Queridos irmãos e irmãs,
reunimo-nos neste lugar para celebrar a
comemoração de todos os fiéis defuntos, em particular aqueles que estão aqui
sepultados e, com carinho especial, os nossos entes queridos. Eles deixaram-nos
no dia da sua morte, mas trazemo-los sempre connosco na memória do coração. E
esta memória permanece viva, todos os dias, em tudo o que vivemos.
Frequentemente, encontramos algo que nos faz lembrar deles, imagens que nos
remetem para o que com eles vivemos. Tantos lugares, e até mesmo os aromas das
nossas casas, nos falam daqueles que amámos e que nos deixaram, mantendo viva
em nós a sua memória.
Porém, hoje não estamos aqui simplesmente
para lembrar aqueles que já partiram deste mundo. A fé cristã, fundada na
Páscoa de Cristo, ajuda-nos a viver a memória não apenas como uma lembrança do
passado, mas sobretudo como uma esperança futura. Não se trata tanto de olhar
para trás, trata-se antes de olhar para a frente, para a meta do nosso caminho,
para o porto seguro que Deus nos prometeu, para a festa sem fim que nos espera.
Lá, em torno do Senhor Ressuscitado e dos nossos, saborearemos a alegria do banquete
eterno. Naquele dia – ouvimos na leitura do profeta Isaías – «no monte Sião, o
Senhor do universo preparará para todos os povos um banquete de carnes gordas.
[…] Aniquilará a morte para sempre» (Is 25,
6.8).
Esta “esperança futura” anima a nossa memória
e a nossa oração no dia de hoje. Não se trata de uma ilusão que serve para
aplacar a dor da separação das pessoas amadas, nem de um simples otimismo
humano. É a esperança fundada na ressurreição de Jesus, que venceu a morte e
abriu, também a nós, a passagem para a plenitude da vida. Ele – como recordava
numa catequese recente – é «o ponto de chegada do nosso caminho. Sem o seu
amor, a viagem da vida tornar-se-ia um perambular sem meta, um erro trágico com
um destino fracassado. […] O Ressuscitado garante a meta, conduz-nos para casa,
onde somos esperados, amados, salvos» (Audiência Geral,
15 de outubro de 2025).
E esta meta final, o banquete em torno do
qual o Senhor nos reunirá, será um encontro de amor. Por amor, Deus nos criou;
no amor do seu Filho, Ele nos salva da morte; na alegria do amor com Ele e com
os nossos, Ele deseja que vivamos para sempre. Por isso mesmo, só quando
vivemos no amor e praticamos o amor uns para com os outros, em particular para
com os mais fracos e os mais pobres, caminhamos em direção à meta e
antecipamo-la, num vínculo inquebrantável com aqueles que nos precederam. Com
efeito, Jesus convida-nos com estas palavras: «Tive fome e destes-me de comer,
tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e
destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter
comigo» (Mt 25, 35-36).
A caridade vence a morte. Na caridade, Deus
reunir-nos-á com os nossos entes queridos. Se caminhamos na caridade, a nossa
vida torna-se uma oração que se eleva ao Céu e nos une aos defuntos,
aproxima-nos deles, esperando reencontrá-los na alegria da eternidade.
Queridos irmãos e irmãs, enquanto a dor da
ausência de quem já não está entre nós permanece gravada nos nossos corações,
confiemo-nos à esperança que não engana (cf. Rm 5,
5); olhemos para Cristo Ressuscitado e pensemos nos nossos falecidos revestidos
já da sua luz; deixemos ressoar em nós a promessa da vida eterna que o Senhor
nos faz. Ele aniquilará a morte para sempre. Ele a venceu para sempre, abrindo
uma passagem de vida eterna – isto é, fazendo Páscoa – no túnel da morte, para
que, unidos a Ele, também nós possamos entrar nele e atravessá-lo.
Ele espera por nós e, quando O encontrarmos, no final desta vida terrena, alegrar-nos-emos com Ele e com os nossos queridos que nos precederam. Que esta promessa nos sustente, enxugue as nossas lágrimas e volte o nosso olhar para a frente, para aquela esperança futura que não morre.
Papa Leão XIV
(Cemitério de Verona- Homilia da Santa Missa, 2 de novembro de 2025)
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