sábado, 11 de outubro de 2025

 DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM-2025-ANO C

As leituras de hoje despertam em nós sentimentos de gratidão: pelo dom da vida, pela família que o Senhor nos deu; pela Igreja; pelo dom da Eucaristia; pelo dom da fé; por…, por… Esta é uma lista sem fim, sempre dinâmica, sempre incompleta, sempre num devir, porque, são contínuas as razões que temos para agradecer, para entregar, para amar. Quando, na nossa vida, no concreto de cada dia, nas várias situações, mais dramáticas, ou mais felizes, nos encontramos com Deus, nos deixamos abraçar, levar ao colo por Jesus, então aí o nosso muito obrigado sai espontaneamente, o nosso coração louva o Senhor e agradece, consciente e profundamente, todas as maravilhas que o Senhor vai fazendo, ainda hoje, connosco e com aquele(s), ou aquela(s) que colocou nos nossos caminhos.

Na 1ª leitura (2 Reis 5, 14-17)  é com o coração cheio de alegria que nos associamos à cura de Naamã, porque, não sendo israelita, mas sírio, depois de mergulhar 7 vezes, tal como o profeta Eliseu lhe dissera para fazer, vê o seu corpo completamente limpo da lepra que o consumia. E, o “milagre” acontece quando nos deixamos habitar por Deus e fazemos o que Ele nos pede. Só podemos agradecer e cantar louvores ao nosso Deus, porque confia em nós, ou melhor ainda, ama-nos perdidamente, respeita as nossas dificuldades e o nosso tempo de reação, nunca desistindo de nós, em nenhuma situação. Pelo contrário, é Ele quem nos procura constantemente, pelos montes e vales da vida, como fez com Naamã.

“Naqueles dias, o general sírio Naamã desceu ao Jordão e aí mergulhou sete vezes, como lhe mandara Eliseu, o homem de Deus. A sua carne tornou-se tenra como a de uma criança e ficou purificado da lepra. Naamã foi ter novamente com o homem de Deus, acompanhado de toda a sua comitiva. Ao chegar diante dele, exclamou: «Agora reconheço que em toda a terra não há outro Deus senão o de Israel. Peço-te que aceites um presente deste teu servo». Eliseu respondeu-lhe: «Pela vida do Senhor que eu sirvo, nada aceitarei». E apesar das insistências, ele recusou. Disse então Naamã: «Se não aceitas, permite ao menos que se dê a este teu servo uma porção de terra para um altar, tanto quanto possa carregar uma parelha de mulas, porque o teu servo nunca mais há de oferecer holocausto ou sacrifício a quaisquer outros deuses, mas apenas ao Senhor, Deus de Israel».”

Na 2ªleitura (2 Tim 2, 8-13) S. Paulo, como sempre, fala do que vive. Neste texto sagrado, encontramo-lo na prisão, a dar testemunho da sua fé, que é de uma profundidade tão intensa que nos desinstala e questiona. Termina deixando-nos a garantia de que o amor de Deus, por cada um de nós, é para sempre: Deus é Amor e só sabe amar, só sabe dar-Se. Deixemo-nos amar por Ele, para que os outros, que contactam connosco de uma forma mais próxima, ou mais distante, a quem quer chegar através de nós, também O possam conhecer e amar. 

“Caríssimo: Lembra-te de que Jesus Cristo, descendente de David, ressuscitou dos mortos, segundo o meu Evangelho, pelo qual eu sofro, até ao ponto de estar preso a estas cadeias como um malfeitor. Mas a palavra de Deus não está encadeada. Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com a glória eterna. É digna de fé esta palavra: Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos; se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos; se O negarmos, também Ele nos negará; se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo.”

No evangelho (Lc 17, 11-19) vemos como Jesus não passa sem se deter perante o sofrimento daqueles homens. Atende e responde à súplica dos dez leprosos. Esta é a nossa certeza, Jesus nunca é indiferente ao sofrimento, à dor humana. Vem sempre em nosso auxílio. Depois, façamos como o leproso que voltou atrás a agradecer. 

“Naquele tempo, indo Jesus a caminho de Jerusalém, passava entre a Samaria e a Galileia. Ao entrar numa povoação, vieram ao seu encontro dez leprosos. Conservando-se a distância, disseram em alta voz: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». Ao vê-los, Jesus disse-lhes: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra. Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jesus, para Lhe agradecer. Era um samaritano. Jesus, tomando a palavra, disse: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?». E disse ao homem: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou».”

Meu Senhor e meu Deus, bendito e  louvado sejas hoje e sempre, pelos séculos sem fim, porque nos ama infinitamente, a todos em geral e a cada um em particular, e Te abres sempre, mas sempre mesmo, a todo aquele que Te procura e de Ti se acerca, sobretudo quando está doente, fragilizado, ou é posto à margem, ou excluído.

Ia Jesus a caminho, quando dez leprosos saíram ao seu encontro clamando: «Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós» (Lc 17, 13). E os dez ficam curados, mas só um deles regressa para agradecer a Jesus: é um samaritano, uma espécie de herege para os judeus. No princípio, caminham juntos, mas em seguida destaca-se aquele samaritano, que regressa «glorificando a Deus em voz alta» (17, 15). Detenhamo-nos nestes dois aspetos que podemos deduzir do Evangelho de hoje: caminhar juntos e agradecer.

Antes de mais nada, caminhar juntos. No início da narração, não há qualquer distinção entre o samaritano e os outros nove. Fala-se simplesmente de dez leprosos, que fazem grupo entre si e, sem divisão, vão ao encontro de Jesus. Como sabemos, a lepra não era apenas uma úlcera física (ainda hoje devemos trabalhar por a debelar), mas também uma «doença social», porque, naquele tempo, por medo do contágio, os leprosos deviam estar fora da comunidade (cf. Lv 13, 46). Por conseguinte não podiam entrar nos centros habitados, mas eram mantidos à distância, relegados para as margens da vida social e até religiosa, isolados. Caminhando juntos, estes leprosos clamam contra uma sociedade que os exclui. E note-se que o samaritano, apesar de ser considerado herético, «estrangeiro», faz grupo com os outros. Irmãos e irmãs, a doença e a fragilidade comuns fazem cair as barreiras e superar toda a exclusão.

Trata-se duma imagem significativa também para nós: se formos honestos connosco mesmos, havemos de nos lembrar que todos estamos doentes no coração, todos somos pecadores, todos necessitamos da misericórdia do Pai. Consequentemente deixaremos de nos dividir com base nos méritos, nas funções que desempenhamos ou em qualquer outro aspeto exterior da vida, e caem assim os muros interiores, caem os preconceitos, e por fim descobrimo-nos irmãos. Como nos recordou a primeira Leitura, o próprio sírio Naamã, apesar de ser rico e poderoso, para ficar curado teve de fazer uma coisa simples: mergulhar no rio onde se banhavam todos os outros. Antes de mais nada, teve que tirar a sua armadura, as suas vestes (cf. 2 Rs 5). Como nos faz bem tirar as nossas armaduras exteriores, as nossas barreiras defensivas e tomar um bom banho de humildade, recordando-nos de que todos somos frágeis por dentro, todos necessitados de cura, todos somos irmãos! Lembremo-nos disto: a fé cristã sempre nos pede para caminhar junto com os outros, para nunca sermos caminhantes solitários; convida-nos sempre a sairmos de nós próprios rumo a Deus e aos irmãos, sem nunca nos fecharmos em nós mesmos; sempre nos pede para nos reconhecermos necessitados de cura e perdão, e partilharmos as fragilidades de quem vive ao nosso redor, sem nos sentirmos superiores.

Irmãos e irmãs, verifiquemos se, na nossa vida, nas nossas famílias, nos nossos lugares de trabalho e de convivência diária, somos capazes de caminhar juntamente com os outros, somos capazes de ouvir, de superar a tentação de nos entrincheirarmos na nossa autorreferencialidade e pensarmos só nas nossas necessidades. Mas caminharmos juntos – por outras palavras, sermos «sinodais» – é também a vocação da Igreja. Interroguemo-nos até que ponto somos verdadeiramente comunidades abertas e inclusivas em relação a todos; se conseguimos trabalhar juntos, padres e leigos, ao serviço do Evangelho; se temos uma atitude acolhedora – feita não só de palavras, mas de gestos concretos – tanto para com os distantes como para com todos os que se aproximam de nós, sentindo-se inábeis por causa dos seus percursos de vida conturbada. Fazemo-los sentir parte da comunidade, ou excluímo-los? Tenho medo, quando vejo comunidades cristãs que dividem o mundo em bons e maus, em santos e pecadores: assim acaba-se por se sentir melhor que os outros e manter fora a muitos que Deus quer abraçar. Por favor, sempre havemos de incluir tanto na Igreja como na sociedade, ainda caraterizada por tantas desigualdades e marginalizações. Incluir todos. E hoje, dia em que Scalabrini se torna Santo, quero pensar nos migrantes. É escandalosa a exclusão dos migrantes! Mais, a exclusão dos migrantes é criminosa, fá-los morrer diante dos nossos olhos. E assim temos hoje o Mediterrâneo, que é o cemitério maior do mundo. A exclusão dos migrantes é repugnante, é pecaminosa, é criminosa. Não abrir as portas a quem precisa. «Não! Nós não os excluímos, mandamo-los embora»: para os campos de concentração, onde são explorados e vendidos como escravos. Irmãos e irmãs, hoje pensemos nos nossos migrantes, naqueles que morrem. E aqueles que conseguem entrar: recebemo-los como irmãos ou exploramo-los? Deixo apenas a pergunta…

O segundo aspeto é agradecer. No grupo dos dez leprosos, há apenas um que, ao ver-se curado, regressa para louvar a Deus e manifestar a sua gratidão a Jesus. Enquanto os outros nove ficam purificados mas prosseguem pelo seu caminho, esquecendo-se d’Aquele que os curou (esquecem a graça que Deus lhes dá), o samaritano faz do dom recebido o princípio dum novo caminho: regressa para junto de Quem o sarou, vai conhecer Jesus de perto e inicia uma relação com Ele. Assim, a sua atitude de gratidão não é um simples gesto de cortesia, mas o início dum percurso de gratidão: prostra-se aos pés de Cristo (cf. Lc 17, 16), isto é, faz um gesto de adoração, reconhecendo que Jesus é o Senhor e que é mais importante do que a cura recebida.

E esta, irmãos e irmãs, é uma grande lição também para nós, que todos os dias beneficiamos dos dons de Deus, mas frequentemente prosseguimos pela nossa estrada esquecendo-nos de cultivar uma relação viva, real com Ele. Trata-se duma grave doença espiritual: dar tudo como garantido, inclusive a fé, mesmo a nossa relação com Deus, a ponto de nos tornarmos cristãos que deixaram de saber maravilhar-se, já não sabem dizer «obrigado», não se mostram agradecidos, não sabem ver as maravilhas do Senhor. São «cristãos em água de rosas», como dizia uma senhora que conheci. E acaba-se, assim, por pensar que tudo o que recebemos diariamente seja óbvio e devido. Ao contrário, a gratidão, o saber dizer «obrigado» leva-nos a afirmar a presença de Deus-Amor e também a reconhecer a importância dos outros, vencendo o descontentamento e a indiferença que nos embrutecem o coração. É fundamental saber agradecer. Devemos diariamente dar graças ao Senhor, sabermos em cada dia agradecer uns aos outros: em família, por aquelas pequenas coisas que às vezes recebemos sem nos interrogar sequer donde provêm; nos locais que frequentamos quotidianamente, pelos inúmeros serviços de que usufruímos e pelas pessoas que nos apoiam; nas nossas comunidades cristãs, pelo amor de Deus que experimentamos através da proximidade de irmãos e irmãs que muitas vezes em silêncio rezam, oferecem, sofrem, caminham connosco. Por favor, não esqueçamos esta palavra-chave: obrigado! Não nos esqueçamos de sentir necessidade e dizer «obrigado»!

Os dois Santos, canonizados hoje, lembram-nos a importância de caminhar juntos e saber agradecer. O Bispo Scalabrini, que fundou duas Congregações para o cuidado dos migrantes, uma masculina e outra feminina, afirmava que, no caminhar comum daqueles que emigram, é preciso não ver só problemas, mas também um desígnio da Providência: «Precisamente por causa da migração forçada pelas perseguições – disse ele –, a Igreja superou as fronteiras de Jerusalém e de Israel e tornou-se “católica”; graças às migrações de hoje, a Igreja será instrumento de paz e comunhão entre os povos» (A emigração dos trabalhadores italianos, Ferrara 1899). Neste momento, aqui na Europa, há uma migração, que nos faz sofrer tanto e nos impele a abrir o coração: a migração de ucranianos que fogem da guerra. Não esqueçamos hoje a martirizada Ucrânia! Scalabrini olhava mais além, olhava lá para diante, para um mundo e uma Igreja sem barreiras, sem estrangeiros. Por sua vez, o irmão salesiano Artemide Zatti, com a sua bicicleta, foi um exemplo vivo de gratidão: curado da tuberculose, dedicou toda a sua vida a favorecer os outros, a cuidar com amor e ternura dos doentes. Conta-se que o viram carregar aos ombros o corpo morto dum dos seus doentes. Cheio de gratidão por tudo o que havia recebido, quis dizer o seu «obrigado» ocupando-se das feridas dos outros. Dois exemplos!

Rezemos para que estes nossos santos irmãos nos ajudem a caminhar juntos, sem muros de divisão; e a cultivar esta nobreza de alma tão agradável a Deus que é a gratidão. 

Papa Francisco
(Homilia da Santa Missa na canonização dos Beatos João Batista Scalabrini - Artemide Zatti, 9 de outubro de 2022)

Vaticano: Papa ofereceu Rosa de Ouro a Nossa Senhora de Fátima - Ecclesia


 

sábado, 4 de outubro de 2025

 DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM-2025-ANO C

As leituras de hoje levam-nos a refletir sobre o dom da fé. Desafiam-nos a questionarmo-nos sobre a forma como, pela fé, estamos (ou não) ao serviço da comunicação do Amor de Deus aos irmãos, ou àqueles de quem não gostamos nada mesmo, ou, porque não dizê-lo, àqueles por quem nutrimos algum sentimento muito pouco cristão (…), lá, em plena luta diária, onde nos movemos e existimos. Afinal, é o nosso Mestre e Senhor, que todo Se entrega no Amor, não somos nós, é Ele quem ama em nós, por isso, apenas nos cabe sermos bons cabos de transmissão, porque a fonte, para todos, é sempre e só Ele, que nunca falha.

Na 1ªleitura (Hab 1, 2-3; 2, 2-4vemos, como que num espelho, no agora do nosso tempo, reações tão semelhantes às do tempo do profeta, face aos problemas sociais, aos dramas humanos e às injustiças dos tempos de hoje. Mudámos imenso em tantos domínios, que nem dá para comparar, tal a distância de então para cá, mas continuamos seres humanos, frágeis, criados à imagem e semelhança de Deus. Continuamos à procura, muitas vezes sem o sabermos, do Único que pode responder às nossas questões, porque só Ele nos ama infinitamente, mesmos conhecendo-nos tal qual somos, na totalidade do nosso ser, até ao mais profundo de nós mesmos, mesmos nos recantos mais recônditos, até onde, por vezes, nem nós mesmos temos coragem de descer. Para que todos O conheçam assim, enamorado de cada um dos seus filhos queridíssimos, só temos de nos deixar amar por Ele. Quem não gosta de ser assim amado, sem qualquer limite?! Vale a pena confiar e pôr tudo nas Suas mãos!

«Até quando, Senhor, chamarei por Vós e não me ouvis? Até quando clamarei contra a violência e não me enviais a salvação? Porque me deixais ver a iniquidade e contemplar a injustiça? Diante de mim está a opressão e a violência, levantam-se contendas e reina a discórdia?» O Senhor respondeu-me: «Põe por escrito esta visão e grava-a em tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente. Embora esta visão só se realize na devida altura, ela há de cumprir-se com certeza e não falhará. Se parece demorar, deves esperá-la, porque ela há de vir e não tardará. Vede como sucumbe aquele que não tem alma reta; mas o justo viverá pela sua fidelidade».

Na 2ª leitura (2 Tim 1, 6-8.13-14S.Paulo, que fez da comunicação, do Amor infinito de Deus por cada ser humano, e por toda a humanidade, a razão de ser da sua vida, não podia, mais uma vez, deixar de nos situar na verdadeira fonte, que é Jesus Cristo, e de nos exortar a pedir ao Senhor que envie sobre nós o Seu Santo Espírito. Que Ele nos habite e nos inunde com a Sua Luz.

“Caríssimo: Exorto-te a que reanimes o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e moderação. Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro. Mas sofre comigo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus. Toma como norma as sãs palavras que me ouviste, segundo a fé e a caridade que temos em Jesus Cristo. Guarda a boa doutrina que nos foi confiada, com o auxílio do Espírito Santo, que habita em nós.”

No evangelho (Lc 17, 5-10) é o Senhor Jesus quem nos explica o que é ter fé e como esta é um dom, ao serviço de todos os que procuram Deus de coração sincero. E, olhando para tantos santos da Igreja (de ontem, mas também dos nossos tempos), de quem conhecemos alguns pedaços da sua história de vida, mas sobretudo do seu testemunho de fé, percebemos que, o que Jesus diz no evangelho, continua a ser possível nos dias de hoje. Ajuda-nos Senhor a sermos fiéis ao dom da fé que nos destes.

“Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé». O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia. Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’?. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’.”

Aumenta Senhor minha fé.

Prezados irmãos e irmãs!

É grande a minha alegria, por poder repartir convosco o pão da Palavra de Deus e da Eucaristia. Saúdo-vos a todos com carinho e agradeço o vosso caloroso acolhimento! (...)

Sei que em Palermo, como também em toda a Sicília, não faltam dificuldades, problemas e preocupações: penso, de modo particular, em quantos vivem concretamente a sua existência em condições de precariedade, por causa da falta de trabalho, da incerteza em relação ao futuro, do sofrimento físico e moral e, como recordou o Arcebispo, por causa da criminalidade organizada. Hoje encontro-me no meio de vós para dar testemunho da minha proximidade e da minha lembrança na oração. Estou aqui para vos transmitir um vigoroso encorajamento, a fim de que não tenhais medo de testemunhar com clareza os valores humanos e cristãos, tão profundamente arraigados na fé e na história deste território e da sua população.

Estimados irmãos e irmãs, cada assembleia litúrgica constitui um espaço da presença de Deus. Congregados para a Sagrada Eucaristia, os discípulos do Senhor estão imersos no sacrifício redentor de Cristo, proclamam que Ele ressuscitou, está vivo e é doador de vida, enquanto testemunham que a Sua presença é graça, força e alegria. Abramos o coração à Sua palavra e acolhamos o dom da Sua presença! Todos os textos da liturgia deste domingo nos falam da fé, que é o fundamento de toda a vida cristã. Jesus educou os seus discípulos para crescer na fé, acreditar e confiar cada vez mais n'Ele, a fim de edificar a própria vida sobre a rocha. Por isso, pedem-lhe: «Aumenta a nossa fé» (Lc 17, 6). É um belo pedido que eles dirigem ao Senhor, é o pedido fundamental: os discípulos não pedem dons materiais, nem privilégios, mas sim a graça da fé, que oriente e ilumine toda a vida; pedem a graça de reconhecer Deus e de poder estar em íntima relação com Ele, recebendo d'Ele todos os seus dons: coragem, amor e esperança, entre outros.

Sem responder diretamente à oração dos discípulos, Jesus recorre à imagem, paradoxal, da alavanca para expressar a incrível vitalidade da fé. Tal como uma alavanca move muito mais do que o seu próprio peso, assim também a fé, mesmo que seja em pequena medida, é capaz de realizar coisas impensáveis, extraordinárias, como arrancar uma árvore frondosa e transplantá-la no mar (cf. ibidem). A fé — confiar em Cristo, recebê-l'O, deixar que Ele nos transforme e segui-l'O incondicionalmente até ao fim — torna possível aquilo que humanamente é impossível, em todas as realidades. Dá testemunho disto também o profeta Habacuc, na primeira leitura. Ele faz uma oração de súplica ao Senhor, a partir de uma tremenda situação de violência, iniquidade e opressão; e é precisamente nesta situação difícil e de insegurança, que o profeta introduz uma visão que oferece um perfil do desígnio que Deus está a definir e a pôr em prática na história: «Eis que sucumbe aquele que não tem a alma reta, mas o justo viverá pela sua fidelidade» (Hab 2, 4). O ímpio é aquele que não age segundo Deus, que confia no próprio poder, apoiando-se porém sobre uma realidade frágil e inconsistente, e por isso irá sucumbir, está destinado a cair; quanto ao justo, este, pelo contrário, confia numa realidade escondida mas sólida, confia em Deus e por isso há de viver.

Nos séculos passados, a Igreja que está em Palermo foi enriquecida e animada por uma fé fervorosa, que encontrou a sua expressão mais elevada e bem sucedida nos Santos e Santas. Penso em Santa Rosalia, que vós venerais e honrais e que, do monte Pellegrino, vela sobre a vossa Cidade, da qual é Padroeira. E penso noutras duas grandes Santas da Sicília: Águeda e Lúcia. Também não se deve esquecer como o vosso sentido religioso sempre inspirou e orientou a vida familiar, alimentando valores como a capacidade de doação e de solidariedade ao próximo, especialmente àqueles que sofrem, e o respeito inato pela vida, que constituem uma herança preciosa a conservar ciosamente e a relançar ainda mais nos nossos dias. Caros amigos, conservai este tesouro de fé da vossa Igreja, que ele sempre vos oriente nas vossas escolhas e que as  vossas obras sejam  sempre repassadas pelos valores cristãos!

A segunda parte do Evangelho de hoje apresenta mais um ensinamento, um ensinamento de humildade, que todavia está intimamente ligado à fé. Jesus convida-nos a ser humildes e cita o exemplo de um servo que trabalha no campo. Quando volta para casa, o patrão pede-lhe que continue a trabalhar. Segundo a mentalidade da época de Jesus, o patrão tinha todo o direito de o fazer. O servo devia ao senhor uma disponibilidade completa e o senhor não se sentia seu devedor, por ele ter executado as ordens recebidas. Jesus faz-nos adquirir consciência de que, diante de Deus, estamos numa situação semelhante: somos servos de Deus, não somos credores no que se Lhe refere, mas somos sempre devedores, uma vez que Lhe devemos tudo , porque tudo é  dom de Deus. Aceitar e cumprir a Sua vontade é a atitude que devemos ter todos os dias, em cada momento da nossa vida. Diante de Deus, nunca devemos apresentar-nos como alguém que julga ter prestado um serviço e portanto merece uma grande recompensa. Trata-se de uma ilusão que todos podemos ter, até mesmo as pessoas que trabalham ao serviço do Senhor, na Igreja. Antes pelo contrário, devemos estar conscientes de que, na realidade, nunca fazemos o suficiente por Deus. Como Jesus nos sugere, temos que dizer: «Somos servos inúteis. Fizemos tudo o que devíamos fazer» (Lc 17, 10). É uma atitude de humildade que nos coloca verdadeiramente no nosso próprio lugar  e permite ao Senhor ser muito generoso connosco. Com efeito, num outro trecho do Evangelho, Ele promete-nos que «se cingirá, mandará que nos ponhamos à mesa e então passará a servir-nos» (cf. Lc 12, 37). Prezados amigos, se cumprirmos a vontade de Deus todos os dias com humildade, sem nada pretender d'Ele, é o próprio Jesus que nos servirá, nos ajudará e encorajará, dando-nos força e tranquilidade.

Também o Apóstolo Paulo, na segunda leitura hodierna, fala da fé. Timóteo é convidado a ter fé e, por meio dela, a exercer a caridade. O discípulo é exortado a reavivar na fé inclusive o dom de Deus que nele se encontra pela imposição das mãos de Paulo, ou seja, a dádiva da Ordenação, recebida para desempenhar o ministério apostólico como colaborador de Paulo (cf. 2 Tm 1, 6). Ele não pode deixar extinguir este dom, mas deve torná-lo cada vez mais vivo através da fé. E o Apóstolo acrescenta: «Pois Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de sabedoria» (v. 7).

Caros palermitanos e queridos sicilianos! A vossa bonita Ilha foi uma das primeiras regiões da Itália que recebeu a fé dos Apóstolos, acolheu o anúncio da Palavra de Deus, aderiu à fé de maneira tão generosa que, mesmo no meio de dificuldades e perseguições, nela sempre germinou a flor da santidade. A Sicília foi e é terra de santos, pertencentes a todas as condições de vida, que viveram o Evangelho com simplicidade e integridade. Fiéis leigos, repito-vos: não tenhais medo de viver e testemunhar a fé nos vários âmbitos da sociedade, nas múltiplas situações da existência humana, principalmente nas mais difíceis! A fé incute-vos a fortaleza de Deus para serdes sempre confiantes e corajosos, para progredirdes com renovada decisão e para tomardes as iniciativas necessárias para dar um rosto cada vez mais bonito à vossa terra. E quando encontrardes a oposição do mundo, ouvi as palavras do Apóstolo: «Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor» (v. 8). É necessário envergonhar-se do mal, daquilo que ofende a Deus e daquilo que ofende o homem; é preciso envergonhar-se do mal que se causa à comunidade civil e religiosa com ações que se procuram esconder! A tentação do desânimo e da resignação atinge quem é fraco na fé, quem confunde o mal com o bem, quem pensa que diante do mal, com frequência profundo, nada se pode fazer. No entanto, quem está solidamente fundamentado na fé, quem tem plena confiança em Deus e vive na Igreja, é capaz de anunciar a força transbordante do Evangelho. Foi assim que se comportaram os Santos e as Santas, florescidos ao longo dos séculos em Palermo e em toda a Sicília, como também leigos e sacerdotes de hoje, que vós conheceis muito bem, como por exemplo o Padre Pino Puglisi. Que eles vos conservem sempre unidos e alimentem em cada um o desejo de proclamar, com as palavras e as obras, a presença e o amor de Cristo. Povo da Sicília, olha com esperança para o teu futuro! Faz sobressair em toda a sua luz o bem que queres, que procuras e que tens! Vive com coragem os valores do Evangelho para fazer resplandecer a luz do bem! Com a força de Deus, tudo é possível! A Mãe de Cristo, a Virgem Odigitria que vós tanto venerais, vos assista e vos conduza ao profundo conhecimento do seu Filho!