sábado, 3 de outubro de 2026

 DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM

Neste domingo a temática da vinha mantém-se, mas surge numa perspetiva diferente, pois o Senhor mostra-nos até onde vai o Seu amor pela vinha, que somos nós. Deus espera que O reconheçamos e a Ele nos entreguemos na totalidade do nosso ser, de forma a produzirmos “boas uvas”.

Na 1ªleitura (Is 5, 1-7) o profeta Isaías apresenta-nos O Senhor a cuidar com todo o carinho do Seu povo, que lhe responde com infidelidades e traições. 

“Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha. O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços. E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e a minha vinha: Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?” 

Como respondemos nós, hoje,  ao Amor que Deus nos tem?

Para que não tenhamos dúvidas, S. Paulo, na 2ªleitura (Filip 4, 6-9)  diz-nos o que se espera de nós, como resposta ao Amor de Deus. Escutemo-lo de coração sincero e façamos o que nos propõe. 

“Irmãos: Não vos inquieteis com coisa alguma. Mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim é o que deveis praticar. E o Deus da paz estará convosco.”

No Evangelho (Mt 21, 33-43) é próprio Jesus que nos conta uma nova parábola sobre a vinha. E nela fala-nos do profundo amor de Deus por todos os homens, a ponto de enviar o Seu próprio Filho pela salvação da humanidade. Quanto nos amas Senhor! Ninguém pode ficar indiferente perante a manifestação do Amor de Deus! 

“Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».”

Senhor, que eu me deixe amar por Ti, na totalidade do meu ser.

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje o Evangelho apresenta-nos uma parábola dramática, com um epílogo triste (cf. Mt 21, 33-43). O proprietário de um terreno plantou ali uma vinha e cuidou bem dela; depois, tendo de partir, confia-a a alguns camponeses. Na altura da colheita, manda os seus servos fazer a colheita. Mas os camponeses maltratam-nos e matam-nos; depois o dono manda o seu filho, e também o matam. Porquê? O que é que correu mal? Há uma mensagem de Jesus nesta parábola.

O dono faz tudo bem, com amor: trabalha ele próprio, planta a vinha, rodeia-a com uma sebe para a proteger, cava um buraco para o lagar e constrói uma torre de vigia (cf. v. 33). Em seguida, confia a vinha a agricultores, alugando-lhes a sua preciosa propriedade e tratando-os assim com equidade, para que a vinha seja bem cultivada e dê fruto. Tendo em conta estas premissas, a vindima deveria terminar de forma feliz, num ambiente de festa, com uma partilha justa da colheita, para satisfação de todos.

Em vez disso, pensamentos ingratos e ávidos insinuaram-se no espírito dos agricultores. Vede que, na origem dos conflitos, há sempre pensamentos de ingratidão e de avidez, de posse imediata de coisas. “Não precisamos de dar nada ao patrão. O produto do nosso trabalho é só nosso. Não temos de prestar contas a ninguém”! Assim é o discurso desses trabalhadores. E isso não é verdade: deviam estar gratos pelo que receberam e pela forma como foram tratados. Pelo contrário, a ingratidão alimenta a avidez e cresce neles um progressivo sentimento de revolta, que os leva a ver a realidade de uma forma distorcida, a sentirem-se em crédito e não em dívida para com o dono que lhes deu trabalho. Quando veem o filho, chegam até a dizer: «Este é o herdeiro. Matemo-lo, e ficaremos com a sua herança»! (v. 38). E, de agricultores, tornam-se assassinos. É tudo um processo. E este processo acontece muitas vezes no coração das pessoas, também no nosso coração.

Com esta parábola, Jesus recorda-nos o que acontece quando o homem se ilude é autossuficiente e esquece a gratidão, esquece a realidade fundamental da vida: que o bem vem da graça de Deus, que o bem vem do seu dom gratuito. Quando se esquece disto, da gratuidade de Deus, acaba por viver a própria condição e a própria limitação já não com a alegria de se sentir amado e salvo, mas com a triste ilusão de não precisar nem de amor nem de salvação. Não nos deixamos amar e ficamos prisioneiros da própria avidez, prisioneiros da necessidade de ter algo mais do que os outros, de querer sobressair sobre os outros. É feio, este processo, e acontece-nos muitas vezes. Pensemos seriamente nisto. Daí nascem tantas insatisfações e recriminações, tantas incompreensões e tanta inveja; e, movidos pelo ressentimento, podemos precipitar-nos no vórtice da violência. Sim, queridos irmãos e irmãs, a ingratidão gera violência, tira-nos a paz e faz-nos ouvir e falar aos gritos, sem paz, enquanto um simples “obrigado” pode trazer a paz!

Perguntemo-nos então: tenho consciência de que recebi a vida e a fé como um dom? Apercebo-me de que eu mesmo, eu mesma sou um dom? Tenho consciência de que tudo começa com a graça do Senhor? Apercebo-me de que sou beneficiado sem mérito, amado e salvo gratuitamente? E, sobretudo, em resposta à graça, sei dizer “obrigado”? Sei dizer “obrigado”? As três palavras que são o segredo da convivência humana: obrigado, com licença, perdão. Será que sei dizer estas três palavras? Obrigado, com licença, perdão, desculpa. Sei como dizer estas três palavras? É uma pequena palavra, “obrigado” - é uma pequena palavra, “com licença”, é uma pequena palavra, “perdão” - esperada todos os dias de Deus e dos irmãos. Perguntemo-nos se esta pequena palavra, “obrigado”, “com licença”, “perdão, desculpa”, está presente na nossa vida. Sei agradecer, sei dizer “obrigado”? Sei pedir desculpa, perdão? Sei como não ser intrusivo – “com licença”? Obrigado, perdão, com licença.

Que Maria, cuja alma enaltece o Senhor, nos ajude a fazer da gratidão a luz que nasce todos os dias do coração.

Papa Francisco
(Angelus , 8 de outubro de 2023)