DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM-2025-ANO C
As leituras de hoje despertam em nós sentimentos de gratidão: pelo dom da vida, pela família que o Senhor nos deu; pela Igreja; pelo dom da Eucaristia; pelo dom da fé; por…, por… Esta é uma lista sem fim, sempre dinâmica, sempre incompleta, sempre num devir, porque, são contínuas as razões que temos para agradecer, para entregar, para amar. Quando, na nossa vida, no concreto de cada dia, nas várias situações, mais dramáticas, ou mais felizes, nos encontramos com Deus, nos deixamos abraçar, levar ao colo por Jesus, então aí o nosso muito obrigado sai espontaneamente, o nosso coração louva o Senhor e agradece, consciente e profundamente, todas as maravilhas que o Senhor vai fazendo, ainda hoje, connosco e com aquele(s), ou aquela(s) que colocou nos nossos caminhos.
Na 1ª leitura (2 Reis 5, 14-17) é com o coração cheio de alegria que nos
associamos à cura de Naamã, porque, não sendo israelita, mas sírio, depois de
mergulhar 7 vezes, tal como o profeta Eliseu lhe dissera para fazer, vê o seu
corpo completamente limpo da lepra que o consumia. E, o “milagre” acontece
quando nos deixamos habitar por Deus e fazemos o que Ele nos pede. Só podemos
agradecer e cantar louvores ao nosso Deus, porque confia em nós, ou melhor
ainda, ama-nos perdidamente, respeita as nossas dificuldades e o nosso tempo de
reação, nunca desistindo de nós, em nenhuma situação. Pelo contrário, é Ele
quem nos procura constantemente, pelos montes e vales da vida, como fez com
Naamã.
“Naqueles dias, o general sírio Naamã desceu ao Jordão e aí mergulhou sete
vezes, como lhe mandara Eliseu, o homem de Deus. A sua carne tornou-se tenra
como a de uma criança e ficou purificado da lepra. Naamã foi ter novamente com
o homem de Deus, acompanhado de toda a sua comitiva. Ao chegar diante dele,
exclamou: «Agora reconheço que em toda a terra não há outro Deus senão o de
Israel. Peço-te que aceites um presente deste teu servo». Eliseu respondeu-lhe:
«Pela vida do Senhor que eu sirvo, nada aceitarei». E apesar das insistências,
ele recusou. Disse então Naamã: «Se não aceitas, permite ao menos que se dê a
este teu servo uma porção de terra para um altar, tanto quanto possa carregar
uma parelha de mulas, porque o teu servo nunca mais há de oferecer holocausto
ou sacrifício a quaisquer outros deuses, mas apenas ao Senhor, Deus de
Israel».”
Na 2ªleitura (2 Tim 2, 8-13) S. Paulo, como sempre, fala do que vive. Neste texto
sagrado, encontramo-lo na prisão, a dar testemunho da sua fé, que é de uma
profundidade tão intensa que nos desinstala e questiona. Termina deixando-nos a
garantia de que o amor de Deus, por cada um de nós, é para sempre: Deus é Amor
e só sabe amar, só sabe dar-Se. Deixemo-nos amar por Ele, para que os outros,
que contactam connosco de uma forma mais próxima, ou mais distante, a quem quer
chegar através de nós, também O possam conhecer e amar.
“Caríssimo: Lembra-te de que Jesus Cristo, descendente de David,
ressuscitou dos mortos, segundo o meu Evangelho, pelo qual eu sofro, até ao
ponto de estar preso a estas cadeias como um malfeitor. Mas a palavra de Deus
não está encadeada. Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que
obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com a glória eterna. É digna de
fé esta palavra: Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos; se sofremos
com Cristo, também com Ele reinaremos; se O negarmos, também Ele nos negará; se
Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo.”
No evangelho (Lc 17, 11-19) vemos como Jesus não
passa sem se deter perante o sofrimento daqueles homens. Atende e responde à
súplica dos dez leprosos. Esta é a nossa certeza, Jesus nunca é indiferente ao
sofrimento, à dor humana. Vem sempre em nosso auxílio. Depois, façamos como o leproso
que voltou atrás a agradecer.
“Naquele tempo, indo Jesus a caminho de Jerusalém, passava entre a Samaria e a Galileia. Ao entrar numa povoação, vieram ao seu encontro dez leprosos. Conservando-se a distância, disseram em alta voz: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». Ao vê-los, Jesus disse-lhes: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra. Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jesus, para Lhe agradecer. Era um samaritano. Jesus, tomando a palavra, disse: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?». E disse ao homem: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou».”
Meu Senhor e meu Deus, bendito e louvado sejas hoje e sempre, pelos séculos sem fim, porque nos ama infinitamente, a todos em geral e a cada um em particular, e Te abres sempre, mas sempre mesmo, a todo aquele que Te procura e de Ti se acerca, sobretudo quando está doente, fragilizado, ou é posto à margem, ou excluído.
Ia Jesus a
caminho, quando dez leprosos saíram ao seu encontro clamando: «Jesus, Mestre,
tem misericórdia de nós» (Lc 17, 13). E os dez ficam curados, mas
só um deles regressa para agradecer a Jesus: é um samaritano, uma espécie de
herege para os judeus. No princípio, caminham juntos, mas em seguida destaca-se
aquele samaritano, que regressa «glorificando a Deus em voz alta» (17, 15).
Detenhamo-nos nestes dois aspetos que podemos deduzir do Evangelho de
hoje: caminhar juntos e agradecer.
Antes de mais
nada, caminhar juntos. No início da narração, não há qualquer
distinção entre o samaritano e os outros nove. Fala-se simplesmente de dez
leprosos, que fazem grupo entre si e, sem divisão, vão ao encontro de Jesus.
Como sabemos, a lepra não era apenas uma úlcera física (ainda hoje devemos
trabalhar por a debelar), mas também uma «doença social», porque, naquele tempo,
por medo do contágio, os leprosos deviam estar fora da comunidade (cf. Lv 13,
46). Por conseguinte não podiam entrar nos centros habitados, mas eram mantidos
à distância, relegados para as margens da vida social e até religiosa,
isolados. Caminhando juntos, estes leprosos clamam contra uma sociedade que os
exclui. E note-se que o samaritano, apesar de ser considerado herético,
«estrangeiro», faz grupo com os outros. Irmãos e irmãs, a doença e a
fragilidade comuns fazem cair as barreiras e superar toda a exclusão.
Trata-se duma
imagem significativa também para nós: se formos honestos connosco mesmos,
havemos de nos lembrar que todos estamos doentes no coração, todos somos
pecadores, todos necessitamos da misericórdia do Pai. Consequentemente
deixaremos de nos dividir com base nos méritos, nas funções que desempenhamos
ou em qualquer outro aspeto exterior da vida, e caem assim os muros interiores,
caem os preconceitos, e por fim descobrimo-nos irmãos. Como nos recordou a
primeira Leitura, o próprio sírio Naamã, apesar de ser rico e poderoso, para ficar curado teve de fazer uma coisa simples: mergulhar no rio onde se banhavam todos
os outros. Antes de mais nada, teve que tirar a sua armadura, as suas vestes
(cf. 2 Rs 5). Como nos faz bem tirar as nossas armaduras
exteriores, as nossas barreiras defensivas e tomar um bom banho de humildade,
recordando-nos de que todos somos frágeis por dentro, todos necessitados de
cura, todos somos irmãos! Lembremo-nos disto: a fé cristã sempre nos pede para
caminhar junto com os outros, para nunca sermos caminhantes solitários; convida-nos sempre a sairmos de nós próprios rumo a Deus e aos irmãos, sem nunca nos
fecharmos em nós mesmos; sempre nos pede para nos reconhecermos necessitados de
cura e perdão, e partilharmos as fragilidades de quem vive ao nosso redor, sem
nos sentirmos superiores.
Irmãos e
irmãs, verifiquemos se, na nossa vida, nas nossas famílias, nos nossos lugares
de trabalho e de convivência diária, somos capazes de caminhar juntamente com
os outros, somos capazes de ouvir, de superar a tentação de nos entrincheirarmos
na nossa autorreferencialidade e pensarmos só nas nossas necessidades. Mas
caminharmos juntos – por outras palavras, sermos «sinodais» – é também a vocação da
Igreja. Interroguemo-nos até que ponto somos verdadeiramente comunidades
abertas e inclusivas em relação a todos; se conseguimos trabalhar juntos,
padres e leigos, ao serviço do Evangelho; se temos uma atitude acolhedora –
feita não só de palavras, mas de gestos concretos – tanto para com os distantes
como para com todos os que se aproximam de nós, sentindo-se inábeis por causa
dos seus percursos de vida conturbada. Fazemo-los sentir parte da comunidade,
ou excluímo-los? Tenho medo, quando vejo comunidades cristãs que dividem o
mundo em bons e maus, em santos e pecadores: assim acaba-se por se sentir
melhor que os outros e manter fora a muitos que Deus quer abraçar. Por
favor, sempre havemos de incluir tanto na Igreja como na
sociedade, ainda caraterizada por tantas desigualdades e marginalizações.
Incluir todos. E hoje, dia em que Scalabrini se torna Santo, quero pensar nos
migrantes. É escandalosa a exclusão dos migrantes! Mais, a exclusão dos migrantes
é criminosa, fá-los morrer diante dos nossos olhos. E assim temos hoje o
Mediterrâneo, que é o cemitério maior do mundo. A exclusão dos migrantes é
repugnante, é pecaminosa, é criminosa. Não abrir as portas a quem precisa.
«Não! Nós não os excluímos, mandamo-los embora»: para os campos de
concentração, onde são explorados e vendidos como escravos. Irmãos e irmãs,
hoje pensemos nos nossos migrantes, naqueles que morrem. E aqueles que
conseguem entrar: recebemo-los como irmãos ou exploramo-los? Deixo apenas a
pergunta…
O segundo
aspeto é agradecer. No grupo dos dez leprosos, há apenas um que, ao
ver-se curado, regressa para louvar a Deus e manifestar a sua gratidão a Jesus.
Enquanto os outros nove ficam purificados mas prosseguem pelo seu caminho,
esquecendo-se d’Aquele que os curou (esquecem a graça que Deus lhes dá), o
samaritano faz do dom recebido o princípio dum novo caminho: regressa para
junto de Quem o sarou, vai conhecer Jesus de perto e inicia uma relação com Ele.
Assim, a sua atitude de gratidão não é um simples gesto de cortesia, mas o início
dum percurso de gratidão: prostra-se aos pés de Cristo (cf. Lc 17,
16), isto é, faz um gesto de adoração, reconhecendo que Jesus é o Senhor e que
é mais importante do que a cura recebida.
E esta, irmãos
e irmãs, é uma grande lição também para nós, que todos os dias beneficiamos dos
dons de Deus, mas frequentemente prosseguimos pela nossa estrada esquecendo-nos
de cultivar uma relação viva, real com Ele. Trata-se duma grave doença espiritual:
dar tudo como garantido, inclusive a fé, mesmo a nossa relação com Deus, a
ponto de nos tornarmos cristãos que deixaram de saber maravilhar-se, já não
sabem dizer «obrigado», não se mostram agradecidos, não sabem ver as maravilhas
do Senhor. São «cristãos em água de rosas», como dizia uma senhora que conheci.
E acaba-se, assim, por pensar que tudo o que recebemos diariamente seja óbvio e
devido. Ao contrário, a gratidão, o saber dizer «obrigado» leva-nos a afirmar a
presença de Deus-Amor e também a reconhecer a importância dos outros, vencendo
o descontentamento e a indiferença que nos embrutecem o coração. É fundamental
saber agradecer. Devemos diariamente dar graças ao Senhor, sabermos em cada dia
agradecer uns aos outros: em família, por aquelas pequenas coisas que às vezes
recebemos sem nos interrogar sequer donde provêm; nos locais que frequentamos
quotidianamente, pelos inúmeros serviços de que usufruímos e pelas pessoas que
nos apoiam; nas nossas comunidades cristãs, pelo amor de Deus que experimentamos
através da proximidade de irmãos e irmãs que muitas vezes em silêncio rezam,
oferecem, sofrem, caminham connosco. Por favor, não esqueçamos esta
palavra-chave: obrigado! Não nos esqueçamos de sentir necessidade e dizer
«obrigado»!
Os dois
Santos, canonizados hoje, lembram-nos a importância de caminhar juntos e saber
agradecer. O Bispo Scalabrini, que fundou duas Congregações para o cuidado dos
migrantes, uma masculina e outra feminina, afirmava que, no caminhar comum
daqueles que emigram, é preciso não ver só problemas, mas também um desígnio da
Providência: «Precisamente por causa da migração forçada pelas perseguições –
disse ele –, a Igreja superou as fronteiras de Jerusalém e de Israel e
tornou-se “católica”; graças às migrações de hoje, a Igreja será instrumento de
paz e comunhão entre os povos» (A emigração dos trabalhadores italianos,
Ferrara 1899). Neste momento, aqui na Europa, há uma migração, que nos faz
sofrer tanto e nos impele a abrir o coração: a migração de ucranianos que fogem
da guerra. Não esqueçamos hoje a martirizada Ucrânia! Scalabrini olhava mais
além, olhava lá para diante, para um mundo e uma Igreja sem barreiras, sem
estrangeiros. Por sua vez, o irmão salesiano Artemide Zatti, com a sua
bicicleta, foi um exemplo vivo de gratidão: curado da tuberculose, dedicou toda
a sua vida a favorecer os outros, a cuidar com amor e ternura dos doentes.
Conta-se que o viram carregar aos ombros o corpo morto dum dos seus doentes.
Cheio de gratidão por tudo o que havia recebido, quis dizer o seu «obrigado»
ocupando-se das feridas dos outros. Dois exemplos!
Rezemos para que estes nossos santos irmãos nos ajudem a caminhar juntos, sem muros de divisão; e a cultivar esta nobreza de alma tão agradável a Deus que é a gratidão.




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