Queridos
irmãos e irmãs
Esta tarde, juntamente com Maria, a
Mãe de Jesus, estamos reunidos em oração, tal como costumava fazer a Igreja
primitiva de Jerusalém (cf. Act 1,
14).
Todos juntos, perseverantes e concordes, não nos cansamos de interceder pela
paz, dom de Deus que deve tornar-se nossa conquista e nosso compromisso.
Autêntica espiritualidade mariana
Neste Jubileu da espiritualidade
mariana, o nosso olhar de cristãos busca na Virgem Maria a guia para a nossa
peregrinação na esperança, contemplando as suas virtudes humanas e evangélicas,
cuja imitação constitui a mais autêntica devoção mariana (cf. Conc. Ecum. Vaticano II,
Const. dogm. Lumen gentium, 65.67).
Como Ela, a primeira entre os fiéis, queremos ser o ventre que acolhe o
Altíssimo, «tenda humilde do Verbo, movida apenas pelo sopro do Espírito» (S. João Paulo II, Angelus,
15 de agosto de 1988). Como Ela, a primeira discípula,
suplicamos o dom de um coração que escuta e se torna fragmento de um universo
que acolhe. Por meio d’Ela, Mulher dolorosa, forte, fiel, rogamos que nos
conceda o dom da compaixão para com cada irmão e irmã que sofre e para com
todas as criaturas.
Olhemos para a Mãe de Jesus e para
aquele pequeno grupo de mulheres corajosas que estão junto à Cruz a fim de que
também nós aprendamos a permanecer, do mesmo modo que elas, junto às infinitas
cruzes do mundo, onde Cristo ainda está crucificado nos seus irmãos, para
levar-lhes conforto, comunhão e ajuda. Reconhecemo-nos n’Ela, que é irmã da
humanidade e dizemos-lhe, com as palavras de um poeta:
«Mãe, vós sois cada mulher que ama;
Mãe, vós sois cada mãe que chora
um filho morto, um filho traído.
Esses filhos que nunca cessam de serem mortos» (D. M. Turoldo).
À vossa proteção recorremos, Virgem
da Páscoa, junto com todos aqueles em quem continua a realizar-se a paixão do
vosso Filho.
Fazei o que Ele vos disser
No Jubileu da espiritualidade
mariana, a nossa esperança é iluminada pela luz suave e perseverante das
palavras de Maria que o Evangelho nos transmite. E, entre todas, são preciosas
as últimas pronunciadas nas bodas de Caná, quando, indicando Jesus, Ela diz aos
serventes: «Fazei o que Ele vos disser!» (Jo 2,
5).
Depois disso, não voltará a falar. Portanto, estas palavras, que são quase um
testamento, devem ser muito estimadas pelos filhos, como qualquer testamento de
uma mãe.
Tudo o que Ele vos disser.
Ela tem a certeza de que o Filho falará, pois a Sua Palavra não terminou e
ainda cria, gera, opera, enche o mundo de primaveras e as ânforas da festa de
vinho. Maria, como um sinal que indica o caminho, orienta para além de si
mesma, mostra que o ponto de chegada é o Senhor Jesus e a sua Palavra, o centro
para o qual tudo converge, o eixo em torno do qual giram o tempo e a
eternidade.
Obedecei à Sua Palavra, recomenda.
Realizai o Evangelho, transformai-o em gesto e corpo, sangue e carne,
esforço e sorriso. Realizai o Evangelho, e a vida transformar-se-á,
de vazia em plena, de apagada em acesa.
Fazei tudo o que Ele vos disser:
todo o Evangelho, a palavra exigente, a carícia consoladora, a repreensão e o
abraço. O que compreendeis e também o que não compreendeis. Maria exorta-nos a
ser como os profetas: a não deixar que nenhuma das suas palavras se perca em
vão (cf. 1
Sm 3, 19).
E entre as palavras de Jesus que
queremos que não caiam no esquecimento, uma ressoa de modo particular hoje,
nesta vigília de oração pela paz: aquela que dirigiu a Pedro no horto das
oliveiras: «Mete a espada na bainha» (cf. Jo 18,
11).
Desarma as mãos, mas sobretudo o coração. Como já tive a oportunidade de
recordar noutras ocasiões, a paz é desarmada e desarmante. Não é dissuasão, mas
fraternidade; não é ultimato, mas diálogo. Não virá como fruto de vitórias
sobre o inimigo, mas como resultado da disseminação da justiça e do perdão
corajoso.
Mete a espada na bainha é
uma palavra dirigida aos poderosos do mundo, aos que conduzem o destino dos
povos: tende a audácia do desarmamento! Ao mesmo tempo, é dirigida a cada
um de nós, para nos tornar cada vez mais conscientes de que não podemos matar
por nenhuma ideia, fé ou política. O primeiro a ser desarmado é o coração,
porque se não há paz em nós, não daremos paz.
Entre vós não seja assim
Ouçamos ainda o Senhor Jesus: os
grandes deste mundo constroem impérios com poder e dinheiro (cf. Mt 20,
25; Mc 10, 42), «convosco, não deve ser assim» (Lc 22, 26).
Deus não faz desse modo: o Mestre não tem tronos, mas cinge-se com uma toalha e
ajoelha-se aos pés de cada um. O Seu império é aquele pequeno espaço suficiente
para lavar os pés dos seus amigos e cuidar deles.
É também o convite a adotar uma
perspetiva diferente, a fim de observar o mundo a partir de baixo, com os olhos
de quem sofre, e não com a ótica dos grandes; considerar a história sob o
prisma dos pequenos, e não com o dos poderosos; interpretar os acontecimentos
da história a partir do ponto de vista da viúva, do órfão, do estrangeiro, da
criança ferida, do exilado, do fugitivo. Com o olhar de quem naufraga, do pobre
Lázaro, jogado à porta do rico epulão. Caso contrário, nada nunca mudará, e não
surgirá um tempo novo, um reino de justiça e paz.
Assim faz também a Virgem Maria no
cântico do Magnificat, quando fixa o seu olhar nas fraturas que
marcam a humanidade, onde ocorre a distorção do mundo no contraste entre
humildes e poderosos, entre pobres e ricos, entre saciados e famintos. E
escolhe os pequenos, permanece ao lado dos últimos da história, para nos
ensinar a imaginar e, com Ela, sonhar novos céus e uma nova terra.
Felizes sois vós
Fazei tudo o que Ele vos disser. E
nós comprometemo-nos a fazer nossa carne e paixão, história e ação, a grande
palavra do Senhor: «Felizes os pacificadores» (cf. Mt 5, 9).
Felizes sois vós: Deus
dá alegria àqueles que produzem amor no mundo, alegria àqueles que, em vez de
vencer o inimigo, preferem a paz com ele.
Coragem, sigam em frente,
vós que criais as condições para um futuro de paz, na justiça e no perdão; sede
mansos e determinados, não desanimeis. A paz é um caminho e Deus caminha
convosco. O Senhor cria e difunde a paz através dos seus amigos pacificados no
coração, que se tornam, por sua vez, pacificadores, instrumentos da Sua paz.
Reunimo-nos esta tarde em oração em
torno de Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, como os primeiros discípulos no
cenáculo. A ela, mulher profundamente pacificada, rainha da paz, nos dirigimos:
Rezai connosco, Mulher fiel, ventre sagrado do Verbo.
Ensinai-nos a ouvir o clamor dos pobres e da mãe Terra,
atentos aos apelos do Espírito no segredo do coração,
na vida dos irmãos, nos acontecimentos da história,
no gemido e no júbilo da criação.
Santa Maria, mãe dos viventes,
mulher forte, dolorosa, fiel,
Virgem esposa junto à Cruz
onde se consuma o amor e brota a vida,
sede Vós a guia do nosso compromisso em servir.
Ensinai-nos a permanecer convosco junto às infinitas
cruzes
onde o vosso Filho ainda está crucificado,
onde a vida está mais ameaçada;
a viver e testemunhar o amor cristão
acolhendo em cada homem um irmão;
a renunciar ao egoísmo opaco
para seguir Cristo, verdadeira luz do homem.
Virgem da paz, porta de esperança segura,
Aceitai a oração dos vossos filhos!

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