terça-feira, 10 de dezembro de 2024

 Ano C – 2024

Advento passo a passo

 

11ºdia - 11/12/2024

Evangelho Mt 11, 28-30

«Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei»;

«Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.»

Jesus apresenta-se como aquele que é “manso e humilde de coração”. Desta forma, Jesus, pretende dizer a todos que não devem ter medo, porque Ele, o Messias, não vem para se impor sobre ninguém nem para impor um jugo pesado como fazem os chefes das nações. Ele é “manso e humilde”, por isso, o seu jugo é suave e nele encontram descanso todos os que andam cansados e oprimidos. 

“Naquele tempo, Jesus exclamou: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

Senhor, a tua palavra seduz-me. Nem sempre sou capaz de me aproximar e tantas vezes, mesmo aproximando-me de ti, tenho dificuldade em aprender os teus sentimentos. Por isso sou áspero, agressivo, intolerante e exigente com os outros, sem medir o peso que imponho sobre eles. Ensina-me a ser como tu, manso e humilde de coração, para que todos encontrem descanso para as suas almas enquanto caminhamos para ti.

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Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

No Evangelho encontramos o convite de Jesus. Ele diz assim: «Vinde a mim, vós todos que estais aflitos e oprimidos, e Eu aliviar-vos-ei» (Mt 11, 28). Quando Jesus pronuncia estas palavras, tem diante dos seus olhos as pessoas que encontra todos os dias pelas estradas da Galileia: muita gente simples, pobre, doente, pecadora, marginalizada... Este povo sempre acorreu a Ele para ouvir o sua palavra — uma palavra que incutia esperança! As palavras de Jesus incutem sempre esperança! — mas também para tocar pelo menos numa orla da sua veste. O próprio Jesus ia em busca destas multidões cansadas e desgarradas, como ovelhas sem pastor (cf. Mt 9, 35-36), e procurava-as para lhes anunciar o Reino de Deus e para curar muitos no corpo e no espírito. Agora, chama-os todos a Si: «Vinde a mim», prometendo-lhes alívio e consolação.

Este convite de Jesus estende-se até aos nossos dias, para alcançar numerosos irmãos e irmãs oprimidos por condições de vida precárias, por situações existenciais difíceis e às vezes desprovidas de pontos de referência válidos. Nos países mais pobres, mas também nas periferias dos países mais ricos encontram-se muitas pessoas cansadas e abatidas, sob o peso insuportável do abandono e da indiferença. A indiferença: como a indiferença humana faz mal aos necessitados! E pior ainda é a indiferença dos cristãos! Às margens da sociedade há muitos homens e mulheres provados pela indigência, mas inclusive pela insatisfação da vida e da frustração. Numerosas pessoas são obrigadas a emigrar da sua Pátria, pondo em perigo a própria vida. Um número muito maior delas suportam todos os dias o fardo de um sistema económico que explora o homem e impõe um «jugo» insuportável, que os poucos privilegiados não querem carregar. A cada um destes filhos do Pai que está no Céu, Jesus repete: «Vinde a mim, vós todos!». Mas di-lo também àqueles que possuem tudo, mas cujo coração está vazio, sem Deus. Inclusive a eles, Jesus dirige este convite: «Vinde a mim!». A exortação de Jesus está destinada a todos. Mas de modo especial àqueles que sofrem em maior medida.

Jesus promete dar alívio a todos, mas dirige-nos também um convite, que se parece com um mandamento: «Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11, 29). O «jugo» do Senhor consiste em carregar o peso dos outros com amor fraterno. Quando recebemos o alívio e a consolação de Cristo, por nossa vez somos chamados a tornar-nos alívio e consolação para os irmãos, com atitude mansa e humilde, à imitação do Mestre. A mansidão e a humildade do coração ajudam-nos não apenas a carregar o fardo dos outros, mas também a não pesar sobre eles com os nossos pontos de vista pessoais, os nossos juízos, as nossas críticas ou a nossa indiferença.

Invoquemos Maria Santíssima, que acolhe sob o seu manto todas as pessoas cansadas e abatidas a fim de que, através de uma fé iluminada e testemunhada na própria vida, possamos servir de alívio para quantos têm necessidade de ajuda, ternura e esperança.

Papa Francisco
(Angelus, 6 de julho de 2014)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

       Ano C - 2024

   Advento passo a passo

 

10ºdia - 10/12/2024

Texto: Mateus 18, 12-14

«...não é da vontade de meu Pai que está nos Céus que se perca um só destes pequeninos».

 

O Senhor não esquece o seu povo e manda o profeta “clamar” em alta voz que a palavra que anuncia a salvação é palavra de Deus e não palavra humana. Os homens são como a erva que murcha e seca, mas a palavra de Deus cumpre-se. Deus vem como um pastor que reúne o rebanho e acolhe nos seus braços as ovelhas mais frágeis.

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas e uma delas se tresmalhar, não deixará as noventa e nove nos montes para ir procurar a que anda tresmalhada? E se chegar a encontrá-la, em verdade vos digo que se alegra mais por causa dela do que pelas noventa e nove que não se tresmalharam. Assim também, não é da vontade de meu Pai que está nos Céus que se perca um só destes pequeninos».

Abre, Senhor, os meus olhos à esperança. É verdade que na vida e no mundo há tantos sinais de desgraça que podem provocar a desilusão, mas também é verdade que os teus sinais libertadores, a força e o poder do teu amor que perdoa e salva, são mais fortes que qualquer desgraça que possa experimentar. Salva-me, Senhor, do desterro do desânimo e da fraqueza da pouca fé.

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Bom dia, queridos irmãos e irmãs!

Todos nós conhecemos a imagem do Bom Pastor, que carrega sobre os ombros a ovelha tresmalhada. Este ícone representa sempre a solicitude de Jesus pelos pecadores e a misericórdia de Deus que não se resigna a perder alguém. A parábola é narrada por Jesus, para levar a compreender que a sua proximidade em relação aos pecadores não deve escandalizar mas, ao contrário, suscitar em todos uma séria reflexão sobre o nosso modo de viver a fé. A narração vê, por um lado, os pecadores que se aproximam de Jesus para o ouvir e, por outro, os doutores da lei, os escribas desconfiados, que se afastam dele por causa deste comportamento. Afastam-se porque Jesus se aproxima dos pecadores. Eles eram orgulhosos, soberbos, julgavam-se justos.

A nossa parábola move-se em volta de três personagens: o pastor, a ovelha tresmalhada e o resto do rebanho. No entanto, quem age é unicamente o pastor, não as ovelhas. Portanto, o pastor é o único verdadeiro protagonista e tudo depende dele. Uma pergunta introduz a parábola: «Quem de vós, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até a encontrar?» (v. 4). Trata-se de um paradoxo que induz a duvidar do comportamento do pastor: é sábio abandonar as noventa e nove por uma única ovelha? E além disso não na segurança de um aprisco, mas no deserto? Em conformidade com a tradição bíblica, o deserto é lugar de morte, onde é difícil encontrar alimento e água, sem abrigo e à mercê das feras e dos salteadores. O que podem fazer noventa e nove ovelhas indefesas? Contudo o paradoxo continua, afirmando que o pastor, depois de ter encontrado a ovelha, «a carrega sobre os ombros cheio de júbilo e, voltando para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: “Regozijai-vos comigo!”» (v. 6). Portanto, tem-se a impressão de que o pastor não volta ao deserto para recuperar o rebanho inteiro! Orientado para aquela única ovelha, parece esquecer-se das outras noventa e nove. Mas na realidade não é assim! O ensinamento que Jesus nos quer transmitir é, ao contrário, que nenhuma ovelha se pode perder. O Senhor não pode resignar-se ao facto de que até uma única pessoa possa extraviar-se. A ação de Deus é aquela de quem vai à procura dos filhos perdidos para depois fazer festa e rejubilar com todos porque voltou a encontrá-los. Trata-se de um desejo irrefreável: nem sequer noventa e nove ovelhas podem impedir o pastor e mantê-lo fechado no redil. Ele poderia raciocinar assim: «Faço o balanço: tenho noventa e nove, perdi uma mas não se trata de uma grande perda». Mas ele vai em busca daquela, porque cada uma é muito importante para ele, e aquela é a mais necessitada, a mais abandonada, a mais descartada; assim, ele vai à sua procura. Todos estamos avisados: a misericórdia pelos pecadores é o estilo com que Deus age, e a esta misericórdia Ele é absolutamente fiel: nada e ninguém poderá desviá-lo da sua vontade de salvação. Deus não conhece a nossa atual cultura do descartável, Deus não tem nada a ver com isto. Deus não descarta pessoa alguma; Deus ama todos, procura todos: um por um! Ele não conhece a expressão «descartar as pessoas», porque Ele é todo amor e toda misericórdia.

A grei do Senhor está sempre a caminho: ela não possui o Senhor, não pode iludir-se de o aprisionar nos nossos esquemas e nas nossas estratégias. O pastor será encontrado onde estiver a ovelha perdida. Portanto, o Senhor deve ser procurado onde Ele mesmo nos quer encontrar, não onde nós mesmo pretendemos encontrá-lo! De nenhum outro modo será possível reunir o rebanho, a não ser seguindo o caminho traçado pela misericórdia do pastor. Enquanto vai em busca da ovelha tresmalhada, ele suscita as outras noventa e nove a fim de que participem na reunificação da grei. Então não apenas a ovelha carregada nos ombros, mas o rebanho inteiro seguirá o pastor até à sua casa para fazer festa com «amigos e vizinhos».

Deveríamos ponderar com frequência sobre esta parábola, porque na comunidade cristã há sempre alguém que falta, tendo partido e deixado um lugar vazio. Às vezes isto é desanimador e leva-nos a acreditar que se trata de uma perda inevitável, uma doença sem remédio. É então que corremos o perigo de nos fecharmos dentro de um redil, onde não haverá cheiro de ovelhas, mas fedor de fechado! E os cristãos? Não devemos viver fechados, porque teremos em nós o mau cheiro dos lugares fechados. Nunca! Devemos sair, sem nos fecharmos em nós mesmos, nas pequenas comunidades, na paróquia, considerando-nos «justos». Isto acontece quando falta o impulso missionário que nos leva ao encontro dos outros. Na visão de Jesus, não existem ovelhas perdidas definitivamente, mas só ovelhas que devem ser encontradas. Devemos compreender bem isto: para Deus ninguém está definitivamente perdido. Nunca! Deus procura-nos até ao último instante. Pensai no bom ladrão; mas só na visão de Jesus ninguém está definitivamente perdido. Portanto, a perspetiva é totalmente dinâmica, aberta, estimulante e criativa. Impele-nos a sair à procura, para empreender um caminho de fraternidade. Nenhuma distância pode manter afastado o pastor; e nenhum rebanho pode renunciar a um irmão. Encontrar quem está perdido é a alegria do pastor e de Deus, mas é também o júbilo de toda a grei! Todos nós somos ovelhas reencontradas e reunidas pela misericórdia do Senhor, chamados a congregar juntamente com Ele o rebanho inteiro!

Papa Francisco
(Audiência Geral, 4 de maio de  2016

domingo, 8 de dezembro de 2024

 Ano C - 2024

Advento passo a passo

 9ºdia - 09/12/2024

Lucas 5, 17-26

«Homem, os teus pecados estão perdoados»;

«Eu te ordeno – disse Ele ao paralítico – levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa». Logo ele se levantou à vista de todos, tomou a enxerga em que estivera deitado e foi para casa, dando glória a Deus.»

A incredulidade constitui um dos maiores obstáculos para que a Boa Nova de Jesus penetre no coração humano. No relato lucano esta dificuldade é apresentada em forma de preconceito, quer contra Jesus que atribui a si o que, segundo o poder religioso estabelecido, somente Deus poderia fazer, que é perdoar pecados, quer contra o paralítico que, sendo tal, era considerado impuro. Quando o coração humano se volta para o seu Senhor não existem barreiras que possam impedir o verdadeiro encontro. Foi o que aconteceu no caso do paralítico que, estando impedido de chegar até Jesus, foi conduzido por quatro pessoas generosas que não mediram esforços para ajudar aquele necessitado. A iniciativa do encontro é de Deus. Ele espera a abertura do coração humano.

Certo dia, enquanto Jesus ensinava, estavam entre a assistência fariseus e doutores da Lei, que tinham vindo de todas as povoações da Galileia, da Judeia e de Jerusalém; e Ele tinha o poder do Senhor para operar curas. Apareceram então uns homens, trazendo num catre um paralítico; tentavam levá-lo para dentro e colocá-lo diante de Jesus. Como não encontraram modo de o introduzir, por causa da multidão, subiram ao terraço e, através das telhas, desceram-no com o catre, deixando-o no meio da assistência, diante de Jesus. Ao ver a fé daquela gente, Jesus disse: «Homem, os teus pecados estão perdoados». Os escribas e fariseus começaram a pensar: «Quem é este que profere blasfémias? Não é só Deus que pode perdoar os pecados?» Mas Jesus, que lia nos seus pensamentos, tomou a palavra e disse-lhes: «Que estais a pensar nos vossos corações? Que é mais fácil dizer: ‘Os teus pecados estão perdoados’ ou ‘Levanta-te e anda’? Pois bem, para saberdes que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados... Eu te ordeno – disse Ele ao paralítico – levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa». Logo ele se levantou à vista de todos, tomou a enxerga em que estivera deitado e foi para casa, dando glória a Deus. Ficaram todos muito admirados e davam glória a Deus; e, cheios de temor, diziam: «Hoje vimos maravilhas». 

Vem à minha vida, Senhor, e toca o meu coração, ali onde o pecado não me deixa levantar. Olha-me no mais íntimo de mim e conhece-me naquele conhecimento que tudo transforma e tudo faz renascer como vida nova. Estou totalmente disponível para ouvir a tua voz que me liberta e para sentir o teu amor que me preenche. Vem, Senhor Jesus!

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Para rezar de verdade, o cristão precisa de «coragem» porque, fortalecido na sua fé, deve chegar até a desafiar o Senhor, encontrando sempre o modo de superar as inevitáveis «dificuldades» sem duvidar. Foi uma verdadeira averiguação sobre o estilo de oração de cada um, que o Papa sugeriu na missa celebrada em Santa Marta. A inspiração para a homilia foi a atitude do leproso e do paralítico que pedem a Jesus para ser curados, como narra o Evangelho de Marcos.

«A liturgia de hoje faz ouvir este trecho do Evangelho, que é uma cura: Jesus cura», observou Francisco, referindo-se ao trecho (2, 1-12) onde se narra, precisamente, a cura do paralítico. Mas também a liturgia do dia precedente tinha proposto «outra cura»: a do leproso, citada sempre por Marcos (1, 40-45). São duas curas, acrescentou, «por solicitação da pessoa doente: ambos pediram ao Senhor para os curar».

«Isto faz-nos pensar — explicou o Papa — como é a oração para pedir algo ao Senhor no Evangelho, como rezam as pessoas que alcançaram o que pediram». No trecho proposto no dia 11 pela liturgia «foi muito simples: um leproso foi ter com Jesus, fitou-o e disse-lhe: “Se quiseres, podes purificar-me”». Em síntese, «desafiou-o: se quiseres, podes». E «a resposta de Jesus é imediata: “quero, sê purificado”».

Portanto, insistiu Francisco, «este homem mostra-nos que para pedir algo ao Senhor é preciso ter fé». E o leproso diante de Jesus «tinha fé, era corajoso, desafia-o: se quiseres, podes; se não me curares, é porque não o queres». Diz «tudo claramente, mas tinha fé, e a verdadeira oração nasce desta fé».

«Mas havia outro homem — afirmou o Papa, referindo-se sempre às narrações evangélicas — que pediu a Jesus para curar o filho possuído pelo demónio, dizendo: “Se puderes, faz algo”». Diante destas palavras, Jesus respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda». Perante aquele homem que duvidava, Jesus respondeu que «tudo é possível para quem crê». Mas eis que, respondendo, «aquele pobre homem cheio de angústia» disse: «Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé frágil!».

É preciso ter «sempre a fé no início — explicou — mas ele tinha pouca fé», segundo a narração do Evangelho. Ao contrário, o «leproso tinha firmeza, desafiou» Jesus. E agindo assim ensina-nos, sugeriu o Papa, que «sempre, quando nos aproximamos do Senhor para pedir algo, devemos começar pela fé e fazê-lo na fé: tenho fé que me podes curar, creio que tu podes fazer isto». É preciso «ter a coragem de o desafiar, como o leproso de ontem, o paralítico de hoje».

Portanto, «a oração na fé». E a tal propósito, o Pontífice convidou a perguntar-se: «Como rezo eu? Quando preciso de algo, como o peço? Peço-o com fé ou como um papagaio?». Simplesmente repito: «Senhor, preciso disto!» ou «tenho verdadeiro interesse por aquilo que peço? Ou se vier, vem; caso contrário, é má sorte: não, isto não funciona assim».

Com efeito, insistiu Francisco, «a oração, quando peço algo, começa a partir da fé; mas se eu não tiver tanta fé», posso «dizer como aquele homem, o pai do menino: “Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé que é pouca”». Por isso, sugeriu, devemos «começar a prece assim, e com aquela fé desafiar o Senhor».

Mas «muitas vezes — reconheceu — há dificuldades, não é como o caso do leproso: “Quero, sê curado”». Ao contrário, «como no trecho do Evangelho de hoje, chegam com o paralítico, com o leito, e havia uma multidão dentro e fora da casa, não conseguiam aproximar-se». Sem dúvida, «se tivesse sido uma pessoa poderia abrir caminho e ir, mas havia quatro pessoas com o leito: era impossível». Mas «eles queriam que o seu amigo fosse curado».

E «também aquele paralítico queria ser curado — prosseguiu o Papa — e foram atrás da casa, subiram no telhado, abriram uma fenda e fizeram descer o leito com o paralítico diante de Jesus: que bonito presente!». E Jesus, enquanto «pregava, vê descer aquele homem, mas eles queriam que o seu amigo fosse curado, queriam isto: havia uma dificuldade e souberam ir além das dificuldades, procurar o modo de se aproximar de Jesus com a fé que pode curar». E «tiveram a coragem de procurar o modo».

«No Evangelho há muitas pessoas como esta», recordou o Pontífice. «Pensemos naquela velhinha que há dezoito anos sofria de hemorragias: Jesus estava distante, mas havia uma grande multidão, e diz: “Se eu conseguir tocar a orla do seu manto, serei salva”». E «com fé forte abriu caminho no meio da multidão: foi, foi e tocou». E «Jesus deu-se conta disto e ela ficou curada». Eis que é preciso ter «coragem para lutar e chegar ao Senhor, coragem para ter fé no início: “Se quiseres, podes curar-me, se quiseres, eu creio”». E também «coragem para me aproximar do Senhor, quando existem dificuldades». É preciso ter «aquela coragem: muitas vezes é preciso ter paciência e saber esperar os tempos, sem desistir, indo sempre em frente». Não teria sentido aproximar-me «ao Senhor com fé» e dizer: «Se quiseres, podes dar-me esta graça», e «então, visto que depois de três dias a graça não chega», pedir «outra coisa e esquecer». É preciso ter «coragem».

Nesta linha, afirmou o Papa, há também «muitos santos: pensemos em Santa Mónica que rezou, chorou muito pela conversão do seu filho Agostinho» e «conseguiu alcançá-la». Eis que é preciso ter «coragem para desafiar o Senhor, coragem para se pôr em jogo». Poder-se-ia dizer: e «se eu não for curado, se a graça não chegar?». Talvez seja «melhor não forçar muito». Não, replicou claramente o Papa: «Na oração insiste-se muito, e quando há dificuldades, elas devem ser superadas, como eles fizeram».

«A oração cristã — reiterou Francisco — nasce da fé em Jesus e com a fé vai sempre além das dificuldades». E «uma frase para a trazer hoje no nosso coração ajudar-nos-á; é do nosso pai Abraão, a quem foi prometida a herança, ou seja, que com cem anos teria um filho». Com efeito, «diz o apóstolo Paulo: “acreditou” e assim foi justificado». Teve «fé» e «“pôs-se a caminho”: fé e fazer tudo para alcançar aquela graça que estou a pedir». Concluindo, recordou que «o Senhor nos disse: “Pedi e ser-vos-á dado”. Tomemos também esta palavra e tenhamos confiança, mas sempre com fé e pondo-nos em jogo». Precisamente «esta é a coragem que tem a oração cristã: se uma oração não for corajosa não será cristã».

Papa Francisco
(Meditações matutinas na Santa Missa, na capela de Santa Marta,12 de janeiro de 2018)

sábado, 7 de dezembro de 2024

 Ano C - 2024

Advento passo a passo

  II DOMINGO DO ADVENTO 

 SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

 

A solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria celebra a digna morada que Deus preparou para o seu Filho, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo. Desde a sua Conceição, a Virgem Maria foi preservada de toda a culpa original, por singular privilégio de Deus, como foi definido solenemente pelo papa Pio IX, no dia 8 de dezembro de 1854, como verdade dogmática recebida por antiga tradição, atestada liturgicamente desde o século XI.

Na 1ªleitura (Gn3,9-15.20) Deus pergunta pelo homem: “onde estás?”. É a pergunta mais dramática que o homem pode ouvir.  Podemos dizer que toda a vida do homem se resume a saber onde está. Onde é que realmente estou? O homem está escondido, nu e enganado. Escondido de si mesmo da mulher e de Deus. Nu, vazio, sem rumo, sem razão, sem sentido. Foi enganado pela serpente ou pela sua curiosidade? Ou porque queria ser como Deus? Ou queria viver sem Deus? Agora precisa de uma outra mulher. Uma mulher capaz de vencer a serpente sem se deixar enganar. Uma mulher que Deus pode encontrar no seu lugar porque não se esconde. Maria é essa mulher.

Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». O homem deu à mulher o nome de ‘Eva’, porque ela foi a mãe de todos os viventes.


Ao escutarmos S.Paulo neste hino da carta aos efésios (Ef 1,3-6.11-12), somos desafiados a contemplar o infinito Amor do Pai, manifestado em Cristo desde antes da criação do mundo. O Pai pensa em mim, em ti, em cada um de nós. O Pai sustém-nos com as Suas bênçãos e com a Sua Graça, para que cada um seja filho e herdeiro no Filho. A Sua vontade a respeito de mim, de ti, de nós é o grande mistério do amor que se derrama sobre cada um, para que se renda ao Amor e se torne a Sua imagem, no Filho amado.

Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adotivos, por Jesus Cristo, para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperamos em Cristo.

O texto de Lucas (Lc1,26-38) conta como, no segredo de Nazaré, Deus Se fez homem no seio de Maria. Uma jovem, quando nada o fazia adivinhar, vê-se repleta da atenção de Deus, que enche o lugar onde ela se encontra. A voz do anjo inquieta o coração da jovem e a notícia faz tremer os alicerces da sua existência. Na força do Espírito Santo entrega-se totalmente e diz "SIM" à vontade de Deus

Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».

Maria, Imaculada, Mãe do meu Senhor, no silêncio do meu coração quero aprender contigo a acolher a voz de Deus, o Seu olhar e os Seus desafios. Sei que não é fácil dizer e viver a tua disponibilidade: “Eis a escrava do Senhor, faça-se segundo a Tua palavra”, porque estas palavras podem levar-me até ao limite da entrega, no mistério da cruz. Ensina-me a alegria de dizer sim, sem o medo das consequências.

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Amados irmãos e irmãs, bom dia e boa festa!

Hoje, Solenidade da Imaculada Conceição, o Evangelho apresenta-nos a cena da Anunciação (cf. Lc 1, 26-38). Ela mostra duas atitudes de Maria que ajudam a compreender como ela guardou o dom único que recebeu, o de um coração totalmente livre do pecado. E estas duas atitudes são a admiração perante as obras de Deus e a fidelidade nas coisas simples.

Vejamos a primeira: a admiração. O Anjo diz a Maria: «Alegra-te, ó cheia de graça: o Senhor está contigo» (v. 28) e o evangelista Lucas nota que a Virgem «ficou muito perturbada e interrogava-se sobre o significado dessas palavras» (v. 29). Ela fica surpreendida, impressionada, perturbada: fica espantada quando lhe chamam “cheia de graça” - Nossa Senhora é humilde, isto é, cheia do amor de Deus. É uma atitude nobre: saber maravilhar-se com os dons do Senhor, sem nunca os dar por certos, apreciando o seu valor, alegrando-se com a confiança e a ternura que eles trazem. E é também importante testemunhar essa admiração perante os outros, falando humildemente dos dons de Deus, do bem recebido, e não apenas dos problemas quotidianos. Ser mais positivo. Podemos perguntar-nos: sou capaz de me admirar com as obras de Deus? Por vezes, sinto-me maravilhado e partilho-o com alguém? Ou procuro sempre as coisas más, as coisas tristes?

E chegamos à segunda atitude: a fidelidade nas coisas simples. O Evangelho, antes da Anunciação, não diz nada sobre Maria. Apresenta-a como uma jovem simples, aparentemente igual a tantas outras que viviam na sua aldeia. Uma jovem que, precisamente graças à sua simplicidade, conservou puro aquele Coração Imaculado com o qual, pela graça de Deus, foi concebida. E também isto é importante, porque, para acolher os grandes dons de Deus, é decisivo saber valorizar aqueles que são mais comuns e menos aparentes.

Foi precisamente com a fidelidade quotidiana no bem que Nossa Senhora deixou crescer nela o dom de Deus; foi assim que ela se formou para responder ao Senhor, para lhe dizer “sim” com toda a sua vida.

Então perguntemo-nos: acredito que o importante, quer nas situações diárias quer no caminho espiritual, é a fidelidade a Deus? E, se acredito nisto, encontro tempo para ler o Evangelho, para rezar, para participar na Eucaristia e receber o Perdão sacramental, para fazer algum gesto concreto de serviço gratuito? Estas pequenas escolhas quotidianas são decisivas para acolher a presença do Senhor.

Que Maria Imaculada nos ajude a maravilharmo-nos com os dons de Deus e a responder-lhes com a generosidade fiel todos os dias.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

  Ano C - 2024

Advento passo a passo

 7ºdia - 07/12/2024

Mateus 9, 35 – 10,1.6-38

«Ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor»;

«Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a Sua seara.»;

«Recebestes de graça, dai de graça.»

As circunstâncias do tempo presente mostram-se muitas vezes contrárias à esperança. Parece que não há razões para acreditar que tudo poderá ser diferente e que ainda há possibilidade de salvação. A nossa vida pessoal e a vida da sociedade que nos rodeia parecem muitas vezes um caos, onde o homem se perde, e não um lugar de salvação para todos. Deus, porém, contraria esta ideia fatalista com que a realidade nos quer muitas vezes oprimir e desanimar. Ele é um Deus presente, atento e cuidador. A sua voz faz mudar o rumo da vida de todos os que a escutam, os seus ouvidos estão atentos ao nosso clamor e as suas mãos estendem-se para as nossas feridas.

 

Naquele tempo, Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades. Ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Jesus disse então aos seus discípulos: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara». Depois chamou a Si os seus Doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades. Jesus deu-lhes também as seguintes instruções: «Ide às ovelhas perdidas da casa de Israel. Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça».

 

No caminho da minha vida, Senhor, elevo para ti a minha voz, exponho ao teu olhar as minhas feridas e espero o pão de cada dia. Tu és um Deus atento à minha miséria e solícito em atender à minha súplica. No meio da angústia, quando a tribulação atinge as minhas seguranças, tu vens em meu auxílio. Em ti espero, Senhor, pois só tu és o santo de Israel.

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Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

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Hoje, no Evangelho, Jesus chama pelo nome - chama pelo nome - e envia os doze Apóstolos. Enviando-os, pede-lhes que proclamem algo: «Anunciai que o Reino dos Céus está próximo» (Mt 10, 7). É o mesmo anúncio com que Jesus deu início à sua pregação: o Reino de Deus, isto é, o seu senhorio de amor, aproximou-se, vem entre nós. E não se trata apenas de uma notícia entre outras, mas da realidade fundamental da vida: a proximidade de Deus, a proximidade de Jesus! 

Com efeito, se o Deus dos Céus está próximo, não estamos sozinhos na terra e não perdemos a confiança nem sequer no meio das dificuldades. Eis a primeira coisa a dizer às pessoas: Deus não está distante, é Pai. Deus não está distante, é Pai, conhece-te e ama-te; quer dar-te a mão, até quando percorres caminhos íngremes e acidentados, até quando cais e tens dificuldade em levantar-te e retomar o caminho; Ele, o Senhor, está aí, contigo. Aliás, muitas vezes, nos momentos em que te sentes mais frágil, podes sentir a sua presença mais forte. Ele conhece o caminho, Ele está contigo, Ele é o teu Pai! Ele é o meu Pai! Ele é o nosso Pai!

Detenhamo-nos nesta imagem, porque anunciar Deus próximo significa convidar a pensar como uma criança que caminha segurando a mão do pai: tudo lhe parece diferente. O mundo, grande e misterioso, torna-se familiar e seguro, pois a criança sabe que está protegida. Não tem medo e aprende a abrir-se: encontra outras pessoas, encontra novos amigos, aprende com alegria coisas que não conhecia, e depois volta para casa e conta a todos o que viu, enquanto aumenta nela o desejo de crescer e fazer as coisas que viu o pai fazer. É por isso que Jesus começa por aqui, é por isso que a proximidade de Deus é o primeiro anúncio: permanecendo próximos de Deus, vencemos o medo, abrimo-nos ao amor, crescemos no bem e sentimos a necessidade e a alegria de anunciar! 

Se quisermos ser bons apóstolos, devemos ser como as crianças: sentar-nos “no colo de Deus” e, dali olhar para o mundo com confiança e amor, para testemunhar que Deus é Pai, que só Ele transforma o nosso coração e nos dá aquela alegria e aquela paz que nós próprios não nos podemos dar.

Anunciar que Deus está próximo. Mas como o fazer? No Evangelho, Jesus recomenda que não se digam muitas palavras, mas que se façam muitos gestos de amor e de esperança em nome do Senhor; não dizer muitas palavras, mas fazer gestos: «Curai os doentes, diz, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, de graça dai» (Mt 10, 8). Eis o cerne do anúncio: o testemunho gratuito, o serviço. Digo-vos algo: fico sempre muito perplexo com os “paroleiros”, com o seu muito falar e nada fazer. 

Façamos aqui algumas perguntas: nós, que cremos no Deus próximo, confiamos n’Ele? Sabemos olhar para a frente com confiança, como uma criança que sabe que está no colo do pai? Sabemos sentar-nos no colo do Pai na oração, na escuta da Palavra, aproximando-nos dos Sacramentos? E por fim, abraçados a Ele, sabemos incutir coragem nos outros, fazer-nos próximos de quem sofre e está só, de quem está distante e até de quem nos é hostil? Eis a realidade da fé, é isto que conta!

E agora rezemos a Maria, para que nos ajude a sentir-nos amados e a transmitir proximidade e confiança.

Papa Francisco
(Angelus, 18 de junho de  2023)