segunda-feira, 24 de abril de 2023

  TEMPO PASCAL - 2023 

Terça-feira da semana III do Tempo Pascal - dia 17 - 25/04/2023

Evangelho Mc 16, 15-20

«Ide pelo mundo, anunciai o Evangelho!».

Hoje, no feriado nacional do 25 de abril,  a Igreja celebra a festa de S. Marcos Evangelista. 

O evangelho apresenta o relato do envio dos apóstolos, no momento da despedida de Jesus, imediatamente antes ser elevado aos céus. As indicações fortalecem os enviados porque lhes é concedido o mesmo poder d'Aquele que os envia. No final fica a certeza de que não estarão sós “o Senhor cooperava com eles”.

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Naquele tempo, Jesus apareceu aos onze Apóstolos e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

Jesus apareceu aos onze e aparece-me também a mim. Este aparecer é oferta de vida ressuscitada, de vida eterna. Perante a experiência interior com Cristo ressuscitado ganham sentido as palavras de envio. Jesus diz-me hoje: “Tu, que experimentaste a força da minha ressurreição vai e anuncia essa notícia a todos. Àqueles que acreditarem batiza-os e serão salvos”. E eu aceito esta missão e procuro realizá-la na minha vida porque confio que não estou só e o sucesso da palavra que anuncio está em Jesus que coopera comigo. 

Tu cooperas comigo, Senhor, sempre que saio de mim para corresponder à missão evangelizadora que me confiaste no dia do meu batismo. Que eu não vacile diante das serpentes nem tema pelo veneno com que possa ser contaminado. Tu estás comigo e confirmas a Tua palavra com sinais poderosos, tanto na minha vida como na vida daqueles a quem me envias. 

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A página evangélica (Mc 16, 15-20) - a conclusão do Evangelho de Marcos - apresenta-nos o último encontro do Ressuscitado com os discípulos antes de ascender à direita do Pai. Normalmente, como sabemos, as cenas de despedida são tristes, causando a quantos permanecem um sentimento de perda, de abandono; mas nada disto acontece com os discípulos. Apesar da separação do Senhor, eles não se mostram desolados, mas, pelo contrário, alegres e prontos a partir como missionários pelo mundo.

Por que não ficam tristes os discípulos? Por que devemos também nós regozijar-nos ao ver Jesus subir ao céu?

A Ascensão completa a missão de Jesus entre nós. Com efeito, se foi por nós que Jesus desceu do céu, é sempre por nós que Ele sobe. Depois de ter descido à nossa humanidade e de a ter redimido - Deus, o Filho de Deus, desce e faz-se homem, assume a nossa humanidade e redime-a - agora Ele sobe ao céu, levando consigo a nossa carne. É o primeiro homem que entra no céu, pois Jesus é homem, verdadeiro homem, é Deus, verdadeiro Deus; a nossa carne está no céu e isto dá-nos alegria. À direita do Pai encontra-se agora um corpo humano, pela primeira vez, o corpo de Jesus, e neste mistério cada um de nós contempla o seu destino futuro. Não se trata de forma alguma de abandono, Jesus permanece para sempre com os discípulos, connosco. Permanece na oração, pois como homem reza ao Pai, e como Deus, homem e Deus, mostra-lhe as feridas, as chagas com as quais nos redimiu. A oração de Jesus está ali, com a nossa carne: é um de nós, Deus homem, e reza por nós. E isto deve dar-nos segurança, aliás alegria, uma grande alegria! E o segundo motivo de alegria é a promessa de Jesus. Ele disse-nos: «Enviar-vos-ei o Espírito Santo». E ali, com o Espírito Santo, dá-se aquele mandamento que Ele faz precisamente na despedida: «Ide pelo mundo, anunciai o Evangelho!». E é a força do Espírito Santo que nos leva pelo mundo para anunciar o Evangelho. É o Espírito Santo daquele dia, que Jesus prometeu, e nove dias depois veio na festa de Pentecostes. Foi precisamente o Espírito Santo que tornou possível que todos nós sejamos assim hoje. Uma grande alegria! Jesus foi para o céu: o primeiro homem diante do Pai. Partiu com as feridas, que foram o preço da nossa salvação, e reza por nós. E depois envia-nos o Espírito Santo, promete-nos o Espírito Santo, para irmos e evangelizarmos. 

Papa Francisco

(in Regina Caeli, 16 de maio de 2021)

Semana de Oração pelas Vocações - 23 a 30 de abril de 2023

 

domingo, 23 de abril de 2023

100 dias, 1 Sonho - Sou JMJ - Ecclesia

 


  TEMPO PASCAL - 2023 


Segunda-feira da semana III do Tempo Pascal - dia 16 - 24/04/2023

EVANGELHO Jo 6, 22-29

«Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará. A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo»;

«A obra de Deus consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou»

O texto começa por nos mostrar a situação em que se vai estabelecer o diálogo entre Jesus e o povo. Todos partiram depois da multiplicação dos pães menos Jesus, mas apesar disso, Ele não está ali. Procuram-no, mas Jesus depressa lhes faz perceber que não o fazem pela verdadeira razão: “vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados”. Temos duas realidades, Jesus e o povo, o alimento que perece e o alimento da vida eterna. É necessário trabalho para passar de uma realidade para outra: “trabalhai”, diz Jesus. O povo, então, pergunta «Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?». Entenderam que estavam a trabalhar no lado errado e pela razão errada. E, então, Jesus mostra-lhes que é necessário acreditar n'Ele.

Depois de Jesus ter saciado os cinco mil homens, os seus discípulos viram-n’O a caminhar sobre as águas. No dia seguinte, a multidão que permanecera no outro lado do mar notou que ali só estivera um barco e que Jesus não tinha embarcado com os discípulos; estes tinham partido sozinhos. Entretanto, chegaram outros barcos de Tiberíades, perto do lugar onde eles tinham comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças. Quando a multidão viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam ali, subiram todos para os barcos e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus. Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe: «Mestre, quando chegaste aqui?» Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará. A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo». Disseram-Lhe então: «Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?» Respondeu-lhes Jesus: «A obra de Deus consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou».

Fico a olhar para o barco vazio à espera de Jesus até me dar conta de que Ele não está ali. Corro à sua procura na busca das soluções terrenas quando Ele me fala de realidades celestes. Procuro uma resposta imediata, mas perecível e Jesus oferece-me uma resposta que exige trabalho, mas dura para sempre. Preciso avaliar melhor a minha forma de procurar Jesus e de estar com Ele. Preciso avaliar melhor as razões da minha esperança.


Que devo fazer, Senhor? Ensina-me a trabalhar pelo alimento que permanece até à vida eterna. Mostra-me o verdadeiro valor da Tua presença em mim, das Tuas palavras e dos Teus gestos, para que não me perca em fantasias que passam e não deixam nada, mas seja capaz de me fixar em Ti, porque és o verdadeiro Pão que desceu dos céus.

aliturgia.com

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

A cena inicial do Evangelho na Liturgia de hoje (cf. Jo 6, 24-35) mostra-nos algumas barcas que se dirigem para Cafarnaum: a multidão vai à procura de Jesus. Poderíamos pensar que isto é uma coisa muito boa, mas o Evangelho ensina-nos que não basta procurar Deus, devemos também perguntar porque O procuramos. De facto, Jesus diz: «buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados» (v. 26). Com efeito, as pessoas tinham testemunhado o milagre da multiplicação dos pães, mas não compreenderam o significado do gesto: pararam no milagre exterior e no pão material: unicamente, sem ir mais longe, ao significado disso.

Eis então uma primeira pergunta que todos podemos fazer a nós mesmos: por que procuramos o Senhor? Por que procuro o Senhor? Quais são as motivações da minha fé, da nossa fé? Precisamos de discernir isto, porque entre as muitas tentações que temos na vida, há uma que poderíamos definir tentação idólatra. É o que nos leva a procurar Deus para o nosso próprio uso, para resolver problemas, para obter d’Ele o que não podemos obter por nós mesmos, por interesse. Mas desta forma a fé permanece superficial e até – se me é permitido dizê-lo – a fé permanece milagreira: procuramos Deus para nos alimentarmos e depois esquecemo-nos d'Ele quando estamos satisfeitos. No centro desta fé imatura não há Deus, há as nossas necessidades. Penso nos nossos interesses, em tantas coisas... É correto apresentar as nossas necessidades ao coração de Deus, mas o Senhor, que age muito para além das nossas expetativas, deseja viver connosco, antes de mais, numa relação de amor. E o verdadeiro amor é abnegado, é gratuito: não amamos para depois receber um favor em troca! Isto é interesse, e muitas vezes na vida somos interesseiros.

Uma segunda pergunta pode ajudar-nos, aquela que a multidão faz a Jesus: «Que devemos fazer para executar as obras de Deus?» (v. 28). É como se o povo, provocado por Jesus, dissesse: “Como podemos purificar a nossa busca de Deus? Como passamos de uma fé mágica, que pensa apenas nas próprias necessidades, para uma fé que agrade a Deus?”. E Jesus indica o caminho: responde que a obra de Deus é acolher Aquele que o Pai enviou, ou seja, acolher a Ele, Jesus. Não significa acrescentar práticas religiosas nem observar preceitos especiais; mas acolher Jesus, acolhê-lo na vida, viver uma história de amor com Jesus. Ele purificará a nossa fé. Sozinhos, não somos capazes. Mas o Senhor deseja uma relação de amor connosco: antes das coisas que recebemos e fazemos, existe Ele para ser amado. Há uma relação com Ele que vai para além das lógicas do interesse e do cálculo.

Isto é válido em relação a Deus, mas também nas nossas relações humanas e sociais: quando procuramos sobretudo a satisfação das nossas necessidades, corremos o risco de usar pessoas e de instrumentalizar as situações para as nossas finalidades. Quantas vezes já ouvimos de uma pessoa: “Mas esta usa as pessoas e depois esquece-as”. Usar as pessoas para o próprio benefício: é vergonhoso. E uma sociedade que se concentra nos interesses e não nas pessoas é uma sociedade que não gera vida. O convite do Evangelho é este: em vez de nos preocuparmos apenas com o pão material que nos alimenta, aceitemos Jesus como o pão da vida e, a partir da nossa amizade com ele, aprendamos a amar-nos uns aos outros. Com gratuidade e sem cálculos. Amor gratuito e sem cálculos, sem usar pessoas, com abnegação, generosidade e magnanimidade.

Peçamos agora à Santíssima Virgem, Ela que viveu a mais bela história de amor com Deus, que nos conceda a graça de nos abrirmos ao encontro com o seu Filho.

Papa Francisco

(Angelus, 1 de agosto de 2021)

sábado, 22 de abril de 2023

 TEMPO PASCAL - 2023 

Domingo da semana III do Tempo Pascal - dia 15 - 23/04/2023

EVANGELHO Lc 24, 13-35

«Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão»;

«Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O»; 

«E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.»

Ao escutar a Palavra proclamada  neste domingo, há um denominador comum a todas as leituras, que é o anúncio de Jesus Ressuscitado. Sim, em tempo do "Compasso Pascal" este anúncio torna-se ainda mais vivo e presente: receber a boa nova de que Jesus está vivo; apercebermo-nos da Sua presença, de que caminha connosco; sentir a bênção de Deus derramada sobre nós e sobre os nossos lares, é bom, mesmo muito bom! Deus seja louvado. Obrigada Sr.Padre José. 

Na 1ª leitura (Atos 2, 14.22-33) ficamos espantados com a coragem desassombrada de Pedro ao anunciar Jesus Ressuscitado. Temos na memória outros momentos da vida de S.Pedro com Jesus, muito diferentes dos que nos são apresentados nas duas primeiras leituras de hoje. É impressionante a ação de Deus num coração que todo se Lhe entrega. A transformação em Pedro é total. Não deixa de ser quem era, com as suas qualidades e os seus defeitos, mas entregou-se-Lhe totalmente, com tudo o que era e tinha feito. Este é o caminho para Deus, que S.Pedro nos abre hoje, quer pela sua história pessoal, quer através das Escrituras, quando recorre a David:  não há nada, nem ninguém que nos possa afastar do Amor de Deus, manifestado em Jesus Ressuscitado. Entreguemo-nos de alma e coração, com tudo, mas mesmo tudo, por pior que nos sintamos, pois Ele está vivo, caminha connosco.

“No dia de Pentecostes, Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: «Homens da Judeia e vós todos que habitais em Jerusalém, compreendei o que está a acontecer e ouvi as minhas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem acreditado por Deus junto de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio, como sabeis. Depois de entregue, segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós destes-Lhe a morte, cravando-O na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-O, livrando-O dos laços da morte, porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio. Diz David a seu respeito: ‘O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção. Destes-me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em vossa presença’. Irmãos, seja-me permitido falar-vos com toda a liberdade: o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo encontra-se ainda hoje entre nós. Mas, como era profeta e sabia que Deus lhe prometera sob juramento que um descendente do seu sangue havia de sentar-se no seu trono, viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo, dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos, nem a sua carne conheceu a corrupção. Foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos nós somos testemunhas. Tendo sido exaltado pelo poder de Deus, recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo, que Ele derramou, como vedes e ouvis»."

Na 2ªleitura (1 Pedro 1, 17-21) S.Pedro continua a sua evangelização e anúncio do Senhor Ressuscitado, penhor e garantia da nossa salvação. É em Jesus, morto e ressuscitado, que está vivo e caminha connosco, no dia a dia da vida, que está o fundamento da nossa fé. Jesus, o Cordeiro Imaculado, deu a vida por cada um de nós e só radicados n’Ele, sob a ação do Espírito Santo, seremos anunciadores de Deus Amor, na vida concreta de cada dia, nos tempos de hoje, com guerra na Ucrânia, no Sudão, na Síria e ... em em tantos outros locais, por esse mundo fora. Sigamos o exemplo de S.Pedro e deixemos que Deus nos ame por inteiro, mais ainda nas nossas dificuldades, nos nossos defeitos, nos nossos pecados. Acreditemos que Jesus venceu a morte, de uma vez por todas, está vivo, ressuscitou, conduz-nos, caminha connosco. Louvado sejas Senhor, hoje e sempre, pelos séculos sem fim. 

“Caríssimos: Se invocais como Pai Aquele que, sem aceção de pessoas, julga cada um segundo as suas obras, vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo. Lembrai-vos que não foi por coisas corruptíveis, como prata e oiro, que fostes resgatados da vã maneira de viver, herdada dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo, Cordeiro sem defeito e sem mancha, predestinado antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por vossa causa. Por Ele acreditais em Deus, que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória, para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.”

No evangelho (Lc 24, 13-35) somos convidados a colocarmo-nos no papel de cada um daqueles discípulos, mas no dia a dia da nossa vida, deixando que Jesus nos vá explicando o sentido das escrituras, como fez com eles. Às vezes o nosso coração anda demasiado atarefado “com muitas coisas” e não O reconhece, mas Ele, caminha connosco, pelas estradas da vida, repartindo o pão. Deixemos que o nosso coração “arda cá dentro” quando O escutamos e estejamos atentos aos sinais, pois Ele continua a “partir o pão” com todos os que fazem parte da nossa vida e O procuram de coração sincero. 

“Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?». Pararam, com ar muito triste, e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou estes dias». E Ele perguntou: «Que foi?». Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: «Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?». Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante. Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.”

Senhor, eu te louvo e bendigo pelo dom da Eucaristia. Mil graças Senhor.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje gostaria de analisar a experiência dos dois discípulos de Emaús, sobre a qual fala o Evangelho de Lucas (cf. 24, 13-35). Imaginemos a cena: dois homens caminham desiludidos, tristes, decididos a deixar para trás a amargura de um vicissitude mal sucedida. Antes daquela Páscoa estavam cheios de entusiasmo: convencidos de que aqueles dias teriam sido determinantes para as suas expetativas e para a esperança do povo inteiro. Jesus, ao qual tinham confiado a própria vida, parecia ter finalmente chegado à batalha decisiva: agora manifestaria o seu poder, depois de uma longa fase de preparação e de escondimento. Era isso o que eles esperavam. Mas não foi assim.

Os dois peregrinos cultivavam uma esperança somente humana, que agora desabava. Aquela cruz erguida no Calvário era o sinal mais eloquente de uma derrota que não tinham previsto. Se deveras aquele Jesus era segundo o coração de Deus, deviam chegar à conclusão que Deus estava inerme, indefeso nas mãos dos violentos, incapaz de opor resistência ao mal.

Assim, naquela manhã de domingo, os dois fogem de Jerusalém. Ainda tinham nos olhos os momentos da paixão, a morte de Jesus; e na alma o pensamento atormentado pelos acontecimentos, durante o repouso forçado do sábado. Aquela festa de Páscoa, que devia entoar o canto da libertação, transformou-se pelo contrário no dia mais doloroso da sua vida. Deixam Jerusalém para ir alhures, a uma aldeia tranquila. Têm toda a aparência de pessoas empenhadas em apagar uma recordação que magoa. Portanto, encontram-se numa estrada, andam, tristes. Este cenário — a estrada — já tinha sido importante nas narrações dos evangelhos; agora tornar-se-á cada vez mais relevante, no momento em que se começa a narrar a história da Igreja.

O encontro de Jesus com aqueles dois discípulos parece ser totalmente casual: assemelha-se a uma das numerosas encruzilhadas que se encontram na vida. Os dois discípulos prosseguem pensativos e um desconhecido caminha ao lado deles. É Jesus; mas os seus olhos não são capazes de o reconhecer. E então Jesus começa a sua “terapia da esperança”. O que acontece nesta estrada é uma terapia da esperança. Quem a faz? Jesus.

Em primeiro lugar pergunta e escuta: o nosso Deus não é um Deus intrometido. Embora já conheça o motivo da deceção dos dois, deixa-lhes o tempo para poder sondar profundamente a amargura que se apoderou deles. Daqui surge uma confissão que é um refrão da existência humana: «Nós esperávamos, mas... Nós esperávamos, mas...» (v. 21). Quantas tristezas, quantas derrotas, quantas falências há na vida de cada pessoa! No fundo somos todos um pouco como esses dois discípulos. Quantas vezes na vida esperamos, quantas vezes nos sentimos a um passo da felicidade e, no fim, ficamos desiludidos. Mas Jesus caminha com todas as pessoas desanimadas que procedem cabisbaixas. E caminhando com elas, de forma discreta, consegue restituir-lhes a esperança.

Jesus fala com eles sobretudo através das Escrituras. Quem pega o livro de Deus nas mãos não se cruza com histórias de fácil heroísmo, campanhas de conquista impetuosas. A verdadeira esperança nunca é pouco dispendiosa: passa sempre através das derrotas. A esperança de quem não sofre, talvez nem sequer seja tal. Deus não gosta de ser amado como poderíamos amar um general que leva o seu povo à vitória, aniquilando no sangue os seus adversários. O nosso Deus é uma chama esmorecida que arde num dia de frio e de vento, e não obstante a sua presença neste mundo possa parecer frágil, Ele escolheu o lugar que todos nós desdenhamos.

Em seguida Jesus repete também aos dois discípulos o gesto fulcral de cada Eucaristia: pegou no pão, abençoou-o e, depois de o partir, ofereceu-o. Nesta sequência de gestos, não há porventura toda a história de Jesus? E não há, em cada Eucaristia, também o sinal do que deve ser a Igreja? Jesus pega em nós, abençoa-nos, “parte” a nossa vida — porque não há amor sem sacrifício — e oferece-a aos outros, oferece-a a todos.

O encontro de Jesus com os dois discípulos de Emaús é rápido. Todavia, nele está todo o destino da Igreja. Narra-nos que a comunidade cristã não está fechada numa cidadela fortificada, mas caminha no seu ambiente mais vital, ou seja, a estrada. E ali encontra as pessoas com as suas esperanças e as suas desilusões, por vezes pesadas. A Igreja escuta as histórias de todos, assim como sobressaem do íntimo da consciência pessoal; para depois oferecer a Palavra de vida, o testemunho de amor, amor fiel até ao fim. E então o coração das pessoas volta a arder de esperança.

Todos nós, na nossa vida, tivemos momentos difíceis, obscuros; momentos nos quais caminhávamos tristes, pensativos, sem horizontes, somente com um muro à nossa frente. E Jesus sempre está ao nosso lado para nos dar esperança, para nos aquecer o coração e dizer: “Vai em frente, estou contigo. Vai em frente”. O segredo da estrada que conduz a Emaús resume-se inteiramente nisto: mesmo através das aparências contrárias, continuamos a ser amados, e Deus nunca deixará de nos querer bem. Deus caminhará sempre connosco, sempre, até nos momentos mais dolorosos, nos períodos mais difíceis, também nos momentos de derrota: ali está o Senhor. E esta é a nossa esperança. Vamos em frente com esta esperança! Porque Ele está ao nosso lado e caminha connosco, sempre!

Papa Francisco

(Audiência Geral, 24 de maio de 2017)