sábado, 22 de novembro de 2025

 DOMINGO XXXIV DO TEMPO COMUM -2025- Ano C

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Eis-nos chegados ao último domingo do Ano Litúrgico C. Ao terminar, este ciclo de 3 anos, as leituras, de hoje, propõem-nos a contemplação do trono de glória do nosso Deus. Sim, o nosso rei, Jesus Cristo, como todos os reis, também tem um trono, só que o Seu é completamente diferente, é a Cruz. É verdade que venceu a morte e ressuscitou, mas a Sua entrega total na Cruz, para que cada um de nós pudesse aí, na entrega infinita de Jesus ao Pai, numa comunhão sem fim, encontrar Deus Amor, faz da Cruz o Seu trono de Glória. Instrumento de escândalo para os gentios, de confusão para os incrédulos, é, para todos nós, cristãos, a árvore da vida em cujas raízes crescemos e em cujos braços nos estendemos.

Na 1ªleitura (2 Sam 5, 1-3) o profeta Samuel, ao trazer até nós a eleição do rei David e a força unificadora que ele representou para o povo de Israel,  conduz-nos, por associação, a Jesus, nosso rei e Senhor e ao que Ele significa para nós hoje, no dia a dia da vida. 

“Naqueles dias, todas as tribos de Israel foram ter com David a Hebron e disseram-lhe: «Nós somos dos teus ossos e da tua carne. Já antes, quando Saul era o nosso rei, eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel. E o Senhor disse-te: ‘Tu apascentarás o meu povo de Israel, tu serás rei de Israel’». Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, a Hebron. O rei David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor e eles ungiram David como rei de Israel.”

Na 2ª leitura (Col 1, 12-20) S. Paulo faz uma verdadeira demonstração da sua fé em Jesus Ressuscitado, de uma forma profunda, mas, ao mesmo tempo, também muito bela. Por outro lado, podemos aprender, deste texto de S.Paulo, a louvar e a dar graças a Deus pelo Seu Amor infinito, por cada um de nós, Seus queridos filhos, no Único e muito amado Filho. Louvemos e demos graças ao nosso Deus. 

“Irmãos: Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados. Cristo é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura; Porque n’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, visíveis e invisíveis, Tronos e Dominações, Principados e Potestades: por Ele e para Ele tudo foi criado. Ele é anterior a todas as coisas e n’Ele tudo subsiste. Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos; em tudo Ele tem o primeiro lugar. Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus.”

No evangelho (Lc 23, 35-43) S.Lucas transporta-nos para o momento da morte de Jesus na Cruz. Mas, mais especificamente para o diálogo de Jesus com o bom e com o mau ladrão. Ao escutar este diálogo, fiquei com uma certeza, isto é, sempre que alguém se arrepende e se entrega, de coração sincero, a Jesus, escutará estas palavras: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso». 

“Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo». Por cima d’Ele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus». Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más ações. Mas Ele nada praticou de condenável». E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».”

Senhor Jesus, eu creio que é o Filho de Deus, que ressuscitou dos mortos. Vem, Senhor Jesus e preenche-me por inteiro.

(...)

Entretanto, hoje, podemos ver mais uma vez como o Evangelho nos leva às raízes da fé. Estas, encontramo-las no terreno árido do Calvário, onde a semente que é Jesus, ao morrer, fez germinar a esperança: plantada no coração da terra, abriu-nos o caminho para o Céu; com sua morte, deu-nos a vida eterna; por meio do madeiro da cruz, trouxe-nos os frutos da salvação. Por isso, fixemos o nosso olhar n’Ele, fixemos o olhar no Crucificado.

Na cruz, aparece uma única frase: «Este é o rei dos judeus» (Lc 23, 38). Eis o seu título: Rei. Mas, observando Jesus, inverte-se a ideia que temos de um rei. Tentando visualizá-lo, pensaremos num homem forte sentado num trono com preciosas insígnias, um cetro na mão e anéis brilhantes nos dedos, enquanto solenemente fala aos súbditos. Tal seria, em linhas gerais, a imagem dum rei que temos na cabeça. Mas fixando Jesus, vemos que é completamente diferente. Não está sentado num trono confortável, mas pendurado num patíbulo; o Deus que «derruba os poderosos de seus tronos» (Lc 1, 52), comporta-Se como servo cravado na cruz pelos poderosos; adornado apenas com cravos e espinhos, despojado de tudo mas rico de amor. Do trono da cruz, já não ensina as multidões com a palavra, nem levanta a mão para ensinar; faz mais: não aponta o dedo contra ninguém, mas abre os braços a todos. Assim Se manifesta o nosso Rei: de braços abertos – a brasa aduerte.

E só entrando no seu abraço é que compreendemos que Deus Se deixou levar até àquele ponto, até ao paradoxo da cruz, precisamente para abraçar tudo em nós, incluindo quanto havia de mais distante d'Ele: a nossa morte (Ele abraçou a nossa morte), o nosso sofrimento, as nossas pobrezas, as nossas fragilidades e as nossas misérias. Ele abraçou tudo isto. Fez-Se servo para que cada um de nós se sentisse filho (com a sua servidão pagou a nossa filiação); deixou-Se insultar e escarnecer, para que, em qualquer humilhação, já ninguém de nós estivesse sozinho; deixou-Se despojar, para que ninguém se sentisse despojado da sua dignidade; subiu à cruz, para que, em cada crucificado da história, houvesse a presença de Deus. Eis o nosso Rei, Rei de cada um de nós, Rei do universo, porque atravessou os confins mais remotos do humano, entrou nos buracos negros do ódio, nos buracos negros do abandono para iluminar cada vida e abraçar toda a realidade. Irmãos, irmãs, tal é o Rei que hoje festejamos! Não é fácil de compreender, mas é o nosso Rei. Eis a pergunta que devemos pôr-nos: mas este Rei do universo é o Rei da minha existência? Eu creio n’Ele? Como posso celebrá-Lo Senhor de tudo, se não Se torna também o Senhor da minha vida? E tu, Stéfano, que hoje inicias este caminho para o sacerdócio, não esqueças que Ele é o teu modelo: não te prendas às honras, não. Ele é o teu modelo; se não pensas ser sacerdote como este Rei, é melhor parares por aqui.

Mas fixemos de novo os olhos em Jesus Crucificado. Vê! Ele não observa a tua vida apenas durante um momento, não te dedica só um olhar fugaz, como fazemos nós muitas vezes com Ele, mas permanece ali a brasa aduerte a dizer-te no silêncio que nada de ti Lhe é estranho, que te quer abraçar, levantar, salvar assim como és, com a tua história, as tuas misérias, os teus pecados. Mas, Senhor, isto é verdade? Com as minhas misérias… Tu amas-me assim? Neste momento, cada um pense na sua própria pobreza: «Mas, Tu amas-me com toda esta pobreza espiritual que sou, com estas limitações?». Ele sorri e faz-nos compreender que nos ama e deu a vida por nós. Pensemos um pouco nos nossos limites, e também nas coisas boas: Ele ama-nos como somos, como somos agora. Ele dá-te a possibilidade de reinares na vida, se te abandonares ao seu amor cheio de mansidão, que se propõe mas não se impõe (o amor de Deus nunca se impõe), ao seu amor que sempre te perdoa. Nós muitas vezes cansamo-nos de perdoar às pessoas e, sobre elas, como que pomos o sinal da cruz, fazemos o seu enterro social. Ele nunca Se cansa de perdoar… nunca, nunca: sempre te põe de pé, sempre te devolve a tua dignidade real. Pensa: a nossa salvação, donde vem? Vem do facto de nos deixarmos amar por Ele, porque só assim somos libertos da escravidão do nosso egoísmo, do medo de estar sozinho e pensar que não vamos conseguir. Com frequência, irmãos, irmãs, coloquemo-nos diante do Crucificado, deixemo-nos amar, para que aqueles brasa aduerte nos abram, também a nós, o Paraíso, como ao «bom ladrão». Sintamos como que dirigida a nós aquela frase, a única que ouvimos hoje Jesus dizer na cruz: «Estarás comigo no Paraíso» (Lc 23, 43). Isto é o que Deus quer para nós, e no-lo quer dizer a todos nós, sempre que nos demoramos sob o seu olhar. E então compreendemos que não temos um deus desconhecido, lá em cima nos céus, poderoso e distante. Não! Mas um Deus próximo. A proximidade é o estilo de Deus: proximidade, com ternura e misericórdia. Tal é o estilo de Deus, e não tem outro: próximo, vizinho e terno; terno e compassivo, cujos braços abertos consolam e acariciam. Eis o nosso Rei!

Irmãos, irmãs, depois de O termos contemplado, que mais podemos fazer? O Evangelho de hoje coloca à nossa frente dois caminhos: diante de Jesus, temos quem se comporta como espetador e quem se envolve. Os espetadores são muitos; é a maioria. Olham; ver morrer alguém na cruz é um espetáculo. De facto – diz o texto – «o povo permanecia, ali, a observar» (23, 35). Não era má gente, muitos eram crentes, mas à vista do Crucificado, permanecem espetadores: não movem um passo na direção de Jesus, mas olham-No de longe, curiosos e indiferentes, sem verdadeiramente se interessar nem perguntar que podem fazer. Terão comentado («mas olha este…»), terão formulado juízos e opiniões («mas é inocente… e termina assim?»), alguém tê-Lo-á até lamentado, mas todos ficaram a olhar sem nada fazer, de braços cruzados. E até há espetadores perto da cruz: os chefes do povo, que querem assistir ao espetáculo cruento do fim inglorioso de Cristo; os soldados, que esperam que termine rapidamente a execução a fim de voltar para casa; um dos malfeitores, que descarrega o seu ódio sobre Jesus. Escarnecem, insultam, dizem da sua justiça.

Todos estes espetadores compartilham um refrão, que o texto repete três vezes: «Se és rei, salva-Te a Ti mesmo» (cf. 23, 35.37.39). Insultam-No assim, desafiam-No! Salva-Te a Ti mesmo! Exatamente o contrário daquilo que está a fazer Jesus, que pensa não em Si, mas em salvá-los a eles que O insultam. E aquele dito «salva-Te a Ti mesmo» propaga-se como que por contágio: desde os chefes passando pelos soldados e chegando à gente, a onda do mal atinge quase todos. Pensemos como é contagioso o mal! Contagia-nos como quando apanhamos uma doença infeciosa, que nos contagia imediatamente. Aquela gente fala de Jesus, mas não se sintoniza com Jesus nem um momento sequer. Põe-se à distância e fala. É o contágio letal da indiferença. A indiferença é uma doença ruim: «isto não me diz respeito, não tem a ver comigo». Indiferença para com Jesus e indiferença também para com os doentes, os pobres, os miseráveis da terra. Gosto de perguntar às pessoas e faço-o também aqui a cada um de vós. Sei que cada um de vós dá esmola aos pobres, e eu pergunto: «Quando tu dás esmola aos pobres, olha-os nos olhos? És capaz de olhar nos olhos aquele pobre, homem ou mulher, que te pede esmola? Quando dás esmola aos pobres, atiras a moeda ou tocas-lhe a mão? És capaz de tocar uma miséria humana?» Depois cada um dê a resposta, hoje. Aquela gente vivia na indiferença. Fala de Jesus, mas não sintoniza com Ele. E este é o contágio letal da indiferença, que cria distâncias relativamente às misérias. A onda do mal espalha-se sempre assim: começa-se por se colocar à distância, observar sem nada fazer e não se importar, depois pensamos só naquilo que nos interessa e habituamo-nos a virar a cara para o outro lado. Isto é um risco que corre também a nossa fé, que definha se permanecer uma teoria sem se fazer vida prática, se não houver envolvimento, se não nos gastarmos pessoalmente, se não nos comprometermos. Então tornamo-nos cristãos de fachada (cristãos tipo “água-de-colónia”, como ouvia dizer na minha casa), que dizem acreditar em Deus e querer a paz, mas não rezam nem cuidam do próximo. Não interessa Deus nem a paz, a estes cristãos apenas de língua, superficiais.

Esta era a onda má, que se encontrava no Calvário. Mas há também a onda benfazeja do bem. Entre muitos espetadores há um que se envolve, isto é, o «bom ladrão». Os outros zombam do Senhor, ele fala-Lhe e chama-O pelo nome: «Jesus»; muitos descarregam sobre Ele o seu ódio, ele confessa a Cristo os seus erros; muitos dizem «salva-Te a Ti mesmo», ele reza: «Jesus, lembra-Te de mim» (23, 42). Pede apenas isto ao Senhor. É uma linda oração! Se cada um de nós a rezasse todos os dias, estaria na boa estrada: a estrada da santidade: «Jesus, lembra-Te de mim». Assim um malfeitor torna-se o primeiro santo: aproxima-se de Jesus por um instante, e o Senhor estreita-o a Si para sempre. Ora, o Evangelho fala-nos do bom ladrão para nos convidar a vencer o mal, deixando de ser espetadores. Por favor! A indiferença é pior do que fazer o mal. E donde havemos de começar? Da confidência, de chamar a Deus pelo nome, precisamente como fez o bom ladrão, que, no fim da vida, reencontra aquela confidência corajosa das crianças que confiam, pedem, insistem. E, na confidência, admite os seus erros, chora não por si mesmo, mas diante do Senhor. E nós, temos esta confiança, trazemos a Jesus aquilo que somos dentro ou maquilhamo-nos diante de Deus, talvez com um toque de sacralidade e de incenso? Por favor, não viver a espiritualidade da maquilhagem: é fastidiosa. Diante de Deus, apenas água e sabão! Sem maquilhagem, mas a alma apresenta-se assim como ela é. E daqui vem a salvação. Quem pratica a confidência, como este bom ladrão, aprende a intercessão, aprende a levar a Deus aquilo que vê, os sofrimentos do mundo, as pessoas que encontra; aprende a dizer-Lhe, como o bom ladrão: «Lembra-Te, Senhor!» Não estamos no mundo apenas para nos salvar a nós mesmos. Não; mas para levar os irmãos e as irmãs ao abraço do Rei. O facto de interceder, de lembrar ao Senhor, abre as portas do Paraíso. Mas nós, quando rezamos, intercedemos? «Lembra-Te, Senhor! Lembra-Te de mim, da minha família, lembra-Te deste problema… lembra-Te… lembra-Te…» Devemos atrair a atenção do Senhor.

Irmãos, irmãs, hoje o nosso Rei olha-nos da cruz a brasa aduerte. Cabe-nos a nós escolher em sermos espetadores ou envolvidos. Sou espetador ou quero envolver-me? Vemos as crises de hoje, o declínio da fé, a falta de participação... E que fazemos? Limitamo-nos a fazer teorias, limitamo-nos a criticar, ou arregaçamos as mangas, comprometemo-nos na vida, passamos do «se» das desculpas ao «sim» da oração e do serviço? Todos pensamos saber o que está errado na sociedade. Todos! Falamos todos os dias do que está errado no mundo e também na Igreja. Tantas coisas erradas na Igreja! Mas, depois, fazemos alguma coisa? Metemos as mãos na massa, como o nosso Deus pregado no madeiro, ou ficamos a olhar com as mãos nos bolsos? Hoje, enquanto Jesus, despido na cruz, tira todo o véu sobre Deus e destrói toda a falsa imagem da sua realeza, olhemos para Ele a fim de encontrar a coragem de olhar para nós mesmos, percorrer os caminhos da confidência e da intercessão e fazer-nos servos para reinarmos com Ele. «Lembra-Te, Senhor, lembra-Te»: façamos esta oração com maior frequência! Obrigado.

Papa Francisco
(Homilia, Solenidade de Nosso senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, 20 de novembro de 2022)

sábado, 15 de novembro de 2025

 DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM -2025- Ano C

IX Dia Mundial dos Pobres

As leituras deste domingo, utilizando uma linguagem simbólica, que nos encaminha para o fim do tempo litúrgico, desafiam-nos a crescer na confiança e a perseverar no caminho do bem, no dia a dia da vida.

Na 1ª leitura (Mal 3, 19-20a) o profeta Malaquias exorta-nos a confiar no Senhor, a entregarmo-nos a Deus de alma e coração, a deixar que Ele, e só Ele, seja sempre Aquele que dá sentido à nossa existência sendo o suporte, a raiz, dos nossos passos de cada dia. 

“Há de vir o dia do Senhor, ardente como uma fornalha; e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores. O dia que há de vir os abrasará – diz o Senhor do Universo – e não lhes deixará raiz nem ramos. Mas para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação.”

Na 2ªleitura (2 Tes 3, 7-12) S.Paulo parece um homem do  nosso tempo, isto é do séc.XXI, a falar sobre alguns aspetos do mundo do trabalho. Toda a vida é uma entrega a Deus, em cada dia, a cada momento, de tudo o que temos e somos, para crescimento do Reino. Seja qual for o trabalho que desenvolvemos, ou o serviço que prestamos, este só tem sentido quando é integrado no projeto de Deus Amor, para que um dia, na plenitude dos tempos, Deus seja tudo em todos.  

“Irmãos: Vós sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos entre vós na ociosidade, nem comemos de graça o pão de ninguém. Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não é que não tivéssemos esse direito, mas quisemos ser para vós exemplo a imitar. Quando ainda estávamos convosco, já vos dávamos esta ordem: quem não quer trabalhar, também não deve comer. Ouvimos dizer que alguns de vós vivem na ociosidade, sem fazerem trabalho algum, mas ocupados em futilidades. A esses ordenamos e recomendamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem.”

No evangelho (Lc 21, 5-19)  Jesus exorta-nos a uma confiança sem limites em Deus, no dia a dia da vida. Só n’Ele seremos verdadeiramente livres e, se perseverarmos no caminho de bem, nada nem ninguém se perderá, porque o Senhor estará sempre connosco. 

“Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».”

Senhor, sê a minha força e salvação.


Mensagem do Santo Padre para o IX Dia Mundial dos Pobres -16.11.2025

Tu és a minha esperança (cf. Sl 71,5)

1. «Tu és a minha esperança, ó Senhor Deus» (Sl 71,5). Estas palavras emanam de um coração oprimido por graves dificuldades: «Fizeste-me sofrer grandes males e aflições mortais» (v. 20), diz o Salmista. Apesar disso, o seu espírito está aberto e confiante, porque firme na fé reconhece o amparo de Deus e o professa: «És o meu rochedo e a minha fortaleza» (v. 3). Daí deriva a confiança inabalável de que a esperança n’Ele não dececiona: «Em ti, Senhor, me refugio, jamais serei confundido» (v. 1).

No meio das provações da vida, a esperança é animada pela firme e encorajadora certeza do amor de Deus, derramado nos corações pelo Espírito Santo. Por isso, ela não dececiona (cf. Rm 5, 5) e São Paulo pode escrever a Timóteo: «Pois se nós trabalhamos e lutamos, é porque pomos a nossa esperança no Deus vivo» (1 Tm 4, 10). O Deus vivo é, verdadeiramente, o «Deus da esperança» (Rm 15, 13), que em Cristo, pela sua morte e ressurreição, se tornou a «nossa esperança» (1 Tm 1, 1). Não podemos esquecer que fomos salvos nesta esperança, na qual precisamos de permanecer enraizados.

2. O pobre pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável, precisamente porque professada numa condição de vida precária, feita de privações, fragilidade e marginalização. Ele não conta com as seguranças do poder e do ter; pelo contrário, sofre-as e, muitas vezes, é vítima delas. A sua esperança só pode repousar noutro lugar. Reconhecendo que Deus é a nossa primeira e única esperança, também nós fazemos a passagem entre as esperanças que passam e a esperança que permanece. As riquezas são relativizadas perante o desejo de ter Deus como companheiro de caminho, porque se descobre o verdadeiro tesouro de que realmente precisamos. Ressoam claras e fortes as palavras com que o Senhor Jesus exortou os seus discípulos: «Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam» (Mt 6, 19-20).

3. A pobreza mais grave é não conhecer a Deus. Recordou-nos isso o Papa Francisco quando escreveu na Evangelii gaudium: «A pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé» (n. 200). Há aqui uma consciência fundamental e totalmente original sobre como encontrar em Deus o próprio tesouro. Realmente, insiste o apóstolo João: «Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20).

É uma regra da fé e um segredo da esperança: embora importantes, todos os bens desta terra, as realidades materiais, os prazeres do mundo ou o bem-estar económico não são suficientes para fazer o coração feliz. Frequentemente, as riquezas iludem e conduzem a situações dramáticas de pobreza, sendo a primeira dessas ilusões pensar que não precisamos de Deus e conduzir a nossa vida independentemente d’Ele. Vêm-me à mente as palavras de Santo Agostinho: «Seja Deus todo motivo de presumires. Sente necessidade d’Ele para que Ele te cumule. Tudo o que possuíres fora d’Ele é imensamente vazio» (Enarr. in Ps. 85,3).

4. A esperança cristã, à qual a Palavra de Deus remete, é certeza no caminho da vida, porque não depende da força humana, mas da promessa de Deus, que é sempre fiel. Por isso, desde os primórdios, os cristãos quiseram identificar a esperança com o símbolo da âncora, que oferece estabilidade e segurança. A esperança cristã é como uma âncora, que fixa o nosso coração na promessa do Senhor Jesus, que nos salvou com a sua morte e ressurreição e que retornará novamente no meio de nós. Esta esperança continua a indicar como verdadeiro horizonte da vida os «novos céus» e a «nova terra» (2 Pe 3, 13), onde a existência de todas as criaturas encontrará o seu sentido autêntico, visto que a nossa verdadeira pátria está nos céus (cf. Fl 3, 20).

Consequentemente, a cidade de Deus compromete-nos com as cidades dos homens, que, desde agora, devem começar a assemelhar-se àquela. A esperança, sustentada pelo amor de Deus derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5, 5), transforma o coração humano em terra fértil, onde pode germinar a caridade para a vida do mundo. A Tradição da Igreja reafirma constantemente esta circularidade entre as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A esperança nasce da fé, que a alimenta e sustenta, sobre o fundamento da caridade, que é a mãe de todas as virtudes. E precisamos de caridade hoje, agora. Não é uma promessa, mas uma realidade para a qual olhamos com alegria e responsabilidade: envolve-nos, orientando as nossas decisões para o bem comum. Em vez disso, quem carece de caridade não só carece de fé e esperança, mas tira a esperança ao seu próximo.

5. O convite bíblico à esperança traz consigo o dever de assumir, sem demora, responsabilidades coerentes na história. Com efeito, a caridade é «o maior mandamento social» (Catecismo da Igreja Católica, 1889). A pobreza tem causas estruturais que devem ser enfrentadas e eliminadas. À medida que isso acontece, todos somos chamados a criar novos sinais de esperança que testemunhem a caridade cristã, como fizeram, em todas as épocas, muitos santos e santas. Os hospitais e as escolas, por exemplo, são instituições criadas para expressar o acolhimento aos mais fracos e marginalizados. Eles deveriam fazer parte das políticas públicas de todos os países, mas as guerras e as desigualdades frequentemente ainda o impedem. Hoje, cada vez mais, as casas-família, as comunidades para menores, os centros de acolhimento e escuta, as refeições para os pobres, os dormitórios e as escolas populares tornam-se sinais de esperança: são tantos sinais, muitas vezes ocultos, aos quais talvez não prestemos atenção, mas que são muito importantes para se desvencilhar da indiferença e provocar o empenho nas diversas formas de voluntariado!

Os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho. Por isso, o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar às nossas comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral. Não só na sua dimensão caritativa, mas igualmente naquilo que a Igreja celebra e anuncia. Através das suas vozes, das suas histórias, dos seus rostos, Deus assumiu a sua pobreza para nos tornar ricos. Todas as formas de pobreza, sem excluir nenhuma, são um apelo a viver concretamente o Evangelho e a oferecer sinais eficazes de esperança.

6. Este é o convite que emerge da celebração do Jubileu. Não é por acaso que o Dia Mundial dos Pobres seja celebrado no final deste ano de graça. Quando a Porta Santa for fechada, deveremos conservar e transmitir os dons divinos que foram derramados nas nossas mãos ao longo de um ano inteiro de oração, conversão e testemunho. Os pobres não são objetos da nossa pastoral, mas sujeitos criativos que nos estimulam a encontrar sempre novas formas de viver o Evangelho hoje. Diante da sucessão de novas ondas de empobrecimento, corre-se o risco de se habituar e resignar-se. Todos os dias, encontramos pessoas pobres ou empobrecidas e, às vezes, pode acontecer que sejamos nós mesmos a possuir menos, a perder o que antes nos parecia seguro: uma casa, comida suficiente para o dia, acesso a cuidados de saúde, um bom nível de educação e informação, liberdade religiosa e de expressão.

Promovendo o bem comum, a nossa responsabilidade social tem o seu fundamento no gesto criador de Deus, que dá a todos os bens da terra: assim como estes, também os frutos do trabalho do homem devem ser igualmente acessíveis. Com efeito, ajudar os pobres é uma questão de justiça, muito antes de ser uma questão de caridade. Como observa Santo Agostinho: «Damos pão a quem tem fome, mas seria muito melhor que ninguém passasse fome e não precisássemos ser generosos para com ninguém. Damos roupas a quem está nu, mas Deus queira que todos estejam vestidos e que ninguém passe necessidades sobre isto» (Comentário à 1 Jo, VIII, 5).

Desejo, portanto, que este Ano Jubilar possa incentivar o desenvolvimento de políticas de combate às antigas e novas formas de pobreza, além de novas iniciativas de apoio e ajuda aos mais pobres entre os pobres. Trabalho, educação, habitação e saúde são condições para uma segurança que jamais se alcançará com armas. Congratulo-me com as iniciativas já existentes e com o empenho que é manifestado diariamente a nível internacional por um grande número de homens e mulheres de boa vontade.

Confiemos em Maria Santíssima, Consoladora dos aflitos, e com Ela entoemos um canto de esperança, fazendo nossas as palavras do Te Deum: «In Te, Domine, speravi, non confundar in aeternum – Em Vós espero, Meu Deus, não serei confundido eternamente».

Vaticano, 13 de junho de 2025, memória de Santo António de Lisboa, Patrono dos pobres

LEÃO PP. XIV

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA DILEXI TE DO SANTO PADRE LEÃO XIV SOBRE O AMOR PARA COM OS POBRES

 

sábado, 8 de novembro de 2025

 DOMINGO XXXII DO TEMPO COMUM -2025- Ano C

Hoje estamos mais em união com o Santo Padre, pois celebramos a festa da Igreja Mãe de todas as igrejas do mundo, uma vez que S.João de Latrão é a catedral do papa, como bispo de Roma. O Papa, hoje Leão XIV, é cabeça do Colégio de todos os Bispos e sinal visível da unidade da Igreja na fé e na caridade. É por isso que nos unimos à Igreja de Roma no dia da festa da consagração da sua catedral. 

Esta celebração convida-nos a tomar consciência de que a Igreja, simbolizada e representada pela Basílica de S.João de Latrão, é , no meio do mundo, a morada de Deus, o testemunho vivo da caminhada de Deus no meio dos homens.

Na 1ªleitura de hoje (Ez 47, 1-2.8-9.12) vemos como o Senhor, através do profeta, ajuda, restaura a esperança do povo de Israel, exilado na Babilónia. 

É do corpo ressuscitado do Senhor, verdadeiro templo, que brota a água da vida, a água, que é símbolo do Espírito Santo. É a esta realidade tão bela e misteriosa que alude a leitura de Ezequiel.

“Naqueles dias, o Anjo reconduziu-me à entrada do templo. Debaixo do limiar da porta saía água em direção ao Oriente, pois a fachada do templo estava voltada para o Oriente. As águas corriam da parte inferior, do lado direito do templo, ao sul do altar. O Anjo fez-me sair pela porta setentrional e contornar o templo por fora, até à porta exterior que está voltada para o Oriente. As águas corriam do lado direito. O Anjo disse-me: «Esta água corre para a região oriental, desce para Arabá e entra no mar, para que as suas águas se tornem salubres. Todo o ser vivo que se move na água onde chegar esta torrente terá novo alento e o peixe será mais abundante. Porque aonde esta água chegar, tornar-se-ão sãs as outras águas e haverá vida por toda a parte aonde chegar esta torrente. À beira da torrente, nas duas margens, crescerá toda a espécie de árvores de fruto; a sua folhagem não murchará, nem acabarão os seus frutos. Todos os meses darão frutos novos, porque as águas vêm do santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas de remédio.»”


Na 2ªleitura (1ª Cor 3,9-11.16-17.) S. Paulo identifica-nos como casa de Deus, cujo fundamento, o alicerce é Jesus Cristo. Lembra-nos também que, este templo, que é cada um de nós, é habitado pelo Espírito Santo desde o nosso Batismo. 

"Irmãos: Vós sois o edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, eu, como sábio arquiteto, assentei o alicerce, mas outro edifica sobre ele. Mas veja cada um como edifica,  pois ninguém pode pôr um alicerce diferente do que já foi posto: Jesus Cristo.  Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?  Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós." 

No evangelho de hoje  (Jo 2, 13-22) Jesus como que antecipa o tempo de A.C. para o tempo D.C. Tal como os discípulos, depois da Ressurreição de Jesus, acreditamos que em Jesus ressuscitado todo o templo cristão dedicado a Deus é imagem do próprio Cristo: Ele, no Seu corpo ressuscitado, é o verdadeiro templo, do qual o Templo de Jerusalém era apenas uma imagem e profecia.

“Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu Corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.”

«Hoje recordamos a dedicação, isto é, a consagração da catedral desta diocese», disse o Papa evocando a festa de aniversário da dedicação da basílica Lateranense. «Todos nós — explicou — somos diocesanos romanos, a nossa igreja catedral hoje festeja a sua consagração e por ser a a catedral de Roma, a sede primacial, é chamada “mãe de todas as igrejas”: assim chamamos a nossa catedral».

«Isto para nós não deve ser motivo de orgulho mas de serviço e de amor» afirmou Francisco. «A nossa catedral — reafirmou — é mãe de todas as igrejas e pensando na igreja de Roma, no dia da sua catedral, e nas outras igrejas do mundo e refletindo sobre as leituras de hoje, penso que podemos comentar três expressões: edificar, guardar e purificar a Igreja».

«Edificar a Igreja», antes de tudo, «Paulo é claro nestes poucos versículos da primeira carta aos Coríntios» proposta pela liturgia (3, 9-11.16-17): «Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele». Portanto, «construir a Igreja, edificar a Igreja» insistiu o Pontífice, reafirmando que «Jesus Cristo é o fundamento da Igreja, não há outro». Talvez alguém possa dizer: «“conheço uma senhora que é vidente e Nossa Senhora apareceu-lhe e disse-lhe o seguinte”: pois bem, que os videntes falem sobre os seus assuntos, mas o fundamento é Jesus Cristo, ele é a pedra angular neste edifício».

«Sem Jesus Cristo não existe Igreja, porque não existe fundamento» reafirmou o Papa. E «se se construir uma igreja — pensemos numa igreja material — sem fundamento, o que acontece? Desaba tudo». Do mesmo modo «se não houver Jesus Cristo vivo na Igreja, ela desaba e por isso Paulo diz: “Cada um fique atento ao modo como constrói. Ninguém pode pôr um fundamento diferente daquele que já existe, que é Jesus Cristo”».

«Não se muda o fundamento» afirmou Francisco, acrescentando: «E nós somos pedras vivas — diz o apóstolo Pedro na sua carta — que fazem crescer este edifício: estamos a pensar em termos de edifício, mas esta comunidade cresce com a própria vida». E «numa construção, quando se edifica uma casa, um templo, procura-se fazer de modo que as pedras estejam bem colocadas umas sobre as outras, que estejam alinhadas: não iguais, porque de acordo com a medida, algumas devem ser menores, maiores, mais largas...». Portanto «cada pedra é diferente cada um de nós é diferente; e esta é a riqueza da Igreja». A ponto que «cada um de nós constrói segundo o dom que Deus concedeu. Não podemos pensar numa Igreja uniforme: isto não é Igreja».

«Nos últimos dias — prosseguiu Francisco — Paulo falava-nos dos carismas, no capítulo XI, XII e XIII da carta aos Coríntios». Ele diz que «cada um de nós tem um carisma, um modo de ser: quem tem o carisma de ensinar, ensine; quem tem o carisma de santificar, santifique; quem tem outro, faça isso». Porque, explicou o Papa «é como no corpo: a mão precisa do nariz e dos olhos para ver como pegar num objeto; completam-se». E «cada um de nós contribui para esta complementação. Por isso, a Igreja não pode ser uniforme; deve ser diversa mas unida nesta harmonia sobre o fundamento de Jesus Cristo».

Precisamente «isto — observou Francisco — está também na base da sinodalidade: a Igreja deve ser sinodal porque cada um de nós tem os próprios carismas ao serviço da unidade da Igreja». Por esta razão, prosseguiu, não devemos «assustar-nos com as diferenças: aliás, assustar-nos quando alguém deseja tornar tudo igual: não, isto não é bom, não é Igreja».

«Não temos uma t-shirt como a equipe de futebol» insistiu o Pontífice; mas «temos o espírito e o carisma diverso, na unidade». Portanto, acrescentou, «assim se constrói a Igreja, edifica-se a Igreja: sobre a pedra angular que é Jesus Cristo — e não se pode mudar — e com a diversidade harmoniosa, com a harmonia». E «a harmonia — explicou — é a nossa caridade: se amarmos, haverá harmonia; se lutarmos uns contra os outros, mexericarmos, não haverá harmonia e o edifício desabará».

E se a «primeira palavra é edificar a Igreja, a segunda é conservar a Igreja» disse o Papa. Mas «conservá-la para que corra bem» não significa certamente dar «todos os anos» uma mão de tinta para «a pintar». Ao contrário, «conservá-la significa outra coisa, é conservar a vida verdadeira da Igreja». Paulo apresenta-a assim: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus vive em vós?». Por conseguinte, afirmou Francisco, trata-se de «conservar o Espírito que habita em nós, na Igreja e em cada um de nós: o Espírito Santo». Eis que «quando Paulo chegou a uma das primeiras comunidades cristãs com tanta humildade perguntou: “Recebestes o Espírito Santo?” — “Quem é “?”», perguntaram-lhe, porque «nem sequer sabiam que existia um Espírito Santo».

Uma questão que não diz respeito só àquela primeira comunidade cristã. «Quantos cristãos — comentou o Papa — hoje sabem quem é Jesus Cristo, quem é o Pai, porque rezam o Pai-Nosso; mas quando falas do Espírito Santo» respondem: «Sim, ah, é a pomba” e acaba assim».

E no entanto, explicou o Pontífice, «o Espírito Santo é a vida da Igreja, é a tua vida, a minha vida». «Nós somos templo do Espírito Santo e devemos conservar o Espírito Santo, a tal ponto que Paulo recomenda aos cristãos que “não entristeçam o Espírito Santo”, isto é, não tenham um comportamento contrário à harmonia que o Espírito Santo concede dentro de nós e na Igreja».

Por isso o Espírito Santo, recordou Francisco, «é a harmonia, ele realiza a harmonia deste edifício». Mas «o fundamento não «é o Espírito Santo: o fundamento é Cristo». Ao contrário, «a harmonia é concedida pelo Espírito Santo». Enquanto «a glória é para o Pai».

Portanto, é preciso «conservar a Igreja — repetiu o Papa — porque o Espírito Santo está dentro dela; saber que é Ele que nos inspira: “Façamos isto, façamos aquilo”». De facto, «quando nos vêm essas boas ideias: “veio isto, falo com o outro, façamos...” é o Espírito que move». Eis por que é importante «conservar o Espírito e não entristecê-lo».

Depois de «edificar a Igreja e de conservar a Igreja», a terceira palavra sugerida pelo Pontífice é «purificar a Igreja». Precisamente «a leitura do Evangelho — afirmou Francisco, referindo-se ao trecho de João (2, 13-22) — indica-nos o que significa purificar a Igreja: o Senhor, quando viu o que acontecia na entrada do templo, não falou: fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo».

«Somos todos pecadores, todos» afirmou o Papa, acrescentando: «Se algum de vós não é, levante a mão, porque seria uma boa curiosidade: todos o somos e por isso devemos purificar-nos continuamente, e purificar também a comunidade: a comunidade diocesana, a comunidade cristã, a comunidade universal da Igreja para a fazer crescer».

O Evangelho narra que Jesus diz: «tirai isto daqui». Mas «“isto” era o quê? Os touros para o sacrifício, as pombas, o dinheiro dos trocadores de moedas». A intimidação do Senhor é «Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes». É «a feira da mundanidade, do dinheiro, da vaidade: muitas feiras que se instalam na Igreja através dos nossos pecados».

Eis por que é preciso «purificá-la sempre». Alguns, confidenciou o Papa, chegam a dizer: «Gostaria de pegar num chicote quando vejo secretarias paroquiais com a lista de preços para um batismo» e assim por diante. «Mas esta não é a Igreja, é um mercado» disse o Pontífice. «Isto é um exemplo», acrescentou, «é o mercado da vaidade, o mercado que eu entre nesta associação para fazer carreira». Ao contrário, é preciso «purificar, mas não olhando para os pecados alheios: mas para o meu pecado. E o meu pecado faz da Igreja um mercado».

Concluindo, o Papa pediu para não esquecer «estas três palavras das leituras de hoje: edificar a Igreja sobre o fundamento de Jesus Cristo; guardar a Igreja, isto é, conservar o Espírito Santo; e purificar a Igreja, em nós e também nas instituições que frequentamos». Convidou a rezar «pela Igreja, porque é a nossa mãe: somos filhos da Igreja», a ponto que «Santo Inácio gostava de dizer: “a nossa santa mãe Igreja hierárquica”».

 Papa Francisco             (9 de novembro de 2017)

(Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 46 de 16 de novembro de 2017)

sábado, 1 de novembro de 2025

DOMINGO XXXI DO TEMPO COMUM -2025- Ano C

COMEMORAÇÃO DE TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS

A comemoração de todos os fiéis defuntos remonta ao final do primeiro milénio: foi o Abade de Cluny, Santo Odilão, quem no ano 998 determinou que em todos os mosteiros da sua Ordem se fizesse nesta data a evocação de todos os defuntos desde o princípio até ao fim do mundo.

Este costume depressa se espalhou: Roma oficializou-o no século XIV e no século XV foi concedido aos dominicanos de Valência (Espanha) o privilégio de celebrar três Missas neste dia, prática que se difundiu nos domínios espanhóis e portugueses e ainda na Polónia.

Durante a I Guerra Mundial, o Papa Bento XV generalizou esse uso em toda a Igreja (1915). 

Ecclesia

Vou seguir as leituras da 1ªMissa


Na 1ªleitura (Job 19, 1.23-27a) sentimos que Job atingiu o auge do sofrimento e está no limite das suas forças humanas e espirituais. Meus Deus, como é impressionante o testemunho de fé e de esperança que Job nos dá, no meio de toda a sua dor e desalento. Ao escutar esta leitura, o meu coração exclama: eu creio em Ti, Senhor, mas aumenta a minha fé!

"Job tomou a palavra e disse: «Quem dera que as minhas palavras fossem escritas num livro, ou gravadas em bronze com estilete de ferro, ou esculpidas em pedra para sempre! Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. Revestido da minha pele, estarei de pé; na minha carne verei a Deus. Eu próprio O verei, meus olhos O hão de contemplar»."

Na 2ªleitura (2 Cor 4, 14 – 5, 1) é bem verdade que experimentamos, vemos, na vida, o que S. Paulo nos diz, quando refere que, há medida que os anos vão passando, “o homem exterior se vai arruinando”. No entanto, S.Paulo desinstala-nos e desafia-nos: a não desanimarmos; a irmos para além do que experimentamos; a deixarmo-nos renovar dia a dia pelo Senhor; a olharmos para as coisas invisíveis, que são eternas.

"Como sabemos, irmãos, Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele. Tudo isto é por vossa causa, para que uma graça mais abundante multiplique as ações de graças de um maior número de cristãos para glória de Deus. Por isso, não desanimamos. Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens."

No evangelho (Mt 11, 25-30 ) é Jesus quem nos convida a escutá-l’O e a descansar n’Ele. Que o nosso coração todo se Lhe entregue e então, como prometeu, Ele nos aliviará. Jesus pode tudo, Ele e o Pai são um só. Confiemos e tenhamos esperança, pois Ele deu a Sua vida por cada um de nós, ama-nos infinitamente.

"Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve»."

A morte, na visão cristã, não é um fatalismo, mas uma passagem. Paulo usa a imagem da nossa vida terrena como uma “tenda”, uma morada provisória. A morte é o momento em que esta tenda é desfeita para recebermos “nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus”. Esta verdade de fé convida-nos a reorientar o nosso olhar: a não nos fixarmos no visível, que é passageiro, mas a projetarmo-nos no invisível, que é eterno. A nossa saudade é real, mas a vida para a qual os nossos defuntos foram chamados é infinitamente mais real e duradoura.

Para onde nos leva esta esperança? Qual o rosto do nosso Redentor? O Evangelho dá-nos a resposta na oração emocionada de Jesus. Ele, que conhece o Pai, revela-nos o Seu coração. E a seguir, lança o convite mais consolador de toda a Escritura: “Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei”.

Neste dia, quem está mais “cansado e oprimido” do que aqueles que sentem o peso da perda, mais recente ou mais distante? Jesus é o destino daqueles que partiram e o descanso dos que ficaram. Com a sua palavra Jesus alivia o sofrimento e a saudade, dando-nos a certeza de que o “jugo é suave” e a “carga é leve”. O encontro final com Deus não é um tribunal temível, mas a chegada a casa, ao colo de um Pai que nos acolhe através do seu Filho “manso e humilde de coração”.

É confiados nesta certeza que nos unimos aos que partiram através da oração, porque sabemos que é na comunhão da fé que nos encontramos uns com os outros. A nossa oração não é falar para o vazio, mas acompanhar com o nosso amor e a nossa fé aqueles que nos precederam na viagem para o Pai. Ao rezar por eles, afirmamos a nossa fé na ressurreição e a nossa esperança de, um dia, nos reunirmos com eles na “terra dos vivos”, como espera o salmista.

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