Com o II Concílio do Vaticano e
o movimento de renovação que o precedeu e acompanhou, o mistério fundamental da
fé cristã, Deus – Trindade Santíssima, recuperou o lugar central na vida e
missão da Igreja.
Se até então parecia distante –
isolado em tratados teológicos, profissões de fé e celebrações litúrgicas -,
sem incidência prática na vida eclesial e pessoal, com o IIº Concílio do
Vaticano o mistério de Deus – Trindade Santíssima tornou-se, por assim dizer,
acessível e íntimo a cada fiel.
É a partir dele que a Igreja se
vai repensar e reorganizar, descobrindo nova luz para uma compreensão mais
profunda do seu ser, tal como ficou patente na constituição dogmática Lumen
Gentium onde, no primeiro capítulo, Deus – Trindade é apresentado como
raiz e fonte do Mistério da Igreja e, no segundo capítulo, esta é definida como
Povo de Deus, articulando e moldando as suas relações à imagem e semelhança do
rosto trinitário de Deus.
De facto, somos batizados em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; a liturgia da Igreja dirige-se ao
Pai pelo Filho no Espírito Santo; a teologia, nas suas diferentes áreas, passou
a dar justa relevância ao mistério central da nossa fé; e a Igreja iniciou um
processo de renovação, a começar pela sua própria conceção, cujo impulso e
dinamismo continua a produzir frutos, sendo o caminho sinodal, proposto pelo
Papa Francisco, um dos últimos e mais importantes.
A Igreja procede e participa do
mistério e da vida da Trindade Santíssima e tem como missão ser ícone, isto é,
ser Sua imagem e presença num mundo dilacerado por discórdias, ódios e
violência. Através dela, pela ação do Filho e do Espírito Santo – as duas mãos
de Deus Pai, no dizer de Santo Ireneu –, a Santíssima Trindade torna-se próxima
de todos nós e atrai-nos para Si a fim de vivermos ao ritmo do Seu dinamismo de
amor e doação, cuidando uns dos outros e procurando que cada um cresça à medida
da estatura completa de Cristo (Ef 4,13).
Viver imersos no mistério
trinitário de Deus significa aprender a ser ponte, a saber ser amparo e
suporte; significa fazer acontecer a fraternidade e ajudar a curar e a
restaurar relações, superando ressentimentos, intolerâncias e vinganças;
significa ser capaz de harmonizar igualdade com diferença, a pessoa com a
comunidade, o particular com o universal.
Esta experiência íntima e
sublime, pessoal e comunitária de Deus – Trindade Santíssima, que se dá na
contemplação e na ação, permite-nos descobrir a Sua presença em tudo e em
todos, convertendo-nos em construtores da paz, em habitantes comprometidos da Casa
Comum e cuidadores das suas criaturas.
Talvez se possa vislumbrar no
resgate teológico, eclesial e espiritual da dimensão trinitária do Mistério de
Deus do nosso tempo e sua vivência no quotidiano, o caminho profético apontado
por Karl Rahner no pós-Concílio, ao afirmar: “o cristão do século XXI ou será
místico ou não será cristão”.
Nicolai Berdaieff, político
cristão russo, dizia quando o interpelavam sobre o seu programa e respetivo
quadro de valores: “O meu programa é a Santíssima Trindade, pois ela ensina-nos
a salvaguardar a dignidade da pessoa e, ao mesmo tempo, a construir a comunidade
humana no amor e na justiça”. Que este programa seja também o nosso!
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