Eis-nos chegados ao quinto Domingo da Quaresma, que é, já há muitas décadas, o dia da Diocese de Leira-Fátima, como corpo eclesial, peregrinar até ao Santuário de Fátima. Este ano realiza-se a 90ª peregrinação.
sábado, 25 de março de 2023
sexta-feira, 24 de março de 2023
QUARESMA PASSO A PASSO - 2023
SOLENIDADE DA ANUNCIAÇÃO DO SENHOR
Sábado IV – dia 28 –25/03/2023
EVANGELHO Lc 1, 26-38
«Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.»
Celebramos a Solenidade da Anunciação do
Senhor. Lucas conta como o anjo entrou em casa de Maria e lhe fez o anúncio da
escolha divina para ela se tornar a mãe do Senhor. Esta narração é cheia de
elementos para reflexão. Maria é desposada com José, mas aos olhos do Senhor é
cheia de graça. O anjo revela-lhe que vai ser mãe de Jesus, o Deus que salva. O
seu filho será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo. Nada do que acontecerá
será obra dos homens, mas de Deus que no Espírito Santo manifestará o seu
poder. Perante esta revelação, Maria percebe que não há outro impedimento a não
ser a sua vontade e submete-se à vontade de Deus.
"Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado
por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um
homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor
está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação
seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça
diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de
Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará
o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu
reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço
homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do
Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será
chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua
velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus
nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim
segundo a tua palavra»."
A minha vida, como a de Maria, é lugar
onde Deus se quer revelar aos homens. Na vida quotidiana julgo que tudo é banal
e nada de novo nem de interessante acontece que possa prender a atenção de
Deus. Mas Deus olha para mim e, apesar da minha pobreza, desafia-me a retirar o
impedimento da minha vontade e deixar que Ele faça o que é impossível aos meus
olhos. Como Maria também eu posso dizer “faça-se em mim segundo a tua vontade”.
Para Ti, Senhor, nada é impossível. Entras
na minha vida e fazes morada em mim com o poder do Teu amor. Perante a Tua
força não posso resistir nem colocar obstáculos. Senhor, dá-me a lucidez de
Maria para poder dizer com verdade, “faça-se em mim segundo a Tua vontade”.
A irrupção surpreendente, decisiva e
revolucionária de Deus na história «inverte» tudo, a ponto que «é difícil»
encontrar as palavras certas para uma pregação. E assim o Papa sugeriu que se
releia «palavra por palavra» o trecho evangélico de Lucas que narra a
Anunciação. (…)
«O trecho do Evangelho de Lucas que
ouvimos — observou imediatamente Francisco na homilia, referindo-se ao excerto
proposto pela liturgia (1, 26-38) — narra-nos o momento decisivo da história,
aquele por assim dizer mais revolucionário». Com efeito, «é uma situação
conturbada, tudo muda, a história inverte-se».
Por esta razão, confidenciou o Papa,
«é difícil pregar com base neste trecho e quando, no Natal ou no dia da
Anunciação, professamos a fé para dizer este mistério ajoelhamo-nos». Este,
insistiu o Pontífice, «é o momento que muda tudo, tudo, a partir da raiz:
liturgicamente, hoje é o dia da raiz». A ponto que, explicou Francisco, «a
antífona que hoje marca o sentido é a raiz de Jessé, da qual brotará “um
rebento”». É Deus que «se abaixa, Deus entra na história e fá-lo com o seu
estilo original: uma surpresa». E deste modo «o Deus das surpresas
surpreende-nos mais uma vez».
«Penso que nos fará bem a todos,
pensando neste momento, ouvir outra vez este trecho», sugeriu o Papa,
acrescentando: «Pensemos, palavra por palavra, no que aconteceu naquele dia a
uma jovem de dezasseis anos, talvez, numa aldeia longínqua, que ninguém
conhecia».
Era o «sexto mês de gravidez de
Isabel» recordou o Pontífice, o qual em seguida releu integralmente o trecho do
Evangelho de Lucas.
Papa Francisco
(Capela de Santa Marta, 20 de dezembro de 2018)
Avé-Maria cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte. Ámen.
quinta-feira, 23 de março de 2023
QUARESMA PASSO A PASSO - 2023
Sexta-feira IV – dia 27 –24/03/2023
Evangelho Jo 7, 1-2.10.25-30
«Vós Me conheceis e sabeis de onde Eu sou! No entanto, Eu não vim por minha própria vontade e é verdadeiro Aquele que Me enviou e que vós não conheceis. Mas Eu conheço-O, porque d’Ele venho e foi Ele que Me enviou».
Saltámos o capítulo 6 de S. João. Agora Jesus vê-se num terreno de instabilidade. Já não está seguro em lado nenhum. Na Galileia também o recusaram e os discípulos reduziram-se ao grupo dos doze. O ambiente respira morte. Querem dar-lhe a morte, procuram prendê-lo, mas ainda não chegou a sua hora. No meio desta instabilidade Jesus continua a afirmar a sua origem divina e a missão recebida do Pai. Continua a confundir os ouvintes que julgam conhecê-lo, mas desconhecem o essencial. Enquanto todos preparam o desfecho, a paixão, Jesus vai escapando das suas mãos com habilidade.
"Naquele tempo, Jesus percorria a Galileia, evitando andar pela Judeia, porque os judeus procuravam dar-Lhe a morte. Estava próxima a festa dos Tabernáculos. Quando os seus parentes subiram a Jerusalém, para irem à festa, Ele subiu também, não às claras, mas em segredo. Diziam então algumas pessoas de Jerusalém: «Não é este homem que procuram matar? Vede como fala abertamente e não Lhe dizem nada. Teriam os chefes reconhecido que Ele é o Messias? Mas nós sabemos de onde é este homem, e, quando o Messias vier, ninguém sabe de onde Ele é». Então, em alta voz, Jesus ensinava no templo, dizendo: «Vós Me conheceis e sabeis de onde Eu sou! No entanto, Eu não vim por minha própria vontade e é verdadeiro Aquele que Me enviou e que vós não conheceis. Mas Eu conheço-O, porque d’Ele venho e foi Ele que Me enviou». Procuravam então prender Jesus, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a Sua hora."
O texto de hoje deixou-me preso a algumas expressões: “Jesus percorria a Galileia”. Senti desejo de ser essa Galileia por onde passam os pés de Jesus e onde se firmam os seus passos como um caminho a seguir. Ele sabe por onde passar e à sua passagem, em mim, tudo se revela. “Em segredo”. Esta passagem de Jesus acontece no segredo, no íntimo, sem ruído, mas com verdade e de modo eficaz. Desejei estar atento para o perceber chegar em segredo. “Vós Me conheceis e sabeis de onde Eu sou”; “Mas Eu conheço-O”. Creio que Jesus me está a dizer para não ficar apenas no seu conhecimento como alguém que pertence a um lugar, mas para chegar a conhecê-lo como aquele que pertence a Alguém, ao Pai e desejar entrar na mesma intimidade. “Não chegara a sua hora”, também eu preciso de aguardar a hora em que conhecerei como sou conhecido.
Em segredo, Senhor. No segredo do meu coração, da minha vida, do meu quarto. Aí chegas tu para me visitar, para percorreres os recônditos do meu ser e revelares as intenções mais escondidas. À tua chegada, conheço-te conhecendo-me a mim, na minha pequenez. Vem a mim e faz que a tua hora chegue e seja a minha hora, para que não tenha de esperar mais para estar em ti como tu estás em mim.
Hoje os cristãos mártires e perseguidos são mais numerosos do que nos
primórdios da Igreja e em certos países é até proibido rezar em comunidade. O
trecho do livro da Sabedoria (2, 1.12-22) proclamado na liturgia revela «como é
o coração dos ímpios, de quantos se afastaram de Deus e se apoderaram da
religião», e como é a sua «atitude em relação aos profetas», até à perseguição.
São pessoas conscientes de estar diante de um justo, como diz a Escritura:
«Cerquemos o justo, porque ele nos incomoda; é contrário às nossas obras».
Cercar, explicou o Papa, significa «difundir falatórios e calúnias». Assim,
«preparam-se para destruir o justo». Não podem aceitar que haja um justo
«contrário às nossas obras; ele censura-nos por violar a lei e acusa-nos de
contrariar a nossa educação». Palavras que delineiam o perfil dos profetas
perseguidos «em toda a história da salvação». Foi Jesus quem «o disse aos
fariseus», como narra «o célebre capítulo 23 de são Mateus, cuja leitura nos
fará bem». Ele é explícito: «Os vossos pais mataram os profetas mas vós, para
eliminar a sua culpa, mandais construir um bonito sepulcro para os profetas!».
Estamos diante de «uma hipocrisia histórica». Na Igreja há «perseguidos fora
e dentro». Os santos «foram perseguidos»: quando lemos as suas vidas, vemos
tantas «incompreensões e perseguições», pois dado que eram profetas diziam
coisas «muito duras». E «tantos pensadores na Igreja foram perseguidos»: «Neste
momento penso num deles, não muito distante de nós: um homem de boa vontade, um
profeta autêntico que, com os seus livros, admoestava a Igreja a não se afastar
do caminho do Senhor. Foi imediatamente chamado; os seus livros foram proibidos
e tiraram-lhe a cátedra, e foi assim que este homem acabou a sua vida, há pouco
tempo. Hoje ele é beato». Mas como, ontem era herege e hoje é beato?». Sim,
«ontem quantos tinham o poder queriam silenciá-lo, porque não gostavam do que
ele dizia. Hoje a Igreja, que graças a Deus sabe arrepender-se, diz: não, este
homem é bom!». Os cristãos são perseguidos «porque a esta sociedade mundana e
tranquila que não quer problemas dizem a verdade e anunciam Jesus Cristo». Hoje
nalguns países existe «até há a pena de morte, a prisão por conservar o Evangelho
em casa, por ensinar o catecismo!». «Um católico dessas regiões disse-me que é
proibido rezar juntos! Só é possível rezar sozinho e escondido». Para celebrar
a Eucaristia organizam «uma festa de aniversário!» para eludir a polícia!». O
Papa concluiu pedindo ao Senhor «a graça de ir pelo seu caminho, até com a cruz
da perseguição».
Papa Francisco
(Santa Marta, 4 de abril de 2014)
quarta-feira, 22 de março de 2023
QUARESMA PASSO A PASSO - 2023
Evangelho Jo 5, 31-47
«Mas Eu tenho um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar – as obras que realizo – dão testemunho de que o Pai Me enviou. E o Pai, que Me enviou, também Ele deu testemunho de Mim.»
Escutamos a segunda parte do discurso que
Jesus faz em sua defesa. Está em causa a sua autoridade. Na sua exposição
mostra que há uma diferença entre os judeus e ele, duas forças contrárias. Ele
veio para os judeus e estes não o querem receber. Jesus apresenta-se com
testemunhas fidedignas da sua condição diante do Pai. João Batista, as obras
que ele realizou em Jerusalém e em Caná, o próprio Pai, as Escrituras e Moisés.
Perante tantas testemunhas porque não creem nele? Porque na verdade, eles que
dizem conhecer a voz de Deus, nunca a ouviram nem viram a figura de Deus nem
habita neles a sua palavra. No fundo, eles são uma mentira. A prova disso é que
as Escrituras dão testemunho de Jesus e “não quereis vir a mim” e Moisés fala
de Jesus, “mas não acreditais nos seus escritos”.
"Naquele tempo, Jesus disse aos judeus: «Se
Eu der testemunho de Mim mesmo, o meu testemunho não será considerado
verdadeiro. É outro que dá testemunho de Mim e Eu sei que o testemunho que Ele
dá de Mim é verdadeiro. Vós mandastes emissários a João Batista e ele deu
testemunho da verdade. Não é de um homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos
isto para que sejais salvos. João era uma lâmpada que ardia e brilhava e vós,
por um momento, quisestes alegrar-vos com a sua luz. Mas Eu tenho um testemunho
maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar – as obras
que realizo – dão testemunho de que o Pai Me enviou. E o Pai, que Me enviou,
também Ele deu testemunho de Mim. Nunca ouvistes a sua voz, nem vistes a sua
figura e a sua palavra não habita em vós, porque não acreditais n’Aquele que
Ele enviou. Examinais as Escrituras, pensando encontrar nelas a vida eterna;
são elas que dão testemunho de Mim e não quereis vir a Mim para encontrar essa
vida. Não é dos homens que Eu recebo glória; mas Eu conheço-vos e sei que não
tendes em vós o amor de Deus. Vim em nome de meu Pai e não Me recebeis; mas se
vier outro em seu próprio nome, recebê-lo-eis. Como podeis acreditar, vós que
recebeis glória uns dos outros e não procurais a glória que vem só de Deus? Não
penseis que Eu vou acusar-vos ao Pai: o vosso acusador será Moisés, em quem
pusestes a vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, acreditaríeis em Mim,
pois ele escreveu a meu respeito. Mas se não acreditais nos seus escritos, como
haveis de acreditar nas minhas palavras?».
Obstinação é a palavra que Jesus me deixa como meditação para o dia de hoje. Quando me deixo levar pela obstinação e me fecho nas minhas opiniões e na minha maneira de ver, não consigo dar razão a ninguém, nem reúno as capacidades necessárias para ver e analisar com verdade as situações. Enganados pela ideia de que Jesus se quer fazer igual a Deus, recusam a verdade de Jesus que é Filho de Deus. Diante desta obstinação já nenhum argumento serve para defender Jesus nem haverá testemunhas suficientes para garantir a sua posição. Se não me abrir aos outros e a Deus, se não deixar entrar em mim a “voz” dos outros e de Deus, não estarei apto para reconhecer o lugar que eles têm na minha vida. Ficarei fechado na obstinação, serei um homem de “cabeça dura” incapaz de conhecer as Escrituras. Deste modo não acreditarei em Jesus.
Também eu, Senhor, fico muitas vezes pela glória dos homens e esqueço-me de abrir os olhos para Ti. É em Ti que o Pai se manifesta e em Ti se cumprem as Escrituras. Que os meus olhos, a minha inteligência, o meu coração e a minha vontade se abram para Ti. Que todo o meu ser seja lugar onde és recebido como dom do Pai para mim e para todos os homens. Que eu possa escutar a Tua voz e reconhecê-la como voz do Pai que ressoa em mim.
Encontramo-nos
no centro mesmo daquele debate, que Jesus de Nazaré teve com os seus
contemporâneos, representantes de Israel. Precisamente eles, mais do que
qualquer outro, podiam reconhecer em Cristo o testemunho de Deus mesmo. De
facto, estavam para isto preparados de modo particular. Cristo diz:
"Esquadrinhais as Escrituras julgando ter nelas a vida eterna; são elas
que dão testemunho de Mim, e não quereis vir a Mim para terdes a vida".
Não quereis... A
controvérsia, havida entre Cristo e os seus contemporâneos em Israel, refere-se
à Promessa que aquele povo eleito recebera na Antiga Aliança. Cristo vem para
cumprir aquela Promessa. E no entanto, não querem acolhê-l'O.
Por isso, Ele
discute com eles, referindo-se à autoridade que para eles era a maior: Moisés.
Diz: "Se acreditásseis em Moisés, acreditaríeis em Mim, pois ele escreveu
a Meu respeito". E por isso acrescenta: "Não
penseis que Eu vou acusar-vos ao Pai; outro vos acusará, Moisés, em quem
depositastes a vossa esperança".
Assim, pois,
surge uma espécie de debate. Este, num certo sentido, tem as características de
um processo judiciário. Cristo chama em causa as testemunhas. Testemunha é
Moisés e todo o Antigo Testamento até João Baptista. Testemunha é a Escritura e
testemunha é toda a expetativa do Povo eleito. Mas, sobretudo, testemunha são
as "obras" realizadas por Cristo com a intervenção do Pai. Diante
deste testemunho, as testemunhas da Antiga Aliança, e sobretudo Moisés, assumem
ainda um novo carácter: servem como acusadores. Parecem dizer: porque não
acolheis a Jesus de Nazaré, dado que tudo indica que precisamente Ele é Aquele
que Deus enviou conforme a Promessa? Com esta pergunta, aquelas testemunhas
parecem porém não só interrogar, mas até mesmo acusar!
Todavia, a
respeito de que é feito este debate? Apenas a respeito da subjetiva e autenticidade da missão de Jesus de Nazaré como Messias prometido? Sim, sem
dúvida. Contudo, a controvérsia vai mais em profundidade e a liturgia de hoje
também no-lo demonstra. A controvérsia atinge mais a fundo, e diz respeito ao
mesmo conteúdo messiânico da missão de Cristo. Trata-se aqui daquele conteúdo,
em que se manifesta a Verdade substancial da Revelação. De facto, a palavra
essencial da Revelação é Deus na sua mesma Verdade Divina.
"Revelação" quer dizer que Deus fala de Si mesmo aos homens. Que Se
comunica a Si mesmo de modo, sem dúvida, acessível aos homens, adaptando-Se às
suas possibilidades e faculdades cognoscitivas. Mas: comunica-Se a Si mesmo. E
quer que o homem O acolha tal como Ele é. Que pense n'Ele como n'Aquele que Ele
— Deus — é verdadeiramente!
E é precisamente
sobre esta Verdade da história da Revelação que se desenvolve a controvérsia. A
liturgia de hoje conduz-nos, antes de tudo, pelos traços particulares deste
debate já na Antiga Aliança. Eis o momento importante: o momento em que Moisés
foi chamado diante da Majestade Divina para receber os Mandamentos. No
Decálogo, Deus apresenta-se ao Povo eleito como Senhor e Legislador, solícito
por tudo o que constitui a vida e a conduta de Israel. A Lei Divina dos
Mandamentos manifesta a vontade de Deus — e ao mesmo tempo o objetivo de
assegurar os bens fundamentais do homem e da comunidade humana. Voltamos a
lê-los após tantos séculos — e sempre chegamos à mesma conclusão. O Legislador
manifesta-se na sua Lei como o Senhor solícito, Pastor e Pai do seu Povo.
E, precisamente
neste momento sublime, o Povo aturdido por causa da ausência de Moisés,
abandonado a si mesmo, comete o pecado de idolatria. Em lugar do Deus
invisível..." fizeram um bezerro, um ídolo fundido, prostraram-se diante
dele, ofereceram-lhe sacrifício e disseram: Israel, aqui tens o teu Deus,
aquele que te fez sair do Egipto"
A leitura do
Livro do Êxodo está cheia de uma tensão dramática. Encontramo-nos no limite da
eleição e da recusa por parte do Povo eleito. Sobretudo, porém, somos
testemunhas de como o Deus da Redenção luta com a mesquinhez dos homens, que no
lugar do Invisível Senhor e Pai, Pastor e Legislador, colocam outra divindade e
estão prontos a prestar-lhe adoração. No lugar do Absoluto espiritual, que é
Fonte da existência e da vida, da verdade e do bem — estão prontos a deificar a
imagem sensível de uma força primitiva simbolizada num animal.
Quando já se
passaram tantas gerações desde os tempos de Moisés e da Revelação no monte
Sinai, Jesus Cristo fala — segundo o texto do Evangelho de João — com os filhos
do Povo eleito, seus contemporâneos. E não só, Ele discute com eles sobre a
autenticidade da própria missão messiânica. Não só Ele. Em Jesus Cristo, o
mesmo Deus da Revelação — que é Pai e Filho e Espírito Santo — continua, num certo
sentido e numa nova etapa, a litigar com o homem, para que este aceite a Divina
Verdade da Revelação. Esta verdade é o Mistério definitivo de Deus. Mediante
ela Ele está, num certo sentido, "encerrado" mais profundamente na
sua Divindade. E ao mesmo tempo, mediante a comunicação deste seu Mistério
definitivo, o Deus da Revelação está mais largamente "aberto" para o
homem e para o mundo.
Ele, de facto, é
aquele Deus que "amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único,
para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna".
Eis este Deus,
Pai eterno, que vem ao mundo e fala ao homem no único Filho, luta mediante as
palavras de Jesus de Nazaré com os homens de outrora, para que acolham a
verdade sobre Ele! Para que aqueles que já acreditam que Ele existe, que é
Criador, supremo Legislador e justo Juiz, aceitem também a verdade que Ele é
Pai, que no Único Filho dá ao mundo o Seu Amor Infinito: o Amor que é
misericórdia!
Na presente
Liturgia quaresmal da Palavra de Deus desenvolve-se, portanto, um debate sobre
o conteúdo messiânico mesmo da missão de Cristo.
Devemos talvez
deter-nos nisto? Devemos reconhecer esta espécie de debate apenas com um
esplêndido acontecimento que pertence ao passado, tal como a um passado ainda
mais remoto pertence a discussão de Moisés com o povo, do qual foi chefe no
deserto?
Não. Não podemos
deter-nos aqui. Neste caso, não teríamos lido até ao fim o texto litúrgico.
Este faz-nos passar sempre do passado ao tempo presente. A Igreja assim o lê,
como se se referisse contemporaneamente a nós: hoje e aqui.
De facto, Cristo
porventura não debate — hoje e aqui, isto é, na nossa época, na nossa geração —
com o homem, com cada um de modo diverso, sobre o conteúdo messiânico da sua
missão? O Deus da Revelação não questiona talvez em Cristo, que "é o mesmo
ontem, hoje e sempre", com cada homem sobre a
aceitação da inteira Verdade desta Revelação? Porventura não compete
categoricamente ,ao homem pensar n"Ele de acordo com esta Verdade e nela
confessá-Lo?
A Liturgia da
Quaresma é um particular desafio neste sentido. Ela proclama a profundidade da
nossa relação com Deus, proclama a intimidade com Ele na verdade — em toda a
verdade da Revelação.
Numa época, em
que o mundo parece fechar-se em si mesmo e o homem fechar-se no mundo,
afastando a própria existência das fontes fundamentais do próprio sentido.
Cristo parece
dizer com uma nova força: "Vim em nome de Meu Pai e não Me recebeis, mas
se vier outro, em seu próprio nome, recebê-lo-eis. Como podeis acreditar, vós
que tirais a glória uns dos outros e não buscais a glória que vem de
Deus?"
Eis, caros Irmãos
e Irmãs, deste modo nesta meditação quaresmal tocamos os pontos mais profundos
da nossa relação com Deus em Jesus Cristo.
Detenhamo-nos
nestes pontos mais profundos.
Abramo-nos à
Verdade da Divina Revelação.
Confessemos no
Sacramento da Penitência os nossos pecados.
Unamo-nos a
Cristo na Eucaristia.
Papa João Paulo II - S. João Paulo II
(Roma, 17 de março de 1983)
terça-feira, 21 de março de 2023
QUARESMA PASSO A PASSO - 2023
Quarta-feira IV – dia 25 –22/03/2023
Evangelho Jo 5, 17-30
«Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também trabalho em todo o tempo»;
«Assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim o Filho dá vida a quem Ele quer.»;
«Quem ouve a minha palavra e acredita n’Aquele que Me enviou tem a vida eterna e não será condenado, porque passou da morte à vida.»;
«(...)julgo segundo o que oiço e o meu juízo é justo, porque não procuro fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou».
Jesus vê-se rejeitado pelos judeus por causa de violar o Sábado e por se fazer igual a Deus. Por essa razão faz este discurso que vai até ao versículo 47. Hoje lemos apenas de 17 a 30. Ele reconhece diante de todos a sua relação íntima com Deus. O Pai fê-lo participante da sua intimidade, do seu poder e deu-lhe a possibilidade de conceder ou recusar ao homem a vida íntima de Deus que Ele partilha com o Pai. Chegou a hora de os mortos ouvirem e, pela palavra proclamada, os que escutarem viverão. Não deixa de ser interessante que Jesus fale primeiro dos mortos e depois dos que estão nos sepulcros. Para os primeiros a hora já chegou e eles podem recusar ouvir, mas os que estão no sepulcro aguardam a chegada da hora e todos ouvirão. Não será que os primeiros são os ouvintes de Jesus para quem chegou a hora de ganhar vida escutando a sua palavra? Os segundos aguardam pela voz que proclama a sua ressurreição para sair dos túmulos e serem julgados pelo ressuscitado.
"Naquele tempo, disse Jesus aos judeus:
«Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também trabalho em todo o tempo». Esta
afirmação era mais um motivo para os judeus quererem dar-Lhe a morte: não só
por violar o Sábado, mas também por chamar a Deus seu Pai, fazendo-Se igual a
Deus. Então Jesus tomou a palavra e disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos
digo: O Filho nada pode fazer por Si próprio, mas só aquilo que viu fazer ao
Pai; e tudo o que o Pai faz também o Filho o faz igualmente. Porque o Pai ama o
Filho e Lhe manifesta tudo quanto faz; e há de manifestar-Lhe coisas maiores
que estas, de modo que ficareis admirados. Assim como o Pai ressuscita os
mortos e lhes dá vida, assim o Filho dá vida a quem Ele quer. O Pai não julga
ninguém: entregou ao Filho o poder de tudo julgar, para que todos honrem o
Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que O enviou.
Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a minha palavra e acredita n’Aquele
que Me enviou tem a vida eterna e não será condenado, porque passou da morte à
vida. Em verdade, em verdade vos digo: Aproxima-se a hora – e já chegou – em
que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem, viverão.
Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho que tivesse
a vida em Si mesmo; e deu-Lhe o poder de julgar, porque é o Filho do homem. Não
vos admireis do que estou a dizer, porque vai chegar a hora em que todos os que
estão nos sepulcros ouvirão a sua voz: Os que tiverem praticado boas obras irão
para a ressurreição dos vivos e os que tiverem praticado o mal para a
ressurreição dos condenados. Eu não posso fazer nada por Mim próprio: julgo
segundo o que oiço e o meu juízo é justo, porque não procuro fazer a minha
vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou»."
Jesus mostra-me hoje, que Ele é um desafio de vida ou de morte. Não posso olhar para Ele como uma devoção que se perde em pagelas de orações baratas e de frases bonitas. Nele posso encontrar a intimidade com o Pai e isso será para mim a verdadeira vida. A possibilidade está na escuta da sua palavra. Abrindo os ouvidos à sua voz passarei da morte à vida, deixarei de ser um sepulcro e passarei a ser um manancial de vida e de vida eterna.
Tu és o Senhor da vida. Na intimidade do Pai recebeste o dom da vida em
plenitude, da vida eterna. Faz-me ouvir a Tua voz. Que a Tua palavra ecoe nos
meus ouvidos e no meu coração para que viva e não morra. Faz-me ouvir a Tua voz
para que me levante do leito de morte, que é muitas vezes a minha vida de
pecado. Faz-me sair do túmulo do meu egoísmo, que não me deixa experimentar a
alegria da ressurreição. Que eu viva de Ti, Senhor.


.jpg)
