sábado, 5 de setembro de 2026
sábado, 29 de agosto de 2026
DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM
A liturgia de hoje faz-nos, mais do que um convite, propõe-nos um desafio: ouvirmos o chamamento de Jesus e deixarmo-nos encantar, seduzir, pelo Senhor, pelo Seu amor infinito por cada um de nós.
Na 1ªleitura (Jer 20, 7-9) Jeremias mostra-nos que não é fácil viver uma vida toda entregue a Deus, mas que, quando deixamos que o Seu Amor nos preencha, por inteiro, então é Ele que em nós se dá e se comunica amorosamente, em todos os momentos, “bons” e “maus”. Façamos como Jeremias, deixemo-nos seduzir pelo Senhor!
“Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; Vós me dominastes e vencestes. Em todo o tempo sou objeto de escárnio, toda a gente se ri de mim; porque sempre que falo é para gritar e proclamar: «Violência e ruína!». E a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias. Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele, não falarei mais em seu nome». Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia.”
A
2ªleitura (Rom 12, 1-2) vem na sequência do que nos
dizia Jeremias , na leitura anterior, pois S.Paulo indica-nos o caminho a
seguir, como cristãos, ou seja, como os que se deixam seduzir pelo Senhor.
“Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito.
No evangelho (Mt 16, 21-27) é o próprio Jesus que nos desafia a vivermos d’Ele, para n’Ele assumirmos a nossa resposta de amor ao Pai. Deixemo-nos seduzir por Jesus, pois, para mim, só n’Ele é possível viver o Amor e da cruz fazer árvore de vida!
“Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!». Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens». Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».”
Senhor, que eu me deixe seduzir por
Ti; Senhor, que eu nunca duvide do Teu Amor.
Queridos
irmãos e irmãs, bom dia!
O trecho
evangélico hodierno (cf. Mt 16, 21-27) é a continuação do de
domingo passado, no qual se realçava a profissão de fé de Pedro, “rocha” sobre
a qual Jesus quer construir a sua Igreja. Hoje, em estridente contraste, Mateus
mostra-nos a reação do próprio Pedro quando Jesus revela aos discípulos que
deverá padecer em Jerusalém, ser assassinado, ressuscitar (cf. v. 21). Pedro
chamou de parte o Mestre e repreende-o, porque isto — diz-lhe — não poderá
acontecer com Ele, com Cristo. Mas Jesus, por sua vez, repreende Pedro com
palavras duras: «Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; os teus
pensamentos não são de Deus, mas dos homens!» (v. 23). Pouco antes, o apóstolo
tinha sido abençoado pelo Pai, tinha recebido d’Ele aquela revelação, era uma
«pedra» sólida a fim de que Jesus pudesse construir sobre ela a sua comunidade;
e logo a seguir torna-se um obstáculo, uma pedra mas não para construir, uma
pedra de tropeço no caminho do Messias. Jesus sabe bem que Pedro e os outros
têm ainda muita estrada a percorrer para se tornarem seus apóstolos!
Neste ponto, o
Mestre dirige-se a todos os que o seguiam, apresentando-lhes com clareza o
caminho que devem percorrer: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo,
carregue a sua cruz e siga-me» (v. 24). Também hoje, há a tentação de querer
sempre seguir um Cristo sem cruz, aliás, de ensinar a Deus a estrada certa,
como fez Pedro: “Não, não Senhor, isto não, nunca acontecerá”. Mas Jesus
recorda-nos que o seu caminho é o do amor, e não há amor verdadeiro sem o
sacrifício de si mesmo. Somos chamados a não nos deixarmos absorver pela visão
deste mundo, mas a estar cada vez mais cientes da necessidade e da fadiga para
nós cristãos de caminhar contracorrente e em subida.
Jesus
contempla a sua proposta com palavras que exprimem uma grande sabedoria sempre
válida, porque desafiam a mentalidade e os comportamentos egocêntricos. Ele
exorta: «Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver
sacrificado a sua vida por minha causa, recuperá-la-á» (v. 25). Neste paradoxo
está contida a regra de ouro que Deus inscreveu na natureza humana criada em
Cristo: a regra que só o amor dá sentido e felicidade à vida. Dedicar os
próprios talentos, as próprias energias e o próprio tempo só para salvar,
proteger e realizar-se a si mesmos, leva na realidade a perder-se, ou seja, a
uma existência triste e estéril. Ao contrário, vivamos pelo Senhor e
construamos a nossa vida no amor, como fez Jesus: poderemos saborear a alegria
autêntica, e a nossa vida não será estéril, será fecunda.
Na celebração
da Eucaristia revivemos o mistério da cruz; não só recordamos, mas
compreendemos o memorial do Sacrifício redentor, em que o Filho de Deus se
perde completamente a Si mesmo para se receber de novo do Pai e assim nos
reecontrar, a nós que estávamos perdidos, juntamente com todas as criaturas.
Todas as vezes que participamos na Santa Missa, o amor de Cristo crucificado e
ressuscitado comunica-se a nós como alimento e bebida, para que possamos
segui-Lo no caminho de cada dia, no serviço concreto dos irmãos.
Maria
Santíssima, que seguiu Jesus até ao Calvário, nos acompanhe também a nós e nos
ajude a não ter medo da cruz, mas com Jesus crucificado, e não uma cruz sem
Jesus, a cruz com Jesus, ou seja, a cruz de sofrer por amor de Deus e dos
irmãos, porque esse sofrimento, pela graça de Cristo, é fecundo de
ressurreição.
sábado, 22 de agosto de 2026
DOMINGO XXI DO TEMPO COMUM
As leituras de hoje centram-nos em duas realidades
fundamentais da nossa fé: Jesus Cristo e a Igreja. Somos convidados a viver
numa Igreja, centrada em Jesus Cristo, em que cada um tem a sua missão, estando esta sempre ao serviço da transmissão do Amor de Deus numa perspetiva de entrega e
ajuda concreta a todo aquele que o Senhor coloca nos nossos caminhos.
Na 1ªleitura (Is 22, 19-23) as chaves “do poder” são entregues a Eliacim,
que personifica Pedro, que vamos encontrar no evangelho. Ajuda-nos a
percecionar que o poder é serviço de Amor, de comunhão e de relação total com
Deus. Só assim valerá a pena servir, “ter o poder”, pois só o Amor de Deus
preenche o coração de cada ser por Ele criado, tudo o mais é falível e
efémero.
“Eis o que diz o Senhor a Chebna, administrador do
palácio: «Vou expulsar-te do teu cargo, remover-te do teu posto. E nesse mesmo
dia chamarei o meu servo Eliacim, filho de Elcias. Hei de revesti-lo com a tua
túnica, hei de pôr-lhe à cintura a tua faixa, entregar-lhe nas mãos os teus
poderes. E ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de
Judá. Porei aos seus ombros a chave da casa de David: há de abrir, sem que
ninguém possa fechar; há de fechar, sem que ninguém possa abrir. Fixá-lo-ei como
uma estaca em lugar firme e ele será um trono de glória para a casa de seu
pai».”
Na 2ª leitura (Rom 11, 33-36) S.Paulo, mais uma vez, leva-nos a contemplar
Deus através de um hino lindíssimo. Acompanhemos S.Paulo neste
poema-oração.
“Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de
Deus! Como são insondáveis os seus desígnios e incompreensíveis os seus
caminhos! Quem conheceu o pensamento do Senhor? Quem foi o seu conselheiro?
Quem Lhe deu primeiro, para que tenha de receber retribuição? D’Ele, por Ele e
para Ele são todas as coisas. Glória a Deus para sempre. Ámen.”
O Evangelho (Mt 16, 13-20) convida-nos a escutar Jesus, a olhar bem para o
mais íntimo do nosso ser e a responder, em verdade, às questões que nos põe:
quem dizes tu que Eu sou?; o que represento Eu na tua vida?; que testemunho dás
tu de Mim, no concreto do teu dia a dia?
“Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de
Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do
homem?». Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias,
outros que é Jeremias ou algum dos profetas». Jesus perguntou: «E vós, quem
dizeis que Eu sou?». Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o
Messias, o Filho de Deus vivo». Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho
de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai
que está nos Céus. Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei
a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as
chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e
tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus». Então, Jesus ordenou
aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias.”
Eu
creio Senhor que é Jesus, o Filho de Deus Vivo, que ressuscitou dos mortos e
vives em cada um de nós!
Amados
irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, no
Evangelho (cf. Mt 16,
13-20),
Jesus faz uma boa pergunta aos discípulos: «Quem dizeis que é o Filho do
homem?» (v. 13).
É uma pergunta
que também podemos fazer a nós próprios: o que dizem as pessoas de Jesus?
Geralmente coisas positivas: muitos vêem-no como um grande mestre, como uma
pessoa especial: boa, justa, coerente, corajosa... Mas será isto suficiente
para compreender quem é e, sobretudo, será suficiente para Jesus? Parece que
não. Se Ele fosse apenas uma figura do passado - como as figuras mencionadas no
mesmo Evangelho, João Batista, Moisés, Elias e os grandes profetas eram para as
pessoas da época - seria apenas uma bela recordação de um tempo passado. E isso
não agrada a Jesus. Portanto, logo a seguir, o Senhor faz aos discípulos a
pergunta decisiva: «Mas vós - vós! - quem dizeis que eu sou?» (v. 15).
Quem sou eu para vós agora? Jesus não quer ser um protagonista da história, mas
quer ser protagonista do teu hoje, do meu hoje; não um profeta distante: Jesus
quer ser o Deus próximo!
Cristo, irmãos
e irmãs, não é uma memória do passado, mas o Deus do presente. Se fosse apenas
uma figura histórica, imitá-lo hoje seria impossível: encontrar-nos-íamos
perante a grande vala do tempo e, sobretudo, perante o seu modelo, que é como
uma montanha muito alta e inalcançável; desejosos de a escalar, mas desprovidos
da capacidade e dos meios necessários. Em vez disso, Jesus está vivo:
recordemo-lo, Jesus está vivo, Jesus vive na Igreja, vive no mundo, Jesus
acompanha-nos, Jesus está ao nosso lado, oferece-nos a sua Palavra, oferece-nos
a sua graça, que iluminam e restabelecem no caminho: Ele, guia experiente e
sábio, está feliz por nos acompanhar nos caminhos mais difíceis e nas subidas
mais árduas.
Queridos
irmãos e irmãs, no caminho da vida não estamos sozinhos, porque Cristo está
connosco, Cristo ajuda-nos a caminhar, como fez com Pedro e com os outros
discípulos. É precisamente Pedro, no Evangelho de hoje, que compreende isto e,
por graça, reconhece em Jesus «o Cristo, o Filho de Deus vivo» (v. 16):
«Tu és o Cristo, Tu és o Filho de Deus vivo», diz Pedro; não é um personagem do
passado, mas o Cristo, isto é, o Messias, aquele que é esperado; não um herói
morto, mas o Filho de Deus vivo, feito homem e vindo partilhar as alegrias e as
fadigas do nosso caminho. Não desanimemos se por vezes o cume da vida cristã
parecer demasiado alto e o caminho demasiado íngreme. Olhemos para Jesus,
sempre; olhemos para Jesus que caminha ao nosso lado, que acolhe as nossas
fragilidades, partilha os nossos esforços e apoia o seu braço firme e suave
sobre os nossos ombros fracos. Com Ele ao nosso lado, estendamos também a mão
uns aos outros e renovemos a confiança: com Jesus, o que parece impossível por
nós próprios já não é impossível, com Jesus podemos ir em frente!
Hoje,
far-nos-á bem repetir a pergunta decisiva que sai da sua boca: «Quem dizeis que
eu sou?» (cf. v. 15).
Tu - diz-te Jesus - tu, quem dizes que eu sou? Ouvimos a voz de Jesus a
perguntar-nos isto. Por outras palavras: quem é Jesus para mim? Um grande
personagem, um ponto de referência, um modelo inatingível? Ou é o Filho de
Deus, que caminha ao meu lado, que me pode levar ao cume da santidade, onde não
posso chegar sozinho? Jesus está realmente vivo na minha vida, Jesus vive
comigo? É o meu Senhor? Confio-me a Ele nos momentos de dificuldade? Cultivo a
sua presença através da Palavra, através dos Sacramentos? Deixo-me guiar por
Ele, juntamente com os meus irmãos e irmãs, na comunidade?
Maria, Mãe do
Caminho, nos ajude a sentir o seu Filho vivo e presente ao nosso lado.
sábado, 15 de agosto de 2026
DOMINGO XX DO TEMPO COMUM
As leituras de hoje conduzem-nos pelos caminhos da
universalidade do amor de Deus. Ainda que tenha começado no povo eleito, o
destino final, do Seu Amor infinito, são todos os que O acolhem de coração
sincero, independentemente da sua raça, país, ou época histórica.
Na
1ªleitura (I 56, 1.6-7) , Isaías vem em socorro de nós, os gentios, e traz-nos a garantia de que,
se tivermos fé, Deus também vem para nós, aliás, já veio e para todos os
povos:
«Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, hei de conduzi-los ao meu santo monte, hei de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada 'casa de oração para todos os povos'»
Na
2ªleitura (Rom 11, 13-15.29-32) S.Paulo, por graça de Deus, apóstolo dos gentios, abre-nos uma
perspectiva muito interessante, pois se foi pela recusa do povo eleito que todos
beneficiámos do anúncio privilegiado da Ressurreição de Jesus, quem sabe se não
será, através dos gentios, que os judeus chegarão a acreditar que Jesus é
verdadeiramente o Filho de Deus, que veio ao mundo para salvar toda a
humanidade.
“Irmãos: É a vós, os gentios, que eu falo: Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, procurarei prestigiar o meu ministério a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça e salvo alguns deles. Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração senão uma ressurreição de entre os mortos? Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis. Vós fostes outrora desobedientes a Deus e agora alcançastes misericórdia, devido à desobediência dos judeus. Assim também eles desobedecem agora, de modo que, devido à misericórdia obtida por vós, também eles agora alcancem misericórdia. Efetivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos.”
No Evangelho de hoje (Mt 15, 21-28), primeiro
estranhamos a forma como Jesus, aparentemente, não escuta o pedido da mulher
cananeia, mas depois percebemos que foi a forma mais bonita e, ao mesmo tempo,
mais pedagógica, quer para os discípulos, quer também para nós hoje, de realçar
a força da fé daquela mãe. Por outro lado, o evangelho também nos desperta para
a necessidade de intercedermos uns pelos outros, como fizeram os discípulos, ao
pedirem a Jesus para atender as súplicas daquela mulher. Deus nunca nos deixa
sem resposta, nós é que, muitas vezes, demasiado depressa, desistimos de orar.
Não somos como esta mãe. Que testemunho de fé impressionante!
“Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia. Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós». Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor». Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.”
Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.
Caros
irmãos e irmãs
Neste 20º
domingo do tempo comum, a liturgia propõe à nossa reflexão as palavras do
profeta Isaías: "Aos estrangeiros que aderiram ao Senhor para lhe
prestar culto / ... Vou levá-los para a minha montanha santa / vou fazê-los
felizes na minha casa de oração / ... porque a minha casa será chamada / casa
de oração para todos os povos" (Is 56,
6-7).
À universalidade da salvação faz referência também o Apóstolo Paulo na segunda
leitura, assim como a página evangélica que narra o episódio da mulher
cananeia, uma estrangeira em relação aos judeus, atendida por Jesus em virtude
da sua grande fé. A Palavra de Deus oferece-nos, assim, a oportunidade de refletir
sobre a universalidade da missão da Igreja, constituída por povos de todas as
raças e culturas. É precisamente daqui que provém a grandiosa responsabilidade
da comunidade eclesial, chamada a ser uma casa hospitaleira para todos, sinal e
instrumento de comunhão para toda a família humana.
Como é
importante, sobretudo no nosso tempo, que cada comunidade cristã aprofunde cada
vez mais esta sua consciência, com a finalidade de ajudar também a sociedade
civil a superar toda a possível tentação de racismo, de intolerância e de
exclusão, e a organizar-se com opções respeitosas da dignidade de cada ser
humano! Com efeito, uma das grandes conquistas da humanidade é precisamente a
superação do racismo. No entanto, infelizmente, em vários países registam-se
novas e preocupantes manifestações do mesmo, ligadas muitas vezes a problemas
sociais e económicos, que todavia jamais podem justificar o desprezo e a
discriminação racial. Oremos a fim de que em toda a parte aumente o respeito
por todas as pessoas, juntamente com a responsável consciência de que somente
no acolhimento recíproco de todos é possível construir um mundo caracterizado
pela justiça autêntica e pela paz verdadeira.
Agora,
gostaria de propor mais uma intenção pela qual rezar, tendo em consideração as
notícias que chegam, especialmente neste período, de numerosos e graves
acidentes rodoviários. Não podemos habituar-nos a esta triste realidade! Efetivamente,
é demasiado precioso o bem da vida humana, e demasiado indigno do homem, morrer
ou encontrar-se inválido por causas que, na maior parte dos casos, poderiam ser
evitadas. Sem dúvida, é necessário um maior sentido de responsabilidade. Antes
de mais nada da parte dos automobilistas, porque os acidentes são
frequentemente devidos à velocidade excessiva e a comportamentos imprudentes.
Guiar um veículo nas estradas públicas exige sentido moral e sentido cívico.
Para a promoção deste último, é indispensável a constante obra de prevenção,
vigilância e repressão da parte das autoridades. No entanto, como Igreja
sentimo-nos diretamente interpelados no plano ético: antes de tudo, os
cristãos devem fazer um exame de consciência pessoal sobre o seu comportamento
de automobilistas; além disso, as comunidades eduquem todos a considerar também
a condução como um campo onde defender a vida e exercer concretamente o amor
pelo próximo.
Confiemos as
problemáticas sociais que recordei à intercessão materna de Maria, que agora
invocamos coralmente com a recitação do Angelus.
Papa Bento XVI
(Angelus, 17 de agosto de 2008)
Amados irmãos e irmãs!
O trecho evangélico deste domingo inicia com a indicação da região para onde Jesus se dirigia: Tiro e Sidónia, no nordeste da Galileia, terra pagã. E é ali que Ele se encontra com uma mulher cananeia, que lhe pede para curar a filha atormentada pelo demónio (cf. Mt 15, 22). Já podemos entrever neste pedido um início do caminho da fé, que no diálogo com o Mestre divino cresce e se reforça. A mulher não tem medo de bradar a Jesus: «Tem piedade de mim, Senhor», uma expressão que se repete nos Salmos (cf. 50, 1), chama-lhe «Senhor» e «Filho de David» (cf. Mt 15, 22), manifestando assim uma esperança firme de que será atendida. Qual é a atitude do Senhor diante daquele grito de dor de uma mulher pagã? Poderia parecer desconcertante o silêncio de Jesus, a ponto de suscitar a intervenção dos discípulos, mas não se trata de insensibilidade ao sofrimento daquela mulher. Santo Agostinho comenta justamente: «Cristo mostrava-se indiferente para com ela, não para lhe negar a misericórdia mas para lhe inflamar o desejo» (Sermo 77, 1: pl 38, 483). A indiferença aparente de Jesus, que diz: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» (v. 24), não desencoraja a cananeia, que insiste: «Socorre-me, Senhor» (v. 25). E mesmo quando recebe uma resposta que parece impedir toda a esperança — «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorros» (v. 26) — não desiste. Nada quer tirar aos outros: na sua simplicidade e humildade basta-lhe pouco, são suficientes as migalhas, bastam-lhe somente um olhar, uma boa palavra do Filho de Deus. E Jesus admira-se por esta resposta de fé tão grande e diz-lhe: «Faça-se como desejas» (v. 28)
Queridos
amigos, também nós somos chamados a crescer na fé, a abrir-nos e receber com
liberdade o dom de Deus, a ter confiança e bradar a Jesus: «dá-nos fé,
ajuda-nos a encontrar o caminho!». O caminho que Jesus fez realizar aos seus
discípulos, à cananeia, aos homens de todos os tempos e povos e a cada um de
nós. A fé abre-nos para conhecer e receber a identidade real de Jesus, a sua
novidade e unicidade, a sua Palavra, como fonte de vida, a fim de viver uma
relação pessoal com Ele. O conhecimento da fé cresce com o desejo de encontrar
a estrada e, enfim, é um dom de Deus que se nos revela não como algo abstracto
sem rosto nem nome, mas a fé corresponde a uma Pessoa, que quer entrar numa
relação de amor profundo connosco e envolver toda a nossa vida. Por isso, todos
os dias o nosso coração deve viver a experiência da conversão, realizar a nossa
passagem de homens fechados em nós mesmos para homens abertos à ação de Deus,
homens espirituais (cf. 1
Cor 2, 13-14), que se deixam interpelar pela
Palavra do Senhor e abrem a própria vida ao seu Amor.
Estimados
irmãos e irmãs, por isso alimentemos todos os dias a nossa fé com a escuta
profunda da Palavra de Deus, com a celebração dos Sacramentos, com a oração
pessoal como «grito» a Ele e com a caridade pelo próximo. Invoquemos a
intercessão da Virgem Maria, que amanhã contemplaremos na sua gloriosa assunção
ao céu de corpo e alma, para que nos ajude a anunciar e testemunhar com a vida
a alegria de ter encontrado o Senhor.
Papa Bento XVI
(Angelus, 14 de agosto de 2011)
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Irmãs e irmãos
caríssimos, hoje não é domingo, mas estamos a celebrar de maneira diversa a
Páscoa de Jesus, que muda a história. Em Maria de Nazaré está a nossa história,
está a história da Igreja imersa na humanidade comum. Tendo encarnado nela, o
Deus da vida, o Deus da liberdade venceu a morte. Sim, hoje contemplamos como
Deus vence a morte, sem nunca prescindir de nós. É d’Ele o reino, mas o “sim”
ao seu amor, que tudo pode mudar, é nosso. Na cruz, Jesus pronunciou livremente
o “sim” que deveria esvaziar o poder da morte, aquela morte que continua a
alastrar quando as nossas mãos crucificam e os nossos corações estão
prisioneiros do medo e da desconfiança. Na cruz, venceu a confiança, venceu o
amor que vê o que ainda não existe, venceu o perdão.
E Maria estava
presente: estava lá, unida ao Filho. Hoje podemos intuir que Maria somos nós
quando não fugimos, somos nós quando respondemos com o nosso “sim” ao seu
“sim”. Nos mártires do nosso tempo, nas testemunhas da fé e da justiça, da
mansidão e da paz, aquele “sim” continua vivo e ainda contraria a morte. Assim,
este dia de alegria é um dia que nos compromete a escolher como e para quem
viver.
A liturgia
desta solenidade da Assunção propôs-nos o trecho evangélico da Visitação. Nesta
página, São Lucas transmite a memória de um momento crucial na vocação de
Maria. É bonito voltar a esse momento no dia em que celebramos a meta da sua
existência. Na terra, todas as histórias, mesmo a da Mãe de Deus, são breves e
têm um fim. No entanto, nada se perde. Assim, quando uma vida se encerra, a sua
unicidade brilha com mais clareza. O Magnificat, que o Evangelho
coloca nos lábios da jovem Maria, agora irradia a luz de todos os seus dias. Um
único dia, o do encontro com a sua prima Isabel, contém o segredo de todos os
outros dias, de todas as outras estações. E as palavras não bastam: é preciso um
cântico, que na Igreja continua a ser cantado, «de geração em geração» (Lc 1,
50), ao pôr do sol de cada dia. A surpreendente fecundidade da estéril Isabel
confirmou Maria na sua confiança: antecipou a fecundidade do seu “sim”, que se
prolonga na fecundidade da Igreja e de toda a humanidade, quando a Palavra
renovadora de Deus é acolhida. Naquele dia, duas mulheres encontraram-se na fé
e, depois, permaneceram juntas três meses a apoiar-se mutuamente, não só nas
coisas práticas, mas numa nova maneira de ler a história.
Assim, irmãs e
irmãos, a Ressurreição entra também hoje no nosso mundo. As palavras e as
escolhas de morte parecem prevalecer, mas a vida de Deus interrompe o desespero
através de experiências concretas de fraternidade e de novos gestos de
solidariedade. Com efeito, antes de ser o nosso destino último, a Ressurreição
modifica – alma e corpo – o nosso modo de habitar a terra. O cântico de Maria,
o seu Magnificat, fortalece na esperança os humildes, os famintos,
os dedicados servos de Deus. São as mulheres e os homens das Bem-aventuranças,
que ainda no meio da tribulação veem já o invisível: os poderosos derrubados
dos tronos, os ricos de mãos vazias, as promessas de Deus realizadas. São
experiências que, em cada comunidade cristã, todos devemos poder dizer que já
vivemos. Parecem impossíveis, mas a Palavra de Deus ainda vem à luz: quando
nascem os vínculos com os quais opomos o bem ao mal, a vida à morte, então vemos
que com Deus nada é impossível (cf. Lc 1, 37).
Às vezes,
infelizmente, onde prevalecem as seguranças humanas, com um certo bem-estar
material e a acomodação que adormece as consciências, a fé pode envelhecer. É
então que surge a morte, sob a forma de resignação e lamentação, nostalgia e
insegurança. Em vez de ver acabar o mundo antigo, continua a procurar-se o seu
amparo: o amparo dos ricos e dos poderosos, que geralmente acompanha o desprezo
pelos pobres e humildes. A Igreja, porém, vive nos seus membros frágeis e
rejuvenesce graças ao Magnificat deles. Também hoje as
comunidades cristãs pobres e perseguidas, os testemunhos de ternura e perdão
nos locais de conflito, os construtores da paz e os edificadores de pontes num
mundo despedaçado são a alegria da Igreja, a sua fecundidade permanente, os
primeiros frutos do Reino que vem. Muitos deles são mulheres, como a idosa
Isabel e a jovem Maria: mulheres pascais, apóstolas da Ressurreição.
Deixemo-nos converter pelo seu testemunho!
Irmãos e
irmãs, quando nesta vida «escolhemos a vida» (cf. Dt 30, 19),
temos então motivos para ver, em Maria, assunta ao Céu, o nosso destino. Ela
é-nos dada como sinal de que a Ressurreição de Jesus não foi um evento isolado,
uma exceção. Todos nós, em Cristo, podemos tragar a morte (cf. 1 Cor 15,
54). Certamente, é obra de Deus, não nossa. No entanto, Maria é aquele
entrelaçamento de graça e liberdade que impele cada um de nós à confiança, à
coragem, ao envolvimento na vida de um povo. «O Todo-poderoso fez em mim
maravilhas» (Lc 1, 49): possa cada um de nós experimentar esta
alegria e testemunhá-la com um cântico novo. Não tenhamos medo de escolher a
vida! Pode parecer perigoso, imprudente. Quantas vozes estão sempre lá a
sussurrar-nos: «Quem te obriga a fazer isso? Deixa estar! Pensa nos teus
próprios interesses». Estas são vozes de morte. Em contrapartida, nós somos
discípulos de Cristo. É o seu amor que nos impele, corpo e alma, no nosso
tempo. Como indivíduos e como Igreja, já não vivemos para nós mesmos. É
precisamente isto – e só isto – que difunde a vida e a faz prevalecer. A nossa
vitória sobre a morte começa precisamente agora.



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