Tempo Quaresmal -2026- Ano A
Solenidade da Anunciação do Senhor
Não há outro dia na Liturgia, que possa ser comparado ao anúncio que hoje
celebramos. Alguém poderia indagar: “E a Páscoa?”. Sim, é verdade, a Páscoa é a
nossa certeza da ressurreição. Mas, para quem acreditou até ao fim na
Anunciação do anjo, a Páscoa seria uma consequência lógica: não seria possível
que a morte prendesse para sempre o Filho de Deus. Ao tomarmos a sério e com
profundidade o anúncio do anjo, descobrimos que nada nos pode afastar de Deus.
Ele veio morar connosco, “armou a sua tenda entre nós”. Desde que o anjo nos
anunciou a vinda do “Emanuel”, tudo o mais é uma espera confiante. Quem crê que
Deus está presente sabe que a morte “não terá a ultima palavra”. Nós cremos e
confiamos que o Menino Deus está connosco e que nem a morte, nem a vida nos
poderão separar do Seu Amor.
in site Ignatiana - Jesuítas, Brasil
"Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da
Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que
era descendente de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela
estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou
perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o
Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e
darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e
chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai
David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo
respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te
cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de
Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o
sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua
palavra»."
No Evangelho da Solenidade de hoje, o Anjo Gabriel toma a palavra por
três vezes para se dirigir à Virgem Maria.
A primeira vez, quando A saúda com estas palavras: «Alegra-Te, ó cheia de
graça: o Senhor está contigo» (Lc 1, 28). O motivo para rejubilar, o motivo da alegria, é desvendado em poucas
palavras: o Senhor está contigo. Irmão, irmã, hoje podes ouvir
estas palavras dirigidas a ti, dirigidas a cada um de nós; podes fazê-las tuas
sempre que te abeiras do perdão de Deus, porque nessa ocasião te diz o Senhor:
«Eu estou contigo». Muitas vezes pensamos que a Confissão consiste em ir de
cabeça inclinada ao encontro de Deus. Mas voltar para o Senhor não é
primariamente obra nossa; é Ele que nos vem visitar, cumular da sua graça,
alegrar com o seu júbilo. Confessar-se é dar ao Pai a alegria de nos
levantar de novo. No centro daquilo que vamos viver, não estão os nossos
pecados; estarão, mas não estão no centro. O seu perdão: este é o centro.
Tentemos imaginar se, no centro do Sacramento, estivessem os nossos pecados:
então dependeria quase tudo de nós, do nosso arrependimento, dos nossos
esforços, do nosso empenhamento. Mas não, no centro está Ele, que nos liberta e
põe de pé.
Restituamos à graça o primado e peçamos o dom de
compreender que a Reconciliação consiste antes de tudo, não num passo nosso
para Deus, mas no seu abraço que nos envolve, deslumbra, comove. É o Senhor que
entra em nossa casa, como na de Maria em Nazaré, e traz um deslumbramento e uma
alegria antes desconhecidos: a alegria do perdão. Como primeiro plano foquemos
a perspetiva em Deus: voltaremos a gostar da Confissão. Precisamos dela, porque
cada renascimento interior, cada viragem espiritual começa daqui, do perdão de
Deus. Não negligenciemos a Reconciliação, mas voltemos a descobri-la como o
Sacramento da alegria. Sim, o Sacramento da alegria, onde o mal que nos faz
envergonhar se torna ocasião para experimentar o abraço caloroso do Pai, a
força suave de Jesus que nos cura, a «ternura materna» do Espírito Santo. Aqui
está o coração da Confissão.
E então, queridos irmãos e irmãs, aproximemo-nos para receber o perdão.
Vós, irmãos que administrais o perdão de Deus, sede aqueles que oferecem a quem
se aproxima de vós a alegria deste anúncio: Alegra-te, o Senhor está
contigo. Sem qualquer rigidez, por favor, sem criar obstáculos nem
incómodos; portas abertas à misericórdia! De forma especial na Confissão, somos
chamados a personificar o Bom Pastor que toma as suas ovelhas nos braços e as
acaricia; somos chamados a ser canais de graça que derramam, na aridez do
coração, a água viva da misericórdia do Pai. Se um sacerdote não tem este
comportamento, se não tem estes sentimentos no coração, é melhor que não vá
confessar.
A segunda vez que o Anjo fala a Maria, perturbada com a saudação recebida,
é para Lhe dizer: «Não temas» (Lc 1, 30). A primeira: «O Senhor está contigo»; a segunda palavra: «Não temas». Na
Sagrada Escritura, quando Deus aparece, gosta de dirigir estas duas palavras a
quem O acolhe: não temas. Di-las a Abraão (cf. Gn 15,
1), repete-as a Isaac (cf. Gn 26, 24), a Jacob (cf. Gn 46,3) e a muitos outros até chegarmos a José (cf. Mt 1,
20) e a Maria: não temas, não temas. Deste modo
transmite-nos uma mensagem clara e reconfortante: sempre que a vida se abre a
Deus, o medo deixa de poder ter-nos como reféns. Pois o medo mantém-nos reféns.
Tu, irmã, irmão, se os teus pecados te assustam, se o teu passado te preocupa,
se as tuas feridas não cicatrizam, se as quedas constantes te desmoralizam e
cresce a sensação de teres perdido a esperança, por favor não temas. Deus
conhece as tuas fraquezas e é maior que as tuas falhas. Deus é maior do que os nossos
pecados: é muito maior! Só te pede uma coisa: as tuas fragilidades, as tuas
misérias, não as guardes dentro de ti; leva-as a Ele, entrega-as a Ele e, de
motivo de desolação, tornar-se-ão oportunidade de ressurreição. Não temas! O
Senhor pede-nos os nossos pecados. Vem-me ao pensamento a história daquele
monge do deserto, que tinha dado tudo a Deus, tudo, e levava uma vida de jejum,
de penitência, de oração. Mas o Senhor pedia-lhe mais. «Senhor, dei-Vos tudo –
diz o monge – que falta?». «Dá-me os teus pecados». O mesmo nos pede o Senhor.
Não temas!
A Virgem Maria acompanha-nos: Ela mesma deixou a sua perturbação em Deus. O
anúncio do Anjo dava-Lhe razões sérias para não temer. Propunha-Lhe algo de
inimaginável, que estava para além das suas forças e, sozinha, não poderia
levá-lo para diante: haveria muitas dificuldades, problemas com a lei mosaica,
com José, com as pessoas da sua terra e do seu povo. Todas estas são
dificuldades: não temas!
Mas Maria não levanta objeções. Basta-Lhe aquele não temas,
basta-Lhe a garantia de Deus. Agarra-Se a Ele, como queremos nós fazer esta
noite. Porque muitas vezes fazemos o contrário: partimos das nossas certezas e,
só quando as perdemos, é que vamos ter com Deus. Nossa Senhora ensina-nos o
contrário: partir de Deus, com a confiança de que, assim, tudo o mais nos será
dado (cf. Mt 6, 33). Convida-nos
a ir à fonte, a ir ao Senhor, que é o remédio radical contra o medo e os
perigos da existência. Recorda-no-lo uma bela frase, gravada num confessionário
aqui no Vaticano, que se dirige a Deus com estas palavras: «Afastar-se de
Vós é cair, voltar a Vós é ressuscitar, permanecer em Vós é existir» (cf. Santo
Agostinho, Soliloquium I, 3).
Nestes dias, notícias e imagens de morte continuam a entrar pelas nossas
casas dentro, enquanto as bombas destroem as casas de muitos dos nossos irmãos
e irmãs ucranianos inermes. A guerra brutal, que se abateu sobre tantos e que a
todos faz sofrer, provoca em cada um medo e consternação. Notamos dentro de nós
uma sensação de impotência e inadequação. Precisamos de ouvir dizer-nos: «não
temas». Mas não bastam as garantias humanas, é necessária a presença de Deus, a
certeza do perdão divino, o único que apaga o mal, desativa o rancor, restitui
a paz ao coração. Voltemos a Deus, voltemos ao seu perdão.
E, pela terceira vez, o Anjo retoma a palavra, para dizer a Nossa Senhora:
«O Espírito Santo virá sobre Ti» (Lc 1, 35). «O Senhor está contigo»; «Não temas» e agora a terceira palavra: «o
Espírito Santo virá sobre Ti». É assim que Deus intervém na história: dando o
seu próprio Espírito. Porque nas coisas que contam, não bastam as nossas
forças. Porque nós, sozinhos, somos incapazes de resolver as contradições da
história ou mesmo as do nosso coração. Precisamos da força sapiente e suave de
Deus, que é o Espírito Santo. Precisamos do Espírito de amor, que dissolve o
ódio, apaga o rancor, extingue a ganância, desperta-nos da indiferença. Aquele
Espírito que nos dá harmonia, porque Ele é harmonia. Precisamos do amor de
Deus, porque o nosso amor é precário e insuficiente. Pedimos tantas coisas ao
Senhor, mas muitas vezes esquecemo-nos de Lhe pedir o que é mais importante e
que Ele nos deseja dar: o Espírito Santo, isto é, a força para amar. Com
efeito, sem amor, o que é que havemos de oferecer ao mundo? Alguém disse que um
cristão sem amor é como uma agulha que não cose: pica, fere, mas se não cose,
se não tece, se não conjuga, é inútil. Eu ousaria dizer: não é cristão. Por
isso há necessidade de beber do perdão de Deus a força do amor, beber o mesmo
Espírito que desceu sobre Maria.
Pois, se quisermos que o mundo mude, tem de mudar primeiro o nosso coração.
Para o conseguirmos, deixemos hoje que Nossa Senhora nos leve pela mão. Olhemos
para o seu Imaculado Coração, onde Deus descansou, para o único Coração de
criatura humana sem sombras. Ela é «cheia de graça» (Lc 1,
28) e, portanto, vazia de pecado: n’Ela não há vestígios
de mal e, assim, com Ela Deus pôde iniciar uma história nova de salvação e de
paz. Naquele ponto, a história deu uma viragem. Deus mudou a história, batendo
à porta do Coração de Maria.
E hoje também nós, renovados pelo perdão de Deus, batemos à porta daquele
Coração. Em união com os Bispos e os fiéis do mundo inteiro, desejo solenemente
levar ao Imaculado Coração de Maria tudo o que estamos a viver: renovar-Lhe a
consagração da Igreja e da humanidade inteira e consagrar-Lhe todos os povos
que sofrem por causa da guerra, em particular o povo ucraniano, o povo
russo, que, com afeto filial, a veneram como Mãe. Não se trata duma
fórmula mágica; não é isto! Trata-se dum ato espiritual. É o gesto da entrega
plena dos filhos que, na tribulação desta guerra cruel, desta guerra insensata
que ameaça o mundo, recorrem à Mãe. Como as crianças que, quando estão
assustadas, vão ter com a mãe a chorar, à procura de proteção, recorremos à
Mãe, lançando no seu Coração medo e sofrimento, entregando-nos nós mesmos a
Ela. É colocar naquele Coração límpido, incontaminado, onde Deus Se espelha, os
bens preciosos da fraternidade e da paz, tudo quanto temos e somos, para que
seja Ela – a Mãe que o Senhor nos deu – a proteger-nos e guardar-nos.
Dos lábios de Maria brotou a frase mais bela que o Anjo pudesse referir a
Deus: «Faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Esta aceitação por parte de Nossa Senhora não é uma
aceitação passiva nem resignada, mas o desejo vivo de aderir a Deus, que tem
«desígnios de paz e não de desgraça» (Jr 29, 11). É a participação mais íntima no seu plano de paz para o mundo.
Consagramo-nos a Maria para entrar neste plano, para nos colocarmos à inteira
disposição dos desígnios de Deus. A Mãe de Deus, depois de ter dito o seu sim,
empreendeu uma longa viagem subindo até uma região montanhosa para visitar a
prima grávida (cf. Lc 1, 39). Foi
apressadamente. Gosto de pensar em Nossa Senhora com pressa, sempre assim,
Nossa Senhora que Se apressa para nos ajudar, para nos guardar. Hoje que Ela
tome pela mão o nosso caminho e o guie, através das veredas íngremes e
cansativas da fraternidade e do diálogo, o guie pela senda da paz.
Avé-Maria cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte. Ámen.



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