sábado, 4 de outubro de 2025

 DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM-2025-ANO C

As leituras de hoje levam-nos a refletir sobre o dom da fé. Desafiam-nos a questionarmo-nos sobre a forma como, pela fé, estamos (ou não) ao serviço da comunicação do Amor de Deus aos irmãos, ou àqueles de quem não gostamos nada mesmo, ou, porque não dizê-lo, àqueles por quem nutrimos algum sentimento muito pouco cristão (…), lá, em plena luta diária, onde nos movemos e existimos. Afinal, é o nosso Mestre e Senhor, que todo Se entrega no Amor, não somos nós, é Ele quem ama em nós, por isso, apenas nos cabe sermos bons cabos de transmissão, porque a fonte, para todos, é sempre e só Ele, que nunca falha.

Na 1ªleitura (Hab 1, 2-3; 2, 2-4vemos, como que num espelho, no agora do nosso tempo, reações tão semelhantes às do tempo do profeta, face aos problemas sociais, aos dramas humanos e às injustiças dos tempos de hoje. Mudámos imenso em tantos domínios, que nem dá para comparar, tal a distância de então para cá, mas continuamos seres humanos, frágeis, criados à imagem e semelhança de Deus. Continuamos à procura, muitas vezes sem o sabermos, do Único que pode responder às nossas questões, porque só Ele nos ama infinitamente, mesmos conhecendo-nos tal qual somos, na totalidade do nosso ser, até ao mais profundo de nós mesmos, mesmos nos recantos mais recônditos, até onde, por vezes, nem nós mesmos temos coragem de descer. Para que todos O conheçam assim, enamorado de cada um dos seus filhos queridíssimos, só temos de nos deixar amar por Ele. Quem não gosta de ser assim amado, sem qualquer limite?! Vale a pena confiar e pôr tudo nas Suas mãos!

«Até quando, Senhor, chamarei por Vós e não me ouvis? Até quando clamarei contra a violência e não me enviais a salvação? Porque me deixais ver a iniquidade e contemplar a injustiça? Diante de mim está a opressão e a violência, levantam-se contendas e reina a discórdia?» O Senhor respondeu-me: «Põe por escrito esta visão e grava-a em tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente. Embora esta visão só se realize na devida altura, ela há de cumprir-se com certeza e não falhará. Se parece demorar, deves esperá-la, porque ela há de vir e não tardará. Vede como sucumbe aquele que não tem alma reta; mas o justo viverá pela sua fidelidade».

Na 2ª leitura (2 Tim 1, 6-8.13-14S.Paulo, que fez da comunicação, do Amor infinito de Deus por cada ser humano, e por toda a humanidade, a razão de ser da sua vida, não podia, mais uma vez, deixar de nos situar na verdadeira fonte, que é Jesus Cristo, e de nos exortar a pedir ao Senhor que envie sobre nós o Seu Santo Espírito. Que Ele nos habite e nos inunde com a Sua Luz.

“Caríssimo: Exorto-te a que reanimes o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e moderação. Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro. Mas sofre comigo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus. Toma como norma as sãs palavras que me ouviste, segundo a fé e a caridade que temos em Jesus Cristo. Guarda a boa doutrina que nos foi confiada, com o auxílio do Espírito Santo, que habita em nós.”

No evangelho (Lc 17, 5-10) é o Senhor Jesus quem nos explica o que é ter fé e como esta é um dom, ao serviço de todos os que procuram Deus de coração sincero. E, olhando para tantos santos da Igreja (de ontem, mas também dos nossos tempos), de quem conhecemos alguns pedaços da sua história de vida, mas sobretudo do seu testemunho de fé, percebemos que, o que Jesus diz no evangelho, continua a ser possível nos dias de hoje. Ajuda-nos Senhor a sermos fiéis ao dom da fé que nos destes.

“Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé». O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia. Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’?. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’.”

Aumenta Senhor minha fé.

Prezados irmãos e irmãs!

É grande a minha alegria, por poder repartir convosco o pão da Palavra de Deus e da Eucaristia. Saúdo-vos a todos com carinho e agradeço o vosso caloroso acolhimento! (...)

Sei que em Palermo, como também em toda a Sicília, não faltam dificuldades, problemas e preocupações: penso, de modo particular, em quantos vivem concretamente a sua existência em condições de precariedade, por causa da falta de trabalho, da incerteza em relação ao futuro, do sofrimento físico e moral e, como recordou o Arcebispo, por causa da criminalidade organizada. Hoje encontro-me no meio de vós para dar testemunho da minha proximidade e da minha lembrança na oração. Estou aqui para vos transmitir um vigoroso encorajamento, a fim de que não tenhais medo de testemunhar com clareza os valores humanos e cristãos, tão profundamente arraigados na fé e na história deste território e da sua população.

Estimados irmãos e irmãs, cada assembleia litúrgica constitui um espaço da presença de Deus. Congregados para a Sagrada Eucaristia, os discípulos do Senhor estão imersos no sacrifício redentor de Cristo, proclamam que Ele ressuscitou, está vivo e é doador de vida, enquanto testemunham que a Sua presença é graça, força e alegria. Abramos o coração à Sua palavra e acolhamos o dom da Sua presença! Todos os textos da liturgia deste domingo nos falam da fé, que é o fundamento de toda a vida cristã. Jesus educou os seus discípulos para crescer na fé, acreditar e confiar cada vez mais n'Ele, a fim de edificar a própria vida sobre a rocha. Por isso, pedem-lhe: «Aumenta a nossa fé» (Lc 17, 6). É um belo pedido que eles dirigem ao Senhor, é o pedido fundamental: os discípulos não pedem dons materiais, nem privilégios, mas sim a graça da fé, que oriente e ilumine toda a vida; pedem a graça de reconhecer Deus e de poder estar em íntima relação com Ele, recebendo d'Ele todos os seus dons: coragem, amor e esperança, entre outros.

Sem responder diretamente à oração dos discípulos, Jesus recorre à imagem, paradoxal, da alavanca para expressar a incrível vitalidade da fé. Tal como uma alavanca move muito mais do que o seu próprio peso, assim também a fé, mesmo que seja em pequena medida, é capaz de realizar coisas impensáveis, extraordinárias, como arrancar uma árvore frondosa e transplantá-la no mar (cf. ibidem). A fé — confiar em Cristo, recebê-l'O, deixar que Ele nos transforme e segui-l'O incondicionalmente até ao fim — torna possível aquilo que humanamente é impossível, em todas as realidades. Dá testemunho disto também o profeta Habacuc, na primeira leitura. Ele faz uma oração de súplica ao Senhor, a partir de uma tremenda situação de violência, iniquidade e opressão; e é precisamente nesta situação difícil e de insegurança, que o profeta introduz uma visão que oferece um perfil do desígnio que Deus está a definir e a pôr em prática na história: «Eis que sucumbe aquele que não tem a alma reta, mas o justo viverá pela sua fidelidade» (Hab 2, 4). O ímpio é aquele que não age segundo Deus, que confia no próprio poder, apoiando-se porém sobre uma realidade frágil e inconsistente, e por isso irá sucumbir, está destinado a cair; quanto ao justo, este, pelo contrário, confia numa realidade escondida mas sólida, confia em Deus e por isso há de viver.

Nos séculos passados, a Igreja que está em Palermo foi enriquecida e animada por uma fé fervorosa, que encontrou a sua expressão mais elevada e bem sucedida nos Santos e Santas. Penso em Santa Rosalia, que vós venerais e honrais e que, do monte Pellegrino, vela sobre a vossa Cidade, da qual é Padroeira. E penso noutras duas grandes Santas da Sicília: Águeda e Lúcia. Também não se deve esquecer como o vosso sentido religioso sempre inspirou e orientou a vida familiar, alimentando valores como a capacidade de doação e de solidariedade ao próximo, especialmente àqueles que sofrem, e o respeito inato pela vida, que constituem uma herança preciosa a conservar ciosamente e a relançar ainda mais nos nossos dias. Caros amigos, conservai este tesouro de fé da vossa Igreja, que ele sempre vos oriente nas vossas escolhas e que as  vossas obras sejam  sempre repassadas pelos valores cristãos!

A segunda parte do Evangelho de hoje apresenta mais um ensinamento, um ensinamento de humildade, que todavia está intimamente ligado à fé. Jesus convida-nos a ser humildes e cita o exemplo de um servo que trabalha no campo. Quando volta para casa, o patrão pede-lhe que continue a trabalhar. Segundo a mentalidade da época de Jesus, o patrão tinha todo o direito de o fazer. O servo devia ao senhor uma disponibilidade completa e o senhor não se sentia seu devedor, por ele ter executado as ordens recebidas. Jesus faz-nos adquirir consciência de que, diante de Deus, estamos numa situação semelhante: somos servos de Deus, não somos credores no que se Lhe refere, mas somos sempre devedores, uma vez que Lhe devemos tudo , porque tudo é  dom de Deus. Aceitar e cumprir a Sua vontade é a atitude que devemos ter todos os dias, em cada momento da nossa vida. Diante de Deus, nunca devemos apresentar-nos como alguém que julga ter prestado um serviço e portanto merece uma grande recompensa. Trata-se de uma ilusão que todos podemos ter, até mesmo as pessoas que trabalham ao serviço do Senhor, na Igreja. Antes pelo contrário, devemos estar conscientes de que, na realidade, nunca fazemos o suficiente por Deus. Como Jesus nos sugere, temos que dizer: «Somos servos inúteis. Fizemos tudo o que devíamos fazer» (Lc 17, 10). É uma atitude de humildade que nos coloca verdadeiramente no nosso próprio lugar  e permite ao Senhor ser muito generoso connosco. Com efeito, num outro trecho do Evangelho, Ele promete-nos que «se cingirá, mandará que nos ponhamos à mesa e então passará a servir-nos» (cf. Lc 12, 37). Prezados amigos, se cumprirmos a vontade de Deus todos os dias com humildade, sem nada pretender d'Ele, é o próprio Jesus que nos servirá, nos ajudará e encorajará, dando-nos força e tranquilidade.

Também o Apóstolo Paulo, na segunda leitura hodierna, fala da fé. Timóteo é convidado a ter fé e, por meio dela, a exercer a caridade. O discípulo é exortado a reavivar na fé inclusive o dom de Deus que nele se encontra pela imposição das mãos de Paulo, ou seja, a dádiva da Ordenação, recebida para desempenhar o ministério apostólico como colaborador de Paulo (cf. 2 Tm 1, 6). Ele não pode deixar extinguir este dom, mas deve torná-lo cada vez mais vivo através da fé. E o Apóstolo acrescenta: «Pois Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de sabedoria» (v. 7).

Caros palermitanos e queridos sicilianos! A vossa bonita Ilha foi uma das primeiras regiões da Itália que recebeu a fé dos Apóstolos, acolheu o anúncio da Palavra de Deus, aderiu à fé de maneira tão generosa que, mesmo no meio de dificuldades e perseguições, nela sempre germinou a flor da santidade. A Sicília foi e é terra de santos, pertencentes a todas as condições de vida, que viveram o Evangelho com simplicidade e integridade. Fiéis leigos, repito-vos: não tenhais medo de viver e testemunhar a fé nos vários âmbitos da sociedade, nas múltiplas situações da existência humana, principalmente nas mais difíceis! A fé incute-vos a fortaleza de Deus para serdes sempre confiantes e corajosos, para progredirdes com renovada decisão e para tomardes as iniciativas necessárias para dar um rosto cada vez mais bonito à vossa terra. E quando encontrardes a oposição do mundo, ouvi as palavras do Apóstolo: «Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor» (v. 8). É necessário envergonhar-se do mal, daquilo que ofende a Deus e daquilo que ofende o homem; é preciso envergonhar-se do mal que se causa à comunidade civil e religiosa com ações que se procuram esconder! A tentação do desânimo e da resignação atinge quem é fraco na fé, quem confunde o mal com o bem, quem pensa que diante do mal, com frequência profundo, nada se pode fazer. No entanto, quem está solidamente fundamentado na fé, quem tem plena confiança em Deus e vive na Igreja, é capaz de anunciar a força transbordante do Evangelho. Foi assim que se comportaram os Santos e as Santas, florescidos ao longo dos séculos em Palermo e em toda a Sicília, como também leigos e sacerdotes de hoje, que vós conheceis muito bem, como por exemplo o Padre Pino Puglisi. Que eles vos conservem sempre unidos e alimentem em cada um o desejo de proclamar, com as palavras e as obras, a presença e o amor de Cristo. Povo da Sicília, olha com esperança para o teu futuro! Faz sobressair em toda a sua luz o bem que queres, que procuras e que tens! Vive com coragem os valores do Evangelho para fazer resplandecer a luz do bem! Com a força de Deus, tudo é possível! A Mãe de Cristo, a Virgem Odigitria que vós tanto venerais, vos assista e vos conduza ao profundo conhecimento do seu Filho!

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