quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

 SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS  -2026- Ano A

E o Novo Ano chegou! Eis-nos no primeiro dia de 2026! Neste dia a Igreja Católica celebra a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus e também o Dia Mundial da Paz.

As leituras de hoje são, por um lado, um convite a colocar tudo o que somos e temos, nas mãos de Deus, invocando a Suas Bênçãos sobre nós e sobre toda a Humanidade; por outro lado, são também um desafio a confiar e a acreditar que, sejam quais forem as circunstâncias que formos chamados a viver, ao longo do novo ano, na nossa vida, Deus nunca, mas nunca mesmo, nos deixa sós, pois caminhará sempre connosco; são ainda um estímulo para, a exemplo de Maria, irmos aprendendo a contemplar Deus em todas as situações.

Na primeira leitura (Num 6, 22-27) pedimos ao Senhor que envie sobre nós (humanidade inteira) as suas bênçãos e bem precisamos que Ele nos abençoe, pois nos dias que correm (e em todos os tempos!) só com a Sua Graça podemos viver de acordo com a Sua vontade.

“O Senhor disse a Moisés: «Fala a Aarão e aos seus filhos e diz-lhes: Assim abençoareis os filhos de Israel, dizendo: ‘O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz’. Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os abençoarei».”

Na segunda leitura (Gl 4,4-7) Deus mais do que nos abençoa, perfilha-nos, faz-nos Seus herdeiros, filhos no Filho, nascido d'Aquela que, desde sempre, o Senhor predestinou para a Mãe de Deus e nossa Mãe. Louvado sejas hoje e sempre, pelos séculos em fim. Ámen.

“Irmãos: Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adotivos. E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «Abá! Pai!». Assim, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, também és herdeiro, por graça de Deus.”

No Evangelho (Lc 2, 16-21) somos convidados, por S.Lucas, a louvar e dar graças a Deus pelo milagre que se desenrola perante os nossos olhos: Deus, na pessoa do Seu amado Filho, fez-se um de nós, habita-nos. Não há palavras para explicar tão grande mistério de Amor. Façamos como os pastores, louvemos e dêmos glória a Deus pelo Seu Amor infinito por cada um de nós. Confiemos, contemplemos Deus Amor, e peçamos a Maria que nos guie no nosso caminho para Deus. 

“Naquele tempo, os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam. Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração. Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes tinha sido anunciado. Quando se completaram os oito dias para o Menino ser circuncidado, deram-Lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno.”

Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós.

Santa Maria, Mãe de Deus, protegei-nos ao longo deste novo ano.

Santa Maria, Mãe de Deus, guiai-nos de forma a fazermos a vontade de Deus.

Santa Maria, Mãe de Deus, ensinai-nos a amar o Vosso Filho, como vós O amastes, na totalidade do nosso ser.

1. Ano de 1979. Primeiro dia do mês de Janeiro; primeiro dia do Ano Novo.

Entrando hoje pelas portas desta Basílica, desejaria juntamente com todos Vós, caríssimos Irmãos e Irmãs, saudar este Ano, desejaria dizer-lhe: bem-vindo!

Faço-o no dia da oitava do Natal. Hoje é já o oitavo dia desta grande festa, que, segundo o ritmo da liturgia, conclui e inicia cada ano.

O ano é a medida humana do tempo. O tempo fala-nos do «transcorrer», a que está sujeito tudo o que é criado. O homem tem consciência deste transcorrer, passa não só no tempo, mas igualmente «mede o tempo» do transcorrer dele: tempo feito de dias, semanas, meses e anos. Neste fluir humano, há sempre a tristeza da despedida do passado e, ao mesmo tempo, a abertura ao futuro.

Precisamente esta despedida do passado e esta abertura ao futuro estão inscritas, por meio da linguagem e do ritmo da liturgia da Igreja, na solenidade do Natal do Senhor.

O nascimento fala sempre dum início, do início daquilo que nasce. O Natal do Senhor fala dum singular início. Em primeiro lugar, fala daquele início que precede qualquer tempo, do princípio que é Deus mesmo, sem princípio. Durante esta oitava fomos alimentados dia a dia pelo mistério da perene geração em Deus, pelo mistério do Filho gerado eternamente pelo Pai: «Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado» (Profissão de Fé.).

Nestes dias fomos, depois, testemunhas de maneira particular do nascimento terrestre deste Filho. Nascendo em Belém de Maria Virgem como Homem, Deus-Verbo aceita o tempo. Entra na história. Submete-se à lei do fluir humano. Encerra o passado: com Ele tem fim o tempo de expectativa, isto é, a Antiga Aliança. Ele abre o futuro: a Nova Aliança da graça e da reconciliação com Deus. É o novo «Início» do Tempo Novo. Cada novo ano participa deste Início. É o Ano do Senhor. Bem-vindo o Ano de 1979...de 2026*! A partir do início mesmo é medida do tempo novo, inscrita no mistério do nascimento de Deus.

2. Neste primeiro dia do Ano Novo toda a Igreja reza pela paz. Foi o grande Pontífice Paulo VI quem fez, do problema da paz, o tema da oração do princípio do ano para a Igreja inteira. Hoje, seguindo a sua nobre iniciativa, retomamos este tema com plena convicção, fervor e humildade. De facto, neste dia que abre o Ano Novo, não é possível formular voto mais fundamental do que exatamente este voto de paz. «Livra-nos do mal». Rezando estas palavras da oração de Cristo, é bem difícil dar-lhes conteúdo diverso daquilo que se opõe à paz, que a destrói e que a ameaça. Rezemos pois: Livra-nos da guerra, do ódio, da destruição das vidas humanas. Não permitas que matemos. Não permitas que sejam usados aqueles meios que estão ao serviço da morte e da destruição e cuja potência, cujo raio de ação e de precisão, ultrapassam os limites até agora conhecidos. Não permitas que sejam alguma vez usados. «Livra-nos do mal». Defende-nos da guerra. De qualquer guerra. Pai, que estais nos céus, Pai da vida e Dador da paz, suplica-Te o Papa, filho duma nação que, durante a história e particularmente no nosso século, figurou entre as mais provadas pelo horror, pela crueldade e pelo cataclismo da guerra. Suplica-Te por todos os povos do mundo, por todos os países e por todos os continentes. Suplica-Te em nome de Cristo, Príncipe da Paz.

Quanto são significativas as palavras de Jesus Cristo, que todos os dias recordamos na liturgia eucarística: Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não como a dá o mundo, vo-la dou eu (Jo. 14, 27).

É esta dimensão de Paz, a dimensão mais profunda, que só Cristo pode dar ao homem. É a plenitude da Paz, fundada na reconciliação com o próprio Deus. A Paz interior em que comparticipam os irmãos mediante a comunhão espiritual. Esta paz é o que, primeiro que tudo, nós imploramos. Mas, conscientes de que «o mundo» sozinho — o mundo depois do pecado original, o mundo no pecado — não pode dar-nos esta paz, imploramo-la ao mesmo tempo para o mundo. Para o homem no mundo. Para todos os homens, para todas as nações, diversas por língua, cultura e raça. Para todos os continentes. A paz é a primeira condição do verdadeiro progresso. A paz é indispensável para os homens e os povos viverem em liberdade. A paz é, ao mesmo tempo, condicionada — como ensinam João XXIII e Paulo VI — pela garantia de a todos os homens e povos estar assegurado o direito à liberdade, à verdade, à justiça e ao amor.

«A convivência entre os seres humanos — ensina João XXIII — é ... ordenada, fecunda e correspondente à dignidade deles como pessoas, quando se funda na verdade ... Isto pede que sejam reconhecidos os deveres recíprocos e os deveres mútuos. E é, além disso, uma convivência que se pratica segundo a justiça ou no respeito efectivo daqueles direitos e no cumprimento leal dos respectivos deveres; que é vivificada e integrada pelo amor, atitude de alma que faz sentir como próprias as necessidades e as exigências alheias, torna participantes os outros dos bens próprios e tende a tornar cada vez mais viva a comunhão no mundo dos valores espirituais; e é praticada na liberdade, isto é, do modo conveniente à dignidade de seres levados pela sua própria natureza racional a assumir as responsabilidades do seu operar» (Enciclica Pacem in Terris, 18; cfr. Paulo VI, Encíclica Populorum Progressio, 44).

A paz, portanto, é necessário sempre aprendê-la. É necessário, por conseguinte, educarmo-nos para a paz, como diz a mensagem para o primeiro dia do ano de 1979. É necessário aprendê-la honesta e sinceramente a vários níveis e nos vários ambientes, a começar pelas crianças nas escolas elementares até àqueles que governam. Em que altura desta universal educação para a paz nos encontramos? Quanto está ainda por fazer? Quanto é necessário ainda aprender?

3. Hoje a Igreja venera especialmente a Maternidade de Maria. Esta é como última mensagem da oitava do Natal do Senhor. O nascimento fala sempre da Mãe, d'Aquela que dá o homem ao mundo. O primeiro dia do Ano Novo é o dia da Mãe.

Vemo-l'A portanto — como em tantos quadros e esculturas — com o Menino nos braços, com o Menino ao colo. Mãe, Aquela que gerou e alimentou o Filho de Deus. Mãe de Cristo. Não há imagem mais conhecida e que fale de modo mais simples do mistério do nascimento do Senhor do que a imagem da Mãe com Jesus nos braços. Não é porventura esta imagem a fonte da nossa singular confiança? Não é exactamente ela que nos permite viver no círculo de todos os mistérios da nossa fé, e, contemplando-os como «divinos», considerá-los ao mesmo tempo como «humanos»?

Mas há ainda outra imagem da Mãe com o Filho nos braços. Encontra-se nesta basílica. É a «Pietà»: Maria com Jesus descido da Cruz; com Jesus que expirou diante dos seus olhos, no monte Gólgota, e depois da morte volta àqueles braços que o sustentaram quando em Belém foi oferecido como Salvador do mundo.

Desejava portanto unir hoje a nossa oração pela paz com esta dupla imagem. Desejava ligá-la com esta Maternidade, que a Igreja venera de modo especial na oitava do Natal do Senhor.

Por isso digo:

«Mãe, que sabeis o que significa apertar nos braços o corpo morto do Filho, d'Aquele a quem destes a vida, poupai a todas as mães desta terra a morte dos seus filhos, os tormentos, a escravidão, a destruição da guerra, as perseguições, os campos de concentração, as prisões! Conservai-lhes a alegria do nascimento, da sustentação, do desenvolvimento do homem e da sua vida. Em nome desta vida, em nome do nascimento do Senhor, implorai connosco a paz e a justiça no mundo. Mãe da Paz, em toda a beleza e majestade da Vossa maternidade, que a Igreja exalta e o mundo admira, pedimo-Vos: Estai connosco a cada momento. Fazei que este Novo Ano seja ano de paz, em virtude do nascimento e da morte do Vosso Filho!

Ámen.* adicionado por mim

Papa João Paulo II
(Homilia, 1 de janeiro de 1979)

Feliz Ano Novo - 2026




segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Em Cristo, cumpre-se a nossa humanidade! - Pe. Manuel Armindo Janeiro - Facebook

Em Cristo, cumpre-se a nossa humanidade!

Num mundo em que a força destruidora das armas passou a fazer parte do nosso quotidiano e nos tornámos espectadores da desgraça alheia, receando pelo nosso próprio futuro, pois estamos todos no mesmo barco;

Num mundo que silencia vozes incómodas para não acordar anestesiados pelo consumo e pelo conforto, como se fosse aceitável a indiferença das consciências, a começar pela das lideranças;

Num mundo que parece não ter lugar para fracos e pobres, doentes e idosos, vivendo como se não fôssemos todos marcados por uma indigência radical que o tempo comprovará;

Num mundo que normaliza interesses particulares ou de grupo e justifica sistemas de controlo e manipulação, em conflito aberto com o bem comum e os valores da verdade e liberdade, justiça e solidariedade que lhe dão consistência;

Um Menino quis nascer para nós e descer até ao fundo da nossa miséria para, de há dois mil anos a esta parte, fazer despertar sentinelas e profetas que, não obstante a longa noite, mantenham firme o ritmo da espera por um mundo novo;

Desde então, homens e mulheres guiados por esta Luz, “terna e suave no meio da noite”, e outros de boa vontade, rasgam horizontes, despertam sonhos, anunciam boas novas e dão-se à construção de caminhos de paz e de esperança;

Este Menino veio para nós, veio para cumprir a nossa humanidade e, na nossa carne, revelar os sonhos de Deus: tanto no que queria comunicar sobre Si mesmo como no que queria fazer entender sobre nós próprios, em seu Filho muito amado;

Esta é a bênção maior, grande e sublime, prometida por Deus desde os tempos antigos, realizada na Encarnação, Morte e Ressurreição do Seu Filho e partilhada connosco no dia do nosso Batismo;

Aqui se funda a “Esperança que não engana”: no Amor fiável que nos leva a descobrir nos nossos limites e falhas, não impedimentos, mas oportunidades para recomeçar e avançar com mais confiança no Filho de Deus que nos visita num sorriso de criança e, pela Fé, nos convida a acolhê-Lo e a segui-Lo;

Façamos destes dias um canto de louvor e de acção de graças, na contemplação deste admirável Projeto Divino e na adoração do Deus Menino que infunde em nós esperança para o caminho, renova a nossa fé de peregrinos e faz crescer o desejo de O servirmos nos nossos irmãos.

Feliz Ano Novo!

sábado, 27 de dezembro de 2025

 FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA

JESUS, MARIA E JOSÉ - 2025-

 Ano A


Ainda dentro da oitava do Natal, a Igreja propõe-nos a contemplação da Sagrada Família. Nos tempos que correm José, Maria e o Menino trazem-nos uma família concreta, a viver num tempo real, a braços com situações como as que experimentam as nossas famílias de hoje. É impressionante como os tempos mudam tanto e tão depressa, mas os problemas sociais e humanos permanecem tão parecidos! Mas o que mais nos desafia nos textos litúrgicos, é a forma como esta família respondeu aos sinais de Deus e foi instrumento da realização dos planos do Senhor, dizendo sempre sim ao que lhe era pedido. Ousemos seguir o exemplo de S.José, de Maria e de Jesus.

Na 1ªleitura (Sir 3, 3-7.14-17a (gr. 2-6.12-14)) o autor sagrado dá-nos como modelo Deus Amor, comunidade trinitária, que gera vida. Deus é  família, cria-nos por amor, para vivermos felizes, pelo que só temos de agir segundo os Seus preceitos amorosos. 

“Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe. Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe. Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados.”

Na 2ªleitura (Col 3, 12-21) S.Paulo apela ao nosso ser cristão, isto é, à essência do viver do cristão, que  é o Amor: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Seja qual for a comunidade familiar (de sangue, ou espiritual, ou ideológica, ou profissional,…) de que fazemos parte, seja qual for o estado em que os seus elementos se encontrem, somos sempre desafiados a revestirmo-nos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Centremo-nos em Jesus, vivamos no Amor e tudo nos será possível. 

“Irmãos: Como eleitos de Deus, santos e prediletos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo. E vivei em ação de graças. Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.”


No evangelho (Mt 2, 13-15.19-23) acompanhamos a vida desta família especial, que nos revela o quanto Deus nos ama infinitamente e damo-nos conta de quão importante foi o papel de S.José, enquanto guardião da Sagrada Família. S.José desafia-nos a ser assim na vida, alguém que torna possível a realização das promessas de Deus, permitindo que Deus Amor seja “o mais que tudo” na vida de todos os homens da terra. 

“Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto e ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pelo Profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e voltou para a terra de Israel. Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Assim se cumpriu o que fora anunciado pelos Profetas: «Há de chamar-Se Nazareno».”

Senhor, ensina-me a amar sempre todos os que fazem parte da minha família.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Neste primeiro domingo depois do Natal, a liturgia convida-nos a celebrar a festa da Sagrada Família de Nazaré. De facto, todos os presépios nos mostram Jesus com Nossa Senhora e são José, na gruta de Belém. Deus quis nascer numa família humana, quis ter uma mãe e um pai, como nós.

E hoje o Evangelho apresenta-nos a sagrada Família no doloroso caminho do exílio, em busca de refúgio no Egito. José, Maria e Jesus experimentam a condição dramática dos prófugos, marcada por medo, incerteza e dificuldades (cf. Mt 2, 13-15.19-23). Infelizmente, nos nossos dias, milhões de famílias podem reconhecer-se nesta triste realidade. Quase todos os dias a televisão e os jornais dão notícias de prófugos que fogem da fome, da guerra, de outros perigos graves, em busca de segurança e de uma vida digna para si e para as suas famílias.

Em terras distantes, mesmo quando encontram trabalho, nem sempre os prófugos e os imigrantes encontram acolhimento verdadeiro, respeito, apreço dos valores dos quais são portadores. As suas expectativas legítimas entram em conflito com situações complexas e dificuldades que às vezes parecem insuperáveis. Portanto, enquanto olhamos para a sagrada Família de Nazaré no momento em que foi obrigada a tornar-se prófuga, pensemos no drama daqueles migrantes e refugiados que são vítimas da rejeição e da exploração, que são vítimas do tráfico de pessoas e do trabalho escravo. Pensemos também nos outros «exilados»: eu chamá-los-ia «exilados escondidos», os que existem dentro das próprias famílias: os idosos, por exemplo, que muitas vezes são tratados como presenças incómodas. Penso que um sinal para saber como está uma família é observar como são tratados crianças e idosos.

Jesus quis pertencer a uma família que enfrentou estas dificuldades, para que ninguém se sinta excluído da proximidade amorosa de Deus. A fuga para o Egito devido às ameaças de Herodes mostra-nos que Deus está presente onde o homem está em perigo, onde o homem sofre, para onde se refugia, onde experimenta a rejeição e o abandono; mas Deus está também onde o homem sonha, espera voltar à pátria em liberdade, projeta e escolhe a vida e a dignidade para si e para os seus familiares.

Hoje o nosso olhar para a sagrada Família deixa-se atrair também pela simplicidade da vida que ela conduz em Nazaré. É um exemplo que faz muito bem às nossas famílias, ajuda-as a tornar-se cada vez mais comunidades de amor e de reconciliação, nas quais se sente a ternura, a ajuda e o perdão recíprocos. Recordemos as três palavras-chave para viver em paz e alegria em família: com licença, obrigado, desculpa. Quando numa família não somos invasores e pedimos «com licença», quando na família não somos egoístas e aprendemos a dizer «obrigado», e quando na família nos damos conta de que fizemos algo incorreto e pedimos «desculpa», nessa família existe paz e alegria. Recordemos estas três palavras. Mas podemos repeti-las juntos: com licença, obrigado, desculpa. (Todos: com licença, obrigado, desculpa!). Gostaria também de encorajar as famílias para que tomem consciência da importância que têm na Igreja e na sociedade. De facto, o anúncio do Evangelho passa sobretudo através das famílias, para depois alcançar os diversos âmbitos da vida diária.

Invoquemos com fervor Maria Santíssima, a Mãe de Jesus e nossa Mãe, e são José, seu esposo. Peçamos que nos iluminem, confortem, guiem todas as famílias do mundo, para que possam cumprir com dignidade e serenidade a missão que Deus lhes confiou.

ORAÇÃO À SAGRADA FAMÍLIA

Jesus, Maria e José,
em Vós, contemplamos
o esplendor do verdadeiro amor,
a Vós, com confiança, nos dirigimos.

Sagrada Família de Nazaré,
tornai também as nossas famílias
lugares de comunhão e cenáculos de oração,
escolas autênticas do Evangelho
e pequenas Igrejas domésticas.

Sagrada Família de Nazaré,
que nunca mais se faça, nas famílias, experiência
de violência, egoísmo e divisão:
quem ficou ferido ou escandalizado
depressa conheça consolação e cura.

Sagrada Família de Nazaré,
despertai, em todos, a consciência
do carácter sagrado e inviolável da família,
da sua beleza no projeto de Deus.

Jesus, Maria e José,
escutai, atendei a nossa súplica.

Papa Francisco
(Angelus, 29 de dezembro de 2013)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Feliz Natal - 2025

 

Natal do Senhor – 2025

Missa da Noite

Hoje, estamos em festa, pois a Igreja celebra o nascimento do Menino Deus. Hoje, mais do que nunca, o nosso coração alegra-se porque o Filho de Deus habita entre nós, mora no nosso coração, habita todo o nosso ser, corpo e alma. Sim, esta é a razão da nossa festa, da nossa alegria, pois Jesus veio habitar entre nós, melhor ainda, em cada um de nós, para nos elevar à dignidade de filhos de Deus. N’Ele, Seu Único e muito amado Filho, fomos conquistados para Deus, tornados também nós Seus filhos.

Na 1ªleitura ((Is 9, 2-7(1-6)) Isaías anuncia que é Deus quem faz brilhar a luz nas trevas e aumentar a alegria dos povos. É Ele que vence as guerras, de ontem e de hoje, n’Aquele Menino que fez nascer para nós e que continua a habitar-nos: o príncipe da Paz. Deus, em Jesus, Seu Filho, vem libertar, resgatar toda a humanidade, por isso rejubilamos de alegria.

“O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. Todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado «Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». O seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para sempre. Assim o fará o Senhor do Universo.

Na 2ªleitura (Tito 2, 11-14)  S.Paulo leva-nos a contemplar o Mistério do Amor que veio habitar no meio dos homens, Jesus Cristo, o Filho de Deus. Aponta-nos o caminho a seguir para podermos, também nós, n’Ele alcançar a bem-aventurança eterna. 

“Caríssimo: Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos, para vivermos, no tempo presente, com temperança, justiça e piedade, aguardando a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e preparar para Si mesmo um povo purificado, zeloso das boas obras.”

No evangelho (Lc 2, 1-14) S.Lucas, salienta especialmente alguns detalhes do nascimento de Jesus como: ser envolto em panos; deitado numa manjedoura; o anúncio celestial do nascimento de Jesus aos pastores. Com os pormenores descritos, Lucas ajuda-nos a contemplar o mistério do Amor de Deus por cada ser criado. Neste Menino, cujo nascimento hoje celebramos, fomos gerados para Deus, somos filhos no Filho. Quão infinito é o amor de Deus por cada um de nós!

“Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. Este primeiro recenseamento efetuou-se quando Quirino era governador da Síria. Todos se foram recensear, cada um à sua cidade. José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». Imediatamente juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade. Bendito e louvado seja o Senhor, hoje e sempre, pelos séculos dos séculos sem fim. Ámen.


Queridos irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, feliz Natal!

Que o Senhor Jesus, nascido da Virgem Maria, traga a todos vós o amor de Deus, fonte de confiança e esperança, juntamente com o dom da paz, que os anjos anunciaram aos pastores de Belém: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado» (Lc 2, 14).

Neste dia de festa, voltemos o olhar para Belém. O Senhor vem ao mundo numa gruta e é recostado numa manjedoura para os animais, porque os seus pais não conseguiram encontrar hospedagem, apesar de estar quase na hora de Maria dar à luz. Vem entre nós no silêncio e escuridão da noite, porque o Verbo de Deus não precisa de holofotes nem do clamor das vozes humanas. Ele mesmo é a Palavra que dá sentido à existência. Ele é a luz que ilumina o caminho. «O Verbo era a Luz verdadeira que, ao vir ao mundo – diz o Evangelho –, a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9).

Jesus nasce no meio de nós, é Deus-connosco. Vem para acompanhar a nossa vida quotidiana, partilhar tudo connosco, alegrias e amarguras, esperanças e inquietações. Vem como menino indefeso. Nasce ao frio, pobre entre os pobres. Carecido de tudo, bate à porta do nosso coração para encontrar calor e abrigo.

Como os pastores de Belém, deixemo-nos envolver pela luz e saiamos para ver o sinal que Deus nos deu. Vençamos o torpor do sono espiritual e as falsas imagens da festa que fazem esquecer Quem é o Festejado. Saiamos do tumulto que anestesia o coração induzindo-nos mais a preparar ornamentações e prendas do que a contemplar o Evento: o Filho de Deus nascido para nós.

Irmãos, irmãs, voltemo-nos para Belém, onde ressoa o primeiro choro do Príncipe da paz. Sim, porque Ele mesmo – Jesus – é a nossa paz: aquela paz que o mundo não se pode dar a si mesmo e Deus Pai concedeu-a à humanidade enviando o seu Filho ao mundo. São Leão Magno tem uma frase que, na sua concisão latina, bem resume a mensagem deste dia: «Natalis Domini, Natalis est pacis – o Natal do Senhor é o Natal da paz» (Sermão 26, 5).

Jesus Cristo é também o caminho da paz. Com a sua encarnação, paixão, morte e ressurreição, abriu a passagem de um mundo fechado, oprimido pelas trevas da inimizade e da guerra, para um mundo aberto, livre para viver na fraternidade e na paz. Irmãos e irmãs, sigamos este caminho! Mas, para o podermos fazer, para sermos capazes de seguir os passos de Jesus, devemos despojar-nos dos pesos que nos enredam e bloqueiam.

E quais são esses pesos? Que vem a ser este entulho que nos sobrecarrega? Trata-se das mesmas paixões negativas que impediram o rei Herodes e a sua corte de reconhecer e acolher o nascimento de Jesus, isto é, o apego ao poder e ao dinheiro, o orgulho, a hipocrisia, a mentira. Estes pesos impedem de ir a Belém, excluem da graça do Natal e fecham o acesso ao caminho da paz. Na realidade, é com tristeza que devemos constatar como, enquanto nos é dado o Príncipe da paz, ventos de guerra continuam a soprar, gelados, sobre a humanidade.

Se queremos que seja Natal, o Natal de Jesus e da paz, voltemos o olhar para Belém e fixemo-lo no rosto do Menino que nasceu para nós! E, naquele rostinho inocente, reconheçamos o das crianças que, em todas as partes do mundo, anseiam pela paz.

O nosso olhar se encha com os rostos dos irmãos e irmãs ucranianos que vivem este Natal na escuridão, ao frio ou longe das suas casas, devido à destruição causada por tantos meses de guerra. O Senhor nos torne disponíveis e prontos para gestos concretos de solidariedade a fim de ajudar todos os que sofrem, e ilumine as mentes de quantos têm o poder de fazer calar as armas e pôr termo imediato a esta guerra insensata! Infelizmente, prefere-se ouvir outras razões, ditadas pelas lógicas do mundo. Mas a voz do Menino, quem a escuta?

O nosso tempo vive uma grave carestia de paz também noutras regiões, noutros teatros desta terceira guerra mundial. Pensamos na Síria, ainda martirizada por um conflito que passou para segundo plano, mas não terminou; e pensamos na Terra Santa, onde nos últimos meses aumentaram as violências e os confrontos, com mortos e feridos. Supliquemos ao Senhor para que lá, na terra que O viu nascer, retomem o diálogo e a aposta na confiança mútua entre palestinianos e israelitas. Jesus Menino ampare as comunidades cristãs que vivem em todo o Médio Oriente, para que se possa viver, em cada um daqueles países, a beleza da convivência fraterna entre pessoas que pertencem a crenças diferentes. De modo particular ajude o Líbano para que possa, finalmente, erguer-se com o apoio da Comunidade Internacional e com a força da fraternidade e da solidariedade. A luz de Cristo ilumine a região do Sahel, onde a convivência pacífica entre povos e tradições é transtornada por confrontos e violências. Encaminhe para uma trégua duradoura no Iémen e para a reconciliação no Myanmar e no Irão, para que cesse completamente o derramamento de sangue. E, no continente americano, inspire as autoridades políticas e todas as pessoas de boa vontade a trabalharem para pacificar as tensões políticas e sociais que afetam vários países; penso de modo particular na população haitiana, que está a sofrer há tanto tempo.

Neste dia, em que sabe bem encontrar-se ao redor da mesa recheada, não desviemos o olhar de Belém – que significa «casa do pão» – e pensemos nas pessoas que padecem fome, sobretudo as crianças, enquanto diariamente se desperdiçam quantidades imensas de alimentos e se gastam tantos recursos em armas. A guerra na Ucrânia agravou ainda mais a situação, deixando populações inteiras em risco de carestia, especialmente no Afeganistão e nos países do Corno de África. Toda a guerra – bem o sabemos – provoca fome e serve-se do próprio alimento como arma, ao impedir a sua distribuição às populações já atribuladas. Neste dia, aprendendo com o Príncipe da paz, empenhemo-nos todos – a começar pelos que têm responsabilidades políticas – para que o alimento seja só instrumento de paz. Enquanto saboreamos a alegria de nos reunirmos com os nossos, pensemos nas famílias mais atribuladas pela vida e naquelas que, neste tempo de crise económica, atravessam dificuldades por causa do desemprego e carecem do necessário para viver.

Queridos irmãos e irmãs, hoje como há dois mil anos Jesus, a luz verdadeira, vem a um mundo achacado de indiferença – uma feia doença! – que não O acolhe (cf. Jo 1, 11); antes, rejeita-O como acontece a muitos estrangeiros, ou ignora-O como fazemos nós muitas vezes com os pobres. Hoje não nos esqueçamos dos numerosos deslocados e refugiados que batem à nossa porta à procura de conforto, calor e alimento. Não nos esqueçamos dos marginalizados, das pessoas sós, dos órfãos e dos idosos – a sabedoria dum povo – que correm o risco de acabar descartados, dos presos que olhamos apenas sob o prisma dos seus erros e não como seres humanos.

Irmãos e irmãs, Belém mostra-nos a simplicidade de Deus, que Se revela, não aos sábios e entendidos, mas aos pequeninos, a quantos têm o coração puro e aberto (cf. Mt 11, 25). Como os pastores, vamos também nós sem demora e deixemo-nos maravilhar pelo Evento incrível de Deus que Se faz homem para nossa salvação. Aquele que é fonte de todo o bem faz-Se pobre e pede de esmola a nossa pobre humanidade. Deixemo-nos comover pelo amor de Deus e sigamos Jesus, que Se despojou da sua glória para nos tornar participantes da sua plenitude.

Feliz Natal para todos!

Papa Francisco
(Mensagem Urbi et Orbi, Natal de 2022)