domingo, 22 de dezembro de 2024

 Ano C - 2024

Advento passo a passo

23ºdia - 23/12/2024

Lc 1, 57-66

"«Quem virá a ser este menino?» Na verdade, a mão do Senhor estava com ele." 

O evangelho relata o nascimento de João Batista e a manifestação de Deus nesse acontecimento tão normal e tão maravilhoso ao mesmo tempo. O nascimento de uma criança é algo natural mas sempre cheio do mistério da vida que não pode vir senão de Deus. O nascimento de João tornou-se ocasião para que todos se congratulassem e dessem glória a Deus.

"Naquele tempo, chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício e congratularam-se com ela. Oito dias depois, vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. Mas a mãe interveio e disse: «Não, ele vai chamar-se João». Disseram-lhe: «Não há ninguém da tua família que tenha esse nome». Perguntaram então ao pai, por meio de sinais, como queria que o menino se chamasse. O pai pediu uma tábua e escreveu: «O seu nome é João». Todos ficaram admirados. Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. Todos os vizinhos se encheram de temor e por toda a região montanhosa da Judeia se divulgaram estes factos. Quantos os ouviam contar guardavam-nos em seu coração e diziam: «Quem virá a ser este menino?» Na verdade, a mão do Senhor estava com ele." 

A Palavra de Deus revela-nos acontecimentos da vida de muitas pessoas em quem Deus se revelou de um modo especial, mas nas circunstâncias normais da vida. Os acontecimentos tornam-se tanto mais importantes quanto nos empenhamos neles e quanto mais os vivemos no nosso coração. Tudo o que nos toca fica envolvido pelo mistério do amor e da admiração. O nascimento de João é um desses acontecimentos que nos falam da intervenção de Deus na história dos homens muito para além do acontecimento real. Aquele nascimento não foi apenas alegria para a família, mas todo o povo se alegrou e esta alegria ultrapassou as montanhas geográficas e históricas e chegou aos nossos ouvidos para que nos alegremos por termos um Deus que se incomoda com a nossa libertação.

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Preparar, discernir e diminuir. Nestes três verbos está contida a experiência espiritual de São João Batista, aquele que precedeu a vinda do Messias «pregando o batismo de conversão» ao povo de Israel. E o Papa Francisco na solenidade da Natividade do Precursor, repropôs este trinómio como paradigma da vocação de cada cristão, inserindo-o em três expressões relativas à atitude do Batista em relação a Jesus: «Depois de mim, diante de mim, longe de mim».

João agiu antes de tudo para «preparar, sem nada tomar para si». Ele, recordou o Pontífice, «era um homem importante: as pessoas procuravam-no, seguiam-no», porque as suas palavras «eram fortes» como «espada afiada», segundo a expressão de Isaías (49, 2). O Batista «alcançava o coração» das pessoas. E se «porventura teve a tentação de acreditar que era importante, não caiu nela», como demonstra a resposta que deu aos doutores que lhe perguntaram se era o Messias: «Sou voz, só voz — disse — de uma pessoa que grita no deserto. Sou somente voz, mas vim preparar o caminho para o Senhor». Portanto, a sua primeira tarefa é «preparar o coração do povo para o encontro com o Senhor».

Mas quem é o Senhor? Na resposta a esta pergunta está «a segunda vocação de João: discernir, entre muitas pessoas boas, quem é o Senhor». E «o Espírito — observou o Papa — revelou-lhe isto». De forma que «ele teve a coragem de dizer: “É este. Este é o cordeiro de Deus, o que tira o pecado do mundo”». Enquanto «na preparação João dizia: «Depois de mim vem outro...”, no discernimento, que sabe distinguir e indicar o Senhor, disse: “Diante de mim... é este”».

Neste ponto, insere-se «a terceira vocação de João: diminuir». Porque precisamente «a partir daquele momento — recordou o bispo de Roma — a sua vida começou a abaixar-se, a diminuir para que o Senhor pudesse crescer, até se aniquilar a si mesmo». Esta foi, observou o Papa Francisco, a etapa mais difícil de João, porque o Senhor tinha um estilo que ele não imaginou, a tal ponto que na prisão», onde foi mandado por Herodes Antipas, «sofreu não só a escuridão da cela mas também a do coração». Foi assaltado pelas dúvidas: «Mas será este? Terei errado?». A ponto que, recordou o Pontífice, pediu aos discípulos que fossem ter com Jesus para lhe perguntar: «Mas és tu ou temos que esperar outro?».

«A humilhação de João — frisou o bispo de Roma — foi dupla: a humilhação da sua morte, como preço de um capricho», mas também a humilhação de não poder distinguir «a história de salvação: a humilhação da escuridão da alma». Este homem que «tinha anunciado o Senhor que vinha atrás de si», que «o tinha visto diante de si», que «o soube esperar e discernir», agora «via Jesus distante. A promessa tinha-se afastado. E acabou sozinho, na escuridão, na humilhação». Não porque amasse o sofrimento, mas «porque se aniquilou para que o Senhor crescesse». Acabou «humilhado, mas com o coração em paz».

«É bom — afirmou Francisco, concluindo — pensar na vocação do cristão deste modo». De facto, «um cristão não se anuncia a si mesmo, anuncia outro, prepara o caminho para outro: para o Senhor». Além disso «deve saber discernir, saber discernir a verdade do que parece verdade e não é: homem de discernimento». Por fim «deve ser um homem que saiba abaixar-se para que o Senhor cresça, no coração e na alma dos outros».

Papa Francisco
(Meditações na Santa Missa celebrada na Capela de Santa Marta, 24 de junho de 2014)

sábado, 21 de dezembro de 2024

  IV DOMINGO DO ADVENTO 

Ano C - 2024

Eis-nos chegados ao último domingo do Advento. Na liturgia, as leituras preparam-nos para o mistério que estamos prestes a celebrar: a vinda de Deus ao mundo, no Menino que está prestes a nascer, a fazer-Se um de nós, um connosco. Contudo, a figura central deste domingo é Maria, e o seu “Sim” a Deus e ao Seu projeto de Amor, de salvação da humanidade. Que Ela nos ensine a ter a mesma atitude: de confiança e entrega a Deus, em todas as situações da nossa vida; de acolhimento aos que fazem parte da nossa vida e de construtores da paz.

Na 1ªleitura (I Miq 5, 1-4a) o profeta projeta-nos para o ambiente de humildade em que nascerá o Salvador, o Menino Deus, o Príncipe da Paz. Peçamos ao Senhor um coração pobre e humilde, pronto a receber o “Menino”.

“Eis o que diz o Senhor: «De ti, Belém-Efratá, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há de reinar sobre Israel. As suas origens remontam aos tempos de outrora, aos dias mais antigos. Por isso Deus os abandonará até à altura em que der à luz aquela que há de ser mãe. Então voltará para os filhos de Israel o resto dos seus irmãos. Ele se levantará para apascentar o seu rebanho pelo poder do Senhor, pelo nome glorioso do Senhor, seu Deus. Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. Ele será a paz».” 

Na 2ªleitura (Hebr 10, 5-10) há duas expressões que nos situam no essencial das leituras de hoje: “Eis-me aqui”; “Faça-se a Tua vontade”. Só, na medida em que nos deixarmos habitar por Jesus, aprenderemos d’Ele a entregarmo-nos assim a Deus.

“Irmãos: Ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui; no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade’». Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. É em virtude dessa vontade que nós fomos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.”

No evangelho (Lc 1, 39-45) S.Lucas dá-nos conta da forma como duas almas, totalmente entregues a Deus, se sentem em sintonia, se reconhecem no amor de Deus e cantam as maravilhas do Senhor. Louvemos nós também a Deus, pelas maravilhas que Ele operou em favor do Seu povo e continua a operar em favor da humanidade de hoje, como um todo, e de cada um de nós individualmente.

“Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».” 

Senhor, que o meu coração se abra sempre a Ti e deixe habitar por Ti. Vem, vem Senhor Jesus.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho da Liturgia de hoje, quarto Domingo do Advento, narra a visita de Maria a Isabel (cf. Lc 1, 39-45). Tendo recebido o anúncio do anjo, a Virgem não fica em casa, a pensar no que aconteceu e considerando os problemas e imprevistos, que certamente não faltavam: porque, pobrezinha, não sabia o que fazer com aquela notícia, com a cultura da época... não compreendia... Ao contrário, pensa antes de mais nos necessitados; em vez de se concentrar nos seus problemas, pensa nos necessitados, pensa em Isabel, sua prima, de idade avançada e estava grávida: uma coisa estranha, milagrosa. Maria parte com generosidade, sem se deixar intimidar pelos desconfortos da viagem, respondendo a um impulso interior que a chama a estar perto e a ajudar. Uma longa estrada, quilómetros e quilómetros, e não havia autocarro: teve que ir a pé. Ela sai para ajudar, partilhando a sua alegria. Maria doa a Isabel a alegria de Jesus, a alegria que trazia no coração e no seio. Vai ter com ela e proclama os seus sentimentos, e esta proclamação dos sentimentos depois tornou- se uma oração, o Magnificat, que todos nós conhecemos. E o texto diz que Nossa Senhora «se levantou e foi à pressa» (v. 39).

Levantou-se e foi. No último trecho do caminho de Advento deixemo-nos guiar por estes dois verbos. Levantar e caminhar depressa: são os dois movimentos que Maria fez e que nos convida a fazer tendo em vista o Natal. Antes de mais, levantar-se. Após o anúncio do anjo, para a Virgem inicia um período difícil: a sua gravidez inesperada expunha-a a incompreensões e até a severas penas, inclusive o apedrejamento, na cultura da época. Imaginemos quantos pensamentos e turbamentos tinha! No entanto, não desanimou, não se abateu, mas levantou-se. Não olhou para baixo, para os problemas, mas para o alto, para Deus. E não pensou em pedir ajuda a alguém, mas a quem levar ajuda. Pensou sempre nos outros: assim é Maria, sempre a pensar nas necessidades dos outros. Fará o mesmo, depois, nas bodas de Caná, quando se dá conta de que não há vinho. É um problema de outras pessoas, mas ela pensa nisto e procura encontrar uma solução. Maria pensa sempre nos outros. Pensa também em nós.

Aprendamos de Nossa Senhora este modo de reagir: levantarmo-nos, sobretudo quando as dificuldades ameaçam esmagar-nos. Levantarmo-nos, para não ficarmos reféns dos problemas, afundando na autopiedade ou caindo numa tristeza que nos paralisa. Mas porquê levantar-se? Porque Deus é grande e está pronto para nos reerguer se lhe estendermos a mão. Portanto, lancemos n’Ele os pensamentos negativos, os receios que bloqueiam cada impulso e que nos impedem de seguir em frente. E depois façamos como Maria: olhemos para a nossa volta e procuremos alguém a quem possamos ser úteis! Há algum idoso que eu conheço a quem posso oferecer ajuda, companhia? Todos pensem nisto. Ou fazer um serviço para uma pessoa, uma gentileza, um telefonema? Mas a quem posso dar ajuda? Levanto-me e ofereço ajuda. Ao ajudarmos os outros, ajudamo-nos a nós mesmos a reerguermo-nos das dificuldades.

O segundo movimento é caminhar depressa. Não significa proceder com agitação, de forma afanada, não, não significa isso. Trata-se, ao contrário, de conduzir os nossos dias com um ritmo feliz, olhando em frente com confiança, sem nos arrastarmos, escravos de lamentações – as queixas arruínam tantas vidas, pois começamos a queixar-nos, a queixar-nos, e a vida desce a pique. Reclamar leva a estar sempre à procura de alguém a quem culpar. Indo em direção da casa de Isabel, Maria prossegue com o passo rápido de alguém cujo coração e vida estão cheios de Deus, cheios da sua alegria. Então perguntemo-nos, para nosso benefício: como é o meu “passo”? Sou proativo ou permaneço melancólico, na tristeza? Avanço com esperança ou fico parado e sinto pena de mim mesmo? Se prosseguirmos com o passo cansado dos resmungos e das tagarelices, não levaremos Deus a ninguém, levaremos apenas amarguras, coisas obscuras. Ao contrário, é tão bom cultivar um humor saudável, como faziam, por exemplo, São Tomás More ou São Filipe Néri. Podemos pedir também esta graça, a graça do humor saudável: faz muito bem. Não esqueçamos que o primeiro ato de caridade que podemos fazer ao próximo é oferecer-lhe um rosto sereno e sorridente. É levar-lhe a alegria de Jesus, como fez Maria com Isabel.

Que a Mãe de Deus nos pegue pela mão, nos ajude a levantarmo-nos e a caminhar depressa rumo ao Natal!

Papa Francisco
(Angelus, 19 de dezembro de 2021)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

 Ano C - 2024 

Advento passo a passo 

21ºdia - 21/12/2024

Lc 1, 39-45

«Chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação».

O segredo da vida do homem está nesta capacidade de escutar a saudação. Maria recebeu de Deus uma comunicação. José, no meio das suas dúvidas e incertezas, recebeu também uma palavra vinda do céu. Maria faz com que essa palavra divina chegue aos ouvidos de Isabel. A Palavra chegou até nós através de muitos homens e mulheres que, tendo acolhido a voz de Deus, a comunicaram a outros. Também nós podemos ouvir a voz desta saudação. A voz que nos transmite a Boa Notícia de Deus que nos vem salvar, em Cristo, o Emanuel, o Deus connosco. Escutando exultaremos de alegria.

"Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor»." 

A Tua voz, Senhor, ressoa no meu coração através de milhares de vozes que Te escutaram e escutam ainda hoje. Essas vozes chamam-me a estar atento para que a alegria da Tua passagem pela minha casa, a Tua visita à minha vida, seja motivo de grande alegria. Ensina-me, Senhor, esta atitude de Isabel, para não perder a oportunidade que me dás de acolher, em cada dia, a alegria da Tua palavra libertadora.

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Amados irmãos e irmãs, bom dia!

A liturgia de hoje (...) põe em primeiro plano a figura de Maria, a Virgem Mãe, na expetativa de dar à luz Jesus, o salvador do mundo. Fixemos o olhar sobre ela, modelo de  e de caridade; e podemos perguntar-nos: quais eram os seus pensamentos nos meses da expetativa? A resposta provém precisamente do trecho evangélico de hoje, a narração da visita de Maria à sua idosa prima Isabel (cf. Lc 1, 39-45). O anjo Gabriel tinha revelado que Isabel esperava um filho e já estava no sexto mês (cf. Lc 1, 26.36). E então a Virgem, que acabara de conceber Jesus por obra de Deus, partiu à pressa de Nazaré, na Galileia, para chegar aos montes da Judeia, e se encontrar com a sua prima.

Diz o Evangelho: «Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel» (v. 40). Certamente congratulou-se com ela pela sua maternidade, assim como por sua vez Isabel se congratulou com Maria dizendo: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?» (vv. 42-43). E imediatamente louva a sua : «Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor» (v. 45). É evidente o contraste entre Maria, que teve fé, e Zacarias, o marido de Isabel, o qual duvidara, e não acreditara na promessa do anjo e por isso permanece mudo até ao nascimento de João. É um contraste.

Este episódio ajuda-nos a ler com uma luz muito particular o mistério do encontro do homem com Deus. Um encontro que não acontece com prodígios espetaculares, mas antes no sinal da  e da caridade. Com efeito, Maria é bem-aventurada porque acreditou: o encontro com Deus é fruto da fé. Ao contrário, Zacarias, o qual duvidou e não acreditou, permaneceu surdo e mudo. Para crescer na fé durante o longo silêncio: sem fé permanece-se inevitavelmente surdos à voz confortadora de Deus; e também incapazes de pronunciar palavras de consolação e de esperança para os nossos irmãos. E nós vemos isto todos os dias: as pessoas que não têm fé ou que têm uma fé muito tíbia, quando devem aproximar-se de uma pessoa que sofre, dirigem-lhe palavras de circunstância, mas não consegue chegar ao coração porque não têm força. Não têm força porque não têm fé, e se não têm fé não lhes saem as palavras que chegam ao coração dos outros. A fé, por sua vez, alimenta-se na caridade. O evangelista narra que «Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa» (v. 39) para a casa de Isabel: à pressa, não com ansiedade, não ansiosa, mas à pressa, em paz. “Pôs-se a caminho”: um gesto cheio de solicitude. Teria podido ficar em casa para preparar o nascimento do seu filho, mas ao contrário, preocupa-se primeiro pelos outros e não por si, demonstrando, com os factos, que já é discípula daquele Senhor que leva no seio. O evento do nascimento de Jesus começou assim, com um simples gesto de caridade: de resto, a caridade autêntica é sempre fruto do amor de Deus.

O Evangelho da visita de Maria a Isabel, que ouvimos hoje na Missa, prepara-nos para viver bem o Natal, comunicando-nos o dinamismo da fé e da caridade. Este dinamismo é obra do Espírito Santo: o Espírito de Amor que fecundou o seio virginal de Maria e que a levou a apressar-se para se colocar ao serviço da prima idosa. Um dinamismo cheio de júbilo, como se vê no encontro entre as duas mães, que é um hino de alegre exultação no Senhor, o qual realiza grandes coisas com os pequeninos que confiam n’Ele.

A Virgem Maria nos obtenha a graça de viver um Natal extrovertido, mas não dispersivo. Extrovertido: que no centro não esteja o nosso “eu”, mas o Tu de Jesus e o tu dos irmãos, sobretudo daqueles que têm necessidade de uma ajuda. Então daremos espaço ao Amor que, também hoje, se quer fazer carne e vir habitar entre nós.

Papa Francisco
(Angelus, 23 de dezembro de 2018)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

  Ano C - 2024

Advento passo a passo

20ºdia - 20/12/2024

Lc 1, 26-38

«Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus.»

O relato evangélico conta o anúncio do anjo que vem da parte de Deus “convidar” Maria para ser a mãe de Jesus. É um relato muito conhecido que pretende evidenciar a proposta de Deus, a relação de Jesus com David que o identifica com o Messias, a ação de Deus em Maria, através do Espírito Santo, que mostra a origem divina do Menino que vai nascer e a atitude de obediência de Maria diante da proposta de Deus.

"Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?» O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra»." 

Sinto, hoje, Senhor, que o meu coração quer ser como o de Maria e o de José que, ao escutarem a Tua palavra, mudaram as suas decisões e os seus desejos para fazer a Tua vontade e dar seguimento ao Teu projeto. Nem sempre me é fácil alterar a minha vontade, nem mudar a minha maneira de ver a vida. Nem sempre penso no que Tu queres e poucas vezes entendo que a Tua vontade é mais sensata que a minha. Ajuda-me, Senhor, a ver como Tu vês para não me perder nos labirintos da minha maneira de pensar.

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Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, o Evangelho propõe-nos, mais uma vez, a narração da Anunciação. «“Salvé, ó cheia de graça, o Senhor está contigo”», diz o anjo a Maria, «Hás de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus» (Lc 1, 28.31). Parece ser um anúncio de mera alegria, destinado a fazer feliz a Virgem: quem, entre as mulheres da época, não desejava ser a mãe do Messias? Mas, juntamente com a alegria, estas palavras prenunciam a Maria uma grande provação. Porquê? Porque naquele momento ela era “noiva” (v. 27). Em tal situação, a Lei de Moisés estabelecia que não deveria haver qualquer relação nem coabitação. Portanto, tendo um filho, Maria teria transgredido a Lei, e as penas para as mulheres eram terríveis: era previsto o apedrejamento (cf. Dt 22, 20-21). Certamente a mensagem divina encheu o coração de Maria de luz e força; no entanto, teve que se confrontar com uma escolha crucial: dizer “sim” a Deus, arriscando tudo, inclusive a própria vida, ou recusar o convite e seguir o seu caminho normal.

O que fez ela? Respondeu assim: «“Faça-se em mim segundo a tua palavra”» (Lc 1, 38)Faça-se (fiat). Mas na língua em que o Evangelho está escrito não é simplesmente um “faça-se”. A expressão verbal indica um forte desejo, indica a vontade de que algo se cumpra. Por outras palavras, Maria não diz: “Se tiver que ser, assim seja..., se não há outra solução...”. Não se trata de resignação. Ela não exprime uma aceitação fraca e submissa, mas um desejo forte, um desejo vivo. Não é passiva, mas ativa. Ela não se submete a Deus, ela adere a Deus. Ela é uma apaixonada disposta a servir o seu Senhor em tudo e imediatamente. Ela poderia ter pedido algum tempo para pensar sobre isso, ou para mais explicações sobre o que iria acontecer; ter estabelecido algumas condições... Em vez disso, ela não pediu tempo, não fez Deus esperar, não adiou.

Quantas vezes - pensemos  agora em nós - quantas vezes a nossa vida é feita de adiamentos, até a nossa vida espiritual! Por exemplo: sei que é bom para mim rezar, mas hoje não tenho tempo... “amanhã, amanhã, amanhã, amanhã...” adiamos as coisas: faço-o amanhã; sei que ajudar alguém é importante - sim, tenho que fazer isto:  faço-o amanhã. É a mesma cadeia de amanhãs... Adiar as coisas. Hoje, em vésperas do Natal, Maria convida-nos a não adiar, a dizer “sim”: “Devo rezar?” “Sim, e eu rezo”. “Devo ajudar os outros? Sim”. Como o faço? Faço-o. Sem adiar. Cada “sim” custa. Cada “sim” custa, mas sempre menos do que quanto custou a ela aquele “sim” corajoso, aquele “sim” imediato, aquele «Faça-se em mim segundo a tua palavra» que nos trouxe a salvação.

E nós, que “sim” podemos dizer? Neste momento difícil, em vez de nos queixarmos (…), façamos algo por aqueles que têm menos: não mais um presente para nós e para os nossos amigos, mas para uma pessoa carente na qual ninguém pensa! E outro conselho: para que Jesus nasça em nós, preparemos o coração: rezemos. Não nos deixemos “levar” pelo consumismo: “Devo comprar presentes, tenho de fazer isto e aquilo...”. Esse frenesim de fazer tantas coisas... o importante é Jesus. O consumismo, irmãos e irmãs, sequestrou-nos o Natal. O consumismo não está na manjedoura de Belém: nela há realidade, pobreza, amor. Preparemos o coração como fez Maria: livre do mal, acolhedor, pronto a hospedar Deus.

«Faça-se em mim segundo a tua palavra». É a última frase da Virgem neste evangelho, e é o convite a dar um passo concreto em direção ao Natal. Porque se o nascimento de Jesus não tocar a nossa vida - a minha, a tua, todas - se não tocar a vida, passa em vão. No Angelus agora também nós diremos “cumpra-se em mim a tua palavra”: que Nossa Senhora nos ajude a dizê-lo com a vida, com a atitude destes últimos dias, a fim de nos prepararmos bem para o Natal.

Papa Francisco
(Angelus, 20 de dezembro de 2020)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

  Ano C - 2024

Advento passo a passo

19ºdia - 19/12/2024

Lc 1, 5-25

«Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João.»

O texto trata exclusivamente do nascimento de João Batista e das circunstâncias que envolveram este acontecimento. O nascimento de João está intimamente ligado com o de Jesus e os elementos que o compõem são praticamente os mesmos. Isabel é estéril enquanto Maria é virgem, o anjo aparece a Zacarias e não a Isabel, mas trata-se do mesmo anjo, Gabriel. O anjo começa por dizer “não temas” e anuncia a mensagem do nascimento. Zacarias coloca ao anjo uma dificuldade tal como Maria. É indicado pelo anjo o nome de João tal como acontece com Jesus.

“Nos dias de Herodes, rei da Judeia, vivia um sacerdote chamado Zacarias, da classe de Abias, cuja esposa era descendente de Aarão e se chamava Isabel. Eram ambos justos aos olhos de Deus e cumpriam irrepreensivelmente todos os mandamentos e leis do Senhor. Não tinham filhos, porque Isabel era estéril e os dois eram de idade avançada. Quando Zacarias exercia as funções sacerdotais diante de Deus, no turno da sua classe, coube-lhe em sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor para oferecer o incenso. Toda a assembleia do povo, durante a oblação do incenso, estava cá fora em oração. Apareceu-lhe então o anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. Ao vê-lo, Zacarias ficou perturbado e encheu-se de temor.   Mas o anjo disse-lhe: «Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. Será para ti motivo de grande alegria e muitos hão de alegrar-se com o seu nascimento, porque será grande aos olhos do Senhor. Não beberá vinho nem bebida alcoólica; será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor». Zacarias disse ao anjo: «Como hei de saber que é assim, se eu estou velho e a minha esposa de idade avançada?». O anjo respondeu-lhe: «Eu sou Gabriel, que assisto na presença de Deus e fui enviado para te anunciar esta boa nova. Mas tu vais guardar silêncio, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto aconteça, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão a seu tempo. Entretanto, o povo esperava por Zacarias e admirava-se por ele se demorar no Santuário. Quando ele saiu, não lhes podia falar e então compreenderam que tinha tido uma visão no Santuário. Ele fazia-lhes sinais e continuava mudo. Ao terminarem os seus dias de serviço, Zacarias voltou para casa. Algum tempo depois, Isabel, sua esposa, concebeu e permaneceu oculta durante cinco meses, dizendo: «Assim procedeu o Senhor para comigo nos dias em que Se dignou livrar-me desta desonra diante dos homens».”

É curioso o facto de este acontecimento ser claramente o anúncio da chegada da salvação para o povo, porque João é o que vai à frente do Senhor e será alegria para Zacarias e para muitos. Mas este menino que traz a alegria e irá à frente do Senhor nasce numa família marginalizada por causa da esterilidade da mãe. A salvação chega aos pobres, aos humildes, aos marginalizados e desprezados com a colaboração dos mesmos pobres e marginalizados. Deus age através destes que parecem não ter condições para realizar a salvação. Assim se vê que a salvação acontece pelo poder de Deus e não pelas mãos dos homens.

O nascimento de João desperta em mim a consciência de que Deus quer salvar-me e para o fazer recorre a todas as possibilidades da minha história. Deus não me salva de fora, à margem da minha vida, mas em mim, participando da minha história, dos meus problemas, dúvidas e anseios. Ele participa da minha pequenez e da minha pobreza e desde dentro exerce a ação salvífica de que necessito. A minha pobreza, as minhas incapacidades e os meus pecados não são impedimento para que Deus me salve. Ele ultrapassa até a minha falta de fé. Deus quer salvar-me e serve-se de tudo para criar em mim o espaço de liberdade que eu necessito para poder dizer sim. Um sim, meu, livre, espontâneo, mas o sim necessário para que possa ter efeito a ação de Deus.

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Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje a liturgia convida-nos a celebrar a festa da Natividade de São João Batista. O seu nascimento é o evento que ilumina a vida dos seus pais, Isabel e Zacarias, e envolve os parentes e os vizinhos na alegria e na admiração. Estes pais idosos tinham sonhado e até preparado aquele dia, mas já não o esperavam: sentiam-se excluídos, humilhados, desiludidos: não tinham filhos. Diante do anúncio do nascimento de um filho (cf. Lc 1, 13), Zacarias ficara incrédulo, porque as leis naturais não o permitiam: eram velhos, idosos; por conseguinte, o Senhor o tornou mudo durante todo o tempo da gestação (cf. v. 20). É um sinal. Mas Deus não depende das nossas lógicas nem das nossas limitadas capacidades humanas. É preciso aprender a confiar e a silenciar diante do mistério de Deus e a contemplar com humildade e silêncio a sua obra, que se revela na história e que muitas vezes supera a nossa imaginação.

E agora que o evento se realiza, agora que Isabel e Zacarias experimentam que «a Deus nada é impossível» (Lc 1, 37), é grande a alegria deles. A página evangélica de hoje (Lc 1, 57-66.80) anuncia o nascimento e depois detém-se no momento da imposição do nome ao menino. Isabel escolhe um nome incomum na tradição familiar e diz: «Chamar-se-á João» (v. 60), dom gratuito e já inesperado, pois João significa «Deus concedeu uma graça». E esta criança será arauto, testemunha da graça de Deus aos pobres que esperam com fé humilde a sua salvação. Inesperadamente Zacarias confirma a escolha daquele nome, escrevendo-o numa pequena tábua — pois era mudo — e «naquele momento abriu-se-lhe a boca, a sua língua soltou-se, e ele começou a falar, louvando a Deus» (v. 64).

Todo o acontecimento do nascimento de João Batista está circundado por um jubiloso sentido de admiração, de surpresa e de gratidão. Admiração, surpresa, gratidão. As pessoas são tomadas por um santo temor de Deus «e por toda a região montanhosa da Judeia se comentavam esses factos» (v. 65). Irmãos e irmãs, o povo fiel intuiu que aconteceu algo grandioso, mesmo se humilde e escondido, e pergunta-se: «O que virá a ser este menino?» (v. 66). O povo fiel de Deus é capaz de viver a fé com alegria, com sentido de admiração, de surpresa e de gratidão. Olhemos para aquela gente que falava bem acerca deste evento maravilhoso, deste milagre do nascimento de João, e fazia-o com alegria, estava feliz, com sentido de admiração, surpresa e gratidão. E pensando nisto perguntemo-nos: como é a minha fé? É uma fé jubilosa, ou é uma fé sempre igual, uma fé “tíbia”? Tenho o sentido da admiração, quando vejo as obras do Senhor, quando ouço falar da evangelização ou da vida de um santo, ou quando vejo tantas pessoas boas: sinto a graça, dentro, ou nada se move no meu coração? Sei sentir as consolações do Espírito ou sou fechado? Questionemo-nos, cada um de nós, num exame de consciência: como é a minha fé? É jubilosa? É aberta às surpresas de Deus? Porque Deus é o Deus das surpresas. “Experimentei” na alma aquele sentido da admiração que a presença de Deus dá, aquele sentido de gratidão? Pensemos nestas palavras, que são estados de ânimo da fé: alegria, sentido de admiração, surpresa e gratidão.

A Virgem Santa nos ajude a compreender que em cada pessoa humana há a marca de Deus, nascente da vida. Ela, Mãe de Deus e nossa mãe, nos torne cada vez mais conscientes de que na geração de um filho os pais agem como colaboradores de Deus. Uma missão deveras sublime que faz de cada família um santuário da vida e desperta - o nascimento de cada filho - a alegria, a admiração.

Papa Francisco
(Angelus, 24 de junho de 2018)