DOMINGO XXXIV DO TEMPO COMUM -2025- Ano C
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
Eis-nos chegados ao último domingo do Ano Litúrgico C. Ao terminar, este
ciclo de 3 anos, as leituras, de hoje, propõem-nos a contemplação do trono de
glória do nosso Deus. Sim, o nosso rei, Jesus Cristo, como todos os reis,
também tem um trono, só que o Seu é completamente diferente, é a Cruz. É verdade que venceu a morte e ressuscitou,
mas a Sua entrega total na Cruz, para que cada um de nós pudesse aí, na entrega
infinita de Jesus ao Pai, numa comunhão sem fim, encontrar Deus Amor, faz da
Cruz o Seu trono de Glória. Instrumento de escândalo para os gentios, de
confusão para os incrédulos, é, para todos nós, cristãos, a árvore da vida em
cujas raízes crescemos e em cujos braços nos estendemos.
Na 1ªleitura (2 Sam 5, 1-3) o profeta Samuel, ao
trazer até nós a eleição do rei David e a força unificadora que ele representou
para o povo de Israel, conduz-nos, por associação, a Jesus, nosso
rei e Senhor e ao que Ele significa para nós hoje, no dia a dia da vida.
“Naqueles dias, todas as tribos de Israel foram ter com David a Hebron e
disseram-lhe: «Nós somos dos teus ossos e da tua carne. Já antes, quando Saul
era o nosso rei, eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel. E o
Senhor disse-te: ‘Tu apascentarás o meu povo de Israel, tu serás rei de
Israel’». Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, a Hebron. O rei
David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor e eles ungiram David como
rei de Israel.”
Na 2ª leitura (Col 1, 12-20) S. Paulo faz uma
verdadeira demonstração da sua fé em Jesus Ressuscitado, de uma forma profunda, mas, ao mesmo tempo, também muito bela. Por outro lado,
podemos aprender, deste texto de S.Paulo, a louvar e a dar graças a Deus pelo
Seu Amor infinito, por cada um de nós, Seus queridos filhos, no Único e muito
amado Filho.
Louvemos e demos graças ao nosso Deus.
“Irmãos: Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na
herança dos santos, na luz divina. Ele nos libertou do poder das trevas e nos
transferiu para o reino do seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, o
perdão dos pecados. Cristo é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda
a criatura; Porque n’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra,
visíveis e invisíveis, Tronos e Dominações, Principados e Potestades: por Ele e
para Ele tudo foi criado. Ele é anterior a todas as coisas e n’Ele tudo
subsiste. Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Ele é o Princípio, o
Primogénito de entre os mortos; em tudo Ele tem o primeiro lugar. Aprouve a
Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas
consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com
todas as criaturas na terra e nos céus.”

No evangelho (Lc 23, 35-43) S.Lucas transporta-nos
para o momento da morte de Jesus na Cruz. Mas, mais especificamente para o
diálogo de Jesus com o bom e com o mau ladrão. Ao escutar este diálogo, fiquei
com uma certeza, isto é, sempre que alguém se arrepende e se entrega, de coração
sincero, a Jesus, escutará estas palavras: «Em verdade te digo: Hoje estarás
comigo no Paraíso».
“Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: «Salvou os
outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». Também os
soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo». Por cima d’Ele havia um
letreiro: «Este é o Rei dos judeus». Entretanto, um dos malfeitores que tinham
sido crucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti
mesmo e a nós também». Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes
a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois
recebemos o castigo das nossas más ações. Mas Ele nada praticou de condenável».
E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». Jesus
respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».”
Senhor Jesus, eu creio que é o Filho de Deus, que ressuscitou dos mortos.
Vem, Senhor Jesus e preenche-me por inteiro.
(...)
Entretanto, hoje, podemos ver mais
uma vez como o Evangelho nos leva às raízes da fé. Estas,
encontramo-las no terreno árido do Calvário, onde a semente que é Jesus, ao
morrer, fez germinar a esperança: plantada no coração da terra, abriu-nos o
caminho para o Céu; com sua morte, deu-nos a vida eterna; por meio do madeiro
da cruz, trouxe-nos os frutos da salvação. Por isso, fixemos o nosso olhar
n’Ele, fixemos o olhar no Crucificado.
Na cruz,
aparece uma única frase: «Este é o rei dos judeus» (Lc 23, 38).
Eis o seu título: Rei. Mas, observando Jesus, inverte-se a ideia que temos de
um rei. Tentando visualizá-lo, pensaremos num homem forte sentado num trono com
preciosas insígnias, um cetro na mão e anéis brilhantes nos dedos, enquanto
solenemente fala aos súbditos. Tal seria, em linhas gerais, a imagem dum rei
que temos na cabeça. Mas fixando Jesus, vemos que é completamente diferente.
Não está sentado num trono confortável, mas pendurado num patíbulo; o Deus que
«derruba os poderosos de seus tronos» (Lc 1,
52),
comporta-Se como servo cravado na cruz pelos poderosos; adornado apenas com
cravos e espinhos, despojado de tudo mas rico de amor. Do trono da cruz, já não
ensina as multidões com a palavra, nem levanta a mão para ensinar; faz mais:
não aponta o dedo contra ninguém, mas abre os braços a todos. Assim Se
manifesta o nosso Rei: de braços abertos – a brasa aduerte.
E só entrando
no seu abraço é que compreendemos que Deus Se deixou levar até àquele ponto,
até ao paradoxo da cruz, precisamente para abraçar tudo em nós, incluindo
quanto havia de mais distante d'Ele: a nossa morte (Ele abraçou a nossa morte),
o nosso sofrimento, as nossas pobrezas, as nossas fragilidades e as nossas
misérias. Ele abraçou tudo isto. Fez-Se servo para que cada um de nós se
sentisse filho (com a sua servidão pagou a nossa filiação); deixou-Se insultar
e escarnecer, para que, em qualquer humilhação, já ninguém de nós estivesse
sozinho; deixou-Se despojar, para que ninguém se sentisse despojado da sua
dignidade; subiu à cruz, para que, em cada crucificado da história, houvesse a
presença de Deus. Eis o nosso Rei, Rei de cada um de nós, Rei do universo,
porque atravessou os confins mais remotos do humano, entrou nos buracos negros
do ódio, nos buracos negros do abandono para iluminar cada vida e abraçar toda
a realidade. Irmãos, irmãs, tal é o Rei que hoje festejamos! Não é fácil de
compreender, mas é o nosso Rei. Eis a pergunta que devemos pôr-nos: mas este
Rei do universo é o Rei da minha existência? Eu creio n’Ele? Como posso
celebrá-Lo Senhor de tudo, se não Se torna também o Senhor da minha vida? E tu,
Stéfano, que hoje inicias este caminho para o sacerdócio, não esqueças que Ele
é o teu modelo: não te prendas às honras, não. Ele é o teu modelo; se não
pensas ser sacerdote como este Rei, é melhor parares por aqui.
Mas fixemos de
novo os olhos em Jesus Crucificado. Vê! Ele não observa a tua vida apenas
durante um momento, não te dedica só um olhar fugaz, como fazemos nós muitas
vezes com Ele, mas permanece ali a brasa aduerte a dizer-te no
silêncio que nada de ti Lhe é estranho, que te quer abraçar, levantar, salvar
assim como és, com a tua história, as tuas misérias, os teus pecados. Mas,
Senhor, isto é verdade? Com as minhas misérias… Tu amas-me assim? Neste
momento, cada um pense na sua própria pobreza: «Mas, Tu amas-me com toda esta
pobreza espiritual que sou, com estas limitações?». Ele sorri e faz-nos
compreender que nos ama e deu a vida por nós. Pensemos um pouco nos nossos
limites, e também nas coisas boas: Ele ama-nos como somos, como somos agora.
Ele dá-te a possibilidade de reinares na vida, se te abandonares ao seu amor
cheio de mansidão, que se propõe mas não se impõe (o amor de Deus nunca se
impõe), ao seu amor que sempre te perdoa. Nós muitas vezes cansamo-nos de
perdoar às pessoas e, sobre elas, como que pomos o sinal da cruz, fazemos o seu
enterro social. Ele nunca Se cansa de perdoar… nunca, nunca: sempre te põe de
pé, sempre te devolve a tua dignidade real. Pensa: a nossa salvação, donde vem?
Vem do facto de nos deixarmos amar por Ele, porque só assim somos libertos da
escravidão do nosso egoísmo, do medo de estar sozinho e pensar que não vamos
conseguir. Com frequência, irmãos, irmãs, coloquemo-nos diante do Crucificado,
deixemo-nos amar, para que aqueles brasa aduerte nos abram,
também a nós, o Paraíso, como ao «bom ladrão». Sintamos como que dirigida a nós
aquela frase, a única que ouvimos hoje Jesus dizer na cruz: «Estarás comigo no
Paraíso» (Lc 23,
43).
Isto é o que Deus quer para nós, e no-lo quer dizer a todos nós, sempre que nos
demoramos sob o seu olhar. E então compreendemos que não temos um deus
desconhecido, lá em cima nos céus, poderoso e distante. Não! Mas um Deus
próximo. A proximidade é o estilo de Deus: proximidade, com ternura e
misericórdia. Tal é o estilo de Deus, e não tem outro: próximo, vizinho e
terno; terno e compassivo, cujos braços abertos consolam e acariciam. Eis o
nosso Rei!
Irmãos, irmãs,
depois de O termos contemplado, que mais podemos fazer? O Evangelho de hoje
coloca à nossa frente dois caminhos: diante de Jesus, temos quem se
comporta como espetador e quem se envolve. Os
espetadores são muitos; é a maioria. Olham; ver morrer alguém na cruz é um
espetáculo. De facto – diz o texto – «o povo permanecia, ali, a observar» (23, 35).
Não era má gente, muitos eram crentes, mas à vista do Crucificado, permanecem
espetadores: não movem um passo na direção de Jesus, mas olham-No de longe,
curiosos e indiferentes, sem verdadeiramente se interessar nem perguntar que
podem fazer. Terão comentado («mas olha este…»), terão formulado juízos e
opiniões («mas é inocente… e termina assim?»), alguém tê-Lo-á até lamentado,
mas todos ficaram a olhar sem nada fazer, de braços cruzados. E até há
espetadores perto da cruz: os chefes do povo, que querem assistir ao espetáculo
cruento do fim inglorioso de Cristo; os soldados, que esperam que termine
rapidamente a execução a fim de voltar para casa; um dos malfeitores, que
descarrega o seu ódio sobre Jesus. Escarnecem, insultam, dizem da sua justiça.
Todos estes
espetadores compartilham um refrão, que o texto repete três vezes: «Se és
rei, salva-Te a Ti mesmo» (cf.
23, 35.37.39). Insultam-No assim, desafiam-No! Salva-Te a
Ti mesmo! Exatamente o contrário daquilo que está a fazer Jesus, que
pensa não em Si, mas em salvá-los a eles que O insultam. E
aquele dito «salva-Te a Ti mesmo» propaga-se como que por contágio:
desde os chefes passando pelos soldados e chegando à gente, a onda do mal
atinge quase todos. Pensemos como é contagioso o mal! Contagia-nos como quando
apanhamos uma doença infeciosa, que nos contagia imediatamente. Aquela gente
fala de Jesus, mas não se sintoniza com Jesus nem um momento sequer. Põe-se à
distância e fala. É o contágio letal da indiferença. A indiferença é uma doença
ruim: «isto não me diz respeito, não tem a ver comigo». Indiferença para com
Jesus e indiferença também para com os doentes, os pobres, os miseráveis da
terra. Gosto de perguntar às pessoas e faço-o também aqui a cada um de vós. Sei
que cada um de vós dá esmola aos pobres, e eu pergunto: «Quando tu dás esmola
aos pobres, olha-os nos olhos? És capaz de olhar nos olhos aquele pobre, homem
ou mulher, que te pede esmola? Quando dás esmola aos pobres, atiras a moeda ou
tocas-lhe a mão? És capaz de tocar uma miséria humana?» Depois cada um dê a
resposta, hoje. Aquela gente vivia na indiferença. Fala de Jesus, mas não
sintoniza com Ele. E este é o contágio letal da indiferença, que cria
distâncias relativamente às misérias. A onda do mal espalha-se sempre assim:
começa-se por se colocar à distância, observar sem nada fazer e não se
importar, depois pensamos só naquilo que nos interessa e habituamo-nos a virar
a cara para o outro lado. Isto é um risco que corre também a nossa fé, que
definha se permanecer uma teoria sem se fazer vida prática, se não houver
envolvimento, se não nos gastarmos pessoalmente, se não nos comprometermos.
Então tornamo-nos cristãos de fachada (cristãos tipo “água-de-colónia”, como
ouvia dizer na minha casa), que dizem acreditar em Deus e querer a paz, mas não
rezam nem cuidam do próximo. Não interessa Deus nem a paz, a estes cristãos
apenas de língua, superficiais.
Esta era a
onda má, que se encontrava no Calvário. Mas há também a onda benfazeja do bem.
Entre muitos espetadores há um que se envolve, isto é, o «bom ladrão». Os
outros zombam do Senhor, ele fala-Lhe e chama-O pelo nome: «Jesus»; muitos
descarregam sobre Ele o seu ódio, ele confessa a Cristo os seus erros; muitos
dizem «salva-Te a Ti mesmo», ele reza: «Jesus, lembra-Te de mim» (23, 42).
Pede apenas isto ao Senhor. É uma linda oração! Se cada um de nós a rezasse
todos os dias, estaria na boa estrada: a estrada da santidade: «Jesus,
lembra-Te de mim». Assim um malfeitor torna-se o primeiro santo: aproxima-se de
Jesus por um instante, e o Senhor estreita-o a Si para sempre. Ora, o Evangelho
fala-nos do bom ladrão para nos convidar a vencer o mal, deixando de ser
espetadores. Por favor! A indiferença é pior do que fazer o mal. E donde
havemos de começar? Da confidência, de chamar a Deus pelo nome,
precisamente como fez o bom ladrão, que, no fim da vida, reencontra aquela
confidência corajosa das crianças que confiam, pedem, insistem. E, na
confidência, admite os seus erros, chora não por si mesmo, mas diante do Senhor.
E nós, temos esta confiança, trazemos a Jesus aquilo que somos dentro ou
maquilhamo-nos diante de Deus, talvez com um toque de sacralidade e de incenso?
Por favor, não viver a espiritualidade da maquilhagem: é fastidiosa. Diante de
Deus, apenas água e sabão! Sem maquilhagem, mas a alma apresenta-se assim como
ela é. E daqui vem a salvação. Quem pratica a confidência, como este bom
ladrão, aprende a intercessão, aprende a levar a Deus aquilo que
vê, os sofrimentos do mundo, as pessoas que encontra; aprende a dizer-Lhe, como
o bom ladrão: «Lembra-Te, Senhor!» Não estamos no mundo apenas para nos salvar
a nós mesmos. Não; mas para levar os irmãos e as irmãs ao abraço do Rei. O
facto de interceder, de lembrar ao Senhor, abre as portas do Paraíso. Mas nós,
quando rezamos, intercedemos? «Lembra-Te, Senhor! Lembra-Te de mim, da minha
família, lembra-Te deste problema… lembra-Te… lembra-Te…» Devemos atrair a
atenção do Senhor.
Irmãos, irmãs,
hoje o nosso Rei olha-nos da cruz a brasa aduerte. Cabe-nos a nós
escolher em sermos espetadores ou envolvidos. Sou
espetador ou quero envolver-me? Vemos as crises de hoje, o declínio da fé, a
falta de participação... E que fazemos? Limitamo-nos a fazer teorias,
limitamo-nos a criticar, ou arregaçamos as mangas, comprometemo-nos na vida,
passamos do «se» das desculpas ao «sim» da oração e do serviço? Todos pensamos
saber o que está errado na sociedade. Todos! Falamos todos os dias do que está
errado no mundo e também na Igreja. Tantas coisas erradas na Igreja! Mas,
depois, fazemos alguma coisa? Metemos as mãos na massa, como o nosso Deus
pregado no madeiro, ou ficamos a olhar com as mãos nos bolsos? Hoje, enquanto
Jesus, despido na cruz, tira todo o véu sobre Deus e destrói toda a falsa
imagem da sua realeza, olhemos para Ele a fim de encontrar a coragem de olhar para
nós mesmos, percorrer os caminhos da confidência e da intercessão e fazer-nos
servos para reinarmos com Ele. «Lembra-Te, Senhor, lembra-Te»: façamos esta
oração com maior frequência! Obrigado.
Papa Francisco
(Homilia, Solenidade de Nosso senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, 20 de novembro de 2022)