Tempo Quaresmal -2026- Ano A
Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor
Ao entrarmos na semana, a que os cristãos chamam de, “Semana Maior”, somos
convidados a contemplar, num silêncio mais interior e profundo, os mistérios de
Deus, que em Jesus, o todo inocente, o todo de Deus, assumem, na brutalidade e
injustiça que os textos revelam, até onde vai o Amor de Deus, Uno e Trino, por
cada um de nós.
Na 1ªleitura (Is. 50, 4-7) o autor sagrado
transporta-nos para o evangelho, é o inocento, o cordeiro puro, que é levado ao
matadouro e todo Se entrega. Não resiste, sabe que está inocente, mas por Amor
ao Pai e aos homens, não recua um passo, não desvia o rosto, mas entra numa
comunhão total com o Pai e entrega-nos a todos e a cada um de nós, como oferta
ao Pai. Porque nos amas assim, neste Amor sem fim? Não há explicação, mas
podemos aprender, se nos abrirmos à ação do Espírito Santo, que todo o que, em
Ti, se entrega a Deus nunca está só, porque Tu o habitas. A vida passa a ter
outro sentido!
“O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.”
Na 2ªleitura (Filip 2, 6-11) S.Paulo apresenta-nos
Jesus, o Filho de Deus e não olha a meios termos, traça claramente qual é o
caminho dos que seguem Cristo. Se Jesus, sendo o Filho de Deus assumiu a
condição de servo, nós que somos filhos, no Filho, só temos de aprender com o
nosso irmão mais velho. Não há outra volta a dar, o caminho é o da cruz, mas
por amor. Em Jesus, e só n’Ele, é possível, pois se assim não fosse Ele não
no-lo pediria.
“Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade
com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um
nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se
ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus
Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.”
O texto do evangelho (Mt 26, 14 – 27,66), introduz-nos em duas
multidões diferentes: uma, a dos que vêm a Jerusalém celebrar a Páscoa, gente
simples, temente a Deus, que louva Jesus e o aclama como Filho de David; a
outra, gente importante, socialmente falando, muitos deles fariseus, que querem
acabar com Jesus, querem que Ele morra. E é nesta dialética de morte e de vida,
de festa e de tristeza, que somos conduzidos, sem nunca perder de vista o Amor
maior de Deus que atinge o pico, quando Jesus todo se entrega, por Amor, no
Jardim das Oliveiras. É aí que Jesus, o inocente, que é também homem, num
sofrimento sem paralelo, verdadeiramente se sente só e abandonado e no limite
das Suas forças, todo se entrega por Amor ao Pai, para restabelecer, de uma vez
para sempre, a Aliança entre Deus e a humanidade, por nosso Amor. E esta
entrega completa-se quando, no alto da cruz, atrai todos para Deus. Meu Senhor
e meu Deus, como nos amais! Bendito e louvado sejais pelo vosso eterno amor.
“Naquele tempo, um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os
príncipes dos sacerdotes e disse-lhes:
R «Que estais dispostos a dar-me para vos
entregar Jesus?».
N Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.
E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar.
No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram
ter com Jesus e perguntaram-Lhe:
R «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?».
N Ele respondeu:
J «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda
dizer: O meu tempo está próximo. É
em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’».
N Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha
mandado e prepararam a Páscoa.
Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, declarou:
J «Em verdade vos digo: Um de vós há de entregar-Me».
N Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar-Lhe:
R «Serei eu, Senhor?».
N Jesus respondeu:
J «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que há de entregar-Me. O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser
entregue! Melhor seria para esse
homem não ter nascido».
N Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:
R «Serei eu, Mestre?».
N Respondeu Jesus:
J «Tu o disseste».
N Enquanto comiam, Jesus
tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:
J «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».
N Tomou em seguida um cálice, deu
graças e entregou-lho, dizendo:
J «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados.
Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».
N Cantaram os salmos e
seguiram para o monte das Oliveiras.
N Então, Jesus disse-lhes:
J «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa, como está escrito: ‘Ferirei o
pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho’. Mas, depois de ressuscitar, preceder-vos-ei a caminho
da Galileia».
N Pedro interveio, dizendo:
R «Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei».
N Jesus respondeu-lhe:
J «Em verdade te digo: Esta
mesma noite, antes de o galo cantar, Me
negarás três vezes».
N Pedro disse-lhe:
R «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».
N E o mesmo disseram todos os discípulos.
Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani, e disse aos discípulos:
J «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».
N E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a
angustiar-Se. Disse-lhes então:
J «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo».
N E adiantando-Se um pouco mais, caiu
com o rosto por terra, enquanto orava e dizia:
J «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça
como Eu quero, mas como Tu queres».
N Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os
a dormir e disse a Pedro:
J «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo!
Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».
N De novo Se afastou, pela segunda vez, e orou, dizendo:
J «Meu Pai, se
este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade».
N Voltou novamente e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados de sono. Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:
J «Dormi agora e descansai. Chegou
a hora em que o Filho do homem vai
ser entregue às mãos dos pecadores. Levantai-vos,
vamos. Aproxima-se aquele que Me vai
entregar».
N Ainda Jesus estava a falar, quando
chegou Judas, um dos Doze, e com ele
uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. O traidor tinha-lhes dado este sinal:
R «Aquele que eu beijar, é esse mesmo.
Prendei-O».
N Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:
R «Salve, Mestre!».
N E beijou-O.
Jesus respondeu- lhe:
J «Amigo, a que vieste?».
N Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-n’O.
Um dos que estavam com Jesus levou a mão à
espada, desembainhou-a e feriu um
servo do sumo sacerdote, cortando-lhe
a orelha. Jesus disse-lhe:
J «Mete a tua espada na bainha, pois
todos os que puxarem da espada morrerão à espada. Pensas que não posso rogar a meu Pai que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos? Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim tem de acontecer?».
N Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:
J «Viestes com espadas e varapaus para Me prender como se fosse um salteador! Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar e não Me prendestes... Mas, tudo isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas».
N Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.
N Os que tinham prendido Jesus levaram-n’O
à presença do sumo sacerdote Caifás, onde
os escribas e os anciãos se tinham reunido. Pedro foi-O seguindo de longe, até
ao palácio do sumo sacerdote. Aproximando-se,
entrou e sentou-se com os guardas, para
ver como acabaria tudo aquilo. Entretanto,
os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para O condenarem à morte, mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Por fim, apresentaram-se duas que disseram:
R «Este homem afirmou: ‘Posso
destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias’».
N Então o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:
R «Não respondes nada? Que
dizes ao que depõem contra Ti?».
N Mas Jesus continuava calado.
Disse-Lhe o sumo sacerdote:
R «Eu Te conjuro pelo Deus vivo, que
nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».
N Jesus respondeu-lhe:
J «Tu o disseste. E
Eu digo-vos: vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu».
N Então o sumo sacerdote rasgou as vestes,
dizendo:
R «Blasfemou. Que
necessidade temos de mais testemunhas? Acabais de ouvir a blasfémia. Que
vos parece?».
N Eles responderam:
R «É réu de morte».
N Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas. Outros
esbofeteavam-n’O, dizendo:
R «Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?».
N Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:
R «Tu também estavas com Jesus, o galileu».
N Mas ele negou diante de todos, dizendo:
R «Não sei o que dizes».
N Dirigindo-se para a porta, foi
visto por outra criada que disse aos circunstantes:
R «Este homem estava com Jesus de Nazaré».
N E, de novo, ele negou com juramento:
R «Não conheço tal homem».
N Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro:
R «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia».
N Começou então a dizer imprecações e a jurar:
R «Não conheço tal homem».
N E, imediatamente, um galo cantou.
Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera: «Antes de o galo
cantar, tu Me negarás três vezes». E, saindo, chorou amargamente.
Ao romper da manhã, todos
os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para Lhe darem a morte. Depois de Lhe atarem as mãos, levaram-n’O e
entregaram-n’O ao governador Pilatos. Então
Judas, que entregara Jesus, vendo
que Ele tinha sido condenado, tocado
pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:
R «Pequei, entregando sangue inocente».
N Mas eles replicaram:
R «Que nos importa? É lá contigo».
N Então arremessou as moedas para o santuário, saiu dali e foi-se enforcar. Mas os príncipes dos sacerdotes apanharam as moedas e disseram:
R «Não se podem lançar no tesouro, porque
são preço de sangue».
N E, depois de terem deliberado, compraram
com elas o Campo do Oleiro, que
servia para a sepultura dos estrangeiros.
Por este motivo se tem chamado àquele campo, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue». Cumpriu-se
então o que fora dito pelo profeta: «Tomaram
trinta moedas de prata, preço em que
foi avaliado Aquele que os filhos de
Israel avaliaram e deram-nas pelo
Campo do Oleiro, como o Senhor me
tinha ordenado».
N Entretanto, Jesus foi levado à presença do governador, que lhe perguntou:
R «Tu és o Rei dos judeus?».
N Jesus respondeu:
J «É como dizes».
N Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. Disse-Lhe então Pilatos:
R «Não ouves quantas acusações levantam contra
Ti?».
N Mas Jesus não respondeu coisa alguma, a
ponto de o governador ficar muito admirado. Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha do povo. Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. E, quando eles se reuniram, disse-lhes Pilatos:
R «Qual quereis que vos solte? Barrabás,
ou Jesus, chamado Cristo?».
N Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja.
Enquanto estava sentado no tribunal, a
mulher mandou-lhe dizer:
R «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele».
N Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse
Barrabás e fizesse morrer Jesus. O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:
R «Qual dos dois quereis que vos solte?».
N Eles responderam:
R «Barrabás».
N Disse-lhes Pilatos:
R «E que hei de fazer de Jesus, chamado Cristo?».
N Responderam todos:
R «Seja crucificado».
N Pilatos insistiu:
R «Que mal fez Ele?».
N Mas eles gritavam cada vez mais:
R «Seja crucificado».
N Pilatos, vendo que não conseguia nada e
aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:
R «Estou inocente do sangue deste homem. Isso
é lá convosco».
N E todo o povo respondeu:
R «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».
N Soltou-lhes então Barrabás.
E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O
para ser crucificado. Então os
soldados do governador levaram Jesus
para o pretório e reuniram à volta
d’Ele toda a coorte. Tiraram-Lhe a
roupa e envolveram-n’O num manto
vermelho. Teceram uma coroa de
espinhos e puseram-Lha na cabeça e
colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo:
R «Salve, Rei dos judeus!».
N Depois, cuspiam-Lhe no rosto e,
pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n’O para ser crucificado.
N Ao saírem, encontraram
um homem de Cirene, chamado Simão, e
requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, deram-Lhe a beber vinho misturado
com fel. Mas Jesus, depois de o
provar, não quis beber. Depois de O
terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardá-l’O. Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus». Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:
R «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz».
N Os príncipes dos sacerdotes, juntamente
com os escribas e os anciãos, também
troçavam d’Ele, dizendo:
R «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos
n’Ele. Confiou em Deus: Ele que
O livre agora, se O ama, porque
disse: ‘Eu sou Filho de Deus’».
N Até os salteadores crucificados com Ele O insultavam.
Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz
forte:
J «Eli, Eli, lemá sabactáni?»,
N que quer dizer: «Meu
Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?».
Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:
R «Está a chamar por Elias».
N Um deles correu a tomar uma esponja, embebeu-a
em vinagre, pô-la na ponta duma cana
e deu-Lhe a beber. Mas os outros
disseram:
R «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O».
N E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.
N Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos
que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o
tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram:
R «Este era verdadeiramente Filho de Deus».
N Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a
Galileia, para O servirem. Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Ao cair da tarde, veio um homem rico de
Arimateia, chamado José, que também
se tinha tornado discípulo de Jesus. Foi
ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. E Pilatos ordenou que lho entregassem. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu sepulcro novo, que tinha mandado escavar na rocha. Depois rolou uma grande pedra para a entrada do
sepulcro e retirou-se. Entretanto,
estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro. No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos e disseram-lhe:
R «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia, para que não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’. E a última impostura seria pior do que a primeira».
N Pilatos respondeu:
R «Tendes à vossa disposição a guarda: ide
e guardai-o como entenderdes».
N Eles foram e guardaram o sepulcro, selando
a pedra e pondo a guarda.
Senhor, Tu que és o Filho de Deus e, como homem,
sofreste como ninguém, mas, como Deus tudo podes, salva-nos, lembra-te de nós
no Teu Reino.
Muitos foram
os sofrimentos de Jesus e, sempre que ouvimos a narração da paixão,
penetram-nos na alma. Foram sofrimentos do corpo: pensemos nas
bofetadas, nas pancadas, na flagelação, na coroa de espinhos, na tortura da
cruz. Foram sofrimentos da alma: a traição de Judas, as negações de
Pedro, as condenações religiosa e civil, a zombaria dos guardas, os insultos ao
pé da cruz, a rejeição de tantos, a falência de tudo, o abandono dos
discípulos. E contudo, no meio de todo este sofrimento, restava a Jesus uma
certeza: a proximidade do Pai. Mas agora acontece o impensável; antes de
morrer, clama: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» O abandono
de Jesus.
Estamos
perante o sofrimento mais dilacerante, que é o sofrimento do espírito:
na hora mais trágica, Jesus experimenta o abandono por parte de Deus. Antes
disto, nunca chamara o Pai pelo nome genérico de Deus. Para nos fazer sentir a
intensidade daquele momento, o Evangelho apresenta a frase também em aramaico;
dentre as palavras pronunciadas por Jesus na cruz, esta é a única que nos chega
na língua original. O acontecimento real é o abaixamento extremo, ou seja, o
abandono de seu Pai, o abandono de Deus. Aquilo que o Senhor chega a sofrer por
nosso amor, até temos dificuldade de o entender. Vê o céu fechado, experimenta
o viver no seu amargo limite, o naufrágio da existência, o colapso de toda a
certeza: grita «o porquê dos porquês». «Tu, ó Deus, porquê?»
«Meu Deus,
meu Deus, porque Me abandonaste?» Na Bíblia, o verbo «abandonar» é forte;
aparece em momentos de dor extrema: em amores fracassados, rejeitados e
traídos; em filhos enjeitados e abortados; em situações de repúdio, viuvez e
orfandade; em casamentos gorados, em exclusões que privam dos laços sociais, na
opressão da injustiça e na solidão da doença. Em suma, nas mais drásticas
dilacerações dos vínculos, aplica-se esta palavra: «abandono». Cristo levou
tudo isto para a cruz, ao carregar sobre Si o pecado do mundo. E, no auge, Ele
– Filho unigénito e predileto – experimentou a situação mais estranha no seu
caso: o abandono, a distância de Deus.
E porque foi
tão longe? Por nós; não há outra resposta. Por nós. Irmãos e irmãs,
isto hoje não é um espetáculo. Cada um de nós, ouvindo referir o abandono
sofrido por Jesus, diga para si mesmo: por mim. Este abandono é o
preço que pagou por mim. Fez-Se solidário com cada um de nós até ao ponto
extremo, para estar connosco até ao fim. Experimentou o abandono
para não nos deixar reféns da desolação e permanecer ao nosso lado para sempre.
Fê-lo por mim, por ti, para que, quando eu, tu ou qualquer outro se vir
encurralado à parede, perdido num beco sem saída, precipitado no abismo do abandono,
sorvido no redemoinho de tantos «porquês» sem resposta, saibamos que há uma
esperança: Ele, uma esperança para ti, para mim. Não é o fim, porque Jesus
esteve ali e agora está contigo: Ele que sofreu a distância causada pelo
abandono para acolher no seu amor todas as nossas distâncias. A fim de que
possa cada um de nós dizer: nas minhas quedas (cada um de nós caiu tantas
vezes!), na minha desolação, quando me sinto traído ou traí os outros, quando
me sinto descartado ou descarto os outros, quando me sinto abandonado ou
abandonei os outros, pensemos que Ele foi abandonado, traído, descartado. Nisto
encontramo-Lo a Ele. Quando me sinto transviado e perdido, quando não aguento
mais, Ele está comigo; nos meus tantos porquês sem resposta, Ele está neles.
É assim que o
Senhor nos salva: a partir de dentro dos nossos «porquês». De lá,
descerra a esperança que não desilude. De facto, na cruz,
enquanto experimenta o abandono extremo, não Se deixa cair no desespero – este
é o limite –, mas reza e entrega-Se: grita o seu «porquê» com as palavras de um
Salmo (22/21, 2) e entrega-Se nas mãos do Pai, embora O sinta distante (cf. Lc 23, 46)
ou nem O sinta sequer, porque Se encontra abandonado. No abandono, entrega-Se.
No abandono, continua a amar os Seus que O deixaram sozinho. No abandono,
perdoa aos que O crucificaram (cf. Lc 23,
34).
E assim o abismo dos nossos inúmeros males é imerso num amor
maior, de tal modo que cada uma das nossas separações se transforma em
comunhão.
Irmãos e
irmãs, um amor assim como o de Jesus, que dá tudo por nós, até ao fim, é capaz
de transformar os nossos corações de pedra em corações de carne. É um amor de
piedade, ternura e compaixão. Este é o estilo de Deus: proximidade, compaixão e
ternura. Deus é assim. Cristo, abandonado, impele-nos a procurá-Lo e a amá-Lo
nos abandonados. Porque neles, não temos apenas necessitados, mas temo-Lo a
Ele, Jesus Abandonado, Aquele que nos salvou descendo até ao fundo da nossa
condição humana. Ele está com cada um deles, abandonados até à morte... Penso
naquele homem sem abrigo, alemão, que morreu sob a colunata, sozinho,
abandonado. É Jesus para cada um de nós. Muitos precisam da nossa proximidade,
tantos abandonados. Também eu preciso que Jesus me acaricie e Se aproxime de
mim, e, para isso, vou encontrá-Lo nos abandonados, nas pessoas sozinhas. Ele
deseja que cuidemos dos irmãos e irmãs que mais se parecem com Ele, com Ele no
ato extremo do sofrimento e da solidão. Hoje, queridos irmãos e irmãs, há
tantos «cristos abandonados». Há povos inteiros explorados e deixados à própria
sorte; há pobres que vivem nas encruzilhadas das nossas estradas e cujo olhar
não temos a coragem de fixar; há migrantes, que já não são rostos, mas números;
há reclusos rejeitados, pessoas catalogadas como problema. Mas há também muitos
cristos abandonados invisíveis, escondidos, que são descartados de forma
«elegante»: crianças impedidas de nascer, idosos deixados sozinhos – podem
porventura ser o teu pai, a tua mãe, o avô, a avó, abandonados nos lares de
terceira idade –, doentes não visitados, pessoas portadoras de deficiência
ignoradas, jovens que sentem dentro um grande vazio sem que ninguém escute
verdadeiramente o seu grito de dor. E não encontram outra estrada senão o
suicídio. Os abandonados de hoje. Os cristos de hoje.
Jesus
abandonado pede-nos para termos olhos e coração para os abandonados. Para nós,
discípulos do Abandonado, ninguém pode ser marginalizado, ninguém pode ser
deixado a si mesmo; porque – recordemo-lo – as pessoas rejeitadas e excluídas
são ícones vivos de Cristo, recordam-nos o seu amor louco, o seu abandono que
nos salva de toda a solidão e desolação. Irmãos e irmãs, peçamos hoje esta
graça: saber amar Jesus abandonado e saber amar Jesus em cada abandonado, em
cada abandonada. Peçamos a graça de saber ver, saber reconhecer o Senhor que
continua a clamar neles. Não permitamos que a sua voz se perca no silêncio
ensurdecedor da indiferença. Não fomos deixados sozinhos por Deus; cuidemos de
quem é deixado só. Então, só então, faremos nossos os desejos e os sentimentos
d’Aquele que por nós «Se esvaziou a Si mesmo» (Flp 2, 7). Esvaziou-se
totalmente por nós.


.png)
.png)
.png)
Sem comentários:
Enviar um comentário