sábado, 14 de setembro de 2024

 XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

Hoje, as leituras desafiam-nos a olhar para a verdade da nossa vida. Em que Deus acreditamos, de quem vivemos, como testemunhamos o Amor de Deus no dia a dia da vida? Nos momentos de dificuldade e de dor em quem nos centramos efetivamente, a quem nos entregamos, onde pomos a nossa confiança?

Na 1ªleitura (Is 50, 5-9a) Isaías projeta-nos para o mistério da Paixão de Cristo. No Servo Sofredor o profeta como que antecipa Jesus, como Aquele que todo se entrega ao Pai, n’Ele confia totalmente, tendo a certeza de que Ele, a verdadeira Vida, sairá vencedor sobre a morte, neste último combate. Quando, no dia a dia da vida, sentimos o peso da cruz, nos sentimos esmagados e perdidos, entreguemos tudo e confiemo-nos a Jesus, o Servo Sofredor, deixando que, em nós, Ele vença tudo o que nos afasta de Deus Amor. 

O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra e sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?”

Na 2ªleitura (Tg 2, 14-18) S.Tiago traz-nos para o concreto da vida, para o que e o como agimos com os outros no nosso quotidiano. Realmente, que adianta dizermos que acreditamos, se depois o nosso agir não condiz com as nossa palavras? Muitas vezes a coerência de vida não é fácil, mas nunca foi. Precisamos de ir crescendo na intimidade da oração com o Senhor, para que Ele nos habite continuamente, o que fará com que o Espírito Santo nos vá transformando e os nossos atos sejam mais conforme o que professamos.

Irmãos: De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhes disser: «Ide em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras? Assim também a fé sem obras está completamente morta. Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé.” 

No evangelho  (Mc 8, 27-35)  S.Pedro aparece-nos no seu melhor e no seu pior. É um homem que reage ao primeiro impulso e, por isso, sinto-o tão próximo. Erra, às vezes, mas é capaz de pedir perdão, de reconhecer que fez mal. Tem um coração enorme. Quão grande é o seu amor ao Senhor. Gosto mesmo deste santo. Que ele interceda por nós. Mas, voltando ao evangelho, nele Jesus desafia-nos a olhar para dentro de nós mesmos e a questionarmo-nos sobre a profundidade do nosso amor por Ele. Quem é o nosso Deus, em quem acreditamos verdadeiramente? Temos medo? Recuamos? Nada de novo, S.Pedro também demonstrou as suas dificuldades, mas nem por isso deixou de ser santo. Como alguém disse um dia, não há cristão sem Cruz. Mas, em Jesus, a Cruz tornou-se a Árvore da Vida, n’ela Ele gerou-nos para Deus. Só em Jesus a Cruz passa a ter sentido, como caminho de Amor. 

Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias». Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém. Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas. Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O. Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».”

Senhor, que eu nunca duvide do Teu Amor. Senhor, que eu me deixe sempre abraçar por Ti, na Cruz, na Árvore da Vida. 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

No trecho evangélico de hoje (cf. Mc 8, 27-35), reapresenta-se a pergunta que atravessa todo o Evangelho de Marcos: quem é Jesus? Mas desta vez é o próprio Jesus que a faz aos discípulos, ajudando-os gradualmente a enfrentar a questão da identidade. Antes de interpelar diretamente os Doze, Jesus quer ouvir deles o que pensam as pessoas sobre Ele — e sabe bem que os discípulos são muito sensíveis à popularidade do Mestre! Portanto, pergunta: «Quem dizem os homens que eu sou?» (v. 27). Sobressai que Jesus é considerado pelo povo um grande profeta. Mas, na realidade, não lhe interessam as sondagens e as bisbilhotices do povo. Ele não aceita sequer que os seus discípulos respondam às suas perguntas com fórmulas já preparadas, citando personagens famosos da Sagrada Escritura, porque uma fé que se reduz às fórmulas é uma fé míope.

O Senhor quer que os seus discípulos de ontem e de hoje estabeleçam com Ele uma relação pessoal, e assim o acolham no centro da sua vida. Por esta razão, incentiva-os a colocar-se em toda a verdade diante de si mesmos, e pergunta: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (v. 29). Jesus, hoje, faz este pedido tão direto e confidencial a cada um de nós: “Tu, quem dizes que eu sou? Vós, quem dizeis que eu sou? Quem sou eu para ti?”. Cada um é chamado a responder, no próprio coração, deixando-se iluminar pela luz que o Pai nos dá a fim de conhecer o seu Filho Jesus. E pode acontecer também que nós, assim como Pedro, afirmemos com entusiasmo: «Tu és o Cristo». Contudo, quando Jesus nos comunica claramente o que disse aos discípulos, ou seja, que a sua missão se cumpre não no amplo caminho do sucesso, mas na senda árdua do Servo sofredor, humilhado, rejeitado e crucificado, então pode acontecer também a nós como a Pedro, protestar e rebelar-nos porque isto contrasta com as nossas expectativas, com as expectativas mundanas. Nestes momentos, também nós merecemos a repreensão saudável de Jesus: «Afasta-te de mim, Satanás, porque teus sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens» (v. 33).

Irmãos e irmãs, a profissão de fé em Jesus Cristo não pode limitar-se às palavras, mas exige ser autenticada com escolhas e gestos concretos, com uma vida caraterizada pelo amor de Deus, com uma vida grande, com uma vida cheia de amor pelo próximo.

Jesus diz-nos que para o seguir, para sermos seus discípulos, é preciso renegar-se a si mesmos (cf. v. 34), isto é, renegar as pretensões do próprio orgulho egoísta, e carregar a própria cruz. Depois dá a todos uma regra fundamental. E qual é esta regra? «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á». Muitas vezes na vida, por vários motivos, erramos o caminho, procurando a felicidade só nas coisas ou nas pessoas que tratamos como coisas. Mas a felicidade encontramo-la somente quando o amor, aquele verdadeiro, nos encontra, nos surpreende, nos muda. O amor transforma tudo! E o amor pode mudar-nos também a nós, a cada um de nós. Demonstram-no os testemunhos dos santos.

A Virgem Maria, que viveu a sua fé seguindo fielmente o seu Filho Jesus, nos ajude também a caminhar pela sua estrada, dedicando generosamente a nossa vida a Ele e aos irmãos.

Papa Francisco

(Angelus , 16 de setembro de 2018)

sábado, 7 de setembro de 2024

 XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Hoje, as leituras, por um lado, desafiam-nos a escutar Jesus e a agir, na vida, como Ele nos ensinou, mas, por outro lado, suscitam em nós o louvor e o agradecimento a Deus por nos mostrar, em e por Jesus, o quanto nos ama, isto é, infinitamente. Louvor e glória ao nosso Deus, pelos séculos sem fim.

Na 1ªleitura (Is 35, 4-7a) Isaías, num texto tão belo, quanto profundo, como que antecipa o que vemos acontecer no Evangelho: Deus veio habitar no meio do Seu povo, Deus fez-se um connosco e todos somos testemunhas das maravilhas que fez e continua a fazer nas nossas vidas. Sabemos que é verdade, porque se concretizou, tudo o que o profeta anunciou. Deus ama-nos demais, nunca, mas nunca mesmo, nos abandona, mesmo quando tudo parece desabar em nosso redor. Como diz um poema que nunca mais esqueci, nessas alturas leva-nos ao colo. Entreguemo-nos de coração a este Amor sem limites.

“«Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.»” 

Na 2ªleitura (Tg 2, 1-5)  S.Tiago adverte-nos para o perigo da propensão que temos para julgar os outros e, pior do que isso, fazê-lo tendo como base as aparências, a exterioridade. Quanto pior a aparência, ou a nossa antipatia “primária”, mais criticamos. Até parece que conhecemos o que vai na alma de cada um! Humildemente Senhor peço-Te que nos habites, por inteiro, que nos enchas do Teu Santo Espírito e aí ocupar-nos-emos em servir e amar os outros, pois como escutámos domingo passado, “falaremos” do que nos vai na alma.

Irmãos: A fé em Nosso Senhor Jesus Cristo não deve admitir aceção de pessoas. Pode acontecer que na vossa assembleia entre um homem bem vestido e com anéis de ouro e entre também um pobre e mal vestido; talvez olheis para o homem bem vestido e lhe digais: «Tu, senta-te aqui em bom lugar», e ao pobre: «Tu, fica aí de pé», ou então: «Senta-te aí, abaixo do estrado dos meus pés». Não estareis a estabelecer distinções entre vós e a tornar-vos juízes com maus critérios? Escutai, meus caríssimos irmãos: Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam?”

No Evangelho (Mc 7, 31-37) reconhecemos que Deus veio até nós, vemos Deus a agir. Jesus veio revelar-nos o Pai, veio demonstrar como é Deus Amor, veio provar-nos que Deus vai muito para além do que possamos imaginar, ama sempre e num crescendo sem limites. Só Deus ama o pecador, o pobre, o desprezado, o excluído. Senhor, ensina-nos a amar com Tu, ou melhor, inunda-nos de Ti e ama, em nós, cada um daqueles que connosco se cruza ao longo de cada dia.

Naquele tempo, Jesus deixou de novo a região de Tiro e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele. Jesus, afastando-Se com ele da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua. Depois, erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Efatá», que quer dizer «Abre-te». Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar corretamente. Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém. Mas, quanto mais lho recomendava, tanto mais intensamente eles o apregoavam. Cheios de assombro, diziam: «Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».”

Senhor, Amor total e infinito, faz com que meus ouvidos Te escutem e o meu coração Te oiça. Envia sobre mim o Teu Santo Espírito e inunda a totalidade do meu ser, para que seja Tua testemunha, seja qual for a situação em que me encontre.

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho deste domingo (cf. Mc 7, 31-37) narra o episódio da cura milagrosa de um surdo-mudo, realizada por Jesus. Trouxeram-lhe um surdo-mudo, rogando-lhe que lhe impusesse as mãos. Contudo, Jesus faz vários gestos sobre ele: antes de tudo, levou-o para um lugar apartado, distante da multidão. Nessa ocasião, assim como noutras, Jesus age sempre com discrição. Não quer impressionar o povo, não está à procura da popularidade nem do sucesso, mas só deseja fazer o bem às pessoas. Com esta atitude, Ele ensina-nos que o bem deve ser praticado sem clamores, sem ostentação, sem “tocar a trombeta”. Deve ser praticado em silêncio.

Depois de se ter afastado, Jesus pôs os dedos nos ouvidos do surdo-mudo e tocou a sua língua com a saliva. Este gesto remete para a Encarnação. O Filho de Deus é um homem inserido na realidade humana: fez-se homem, e portanto pode compreender a condição dolorosa de outro homem e intervém com um gesto no qual está envolvida a própria humanidade. Ao mesmo tempo, Jesus quer fazer entender que o milagre se realiza por causa da sua união com o Pai: por isso, elevou os olhos ao céu. Depois, emitiu um suspiro e pronunciou a palavra decisiva: «Efatá», que significa “Abre-te!”. E imediatamente o homem ficou curado: os ouvidos abriram-se-lhe, a língua libertou-se-lhe. A cura foi para ele uma «abertura» aos outros e ao mundo.

Esta narração do Evangelho ressalta a exigência de uma dúplice cura. Antes de tudo, a cura da doença e do sofrimento físico, para restituir a saúde do corpo; embora esta finalidade não seja completamente alcançável no horizonte terreno, não obstante tantos esforços da ciência e da medicina. Contudo, há uma segunda cura, talvez mais difícil, e trata-se da cura do medo. A cura do medo que nos impele a marginalizar o enfermo, a marginalizar o sofredor, o deficiente. E existem muitos modos de marginalizar, até mediante uma pseudopiedade, ou eliminando o problema; permanecemos surdos e mudos diante das dores das pessoas marcadas por doenças, angústias e dificuldades. Demasiadas vezes o enfermo e o sofredor tornam-se um problema, enquanto deveriam ser ocasião para manifestar a solicitude e a solidariedade de uma sociedade em relação aos membros mais frágeis.

Jesus revelou-nos o segredo de um milagre que também nós podemos repetir, tornando-nos protagonistas do «Efatá», daquela palavra “Abre-te!” com a qual Ele restituiu a palavra e a audição ao surdo-mudo. Trata-se de nos abrirmos às necessidades dos nossos irmãos sofredores e necessitados de ajuda, evitando o egoísmo e o fechamento do coração. É precisamente o coração, ou seja, o núcleo profundo da pessoa, que Jesus vem «abrir», libertar, para nos tornar capazes de viver plenamente a relação com Deus e com o próximo. Ele fez-se homem para que o homem, que o pecado tornou interiormente surdo e mudo, possa ouvir a voz de Deus, a voz do Amor que fala ao seu coração e assim, por sua vez, aprenda a falar a linguagem do amor, traduzindo-a em gestos de generosidade e de doação de si mesmo.

Maria, Aquela que se «abriu» totalmente ao amor do Senhor, nos conceda experimentar cada dia, na fé, o milagre do «Efatá», para viver em comunhão com Deus e com os irmãos.

Papa Francisco

(Angelus , 9 de setembro de 2018)

sábado, 31 de agosto de 2024

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Nas leituras deste domingo somos convidados a deixarmo-nos “fazer” pela Palavra de Deus, a deixarmo-nos “construir” pela Lei do Senhor. Como por toda a lei, é também através desta, que vamos pautando o nosso caminho e percebendo que, por si só, pode levar a um cumprimento rígido e despersonalizado na vivência comunitária. Mas, enraizada na vida, em Deus Amor, a Lei do Senhor transforma-nos em seres respeitadores e solidários em relação a tudo e a todos, torna-nos parte do povo de Deus, ou melhor, faz-nos comunhão com todos os irmãos em Cristo.

Na 1ªleitura (Deut 4, 1-2.6-8) Moisés fala-nos da lei de Deus, dos seus benefícios e da necessidade de a aplicar na vida. Mas, no final, quando se reporta ao seu autor, o coração salta-nos no peito, porque nos centra no Amor d’Aquele que nos é tão próximo, que nos habita na Sua Lei e Se faz um connosco. Quem, como nós, tem um Deus assim imanente a si próprio e a cada ser vivente, por Si criado, para vivermos todos em comunhão!? Só o Amor dá sentido à Lei, só n’Ele é possível amarmo-nos uns aos outros.

“Moisés falou ao povo, dizendo: «Agora escuta, Israel, as leis e os preceitos que vos dou a conhecer e ponde-os em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus de vossos pais. Não acrescentareis nada ao que vos ordeno, nem suprimireis coisa alguma, mas guardareis os mandamentos do Senhor vosso Deus, tal como eu vo-los prescrevo. Observai-os e ponde-os em prática: eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos, que, ao ouvirem falar de todas estas leis, dirão: ‘Que povo tão sábio e tão prudente é esta grande nação!’. Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento?».”

Na 2ªleitura (Tg 1, 17-18.21b-22.27) é S.Tiago que nos alerta para o perigo de ouvirmos o que a lei nos diz, mas não vivermos segundo os seus princípios e normas. Que adianta escutarmos a Lei se não a pusermos em prática. É na vida, junto dos que connosco se relacionam, que se testa a qualidade da nossa escuta. Que o Senhor preencha o nosso coração, inunde o nosso ser e a nossa vida espelhará o que nos vais na alma.

“Caríssimos irmãos: Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descem do Pai das luzes, no qual não há variação nem sombra de mudança. Foi Ele que nos gerou pela palavra da verdade, para sermos como primícias das suas criaturas. Acolhei docilmente a palavra em vós plantada, que pode salvar as vossas almas. Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, pois seria enganar-vos a vós mesmos. A religião pura e sem mancha, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo.”

No Evangelho (Mc 7, 1-8.14-15.21-23) é Jesus quem nos diz que o mais importante não são os princípios e as normas da lei, mas a forma como os vivemos, no dia a dia, junto dos que nos são próximos. Que importa sabermos de cor todos os mandamentos se não vivemos o que nos preconizam? O que verdadeiramente nos carateriza, nos qualifica é o que, e o como, fazemos. Como diz o nosso povo, “palavras leva-as o vento”, o que permanece é a forma e o como pomos em prática a lei, isto é, o como vivemos e amamos.

“Naquele tempo, reuniu-se à volta de Jesus um grupo de fariseus e alguns escribas que tinham vindo de Jerusalém. Viram que alguns dos discípulos de Jesus comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. – Na verdade, os fariseus e os judeus em geral não comem sem ter lavado cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição, como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –. Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus: «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?». Jesus respondeu-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens». Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão e começou a dizer-lhe: «Escutai-Me e procurai compreender. Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o torna impuro; porque do interior do homem é que saem as más intenções: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem do interior do homem e são eles que o tornam impuro».”

Senhor, inunda-me de Ti, do Amor, para que eu viva pondo em prática a Tua Lei.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho deste domingo apresenta um debate entre Jesus e alguns fariseus e escribas. A discussão refere-se ao valor da «tradição dos antigos» (Mc 7, 3) que Jesus, inspirando-se no profeta Isaías, define como «preceitos humanos» (v. 7) e que nunca deve tomar o lugar do «mandamento de Deus» (v. 8). As antigas prescrições em questão abrangiam não apenas os preceitos de Deus revelados a Moisés, mas uma série de regras que especificavam as indicações da lei mosaica. Os interlocutores aplicavam tais normas de modo bastante escrupuloso, apresentando-as como expressão de religiosidade autêntica. Portanto, a Jesus e aos seus discípulos repreendem a transgressão daquelas normas, em particular no que se refere à purificação exterior do corpo (cf. v. 5). A resposta de Jesus tem a força de um pronunciamento profético: «Descuidando o mandamento de Deus — afirma — apegais-vos à tradição dos homens» (v. 8). São palavras que nos enchem de admiração pelo nosso Mestre: sentimos que nele há verdade e que a sua sabedoria nos liberta dos preconceitos.

Mas atenção! Com estas palavras Jesus quer alertar-nos também a nós, hoje, para não pensarmos que a observância exterior da lei é suficiente para sermos bons cristãos. Do mesmo modo como outrora para os fariseus, também para nós existe o perigo de nos considerarmos retos ou, pior ainda, melhores do que os outros, só porque observamos certas regras e costumes, embora não amemos o nosso próximo, sejamos duros de coração, soberbos e orgulhosos. A observância literal dos preceitos é algo estéril, se não muda o coração nem se traduz em atitudes concretas: abrir-se ao encontro com Deus e à sua Palavra na oração, procurar a justiça e a paz, socorrer os pobres, os mais frágeis, os oprimidos. Nas nossas comunidades, nas nossas paróquias e nos nossos bairros todos nós sabemos quanto mal fazem à Igreja e quanto escândalo dão as pessoas que se dizem muito católicas e vão com frequência à igreja mas depois, na sua vida quotidiana, descuidam a família, falam mal dos outros e assim por diante. É isto que Jesus condena, porque este é um contratestemunho cristão.

Dando continuidade à sua exortação, Jesus concentra a atenção num aspeto mais profundo, afirmando: «Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar; mas é o que sai do homem que o torna impuro» (v. 15). Deste modo, Ele salienta o primado da interioridade, ou seja a supremacia do «coração»: não são as realidades externas que nos fazem santos ou não santos, mas é o coração que exprime as nossas intenções, as nossas opções e o desejo de fazer tudo por amor a Deus. As atitudes exteriores constituem a consequência daquilo que já decidimos no nosso coração, e não o contrário: com a atitude exterior, se o coração não muda, não somos cristãos autênticos. A fronteira entre o bem e o mal não passa fora de nós mas, ao contrário, dentro. Então podemos interrogar-nos: onde está o meu coração? Jesus dizia: «Onde está o teu tesouro, lá também está o teu coração». Qual é o meu tesouro? É Jesus, é a sua doutrina? Então, o coração é bom. Ou o tesouro é outra coisa? Portanto, é o coração que se deve purificar e converter. Sem um coração purificado, não podemos ter mãos verdadeiramente limpas, nem lábios que pronunciam palavras de amor sinceras — tudo é falso, uma vida ambígua — lábios que pronunciam palavras de misericórdia, de perdão. Isto só pode ser feito por um coração sincero e purificado.

Peçamos ao Senhor, por intercessão da Virgem Santa, que nos conceda um coração puro, livre de toda a hipocrisia. É com este adjetivo que Jesus se dirige aos fariseus: «hipócritas», porque eles dizem uma coisa e fazem outra. Um coração livre de qualquer hipocrisia, de modo a sermos capazes de viver segundo o espírito da lei e de alcançar a sua finalidade, que é o amor.

Papa Francisco

(Angelus , 30 de agosto de 2015)

sábado, 24 de agosto de 2024

  XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Nas leituras de hoje, somos colocados perante as nossas escolhas em todos os momentos da vida, isto é, o que é que nos leva optar por um, ou por outro “caminho”, quando somos obrigados a decidir? Quais são os critérios que norteiam as nossas escolhas, enquanto cristãos empenhados no construir da sociedade em que vivemos? O que é que está na base das decisões, pequenas, ou grandes, que tomamos em qualquer momento da nossa vida? O que é que nos faz andar e/ou correr? Andamos atrás do quê, ou de quem? Onde e quando é Deus a nossa grande e única referência?

Na 1ªleitura (Jos 24, 1-2a.15-17.18b) Josué, já na terra prometida, não tem qualquer dúvida em proclamar, perante o povo, que quer seguir o Senhor, o Deus que os libertou do Egito e com eles fez uma aliança de Amor, desafiando o povo a fazer também a sua profissão de fé. E o povo, fazendo memória da sua história da salvação, opta por seguir o Deus da Aliança. E a história do Amor de Deus continua hoje, na vida pessoal de cada um de nós e da Igreja como povo de Deus. Tenhamos, também nós, a coragem de responder ao desafio de Josué. Em quem acreditamos?

Naqueles dias, Josué reuniu todas as tribos de Israel em Siquém. Convocou os anciãos de Israel, os chefes, os juízes e os magistrados, que se apresentaram diante de Deus. Josué disse então a todo o povo: «Se não vos agrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do rio, se os deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha família serviremos o Senhor». Mas o povo respondeu: «Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses; porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair, a nós e a nossos pais, da terra do Egipto, da casa da escravidão. Foi Ele que, diante dos nossos olhos, realizou tão grandes prodígios e nos protegeu durante o caminho que percorremos entre os povos por onde passámos. Também nós queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus».” 

Na 2ªleitura (Ef 5, 21-32) S.Paulo fala-nos usando a linguagem do seu tempo e enraizado na sua cultura. O que diz ao efésios, sobre o amor conjugal, podendo, é certo, recorrer-se  a uma linguagem mais adequada ao novos tempos, aplica-se na sua essência também aos nossos dias: eleva a relação do casal à dimensão do amor de Deus pela Igreja ; é aí, bem na fonte do Amor trinitário, que situa o sacramento do matrimónio cristão. Rezemos pelas famílias, para que se redescubram na fonte do Amor.

“Irmãos: Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu Corpo, do qual é o Salvador. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela. Ele quis santificá-la, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida, para a apresentar a Si mesmo como Igreja cheia de glória, sem mancha nem ruga, nem coisa alguma semelhante, mas santa e imaculada. Assim devem os maridos amar as suas mulheres, como os seus corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Ninguém, de facto, odiou jamais o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua mulher, e serão dois numa só carne. É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja.”

No evangelho (Jo 6, 60-69) S.João transporta-nos para o evangelho de domingo passado, e para a reação às palavras de Jesus então proclamadas: «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é minha carne, que Eu darei pela vida do mundo». E este caminho, proposto por Jesus, não agrada, desinstala e compromete. Nem todos estão dispostos a segui-l’O. Então Jesus, nos seus colaboradores mais próximos, interroga-nos, também a nós, diretamente: « Também vós quereis ir embora?». Que com a ajuda de S.Pedro encontremos a nossa resposta.

“Naquele tempo, muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram: «Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?». Jesus, conhecendo interiormente que os discípulos murmuravam por causa disso, perguntou-lhes: «Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do homem subir para onde estava anteriormente? O espírito é que dá vida, a carne não serve de nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. Mas, entre vós, há alguns que não acreditam». Na verdade, Jesus bem sabia, desde o início, quais eram os que não acreditavam e quem era aquele que O havia de entregar. E acrescentou: «Por isso é que vos disse: Ninguém pode vir a Mim, se não lhe for concedido por meu Pai». A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele. Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?». Respondeu-Lhe Simão Pedro: «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».” 

Senhor, envia sobre mim o Teu Santo Espírito, para que, seja qual for a situação em que encontre, eu opte por Ti, como o meu único Senhor. Que eu tenha sempre presente que antes de eu existir, já Tu me amavas infinitamente. Que eu nunca duvide do Teu Amor, por mim, por todos e por cada ser vivente, a quem chamas pelo próprio nome.

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho da Liturgia de hoje (Jo 6, 60-69) mostra-nos a reação da multidão e dos discípulos ao discurso de Jesus após o milagre dos pães. Jesus convidou a interpretar esse sinal e a acreditarem nele, que é o verdadeiro pão que desce do céu, o pão da vida; e revelou que o pão que ele dará é a sua carne e o seu sangue. Estas palavras soaram duras e incompreensíveis aos ouvidos do povo, a ponto que, a partir daquele momento – diz o Evangelho – muitos dos seus discípulos voltaram atrás, ou seja, deixaram de seguir o Mestre (vv. 60.66). Então Jesus interpela os Doze: «Também vós quereis retirar-vos?» (v. 67), e Pedro, em nome de todo o grupo, confirma a decisão de permanecer com Ele: «Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna, e nós acreditamos e sabemos que és o Santo de Deus» (Jo 6, 68-69). E é uma bonita confissão de fé.

Detenhamo-nos brevemente na atitude daqueles que se retiram, decidindo não seguir mais Jesus. Onde tem origem esta incredulidade? Qual é o motivo desta recusa?

As palavras de Jesus suscitam grande escândalo: Ele está a dizer que Deus escolheu manifestar-se e trazer a salvação na fraqueza da carne humana. É o mistério da encarnação. E a encarnação de Deus é o que dá origem ao escândalo e representa para aquelas pessoas – mas muitas vezes também para nós – um obstáculo. De facto, Jesus afirma que o verdadeiro pão da salvação, que transmite a vida eterna, é a sua própria carne; que para entrar em comunhão com Deus, antes de observar as leis ou cumprir os preceitos religiosos, é preciso viver uma relação real e concreta com Ele. Pois a salvação veio d'Ele, na sua encarnação. Isto significa que não devemos perseguir Deus em sonhos e imagens de grandeza e poder, mas devemos reconhecê-lo na humanidade de Jesus e, consequentemente, na dos irmãos e irmãs que encontramos no caminho da vida. Deus fez-se carne. E quando dizemos isto, no Credo, no dia de Natal, no dia da Anunciação, ajoelhamo-nos para adorar este mistério da encarnação. Deus fez-se carne e sangue: humilhou-se para se tornar homem como nós, humilhou-se ao ponto de assumir o nosso sofrimento e o nosso pecado, e por conseguinte, pede-nos que o procuremos não fora da vida e da história, mas na relação com Cristo e com os irmãos. Procurá-lo na vida, na história, na nossa vida quotidiana. E este, irmãos e irmãs, é o caminho para o encontro com Deus: a relação com Cristo e os irmãos.

Também hoje, a revelação de Deus na humanidade de Jesus pode causar escândalo e não é fácil de aceitar. É aquilo a que São Paulo chama “loucura” do Evangelho perante quantos procuram milagres ou sabedoria mundana (cf. 1 Cor 1, 18-25). E esta “escandalosidade” é bem representada pelo sacramento da Eucaristia: que sentido pode ter, aos olhos do mundo, ajoelhar-se diante de um pedaço de pão? Por que alimentar-se assiduamente deste pão? O mundo escandaliza-se.

Face ao gesto prodigioso de Jesus que com cinco pães e dois peixes alimenta milhares de pessoas, todos o aclamam e querem levá-lo em triunfo, para o fazer rei. Mas quando Ele próprio explica que aquele gesto é um sinal do seu sacrifício, ou seja, do dom da sua vida, da sua carne e do seu sangue, e que aqueles que O quiserem seguir devem assemelhar-se a Ele, à sua humanidade doada a Deus e aos outros, então isto não agrada, este Jesus põe-nos em crise. Aliás, preocupemo-nos se ele não nos põe em crise, porque talvez tenhamos adulterado a sua mensagem! E peçamos a graça de nos deixarmos provocar e converter pelas suas “palavras de vida eterna”. E Maria Santíssima, que trouxe na carne o Filho Jesus e se uniu ao seu sacrifício, nos ajude sempre a testemunhar a nossa fé com a vida concreta.

Papa Francisco

(Angelus , 22 de agosto de 2021)