sábado, 29 de novembro de 2025

 DOMINGO I DO ADVENTO -2025- Ano A

Hoje começa o Advento, um tempo novo, de espera ativa no amor aos irmãos, vigilante na fé, persistente na oração. Somos convidados a iniciar uma caminhada, de fé e esperança, na alegria, ao encontro d’Aquele que é o início e o fim de todas as coisas, Jesus, o Messias anunciado.

Aprendendo Dia a Dia: Advento - D.Tolentino - Expresso

Na 1ª leitura (Is 2,1-5), Isaías convida a esperar “o dia” em que todas as nações poderão contemplar o monte do Senhor e dirigir-se para ele (...). Nesse dia todos reconhecerão o Senhor, seguirão pelos seus caminhos, viverão a sua justiça e (...) e caminharão “à luz do Senhor”.

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"Visão de Isaías, filho de Amós, acerca de Judá e de Jerusalém: Sucederá, nos dias que hão de vir, que o monte do templo do Senhor se há de erguer no cimo das montanhas e se elevará no alto das colinas. Ali afluirão todas as nações e muitos povos acorrerão, dizendo: «Vinde, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há de vir a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor». Ele será juiz no meio das nações e árbitro de povos sem número. Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão de preparar para a guerra. Vinde, ó casa de Jacob, caminhemos à luz do Senhor."

São Paulo na 2ª leitura (Rom 13, 11-14) desafia-nos a viver o presente como dádiva e como compromisso, acolhendo o reino de Deus e procurando viver, transparecer e testemunhar Jesus Cristo. São horas, diz-nos o apóstolo, de nos levantarmos do sono. É preciso ter aquela pressa com que Maria leva Jesus a casa e à família de sua parenta Isabel. Maria envolve-nos nesta pressa, nesta decisão de ir, de se levantar e partir, com firmeza e leveza, com alegria. A vida e a missão de Maria, são também a vida e a missão do cristão. Apressemo-nos.

Pe. Manuel Gonçalves (Caritas in Veritate)

"Irmãos: Vós sabeis em que tempo estamos: Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé. A noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e ciúmes; não vos preocupeis com a natureza carnal para satisfazer os seus apetites, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo."

No Evangelho de hoje (Mt 24, 37-44)a Palavra deixa bem claro que, vigiar, é não deixar que a vida nos afogue, que os trabalhos, as preocupações e as riquezas deste mundo não toldem o nosso entendimento fazendo-nos crer que a salvação não existe ou, que ela se encontra na posse de bens terrenos e na satisfação dos apetites da carne.

O segredo de uma vida vigilante, que não permite a surpresa inesperada do dilúvio nem a chegada inoportuna do ladrão, está na certeza de que o Senhor vem.

A certeza da vinda do Senhor projeta sobre nós uma luz para vermos, sem ver, esse dia sem ocaso e vivermos antecipadamente a alegria da sua chegada, porque, apesar de os olhos não verem, o coração já experimenta a certeza da sua realização.

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“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Como aconteceu nos dias de Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca; e não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a todos levou. Assim será também na vinda do Filho do homem. Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado; de duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma será tomada e outra deixada. Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem.”

Maria, Mãe Santíssima, guia-me nesta caminhada ao encontro do Teu Filho, Jesus.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia, feliz domingo!

No Evangelho da Liturgia de hoje ouvimos uma bonita promessa que nos introduz no Tempo de Advento: «Virá o vosso Senhor» (Mt 24, 42). Este é o fundamento da nossa esperança, é o que nos sustenta até nos momentos mais difíceis e dolorosos da nossa vida: Deus vem, Deus está próximo e vem. Nunca nos esqueçamos disto! O Senhor vem sempre, o Senhor visita-nos, o Senhor está próximo, e voltará no final dos tempos para nos acolher no seu abraço. Diante desta palavra, perguntamo-nos: como vem o Senhor? E como o reconhecemos e acolhemos? Reflitamos brevemente sobre estas duas perguntas.

A primeira pergunta: como vem o Senhor? Tantas vezes ouvimos dizer que o Senhor está presente no nosso caminho, que Ele nos acompanha e nos fala. Mas talvez, distraídos como estamos por tantas coisas, esta verdade permanece para nós apenas teórica; sim, sabemos que o Senhor vem, mas não vivemos esta verdade ou imaginamos que o Senhor vem de uma forma sensacional, talvez através de algum sinal prodigioso. Ao contrário, Jesus diz que isso acontecerá “como nos dias de Noé” (cf. v. 37). E o que faziam nos dias de Noé?   Simplesmente as coisas normais e quotidianas da vida, como sempre: «comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento» (v. 38). Tenhamos isto em mente: Deus está escondido na nossa vida, Ele está sempre ali, Ele está escondido nas situações mais comuns e ordinárias da nossa vida. Ele não vem em eventos extraordinários, mas nas coisas do dia a dia, Ele manifesta-se nas coisas de todos os dias. Ele está ali, no nosso trabalho diário, num encontro casual, no rosto de uma pessoa em necessidade, inclusive quando enfrentamos dias que parecem cinzentos e monótonos, precisamente ali está o Senhor, que nos chama, fala-nos e inspira as nossas ações.

No entanto, há uma segunda pergunta: como reconhecer e acolher o Senhor? Devemos permanecer acordados, alerta, vigilantes. Jesus avisa-nos: há o perigo de não perceber a sua vinda e de não estar preparado para a sua visita. Recordei noutras ocasiões o que Santo Agostinho disse: «Temo o Senhor que passa» (Serm. 88.14.13), ou seja, temo que Ele passe e eu não O reconheça! De facto, Jesus diz das pessoas do tempo de Noé que comiam e bebiam «e não deram por nada até chegar o dilúvio» (v. 39). Prestemos atenção a isto: eles não repararam em nada! Estavam preocupados com as próprias coisas e não se aperceberam que o dilúvio estava a chegar. De facto, Jesus diz que quando Ele vier, «estarão dois homens no campo: um será levado e o outro será deixado» (v. 40). Em que sentido? Qual é a diferença? Simplesmente que um foi vigilante, esperava, capaz de discernir a presença de Deus na vida diária; o outro, ao contrário, estava distraído, “ia vivendo”, e não se deu conta de nada.

Irmãos e irmãs, neste tempo de Advento, deixemo-nos despertar do torpor e acordemos do sono! Perguntemo-nos: estou consciente do que vivo, estou alerta, estou desperto? Procuremos perguntar-nos: estou ciente daquilo que vivo, estou atento, estou acordado? Procuro reconhecer a presença de Deus nas situações quotidianas, ou estou distraído e um pouco sobrecarregado com as coisas? Se hoje não estivermos conscientes da sua vinda, também não estaremos preparados quando ele chegar no final dos tempos. Portanto, irmãos e irmãs, mantenhamo-nos vigilantes! À espera de que o Senhor venha, à espera de que o Senhor se aproxime de nós, pois Ele está presente, mas esperemos vigilantes. Que a Virgem Santa, Mulher da espera, que soube captar a passagem de Deus na vida humilde e escondida de Nazaré e o acolheu no seu ventre, nos ajude neste caminho a estar atentos para esperar o Senhor que está entre nós e passa.

Papa Francisco
(Angelus, 27 de novembro de 2022)

sábado, 22 de novembro de 2025

 DOMINGO XXXIV DO TEMPO COMUM -2025- Ano C

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Eis-nos chegados ao último domingo do Ano Litúrgico C. Ao terminar, este ciclo de 3 anos, as leituras, de hoje, propõem-nos a contemplação do trono de glória do nosso Deus. Sim, o nosso rei, Jesus Cristo, como todos os reis, também tem um trono, só que o Seu é completamente diferente, é a Cruz. É verdade que venceu a morte e ressuscitou, mas a Sua entrega total na Cruz, para que cada um de nós pudesse aí, na entrega infinita de Jesus ao Pai, numa comunhão sem fim, encontrar Deus Amor, faz da Cruz o Seu trono de Glória. Instrumento de escândalo para os gentios, de confusão para os incrédulos, é, para todos nós, cristãos, a árvore da vida em cujas raízes crescemos e em cujos braços nos estendemos.

Na 1ªleitura (2 Sam 5, 1-3) o profeta Samuel, ao trazer até nós a eleição do rei David e a força unificadora que ele representou para o povo de Israel,  conduz-nos, por associação, a Jesus, nosso rei e Senhor e ao que Ele significa para nós hoje, no dia a dia da vida. 

“Naqueles dias, todas as tribos de Israel foram ter com David a Hebron e disseram-lhe: «Nós somos dos teus ossos e da tua carne. Já antes, quando Saul era o nosso rei, eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel. E o Senhor disse-te: ‘Tu apascentarás o meu povo de Israel, tu serás rei de Israel’». Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, a Hebron. O rei David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor e eles ungiram David como rei de Israel.”

Na 2ª leitura (Col 1, 12-20) S. Paulo faz uma verdadeira demonstração da sua fé em Jesus Ressuscitado, de uma forma profunda, mas, ao mesmo tempo, também muito bela. Por outro lado, podemos aprender, deste texto de S.Paulo, a louvar e a dar graças a Deus pelo Seu Amor infinito, por cada um de nós, Seus queridos filhos, no Único e muito amado Filho. Louvemos e demos graças ao nosso Deus. 

“Irmãos: Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados. Cristo é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura; Porque n’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, visíveis e invisíveis, Tronos e Dominações, Principados e Potestades: por Ele e para Ele tudo foi criado. Ele é anterior a todas as coisas e n’Ele tudo subsiste. Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos; em tudo Ele tem o primeiro lugar. Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus.”

No evangelho (Lc 23, 35-43) S.Lucas transporta-nos para o momento da morte de Jesus na Cruz. Mas, mais especificamente para o diálogo de Jesus com o bom e com o mau ladrão. Ao escutar este diálogo, fiquei com uma certeza, isto é, sempre que alguém se arrepende e se entrega, de coração sincero, a Jesus, escutará estas palavras: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso». 

“Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo». Por cima d’Ele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus». Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más ações. Mas Ele nada praticou de condenável». E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».”

Senhor Jesus, eu creio que é o Filho de Deus, que ressuscitou dos mortos. Vem, Senhor Jesus e preenche-me por inteiro.

(...)

Entretanto, hoje, podemos ver mais uma vez como o Evangelho nos leva às raízes da fé. Estas, encontramo-las no terreno árido do Calvário, onde a semente que é Jesus, ao morrer, fez germinar a esperança: plantada no coração da terra, abriu-nos o caminho para o Céu; com sua morte, deu-nos a vida eterna; por meio do madeiro da cruz, trouxe-nos os frutos da salvação. Por isso, fixemos o nosso olhar n’Ele, fixemos o olhar no Crucificado.

Na cruz, aparece uma única frase: «Este é o rei dos judeus» (Lc 23, 38). Eis o seu título: Rei. Mas, observando Jesus, inverte-se a ideia que temos de um rei. Tentando visualizá-lo, pensaremos num homem forte sentado num trono com preciosas insígnias, um cetro na mão e anéis brilhantes nos dedos, enquanto solenemente fala aos súbditos. Tal seria, em linhas gerais, a imagem dum rei que temos na cabeça. Mas fixando Jesus, vemos que é completamente diferente. Não está sentado num trono confortável, mas pendurado num patíbulo; o Deus que «derruba os poderosos de seus tronos» (Lc 1, 52), comporta-Se como servo cravado na cruz pelos poderosos; adornado apenas com cravos e espinhos, despojado de tudo mas rico de amor. Do trono da cruz, já não ensina as multidões com a palavra, nem levanta a mão para ensinar; faz mais: não aponta o dedo contra ninguém, mas abre os braços a todos. Assim Se manifesta o nosso Rei: de braços abertos – a brasa aduerte.

E só entrando no seu abraço é que compreendemos que Deus Se deixou levar até àquele ponto, até ao paradoxo da cruz, precisamente para abraçar tudo em nós, incluindo quanto havia de mais distante d'Ele: a nossa morte (Ele abraçou a nossa morte), o nosso sofrimento, as nossas pobrezas, as nossas fragilidades e as nossas misérias. Ele abraçou tudo isto. Fez-Se servo para que cada um de nós se sentisse filho (com a sua servidão pagou a nossa filiação); deixou-Se insultar e escarnecer, para que, em qualquer humilhação, já ninguém de nós estivesse sozinho; deixou-Se despojar, para que ninguém se sentisse despojado da sua dignidade; subiu à cruz, para que, em cada crucificado da história, houvesse a presença de Deus. Eis o nosso Rei, Rei de cada um de nós, Rei do universo, porque atravessou os confins mais remotos do humano, entrou nos buracos negros do ódio, nos buracos negros do abandono para iluminar cada vida e abraçar toda a realidade. Irmãos, irmãs, tal é o Rei que hoje festejamos! Não é fácil de compreender, mas é o nosso Rei. Eis a pergunta que devemos pôr-nos: mas este Rei do universo é o Rei da minha existência? Eu creio n’Ele? Como posso celebrá-Lo Senhor de tudo, se não Se torna também o Senhor da minha vida? E tu, Stéfano, que hoje inicias este caminho para o sacerdócio, não esqueças que Ele é o teu modelo: não te prendas às honras, não. Ele é o teu modelo; se não pensas ser sacerdote como este Rei, é melhor parares por aqui.

Mas fixemos de novo os olhos em Jesus Crucificado. Vê! Ele não observa a tua vida apenas durante um momento, não te dedica só um olhar fugaz, como fazemos nós muitas vezes com Ele, mas permanece ali a brasa aduerte a dizer-te no silêncio que nada de ti Lhe é estranho, que te quer abraçar, levantar, salvar assim como és, com a tua história, as tuas misérias, os teus pecados. Mas, Senhor, isto é verdade? Com as minhas misérias… Tu amas-me assim? Neste momento, cada um pense na sua própria pobreza: «Mas, Tu amas-me com toda esta pobreza espiritual que sou, com estas limitações?». Ele sorri e faz-nos compreender que nos ama e deu a vida por nós. Pensemos um pouco nos nossos limites, e também nas coisas boas: Ele ama-nos como somos, como somos agora. Ele dá-te a possibilidade de reinares na vida, se te abandonares ao seu amor cheio de mansidão, que se propõe mas não se impõe (o amor de Deus nunca se impõe), ao seu amor que sempre te perdoa. Nós muitas vezes cansamo-nos de perdoar às pessoas e, sobre elas, como que pomos o sinal da cruz, fazemos o seu enterro social. Ele nunca Se cansa de perdoar… nunca, nunca: sempre te põe de pé, sempre te devolve a tua dignidade real. Pensa: a nossa salvação, donde vem? Vem do facto de nos deixarmos amar por Ele, porque só assim somos libertos da escravidão do nosso egoísmo, do medo de estar sozinho e pensar que não vamos conseguir. Com frequência, irmãos, irmãs, coloquemo-nos diante do Crucificado, deixemo-nos amar, para que aqueles brasa aduerte nos abram, também a nós, o Paraíso, como ao «bom ladrão». Sintamos como que dirigida a nós aquela frase, a única que ouvimos hoje Jesus dizer na cruz: «Estarás comigo no Paraíso» (Lc 23, 43). Isto é o que Deus quer para nós, e no-lo quer dizer a todos nós, sempre que nos demoramos sob o seu olhar. E então compreendemos que não temos um deus desconhecido, lá em cima nos céus, poderoso e distante. Não! Mas um Deus próximo. A proximidade é o estilo de Deus: proximidade, com ternura e misericórdia. Tal é o estilo de Deus, e não tem outro: próximo, vizinho e terno; terno e compassivo, cujos braços abertos consolam e acariciam. Eis o nosso Rei!

Irmãos, irmãs, depois de O termos contemplado, que mais podemos fazer? O Evangelho de hoje coloca à nossa frente dois caminhos: diante de Jesus, temos quem se comporta como espetador e quem se envolve. Os espetadores são muitos; é a maioria. Olham; ver morrer alguém na cruz é um espetáculo. De facto – diz o texto – «o povo permanecia, ali, a observar» (23, 35). Não era má gente, muitos eram crentes, mas à vista do Crucificado, permanecem espetadores: não movem um passo na direção de Jesus, mas olham-No de longe, curiosos e indiferentes, sem verdadeiramente se interessar nem perguntar que podem fazer. Terão comentado («mas olha este…»), terão formulado juízos e opiniões («mas é inocente… e termina assim?»), alguém tê-Lo-á até lamentado, mas todos ficaram a olhar sem nada fazer, de braços cruzados. E até há espetadores perto da cruz: os chefes do povo, que querem assistir ao espetáculo cruento do fim inglorioso de Cristo; os soldados, que esperam que termine rapidamente a execução a fim de voltar para casa; um dos malfeitores, que descarrega o seu ódio sobre Jesus. Escarnecem, insultam, dizem da sua justiça.

Todos estes espetadores compartilham um refrão, que o texto repete três vezes: «Se és rei, salva-Te a Ti mesmo» (cf. 23, 35.37.39). Insultam-No assim, desafiam-No! Salva-Te a Ti mesmo! Exatamente o contrário daquilo que está a fazer Jesus, que pensa não em Si, mas em salvá-los a eles que O insultam. E aquele dito «salva-Te a Ti mesmo» propaga-se como que por contágio: desde os chefes passando pelos soldados e chegando à gente, a onda do mal atinge quase todos. Pensemos como é contagioso o mal! Contagia-nos como quando apanhamos uma doença infeciosa, que nos contagia imediatamente. Aquela gente fala de Jesus, mas não se sintoniza com Jesus nem um momento sequer. Põe-se à distância e fala. É o contágio letal da indiferença. A indiferença é uma doença ruim: «isto não me diz respeito, não tem a ver comigo». Indiferença para com Jesus e indiferença também para com os doentes, os pobres, os miseráveis da terra. Gosto de perguntar às pessoas e faço-o também aqui a cada um de vós. Sei que cada um de vós dá esmola aos pobres, e eu pergunto: «Quando tu dás esmola aos pobres, olha-os nos olhos? És capaz de olhar nos olhos aquele pobre, homem ou mulher, que te pede esmola? Quando dás esmola aos pobres, atiras a moeda ou tocas-lhe a mão? És capaz de tocar uma miséria humana?» Depois cada um dê a resposta, hoje. Aquela gente vivia na indiferença. Fala de Jesus, mas não sintoniza com Ele. E este é o contágio letal da indiferença, que cria distâncias relativamente às misérias. A onda do mal espalha-se sempre assim: começa-se por se colocar à distância, observar sem nada fazer e não se importar, depois pensamos só naquilo que nos interessa e habituamo-nos a virar a cara para o outro lado. Isto é um risco que corre também a nossa fé, que definha se permanecer uma teoria sem se fazer vida prática, se não houver envolvimento, se não nos gastarmos pessoalmente, se não nos comprometermos. Então tornamo-nos cristãos de fachada (cristãos tipo “água-de-colónia”, como ouvia dizer na minha casa), que dizem acreditar em Deus e querer a paz, mas não rezam nem cuidam do próximo. Não interessa Deus nem a paz, a estes cristãos apenas de língua, superficiais.

Esta era a onda má, que se encontrava no Calvário. Mas há também a onda benfazeja do bem. Entre muitos espetadores há um que se envolve, isto é, o «bom ladrão». Os outros zombam do Senhor, ele fala-Lhe e chama-O pelo nome: «Jesus»; muitos descarregam sobre Ele o seu ódio, ele confessa a Cristo os seus erros; muitos dizem «salva-Te a Ti mesmo», ele reza: «Jesus, lembra-Te de mim» (23, 42). Pede apenas isto ao Senhor. É uma linda oração! Se cada um de nós a rezasse todos os dias, estaria na boa estrada: a estrada da santidade: «Jesus, lembra-Te de mim». Assim um malfeitor torna-se o primeiro santo: aproxima-se de Jesus por um instante, e o Senhor estreita-o a Si para sempre. Ora, o Evangelho fala-nos do bom ladrão para nos convidar a vencer o mal, deixando de ser espetadores. Por favor! A indiferença é pior do que fazer o mal. E donde havemos de começar? Da confidência, de chamar a Deus pelo nome, precisamente como fez o bom ladrão, que, no fim da vida, reencontra aquela confidência corajosa das crianças que confiam, pedem, insistem. E, na confidência, admite os seus erros, chora não por si mesmo, mas diante do Senhor. E nós, temos esta confiança, trazemos a Jesus aquilo que somos dentro ou maquilhamo-nos diante de Deus, talvez com um toque de sacralidade e de incenso? Por favor, não viver a espiritualidade da maquilhagem: é fastidiosa. Diante de Deus, apenas água e sabão! Sem maquilhagem, mas a alma apresenta-se assim como ela é. E daqui vem a salvação. Quem pratica a confidência, como este bom ladrão, aprende a intercessão, aprende a levar a Deus aquilo que vê, os sofrimentos do mundo, as pessoas que encontra; aprende a dizer-Lhe, como o bom ladrão: «Lembra-Te, Senhor!» Não estamos no mundo apenas para nos salvar a nós mesmos. Não; mas para levar os irmãos e as irmãs ao abraço do Rei. O facto de interceder, de lembrar ao Senhor, abre as portas do Paraíso. Mas nós, quando rezamos, intercedemos? «Lembra-Te, Senhor! Lembra-Te de mim, da minha família, lembra-Te deste problema… lembra-Te… lembra-Te…» Devemos atrair a atenção do Senhor.

Irmãos, irmãs, hoje o nosso Rei olha-nos da cruz a brasa aduerte. Cabe-nos a nós escolher em sermos espetadores ou envolvidos. Sou espetador ou quero envolver-me? Vemos as crises de hoje, o declínio da fé, a falta de participação... E que fazemos? Limitamo-nos a fazer teorias, limitamo-nos a criticar, ou arregaçamos as mangas, comprometemo-nos na vida, passamos do «se» das desculpas ao «sim» da oração e do serviço? Todos pensamos saber o que está errado na sociedade. Todos! Falamos todos os dias do que está errado no mundo e também na Igreja. Tantas coisas erradas na Igreja! Mas, depois, fazemos alguma coisa? Metemos as mãos na massa, como o nosso Deus pregado no madeiro, ou ficamos a olhar com as mãos nos bolsos? Hoje, enquanto Jesus, despido na cruz, tira todo o véu sobre Deus e destrói toda a falsa imagem da sua realeza, olhemos para Ele a fim de encontrar a coragem de olhar para nós mesmos, percorrer os caminhos da confidência e da intercessão e fazer-nos servos para reinarmos com Ele. «Lembra-Te, Senhor, lembra-Te»: façamos esta oração com maior frequência! Obrigado.

Papa Francisco
(Homilia, Solenidade de Nosso senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, 20 de novembro de 2022)

sábado, 15 de novembro de 2025

 DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM -2025- Ano C

IX Dia Mundial dos Pobres

As leituras deste domingo, utilizando uma linguagem simbólica, que nos encaminha para o fim do tempo litúrgico, desafiam-nos a crescer na confiança e a perseverar no caminho do bem, no dia a dia da vida.

Na 1ª leitura (Mal 3, 19-20a) o profeta Malaquias exorta-nos a confiar no Senhor, a entregarmo-nos a Deus de alma e coração, a deixar que Ele, e só Ele, seja sempre Aquele que dá sentido à nossa existência sendo o suporte, a raiz, dos nossos passos de cada dia. 

“Há de vir o dia do Senhor, ardente como uma fornalha; e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores. O dia que há de vir os abrasará – diz o Senhor do Universo – e não lhes deixará raiz nem ramos. Mas para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação.”

Na 2ªleitura (2 Tes 3, 7-12) S.Paulo parece um homem do  nosso tempo, isto é do séc.XXI, a falar sobre alguns aspetos do mundo do trabalho. Toda a vida é uma entrega a Deus, em cada dia, a cada momento, de tudo o que temos e somos, para crescimento do Reino. Seja qual for o trabalho que desenvolvemos, ou o serviço que prestamos, este só tem sentido quando é integrado no projeto de Deus Amor, para que um dia, na plenitude dos tempos, Deus seja tudo em todos.  

“Irmãos: Vós sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos entre vós na ociosidade, nem comemos de graça o pão de ninguém. Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não é que não tivéssemos esse direito, mas quisemos ser para vós exemplo a imitar. Quando ainda estávamos convosco, já vos dávamos esta ordem: quem não quer trabalhar, também não deve comer. Ouvimos dizer que alguns de vós vivem na ociosidade, sem fazerem trabalho algum, mas ocupados em futilidades. A esses ordenamos e recomendamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem.”

No evangelho (Lc 21, 5-19)  Jesus exorta-nos a uma confiança sem limites em Deus, no dia a dia da vida. Só n’Ele seremos verdadeiramente livres e, se perseverarmos no caminho de bem, nada nem ninguém se perderá, porque o Senhor estará sempre connosco. 

“Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».”

Senhor, sê a minha força e salvação.


Mensagem do Santo Padre para o IX Dia Mundial dos Pobres -16.11.2025

Tu és a minha esperança (cf. Sl 71,5)

1. «Tu és a minha esperança, ó Senhor Deus» (Sl 71,5). Estas palavras emanam de um coração oprimido por graves dificuldades: «Fizeste-me sofrer grandes males e aflições mortais» (v. 20), diz o Salmista. Apesar disso, o seu espírito está aberto e confiante, porque firme na fé reconhece o amparo de Deus e o professa: «És o meu rochedo e a minha fortaleza» (v. 3). Daí deriva a confiança inabalável de que a esperança n’Ele não dececiona: «Em ti, Senhor, me refugio, jamais serei confundido» (v. 1).

No meio das provações da vida, a esperança é animada pela firme e encorajadora certeza do amor de Deus, derramado nos corações pelo Espírito Santo. Por isso, ela não dececiona (cf. Rm 5, 5) e São Paulo pode escrever a Timóteo: «Pois se nós trabalhamos e lutamos, é porque pomos a nossa esperança no Deus vivo» (1 Tm 4, 10). O Deus vivo é, verdadeiramente, o «Deus da esperança» (Rm 15, 13), que em Cristo, pela sua morte e ressurreição, se tornou a «nossa esperança» (1 Tm 1, 1). Não podemos esquecer que fomos salvos nesta esperança, na qual precisamos de permanecer enraizados.

2. O pobre pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável, precisamente porque professada numa condição de vida precária, feita de privações, fragilidade e marginalização. Ele não conta com as seguranças do poder e do ter; pelo contrário, sofre-as e, muitas vezes, é vítima delas. A sua esperança só pode repousar noutro lugar. Reconhecendo que Deus é a nossa primeira e única esperança, também nós fazemos a passagem entre as esperanças que passam e a esperança que permanece. As riquezas são relativizadas perante o desejo de ter Deus como companheiro de caminho, porque se descobre o verdadeiro tesouro de que realmente precisamos. Ressoam claras e fortes as palavras com que o Senhor Jesus exortou os seus discípulos: «Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam» (Mt 6, 19-20).

3. A pobreza mais grave é não conhecer a Deus. Recordou-nos isso o Papa Francisco quando escreveu na Evangelii gaudium: «A pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé» (n. 200). Há aqui uma consciência fundamental e totalmente original sobre como encontrar em Deus o próprio tesouro. Realmente, insiste o apóstolo João: «Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20).

É uma regra da fé e um segredo da esperança: embora importantes, todos os bens desta terra, as realidades materiais, os prazeres do mundo ou o bem-estar económico não são suficientes para fazer o coração feliz. Frequentemente, as riquezas iludem e conduzem a situações dramáticas de pobreza, sendo a primeira dessas ilusões pensar que não precisamos de Deus e conduzir a nossa vida independentemente d’Ele. Vêm-me à mente as palavras de Santo Agostinho: «Seja Deus todo motivo de presumires. Sente necessidade d’Ele para que Ele te cumule. Tudo o que possuíres fora d’Ele é imensamente vazio» (Enarr. in Ps. 85,3).

4. A esperança cristã, à qual a Palavra de Deus remete, é certeza no caminho da vida, porque não depende da força humana, mas da promessa de Deus, que é sempre fiel. Por isso, desde os primórdios, os cristãos quiseram identificar a esperança com o símbolo da âncora, que oferece estabilidade e segurança. A esperança cristã é como uma âncora, que fixa o nosso coração na promessa do Senhor Jesus, que nos salvou com a sua morte e ressurreição e que retornará novamente no meio de nós. Esta esperança continua a indicar como verdadeiro horizonte da vida os «novos céus» e a «nova terra» (2 Pe 3, 13), onde a existência de todas as criaturas encontrará o seu sentido autêntico, visto que a nossa verdadeira pátria está nos céus (cf. Fl 3, 20).

Consequentemente, a cidade de Deus compromete-nos com as cidades dos homens, que, desde agora, devem começar a assemelhar-se àquela. A esperança, sustentada pelo amor de Deus derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5, 5), transforma o coração humano em terra fértil, onde pode germinar a caridade para a vida do mundo. A Tradição da Igreja reafirma constantemente esta circularidade entre as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A esperança nasce da fé, que a alimenta e sustenta, sobre o fundamento da caridade, que é a mãe de todas as virtudes. E precisamos de caridade hoje, agora. Não é uma promessa, mas uma realidade para a qual olhamos com alegria e responsabilidade: envolve-nos, orientando as nossas decisões para o bem comum. Em vez disso, quem carece de caridade não só carece de fé e esperança, mas tira a esperança ao seu próximo.

5. O convite bíblico à esperança traz consigo o dever de assumir, sem demora, responsabilidades coerentes na história. Com efeito, a caridade é «o maior mandamento social» (Catecismo da Igreja Católica, 1889). A pobreza tem causas estruturais que devem ser enfrentadas e eliminadas. À medida que isso acontece, todos somos chamados a criar novos sinais de esperança que testemunhem a caridade cristã, como fizeram, em todas as épocas, muitos santos e santas. Os hospitais e as escolas, por exemplo, são instituições criadas para expressar o acolhimento aos mais fracos e marginalizados. Eles deveriam fazer parte das políticas públicas de todos os países, mas as guerras e as desigualdades frequentemente ainda o impedem. Hoje, cada vez mais, as casas-família, as comunidades para menores, os centros de acolhimento e escuta, as refeições para os pobres, os dormitórios e as escolas populares tornam-se sinais de esperança: são tantos sinais, muitas vezes ocultos, aos quais talvez não prestemos atenção, mas que são muito importantes para se desvencilhar da indiferença e provocar o empenho nas diversas formas de voluntariado!

Os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho. Por isso, o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar às nossas comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral. Não só na sua dimensão caritativa, mas igualmente naquilo que a Igreja celebra e anuncia. Através das suas vozes, das suas histórias, dos seus rostos, Deus assumiu a sua pobreza para nos tornar ricos. Todas as formas de pobreza, sem excluir nenhuma, são um apelo a viver concretamente o Evangelho e a oferecer sinais eficazes de esperança.

6. Este é o convite que emerge da celebração do Jubileu. Não é por acaso que o Dia Mundial dos Pobres seja celebrado no final deste ano de graça. Quando a Porta Santa for fechada, deveremos conservar e transmitir os dons divinos que foram derramados nas nossas mãos ao longo de um ano inteiro de oração, conversão e testemunho. Os pobres não são objetos da nossa pastoral, mas sujeitos criativos que nos estimulam a encontrar sempre novas formas de viver o Evangelho hoje. Diante da sucessão de novas ondas de empobrecimento, corre-se o risco de se habituar e resignar-se. Todos os dias, encontramos pessoas pobres ou empobrecidas e, às vezes, pode acontecer que sejamos nós mesmos a possuir menos, a perder o que antes nos parecia seguro: uma casa, comida suficiente para o dia, acesso a cuidados de saúde, um bom nível de educação e informação, liberdade religiosa e de expressão.

Promovendo o bem comum, a nossa responsabilidade social tem o seu fundamento no gesto criador de Deus, que dá a todos os bens da terra: assim como estes, também os frutos do trabalho do homem devem ser igualmente acessíveis. Com efeito, ajudar os pobres é uma questão de justiça, muito antes de ser uma questão de caridade. Como observa Santo Agostinho: «Damos pão a quem tem fome, mas seria muito melhor que ninguém passasse fome e não precisássemos ser generosos para com ninguém. Damos roupas a quem está nu, mas Deus queira que todos estejam vestidos e que ninguém passe necessidades sobre isto» (Comentário à 1 Jo, VIII, 5).

Desejo, portanto, que este Ano Jubilar possa incentivar o desenvolvimento de políticas de combate às antigas e novas formas de pobreza, além de novas iniciativas de apoio e ajuda aos mais pobres entre os pobres. Trabalho, educação, habitação e saúde são condições para uma segurança que jamais se alcançará com armas. Congratulo-me com as iniciativas já existentes e com o empenho que é manifestado diariamente a nível internacional por um grande número de homens e mulheres de boa vontade.

Confiemos em Maria Santíssima, Consoladora dos aflitos, e com Ela entoemos um canto de esperança, fazendo nossas as palavras do Te Deum: «In Te, Domine, speravi, non confundar in aeternum – Em Vós espero, Meu Deus, não serei confundido eternamente».

Vaticano, 13 de junho de 2025, memória de Santo António de Lisboa, Patrono dos pobres

LEÃO PP. XIV