terça-feira, 25 de março de 2025

QUARESMA PASSO A PASSO - 2025

Quarta-feira III da Quaresma – dia 19 –26/03/2025

Evangelho Mt 5, 17-19

«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar»

Jesus apresenta-se diante dos homens como uma novidade tão absoluta que muitos dos seus ouvintes e dos seus discípulos julgam que ele vem alterar o que está na Lei e o que tinha sido anunciado pelos profetas. Perante isto, Jesus tem a preocupação de lhes dizer que não é assim. Ele é a última palavra de Deus aos homens. Ele é a Palavra do Pai que vem esclarecer toda a palavra da Lei e dos profetas, mas não vem abolir nada do que Deus tinha dito anteriormente.

www.aliturgia.com

"Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus»."

Esta é a plenitude que devemos trilhar para conseguirmos superar o legalismo e os formalismo da lei antiga, que era imposta pelos doutores da lei e pelos escribas. A expressão "Em verdade vos digo", vem interiorizar a lei que será escrita não em tábuas de pedra, mas no coração dos homens. Desse modo, a nova lei discernirá o mal pela sua raiz, no coração, e não apenas quando se manifesta.

Conforme a doutrina dos fariseus, o homem deve praticar boas obras para se tornar justo diante de Deus e, dessa forma, alcançar a salvação. Embora a lei tenha caído na casuística e na artimanha dos detalhes imprescindíveis, Jesus propõe uma vivência da lei, na sua plenitude, a partir do coração. Os ensinamentos da lei e dos profetas não devem estar contidos numa longa lista de preceitos, mas assumidos a partir do coração, como expressão da vontade de Deus.

in site Ignatiana - Jesuítas, Brasil


Pai Nosso que estais nos céus, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

No Evangelho da liturgia de hoje Jesus diz: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas: não vim revogá-la, mas completá-la» (Mt 5, 17). Completar: esta é uma palavra-chave para compreender Jesus e a sua mensagem. Mas o que significa “completar”? Para o explicar, o Senhor começa por dizer o que não é completar. A Escritura diz “não matarás”, mas para Jesus isto não é suficiente se depois alguém ferir os irmãos com palavras; a Escritura diz “não cometerás adultério”, mas isto não é suficiente se alguém viver um amor manchado pela duplicidade e falsidade; a Escritura diz “não darás falso testemunho”, mas não é suficiente fazer um juramento solene se alguém agir com hipocrisia (cf. Mt 5, 21-37). Assim, não é completar.

Para nos dar um exemplo concreto, Jesus concentra-se no “rito do ofertório”. Ao fazer uma oferenda a Deus, retribui-se a gratuidade dos seus dons. Era um rito muito importante - fazer uma oferta para retribuir simbolicamente, digamos, a gratuidade dos seus dons - tão importante que era proibido interrompê-lo, exceto por motivos graves. Mas Jesus afirma que é preciso interrompê-lo se um irmão tiver algo contra nós, para ir primeiro reconciliar-se com ele (cf. vv. 23-24): só então se completa o rito. A mensagem é clara: Deus ama-nos primeiro, gratuitamente, dando o primeiro passo na nossa direção sem que o mereçamos; e depois não podemos celebrar o seu amor sem, por nossa vez, dar o primeiro passo para nos reconciliarmos com aqueles que nos feriram. Assim, há o completar aos olhos de Deus, caso contrário a observância externa, puramente ritual, é inútil, torna-se uma farsa. Por outras palavras, Jesus faz-nos compreender que as normas religiosas são úteis, são boas, mas são apenas o início: para as completar, é necessário ir além da letra e viver o seu significado. Os mandamentos que Deus nos deu não devem ser encerrados nos cofres asfixiados da observância formal, caso contrário, permanecemos numa religiosidade externa e desapegada, servos de um “deus-patrão” e não filhos de Deus Pai. Jesus quer isto: não ter a ideia de servir um Deus patrão, mas o Pai; e para isso é necessário ir além da letra.

Irmãos e irmãs, este problema não existia apenas no tempo de Jesus, existe também hoje. Às vezes, por exemplo, ouvimos: “Padre, eu não matei, não roubei, não fiz mal a ninguém...”, como se dissesse: “Estou bem”. Eis a observância formal, que se contenta com o mínimo indispensável, enquanto Jesus nos convida ao máximo possível. Isto é, Deus não raciocina por cálculos nem tabelas; Ele ama-nos como um apaixonado: não ao mínimo, mas ao máximo! Não nos diz: “Amo-te até a um certo ponto”. Não, o amor verdadeiro nunca chega a um certo ponto e nunca se sente perfeito; o amor vai sempre mais além, não pode fazer de forma diferente. O Senhor mostrou-nos isto ao dar a vida na cruz e perdoando os seus assassinos (cf. Lc 23, 34). E confiou-nos o mandamento que lhe é mais querido: que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou (cf. Jo 15, 12). Este é o amor que completa a Lei, a fé, a vida verdadeira!

Então, irmãos e irmãs, podemos perguntar-nos: como vivo a fé? É uma questão de cálculos, de formalismos, ou é uma história de amor com Deus? Contento-me apenas em não fazer mal, em manter “a fachada”, ou procuro crescer no amor a Deus e ao próximo? E, de vez em quando, verifico-me sobre o grande mandamento de Jesus, pergunto a mim mesmo se amo o meu próximo como Ele me ama? Pois talvez sejamos inflexíveis no julgamento dos outros e nos esqueçamos de ser misericordiosos, como é Deus para connosco.

Que Maria, a qual observou perfeitamente a Palavra de Deus, nos ajude a cumprir a nossa fé e a nossa caridade.

Papa Francisco 
(Angelus, 12 de fevereiro de 2023)

segunda-feira, 24 de março de 2025

 QUARESMA PASSO A PASSO - 2025

SOLENIDADE DA ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

 

Terça-feira III da Quaresma – dia 18 –25/03/2025

Evangelho Lc 1, 26-38

«Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.»

Não há outro dia na Liturgia, que possa ser comparado ao anúncio que hoje celebramos. Alguém poderia indagar: “E a Páscoa?”. Sim, é verdade, a Páscoa é a nossa certeza da ressurreição. Mas, para quem acreditou até ao fim na Anunciação do anjo, a Páscoa seria uma consequência lógica: não seria possível que a morte prendesse para sempre o Filho de Deus. Ao tomarmos a sério e com profundidade o anúncio do anjo, descobrimos que nada nos pode afastar de Deus. Ele veio morar connosco, “armou a sua tenda entre nós”. Desde que o anjo nos anunciou a vinda do “Emanuel”, tudo o mais é uma espera confiante. Quem crê que Deus está presente sabe que a morte “não terá a ultima palavra”. Nós cremos e confiamos que o Menino Deus está connosco e que nem a morte, nem a vida nos poderão separar do Seu Amor.

in site Ignatiana - Jesuítas, Brasil

"Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra»."

Para Ti, Senhor, nada é impossível. Entras na minha vida e fazes morada em mim com o poder do Teu amor. Perante a Tua força não posso resistir nem colocar obstáculos. Senhor, dá-me a lucidez de Maria para poder dizer com verdade, “faça-se em mim segundo a Tua vontade”.

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Avé-Maria cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte. Ámen.

Acabamos de ouvir o anúncio mais importante da nossa história: a anunciação a Maria (cf. Lc 1, 26-38). Um trecho denso, cheio de vida, e que gosto de ler à luz de outro anúncio: o do nascimento de João Batista (cf. Lc 1, 5-20). Dois anúncios que se seguem e que estão unidos; dois anúncios que, se forem comparados, nos mostram aquilo que Deu nos doa no seu Filho.

A anunciação de João Batista ocorre quando Zacarias, sacerdote, pronto para dar início à ação litúrgica, entra no Santuário do Templo, enquanto toda a assembleia está do lado de fora, à espera. Ao contrário, a anunciação de Jesus realiza-se num lugar remoto da Galileia, numa cidade periférica e com uma fama não particularmente boa (cf. Jo 1, 46), no anonimato da casa de uma jovem de nome Maria.

Um contraste não irrelevante, que nos indica que o novo Templo de Deus, o novo encontro de Deus com o seu povo, terá lugar em locais onde normalmente não esperamos, às margens, na periferia. Ali se marcará o encontro, ali se encontrarão; ali Deus se fará carne para caminhar connosco desde o seio da sua Mãe. Já não será um lugar reservado a poucos, enquanto a maioria permanece fora, à espera. Nada e ninguém lhe será indiferente, nenhuma situação será privada da sua presença: a alegria da salvação tem início na vida quotidiana da casa de uma jovem de Nazaré.

O próprio Deus é Aquele que toma a iniciativa e escolhe inserir-se, como fez com Maria, nas nossas casas, nas nossas lutas do dia a dia, repletas de ansiedades e, ao mesmo tempo, de desejos. E é precisamente dentro das nossas cidades, das nossas escolas e universidades, das praças e dos hospitais que se cumpre o anúncio mais bonito que podemos ouvir: «Alegra-te, o Senhor está contigo!». Uma alegria que gera vida, que gera esperança, que se faz carne no modo em como olhamos para o porvir, na atitude com que olhamos para os outros. Uma alegria que se torna solidariedade, hospitalidade, misericórdia para com todos.

Como Maria, também nós podemos estar desorientados. «Como acontecerá isto» em tempos com tanta especulação? Especula-se sobre a vida, sobre o trabalho, sobre a família. Especula-se sobre os pobres e os migrantes; especula-se sobre os jovens e o seu futuro. Tudo parece reduzir-se a números, deixando, por outro lado, que a vida diária de muitas famílias se tinja de precariedade e de insegurança. Enquanto a dor bate em muitas portas, enquanto cresce a insatisfação de numerosos jovens pela falta de oportunidades reais, a especulação abunda em todos os lados.

Certamente, o ritmo vertiginoso a que estamos submetidos parece roubar-nos a esperança e a alegria. As pressões e a impotência perante muitas situações parece que nos tornam áridos e insensíveis diante dos inúmeros desafios. E paradoxalmente quando tudo se acelera para construir — em teoria — uma sociedade melhor, no final não se tem tempo para nada e para ninguém. Perdemos o tempo para a família, para a comunidade, para a amizade, para a solidariedade e para a memória.

Far-nos-á bem questionar-nos: como é possível viver a alegria do Evangelho hoje nas nossas cidades? É possível a esperança cristã nesta situação, aqui e agora?

Estas duas perguntas referem-se à nossa identidade, à vida das nossas famílias, dos nossos países e das nossas cidades. Mexem com a vida dos nossos filhos, dos nossos jovens e exigem da nossa parte um novo modo de nos situar na história. Se a alegria e a esperança cristã continuam a ser possíveis, não podemos, não queremos permanecer diante de tantas situações dolorosas como meros espetadores que olham para o céu esperando que «deixe de chover”. Tudo o que acontece exige que olhemos para o presente com audácia, com a audácia de quem sabe que a alegria da salvação adquire forma na vida quotidiana da casa de uma jovem de Nazaré.

Diante desta desorientação de Maria, perante as nossas desorientações, são três as chaves que o Anjo nos oferece para nos ajudar a aceitar a missão que nos é confiada.

1. Evocar a Memória

A primeira coisa que o Anjo faz é evocar a memória, abrindo assim o presente de Maria a toda a história da Salvação. Evoca a promessa feita a David como fruto da aliança com Jacó. Maria é filha da Aliança. Também nós hoje somos convidados a fazer memória, a olhar para o nosso passado para não esquecer de onde viemos. Para não nos esquecermos dos nossos antepassados, dos nossos avós e de tudo aquilo que passaram para chegar onde estamos hoje. Esta terra e a sua gente conheceram a dor das duas guerras mundiais; e, por vezes, viram a sua merecida fama de laboriosidade e civilização contaminada por ambições desregradas. A memória ajuda-nos a não permanecer prisioneiros de discursos que semeiam ruturas e divisões como único modo para resolver os conflitos. Evocar a memória é o melhor antídoto que temos à nossa disposição diante das soluções mágicas da divisão e da alienação.

2. A pertença ao Povo de Deus

A memória permite que Maria se aproprie da sua pertença ao Povo de Deus. Faz-nos bem recordar que somos membros do Povo de Deus! Milaneses, sim, Ambrosianos, sem dúvida, mas parte do grande Povo de Deus. Um povo formado por mil rostos, histórias e proveniências, um povo multicultural e multiétnico. Esta é uma das nossas riquezas. É um povo chamado a acolher as diferenças, a integrá-las com respeito e criatividade e a celebrar a novidade que provém dos outros; é um povo que não tem medo de abraçar os confins, as fronteiras; é um povo que não tem medo de acolher quem necessita porque sabe que ali está presente o seu Senhor.

3. A possibilidade do impossível

«Nada é impossível a Deus» (Lc 1, 37): assim termina a resposta do Anjo a Maria. Quando acreditamos que tudo depende exclusivamente de nós permanecemos prisioneiros das nossas capacidades, das nossas forças, dos nossos horizontes míopes. Quando, pelo contrário, nos dispomos a deixar-nos ajudar, aconselhar, quando nos abrimos à graça, parece que o impossível começa a tornar-se realidade. Sabem bem isto estas terras que, ao longo da sua história, geraram muitos carismas, muitos missionários, muitas riquezas para a vida da Igreja! Numerosos rostos que, superando o pessimismo estéril e divisor, se abriram à iniciativa de Deus e se tornaram sinal de quão fecunda possa ser uma terra que não se deixa fechar nas próprias ideias, limites e capacidades e se abre aos outros.

Como ontem, Deus continua a procurar aliados, continua a procurar homens e mulheres capazes de acreditar, capazes de fazer memória, de se sentirem parte de seu povo para cooperar com a criatividade do Espírito. Deus continua a percorrer os nossos bairros e as nossas ruas, vai a todos os lugares em busca de corações capazes de escutar o seu convite e de o fazer tornar-se carne aqui e agora. Parafraseando Santo Ambrósio no seu comentário a este trecho podemos dizer: Deus continua a procurar corações como o de Maria, dispostos a acreditar até em condições absolutamente extraordinárias (cfr. Exposição do Evangelho segundo Lucas II, 17: pl 15, 1559). Que o senhor faça crescer em nós esta fé e esta esperança.

Papa Francisco 
(Homilia na Solenidade da Anunciação do Senhor 
Parque de Monza, 25 de março de 2017)

domingo, 23 de março de 2025

QUARESMA PASSO A PASSO - 2025

Segunda-feira III da Quaresma – dia 17 –24/03/2025

Evangelho Lc 4, 24-30

«Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra.»;

«Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.»

Jesus, logo no início da sua missão, visitou os seus concidadãos da aldeia de Nazaré, onde ele viveu cerca de trinta anos, e foi por eles rejeitado. (...) Infelizmente, os judeus tinham como certo que o Messias, quando viesse à terra, seria um rei forte, cheio de poder, que marcharia à frente de um poderoso exército. Assim, também tinham a ideia de que ele teria uma corte, com os seus ministros à frente com toda a pompa, revestidos de preciosos trajes, com vistosos e luxuosos tecidos... Ora, Jesus não se apresentou desse modo, mas como aquele que veio trazer alegria, presença, proximidade, convivência, humanismo, conforme ele leu a seu próprio respeito no Livro de Isaías (61, 1ss). Mais tarde, o Messias ensinar-nos-ia que ele está onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome: Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou no meio deles (Mt 18, 20).

in site Ignatiana - Jesuítas Bras

"Naquele tempo, Jesus veio a Nazaré e falou ao povo na sinagoga, dizendo: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Digo-vos a verdade: Havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho."

Jesus, hoje, diz-me a mim que o facto de O conhecer e até de ser batizado não me confere nenhum estatuto especial se, a par disso, eu não fizer um verdadeiro acolhimento da Sua Pessoa e não fizer uma verdadeira conversão interior. Corro o risco de me revoltar e querer atirar para fora da minha vida Aquele em quem digo acreditar só porque Ele não se identifica com os critérios que eu defini que Ele devia ter na minha vida.

Tu não és como eu quero nem a Tua vontade se identifica com a minha. Aceitar-Te e aceitar os Teus critérios não me é fácil, Senhor. Muitas vezes corro o mesmo risco das pessoas de Nazaré, querendo que Tu sejas, faças e digas o que me agrada. Ensina-me, Senhor, a perceber os Teus critérios para que viva de acordo com a Tua proposta de salvação e deixe que me cures e me sacies no mais íntimo de mim mesmo.

www.aliturgia.com

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre Jesus.

Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte. Ámen. 

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Na liturgia de hoje, o Evangelho narra a primeira pregação de Jesus na sua cidade, Nazaré. O êxito é amargo: em vez de receber aprovação, Jesus encontra incompreensão e até hostilidade (cf. Lc 4, 21-30). Os seus concidadãos, mais do que uma palavra de verdade, queriam milagres, sinais prodigiosos. O Senhor não os realiza e eles rejeitam-no, pois dizem que já o conheciam desde criança, que é o filho de José (cf. v. 22) e outras coisas mais. Então, Jesus pronunciou uma frase que se tornou proverbial: «Nenhum profeta é bem aceite na sua pátria» (v. 24).

Estas palavras revelam que o fracasso para Jesus não foi totalmente inesperado. Conhecia o seu povo, conhecia o coração do seu povo, conhecia o risco que estava a correr e previa a rejeição. Então podemos perguntar-nos: se é assim, se previa o fracasso, por que foi à sua cidade? Por que fazer o bem a pessoas que não estão dispostas a aceitá-lo? É uma pergunta que nos fazemos com frequência. Contudo, é uma questão que nos ajuda a compreender melhor a Deus. Face aos nossos fechamentos, ele não retrocede: não põe limites ao seu amor. Perante os nossos fechamentos, ele vai em frente. Vemos um reflexo disto nos pais que estão conscientes da ingratidão dos filhos, mas não deixam de os amar e de lhes fazer o bem. Deus é assim, mas a um nível muito mais elevado. E hoje também nos convida a acreditar no bem, a nunca deixar de procurar fazer o bem.

Mas no que aconteceu em Nazaré, encontramos outro aspeto: a hostilidade para com Jesus por parte dos “seus” provoca-nos: eles não foram acolhedores, e nós? Para verificar isto, vejamos os modelos de acolhimento que Jesus propõe hoje, aos seus concidadãos e a nós. São dois estrangeiros: uma viúva de Sarepta, na Sidónia, e Naamã, o sírio. Ambos acolheram profetas: a primeira acolheu Elias, o segundo Eliseu. Mas não foi uma receção fácil, passou através de experiências. A viúva hospedou Elias, apesar da carestia e embora o profeta fosse perseguido (cf. 1 Rs 17, 7-16), era um perseguido político-religioso. Naamã, por sua vez, não obstante fosse uma pessoa de nível muito elevado, aceitou o pedido do profeta Eliseu, que o levou a humilhar-se, a banhar-se sete vezes num rio (cf. 2 Rs 5, 1-14), como se fosse uma criança ignorante. A viúva e Naamã, em suma, acolheram através da disponibilidade e da humildade. O modo de acolher Deus é estar sempre disponível, acolhê-lo e ser humilde. A fé passa por isto: disponibilidade e humildade. A viúva e Naamã não rejeitaram os caminhos de Deus e dos seus profetas; foram dóceis, não rígidos nem fechados.

Irmãos e irmãs, Jesus também segue o caminho dos profetas: apresenta-se como não o esperaríamos. Aqueles que procuram milagres não os encontrarão – se procurarmos milagres não encontraremos Jesus – aqueles que procuram novas sensações, experiências íntimas, coisas estranhas; aqueles que procuram uma fé feita de poder e de sinais exteriores não O encontrarão. Não, eles não O encontrarão. Apenas aqueles que aceitam os seus caminhos e desafios, sem queixas, sem suspeitas, sem críticas nem caras feias, O encontrarão. Jesus, por outras palavras, pede-nos que O acolhamos na realidade quotidiana que vivemos; na Igreja de hoje, como ela é; naqueles que estão próximos todos os dias; na vida concreta dos necessitados, nos problemas das nossas famílias, nos pais, nos filhos, nos avós, ali acolhemos Deus. Ali está ele, convidando-nos a purificar-nos no rio da disponibilidade e em muitos banhos saudáveis de humildade. Precisamos de humildade para encontrar Deus, para nos deixarmos encontrar por Ele.

E nós, somos acolhedores ou parecidos com os seus concidadãos, que pensavam saber tudo sobre ele? “Estudei teologia, fiz o curso de catequese... Sei tudo sobre Jesus!”. Sim, como um estulto! Não sejas estúpido, não conheces Jesus. Talvez, após tantos anos de fé, pensemos que conhecemos bem o Senhor, muitas vezes com as nossas ideias e julgamentos. O risco é acostumar-nos, acostumar-nos a Jesus. E como nos habituamos? Fechando-nos, fechando-nos à Sua novidade, ao momento em que Ele bate à porta e nos diz algo novo, Ele quer entrar em nós. Devemos sair deste permanecer fixados nas nossas posições. O Senhor pede uma mente aberta e um coração simples. E quando uma pessoa tem uma mente aberta, um coração simples, tem a capacidade de se surpreender, de se maravilhar. O Senhor surpreende-nos sempre, esta é a beleza do encontro com Jesus. Que Nossa Senhora, modelo de humildade e disponibilidade, nos mostre o caminho para acolher Jesus.

Papa Francisco 
(Angelus, 30 de janeiro de 2022)

Papa surge à janela, na despedida do Gemelli, para dizer «obrigado a todos» - Ecclesia


sábado, 22 de março de 2025

 QUARESMA PASSO A PASSO - 2025

Domingo III da Quaresma - 23/03/2025

Evangelho Lc 13, 1-9 

«E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante.»

Neste terceiro domingo da quaresma continuamos a caminhada de conversão, que encetámos na quarta feira de cinzas. Hoje as leituras, por um lado são um forte apelo à conversão sincera, de coração, mas por outro lado revelam-nos o imenso amor de Deus para com o pecador, que se arrepende e se deixa amar por “Aquele que é”.

 

Na 1ªleitura (Ex 3, 1-8a.13-15)  Moisés vai-nos revelando Deus, atento ao sofrimento do Seu povo, ou seja, às nossas súplicas e angústias. Do meio da sarça que arde, mas não se consome, Deus dá-nos a garantia de que  todo o que n’Ele confia e, se lhe entrega de verdade, será por Ele libertado da “escravidão”, seja esta de que natureza for. Só em Deus seremos realmente livres. Deixemos que Deus nos ame e Se manifeste no concreto da nossa existência, como - “Aquele que é” - Amor sem limites por cada um de nós. 

“Naqueles dias, Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Ao levar o rebanho para além do deserto, chegou ao monte de Deus, o Horeb. Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor numa chama ardente, do meio de uma sarça. Moisés olhou para a sarça, que estava a arder, e viu que a sarça não se consumia. Então disse Moisés: «Vou aproximar-me, para ver tão assombroso espetáculo: por que motivo não se consome a sarça?». O Senhor viu que ele se aproximava para ver. Então Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés, Moisés!». Ele respondeu: «Aqui estou!» Continuou o Senhor: «Não te aproximes. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada». E acrescentou: «Eu sou o Deus de teus pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob». Então Moisés cobriu o rosto, com receio de olhar para Deus. Disse-lhe o Senhor: «Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel». Moisés disse a Deus: «Vou procurar os filhos de Israel e dizer-lhes: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas se me perguntarem qual é o seu nome, que hei de responder-lhes?». Disse Deus a Moisés: «Eu sou ‘Aquele que sou’». E prosseguiu: «Assim falarás aos filhos de Israel: O que Se chama ‘Eu sou’ enviou-me a vós». Deus disse ainda a Moisés: «Assim falarás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, Deus de vossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre, assim Me invocareis de geração em geração’».”

Na 2ªleitura (1 Cor 10, 1-6.10-12) é S. Paulo quem nos conduz aos caminhos do deserto e connosco faz memória do que por lá se passou. Ao refletirmos com ele, sobre todos os acontecimentos da caminhada, fica muito claro que somos todos pecadores e que ninguém é melhor do que o outro. No entanto, S.Paulo dá-nos a solução para todos os problemas: em Jesus Cristo , que é o rochedo da nossa salvação, que nos acompanha sempre, pois habita-nos, vive em nós, é possível vencer a morte, o pecado. Entreguemo-nos, na totalidade do nosso ser a Jesus, deixemo-nos guiar, conduzir por Ele, que  é o Único que nos pode dar a verdadeira Vida e arrisquemos tudo n’Ele: afinal, Deus é todo Amor e não sabe senão dar-se continuamente, por isso,  de que é que temos medo, o que é temos a perder?  

“Irmãos: Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, receberam todos o batismo de Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo. Mas a maioria deles não agradou a Deus, pois caíram mortos no deserto. Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo, a fim de não cobiçarmos o mal, como eles cobiçaram. Não murmureis, como alguns deles murmuraram, tendo perecido às mãos do Anjo exterminador. Tudo isto lhes sucedia para servir de exemplo e foi escrito para nos advertir, a nós que chegámos ao fim dos tempos. Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.”

No Evangelho (Lc 13, 1-9) Jesus, depois de nos fazer um forte apelo à conversão, revela-nos a paciência, a misericórdia, o Amor de Deus. Nunca duvidemos do Seu infinito Amor, por cada um de nós, e correspondamos dando “bom fruto”.

“Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante. Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano»." 

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho deste terceiro domingo de Quaresma (cf. Lc 13, 1-9) fala-nos da misericórdia de Deus e da nossa conversão. Jesus conta a parábola da figueira estéril. Um homem plantou uma figueira na sua vinha, e no verão vai muito confiante procurar o seu fruto mas não o encontra, pois aquela árvore é estéril. Levado por aquela desilusão que se repetiu por três anos, pensa em cortar a figueira, para plantar outra árvore. Chama então o camponês que está na vinha e manifesta-lhe a sua insatisfação, intimando-o a cortar a árvore, para que não ocupe inutilmente o terreno. Mas o vinhateiro pede ao dono que tenha paciência e que conceda um ano de tempo, durante o qual ele mesmo se preocupará por dedicar um cuidado mais atento e delicado àquela figueira, para estimular a sua produtividade. Esta é a parábola. O que representa esta parábola? O que representam as personagens desta parábola?

O dono representa Deus Pai e o vinhateiro é imagem de Jesus, enquanto a figueira é símbolo da humanidade indiferente e árida. Jesus intercede junto do Pai a favor da humanidade — e fá-lo sempre — pedindo-lhe para aguardar e conceder ainda mais tempo, a fim de que ela possa produzir os frutos do amor e da justiça. A figueira que o dono da parábola quer extirpar representa uma existência estéril, incapaz de doar, incapaz de praticar o bem. É símbolo de quem vive para si mesmo, satisfeito e tranquilo, instalado nas próprias comodidades, incapaz de dirigir o olhar e o coração para quantos estão ao seu lado em condições de sofrimento, pobreza e dificuldade. A esta atitude de egoísmo e de esterilidade espiritual, contrapõe-se o grande amor do vinhateiro em relação à figueira: pede ao dono que espere, ele tem paciência, sabe esperar, dedica-lhe o seu tempo e o seu trabalho. Promete ao dono que terá um cuidado especial para com a árvore infeliz.

E esta similitude do vinhateiro manifesta a misericórdia de Deus, que nos concede um tempo para a conversão. Todos temos necessidade de nos converter, de dar um passo em frente, e a paciência de Deus, a misericórdia, acompanha-nos nisto. Não obstante a esterilidade, que às vezes marca a nossa existência, Deus tem paciência e oferece-nos a possibilidade de mudar e fazer progressos no caminho do bem. Mas a dilação implorada e concedida na expetativa de que a árvore finalmente frutifique indica também a urgência da conversão. O vinhateiro diz ao dono: «Senhor, deixa-a mais este ano» (v. 8). A possibilidade da conversão não é ilimitada; por conseguinte é necessário colhê-la imediatamente; caso contrário perder-se-ia para sempre. Podemos pensar nesta Quaresma: o que devo fazer para me aproximar mais ao Senhor, para me converter, e “cortar” o que não está bem? “Não, esperarei a próxima Quaresma”. Mas estarei vivo na próxima Quaresma? Pensemos hoje, cada um de nós: o que devo fazer face a esta misericórdia de Deus que me espera e perdoa sempre? O que devo fazer? Podemos confiar infinitamente na misericórdia de Deus, mas sem abusar dela. Não devemos justificar a preguiça espiritual, mas aumentar o nosso esforço para corresponder prontamente a esta misericórdia com sinceridade de coração.

No tempo de Quaresma, o Senhor convida-nos à conversão. Cada um de nós deve sentir-se interpelado por esta chamada, corrigindo algo na própria vida, no modo de pensar, de agir e viver as relações com o próximo. Ao mesmo tempo, devemos imitar a paciência de Deus que confia na capacidade que todos têm de se poderem “reerguer” e retomar o caminho. Deus é Pai e não apaga a chama ténue, mas acompanha e ampara quem é débil para que se fortaleça e ofereça o seu contributo de amor à comunidade. A Virgem Maria nos ajude a viver estes dias de preparação para a Páscoa como um tempo de renovação espiritual e de abertura confiante à graça de Deus e à sua misericórdia.

Papa Francisco 
(Angelus, 24 de março de 2019)

Pai Nosso que estais nos céus, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.