sexta-feira, 4 de agosto de 2023
sábado, 29 de julho de 2023
Tempo Comum - 2023
Nas leituras de hoje somos desafiados a questionarmo-nos sobre o que é fundamental, essencial na nossa vida, isto é, em quê, ou em quem, depositamos toda a nossa confiança, em função de quê, ou de quem, estamos dispostos a dar tudo o que temos e somos.
Na 1ªleitura (1Reis 3,5.7-12) recebemos do Senhor, tal como
Salomão, a oportunidade de Lhe apresentarmos os nossos pedidos. O que é que Lhe
pedimos? Aprendamos de Salomão a fazer uma oração agradável ao Senhor, pois
Jesus ensinou-nos que Deus conhece todas as nossas necessidades, mesmo aquelas
de quem nem nós nos apercebemos, pelo que, se Lhe abrirmos o nosso coração na
oração, tudo colocaremos nas Suas mãos.
“Naqueles dias, o Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e
disse-lhe: «Pede o que quiseres». Salomão respondeu: «Senhor, meu Deus, Vós
fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e
não sei como proceder. Este vosso servo está no meio do povo escolhido, um povo
imenso, inumerável, que não se pode contar nem calcular. Dai, portanto, ao
vosso servo um coração inteligente, para governar o vosso povo, para saber
distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão
numeroso?». Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe: «Porque foi
este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte
dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu
desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem
haverá depois de ti».”
Na 2ªleitura (Rom 8, 28-30) S.Paulo diz-nos que Deus nos dá
sempre o que é melhor para nós. É verdade que, muitas vezes, duvidamos, mas
Deus conhece-nos desde sempre (ainda não existíamos no seio da nossa mãe e já
Deus nos conhecia no mais íntimo do nosso ser) e, continua Paulo, desde sempre,
tudo predispôs para que, em Jesus, fossemos portadores do maior tesouro que há
no mundo, para o transmitirmos aos nossos irmãos: o amor infinito de Deus por
cada um em particular e pela humanidade em geral.
“Irmãos: Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O
amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. Porque os que Ele de
antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu
Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. E àqueles que
predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e
àqueles que justificou, também os glorificou.”
No evangelho, tal como no domingo passado, Jesus continua a revelar-nos o
Amor infinito de Deus, através de mais três parábolas. Hoje apresenta-nos o
Reino de Deus como um tesouro escondido, uma pérola que se procura e uma rede
que pesca indistintamente peixe bom e peixe para deitar fora. Todo aquele que
descobre este Tesouro, que é o Amor infinito de Deus, não pode deixar de o testemunhar
na vida, junto dos que o Senhor coloca na sua vida.
“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».”
Senhor, peço-te a sabedoria de coração. Ilumina-me e converte-me, para que,
na vida, dê testemunho do Teu Amor infinito por cada um de nós.
Amados irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho deste Domingo (cf. Mt 13, 44-52)
corresponde aos últimos versículos do capítulo que Mateus dedica às parábolas
do Reino dos Céus. O trecho inclui três parábolas mencionadas superficialmente
e muito breves: a do tesouro escondido, a da pérola preciosa e a da rede
lançada ao mar.
Comento as duas primeiras, nas quais o Reino dos Céus é assimilado a duas
realidades «preciosas» diferentes, nomeadamente o tesouro escondido no campo e
a pérola de grande valor. A reação de quem encontra a pérola ou o tesouro é
praticamente a mesma: o homem e o comerciante vendem tudo para comprar o que
agora mais lhes agrada. Com estas duas semelhanças, Jesus propõe-se
envolver-nos na construção do Reino dos Céus, apresentando uma caraterística
essencial da vida cristã, da vida do Reino dos Céus: aderem plenamente ao Reino
aqueles que estão dispostos a apostar tudo, que são corajosos. Na verdade,
tanto o homem como o comerciante das duas parábolas vendem tudo o que têm,
abandonando assim as suas seguranças materiais. A partir disto compreendemos
que a construção do Reino exige não só a graça de Deus, mas também a
disponibilidade ativa do homem. A graça faz tudo, tudo! Da nossa parte, apenas
a disponibilidade de a receber, a não resistência à graça: a graça faz tudo,
mas é necessária a “minha” responsabilidade, a “minha” disponibilidade.
Os gestos daquele homem e do comerciante que procuram, privando-se dos seus
bens, para comprar realidades mais preciosas, são gestos decisivos, são gestos
radicais, diria apenas de ida, não de ida e volta: são gestos de ida. E, além
disso, feitos com alegria, porque ambos encontraram o tesouro. Somos chamados a
assumir a atitude destas duas personagens evangélicas, tornando-nos também nós
saudáveis buscadores inquietos do Reino dos Céus. Trata-se de abandonar o
pesado fardo das nossas certezas mundanas que nos impedem de procurar e
construir o Reino: a luxúria da posse, a sede de lucro e de poder, pensando
apenas em nós próprios.
Nos nossos dias, todos sabemos, a vida de algumas pessoas pode ser medíocre
e monótona porque provavelmente não foram em busca de um verdadeiro tesouro:
contentavam-se com coisas atraentes mas efémeras, com brilho cintilante mas
ilusório porque depois deixam na escuridão. Ao contrário, a luz do Reino não é
um fogo de artifício, é luz: o fogo de artifício dura apenas um instante, a luz
do Reino acompanha-nos toda a vida.
O Reino dos Céus é o oposto das coisas supérfluas que o mundo oferece, é o
oposto de uma vida trivial: é um tesouro que renova a vida todos os dias e a
expande para horizontes mais amplos. De facto, aqueles que encontraram este
tesouro têm um coração criativo e investigador, que não repete, mas inventa,
traça e segue novos caminhos, que nos levam a amar a Deus, a amar os outros, a
amar verdadeiramente a nós próprios. O sinal daqueles que caminham por esta
vereda do Reino é a criatividade, procurando sempre mais. E criatividade é
aquela que ganha a vida e dá vida, dá, dá, dá e dá... Sempre à procura de
tantas formas diferentes de dar a vida.
Jesus, que é o tesouro escondido e a pérola de grande valor, só pode
suscitar alegria, toda a alegria do mundo: a alegria de descobrir um sentido
para a própria vida, a alegria de se sentir comprometido com a aventura da
santidade.
Que a Santíssima Virgem nos ajude a procurar todos os dias o tesouro do Reino dos Céus, para que nas nossas palavras e gestos se manifeste o amor que Deus nos deu, através de Jesus.
sábado, 22 de julho de 2023
Tempo Comum - 2023
Os textos litúrgicos deste domingo vão contra a corrente dos nossos dias,
pois situam-nos na paciência de Deus, que é infinita. Na verdade o “é para
hoje”, se não for para ontem, a que a corrida frenética do nosso viver obriga,
não tem nada a ver com o tempo de reflexão, de interiorização, ou de espera
confiante que as leituras nos propõem. Aprendamos de Deus a saber esperar o
tempo de reação de cada um, pois todos somos diferentes e na variedade de cada
um é que está a maravilha do sermos um povo, em igreja.
Na 1ªleitura (Sab 12, 13.16-19) o autor sagrado revela-nos Deus como um ser indulgente e misericordioso, com um Amor sem fim por cada um de nós, de tal forma que nos dá a esperança feliz de que O Senhor está sempre pronto, de braços abertos, para receber o coração arrependido que se Lhe entrega.
“Não há Deus, além de Vós, que tenha cuidado
de todas as coisas; a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente. O
vosso poder é o princípio da justiça e o vosso domínio soberano torna-Vos
indulgente para com todos. Mostrais a vossa força aos que não acreditam na
vossa omnipotência e confundis a audácia daqueles que a conhecem. Mas Vós, o
Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência,
porque sempre podeis usar da força quando quiserdes. Agindo deste modo, ensinastes
ao vosso povo que o justo deve ser humano e aos vossos filhos destes a
esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.”
Na 2ªleitura (Rom 8, 26-27) S. Paulo desafia-nos a vivermos do Espírito Santo, a deixarmos que nos habite, por inteiro, e assim, em nós reze ao Senhor. Que o Espírito Santo nos inunde com a Sua luz e n’Ele oremos a Deus.
“Irmãos: O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, pois é em conformidade com Deus que o Espírito intercede pelos cristãos.”
“Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O reino dos
Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto
todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio. Os servos
do dono da casa foram dizer-lhe: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu
campo? Donde vem então o joio?’. Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez
isso’. Disseram-lhe os servos: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’. ‘Não! –
disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros:
Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o
no meu celeiro’». Jesus disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode
comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo
a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas
da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus
ramos». Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao
fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar
tudo levedado». Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes
dizia, a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei
a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do
mundo». Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos
aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo».
Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem e o campo
é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do
Maligno e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo e os
ceifeiros são os Anjos. Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será
no fim do mundo: o Filho do homem enviará os seus Anjos, que tirarão do seu
reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade, e hão de
lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes. E os justos
brilharão como o sol no reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça».”
Vem Espírito Santo ao meu coração e reza em mim a Deus, Nosso Senhor.
Amados irmãos e irmãs, bom dia!
No Evangelho de hoje (cf. Mt 13,
24-43) voltamos a encontrar Jesus, que fala à
multidão sobre o Reino dos Céus com parábolas. Comento apenas a primeira, a do
joio, através da qual Jesus nos dá a conhecer a paciência de Deus, abrindo
o nosso coração à esperança.
Jesus narra que no campo onde foi semeado o bom trigo, brota inclusive o
joio, termo que resume todas as ervas daninhas que infestam o solo. Entre nós,
podemos dizer também que ainda hoje o solo é devastado por muitos herbicidas e
pesticidas, que afinal também fazem mal para a erva, o solo e a saúde. Mas
isto, entre parênteses. Então, os servos vão ter com o senhor para saber de
onde vem o joio, e ele responde: «Um inimigo fez isto!» (v. 28). Pois semeamos trigo bom! Um inimigo, um concorrente, veio e fez isto. Eles
gostariam de arrancar imediatamente as ervas daninhas que cresciam; mas o
senhor impede-os, pois com as ervas daninhas - o joio - se correria o risco de
arrancar também o trigo. É necessário esperar até ao momento da colheita: só
então haverá a separação e as ervas daninhas serão queimadas. É também uma
história de bom senso.
Pode-se ler nesta parábola uma visão da história. Ao lado de Deus - o dono
do campo - que semeia sempre e apenas boas sementes, há um adversário, que
semeia o joio para dificultar o crescimento do trigo. O dono age abertamente, à
luz do sol, e o seu objetivo é uma boa colheita; o adversário, ao contrário,
aproveita-se da escuridão da noite e trabalha por inveja, por hostilidade, para
arruinar tudo. O adversário a quem Jesus se refere tem um nome: é o diabo, o
opositor por excelência de Deus. A sua intenção é dificultar o trabalho de
salvação, fazer com que o Reino de Deus seja impedido por trabalhadores
injustos, semeadores de escândalos. Com efeito, a boa semente e o joio não
representam o bem e o mal abstrato, mas nós, seres humanos, que podemos seguir
Deus ou o diabo. Muitas vezes, ouvimos dizer que uma família estava em paz,
depois começaram as guerras, a inveja... um bairro estava em paz, depois houve
situações negativas... E estamos habituados a dizer: “Alguém foi lá para semear
contendas”, ou “esta pessoa da família, com bisbilhotices, semeia joio”. Semear
o mal destrói sempre. E isto é feito pelo diabo ou pela nossa tentação: quando
caímos na tentação de tagarelar para destruir os outros.
A intenção dos servos é eliminar imediatamente o mal, ou seja, as pessoas
más, mas o dono é mais sábio, vê além: devem saber esperar, pois suportar a
perseguição e a hostilidade faz parte da vocação cristã. Certamente, o mal há
de ser rejeitado, mas os ímpios são pessoas com as quais é preciso ter
paciência. Não se trata da tolerância hipócrita que esconde ambiguidades, mas
da justiça temperada pela misericórdia. Se Jesus veio em busca mais de
pecadores do que de justos, para curar os doentes antes ainda que os saudáveis (cf. Mt 9, 12-13), também a ação dos seus discípulos deve
ter em vista não suprimir os ímpios, mas salvá-los. Eis no que consiste a
paciência!
O Evangelho de hoje apresenta duas formas de agir e de habitar a história:
por um lado, o olhar do dono, que vê além; por outro, o olhar dos servos, que
veem o problema. Os servos preocupam-se com um campo sem ervas daninhas, o dono
preocupa-se com o trigo bom. O Senhor convida-nos a ter o seu olhar, que se
fixa no trigo bom, que sabe conservá-lo até no meio das ervas daninhas. Não
coopera com Deus quem procura os limites e defeitos dos outros mas, ao
contrário, quem sabe reconhecer o bem que cresce silenciosamente no campo da
Igreja e da história, cultivando-o até ao amadurecimento. E então será Deus, e
só Ele, que recompensará os bons e castigará os ímpios. Que a Virgem Maria nos
ajude a compreender e a imitar a paciência de Deus, o qual não quer que se
perca nenhum dos seus filhos, aos quais Ele ama com amor de Pai.
Papa Francisco
(Angelus,19 de julho de 2020)
.png)
.png)
.png)
.png)