quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

  Ano C - 2024

Advento passo a passo

 

 6ºdia - 06/12/2024

Mateus 9, 27-31

«Acreditais que posso fazer o que pedis?» 

O texto apresenta-se dividido em três partes. Primeiro, dois cegos seguem atrás de Jesus implorando piedade. Depois, entram em casa e aproximam-se dele estabelecendo-se um interessante diálogo que pretende centrar a fé dos que estão com eles em casa. Finalmente surge uma advertência de Jesus e a resposta dos cegos. Trata-se de uma catequese para os que querem ser discípulos de Jesus. Esta catequese pretende ensinar que o caminho de Jesus pode ser longo e muitas vezes Jesus parece não ouvir a nossa voz. Por outro lado, é (em casa) na comunidades dos crentes que esclarecemos a fé (a fé abre os olhos) para nos centrarmos em Jesus e no poder da sua ação e não em qualquer outro interesse. Os cegos que agora veem entendem que não é importante falar do milagre mas não podem calar a verdade sobre Jesus. Por isso saem a divulgar a fama de Jesus.

"Naquele tempo, Jesus pôs-Se a caminho e seguiram-n’O dois cegos, gritando: «Filho de David, tem piedade de nós». Ao chegar a casa, os cegos aproximaram-se d’Ele. Jesus perguntou-lhes: «Acreditais que posso fazer o que pedis?» Eles responderam: «Acreditamos, Senhor». Então Jesus tocou-lhes nos olhos e disse: «Seja feito segundo a vossa fé». E abriram-se os seus olhos. Jesus advertiu-os, dizendo: «Tende cuidado, para que ninguém o saiba». Mas eles, quando saíram, divulgaram a fama de Jesus por toda aquela terra."

Tem piedade de mim, Senhor, que tendo olhos, não vejo. Mostra-me o mistério que se esconde em mim e me faz desejar ver, porque não me é suficiente o que posso contemplar com os meus olhos. Concede-me o dom da fé, a luz para os olhos da fé, a fim de que possa dar testemunho de ti aos que colocas na minha vida.

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Quando Jesus passava, dois cegos clamam por Ele referindo a sua miséria e esperança: «Filho de David, tem misericórdia de nós» (Mt 9, 27). «Filho de David» era um título atribuído ao Messias, que as profecias anunciavam ser da linhagem de David. Assim, os dois protagonistas do Evangelho de hoje são cegos e, contudo, veem o que mais conta: reconhecem Jesus como o Messias que veio ao mundo. Detenhamo-nos nos três passos deste encontro, que nos podem ajudar, neste caminho de Advento, a acolher por nossa vez o Senhor que vem, o Senhor que passa.

O primeiro passo: ir ter com Jesus para ser curado. O texto afirma que os dois cegos clamavam pelo Senhor, enquanto O seguiam (cf. 9, 27). Não O veem, mas ouvem a sua voz e seguem os seus passos. Procuram em Cristo aquilo que predisseram os profetas, ou seja, os sinais de cura e compaixão de Deus no meio do seu povo. A este respeito, escrevera Isaías: «abrir-se-ão os olhos do cego» (35, 5). E noutra profecia, contida aliás na primeira Leitura de hoje: «livres da escuridão e das trevas, os olhos dos cegos verão» (29, 18). Os dois do Evangelho confiam em Jesus e seguem-No à procura de luz para os seus olhos.

E por que motivo, irmãos e irmãs, confiam em Jesus estas duas pessoas? Porque percebem que Ele, na escuridão da história, é a luz que ilumina as noites do coração e do mundo, derrota as trevas e vence toda a cegueira. Como sabemos, também nós trazemos a cegueira no coração. Também nós, como os dois cegos, somos caminhantes muitas vezes imersos nas trevas da vida. A primeira coisa a fazer é ir ter com Jesus, como Ele próprio nos pede: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28). E quem dentre nós não está de alguma forma cansado e oprimido? Todos. Todavia sentimos relutância a encaminhar-nos para Jesus; muitas vezes preferimos ficar fechados em nós mesmos, ficar sozinhos com as nossas trevas, lamentar-nos um pouco da nossa sorte, aceitando a má companhia da tristeza. Jesus é o médico: só Ele – a luz verdadeira que a todo o homem ilumina (cf. Jo 1, 9) – nos dá em abundância luz, calor, amor. Só Ele liberta o coração do mal. Podemos interrogar-nos: fecho-me na escuridão da melancolia, que seca as fontes da alegria, ou vou ter com Jesus apresentando-Lhe a minha vida? Sigo Jesus, vou atrás d’Ele, clamo para Ele as minhas necessidades, entrego-Lhe as minhas amarguras? Façamo-lo; demos a Jesus a possibilidade de nos curar o coração. Este é o primeiro passo; a cura interior requer mais dois.

O segundo é suportar, juntos, as feridas. Nesta narração evangélica, não temos a cura só de um cego, como por exemplo nos casos de Bartimeu (cf. Mc 10, 46-52) ou do cego de nascença (cf. Jo 9, 1-41). Aqui, os cegos são dois. Vão juntos pela estrada. Juntos, partilham a pena da sua condição, juntos desejam uma luz que possa acender um clarão no coração das suas noites. O texto que ouvimos está sempre no plural, porque os dois fazem tudo juntos: ambos seguem Jesus, ambos clamam para Ele e pedem a cura; não cada um para si mesmo, mas juntos. É significativo ouvi-los dizer a Cristo: tem misericórdia de nós. Usam «nós»; não dizem «de mim». Não pensa cada qual na própria cegueira, mas pedem ajuda juntos. Eis o sinal eloquente da vida cristã, eis o traço distintivo do espírito eclesial: pensar, falar, agir como um «nós», saindo do individualismo e da pretensão de autossuficiência que fazem adoecer o coração.

Os dois cegos ensinam-nos tanto com a partilha das suas tribulações e a sua amizade fraterna. Cada um de nós está de algum modo cego por causa do pecado, que nos impede de «ver» Deus como Pai e os outros como irmãos. O que faz o pecado é desvirtuar a realidade: faz-nos ver Deus como patrão e os outros como problemas. É a obra do tentador, que falsifica as coisas e tende a mostrar-no-las sob uma luz negativa para nos lançar no desconforto e na amargura. E a má tristeza, que é perigosa e não vem de Deus, aninha-se bem na solidão. Por isso não se pode enfrentar a escuridão sozinho. Se levarmos sozinhos as nossas cegueiras interiores, somos sufocados. Precisamos de colocar-nos um ao lado do outro, partilhar as feridas, enfrentar juntos a estrada.

Queridos irmãos e irmãs, perante toda a escuridão pessoal e os desafios que enfrentamos na Igreja e na sociedade, somos chamados a renovar a fraternidade. Se permanecermos divididos entre nós, se cada um pensar apenas em si mesmo ou no seu grupo, se não nos relacionarmos, não dialogarmos, não caminharmos unidos, não nos poderemos curar plenamente da cegueira. A cura verifica-se quando carregamos juntos as feridas, quando enfrentamos juntos os problemas, quando nos ouvimos e conversamos. E esta é a graça de viver em comunidade, de compreender o valor de estar juntos, de estar em comunidade. Peço, para vós, que possais estar sempre juntos, viver sempre unidos e prosseguir jubilosamente assim: irmãos cristãos, filhos do único Pai. E peço-o também para mim.

E eis o terceiro passo: anunciar o Evangelho com alegria. Depois de terem sido curados juntos por Jesus, os dois anónimos protagonistas do Evangelho, em quem nos podemos espelhar, começam a propagar a notícia por toda a região, a falar disso por todo o lado. Há um pouco de ironia no caso: Jesus recomendara-lhes que não dissessem nada a ninguém, mas eles fazem exatamente o contrário (cf. Mt 9, 30-31). No entanto, compreende-se da narração que não é intenção deles desobedecer ao Senhor; simplesmente não conseguem conter o entusiasmo de terem sido curados, a alegria pelo que viveram no encontro com Ele. E aqui está outro sinal distintivo do cristão: a alegria do Evangelho, que é irreprimível, «enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 1); a alegria do Evangelho livra do risco duma fé intimista, sisuda e lamurienta, e introduz no dinamismo do testemunho.

Caríssimos, é bom ver-vos e verificar que viveis com alegria o anúncio libertador do Evangelho. Agradeço-vos por isso. Não se trata de proselitismo (por favor, nunca façamos proselitismo), mas de testemunho; nem dum moralismo que condena (não, não façamos isto), mas de misericórdia que abraça; nem de culto exterior, mas de amor vivido. Encorajo-vos a prosseguir por este caminho: como os dois cegos do Evangelho, renovemos também nós o encontro com Jesus e saiamos de nós próprios sem medo para O testemunhar a quantos encontramos. Saiamos levando a luz que recebemos, saiamos iluminando a noite que frequentemente nos rodeia. Irmãos e irmãs, há necessidade de cristãos iluminados, mas sobretudo luminosos, que toquem com ternura a cegueira dos irmãos; que acendam, com gestos e palavras de consolação, luzes de esperança na escuridão. Cristãos que plantem rebentos de Evangelho nos campos áridos da vida quotidiana, levem carícias às solidões do sofrimento e da pobreza.

Irmãos, irmãs, o Senhor Jesus passa… passa também pelas nossas estradas de Chipre, escuta o clamor das nossas cegueiras, quer tocar os nossos olhos, quer tocar o nosso coração, fazer-nos abrir à luz, renascer, levantar-nos interiormente: isto é o que Jesus quer fazer. E dirige também a nós a pergunta que fez àqueles cegos: «Credes que tenho poder para fazer isso?» (Mt 9, 28). Cremos que Jesus possa fazer isso? Renovemos a nossa confiança n’Ele. Digamos-Lhe:

Jesus, acreditamos que a vossa luz é maior do que qualquer uma das nossas trevas; cremos que Vós podeis curar-nos, que Vós podeis renovar a nossa fraternidade, que podeis multiplicar a nossa alegria; e, com toda a Igreja, Vos invocamos todos juntos: 

Vinde, Senhor Jesus![todos: «Vinde, Senhor Jesus!»]; 

Vinde, Senhor Jesus![todos: «Vinde, Senhor Jesus!»] ;

Vinde, Senhor Jesus!

Papa Francisco
(Viagem apostólica a Chipre e à Grécia - Nicosia,3 de dezembro de  2021)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

  Ano C - 2024

Advento passo a passo

 

 
5ºdia - 05/12/2024

Mateus 7, 21.24-27

«Nem todo aquele que Me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus. 

Jesus conta uma parábola para ensinar que a relação dos seus discípulos com Ele não pode ser uma relação de palavras nem uma relação de acasos e circunstâncias. O verdadeiro discípulo permanece na união com Jesus muito para além das circunstâncias e adversidades porque cimenta a sua relação na fidelidade e na obediência à Palavra. É como um homem que constrói a casa sobre a rocha.

"Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Nem todo aquele que Me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus. Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é como o homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; ela desmoronou-se e foi grande a sua ruína»."

Tu és, Senhor, a rocha, o alicerce, a pedra sobre a qual a minha vida se pode construir em segurança. Tantas vezes esta construção se me afigura difícil, arriscada e perigosa. Os ventos, as correntes das águas, as chuvas, fazem sentir a sua força e o seu poder. Por momentos temo como os discípulos no meio da tempestade. Mas a tua Palavra, a certeza de que não me enganas e o testemunho de tantos que confiaram em Ti, faz-me vencer os meus medos e a minha insegurança. Obrigado por seres para mim o refúgio seguro.

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Queridos amigos jovens

Dou-vos as minhas cordiais boas-vindas! A vossa presença enche-me de alegria. Estou grato ao Senhor por este encontro com o entusiasmo da vossa cordialidade. Sabemos que "onde dois ou três estão reunidos em nome de Jesus, Ele está no meio deles" (cf. Mt 18, 20). Mas hoje aqui sois muito mais numerosos! Agradeço a cada um e a cada uma de vós. Por conseguinte, Jesus encontra-se aqui connosco. Ele está presente entre os jovens da terra polaca, para falar de uma casa, que jamais desmoronará, porque está edificada sobre a rocha. Esta é a palavra evangélica que acabamos de ouvir (cf. Mt 7, 24-27).

No coração de cada homem existe, meus amigos, o desejo de uma casa. Ainda mais num coração jovem, há o grande anseio pela própria casa, que seja sólida, aonde não só se possa voltar com alegria, mas também onde com júbilo se possa receber cada hóspede que chegar. É a saudade de uma casa em que o pão quotidiano seja o amor, o perdão, a necessidade de compreensão, em que a verdade seja a fonte da qual brota a paz do coração. É a nostalgia de uma casa da qual se possa sentir orgulho, de que não se deva envergonhar e cujo desmoronamento nunca seja preciso chorar.

Esta saudade não é senão o desejo de uma vida plena, feliz, bem sucedida. Não tenhais medo desta aspiração. Não a rejeiteis! Não desanimeis ao ver casas desabadas, desejos malogrados, saudades dissipadas. Deus Criador, que infunde num jovem coração o imenso desejo da felicidade, jamais o abandona na cansativa construção daquela casa que se chama vida.

Meus amigos, impõe-se uma interrogação: "Como construir esta casa?". É uma pergunta que, sem dúvida, já surgiu com frequência no vosso coração e que ainda há de voltar muitas vezes. Trata-se de uma interrogação que é necessário levantar não somente uma vez. Ela deve estar todos os dias diante dos olhos do coração: como construir a casa chamada vida? Jesus, cujas palavras pudemos ouvir na redação do evangelista Mateus, exorta-nos a construir na rocha. Efetivamente, só assim a casa não desabará. Mas o que significa construir a casa sobre a rocha? Edificar sobre a rocha quer dizer em primeiro lugar: construir sobre Cristo e com Cristo. Jesus diz: "Todo aquele que escuta estas minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha" (Mt 7, 24). Aqui, não se trata de palavras vazias, proferidas por uma pessoa qualquer, mas das palavras de Jesus. Não significa ouvir uma pessoa qualquer, mas ouvir Jesus. Não se trata de realizar aqui uma coisa qualquer, mas sim de cumprir as palavras de Jesus.

Construir sobre Cristo e com Cristo significa edificar sobre um fundamento que se chama amor crucificado. Quer dizer construir com Alguém que, conhecendo-nos mais do que nós mesmos, nos diz: "És precioso aos meus olhos... te estimo e te amo" (Is 43, 4). Quer dizer construir com Alguém que é sempre fiel, não obstante nós faltemos à fidelidade, porque ele não pode renegar-se a si mesmo (cf. 2 Tm 2, 13). Significa edificar com Alguém que se debruça constantemente sobre o coração ferido do homem e diz: "Não te condeno. Vai, e doravante não tornes a pecar" (Jo 8, 11). Quer dizer construir com Alguém, que do alto da cruz estende os seus braços, para repetir por toda a eternidade: "Entrego a minha vida por ti, homem, porque te amo". Enfim, construir sobre Cristo quer dizer fundamentar na sua vontade todas as aspirações pessoais, as expectativas, os sonhos, as ambições e todos os seus projetos. Significa dizer a si mesmo, à própria família, aos próprios amigos e ao mundo inteiro, mas sobretudo a Cristo: "Senhor, na minha vida nada quero fazer contra ti, porque Tu sabes o que é melhor para mim. Tu tens palavras de vida eterna" (cf. Jo 6, 68). Meus amigos, não tenhais medo de apostar em Cristo! Tende saudades de Cristo, como fundamento da vida! Inflamai em vós o desejo de construir a vossa própria vida com Ele e por Ele! Porque não pode perder aquele que aposta tudo no amor crucificado do Verbo encarnado.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

 Ano C - 2024

Advento passo a passo

 

 4ºdia - 04/12/2024

Mateus 15, 29-37

“Veio ter com Ele uma grande multidão”;

“Ele curou-os”;

«Tenho pena desta multidão, porque há três dias que estão comigo e não têm que comer(…)»;

«Quantos pães tendes?» Eles responderam-Lhe: «Sete, e alguns peixes pequenos»;

“tomou os sete pães e os peixes e, dando graças, partiu-os”;

“Todos comeram até ficarem saciados.”

A liturgia de hoje  traz-nos dois sinais do Reino. O primeiro é a cura de muitos enfermos com a qual o evangelista nos quer mostrar que estamos nos tempos do Messias segundo as profecias de Isaías. O segundo sinal do Reino é o banquete narrado na primeira leitura e no salmo. Nos dias do Messias, o Senhor brindará com um banquete todos os povos em Sião. Estamos nesses “últimos dias”. 

Pe. Luís Renato Carvalho de Oliveira, SJ

"Naquele tempo, foi Jesus para junto do mar da Galileia e, subindo ao monte, sentou-Se. Veio ter com Ele uma grande multidão, trazendo coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros, que lançavam a seus pés. Ele curou-os, de modo que a multidão ficou admirada, ao ver os mudos a falar, os aleijados a ficar sãos, os coxos a andar e os cegos a ver; e todos davam glória ao Deus de Israel. Então Jesus, chamando a Si os discípulos, disse-lhes: «Tenho pena desta multidão, porque há três dias que estão comigo e não têm que comer. Mas não quero despedi-los em jejum, pois receio que desfaleçam no caminho». Disseram-Lhe os discípulos: «Onde iremos buscar, num deserto, pães suficientes para saciar tão grande multidão?» Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes?» Eles responderam-Lhe: «Sete, e alguns peixes pequenos». Jesus ordenou então às pessoas que se sentassem no chão. Depois tomou os sete pães e os peixes e, dando graças, partiu-os e foi-os entregando aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. Todos comeram até ficarem saciados. E com os pedaços que sobraram encheram sete cestos."

A força do texto de Mateus convida-me a subir com Jesus ao monte. (…) . O importante é querer ser tocado por Ele, pelo seu olhar, pelo seu coração. A Palavra chama-me a fazer tudo o que é necessário e está ao meu alcance para poder sentar-me à mesa com Jesus e partilhar do seu pão.

O Teu pão, Senhor, é o alimento que sacia a minha alma. Nada me pode saciar como Tu sacias. Nem sequer é preciso muito pão, basta um pouco. Sete pães chegam e sobram para uma multidão, porque o pão és Tu mesmo. Dá-me sempre desse pão para que em mim brote a vida que não se acaba, a Tua vida, Senhor.

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Amados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho (…) apresenta-nos o prodígio da multiplicação dos pães (cf. Mt 14, 13-21). A cena verifica-se num lugar deserto, onde Jesus se tinha retirado com os seus discípulos. Mas as pessoas vão procura-l’O-no para O ouvir e serem curadas: de facto as suas palavras e gestos curam e dão esperança. Ao pôr do sol, as multidões ainda lá estão, e os discípulos, homens práticos, convidam Jesus a despedi-las para que possam ir buscar comida. Mas Ele responde: «Dai-lhes vós de  comer» (v. 16). Imaginemos os rostos dos discípulos! Jesus sabe muito bem o que está prestes a fazer, mas quer mudar a atitude deles: não diz “despedi-os, que se desenrasquem, que encontrem sozinhos de comer”, não, mas “o que nos oferece a Providência para partilhar? Duas atitudes contrárias. E Jesus quer levá-los à segunda atitude, porque a primeira proposta é a proposta de um homem prático, mas não é generosa: “despedi-os, deixai que vão, que se arranjem”. Jesus pensa de outra forma. Jesus, através desta situação, quer educar os seus amigos de ontem e de hoje na lógica de Deus. E qual é a lógica de Deus que vemos aqui? A lógica de cuidar do próximo. A lógica de não lavar as mãos, a lógica de não olhar para o outro lado. A lógica de cuidar do outro. “Que se arranjem” não faz parte do vocabulário cristão.

Assim que um dos Doze diz, com realismo: «Mas não temos aqui senão cinco pães e dois peixes», Jesus responde: «Trazei-mos cá». (vv. 17-18). Toma essa comida nas suas mãos, levanta os olhos ao céu, recita a bênção e começa a partir e dá as porções aos discípulos para distribuir. E esses pães e peixes não se esgotam, são suficientes para satisfazer milhares de pessoas.

Com este gesto Jesus manifesta o seu poder, não de uma forma espetacular, mas como um sinal da caridade, da generosidade de Deus Pai para com os seus filhos cansados e oprimidos. Está imerso na vida do seu povo, compreende o seu cansaço, compreende os seus limites, mas não deixa que ninguém se perca ou desfaleça: alimenta com a sua Palavra e dá comida abundante para o sustento.

Nesta narração evangélica percebe-se também a referência à Eucaristia, especialmente quando descreve a bênção, o partir do pão, a entrega aos discípulos, a distribuição ao povo (v. 19). E deve notar-se quão estreita é a ligação entre o pão eucarístico, alimento para a vida eterna, e o pão quotidiano, necessário para a vida terrena. Antes de se oferecer ao Pai como Pão de salvação, Jesus ocupa-se da comida para aqueles que O seguem e que, para estar com Ele, se esqueceram de tomar providências. Por vezes o espírito e a matéria estão em contraste, mas na realidade o espiritualismo, tal como o materialismo, é alheio à Bíblia. Não é uma linguagem da Bíblia.

A compaixão, a ternura que Jesus mostrou para com as multidões não é sentimentalismo, mas a manifestação concreta do amor que cuida das necessidades das pessoas. E somos chamados a aproximar-nos da mesa eucarística com estas mesmas atitudes de Jesus: [antes de tudo] compaixão pelas necessidades dos outros. Esta palavra é repetida no Evangelho quando Jesus vê um problema, uma doença ou aquelas pessoas sem comida. “Compadeceu-se delas”. A compaixão não é um sentimento puramente material; a verdadeira compaixão é sofrer com, assumir as dores dos outros. Talvez hoje nos faça bem perguntar a nós mesmos: sinto compaixão? Quando leio as notícias sobre guerras, fome, pandemias, tantas coisas, será que sinto compaixão por essas pessoas? Será que tenho pena das pessoas que estão próximas de mim? Sou capaz de sofrer com elas, ou olho para o outro lado ou digo “que se arranjem”? Não esquecer esta palavra “compaixão”, que é confiança no amor providente do Pai e significa partilha corajosa.

Que Maria Santíssima nos ajude a percorrer o caminho que o Senhor nos mostra no Evangelho de hoje. É o caminho da fraternidade, que é essencial para enfrentar a pobreza e o sofrimento deste mundo, especialmente neste momento grave, e que nos projeta para além do próprio mundo, porque é um caminho que começa com Deus e regressa a Deus.

Papa Francisco
(Angelus,2 de agosto de  2020)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

  Ano C - 2024

Advento passo a passo

3ºdia - 3/12/2024

Lc 10, 21-24

" Tudo Me foi entregue por meu Pai; ninguém sabe o que é o Filho senão o Pai, nem o que é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar "

O texto consta de duas partes distintas. A primeira é uma oração de louvor na qual Jesus se dirige a Deus chamando-lhe Pai. Depois são postos frente a frente os sábios e os inteligentes com os pequeninos. (…) Deus revela-se aos que tomam a atitude dos pequenos.

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" Naquele tempo, Jesus exultou de alegria pela ação do Espírito Santo e disse: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isto foi do teu agrado. Tudo Me foi entregue por meu Pai; ninguém sabe o que é o Filho senão o Pai, nem o que é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar». Voltando-Se depois para os discípulos, disse-lhes: «Felizes os olhos que veem o que estais a ver, porque Eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes e não o viram e ouvir o que vós ouvis e não o ouviram»."

A revelação consiste em dar a conhecer o próprio ser de Deus, a unidade entre o Pai e o Filho. No final, Jesus, refere que este conhecimento de Deus que ele revela aos discípulos foi desejado por muitos que não tiveram a alegria de conhecer de modo tão próximo como os discípulos têm agora oportunidade de conhecer.

Jesus faz-me hoje o convite a conhecer o mistério de Deus, o mistério do Reino. Confrontado com a multidão de homens e mulheres que esperaram a salvação, não posso tomar uma atitude apática, indiferente, menor. Diante do mistério de Deus revelado por Jesus não posso tomar a atitude dos sábios e inteligentes que tudo questionam. Sou convidado a uma resposta de fé semelhante à dos simples e pequeninos. Preciso dizer a mim mesmo, como quem se convida a si próprio, eu quero ver e ouvir o que outros desejaram ver e ouvir e não tiveram oportunidade.

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Queridos irmãos e irmãs!

(…) E, justamente sobre a alegria de Jesus e dos discípulos missionários, quero propor um ícone bíblico que encontramos no Evangelho de Lucas (cf. 10, 21-23).

1. Narra o evangelista que o Senhor enviou, dois a dois, os setenta e dois discípulos a anunciar, nas cidades e aldeias, que o Reino de Deus estava próximo, preparando assim as pessoas para o encontro com Jesus. Cumprida esta missão de anúncio, os discípulos regressaram cheios de alegria: a alegria é um traço dominante desta primeira e inesquecível experiência missionária. O Mestre divino disse-lhes: «Não vos alegreis, porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu. Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te, ó Pai (…)”. Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que veem o que estais a ver”» (Lc 10, 20-21.23).

As cenas apresentadas por Lucas são três: primeiro, Jesus falou aos discípulos, depois dirigiu-Se ao Pai, para voltar de novo a falar com eles. Jesus quer tornar os discípulos participantes da sua alegria, que era diferente e superior àquela que tinham acabado de experimentar.

2. Os discípulos estavam cheios de alegria, entusiasmados com o poder de libertar as pessoas dos demónios. Jesus, porém, recomendou-lhes que não se alegrassem tanto pelo poder recebido, como sobretudo pelo amor alcançado, ou seja, «por estarem os vossos nomes escritos no Céu» (Lc 10, 20). Com efeito, fora-lhes concedida a experiência do amor de Deus e também a possibilidade de o partilhar. E esta experiência dos discípulos é motivo de jubilosa gratidão para o coração de Jesus. Lucas viu este júbilo numa perspetiva de comunhão trinitária: «Jesus estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo», dirigindo-Se ao Pai e bendizendo-O. Este momento de íntimo júbilo brota do amor profundo que Jesus sente como Filho por seu Pai, Senhor do Céu e da Terra, que escondeu estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelou aos pequeninos (cf. Lc 10, 21). Deus escondeu e revelou, mas, nesta oração de louvor, é sobretudo a revelação que se põe em realce. Que foi que Deus revelou e escondeu? Os mistérios do seu Reino, a consolidação da soberania divina de Jesus e a vitória sobre satanás.

Deus escondeu tudo isto àqueles que se sentem demasiado cheios de si e pretendem saber já tudo. De certo modo, estão cegos pela própria presunção e não deixam espaço a Deus. Pode-se facilmente pensar em alguns contemporâneos de Jesus que Ele várias vezes advertiu, mas trata-se de um perigo que perdura sempre e tem a ver connosco também. Ao passo que os «pequeninos» são os humildes, os simples, os pobres, os marginalizados, os que não têm voz, os cansados e oprimidos, que Jesus declarou «felizes». Pode-se facilmente pensar em Maria, em José, nos pescadores da Galileia e nos discípulos chamados ao longo da estrada durante a sua pregação.

3. «Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (Lc 10, 21). Esta frase de Jesus deve ser entendida como referida à sua exultação interior, querendo «o teu agrado» significar o plano salvífico e benevolente do Pai para com os homens. No contexto desta bondade divina, Jesus exultou, porque o Pai decidiu amar os homens com o mesmo amor que tem pelo Filho. Além disso, Lucas faz-nos pensar numa exultação idêntica: a de Maria. «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1, 46-47). Estamos perante a boa Notícia que conduz à salvação. Levando no seu ventre Jesus, o Evangelizador por excelência, Maria encontrou Isabel e exultou de alegria no Espírito Santo, cantando o Magnificat. Jesus, ao ver o bom êxito da missão dos seus discípulos e, consequentemente, a sua alegria, exultou no Espírito Santo e dirigiu-Se a seu Pai em oração. Em ambos os casos, trata-se de uma alegria pela salvação em ato, porque o amor com que o Pai ama o Filho chega até nós e, por obra do Espírito Santo, envolve-nos e faz-nos entrar na vida trinitária.

O Pai é a fonte da alegria. O Filho é a sua manifestação, e o Espírito Santo o animador. Imediatamente depois de ter louvado o Pai – como diz o evangelista Mateus – Jesus convida-nos: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11, 28-30). «A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1).

De tal encontro com Jesus, a Virgem Maria teve uma experiência totalmente singular e tornou-se «causa nostrae laetitiae». Os discípulos, por sua vez, receberam a chamada para estar com Jesus e ser enviados por Ele a evangelizar (cf. Mc 3, 14), e, feito isso, sentem-se repletos de alegria. Porque não entramos também nós nesta torrente de alegria?

4. «O grande risco do mundo atual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 2). Por isso, a humanidade tem grande necessidade de dessedentar-se na salvação trazida por Cristo. Os discípulos são aqueles que se deixam conquistar mais e mais pelo amor de Jesus e marcar pelo fogo da paixão pelo Reino de Deus, para serem portadores da alegria do Evangelho. Todos os discípulos do Senhor são chamados a alimentar a alegria da evangelização. Os bispos, como primeiros responsáveis do anúncio, têm o dever de incentivar a unidade da Igreja local à volta do compromisso missionário, tendo em conta que a alegria de comunicar Jesus Cristo se exprime tanto na preocupação de O anunciar nos lugares mais remotos como na saída constante para as periferias de seu próprio território, onde há mais gente pobre à espera.(…)

Papa Francisco
(in Mensagem para o dia Mundial das Missões,  2014)

domingo, 1 de dezembro de 2024

 Ano C - 2024

Advento passo a passo

2ºdia - 2/12/2024

Mateus 8, 5-11

"Senhor eu não sou digno de que entres em minha casa…";

"Disse-lhe Jesus: «Eu irei curá-lo»."

Neste Advento vamos ser acompanhados pelo Evangelho de Mateus. Hoje a Palavra, reserva para nós dois elementos: “Eu irei curá-lo” e “Do Oriente e do Ocidente virão muitos sentar-se à mesa no reino dos Céus”. Jesus vem trazer-nos uma notícia feliz. A notícia de um Deus que, por amor, nos quer salvar. Esta atitude de Jesus, pronta e decidida, que o leva a curar o criado do centurião é a atitude de Deus para comigo. E não só para comigo, para com todos os homens de todos os povos e nações, de todos os tempos e lugares. Jesus vem para salvar todos os homens.

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«Naquele tempo, ao entrar Jesus em Cafarnaum, aproximou-se d’Ele um centurião, que Lhe suplicou, dizendo: «Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico e sofre horrivelmente». Disse-lhe Jesus: «Eu irei curá-lo». Mas o centurião respondeu-Lhe: «Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas diz uma só palavra e o meu servo ficará curado. Porque eu, que não passo dum subalterno, tenho soldados sob as minhas ordens: digo a um ‘Vai’ e ele vai; a outro ‘Vem’ e ele vem; e ao meu servo ‘Faz isto’ e ele faz». Ao ouvi-lo, Jesus ficou admirado e disse àqueles que O seguiam: «Em verdade vos digo: Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé. Por isso vos digo: Do Oriente e do Ocidente virão muitos sentar-se à mesa, com Abraão, Isaac e Jacob, no reino dos Céus».

"Hoje escuto com alegria estas palavras de Jesus: “Eu irei curá-lo”. São para mim. Por inúmeras razões a minha vida precisa de um médico que, com uma palavra, um gesto, um olhar me mostre que não há becos sem saída, mas caminhos novos da alegria e da esperança. Estas palavras não são apenas para mim, mas para todos. Esta certeza é um sinal claro para todos os homens: aquele que curou o servo do centurião pode curar-me a mim, a ti e a todos."

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Amados irmãos e irmãs, bom dia!

No nosso caminho de catequeses sobre a oração, hoje e na próxima semana queremos ver como, graças a Jesus Cristo, a oração nos abre à Trindade – ao Pai, ao Filho e ao Espírito - ao imenso mar de Deus que é Amor. Foi Jesus que nos abriu o Céu e nos projetou para uma relação com Deus. Foi ele que fez isto: abriu-nos para aquela relação com o Deus Trino: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É isto que o apóstolo João afirma na conclusão do prólogo do seu Evangelho: «Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer» (1, 18). Jesus revelou-nos a identidade, a identidade de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Realmente não sabíamos como se pudesse rezar: quais as palavras, quais os sentimentos e que linguagem eram apropriados para Deus. Naquele pedido dirigido pelos discípulos ao Mestre, que temos recordado frequentemente no decurso destas catequeses, há toda a hesitação do homem, as suas repetidas tentativas, muitas vezes infrutíferas, de se dirigir ao Criador: «Senhor, ensina-nos a rezar» (Lc 11, 1).

Nem todas as orações são iguais, nem todas são convenientes: a própria Bíblia atesta o mau resultado de muitas orações, que são rejeitadas. Talvez por vezes Deus não esteja satisfeito com as nossas orações e nós nem sequer nos apercebemos disso. Deus olha para as mãos daqueles que rezam: para as purificar não é necessário lavá-las, quando muito é preciso abster-se de ações malignas. São Francisco rezava: «Nullu homo ène dignu te mentovare», ou seja, “homem algum é digno de te nomear” (Cântico do Irmão Sol).

Mas talvez o reconhecimento mais tocante da pobreza da nossa oração tenha vindo dos lábios do centurião romano que um dia implorou Jesus que curasse o seu servo doente (cf. Mt 8, 5-13). Sentia-se totalmente inadequado: não era judeu, era um oficial do odiado exército de ocupação. Mas a preocupação pelo servo fá-lo ousar, e diz: «Senhor... eu não sou digno que entres debaixo do meu teto, mas diz uma só palavra e o meu servo será curado» (v. 8). É a frase que também repetimos em todas as liturgias eucarísticas. Dialogar com Deus é uma graça: não somos dignos dela, não temos o direito de a reivindicar, “coxeamos” com cada palavra e pensamento... Mas Jesus é a porta que nos abre para este diálogo com Deus.

Porque deveria o homem ser amado por Deus? Não há razões óbvias, não há proporção... A ponto que em grande parte das mitologias não se contempla o caso de um deus que se preocupe com as vicissitudes humanas; pelo contrário, elas são incómodas e tediosas, completamente insignificantes. Recordemos a frase de Deus ao seu povo, repetida no Deuteronómio: “Pensa, que povo tem os seus deuses tão próximos dele, como vós me tendes a mim próximo de vós”. Esta proximidade de Deus é a revelação! Alguns filósofos dizem que Deus só pode pensar em si mesmo. No máximo, somos nós, humanos, que procuramos conquistar a divindade e ser agradáveis aos seus olhos. Disto brota o dever de “religião”, com o corolário de sacrifícios e devoções a oferecer continuamente para ter como aliado um Deus mudo, um Deus indiferente. Não há diálogo. Jesus estava sozinho, só havia a revelação de Deus a Moisés antes de Jesus, quando Deus se apresentou; só a Bíblia que nos abriu o caminho do diálogo com Deus. Recordemos: “Que povo tem os seus deuses tão próximos dele, como tu tens a mim próximo de ti?”. Esta proximidade de Deus abre-nos ao diálogo com Ele.

Um Deus que ama o homem, nunca teríamos tido a coragem de acreditar nisto se não tivéssemos conhecido Jesus. O conhecimento de Jesus fez-nos compreender isto, no-lo revelou. É o escândalo que encontramos esculpido na parábola do pai misericordioso, ou na do pastor que vai em busca da ovelha perdida (cf. Lc 15). Histórias como estas não poderiam ter sido concebidas, nem sequer compreendidas, se não tivéssemos encontrado Jesus. Qual é o Deus que está disposto a morrer pelas pessoas? Qual é o Deus que ama sempre e pacientemente, sem pretender por sua vez ser amado? Qual é o Deus que aceita a tremenda falta de gratidão de um filho que pede antecipadamente a sua herança e sai de casa para esbanjar tudo? (cf. Lc 15, 12-13).

É Jesus quem revela o coração de Deus. Assim Jesus diz-nos, com a sua vida, até que ponto Deus é Pai. Tam Pater nemo: ninguém é pai como ele. A paternidade que é proximidade, compaixão e ternura. Não esqueçamos estas três palavras que são o estilo de Deus: proximidade, compaixão e ternura. É o modo de manifestar a sua paternidade para connosco. É difícil para nós imaginar de longe o amor com que a Santíssima Trindade está repleta, e que abismo de benevolência recíproca existe entre Pai, Filho e Espírito Santo. Os ícones orientais deixam-nos intuir algo deste mistério que é a origem e a alegria de todo o universo.

Acima de tudo, tínhamos dificuldade de acreditar que este amor divino se dilatasse, chegando até ao humano: somos o termo de um amor que não encontra igual na terra. O Catecismo explica: «A santa humanidade de Jesus é, pois, o caminho pelo qual o Espírito Santo nos ensina a orar a Deus nosso Pai» (n. 2664). Esta é a graça da nossa fé. Verdadeiramente não podíamos esperar uma vocação mais excelsa: a humanidade de Jesus – Deus fez-se próximo em Jesus – pôs à nossa disposição a própria vida da Trindade, abriu, escancarou esta porta do mistério do amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Papa Francisco
(Audiência Geral, 3 de março de 2021)