DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM -2025- Ano C
IX Dia Mundial dos Pobres
As leituras
deste domingo, utilizando uma linguagem simbólica, que nos encaminha para o fim
do tempo litúrgico, desafiam-nos a crescer na confiança e a perseverar no
caminho do bem, no dia a dia da vida.
Na 1ª
leitura (Mal 3,
19-20a) o profeta Malaquias exorta-nos a confiar no Senhor, a entregarmo-nos
a Deus de alma e coração, a deixar que Ele, e só Ele, seja sempre Aquele que dá
sentido à nossa existência sendo o suporte, a raiz, dos nossos passos de cada
dia.
“Há de vir o
dia do Senhor, ardente como uma fornalha; e serão como a palha todos os
soberbos e malfeitores. O dia que há de vir os abrasará – diz o Senhor do
Universo – e não lhes deixará raiz nem ramos. Mas para vós que temeis o meu
nome, nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação.”
“Irmãos: Vós sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos entre vós na ociosidade, nem comemos de graça o pão de ninguém. Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não é que não tivéssemos esse direito, mas quisemos ser para vós exemplo a imitar. Quando ainda estávamos convosco, já vos dávamos esta ordem: quem não quer trabalhar, também não deve comer. Ouvimos dizer que alguns de vós vivem na ociosidade, sem fazerem trabalho algum, mas ocupados em futilidades. A esses ordenamos e recomendamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem.”
No
evangelho (Lc 21, 5-19) Jesus
exorta-nos a uma confiança sem limites em Deus, no dia a dia da vida. Só n’Ele
seremos verdadeiramente livres e, se perseverarmos no caminho de bem, nada nem
ninguém se perderá, porque o Senhor estará sempre connosco.
“Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».”
Senhor, sê a minha força e salvação.
Mensagem do Santo Padre para o IX Dia Mundial dos Pobres -16.11.2025
Tu
és a minha esperança (cf. Sl 71,5)
1. «Tu és a
minha esperança, ó Senhor Deus» (Sl 71,5).
Estas palavras emanam de um coração oprimido por graves dificuldades:
«Fizeste-me sofrer grandes males e aflições mortais» (v. 20),
diz o Salmista. Apesar disso, o seu espírito está aberto e confiante, porque
firme na fé reconhece o amparo de Deus e o professa: «És o meu rochedo e a
minha fortaleza» (v. 3). Daí deriva a confiança inabalável de que a esperança
n’Ele não dececiona: «Em ti, Senhor, me refugio, jamais serei confundido» (v. 1).
No meio das
provações da vida, a esperança é animada pela firme e encorajadora certeza do
amor de Deus, derramado nos corações pelo Espírito Santo. Por isso, ela não
dececiona (cf. Rm 5,
5) e
São Paulo pode escrever a Timóteo: «Pois se nós trabalhamos e lutamos, é porque
pomos a nossa esperança no Deus vivo» (1
Tm 4, 10). O Deus vivo é, verdadeiramente, o
«Deus da esperança» (Rm 15,
13),
que em Cristo, pela sua morte e ressurreição, se tornou a «nossa esperança» (1 Tm 1, 1).
Não podemos esquecer que fomos salvos nesta esperança, na qual precisamos de permanecer
enraizados.
2. O pobre
pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável, precisamente
porque professada numa condição de vida precária, feita de privações,
fragilidade e marginalização. Ele não conta com as seguranças do poder e do
ter; pelo contrário, sofre-as e, muitas vezes, é vítima delas. A sua esperança
só pode repousar noutro lugar. Reconhecendo que Deus é a nossa primeira e única
esperança, também nós fazemos a passagem entre as esperanças que
passam e a esperança que permanece. As riquezas são
relativizadas perante o desejo de ter Deus como companheiro de caminho, porque
se descobre o verdadeiro tesouro de que realmente precisamos. Ressoam claras e
fortes as palavras com que o Senhor Jesus exortou os seus discípulos: «Não
acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões
arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e
a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam» (Mt 6, 19-20).
3. A pobreza
mais grave é não conhecer a Deus. Recordou-nos isso o Papa Francisco quando
escreveu na Evangelii gaudium: «A pior discriminação
que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos
pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos
deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração
dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé»
(n. 200).
Há aqui uma consciência fundamental e totalmente original sobre como encontrar
em Deus o próprio tesouro. Realmente, insiste o apóstolo João: «Se alguém
disser: “Eu amo a Deus”, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois
aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê»
(1 Jo 4,
20).
É uma regra da
fé e um segredo da esperança: embora importantes, todos os bens desta terra, as
realidades materiais, os prazeres do mundo ou o bem-estar económico não são
suficientes para fazer o coração feliz. Frequentemente, as riquezas iludem e
conduzem a situações dramáticas de pobreza, sendo a primeira dessas ilusões
pensar que não precisamos de Deus e conduzir a nossa vida independentemente
d’Ele. Vêm-me à mente as palavras de Santo Agostinho: «Seja Deus todo motivo de
presumires. Sente necessidade d’Ele para que Ele te cumule. Tudo o que
possuíres fora d’Ele é imensamente vazio» (Enarr.
in Ps. 85,3).
4. A esperança
cristã, à qual a Palavra de Deus remete, é certeza no caminho da vida, porque
não depende da força humana, mas da promessa de Deus, que é sempre fiel. Por
isso, desde os primórdios, os cristãos quiseram identificar a esperança com o
símbolo da âncora, que oferece estabilidade e segurança. A esperança cristã é
como uma âncora, que fixa o nosso coração na promessa do Senhor Jesus, que nos
salvou com a sua morte e ressurreição e que retornará novamente no meio de nós.
Esta esperança continua a indicar como verdadeiro horizonte da vida os «novos
céus» e a «nova terra» (2
Pe 3, 13), onde a existência de todas as
criaturas encontrará o seu sentido autêntico, visto que a nossa verdadeira
pátria está nos céus (cf. Fl 3,
20).
Consequentemente,
a cidade de Deus compromete-nos com as cidades dos homens, que, desde agora,
devem começar a assemelhar-se àquela. A esperança, sustentada pelo amor de Deus
derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5, 5),
transforma o coração humano em terra fértil, onde pode germinar a caridade para
a vida do mundo. A Tradição da Igreja reafirma constantemente esta
circularidade entre as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A
esperança nasce da fé, que a alimenta e sustenta, sobre o fundamento da
caridade, que é a mãe de todas as virtudes. E precisamos de caridade hoje,
agora. Não é uma promessa, mas uma realidade para a qual olhamos com alegria e
responsabilidade: envolve-nos, orientando as nossas decisões para o bem comum.
Em vez disso, quem carece de caridade não só carece de fé e esperança, mas tira
a esperança ao seu próximo.
5. O convite
bíblico à esperança traz consigo o dever de assumir, sem demora,
responsabilidades coerentes na história. Com efeito, a caridade é «o maior
mandamento social» (Catecismo da Igreja Católica, 1889). A
pobreza tem causas estruturais que devem ser enfrentadas e eliminadas. À medida
que isso acontece, todos somos chamados a criar novos sinais de esperança que
testemunhem a caridade cristã, como fizeram, em todas as épocas, muitos santos
e santas. Os hospitais e as escolas, por exemplo, são instituições criadas para
expressar o acolhimento aos mais fracos e marginalizados. Eles deveriam fazer
parte das políticas públicas de todos os países, mas as guerras e as
desigualdades frequentemente ainda o impedem. Hoje, cada vez mais, as
casas-família, as comunidades para menores, os centros de acolhimento e escuta,
as refeições para os pobres, os dormitórios e as escolas populares tornam-se
sinais de esperança: são tantos sinais, muitas vezes ocultos, aos quais talvez
não prestemos atenção, mas que são muito importantes para se desvencilhar da
indiferença e provocar o empenho nas diversas formas de voluntariado!
Os pobres não
são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque
cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que
trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho. Por isso,
o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar às nossas
comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral. Não só na
sua dimensão caritativa, mas igualmente naquilo que a Igreja celebra e anuncia.
Através das suas vozes, das suas histórias, dos seus rostos, Deus assumiu a sua
pobreza para nos tornar ricos. Todas as formas de pobreza, sem excluir nenhuma,
são um apelo a viver concretamente o Evangelho e a oferecer sinais eficazes de
esperança.
6. Este é o
convite que emerge da celebração do Jubileu. Não é por acaso que o Dia
Mundial dos Pobres seja celebrado no final deste ano de graça. Quando
a Porta Santa for fechada, deveremos conservar e transmitir os dons divinos que
foram derramados nas nossas mãos ao longo de um ano inteiro de oração,
conversão e testemunho. Os pobres não são objetos da nossa pastoral, mas
sujeitos criativos que nos estimulam a encontrar sempre novas formas de viver o
Evangelho hoje. Diante da sucessão de novas ondas de empobrecimento, corre-se o
risco de se habituar e resignar-se. Todos os dias, encontramos pessoas pobres
ou empobrecidas e, às vezes, pode acontecer que sejamos nós mesmos a possuir
menos, a perder o que antes nos parecia seguro: uma casa, comida suficiente
para o dia, acesso a cuidados de saúde, um bom nível de educação e informação,
liberdade religiosa e de expressão.
Promovendo o
bem comum, a nossa responsabilidade social tem o seu fundamento no gesto
criador de Deus, que dá a todos os bens da terra: assim como estes, também os
frutos do trabalho do homem devem ser igualmente acessíveis. Com efeito, ajudar
os pobres é uma questão de justiça, muito antes de ser uma questão de caridade.
Como observa Santo Agostinho: «Damos pão a quem tem fome, mas seria muito
melhor que ninguém passasse fome e não precisássemos ser generosos para com
ninguém. Damos roupas a quem está nu, mas Deus queira que todos estejam
vestidos e que ninguém passe necessidades sobre isto» (Comentário à 1 Jo, VIII, 5).
Desejo,
portanto, que este Ano Jubilar possa incentivar o desenvolvimento de políticas
de combate às antigas e novas formas de pobreza, além de novas iniciativas de
apoio e ajuda aos mais pobres entre os pobres. Trabalho, educação, habitação e
saúde são condições para uma segurança que jamais se alcançará com armas.
Congratulo-me com as iniciativas já existentes e com o empenho que é
manifestado diariamente a nível internacional por um grande número de homens e
mulheres de boa vontade.
Confiemos em
Maria Santíssima, Consoladora dos aflitos, e com Ela entoemos um canto de
esperança, fazendo nossas as palavras do Te Deum: «In Te,
Domine, speravi, non confundar in aeternum – Em Vós espero, Meu Deus,
não serei confundido eternamente».
Vaticano,
13 de junho de 2025, memória de Santo António de Lisboa, Patrono dos pobres
LEÃO PP. XIV





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