domingo, 3 de novembro de 2024
Semana de oração pelos seminários.
sábado, 2 de novembro de 2024
XXXI DOMINGO DO TEMPO COMUM
Nas leituras de hoje somos
desafiados a viver como Jesus nos ensinou, isto é, tendo gravada no coração a
lei do Senhor: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós
mesmos. No fundo trata-se de um desafio a viver de Deus, com Deus e por Deus,
ou melhor, dito de outra forma, somos chamados a viver do Amor, com Amor e por
Amor, porque afinal trata-se de viver numa relação com Deus, que é Amor.
Na 1ªleitura (Deut 6, 2-6) o autor sagrado projeta-nos para o que nos faz felizes e está gravado
no nosso coração: “Amarás o Senhor teu Deus com
todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.”
“Moisés
dirigiu-se ao povo, dizendo: «Temerás o Senhor, teu Deus, todos os dias da tua
vida, cumprindo todas as suas leis e preceitos que hoje te ordeno, para que
tenhas longa vida, tu, os teus filhos e os teus netos. Escuta, Israel, e cuida
de pôr em prática o que te vai tornar feliz e multiplicar sem medida na terra
onde corre leite e mel, segundo a promessa que te fez o Senhor, Deus de teus
pais. Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu
Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. As
palavras que hoje te prescrevo ficarão gravadas no teu coração».”
Na
2ªleitura (Heb 7,23-28) S.Paulo continua a situar-nos no verdadeiro e único sacerdote,
perfeito para sempre, que é Jesus Cristo. Deixemo-nos amar por
Ele, que deu a Sua vida por nós e, de uma vez para sempre, nos resgatou para
Deus. Diz-nos, ainda, S.Paulo que Jesus está a interceder continuamente por nós
junto do Pai Eterno. Confiemos e entreguemo-nos de coração a tão poderoso
intercessor.
“Irmãos: Os
sacerdotes da antiga aliança sucederam-se em grande número, porque a morte os
impedia de durar sempre. Mas Jesus, que permanece eternamente, possui um
sacerdócio eterno. Por isso pode salvar para sempre aqueles que por seu
intermédio se aproximam de Deus, porque vive perpetuamente para interceder por
eles. Tal era, na verdade, o sumo sacerdote que nos convinha: santo, inocente,
sem mancha, separado dos pecadores e elevado acima dos céus, que não tem
necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios,
primeiro pelos seus próprios pecados, depois pelos pecados do povo, porque o
fez de uma vez para sempre quando Se ofereceu a Si mesmo. A Lei constitui sumos
sacerdotes homens revestidos de fraqueza, mas a palavra do juramento, posterior
à Lei, estabeleceu o Filho sumo sacerdote perfeito para sempre.”
No Evangelho
(Mc 12, 28b-34) é o próprio Jesus que nos diz qual é o caminho da nossa
salvação: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. No
fundo é o mandamento do Amor. E se vivermos de Deus, aprenderemos de Jesus a
viver como Ele nos ensinou. Sigamos o que nos disse, deixemo-nos desafiar por
Ele, como fez o escriba de que fala neste evangelho.
“Naquele
tempo, aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de
todos os mandamentos?». Jesus respondeu: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O
Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu
coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas
forças’. O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há
nenhum mandamento maior que estes». Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre!
Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com
todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo
como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios». Ao ver
que o escriba dera uma resposta inteligente, Jesus disse-lhe: «Não estás longe
do reino de Deus». E ninguém mais se atrevia a interrogá-l’O.”
Senhor,
ensina-me a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesma.
No centro do Evangelho deste
domingo (cf. Mc 12,
28b-34),
está o mandamento do amor: amor a Deus e amor ao próximo. Um
escriba pergunta a Jesus: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» (v. 28). Ele responde, citando aquela profissão de fé
com a qual cada israelita inicia e conclui o seu dia, e que começa com as
palavras: «Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor» (Dt 6, 4).
Deste modo Israel conserva a sua fé na realidade fundamental de todo o seu
credo: existe um único Senhor, e aquele Senhor é “nosso”, no sentido que se
uniu a nós com um pacto indissolúvel, nos amou, nos ama e nos amará para
sempre. É desta nascente, deste amor de Deus, que deriva para nós o duplo
mandamento: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua
alma, com todo o teu espírito e com todas as tuas forças [...] Amarás o teu
próximo como a ti mesmo» (vv.
30-31).
Escolhendo estas duas Palavras,
dirigidas por Deus ao seu povo, e unindo-as, Jesus ensinou de uma vez para
sempre que o amor a Deus e o amor ao próximo são inseparáveis, aliás, mais
ainda, que se sustentam um ao outro. Não obstante sejam postos em sequência,
eles são os dois lados de uma única medalha: vividos juntos, são a verdadeira
força do crente! Amar a Deus significa viver d’Ele e para Ele, por aquilo que
Ele é pelo que Ele faz. E o nosso Deus é doação incondicional,
é perdão ilimitado, é relação que promove e faz crescer. Por
isso, amar a Deus quer dizer investir todos os dias as próprias energias para
ser seus colaboradores, servindo de modo incondicional o nosso próximo,
procurando perdoar de forma ilimitada e cultivando relações de comunhão e de
fraternidade.
O evangelista Marcos não se
preocupa em especificar quem é o próximo, porque o próximo é a
pessoa que eu encontro no caminho, nos meus dias. Não se trata de
pré-selecionar o meu próximo: isto não é cristão. Acho que o meu próximo é
aquele que eu pré-selecionei: não, isto não é cristão, é pagão; mas trata-se de
ter olhos para o ver e coração para desejar o seu bem. Se nos exercitarmos para
ver com o olhar de Jesus, colocar-nos-emos sempre à escuta e ao lado dos
carenciados. Certamente, as necessidades do próximo exigem respostas eficazes,
mas antes ainda requerem partilha. Com uma imagem podemos dizer que o faminto
tem necessidade não apenas de um prato de sopa, mas também de um sorriso, de
ser ouvido e inclusive de uma oração, talvez recitada juntos. O Evangelho de
hoje convida todos nós a visar não só as urgências dos irmãos mais pobres, mas
sobretudo a prestar atenção às suas necessidades de proximidade fraterna, de
sentido da vida e de ternura. Isto interpela as nossas comunidades cristãs:
trata-se de evitar o risco de ser comunidades que vivem de muitas iniciativas,
mas de poucas relações; o risco de comunidades “estações de serviço” mas de
pouca companhia, no sentido pleno e cristão deste termo.
Deus, que é amor, criou-nos por
amor e para que possamos amar os outros, permanecendo unidos a Ele. Seria
ilusório pretender amar o próximo, sem amar a Deus; e seria igualmente ilusório
pretender amar a Deus, sem amar o próximo. As duas dimensões do amor, a Deus e
ao próximo, na sua unidade, caraterizam o discípulo de Cristo. A Virgem Maria
nos ajude a acolher e testemunhar este ensinamento luminoso na vida de todos os
dias.
quinta-feira, 31 de outubro de 2024
SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS
A comunhão dos
santos ocupa um lugar muito importante na liturgia da Igreja. Já desde o século
V que se faz a memória dos santos na oração eucarística e, ao longo do ano, em
todas as paróquias se fazem festas aos patronos, ou se celebra a memória de
santos particularmente ligados à devoção de cada comunidade.
Contudo, ao longo dos tempos, numerosas pessoas simples e humildes deixaram, àqueles que viveram à sua volta, o testemunho autêntico e admirável da
santidade. É justo celebrá-los ao lado daqueles que estão inscritos na lista
das canonizações.
A liturgia celebra o Deus três vezes santo rodeado de todos os eleitos
santificados pela sua graça. Cada um não reflete senão uma parte ínfima da
santidade infinita de Deus. A adoração de Deus é o centro da celebração de
todos os santos e a solenidade faz-nos tomar consciência da multidão de todos
os resgatados que nos precederam e do mundo invisível que nos espera. Por
solidariedade, eles intercedem por nós.
A Vida dos santos tem um valor pedagógico, ela encaminha-nos para Cristo. Os
santos são o evangelho encarnado. O mistério da Igreja é a comunhão fraterna
que existe entre os vivos e os mortos através da oração e dos sacramentos. Nós
formamos um só corpo do qual Cristo é a cabeça. Que a intercessão e o exemplo
dos santos nos ajudem a libertar o santo que se esconde em nós como um bloco de
mármore, ainda não esculpido, que o amor de Deus quer cinzelar para que apareça
a sua imagem.
Celebramos a Solenidade de Todos os Santos (...) revisitando os artigos do Credo que nos pede que
reafirmemos que acreditamos na ressurreição da carne e na vida que há de vir.
Por isso, o mesmo Concílio afirma na Constituição Lumem Gentium:
“Munidos
de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua
condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por
seu caminho” (LG 11).
Ou seja, o Vaticano II lembra que a santidade é um caminho acessível a todos (é
um direito) e, mais adiante, afirma que desde o batismo todos somos chamados (é
um dever) à santidade:
“A
nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério o sagrado Concílio expõe, é
indefetivelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o
Espírito o único Santo, amou a Igreja como esposa, entregou-se por ela, para a
santificar (cf.
Ef. 5, 25-26) e uniu-a a Si como seu corpo, cumulando-a com o
dom do Espírito Santo, para Glória de Deus. Por isso, todos na Igreja são
chamados à santidade” (LG 39).
A Solenidade de todos os Santos é inseparável da comemoração dos defuntos. A primeira celebração é vivida na alegria; a segunda está mais ligada à recordação daqueles que amamos. Não devemos nunca esquecer que o céu eternizará todos os atos de amor e de serviço que os homens cumpriram neste mundo. Sempre que os homens se convertem e fazem obras de justiça, de liberdade e de respeito pelos outros, o Reino de Deus deixa-se já ver e antecipa a pátria eterna para onde todos caminhamos.
Na 1ª leitura (Ap 7,2-4.9-14) a visão dos que passaram pela grande tribulação e lavaram as túnicas no sangue do Cordeiro e dos 144 mil que foram marcados na fronte, desperta em nós a coragem de atravessar a vida dando o melhor de nós mesmos como pessoas de fé, porque na casa do Pai há mesmo lugar para nós.
"Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: «Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: «Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro»."
Na 2ª leitura (1Jo 3,1-3) S. João desperta em nós um sentimento de gratidão e louvor a Deus, pelas maravilhas inimagináveis que opera nos homens de ontem, de hoje e de sempre.
"Caríssimos: Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar
filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O
conheceu a Ele. Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se
manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se
manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. Todo
aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como
Ele é puro."
No Evangelho (Mt 5,1-12), Jesus apresenta uma proposta de Santidade: as
bem-aventuranças. Que o Senhor nos ajude e o Espírito Santo nos ilumine para as
vivermos, no dia a dia da vida, pois só este caminho nos conduz à
santidade.
"Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que
choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de
justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque
alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a
Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de
Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque
deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos
insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa»."
Bendito e louvado sejas Senhor, hoje e sempre, pelo Teu Amor por cada um de nós e por toda a humanidade.
Estimados
irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje
celebramos Todos os Santos e na Liturgia ressoa a mensagem “programática” de
Jesus, nomeadamente as Bem-aventuranças (cf. Mt 5,
1-12a). Mostram-nos
o caminho que conduz ao Reino de Deus e à felicidade: o caminho da humildade,
da compaixão, da mansidão, da justiça e da paz. Ser santo significa caminhar
por esta estrada. Concentremo-nos agora em dois aspetos deste estilo de vida.
Dois aspetos que são próprios deste estilo de vida de santidade: alegria e profecia.
A alegria. Jesus
começa com a palavra «bem-aventurados» (Mt 5,
3). É o anúncio
principal, o anúncio de uma felicidade sem precedentes. A bem-aventurança, a
santidade não é um programa de vida feito apenas de esforços e renúncias, mas é
sobretudo a alegre descoberta de ser filhos amadas por Deus. E isto enche-nos
de alegria. Não é uma conquista humana, é um dom que recebemos: somos santos
porque Deus, que é o Santo, vem habitar na nossa vida. É Ele quem nos dá a
santidade. Por isto somos bem-aventurados! A alegria do cristão, portanto, não
é a emoção de um instante ou um simples otimismo humano, mas a certeza de poder
enfrentar todas as situações sob o olhar amoroso de Deus, com a coragem e a
força que vem d’Ele. Os santos, mesmo no meio de muitas tribulações,
experimentaram esta alegria e deram testemunho dela. Sem alegria, a fé torna-se
um exercício rigoroso e opressivo, e corre o risco de adoecer de tristeza.
Consideremos estas palavras: adoecer de tristeza. Um Padre do deserto disse que
a tristeza é um «verme do coração», que corrói a vida (cf. EVAGRIO PONTICO, Os oito espíritos da
maldade, XI). Questionemo-nos sobre isto: somos cristãos alegres?
Sou ou não um cristão alegre? Difundimos alegria ou somos pessoas sombrias,
tristes e com cara de funeral? Lembremo-nos que não há santidade sem
alegria!
O segundo
aspeto: a profecia. As bem-aventuranças são dirigidas aos pobres,
aos aflitos, a quantos têm fome de justiça. É uma mensagem contracorrente. Na
verdade, o mundo diz que para ser feliz é preciso ser rico, poderoso, sempre
jovem e forte, gozar de fama e sucesso. Jesus inverte estes critérios e faz um
anúncio profético - e esta é a dimensão profética da santidade -: a verdadeira
plenitude de vida é alcançada seguindo Jesus, praticando a sua Palavra. E isto
significa outra pobreza, ou seja, ser pobre dentro, esvaziar-se a si próprio
para dar lugar a Deus. Quem se considera rico, bem-sucedido e seguro, baseia
tudo em si próprio e fecha-se a Deus e aos irmãos, enquanto aqueles que sabem
que são pobres e não são auto- suficientes permanecem abertos a Deus e ao
próximo. E encontram a alegria. As bem-aventuranças, então, são a
profecia de uma nova humanidade, de uma nova forma de viver: fazer-se
pequeno e confiar-se a Deus, em vez de emergir sobre os outros; ser manso, em
vez de procurar impor-se; praticar a misericórdia, em vez de pensar apenas em
si próprio; comprometer-se com a justiça e a paz, em vez de alimentar, até com
conivência, injustiça e desigualdade. A santidade é acolher e pôr em prática,
com a ajuda de Deus, esta profecia que revoluciona o mundo. Então podemos
perguntar-nos: testemunho a profecia de Jesus? Expresso o espírito profético
que recebi no Batismo? Ou será que me conformo com o conforto da vida e com a
minha preguiça, pensando que tudo corre bem se estiver bem para mim? Levo ao
mundo a novidade jubilosa da profecia de Jesus ou as queixas habituais por
aquilo que não me agrada? Perguntas que nos fará bem fazer a nós próprios.
Que a Santa
Virgem nos dê algo da sua alma, aquela alma abençoada que alegremente
engrandeceu o Senhor, que “derruba os poderosos dos tronos e eleva os humildes”
(cf. Lc 1, 52).
sábado, 26 de outubro de 2024
XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM
Hoje, mais do que noutros
domingos, a nossa alma exulta de alegria, louva e canta, porque o Senhor nos
faz saber, através da liturgia da Palavra, que fazemos parte do Seu povo e em
Jesus Cristo, o “Filho de David”, a todo aquele que O busca continuamente de
coração sincero, O chama insistentemente, todo Se revela num Amor sem fim.
Na 1ªleitura (Jer 31, 7-9) o profeta Jeremias apela à confiança em
Deus, por mais difíceis que sejam as circunstâncias da vida. Fá-lo dando-nos
conta do anúncio do regresso do povo de Israel à terra prometida, após o exílio
na Babilónia . Às vezes a espera é longa e difícil, mas Deus está sempre
connosco, nunca nos deixa sós. Deixemo-nos conduzir por Ele: “À ida vão a chorar, levando as sementes; à
volta vêm a cantar, trazendo os molhos de espigas”.
“Eis o que diz
o Senhor: «Soltai brados de alegria por causa de Jacob, enaltecei a primeira
das nações. Fazei ouvir os vossos louvores e proclamai: ‘O Senhor salvou o seu
povo, o resto de Israel’. Vou trazê-los das terras do Norte e reuni-los dos
confins do mundo. Entre eles vêm o cego e o coxo, a mulher que vai ser mãe e a
que já deu à luz. É uma grande multidão que regressa. Eles partiram com
lágrimas nos olhos e Eu vou trazê-los no meio de consolações. Levá-los-ei às
águas correntes, por caminho plano em que não tropecem. Porque Eu sou um Pai
para Israel e Efraim é o meu primogénito».”
Na
2ªleitura (Hebr 5, 1-6) S. Paulo situa-nos em Jesus, o único e
verdadeiro sacerdote, que nos conquistou para Deus. Só Ele nos pode curar das
nossas cegueiras e libertar-nos para amarmos a Deus. Deixemos que nos conduza
ao Pai, entreguemo-nos de coração, para que, também através de nós, outros
conheçam o quanto são amados por Deus.
“Todo o sumo
sacerdote, escolhido de entre os homens, é constituído em favor dos homens, nas
suas relações com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Ele
pode ser compreensivo para com os ignorantes e os transviados, porque também
ele está revestido de fraqueza; e, por isso, deve oferecer sacrifícios pelos
próprios pecados e pelos do seu povo. Ninguém atribui a si próprio esta honra,
senão quem foi chamado por Deus, como Aarão. Assim também, não foi Cristo que
tomou para Si a glória de Se tornar sumo sacerdote; deu-Lha Aquele que Lhe
disse: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei», e como disse ainda noutro lugar:
«Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec».”
No
evangelho (Mc 10, 46-52) S. Marcos projeta-nos para Jericó e
faz-nos questionar sobre quem somos: alguém da multidão que seguia Jesus, um
discípulo, Bartimeu, ou um pouco de cada um?! A mistura de sentimentos, que a
leitura gera, desembocará, por certo, num grito semelhante ao de
Bartimeu: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Tenhamos a
coragem deste homem e, de um salto, vamos ter com Jesus, porque Ele continua a
perguntar-nos, também a nós: «Que queres que Eu te faça?».
“Naquele tempo, quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim». Jesus parou e disse: «Chamai-o». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?». O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.”
Jesus, Filho
de David, tem compaixão de mim. Salva-me Senhor!
Estimados
irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho da Liturgia de hoje
narra sobre Jesus que, saindo de Jericó, restitui a vista a Bartimeu, um cego
que mendiga à beira da estrada (cf. Mc 10,
46-52).
É um encontro importante, o último antes da entrada do Senhor em Jerusalém para
a Páscoa. Bartimeu tinha perdido a vista, mas não a voz! De facto, quando soube
que Jesus estava prestes a passar, começou a gritar: «Filho de David, Jesus,
tem piedade de mim!» (v.
47).
E grita, grita mesmo. Os discípulos e a multidão irritaram-se com os seus
gritos e repreenderam-no para que se calasse. Mas ele grita ainda mais alto:
«Filho de David, tem piedade de mim!» (v.
48).
Jesus ouve, e pára imediatamente. Deus ouve sempre o grito dos pobres, e não
ficou absolutamente perturbado pela voz de Bartimeu, aliás, dá-se conta de que
está cheio de fé, uma fé que não tem medo de insistir, de bater à porta do
coração de Deus, apesar da incompreensão e das repreensões. E aqui reside a
raiz do milagre. Com efeito, Jesus diz-lhe: «A tua fé te salvou» (v. 52).
A fé de Bartimeu transparece da
sua oração. Não se trata de uma oração tímida, convencional. Antes de tudo,
chama ao Senhor “Filho de David”: ou seja, reconhece-o como Messias, Rei que
vem ao mundo. Depois chama-o pelo nome, com confiança: “Jesus”. Não tem medo
d’Ele, não se distancia. E assim, do coração, grita ao Deus amigo todo o seu
drama: “Tem piedade de mim”. Apenas aquela oração: “Tem piedade de mim”. Não
lhe pede algumas moedas, como faz com os transeuntes. Não. Àquele que
tudo pode, pede tudo. Às pessoas pede moedas, a Jesus que pode fazer
tudo, pede tudo: “Tem piedade de mim, tem piedade de tudo o que eu
sou”. Não pede uma graça, mas apresenta-se: pede misericórdia para a sua
pessoa, para a sua vida. Não é um pedido insignificante, mas é muito bonito,
pois invoca a piedade, isto é, a compaixão, a misericórdia de Deus, a sua
ternura.
Bartimeu não usa muitas
palavras. Diz o essencial e confia-se ao amor de Deus, que pode fazer a sua
vida florescer novamente, realizando o que é impossível aos homens. Por isso
ele não pede esmola ao Senhor, mas manifesta tudo, a sua cegueira e o seu sofrimento,
que superava o facto de não poder ver. A cegueira era a ponta do iceberg,
mas no seu coração deve ter havido feridas, humilhações, sonhos despedaçados,
erros, remorsos. Ele rezava com o coração. E nós? Quando pedimos uma graça a
Deus, será que colocamos na oração a nossa história, feridas, humilhações,
sonhos desfeitos, erros, remorsos?
“Filho de David, Jesus, tem
piedade de mim!”. Façamos hoje esta oração. E perguntemo-nos: “Como está a
minha oração?”. Cada um de nós se pergunte: “Como vai a minha oração?”. É
corajosa, tem a boa insistência de Bartimeu, sabe “alcançar” o Senhor
que passa, ou contenta-se em dar-lhe uma saudação formal de vez em quando,
quando me lembro? Essas orações tíbias não ajudam minimamente. Ou então: a
minha oração é “substanciosa”, expõe o meu coração diante do Senhor?
Apresento-lhe a história e os rostos da minha vida? Ou é anémica, superficial,
constituída por rituais sem afeto nem coração? Quando a fé está viva, a oração
é sentida: não mendiga tostões, não se reduz às necessidades do momento. A
Jesus, que tudo pode, deve ser pedido tudo. Não vos esqueçais disto. A Jesus
que tudo pode, deve-se pedir tudo, com a minha insistência perante Ele. Ele não
vê a hora de derramar a sua graça e alegria nos nossos corações, mas
infelizmente somos nós que mantemos a distância, talvez por timidez, ou
preguiça ou incredulidade.
Muitos de nós, quando rezamos,
não acreditamos que o Senhor possa fazer um milagre. Lembro-me da história –
que constatei – daquele pai a quem os médicos disseram que a sua filha de nove
anos não superaria aquela noite; estava no hospital. Ele, de autocarro,
percorreu setenta quilómetros até ao santuário de Nossa Senhora. Estava fechado
e ele, agarrado ao portão, passou a noite inteira a rezar: “Senhor, salva-a!
Senhor, dá-lhe a vida!”. Rezava a Nossa Senhora, toda a noite, gritando a Deus,
gritando do coração. Depois, de manhã, quando regressou ao hospital, encontrou
a sua esposa a chorar. E pensou: “Morreu”. E a esposa disse: “Não se entende,
não se entende, os médicos dizem que é uma coisa estranha, parece que sarou”. O
grito daquele homem que pedia tudo foi ouvido pelo Senhor que lhe deu tudo.
Isto não é uma história: eu mesmo presenciei isto, na outra diocese. Temos esta
coragem na oração? Àquele que nos pode dar tudo, peçamos tudo, como Bartimeu,
que foi um grande mestre, um grande mestre de oração. Ele, Bartimeu, seja para
nós um exemplo com a sua fé concreta, insistente e corajosa. E que Nossa
Senhora, Virgem orante, nos ensine a dirigirmo-nos a Deus de todo o coração, na
confiança de que Ele ouve atentamente cada oração.
Papa Francisco
(Angelus , 24 de outubro de 2021)
quinta-feira, 24 de outubro de 2024
CARTA ENCÍCLICA DILEXIT NOS
CARTA ENCÍCLICA
DILEXIT NOS
DO
SANTO PADRE
FRANCISCO
SOBRE O AMOR HUMANO E DIVINO
DO CORAÇÃO DE JESUS
1. «Amou-nos», diz São Paulo referindo-se a
Cristo (Rm 8, 37), para nos ajudar a descobrir que nada «será capaz
de separar-nos» desse amor (Rm 8, 39). Paulo afirmava-o com firme
certeza, porque o próprio Cristo tinha garantido aos seus discípulos: «Eu vos
amei» (Jo 15, 9.12). Disse também: «Chamei-vos amigos» (Jo15,
15). O seu coração aberto precede-nos e espera-nos incondicionalmente, sem
exigir qualquer pré-requisito para nos amar e oferecer a sua amizade: Ele
amou-nos primeiro (cf. 1 Jo 4, 10). Graças a
Jesus, «conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4,
16).
CAPÍTULO I
A IMPORTÂNCIA DO CORAÇÃO
2. Para exprimir o amor de Jesus Cristo, recorre-se frequentemente ao símbolo do coração. Há quem se interrogue se isto atualmente tenha um significado válido. Porém, é necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência [1]





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