sábado, 29 de julho de 2023

  Tempo Comum - 2023

Nas leituras de hoje somos desafiados a questionarmo-nos sobre o que é fundamental, essencial na nossa vida, isto é, em quê, ou em quem, depositamos toda a nossa confiança, em função de quê, ou de quem, estamos dispostos a dar tudo o que temos e somos.

Na 1ªleitura (1Reis 3,5.7-12) recebemos do Senhor, tal como Salomão, a oportunidade de Lhe apresentarmos os nossos pedidos. O que é que Lhe pedimos? Aprendamos de Salomão a fazer uma oração agradável ao Senhor, pois Jesus ensinou-nos que Deus conhece todas as nossas necessidades, mesmo aquelas de quem nem nós nos apercebemos, pelo que, se Lhe abrirmos o nosso coração na oração, tudo colocaremos nas Suas mãos.

“Naqueles dias, o Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe: «Pede o que quiseres». Salomão respondeu: «Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder. Este vosso servo está no meio do povo escolhido, um povo imenso, inumerável, que não se pode contar nem calcular. Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente, para governar o vosso povo, para saber distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?». Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe: «Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti».”

Na 2ªleitura (Rom 8, 28-30) S.Paulo diz-nos que Deus nos dá sempre o que é melhor para nós. É verdade que, muitas vezes, duvidamos, mas Deus conhece-nos desde sempre (ainda não existíamos no seio da nossa mãe e já Deus nos conhecia no mais íntimo do nosso ser) e, continua Paulo, desde sempre, tudo predispôs para que, em Jesus, fossemos portadores do maior tesouro que há no mundo, para o transmitirmos aos nossos irmãos: o amor infinito de Deus por cada um em particular e pela humanidade em geral.

“Irmãos: Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. Porque os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. E àqueles que predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou.”

 

No evangelho, tal como no domingo passado, Jesus continua a revelar-nos o Amor infinito de Deus, através de mais três parábolas. Hoje apresenta-nos o Reino de Deus como um tesouro escondido, uma pérola que se procura e uma rede que pesca indistintamente peixe bom e peixe para deitar fora. Todo aquele que descobre este Tesouro, que é o Amor infinito de Deus, não pode deixar de o testemunhar na vida, junto dos que o Senhor coloca na sua vida.

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».”

Senhor, peço-te a sabedoria de coração. Ilumina-me e converte-me, para que, na vida, dê testemunho do Teu Amor infinito por cada um de nós.

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho deste Domingo (cf. Mt 13, 44-52) corresponde aos últimos versículos do capítulo que Mateus dedica às parábolas do Reino dos Céus. O trecho inclui três parábolas mencionadas superficialmente e muito breves: a do tesouro escondido, a da pérola preciosa e a da rede lançada ao mar.

Comento as duas primeiras, nas quais o Reino dos Céus é assimilado a duas realidades «preciosas» diferentes, nomeadamente o tesouro escondido no campo e a pérola de grande valor. A reação de quem encontra a pérola ou o tesouro é praticamente a mesma: o homem e o comerciante vendem tudo para comprar o que agora mais lhes agrada. Com estas duas semelhanças, Jesus propõe-se envolver-nos na construção do Reino dos Céus, apresentando uma caraterística essencial da vida cristã, da vida do Reino dos Céus: aderem plenamente ao Reino aqueles que estão dispostos a apostar tudo, que são corajosos. Na verdade, tanto o homem como o comerciante das duas parábolas vendem tudo o que têm, abandonando assim as suas seguranças materiais. A partir disto compreendemos que a construção do Reino exige não só a graça de Deus, mas também a disponibilidade ativa do homem. A graça faz tudo, tudo! Da nossa parte, apenas a disponibilidade de a receber, a não  resistência à graça: a graça faz tudo, mas é necessária a “minha” responsabilidade, a “minha” disponibilidade.

Os gestos daquele homem e do comerciante que procuram, privando-se dos seus bens, para comprar realidades mais preciosas, são gestos decisivos, são gestos radicais, diria apenas de ida, não de ida e volta: são gestos de ida. E, além disso, feitos com alegria, porque ambos encontraram o tesouro. Somos chamados a assumir a atitude destas duas personagens evangélicas, tornando-nos também nós saudáveis buscadores inquietos do Reino dos Céus. Trata-se de abandonar o pesado fardo das nossas certezas mundanas que nos impedem de procurar e construir o Reino: a luxúria da posse, a sede de lucro e de poder, pensando apenas em nós próprios.

Nos nossos dias, todos sabemos, a vida de algumas pessoas pode ser medíocre e monótona porque provavelmente não foram em busca de um verdadeiro tesouro: contentavam-se com coisas atraentes mas efémeras, com brilho cintilante mas ilusório porque depois deixam na escuridão. Ao contrário, a luz do Reino não é um fogo de artifício, é luz: o fogo de artifício dura apenas um instante, a luz do Reino acompanha-nos toda a vida.

O Reino dos Céus é o oposto das coisas supérfluas que o mundo oferece, é o oposto de uma vida trivial: é um tesouro que renova a vida todos os dias e a expande para horizontes mais amplos. De facto, aqueles que encontraram este tesouro têm um coração criativo e investigador, que não repete, mas inventa, traça e segue novos caminhos, que nos levam a amar a Deus, a amar os outros, a amar verdadeiramente a nós próprios. O sinal daqueles que caminham por esta vereda do Reino é a criatividade, procurando sempre mais. E criatividade é aquela que ganha a vida e dá vida,  dá, dá, dá e dá... Sempre à procura de tantas formas diferentes de dar a vida.

Jesus, que é o tesouro escondido e a pérola de grande valor, só pode suscitar alegria, toda a alegria do mundo: a alegria de descobrir um sentido para a própria vida, a alegria de se sentir comprometido com a aventura da santidade.

Que a Santíssima Virgem nos ajude a procurar todos os dias o tesouro do Reino dos Céus, para que nas nossas palavras e gestos se manifeste o amor que Deus nos deu, através de Jesus.

JMJ Lisboa 2023 - Dias na Diocese (Porto, Coimbra, Leiria) - Ecclesia









Programa da visita do Papa - JMJ Jisboa 2023

sábado, 22 de julho de 2023

 Tempo Comum - 2023

Os textos litúrgicos deste domingo vão contra a corrente dos nossos dias, pois situam-nos na paciência de Deus, que é infinita. Na verdade o “é para hoje”, se não for para ontem, a que a corrida frenética do nosso viver obriga, não tem nada a ver com o tempo de reflexão, de interiorização, ou de espera confiante que as leituras nos propõem. Aprendamos de Deus a saber esperar o tempo de reação de cada um, pois todos somos diferentes e na variedade de cada um é que está a maravilha do sermos um povo, em igreja.

 

Na 1ªleitura (Sab 12, 13.16-19) o autor sagrado revela-nos Deus como um ser indulgente e misericordioso, com um Amor sem fim por cada um de nós, de tal forma que nos dá a esperança feliz de que O Senhor está sempre pronto, de braços abertos, para receber o coração arrependido que se Lhe entrega.   

“Não há Deus, além de Vós, que tenha cuidado de todas as coisas; a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente. O vosso poder é o princípio da justiça e o vosso domínio soberano torna-Vos indulgente para com todos. Mostrais a vossa força aos que não acreditam na vossa omni­potência e confundis a audácia daqueles que a conhecem. Mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência, porque sempre podeis usar da força quando quiserdes. Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo que o justo deve ser humano e aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.”


Na 2ªleitura (Rom 8, 26-27) S. Paulo desafia-nos a vivermos do Espírito Santo, a deixarmos que nos habite, por inteiro, e assim, em nós reze ao Senhor. Que o Espírito Santo nos inunde com a Sua luz e n’Ele oremos a Deus. 

“Irmãos: O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, pois é em conformidade com Deus que o Espírito intercede pelos cristãos.”

 
No evangelho (Mt 13, 24-43) Jesus conta-nos três parábolas, em que nos revela a paciência infinita de Deus, o Seu Amor sem fim por cada um de nós, dando a todos a oportunidade de com Ele se encontrar. Vai esperando, não exige a todos que se convertam, que se entreguem da mesma forma e ao mesmo tempo. Respeita o tempo de reação de cada um, deixa cada  um crescer a seu tempo e espera até à época da colheita.

“Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?’. Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez isso’. Disseram-lhe os servos: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’. ‘Não! – disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro’». Jesus disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado». Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia, a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo». Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo». Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do Maligno e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os Anjos. Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do homem enviará os seus Anjos, que tirarão do seu reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade, e hão de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes. E os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça».”

Vem Espírito Santo ao meu coração e reza em mim a Deus, Nosso Senhor.

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

No Evangelho de hoje (cf. Mt 13, 24-43) voltamos a encontrar Jesus, que fala à multidão sobre o Reino dos Céus com parábolas. Comento apenas a primeira, a do joio, através da qual Jesus nos dá a conhecer a paciência de Deus, abrindo o nosso coração à esperança.

Jesus narra que no campo onde foi semeado o bom trigo, brota inclusive o joio, termo que resume todas as ervas daninhas que infestam o solo. Entre nós, podemos dizer também que ainda hoje o solo é devastado por muitos herbicidas e pesticidas, que afinal também fazem mal para a erva, o solo e a saúde. Mas isto, entre parênteses. Então, os servos vão ter com o senhor para saber de onde vem o joio, e ele responde: «Um inimigo fez isto!» (v. 28). Pois semeamos trigo bom! Um inimigo, um concorrente, veio e fez isto. Eles gostariam de arrancar imediatamente as ervas daninhas que cresciam; mas o senhor impede-os, pois com as ervas daninhas - o joio - se correria o risco de arrancar também o trigo. É necessário esperar até ao momento da colheita: só então haverá a separação e as ervas daninhas serão queimadas. É também uma história de bom senso.

Pode-se ler nesta parábola uma visão da história. Ao lado de Deus - o dono do campo - que semeia sempre e apenas boas sementes, há um adversário, que semeia o joio para dificultar o crescimento do trigo. O dono age abertamente, à luz do sol, e o seu objetivo é uma boa colheita; o adversário, ao contrário, aproveita-se da escuridão da noite e trabalha por inveja, por hostilidade, para arruinar tudo. O adversário a quem Jesus se refere tem um nome: é o diabo, o opositor por excelência de Deus. A sua intenção é dificultar o trabalho de salvação, fazer com que o Reino de Deus seja impedido por trabalhadores injustos, semeadores de escândalos. Com efeito, a boa semente e o joio não representam o bem e o mal abstrato, mas nós, seres humanos, que podemos seguir Deus ou o diabo. Muitas vezes, ouvimos dizer que uma família estava em paz, depois começaram as guerras, a inveja... um bairro estava em paz, depois houve situações negativas... E estamos habituados a dizer: “Alguém foi lá para semear contendas”, ou “esta pessoa da família, com bisbilhotices, semeia joio”. Semear o mal destrói sempre. E isto é feito pelo diabo ou pela nossa tentação: quando caímos na tentação de tagarelar para destruir os outros.

A intenção dos servos é eliminar imediatamente o mal, ou seja, as pessoas más, mas o dono é mais sábio, vê além: devem saber esperar, pois suportar a perseguição e a hostilidade faz parte da vocação cristã. Certamente, o mal há de ser rejeitado, mas os ímpios são pessoas com as quais é preciso ter paciência. Não se trata da tolerância hipócrita que esconde ambiguidades, mas da justiça temperada pela misericórdia. Se Jesus veio em busca mais de pecadores do que de justos, para curar os doentes antes ainda que os saudáveis (cf. Mt 9, 12-13), também a ação dos seus discípulos deve ter em vista não suprimir os ímpios, mas salvá-los. Eis no que consiste a paciência!

O Evangelho de hoje apresenta duas formas de agir e de habitar a história: por um lado, o olhar do dono, que vê além; por outro, o olhar dos servos, que veem o problema. Os servos preocupam-se com um campo sem ervas daninhas, o dono preocupa-se com o trigo bom. O Senhor convida-nos a ter o seu olhar, que se fixa no trigo bom, que sabe conservá-lo até no meio das ervas daninhas. Não coopera com Deus quem procura os limites e defeitos dos outros mas, ao contrário, quem sabe reconhecer o bem que cresce silenciosamente no campo da Igreja e da história, cultivando-o até ao amadurecimento. E então será Deus, e só Ele, que recompensará os bons e castigará os ímpios. Que a Virgem Maria nos ajude a compreender e a imitar a paciência de Deus, o qual não quer que se perca nenhum dos seus filhos, aos quais Ele ama com amor de Pai.

Papa Francisco

(Angelus,19 de julho de 2020)