, é Deus-connosco.
Vem para acompanhar a nossa vida quotidiana, partilhar tudo connosco, alegrias
e amarguras, esperanças e inquietações. Vem como menino indefeso. Nasce ao
frio, pobre entre os pobres. Carecido de tudo, bate à porta do nosso coração
para encontrar calor e abrigo.
Como os pastores de Belém,
deixemo-nos envolver pela luz e saiamos para ver o sinal que Deus nos deu.
Vençamos o torpor do sono espiritual e as falsas imagens da festa que fazem
esquecer Quem é o Festejado. Saiamos do tumulto que anestesia o coração induzindo-nos
mais a preparar ornamentações e prendas do que a contemplar o Evento: o Filho
de Deus nascido para nós.
Irmãos, irmãs, voltemo-nos para
Belém, onde ressoa o primeiro choro do Príncipe da paz. Sim, porque Ele mesmo –
Jesus – é a nossa paz: aquela paz que o mundo não se pode dar a si
mesmo e Deus Pai concedeu-a à humanidade enviando o seu Filho ao mundo. São
Leão Magno tem uma frase que, na sua concisão latina, bem resume a mensagem
deste dia: «Natalis Domini, Natalis est pacis – o Natal do Senhor é
o Natal da paz» (Sermão 26, 5).
Jesus Cristo é também o
caminho da paz. Com a sua encarnação, paixão, morte e ressurreição, abriu a
passagem de um mundo fechado, oprimido pelas trevas da inimizade e da guerra,
para um mundo aberto, livre para viver na fraternidade e na paz. Irmãos e
irmãs, sigamos este caminho! Mas, para o podermos fazer, para sermos capazes de
seguir os passos de Jesus, devemos despojar-nos dos pesos que nos enredam e
bloqueiam.
E quais são esses pesos? Que vem a
ser este entulho que nos sobrecarrega? Trata-se das mesmas paixões negativas
que impediram o rei Herodes e a sua corte de reconhecer e acolher o nascimento
de Jesus, isto é, o apego ao poder e ao dinheiro, o orgulho, a hipocrisia, a
mentira. Estes pesos impedem de ir a Belém, excluem da graça do Natal e fecham
o acesso ao caminho da paz. Na realidade, é com tristeza que devemos constatar
como, enquanto nos é dado o Príncipe da paz, ventos de guerra continuam a
soprar, gelados, sobre a humanidade.
Se queremos que seja Natal, o Natal
de Jesus e da paz, voltemos o olhar para Belém e fixemo-lo no rosto do Menino
que nasceu para nós! E, naquele rostinho inocente, reconheçamos o das crianças
que, em todas as partes do mundo, anseiam pela paz.
O nosso olhar se encha com os
rostos dos irmãos e irmãs ucranianos que vivem este Natal na escuridão, ao frio
ou longe das suas casas, devido à destruição causada por tantos meses de guerra. O
Senhor nos torne disponíveis e prontos para gestos concretos de solidariedade a
fim de ajudar todos os que sofrem, e ilumine as mentes de quantos têm o poder
de fazer calar as armas e pôr termo imediato a esta guerra insensata!
Infelizmente, prefere-se ouvir outras razões, ditadas pelas lógicas do mundo.
Mas a voz do Menino, quem a escuta?
O nosso tempo vive uma grave carestia
de paz também noutras regiões, noutros teatros desta terceira guerra
mundial. Pensamos na Síria, ainda martirizada por um conflito que passou para
segundo plano, mas não terminou; e pensamos na Terra Santa, onde nos últimos
meses aumentaram as violências e os confrontos, com mortos e feridos.
Supliquemos ao Senhor para que lá, na terra que O viu nascer, retomem o diálogo
e a aposta na confiança mútua entre palestinianos e israelitas. Jesus Menino
ampare as comunidades cristãs que vivem em todo o Médio Oriente, para que se
possa viver, em cada um daqueles países, a beleza da convivência fraterna entre
pessoas que pertencem a crenças diferentes. De modo particular ajude o Líbano
para que possa, finalmente, erguer-se com o apoio da Comunidade Internacional e
com a força da fraternidade e da solidariedade. A luz de Cristo ilumine a
região do Sahel, onde a convivência pacífica entre povos e tradições é
transtornada por confrontos e violências. Encaminhe para uma trégua duradoura
no Iémen e para a reconciliação no Myanmar e no Irão, para que cesse
completamente o derramamento de sangue. E, no continente americano, inspire as
autoridades políticas e todas as pessoas de boa vontade a trabalharem para
pacificar as tensões políticas e sociais que afetam vários países; penso de
modo particular na população haitiana, que está a sofrer há tanto tempo.
Neste dia, em que sabe bem
encontrar-se ao redor da mesa recheada, não desviemos o olhar de Belém – que
significa «casa do pão» – e pensemos nas pessoas que padecem fome, sobretudo as
crianças, enquanto diariamente se desperdiçam quantidades imensas de alimentos
e se gastam tantos recursos em armas. A guerra na Ucrânia agravou ainda mais a
situação, deixando populações inteiras em risco de carestia, especialmente no
Afeganistão e nos países do Corno de África. Toda a guerra – bem o sabemos –
provoca fome e serve-se do próprio alimento como arma, ao impedir a sua
distribuição às populações já atribuladas. Neste dia, aprendendo com o Príncipe
da paz, empenhemo-nos todos – a começar pelos que têm responsabilidades
políticas – para que o alimento seja só instrumento de paz. Enquanto saboreamos
a alegria de nos reunirmos com os nossos, pensemos nas famílias mais
atribuladas pela vida e naquelas que, neste tempo de crise económica,
atravessam dificuldades por causa do desemprego e carecem do necessário para
viver.
Queridos irmãos e irmãs, hoje como
há dois mil anos Jesus, a luz verdadeira, vem a um mundo achacado de
indiferença – uma feia doença! – que não O acolhe (cf. Jo 1,
11); antes, rejeita-O como acontece a muitos estrangeiros, ou ignora-O como
fazemos nós muitas vezes com os pobres. Hoje não nos esqueçamos dos numerosos
deslocados e refugiados que batem à nossa porta à procura de conforto, calor e
alimento. Não nos esqueçamos dos marginalizados, das pessoas sós, dos órfãos e
dos idosos – a sabedoria dum povo – que correm o risco de acabar descartados,
dos presos que olhamos apenas sob o prisma dos seus erros e não como seres
humanos.
Irmãos e irmãs, Belém mostra-nos a
simplicidade de Deus, que Se revela, não aos sábios e entendidos, mas aos
pequeninos, a quantos têm o coração puro e aberto (cf. Mt 11,
25). Como os pastores, vamos também nós sem demora e deixemo-nos maravilhar
pelo Evento incrível de Deus que Se faz homem para nossa salvação. Aquele que é
fonte de todo o bem faz-Se pobre e
pede de esmola a nossa pobre humanidade. Deixemo-nos comover pelo amor de Deus
e sigamos Jesus, que Se despojou da sua glória para nos tornar participantes da
sua plenitude.
Feliz Natal para todos!

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