Na sequência das leituras de domingo passado, também a liturgia de hoje nos
projeta para a oração, mas numa dimensão diferente, pois centra-nos na forma
como esta deve ser feita, para ser verdadeiramente um encontro com o Senhor, no
mais íntimo do nosso ser.
“O Senhor é um juiz que não faz acepção de pessoas. Não
favorece ninguém em prejuízo do pobre e atende a prece do oprimido. Não
despreza a súplica do órfão, nem os gemidos da viúva. Quem adora a Deus será
bem acolhido e a sua prece sobe até às nuvens. A oração do humilde atravessa as
nuvens e não descansa enquanto não chega ao seu destino. Não desiste, até que o
Altíssimo o atenda, para estabelecer o direito dos justos e fazer justiça.”
Na 2ªleitura (2 Tim 4, 6-8.16-18) S.Paulo antevendo a proximidade da sua partida para
Deus faz uma despedida demonstrativa de um fé imensa no Senhor. Nem por um
minuto, sabendo o que o espera, face aos executores romanos, perde a confiança
no amor de Deus. Ele tem a certeza de que o Senhor está sempre a seu lado,
nunca lhe faltará e que só Ele lhe dará a salvação, no Céu.
“Caríssimo: Eu já estou oferecido em libação e o tempo da minha partida
está iminente. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé.
E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me
há de dar naquele dia; e não só a mim, mas a todos aqueles que tiverem esperado
com amor a sua vinda. Na minha primeira defesa, ninguém esteve a meu lado:
todos me abandonaram. Queira Deus que esta falta não lhes seja imputada. O
Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a
mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todas as nações a ouvissem;
e eu fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará de todo o mal e me dará
a salvação no seu reino celeste. Glória a Ele pelos séculos dos séculos. Ámen.”
No evangelho (Lc 18, 9-14) Jesus conta-nos uma parábola, em que nos ensina como deve ser uma oração verdadeira: só um coração humilhado e contrito sente necessidade de Deus e se Lhe entrega na totalidade e, ,por maioria de razão, na sua debilidade.
“Naquele tempo, Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se
consideravam justos e desprezavam os outros: «Dois homens subiram ao templo
para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim:
‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões,
injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e
pago o dízimo de todos os meus rendimentos’. O publicano ficou a distância e
nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia:
‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. Eu vos digo que este
desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se
exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».
Senhor, tem compaixão de mim, que sou pecadora.
Estimados
irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho da
Liturgia de hoje apresenta-nos uma parábola que tem dois protagonistas, um
fariseu e um publicano (cf. Lc 18,
9-14),
ou seja, um homem religioso e um pecador confesso. Ambos sobem ao templo para
rezar, mas só o publicano se eleva verdadeiramente a Deus, porque humildemente
desce à verdade de si mesmo e se apresenta como é, sem máscaras, com a sua
pobreza. Poderíamos então dizer que a parábola se situa entre dois movimentos,
expressos por dois verbos: subir e descer.
O primeiro
movimento é subir. Na verdade, o texto começa dizendo: «Dois homens
subiram ao templo para rezar» (v.
10).
Este aspeto recorda muitos episódios da Bíblia, nos quais para encontrar o
Senhor se sobe à montanha da sua presença: Abraão sobe a montanha para oferecer
o sacrifício; Moisés sobe ao Sinai para receber os mandamentos; Jesus sobe à
montanha, onde é transfigurado. Portanto, subir exprime a necessidade do
coração de se desligar de uma vida monótona para ir ao encontro do Senhor; de
se erguer das planícies do nosso ego para ascender até Deus - livrar-se do
próprio eu; de recolher o que vivemos no vale para o levar perante o Senhor.
Isto é “subir”, e quando rezamos, ascendemos.
Mas para
vivermos o encontro com Ele e sermos transformados pela oração, para nos
elevarmos a Deus, precisamos do segundo movimento: descer. Porquê?
O que significa isto? Para ascender até Ele devemos descer dentro de nós:
cultivar a sinceridade e a humildade de coração, que nos dão um olhar honesto
sobre as nossas fragilidades e as nossas pobrezas interiores. Com efeito, na
humildade tornamo-nos capazes de levar a Deus, sem fingimento, o que realmente
somos, as limitações e feridas, os pecados, as misérias que pesam sobre o nosso
coração, e de invocar a sua misericórdia para que nos cure, nos sare, nos
levante. É Ele quem nos ergue, não nós. Quanto mais descermos com humildade,
mais Deus nos elevará.
De facto, o
publicano na parábola pára humildemente à distância (cf. v. 13) -
não se aproxima, envergonha-se -, pede perdão, e o Senhor eleva-o. Ao
contrário, o fariseu exalta-se, seguro de si, convencido de que está bem: ali
parado, começa a falar apenas de si mesmo ao Senhor, elogiando-se, enumerando
todas as boas obras religiosas que pratica, e despreza os outros: “Não sou como
aquele ali...”. Porque a soberba espiritual isso faz – “Mas padre, por que nos
fala de soberba espiritual?”. Porque todos nós corremos o risco de cair nisto.
Ela leva-nos a pensar que somos bons e a julgar os outros. Esta é a soberba
espiritual: “Estou bem, sou melhor que os outros: isto é a tal coisa, aquele é
a outra…”. E assim, sem nos darmos conta, adoramos o nosso eu e cancelamos o
nosso Deus. É rodar em volta de si mesmo. É a oração sem humildade.
Irmãos, irmãs,
o fariseu e o publicano dizem-nos respeito de perto. Pensando neles, olhemos
para nós mesmos: verifiquemos se em nós, como no fariseu, existe «a íntima
presunção de ser justo» (v.
9)
que nos leva a desprezar os outros. Acontece, por exemplo, quando procuramos
elogios e enumeramos sempre os nossos méritos e boas obras, quando nos
preocupamos em aparecer em vez de ser, quando nos deixamos apanhar pelo
narcisismo e pelo exibicionismo. Vigiemos sobre o narcisismo e o exibicionismo,
fundados na vanglória, que também nos leva a nós cristãos, nós sacerdotes, nós
bispos a ter sempre uma palavra nos lábios, qual palavra? “Eu”: “eu fiz isto,
eu escrevi aquilo, eu disse, eu compreendi-o antes de vós”, e assim por diante.
Onde há muito eu, há pouco Deus. Na minha terra estas pessoas são chamadas
“eu-comigo para-mim só-eu”, este é o nome dessas pessoas. E uma vez falava-se
de um sacerdote que era assim, centrado em si mesmo, e as pessoas brincavam,
dizendo: “Ele quando faz a incensação, fá-la em volta de si, incensa-se”.
Assim, faz com que caias até no ridículo.
Peçamos a
intercessão de Maria Santíssima, a humilde serva do Senhor, imagem viva do que
o Senhor gosta de realizar, derrubando os poderosos dos tronos e elevando os
humildes (cf. Lc 1,
52).




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