sábado, 18 de abril de 2026

 DOMINGO III DA  PÁSCOA

Continuamos, com as leituras de hoje, a viver o grande Dia da Páscoa de Jesus Ressuscitado. Ao escutar a Palavra proclamada  neste domingo, há um denominador comum a todas as leituras, o anúncio de que Jesus ressuscitou, está vivo e continua "nosso companheiro" em todos os caminhos e encruzilhadas da vida.

Na 1ª leitura (Atos 2, 14.22-33) ficamos espantados com a coragem desassombrada de Pedro ao anunciar Jesus Ressuscitado. É impressionante a ação de Deus num coração que todo se Lhe entrega. A transformação em Pedro é total. Hoje, S.Pedro através das Escrituras, quando recorre a David, abre-nos o caminho para Deus:  não há nada, nem ninguém que nos possa afastar do Amor de Deus, manifestado em Jesus Ressuscitado. Entreguemo-nos de alma e coração, com tudo, mas mesmo tudo, por pior que nos sintamos, pois Ele está vivo, caminha connosco.

“No dia de Pentecostes, Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: «Homens da Judeia e vós todos que habitais em Jerusalém, compreendei o que está a acontecer e ouvi as minhas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem acreditado por Deus junto de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio, como sabeis. Depois de entregue, segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós destes-Lhe a morte, cravando-O na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-O, livrando-O dos laços da morte, porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio. Diz David a seu respeito: ‘O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção. Destes-me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em vossa presença’. Irmãos, seja-me permitido falar-vos com toda a liberdade: o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo encontra-se ainda hoje entre nós. Mas, como era profeta e sabia que Deus lhe prometera sob juramento que um descendente do seu sangue havia de sentar-se no seu trono, viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo, dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos, nem a sua carne conheceu a corrupção. Foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos nós somos testemunhas. Tendo sido exaltado pelo poder de Deus, recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo, que Ele derramou, como vedes e ouvis».

Na 2ªleitura (1 Pedro 1, 17-21) S.Pedro continua a sua evangelização e anúncio do Senhor Ressuscitado, penhor e garantia da nossa salvação. É em Jesus, morto e ressuscitado, que está vivo e caminha connosco, no dia a dia da vida, que está o fundamento da nossa fé.

“Caríssimos: Se invocais como Pai Aquele que, sem aceção de pessoas, julga cada um segundo as suas obras, vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo. Lembrai-vos que não foi por coisas corruptíveis, como prata e oiro, que fostes resgatados da vã maneira de viver, herdada dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo, Cordeiro sem defeito e sem mancha, predestinado antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por vossa causa. Por Ele acreditais em Deus, que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória, para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.”

No evangelho (Lc 24, 13-35) somos convidados a colocarmo-nos no papel de cada um daqueles discípulos, mas no dia a dia da nossa vida, deixando que Jesus nos vá explicando o sentido das escrituras, como fez com eles. Às vezes o nosso coração anda demasiado atarefado “com muitas coisas” e não O reconhece, mas Ele, caminha connosco, pelas estradas da vida, repartindo o pão. Deixemos que o nosso coração “arda cá dentro” quando O escutamos e estejamos atentos aos sinais, pois Ele continua a “partir o pão” com todos os que fazem parte da nossa vida e O procuram de coração sincero. 

“Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?». Pararam, com ar muito triste, e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou estes dias». E Ele perguntou: «Que foi?». Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: «Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?». Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante. Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.”

Senhor, eu te louvo e bendigo pelo dom da Eucaristia. Mil graças Senhor.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje gostaria de vos convidar a refletir sobre um aspeto surpreendente da Ressurreição de Cristo: a sua humildade. Se repensarmos nas narrações evangélicas, damo-nos conta de que o Senhor ressuscitado não faz nada de espetacular para se impor à fé dos seus discípulos. Não se apresenta circundado de plêiades de anjos, não faz gestos sensacionais, não pronuncia discursos solenes para revelar os segredos do universo. Pelo contrário, aproxima-se discretamente, como um viandante qualquer, como um homem faminto que pede para compartilhar um pouco de pão (cf. Lc 24, 15.41).

Maria de Magdala confunde-o com um jardineiro (cf. Jo 20, 15). Os discípulos de Emaús acreditam que se trata de um forasteiro (cf. Lc 24, 18). Pedro e os demais pescadores pensam que é um simples transeunte (cf. Jo 21, 4). Nós teríamos esperado efeitos especiais, sinais de poder, provas esmagadoras. Mas o Senhor não procura isto: prefere a linguagem da proximidade, da normalidade, da mesa compartilhada.

Irmãos e irmãs, nisto há uma mensagem preciosa: a Ressurreição não é um golpe de teatro, é uma transformação silenciosa que enche de sentido cada gesto humano. Jesus ressuscitado come uma porção de peixe diante dos seus discípulos: não é um detalhe marginal, é a confirmação de que o nosso corpo, a nossa história, as nossas relações não são um embrulho a descartar. Estão destinados à plenitude da vida. Ressuscitar não significa tornar-se espírito evanescente, mas entrar numa comunhão mais profunda com Deus e com os irmãos, numa humanidade transfigurada pelo amor.

Na Páscoa de Cristo, tudo pode tornar-se graça. Até as coisas mais simples: comer, trabalhar, esperar, cuidar da casa, apoiar um amigo. A Ressurreição não subtrai vida ao tempo e ao esforço, mas transforma o seu sentido e “sabor”. Cada gesto feito com gratidão e na comunhão antecipa o Reino de Deus.

No entanto, existe um obstáculo que muitas vezes nos impede de reconhecer esta presença de Cristo na vida diária: a pretensão de que a alegria deve ser desprovida de feridas. Os discípulos de Emaús caminham tristes porque esperavam outro final, um Messias que não conhecesse a cruz. Não obstante tenham ouvido dizer que o sepulcro está vazio, não conseguem sorrir. Mas Jesus põe-se ao lado deles, ajudando-os pacientemente a compreender que a dor não é a negação da promessa, mas o caminho ao longo do qual Deus manifestou a medida do seu amor (cf. Lc 24, 13-27).

Quando finalmente se sentam à mesa com Ele e partem o pão, abrem-se-lhes os olhos. E sentem que o seu coração já ardia, embora não o soubessem (cf. Lc 24, 28-32). Esta é a maior surpresa: descobrir que, sob as cinzas do desencanto e do cansaço, há sempre uma brasa viva, que só espera ser reavivada.

Irmãos e irmãs, a Ressurreição de Cristo ensina-nos que não há história tão marcada pela desilusão ou pelo pecado que não possa ser visitada pela esperança. Nenhuma queda é definitiva, nenhuma noite é eterna, nenhuma ferida está destinada a permanecer aberta para sempre. Por mais distantes, confusos ou indignos que nos possamos sentir, não há distância que possa extinguir a força infalível do amor de Deus.

Às vezes, pensamos que o Senhor só nos vem visitar nos momentos de recolhimento ou de fervor espiritual, quando nos sentimos à altura, quando a nossa vida parece ordenada e luminosa. Pelo contrário, o Ressuscitado aproxima-se precisamente nos lugares mais obscuros: nos nossos fracassos, nas relações desgastadas, nos trabalhos diários que pesam sobre os nossos ombros, nas dúvidas que nos desencorajam. Nada do que somos, nenhum fragmento da nossa existência lhe é alheio.

Hoje, o Senhor ressuscitado põe-se ao lado de cada um de nós, precisamente enquanto percorremos os nossos caminhos - do trabalho e do compromisso, mas também do sofrimento e da solidão - e, com delicadeza infinita, pede-nos que deixemos aquecer o coração. Não se impõe com clamor, não pretende ser reconhecido imediatamente. Com paciência, espera o momento em que os nossos olhos se abrirão para vislumbrar o seu rosto amigo, capaz de transformar a desilusão em espera confiante, a tristeza em gratidão, a resignação em esperança.

O Ressuscitado só quer manifestar a sua presença, tornar-se nosso companheiro de caminho e acender em nós a certeza de que a sua vida é mais forte do que qualquer morte. Então, peçamos a graça de reconhecer a sua presença humilde e discreta, de não pretender uma vida sem provações, de descobrir que cada dor, se for habitada pelo amor, pode tornar-se lugar de comunhão.

E assim, como os discípulos de Emaús, também nós voltaremos para casa com um coração que arde de alegria. Uma alegria simples, que não elimina as feridas, mas que as ilumina. Uma alegria que nasce da certeza de que o Senhor está vivo e caminha ao nosso lado, oferecendo-nos em cada instante a possibilidade de recomeçar.

Papa Leão XIV
(Audiência Geral - 8 de outubro de 2025)

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