sábado, 9 de maio de 2026

Semana da Vida

À imagem e semelhança de Deus – Trindade! (II) - Pe Manuel Armindo Janeiro - Facebook

O Mistério de onde vimos e para onde vamos!...

Com o II Concílio do Vaticano e o movimento de renovação que o precedeu e acompanhou, o mistério fundamental da fé cristã, Deus – Trindade Santíssima, recuperou o lugar central na vida e missão da Igreja.  

Se até então parecia distante – isolado em tratados teológicos, profissões de fé e celebrações litúrgicas -, sem incidência prática na vida eclesial e pessoal, com o IIº Concílio do Vaticano o mistério de Deus – Trindade Santíssima tornou-se, por assim dizer, acessível e íntimo a cada fiel.  

É a partir dele que a Igreja se vai repensar e reorganizar, descobrindo nova luz para uma compreensão mais profunda do seu ser, tal como ficou patente na constituição dogmática Lumen Gentium onde, no primeiro capítulo, Deus – Trindade é apresentado como raiz e fonte do Mistério da Igreja e, no segundo capítulo, esta é definida como Povo de Deus, articulando e moldando as suas relações à imagem e semelhança do rosto trinitário de Deus.

De facto, somos batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; a liturgia da Igreja dirige-se ao Pai pelo Filho no Espírito Santo; a teologia, nas suas diferentes áreas, passou a dar justa relevância ao mistério central da nossa fé; e a Igreja iniciou um processo de renovação, a começar pela sua própria conceção, cujo impulso e dinamismo continua a produzir frutos, sendo o caminho sinodal, proposto pelo Papa Francisco, um dos últimos e mais importantes.  

A Igreja procede e participa do mistério e da vida da Trindade Santíssima e tem como missão ser ícone, isto é, ser Sua imagem e presença num mundo dilacerado por discórdias, ódios e violência. Através dela, pela ação do Filho e do Espírito Santo – as duas mãos de Deus Pai, no dizer de Santo Ireneu –, a Santíssima Trindade torna-se próxima de todos nós e atrai-nos para Si a fim de vivermos ao ritmo do Seu dinamismo de amor e doação, cuidando uns dos outros e procurando que cada um cresça à medida da estatura completa de Cristo (Ef 4,13). 

Viver imersos no mistério trinitário de Deus significa aprender a ser ponte, a saber ser amparo e suporte; significa fazer acontecer a fraternidade e ajudar a curar e a restaurar relações, superando ressentimentos, intolerâncias e vinganças; significa ser capaz de harmonizar igualdade com diferença, a pessoa com a comunidade, o particular com o universal. 

Esta experiência íntima e sublime, pessoal e comunitária de Deus – Trindade Santíssima, que se dá na contemplação e na ação, permite-nos descobrir a Sua presença em tudo e em todos, convertendo-nos em construtores da paz, em habitantes comprometidos da Casa Comum e cuidadores das suas criaturas. 

Talvez se possa vislumbrar no resgate teológico, eclesial e espiritual da dimensão trinitária do Mistério de Deus do nosso tempo e sua vivência no quotidiano, o caminho profético apontado por Karl Rahner no pós-Concílio, ao afirmar: “o cristão do século XXI ou será místico ou não será cristão”.

Nicolai Berdaieff, político cristão russo, dizia quando o interpelavam sobre o seu programa e respetivo quadro de valores: “O meu programa é a Santíssima Trindade, pois ela ensina-nos a salvaguardar a dignidade da pessoa e, ao mesmo tempo, a construir a comunidade humana no amor e na justiça”. Que este programa seja também o nosso!

Pe. Armindo Janeiro

Publicado  /4 de maio/2026

sábado, 2 de maio de 2026

 DOMINGO V DA PÁSCOA

A liturgia deste domingo continua a vivência do grande dia da Páscoa de Jesus ressuscitado. As leituras de hoje, projetam-nos para o essencial da nossa fé, Jesus é um com o Pai. E é aí, na comunhão íntima e profundíssima de Jesus com o Pai, num Amor infinito e total, que Ele se nos vai revelando como o único caminho para o Pai. Deixemo-nos guiar por Ele.

Na 1ªleitura (Atos 6,1-7) apercebemo-nos de que também as primeiras comunidades tiveram os seus problemas internos. No entanto o que mais nos desafia e cativa é a forma como resolviam os seus conflitos, ou vicissitudes, sempre numa grande docilidade ao Espírito Santo para decidirem e, assim, serem fiéis ao seu Senhor  e mestre, Jesus ressuscitado. 

“Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, os helenistas começaram a murmurar contra os hebreus, porque no serviço diário não se fazia caso das suas viúvas. Então os Doze convocaram a assembleia dos discípulos e disseram: «Não convém que deixemos de pregar a palavra de Deus, para servirmos às mesas. Escolhei entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para lhes confiarmos esse cargo. Quanto a nós, vamos dedicar-nos totalmente à oração e ao ministério da palavra». A proposta agradou a toda a assembleia; e escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos Apóstolos e estes oraram e impuseram as mãos sobre eles. A palavra de Deus ia-se divulgando cada vez mais; o número dos discípulos aumentava consideravelmente em Jerusalém e obedecia à fé também grande número de sacerdotes.”


Na segunda leitura (1 Pedro 2, 4-9) S.Pedro centra-nos na pedra viva da Igreja, na pedra angular que os construtores rejeitaram: Jesus Cristo. Nós todos, cada um com os dons que Deus lhe deu, é uma pedra viva que faz parte e é necessária, mas só se Jesus for a nossa razão de ser e existir, a  raiz e o fundamento da nossa vida.

“Caríssimos: Aproximai-vos do Senhor, que é a pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual, para constituirdes um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso se lê na Escritura: «Vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa; e quem nela puser a sua confiança não será confundido». Honra, portanto, a vós que acreditais. Para os incrédulos, porém, «a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular», «pedra de tropeço e pedra de escândalo». Tropeçaram por não acreditarem na palavra, pois foram para isso destinados. Vós, porém, sois «geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para anunciar os louvores» d’Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável.”

No evangelho (Jo 14, 1-12) S.João revela, no diálogo que nos traz hoje, Jesus e a Sua relação de Amor com o Pai, numa comunhão tão profunda, tão total e infinita, que como diz a Filipe, quem O vê, vê o Pai. E, melhor ainda, é o próprio Jesus quem nos diz que é o Caminho para o Pai. Se temos dúvidas, ao menos acreditemos nas Suas obras.

«Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. Em casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, Eu vos teria dito que vou preparar-vos um lugar? Quando Eu for preparar-vos um lugar, virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também. Para onde Eu vou, conheceis o caminho». Disse-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?». Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». Disse-Lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta». Respondeu-lhe Jesus: «Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheces, Filipe? Quem Me vê, vê o Pai. Como podes tu dizer: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio; mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras. Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; acreditai ao menos pelas minhas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fará obras ainda maiores, porque Eu vou para o Pai».

Senhor, eu creio que é Jesus, o Filho de Deus feito homem, que ressuscitou dos mortos, um com o Pai. Aleluia!

Queridos irmãos e irmãs,

O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Revelação Divina Dei Verbum, afirma que a verdade íntima de toda a Revelação de Deus resplandece para nós «em Cristo, que é o mediador e ao mesmo tempo a plenitude de toda a Revelação» (n. 2). O Antigo Testamento narra-nos como Deus, depois da criação, não obstante o pecado original e apesar da arrogância do homem ao querer colocar-se no lugar do seu Criador, oferece de novo a possibilidade da sua amizade, sobretudo através da aliança com Abraão, e caminho de um pequeno povo, o povo de Israel, que Ele escolhe não com critérios de poder, mas simplesmente por amor. É uma escolha que permanece um mistério e revela o estilo de Deus, que chama alguns não para excluir os outros, mas para que sirvam de ponte conduzindo para Ele: escolha é sempre eleição pelo outro. Na história do povo de Israel podemos voltar a percorrer as etapas de um longo caminho em que Deus se faz conhecer, se revela e entra na história com palavras e ações. Para esta obra Ele serve-se de mediadores, como Moisés, os Profetas e os Juízes, que comunicam ao povo a sua vontade, recordam a exigência de fidelidade à aliança e mantêm viva a expetativa da realização plena e definitiva das promessas divinas.

E foi precisamente o cumprimento destas promessas que pudemos contemplar no Santo Natal: a Revelação de Deus alcança o seu ápice, a sua plenitude. Em Jesus de Nazaré, Deus visita realmente o seu povo, visita a humanidade de um modo que vai além de todas as expetativas: envia o seu Único Filho; o próprio Deus faz-se homem. Jesus não nos diz algo de Deus, não fala simplesmente do Pai, mas é Revelação de Deus, porque é Deus, e assim revela-nos o rosto de Deus. No Prólogo do seu Evangelho, são João escreve: «Ninguém nunca viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem O revelou» (Jo 1, 18).

Gostaria de meditar sobre este «revelar o rosto de Deus». A este propósito são João, no seu Evangelho, recorda-nos um acontecimento significativo que há pouco ouvimos. Aproximando-se da Paixão, Jesus tranquiliza os seus discípulos, convidando-os a não ter medo e a ter fé; depois, instaura um diálogo com eles, no qual fala de Deus Pai (cf. Jo 14, 2-9). Numa certa altura, o apóstolo Filipe pede a Jesus: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso basta-nos» (Jo 14, 8). Filipe é muito prático e concreto, e diz também o que nós desejamos dizer: «Queremos ver, mostra-nos o Pai», pede para «ver» o Pai, para ver o seu rosto. A resposta de Jesus não se dirige apenas a Filipe, mas também a nós, e introduz-nos no coração da fé cristológica; o Senhor afirma: «Aquele que me viu, viu também o Pai» (Jo 14, 9). Nesta expressão encerra-se sinteticamente a novidade do Novo Testamento, aquela novidade que apareceu na gruta de Belém: é possível ver Deus, Deus manifestou o seu rosto, é visível em Jesus Cristo.

Em todo o Antigo Testamento está bem presente o tema da «procura do rosto de Deus», o desejo de conhecer esta face, o desejo de ver Deus como Ele é, a tal ponto que o termo hebraico pānîm, que significa «rosto», aparece 400 vezes, das quais 100 se referem a Deus: refere-se a Deus 100 vezes, deseja-se ver o rosto de Deus. E no entanto, a religião judaica proíbe totalmente as imagens, porque Deus não pode ser representado, como ao contrário faziam os povos vizinhos, com a adoração dos ídolos; por conseguinte, com esta proibição de imagens, o Antigo Testamento parece excluir totalmente o «ver» do culto e da piedade. Então, o que significa para o israelita piedoso procurar o rosto de Deus, na consciência de que não pode haver qualquer imagem sua? A pergunta é importante: por um lado, deseja-se dizer que Deus não pode ser reduzido a um objeto, como uma imagem que se toma nas mãos, mas também não se pode pôr algo no lugar de Deus; por outro lado, contudo, afirma-se que Deus tem um rosto, ou seja que é um «Tu» que pode entrar em relação, que não está fechado no seu Céu a olhar do alto a humanidade. Sem dúvida, Deus está acima de todas as coisas, mas dirige-se a nós, ouve-nos, vê-nos, fala-nos, faz uma aliança e é capaz de amar. A história da salvação é a história de Deus com a humanidade, é a história desta relação de Deus que se revela progressivamente ao homem, que se faz conhecer a si mesmo, o seu rosto.

Precisamente no início do ano, no dia 1 de Janeiro, ouvimos na liturgia a linda prece de bênção sobre o povo: «O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor te mostre a sua face e te conceda a sua graça! O Senhor dirija o seu rosto para ti e te dê a paz!» (Nm 6, 24-26). O esplendor do rosto divino é a fonte da vida, é aquilo que permite ver a realidade; a luz da sua face é a guia da vida. No Antigo Testamento existe uma figura à qual está ligado de modo totalmente especial o tema do «rosto de Deus»; trata-se de Moisés, Aquele que Deus escolhe para libertar o povo da escravidão do Egito, para lhe confiar a Lei da aliança e para o guiar rumo à Terra prometida. Pois bem, no capítulo 33 do Livro do Êxodo afirma-se que Moisés tinha uma relação estreita e confidencial com Deus: «O Senhor entretinha-se com Moisés face a face, como um homem que fala com o seu amigo» (v. 11). Em virtude desta confidência, Moisés pede a Deus: «Mostrai-me a vossa glória!», e a resposta de Deus é clara: «Farei passar diante de ti todo o meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o nome do Senhor... Mas não poderás ver a minha face, pois o homem não me poderia ver e continuar a viver... Eis um lugar perto de mim... ver-me-ás só de costas. Quanto à minha face, ela não pode ser vista» (vv. 18-23). Então, por um lado há o diálogo face a face como entre amigos, mas por outro há a impossibilidade de ver nesta vida o rosto de Deus, que permanece escondido; a visão é limitada. Os Padres afirmam que estas palavras, «ver-me-ás só de costas», querem dizer: só podes seguir Cristo e, seguindo-o, vês de costas o mistério de Deus; Deus só pode ser seguindo vendo-o de costas.

Porém, mediante a Encarnação acontece algo completamente novo. A busca do rosto de Deus passa por uma transformação inimaginável, porque agora é possível ver este rosto: é o rosto de Jesus, do Filho de Deus que se faz homem. Nele encontra cumprimento o caminho de Revelação de Deus, encetado com a chamada de Abraão, Ele é a plenitude desta Revelação porque é o Filho de Deus e, ao mesmo tempo, «mediador e plenitude de toda a Revelação» (Constituição dogmática Dei Verbum, 2), e nele o conteúdo da Revelação e o Revelador coincidem. Jesus mostra-nos o rosto de Deus e faz-nos conhecer o nome de Deus. Na Oração sacerdotal, na Última Ceia, Ele diz ao Pai: «Manifestei o teu nome aos homens... Manifestei-lhes o teu nome» (cf. Jo 17, 6.26). A expressão «nome de Deus» significa Deus como Aquele que está presente no meio dos homens. A Moisés, junto da sarça ardente, Deus tinha revelado o seu nome, ou seja, tornou-se invocável, lançou um sinal concreto do seu «estar» no meio dos homens. Tudo isto, em Jesus, tem o seu cumprimento e plenitude: Ele inaugura de um modo novo a presença de Deus na história, pois quem O vê, vê o Pai, como diz a Filipe (cf. Jo 14, 9). O Cristianismo — afirma são Bernardo — é a «religião da Palavra de Deus»; e não de «uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo» (Hom. super missus est, IV, 11: PL 183, 86b). Na tradição patrística e medieval utiliza-se uma fórmula particular para expressar esta realidade: afirma-se que Jesus é o Verbum abbreviatum (cf. Rm 9, 28, com referência a Is 10, 23), o Verbo abreviado, a Palavra breve, abreviada e substancial do Pai, que nos disse tudo dele. Em Jesus, toda a Palavra está presente.

Em Jesus, também a mediação entre Deus e o homem encontra a sua plenitude. No Antigo Testamento existe um exército de figuras que desempenharam esta função, de modo particular Moisés, o libertador, o guia, o «mediador» da aliança, como o define também o Novo Testamento (cf. Gl 3, 19; Act 7, 35; Jo 1, 17). Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não é simplesmente um dos mediadores entre Deus e o homem, mas é «o Mediador» da nova e eterna aliança (cf. Hb 8, 6; 9, 15; 12, 24); «Porque há um só Deus — diz são Paulo — e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem» (1 Tm 2, 5; cf. Gl 3, 19-20). N'Ele nós vemos e encontramos o Pai; n'Ele podemos invocar Deus com o nome de «Abá, Pai»; n'Ele é-nos conferida a salvação.

O desejo de conhecer Deus realmente, ou seja, de ver o rosto de Deus, está ínsito em cada homem, inclusive nos ateus. E nós talvez tenhamos, de modo inconsciente, este desejo de ver simplesmente quem Ele é, o que Ele é, quem é Ele para nós. Mas este desejo só se realiza seguindo Cristo, porque assim O vemos de costas e enfim vemos também Deus como amigo, a sua face no rosto de Cristo. O importante é que sigamos Cristo não apenas no momento em que temos necessidade, e quando encontramos um espaço nas nossas ocupações diárias, mas com toda a nossa vida enquanto tal. Toda a nossa existência deve ser orientada para o encontro com Jesus Cristo, para o amor por Ele; e, nela, um lugar central deve ser ocupado também pelo amor ao próximo, aquele amor que, à luz do Crucificado, nos faz reconhecer o rosto de Jesus no pobre, no frágil e no sofredor. Isto só é possível se o verdadeiro rosto de Jesus se tornar familiar para nós na escuta da Sua Palavra, no falar interiormente, no entrar nesta Palavra, de maneira que deveras O encontremos, e naturalmente no Mistério da Eucaristia. No Evangelho de são Lucas é significativo o trecho dos dois discípulos de Emaús, que reconhecem Jesus na fracção do pão, mas preparados pelo caminho com Ele, preparados pelo convite que lhe apresentaram, de permanecer com eles, preparados pelo diálogo que fez arder o peito deles; assim, no final, eles veem Jesus. Também para nós a Eucaristia é a grande escola na qual aprendemos a ver o rosto de Deus, entramos em relação íntima com Ele; e aprendemos, ao mesmo tempo, a dirigir o olhar para o momento derradeiro da história, quando Ele nos saciar com a luz do seu rosto. Na terra, nós caminhamos rumo a esta plenitude, na expetativa jubilosa de que se cumpra realmente o Reino de Deus. Obrigado!

Papa Bento XVI
(Audiência Geral - 16 de janeiro de 2013)

À imagem e semelhança de Deus - Trindade! (I) - Pe Manuel Armindo Janeiro - Facebook

De tão habituados que estamos em definir a nossa realidade partindo da afirmação do livro dos Géneses – “criados à imagem e semelhança de Deus” (1,26) – que nos esquecemos da novidade trazida pela revelação do mistério da vida íntima de Deus, manifestada na encarnação, morte e ressurreição de Jesus, a qual redefine a compreensão da nossa condição e relações humanas.

Herdeiros de uma visão estática do ser que via o movimento como imperfeição, só no último século foi possível desenvolver novas aproximações ao mistério de Deus-Trindade e começar a pensar de outro modo o fundamento das nossas relações e respectivas consequências.

O problema vem das origens, da dificuldade em articular o pensamento grego com a novidade que brota do pensar-se da fé cristã, impedindo, quer no primeiro quer no segundo milénios, uma visão mais ampla e dinâmica do mistério de Deus – Trindade Santíssima e das Suas relações com toda a Criação.  

Sendo o Mistério fundamental da nossa fé e tendo ficado na sombra a sua dimensão trinitária, este esquecimento empobreceu a compreensão da fé e teve consequências negativas para a vida da Igreja, para a relação dos cristãos entre si e com outras tradições religiosas, e para o diálogo com os dinamismos sociais e culturais das sociedades.  

No último século, a reflexão teológica viu na oferta pascal de Jesus – da Última Ceia à manhã da Ressurreição – o caminho para entrar no íntimo de Deus e contemplar o mistério das suas relações: naquela hora – a Sua –, Jesus mostrou-nos, para escândalo de uns e loucura de outros, como viveu e morreu: por amor. Um amor que quer que o outro seja (eu, tu, nós, a humanidade inteira!), mesmo à custa da Sua própria vida. Mais… Jesus permitiu-nos intuir como é Deus-Trindade Santíssima em Si mesmo: mistério de amor em total e recíproca doação!

Tudo o que Ele disse e fez tem a sua raiz no Deus-Trindade – em que o Pai se dá totalmente ao Filho e o Filho totalmente ao Pai, sendo a relação de ambos o próprio Espírito Santo, plenitude de entrega recíproca –, concebido, não no seu carácter estático, mas como dom contínuo, como fogo devorador, como dedicação incondicional, para que também o outro (cada um de nós…) viva e seja divino. Jesus, na cruz, ao dar a sua vida por nós, não foi pura contingência histórica, mas antes expressão divina de amor que atrai e dá vida e vida em abundância! 

Que significa isto para a imagem do homem? É o que nos diz, em síntese, a expressão: «O homem encontra-se a si próprio no dom de si mesmo.» Corresponde, por isso, à vida de tantos santos e mártires que abandonaram o próprio interesse e vantagens pessoais para servir a Deus e aos irmãos. É deste mesmo espírito que nos fala o convite de Jesus: «Vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois vem e segue-me» (Mt 19,21). 

Há, portanto, uma misteriosa correspondência entre o ser íntimo de Deus, que é puro dom e vontade de dar lugar ao outro, e tudo aquilo que aqui na Terra se pode dizer sobre a caridade como plenitude da lei. Por isso, quanto mais penetrarmos na contemplação do mistério de Deus – Trindade, mais conheceremos o mistério do homem e vice-versa: esta feliz reciprocidade cumprir-se-á plenamente no Céu e dela viveremos eternamente. Que comece já aqui!…

 

sábado, 25 de abril de 2026

  DOMINGO IV DA  PÁSCOA


Neste IV Domingo, do tempo pascal, celebramos especialmente o Domingo do Bom Pastor, mas, simultaneamente, também rezamos em particular pelas vocações, no 63ºDia Mundial de Oração pelas Vocações. Temos, pois, neste domingo, ainda mais razões para agradecermos e louvarmos o Senhor, nosso Deus. 

As leituras de hoje continuam o anúncio de que Jesus ressuscitou dos mortos, está vivo e nos conduz pelos caminhos da vida, no concreto da nossa existência quotidiana, nos bons e nos maus momentos, em todas as situações, por mais estranhas e difíceis que estas nos possam parecer. Ele é quem nos abre a porta e nos conduz ao Seu rebanho, quando O procuramos. Descansemos n’Ele. Entreguemos-Lhe todos os medos, sofrimentos e cansaços e peçamos a Maria, nossa mãe do céu, que nos ensine a confiar totalmente n’Ele, no Seu amor sem fim por todos e cada um de nós.

Na 1ªleitura (Atos 2, 14a.36-41) voltamos a encontrar o S.Pedro do último domingo, destemido, corajoso, cheio do Espírito Santo, anunciador da Boa Nova de Jesus Ressuscitado aos homens do seu tempo e também a nós hoje. Ele desafia-nos à conversão de coração, a escutar os apelos de Nosso Senhor a viver o dom do nosso Batismo no dia a dia da vida, no concreto da nossa existência, com aqueles que Ele colocou nos nossos caminhos. 

“No dia de Pentecostes, Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: «Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes». Ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?». Pedro respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo, porque a promessa desse dom é para vós, para os vossos filhos e para quantos, de longe, ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus». E com muitas outras palavras os persuadia e exortava, dizendo: «Salvai-vos desta geração perversa». Os que aceitaram as palavras de Pedro receberam o Batismo e naquele dia juntaram-se aos discípulos cerca de três mil pessoas.

Na 2ªleitura (1 Pedro 2, 20b-25) S.Pedro exorta-nos a seguir o pastor e guarda das nossas almas, pois só n’Ele, que deu a Sua vida por cada um de nós, encontraremos a verdadeira felicidade. Jesus é o único Pastor em quem podemos confiar total e plenamente, pois nunca nos abandona. Jesus, qual cordeiro inocente levado ao matadouro, venceu a morte de uma vez para sempre: “pelas Suas chagas fomos curados”. Ele caminha, vive e está sempre presente no meio de nós, é um connosco. 

“Caríssimos: Se vós, fazendo o bem, suportais o sofrimento com paciência, isto é uma graça aos olhos de Deus. Para isto é que fostes chamados, porque Cristo sofreu também por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado algum e na sua boca não se encontrou mentira. Insultado, não pagava com injúrias; maltratado, não respondia com ameaças; mas entregava-Se Àquele que julga com justiça. Ele suportou os nossos pecados no seu Corpo, sobre o madeiro da cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fomos curados. Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas.”

No evangelho (Jo 10, 1-10) S.João traz-nos Jesus como Aquele que nos abre a porta e nos conduz nesta Sua Igreja, nos dá a Vida. Ele é a Porta para a Vida, no seio do Pai. Sim, por João, vamos percebendo que Jesus tem uma relação pessoal com cada um de nós, conhece-nos pelo nosso nome, habita-nos e, nós seguimo-l’O, reconhecemo-l’O como o Único que verdadeiramente nos ama infinitamente, tal qual somos, no nosso melhor e no nosso pior. Por todos deu a Sua vida, a todos quer chegar e ser a Porta, o Amor, que, hoje, nos nossos tempos, continua a abrir-Se a quem se deixar amar por Ele.

“Naquele tempo, disse Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».”

Senhor, que eu nunca, mas nunca mesmo, duvide do Teu Amor, infinito, por cada umas das Tuas criaturas.


Queridos irmãos e irmãs, caríssimos jovens!

Guiados e protegidos por Jesus Ressuscitado, celebramos no IV Domingo de Páscoa, conhecido como “Domingo do Bom Pastor”, o LXIII Dia Mundial de Oração pelas Vocações. É uma ocasião de graça para partilhar algumas reflexões sobre a dimensão interior da vocação, entendida como descoberta do dom gratuito de Deus que floresce no mais profundo do coração de cada um de nós. Percorramos juntos, pois, o caminho de uma vida verdadeiramente bela, que o Pastor nos indica!

A via da beleza

No Evangelho de João, Jesus define-se literalmente como o «pastor belo» ( ποιμν καλός) ( Jo 10, 11). A expressão indica um pastor perfeito, autêntico, exemplar, na medida em que se mostra disposto a dar a vida pelas suas ovelhas, manifestando assim o amor de Deus. É o Pastor que deslumbra: quem olha para Ele descobre que, seguindo-o, a vida é realmente bela. Para conhecer esta beleza, não bastam apenas os olhos do corpo ou critérios estéticos: são necessárias a contemplação e a interioridade. Só quem se detém, escuta, reza e acolhe o seu olhar pode dizer com confiança: “Acredito n’Ele, com Ele a vida pode ser realmente bela, quero percorrer a via desta beleza”. E o mais extraordinário é que, ao tornarmo-nos seus discípulos, nos tornamos também “belos”: a sua beleza transfigura-nos. Como escreve o teólogo Pavel Florenskij, a ascética não cria o homem “bom”, mas o homem “belo”. [1] Na verdade, a característica que distingue os santos, além da bondade, é a luminosa beleza espiritual que irradia de quem vive em Cristo. Assim, a vocação cristã revela-se em toda a sua profundidade: participar da sua vida, partilhar a sua missão, brilhar a partir da sua própria beleza.

Essa comunicação interior de vida, fé e sentido foi também a experiência de Santo Agostinho que, no terceiro livro das Confissões, ao declarar e confessar os seus pecados e erros juvenis, reconhece Deus como «mais íntimo do que o meu próprio íntimo». [2] Além da consciência de si mesmo, ele descobre a beleza da luz divina que o guia na escuridão. Agostinho percebe a presença de Deus na parte mais íntima da sua alma, e isso implica ter compreendido e vivido a importância do cuidado da interioridade como espaço de relação com Jesus, como via para experimentar a beleza e a bondade de Deus na própria vida.

Essa relação constrói-se na oração e no silêncio e, se cultivada, abre-nos à possibilidade de acolher e viver o dom da vocação, que nunca é uma imposição ou um esquema pré-estabelecido ao qual se deve simplesmente aderir, mas um projeto de amor e felicidade. É a partir do cuidado da interioridade que se deve urgentemente recomeçar na pastoral vocacional e no compromisso sempre novo da evangelização.

Neste espírito, convido todos – famílias, paróquias, comunidades religiosas, bispos, sacerdotes, diáconos, catequistas, educadores e fiéis leigos – a empenharem-se cada vez mais em criar ambientes favoráveis para que este dom possa ser acolhido, alimentado, protegido e acompanhado, a fim de dar fruto abundante. Somente se os nossos ambientes brilharem pela fé viva, pela oração constante e pelo acompanhamento fraterno, o apelo de Deus poderá florescer e amadurecer, tornando-se caminho de felicidade e salvação para cada um e para o mundo. Caminhando pela via que Jesus, o Bom Pastor, nos indica, aprendemos então a conhecermo-nos melhor a nós mesmos e a conhecer mais de perto Deus, que nos chamou.

Conhecimento recíproco

«O Senhor da vida conhece-nos e ilumina o nosso coração com o seu olhar de amor». [3] Com efeito, cada vocação só pode começar a partir da consciência e da experiência de um Deus que é Amor (cf. 1 Jo 4, 16): Ele conhece-nos profundamente, contou os cabelos da nossa cabeça (cf. Mt 10, 30) e para cada um pensou um caminho único de santidade e serviço. No entanto, este conhecimento deve ser sempre recíproco: somos convidados a conhecer Deus através da oração, da escuta da Palavra, dos Sacramentos, da vida da Igreja e da doação aos irmãos e irmãs. Tal como o jovem Samuel, que durante a noite, talvez de forma inesperada, ouviu a voz do Senhor e aprendeu a reconhecê-la com a ajuda de Eli (cf. 1 Sam 3, 1-10), também nós devemos criar espaços de silêncio interior para intuir o que o Senhor deseja para a nossa felicidade. Não se trata de um saber intelectual abstrato ou de um conhecimento erudito, mas de um encontro pessoal que transforma a vida. [4] Deus habita no nosso coração: a vocação é um diálogo íntimo com Ele que, apesar do ruído por vezes ensurdecedor do mundo, nos chama, convidando-nos a responder com verdadeira alegria e generosidade.

« Noli foras ire, in te ipsum redi, in interiore homine habitat veritas – Não saias de ti mesmo, volta para dentro de ti, a Verdade habita no homem interior». [5] Mais uma vez, Santo Agostinho lembra-nos como é importante aprender a parar, construindo espaços de silêncio interior para poder ouvir a voz de Jesus Cristo.

Queridos jovens, escutai esta voz! Escutai a voz do Senhor que vos convida a viver uma vida plena, realizada, fazendo frutificar os próprios talentos (cf. Mt 25, 14-30) e pregando as próprias limitações e fraquezas na gloriosa Cruz de Cristo. Parai, portanto, em adoração eucarística, meditai assiduamente a Palavra de Deus para a viverdes todos os dias, participai ativa e plenamente na vida sacramental e eclesial. Desta forma, conhecereis o Senhor e, na intimidade própria da amizade, descobrireis como doar-vos no caminho do matrimónio ou do sacerdócio, ou do diaconato permanente, ou na vida consagrada, religiosa ou secular: cada vocação é um dom imenso para a Igreja e para quem a acolhe com alegria. Conhecer o Senhor significa, antes de tudo, aprender a confiar n’Ele e na sua Providência, que superabunda em cada vocação.

Confiança

Do conhecimento nasce a confiança, uma atitude que é filha da fé, essencial tanto para acolher a vocação como para perseverar nela. A vida, efetivamente, revela-se como um contínuo confiar e abandonar-se ao Senhor, mesmo quando os seus planos perturbam os nossos.

Pensemos em São José, que, apesar do inesperado mistério da maternidade da Virgem, confia no sonho divino e acolhe Maria e o Menino com coração obediente (cf. Mt 1, 18-25; 2, 13-15). José de Nazaré é um ícone de confiança total no desígnio de Deus: confia mesmo quando tudo à sua volta parece ser trevas e negatividade, quando as coisas parecem ir na direção oposta à prevista. Ele confia e abandona-se, certo da bondade e da fidelidade do Senhor. «Em todas as circunstâncias da sua vida, José soube pronunciar o seu “ fiat”, como Maria na Anunciação e Jesus no Getsémani». [6]

Como nos ensinou o Jubileu da Esperança, é necessário cultivar uma confiança sólida e permanente nas promessas de Deus, sem nunca ceder ao desespero, superando medos e incertezas, certos de que o Ressuscitado é o Senhor da história do mundo e da nossa história pessoal: Ele não nos abandona nas horas mais sombrias, mas vem dissipar com a sua luz todas as nossas trevas. E é precisamente graças à luz e à força do seu Espírito que, mesmo através de provações e crises, podemos ver a nossa vocação amadurecer, refletindo cada vez mais a beleza d’Aquele que nos chamou, uma beleza feita de fidelidade e confiança, apesar de nossas feridas e quedas.

Amadurecimento

A vocação, na verdade, não é uma meta estática, mas um processo dinâmico de amadurecimento, favorecido pela intimidade com o Senhor: estar com Jesus, deixar o Espírito Santo agir nos corações e nas situações da vida e reler tudo à luz do dom recebido significa crescer na vocação.

Tal como a videira e os ramos (cf. Jo 15, 1-8), assim toda a nossa existência deve constituir-se num vínculo forte e essencial com o Senhor, de modo a tornar-se uma resposta cada vez mais plena ao seu chamamento, através das provações e das inevitáveis podas. Os “lugares” onde melhor se manifesta a vontade de Deus e se experimenta o seu amor infinito são frequentemente os vínculos autênticos e fraternos que somos capazes de estabelecer ao longo da nossa vida. Como é precioso ter um diretor espiritual capaz de nos acompanhar na descoberta e no desenvolvimento da nossa vocação! Como são importantes o discernimento e a reflexão à luz do Espírito Santo, para que uma vocação possa realizar-se em toda a sua beleza.

A vocação, portanto, não é uma posse imediata, algo “dado” de uma vez por todas: é antes um caminho que se desenvolve de forma análoga à vida humana, em que o dom recebido, além de ser guardado, deve alimentar-se de uma relação quotidiana com Deus para poder crescer e dar fruto. «Isto tem um grande valor, porque coloca toda a nossa vida diante de Deus que nos ama, permitindo-nos compreender que nada é fruto dum caos sem sentido, mas, pelo contrário, tudo pode ser inserido num caminho de resposta ao Senhor, que tem um projeto estupendo para nós». [7]

Queridos irmãos e irmãs, caríssimos jovens, encorajo-vos a cultivar a relação pessoal com Deus através da oração diária e da meditação da Palavra. Parai, escutai, confiai: deste modo, o dom da vossa vocação amadurecerá, far-vos-á felizes e dará abundantes frutos para a Igreja e para o mundo.

Que a Virgem Maria, modelo de acolhimento interior do dom divino e mestra da escuta orante, vos acompanhe sempre neste caminho!

Papa Leão XIV
(Mensagem para o 63º Dia Mundial de Oração pelas Vocações - 16 de março de 2026)