De tão habituados que estamos
em definir a nossa realidade partindo da afirmação do livro dos Géneses –
“criados à imagem e semelhança de Deus” (1,26) – que nos esquecemos da novidade
trazida pela revelação do mistério da vida íntima de Deus, manifestada na
encarnação, morte e ressurreição de Jesus, a qual redefine a compreensão da
nossa condição e relações humanas.
Herdeiros de uma visão estática
do ser que via o movimento como imperfeição, só no último século foi possível
desenvolver novas aproximações ao mistério de Deus-Trindade e começar a pensar
de outro modo o fundamento das nossas relações e respectivas consequências.
O problema vem das origens, da
dificuldade em articular o pensamento grego com a novidade que brota do
pensar-se da fé cristã, impedindo, quer no primeiro quer no segundo milénios,
uma visão mais ampla e dinâmica do mistério de Deus – Trindade Santíssima e das
Suas relações com toda a Criação.
Sendo o Mistério fundamental da
nossa fé e tendo ficado na sombra a sua dimensão trinitária, este esquecimento
empobreceu a compreensão da fé e teve consequências negativas para a vida da
Igreja, para a relação dos cristãos entre si e com outras tradições religiosas,
e para o diálogo com os dinamismos sociais e culturais das
sociedades.
No último século, a reflexão
teológica viu na oferta pascal de Jesus – da Última Ceia à manhã da
Ressurreição – o caminho para entrar no íntimo de Deus e contemplar o mistério
das suas relações: naquela hora – a Sua –, Jesus mostrou-nos, para escândalo de
uns e loucura de outros, como viveu e morreu: por amor. Um amor que quer que o
outro seja (eu, tu, nós, a humanidade inteira!), mesmo à custa da Sua própria
vida. Mais… Jesus permitiu-nos intuir como é Deus-Trindade Santíssima em Si
mesmo: mistério de amor em total e recíproca doação!
Tudo o que Ele disse e fez tem
a sua raiz no Deus-Trindade – em que o Pai se dá totalmente ao Filho e o Filho
totalmente ao Pai, sendo a relação de ambos o próprio Espírito Santo, plenitude
de entrega recíproca –, concebido, não no seu carácter estático, mas como dom
contínuo, como fogo devorador, como dedicação incondicional, para que também o
outro (cada um de nós…) viva e seja divino. Jesus, na cruz, ao dar a sua vida
por nós, não foi pura contingência histórica, mas antes expressão divina de
amor que atrai e dá vida e vida em abundância!
Que significa isto para a
imagem do homem? É o que nos diz, em síntese, a expressão: «O homem encontra-se
a si próprio no dom de si mesmo.» Corresponde, por isso, à vida de tantos
santos e mártires que abandonaram o próprio interesse e vantagens pessoais para
servir a Deus e aos irmãos. É deste mesmo espírito que nos fala o convite de
Jesus: «Vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no
Céu; depois vem e segue-me» (Mt 19,21).
Há, portanto, uma misteriosa
correspondência entre o ser íntimo de Deus, que é puro dom e vontade de dar
lugar ao outro, e tudo aquilo que aqui na Terra se pode dizer sobre a caridade
como plenitude da lei. Por isso, quanto mais penetrarmos na contemplação do
mistério de Deus – Trindade, mais conheceremos o mistério do homem e
vice-versa: esta feliz reciprocidade cumprir-se-á plenamente no Céu e dela
viveremos eternamente. Que comece já aqui!…
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