sábado, 8 de novembro de 2025

 DOMINGO XXXII DO TEMPO COMUM -2025- Ano C

Hoje estamos mais em união com o Santo Padre, pois celebramos a festa da Igreja Mãe de todas as igrejas do mundo, uma vez que S.João de Latrão é a catedral do papa, como bispo de Roma. O Papa, hoje Leão XIV, é cabeça do Colégio de todos os Bispos e sinal visível da unidade da Igreja na fé e na caridade. É por isso que nos unimos à Igreja de Roma no dia da festa da consagração da sua catedral. 

Esta celebração convida-nos a tomar consciência de que a Igreja, simbolizada e representada pela Basílica de S.João de Latrão, é , no meio do mundo, a morada de Deus, o testemunho vivo da caminhada de Deus no meio dos homens.

Na 1ªleitura de hoje (Ez 47, 1-2.8-9.12) vemos como o Senhor, através do profeta, ajuda, restaura a esperança do povo de Israel, exilado na Babilónia. 

É do corpo ressuscitado do Senhor, verdadeiro templo, que brota a água da vida, a água, que é símbolo do Espírito Santo. É a esta realidade tão bela e misteriosa que alude a leitura de Ezequiel.

“Naqueles dias, o Anjo reconduziu-me à entrada do templo. Debaixo do limiar da porta saía água em direção ao Oriente, pois a fachada do templo estava voltada para o Oriente. As águas corriam da parte inferior, do lado direito do templo, ao sul do altar. O Anjo fez-me sair pela porta setentrional e contornar o templo por fora, até à porta exterior que está voltada para o Oriente. As águas corriam do lado direito. O Anjo disse-me: «Esta água corre para a região oriental, desce para Arabá e entra no mar, para que as suas águas se tornem salubres. Todo o ser vivo que se move na água onde chegar esta torrente terá novo alento e o peixe será mais abundante. Porque aonde esta água chegar, tornar-se-ão sãs as outras águas e haverá vida por toda a parte aonde chegar esta torrente. À beira da torrente, nas duas margens, crescerá toda a espécie de árvores de fruto; a sua folhagem não murchará, nem acabarão os seus frutos. Todos os meses darão frutos novos, porque as águas vêm do santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas de remédio.»”


Na 2ªleitura (1ª Cor 3,9-11.16-17.) S. Paulo identifica-nos como casa de Deus, cujo fundamento, o alicerce é Jesus Cristo. Lembra-nos também que, este templo, que é cada um de nós, é habitado pelo Espírito Santo desde o nosso Batismo. 

"Irmãos: Vós sois o edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, eu, como sábio arquiteto, assentei o alicerce, mas outro edifica sobre ele. Mas veja cada um como edifica,  pois ninguém pode pôr um alicerce diferente do que já foi posto: Jesus Cristo.  Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?  Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós." 

No evangelho de hoje  (Jo 2, 13-22) Jesus como que antecipa o tempo de A.C. para o tempo D.C. Tal como os discípulos, depois da Ressurreição de Jesus, acreditamos que em Jesus ressuscitado todo o templo cristão dedicado a Deus é imagem do próprio Cristo: Ele, no Seu corpo ressuscitado, é o verdadeiro templo, do qual o Templo de Jerusalém era apenas uma imagem e profecia.

“Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu Corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.”

«Hoje recordamos a dedicação, isto é, a consagração da catedral desta diocese», disse o Papa evocando a festa de aniversário da dedicação da basílica Lateranense. «Todos nós — explicou — somos diocesanos romanos, a nossa igreja catedral hoje festeja a sua consagração e por ser a a catedral de Roma, a sede primacial, é chamada “mãe de todas as igrejas”: assim chamamos a nossa catedral».

«Isto para nós não deve ser motivo de orgulho mas de serviço e de amor» afirmou Francisco. «A nossa catedral — reafirmou — é mãe de todas as igrejas e pensando na igreja de Roma, no dia da sua catedral, e nas outras igrejas do mundo e refletindo sobre as leituras de hoje, penso que podemos comentar três expressões: edificar, guardar e purificar a Igreja».

«Edificar a Igreja», antes de tudo, «Paulo é claro nestes poucos versículos da primeira carta aos Coríntios» proposta pela liturgia (3, 9-11.16-17): «Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele». Portanto, «construir a Igreja, edificar a Igreja» insistiu o Pontífice, reafirmando que «Jesus Cristo é o fundamento da Igreja, não há outro». Talvez alguém possa dizer: «“conheço uma senhora que é vidente e Nossa Senhora apareceu-lhe e disse-lhe o seguinte”: pois bem, que os videntes falem sobre os seus assuntos, mas o fundamento é Jesus Cristo, ele é a pedra angular neste edifício».

«Sem Jesus Cristo não existe Igreja, porque não existe fundamento» reafirmou o Papa. E «se se construir uma igreja — pensemos numa igreja material — sem fundamento, o que acontece? Desaba tudo». Do mesmo modo «se não houver Jesus Cristo vivo na Igreja, ela desaba e por isso Paulo diz: “Cada um fique atento ao modo como constrói. Ninguém pode pôr um fundamento diferente daquele que já existe, que é Jesus Cristo”».

«Não se muda o fundamento» afirmou Francisco, acrescentando: «E nós somos pedras vivas — diz o apóstolo Pedro na sua carta — que fazem crescer este edifício: estamos a pensar em termos de edifício, mas esta comunidade cresce com a própria vida». E «numa construção, quando se edifica uma casa, um templo, procura-se fazer de modo que as pedras estejam bem colocadas umas sobre as outras, que estejam alinhadas: não iguais, porque de acordo com a medida, algumas devem ser menores, maiores, mais largas...». Portanto «cada pedra é diferente cada um de nós é diferente; e esta é a riqueza da Igreja». A ponto que «cada um de nós constrói segundo o dom que Deus concedeu. Não podemos pensar numa Igreja uniforme: isto não é Igreja».

«Nos últimos dias — prosseguiu Francisco — Paulo falava-nos dos carismas, no capítulo XI, XII e XIII da carta aos Coríntios». Ele diz que «cada um de nós tem um carisma, um modo de ser: quem tem o carisma de ensinar, ensine; quem tem o carisma de santificar, santifique; quem tem outro, faça isso». Porque, explicou o Papa «é como no corpo: a mão precisa do nariz e dos olhos para ver como pegar num objeto; completam-se». E «cada um de nós contribui para esta complementação. Por isso, a Igreja não pode ser uniforme; deve ser diversa mas unida nesta harmonia sobre o fundamento de Jesus Cristo».

Precisamente «isto — observou Francisco — está também na base da sinodalidade: a Igreja deve ser sinodal porque cada um de nós tem os próprios carismas ao serviço da unidade da Igreja». Por esta razão, prosseguiu, não devemos «assustar-nos com as diferenças: aliás, assustar-nos quando alguém deseja tornar tudo igual: não, isto não é bom, não é Igreja».

«Não temos uma t-shirt como a equipe de futebol» insistiu o Pontífice; mas «temos o espírito e o carisma diverso, na unidade». Portanto, acrescentou, «assim se constrói a Igreja, edifica-se a Igreja: sobre a pedra angular que é Jesus Cristo — e não se pode mudar — e com a diversidade harmoniosa, com a harmonia». E «a harmonia — explicou — é a nossa caridade: se amarmos, haverá harmonia; se lutarmos uns contra os outros, mexericarmos, não haverá harmonia e o edifício desabará».

E se a «primeira palavra é edificar a Igreja, a segunda é conservar a Igreja» disse o Papa. Mas «conservá-la para que corra bem» não significa certamente dar «todos os anos» uma mão de tinta para «a pintar». Ao contrário, «conservá-la significa outra coisa, é conservar a vida verdadeira da Igreja». Paulo apresenta-a assim: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus vive em vós?». Por conseguinte, afirmou Francisco, trata-se de «conservar o Espírito que habita em nós, na Igreja e em cada um de nós: o Espírito Santo». Eis que «quando Paulo chegou a uma das primeiras comunidades cristãs com tanta humildade perguntou: “Recebestes o Espírito Santo?” — “Quem é “?”», perguntaram-lhe, porque «nem sequer sabiam que existia um Espírito Santo».

Uma questão que não diz respeito só àquela primeira comunidade cristã. «Quantos cristãos — comentou o Papa — hoje sabem quem é Jesus Cristo, quem é o Pai, porque rezam o Pai-Nosso; mas quando falas do Espírito Santo» respondem: «Sim, ah, é a pomba” e acaba assim».

E no entanto, explicou o Pontífice, «o Espírito Santo é a vida da Igreja, é a tua vida, a minha vida». «Nós somos templo do Espírito Santo e devemos conservar o Espírito Santo, a tal ponto que Paulo recomenda aos cristãos que “não entristeçam o Espírito Santo”, isto é, não tenham um comportamento contrário à harmonia que o Espírito Santo concede dentro de nós e na Igreja».

Por isso o Espírito Santo, recordou Francisco, «é a harmonia, ele realiza a harmonia deste edifício». Mas «o fundamento não «é o Espírito Santo: o fundamento é Cristo». Ao contrário, «a harmonia é concedida pelo Espírito Santo». Enquanto «a glória é para o Pai».

Portanto, é preciso «conservar a Igreja — repetiu o Papa — porque o Espírito Santo está dentro dela; saber que é Ele que nos inspira: “Façamos isto, façamos aquilo”». De facto, «quando nos vêm essas boas ideias: “veio isto, falo com o outro, façamos...” é o Espírito que move». Eis por que é importante «conservar o Espírito e não entristecê-lo».

Depois de «edificar a Igreja e de conservar a Igreja», a terceira palavra sugerida pelo Pontífice é «purificar a Igreja». Precisamente «a leitura do Evangelho — afirmou Francisco, referindo-se ao trecho de João (2, 13-22) — indica-nos o que significa purificar a Igreja: o Senhor, quando viu o que acontecia na entrada do templo, não falou: fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo».

«Somos todos pecadores, todos» afirmou o Papa, acrescentando: «Se algum de vós não é, levante a mão, porque seria uma boa curiosidade: todos o somos e por isso devemos purificar-nos continuamente, e purificar também a comunidade: a comunidade diocesana, a comunidade cristã, a comunidade universal da Igreja para a fazer crescer».

O Evangelho narra que Jesus diz: «tirai isto daqui». Mas «“isto” era o quê? Os touros para o sacrifício, as pombas, o dinheiro dos trocadores de moedas». A intimidação do Senhor é «Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes». É «a feira da mundanidade, do dinheiro, da vaidade: muitas feiras que se instalam na Igreja através dos nossos pecados».

Eis por que é preciso «purificá-la sempre». Alguns, confidenciou o Papa, chegam a dizer: «Gostaria de pegar num chicote quando vejo secretarias paroquiais com a lista de preços para um batismo» e assim por diante. «Mas esta não é a Igreja, é um mercado» disse o Pontífice. «Isto é um exemplo», acrescentou, «é o mercado da vaidade, o mercado que eu entre nesta associação para fazer carreira». Ao contrário, é preciso «purificar, mas não olhando para os pecados alheios: mas para o meu pecado. E o meu pecado faz da Igreja um mercado».

Concluindo, o Papa pediu para não esquecer «estas três palavras das leituras de hoje: edificar a Igreja sobre o fundamento de Jesus Cristo; guardar a Igreja, isto é, conservar o Espírito Santo; e purificar a Igreja, em nós e também nas instituições que frequentamos». Convidou a rezar «pela Igreja, porque é a nossa mãe: somos filhos da Igreja», a ponto que «Santo Inácio gostava de dizer: “a nossa santa mãe Igreja hierárquica”».

 Papa Francisco             (9 de novembro de 2017)

(Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 46 de 16 de novembro de 2017)

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