sábado, 17 de agosto de 2024

  XX DOMINGO DO TEMPO COMUM

As leituras de hoje são como que a continuação das dos últimos domingos. Aliás, o evangelho tem início com o último versículo do evangelho de domingo passado. Mais uma vez entramos, por inteiro, no mistério da Eucaristia onde o pão e o vinho são o Corpo e o Sangue de Jesus que comungamos. As leituras colocam-nos diante de Jesus descido do Céu, que dá a vida pelo mundo e se torna alimento de vida eterna.

Na 1ªleitura (Prov 9,1-6) o autor sagrado diz-nos que a sabedoria, que está em Deus desde o princípio, convida os homens a viver como seres inteligentes, reconhecendo o caminho da prudência num mundo de insensatos. Aceitar o convite da Sabedoria para comer do seu pão e beber do seu vinho é aceitar acolher e pôr em prática a vontade de Deus.

«A Sabedoria edificou a sua casa e levantou sete colunas. Abateu os seus animais, preparou o vinho e pôs a mesa. Enviou as suas servas a proclamar nos pontos mais altos da cidade: «Quem é inexperiente venha por aqui». E aos insensatos ela diz: «Vinde comer do meu pão e beber do vinho que vos preparei. Deixai a insensatez e vivereis; segui o caminho da prudência».

Na 2ª leitura (EF 5, 15-20) S.Paulo anima os efésios do seu tempo e, hoje, cada um de nós, a deixar a insensatez e a unirmo-nos no mesmo Espírito para procurarmos e compreendermos juntos a vontade do Senhor. E continua alertando que, como comunidade de irmãos, devemos dar graças de todo o coração, com salmos, hinos e cânticos espirituais.

«Irmãos: Vede bem como procedeis. Não vivais como insensatos, mas como pessoas inteligentes. Aproveitai bem o tempo, porque os dias que correm são maus. Por isso não sejais irrefletidos, mas procurai compreender qual é a vontade do Senhor. Não vos embriagueis com o vinho, que é causa de luxúria, mas enchei-vos do Espírito Santo, recitando entre vós salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e salmodiando em vossos corações, dando graças, por tudo e em todo o tempo, a Deus Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.»

No evangelho (Jo 6,51-58) a multidão, e também nós, hoje, perante a dificuldade em acreditar nas palavras de Jesus, somos confrontados com a necessidade de uma opção radical: ou comemos o alimento oferecido por Jesus, a Sua carne e o Seu sangue, ou não temos a vida que só Ele pode oferecer e que está disponível na Eucaristia.

"Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é minha carne, que Eu darei pela vida do mundo». Os judeus discutiam entre si: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?». E Jesus disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia. A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim. Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram: quem comer deste pão viverá eternamente»."

Senhor, eu creio que és Jesus, o Filho de Deus Vivo, o único e verdadeiro alimento com que posso saciar a sede de Deus, que colocaste no mais íntimo do meu coração. Concede-me o dom da conversão.

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

O trecho evangélico deste domingo (cf. Jo 6, 51-58) introduz-nos na segunda parte do discurso que Jesus proferiu na sinagoga de Cafarnaum, depois de ter dado de comer a uma grande multidão com cinco pães e dois peixes: a multiplicação dos pães. Ele apresenta-se como «o pão vivo que desceu do Céu», o pão que dá a vida eterna, e acrescenta: «O pão que Eu hei de dar é a minha carne para a vida do mundo» (v. 51). Este trecho é decisivo, e com efeito suscita a reação dos ouvintes, que se põem a discutir entre si: «Como pode este Homem dar-nos de comer a sua carne?» (v. 52). Quando o sinal do pão partilhado leva ao significado verdadeiro, ou seja, o dom de si até ao sacrifício, sobressai a incompreensão, emerge até a rejeição d’Aquele que pouco antes o povo queria levar ao triunfo. Recordemo-nos que Jesus teve que se esconder, porque o queriam fazer rei.

Jesus prossegue: «Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos» (v. 53). Aqui, juntamente com a carne, aparece também o sangue. Na linguagem bíblica, carne e sangue exprimem a humanidade concreta. O povo e os próprios discípulos intuem que Jesus os convida a entrar em comunhão com Ele, a “alimentar-se” d’Ele, da sua humanidade, para partilhar com Ele o dom da vida para o mundo. Ao contrário de triunfos e miragens de sucesso! É precisamente o sacrifício de Jesus que se doa a si mesmo por nós.

Este pão de vida, sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo, é-nos doado gratuitamente na mesa da Eucaristia. Ao redor do altar, encontramos aquilo que nos alimenta e nos sacia espiritualmente hoje e para a eternidade. Cada vez que participamos na Santa Missa, num certo sentido, antecipamos o Céu na terra, porque do alimento eucarístico, o Corpo e o Sangue de Jesus, aprendemos o que é a vida eterna. Ela significa viver pelo Senhor: «Aquele que comer a minha carne viverá por mim» (v. 57), diz o Senhor. A Eucaristia plasma-nos a fim de não vivermos unicamente para nós mesmos, mas pelo Senhor e pelos irmãos. A felicidade e a eternidade da vida dependem da nossa capacidade de tornar fecundo o amor evangélico que recebemos na Eucaristia.

Assim como naquela época, também hoje Jesus repete a cada um de nós: «Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos» (v. 53). Irmãos e irmãs, não se trata de um alimento material, mas de um pão vivo e vivificador, que comunica a vida do próprio Deus. Quando vamos comungar, recebemos a vida do próprio Deus. Para ter esta vida é necessário nutrir-se do Evangelho e do amor dos irmãos. Diante do convite de Jesus, a alimentar-nos do seu Corpo e Sangue, poderíamos sentir a necessidade de discutir e de resistir, como fizeram os ouvintes dos quais falou o Evangelho de hoje. Isto acontece quando temos dificuldade de modelar a nossa existência segundo a de Jesus, de agir em conformidade com os seus critérios, e não com os critérios do mundo. Nutrindo-nos deste alimento podemos entrar em plena sintonia com Cristo, com os seus sentimentos, com os seus comportamentos. Isto é muito importante: ir à Missa e comungar, porque receber a Comunhão significa receber este Cristo vivo, que nos transforma dentro e nos prepara para o Céu.

A Virgem Maria sustente o nosso propósito de fazer comunhão com Jesus Cristo, alimentando-nos da sua Eucaristia, para nos tornarmos, por nossa vez, pão partido para os irmãos.

Papa Francisco

(Angelus , 19 de agosto de 2018)

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

 SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

A minha partilha, sobre as leituras da solenidade que hoje festejamos, vai ser feita recorrendo à homilia do Papa Francisco do dia 15 de agosto de 2014, na Coreia, durante a VI Jornada da Juventude Asiática. Nesse dia o Santo Padre disse:

"Em união com toda a Igreja, celebramos a Assunção de Nossa Senhora, em corpo e alma, à glória do Paraíso. A Assunção de Maria mostra-nos o nosso destino como filhos adotivos de Deus e membros do Corpo de Cristo: como Maria, nossa Mãe, somos chamados a participar plenamente na vitória do Senhor sobre o pecado e a morte e a reinar com Ele no seu Reino eterno. Esta é a nossa vocação.


O «grande sinal» apresentado na primeira leitura (Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab) convida-nos a contemplar Maria, entronizada na glória junto do seu divino Filho. Convida-nos ainda a tomar consciência do futuro que, já desde agora, abre diante de nós o Senhor Ressuscitado. (…)"

«O templo de Deus abriu-se no Céu e a arca da aliança foi vista no seu templo. Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava para ser mãe e gritava com as dores e ânsias da maternidade. E apareceu no Céu outro sinal: um enorme dragão cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e nas cabeças sete diademas. A cauda arrastava um terço das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra. O dragão colocou-se diante da mulher que estava para ser mãe, para lhe devorar o filho, logo que nascesse. Ela teve um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. O filho foi levado para junto de Deus e do seu trono e a mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar. E ouvi uma voz poderosa que clamava no Céu: «Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido».

"Na segunda leitura de hoje (1 Cor 15, 20-27), ouvimos São Paulo afirmar que Cristo é o novo Adão, cuja obediência à vontade do Pai derrubou o reino do pecado e da escravidão e inaugurou o reino da vida e da liberdade. A verdadeira liberdade encontra-se no amoroso acolhimento da vontade do Pai. De Maria, cheia de graça, aprendemos que a liberdade cristã é algo mais do que a mera libertação do pecado; é a liberdade que abre para um novo modo espiritual de considerar as realidades terrenas, a liberdade de amar a Deus e aos nossos irmãos e irmãs com um coração puro e viver na jubilosa esperança da vinda do Reino de Cristo." 

«Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Uma vez que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos; porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida. Cada qual, porém, na sua ordem: primeiro, Cristo, como primícias; a seguir, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. Depois será o fim, quando Cristo entregar o reino a Deus seu Pai depois de ter aniquilado toda a soberania, autoridade e poder. É necessário que Ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. E o último inimigo a ser aniquilado é a morte, porque Deus tudo colocou debaixo dos seus pés. Mas quando se diz que tudo Lhe está submetido é claro que se excetua Aquele que Lhe submeteu todas as coisas.»

Quanto ao evangelho (Lc 1, 39-56), disse o Papa Francisco: "Hoje, ao venerar Maria, Rainha do Céu, dirigimo-nos a Ela como Mãe da Igreja (…) para Lhe pedir que nos ajude a ser fiéis à liberdade régia que recebemos no dia do Batismo; que guie os nossos esforços por transformar o mundo segundo o plano de Deus; e que torne a Igreja neste mundo capaz de ser, de uma forma mais plena, fermento do Reino de Deus na sociedade. Possam os cristãos (…) ser uma força generosa de renovação espiritual em todas as esferas da sociedade; combatam o fascínio do materialismo que sufoca os autênticos valores espirituais e culturais e também o espírito de desenfreada competição que gera egoísmo e conflitos; rejeitem modelos económicos desumanos que criam novas formas de pobreza e marginalizam os trabalhadores, bem como a cultura da morte que desvaloriza a imagem de Deus, o Deus da vida, e viola a dignidade de cada homem, mulher e criança. Como católicos (…), sois chamados a valorizar esta herança e a transmiti-la às gerações futuras. Isto implica para cada um a necessidade duma renovada conversão à Palavra de Deus e uma intensa solicitude pelos pobres, os necessitados e os fracos que vivem no meio de nós. Ao celebrar esta festa, unimo-nos a toda a Igreja espalhada pelo mundo e olhamos para Maria como Mãe da nossa esperança. O seu cântico de louvor lembra-nos que Deus nunca esquece as suas promessas de misericórdia (cf. Lc 1, 54-55). Maria é a cheia de graça, porque «acreditou no cumprimento daquilo que o Senhor lhe dissera» (Lc 1, 45). N’Ela, todas as promessas divinas se demonstraram verdadeiras. Entronizada na glória, mostra-nos que a nossa esperança é real e que, já desde agora, esta esperança se estende, «como uma âncora segura e firme para as nossas vidas» (Heb 6, 19), até onde Cristo está sentado na glória. Amados irmãos e irmãs, esta esperança – a esperança oferecida pelo Evangelho – é o antídoto contra o espírito de desespero que parece crescer como um câncer no meio da sociedade, que exteriormente é rica e todavia muitas vezes experimenta amargura interior e vazio. A quantos dos nossos jovens não fez pagar o seu tributo um tal desespero! Que os jovens (…) nunca lhes vejam roubada a esperança!" 

«Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor». Maria disse então: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre». Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses e depois regressou a sua casa.» 

"Dirijamo-nos a Maria, Mãe de Deus, e imploremos a graça de viver alegres na liberdade dos filhos de Deus, usar sabiamente esta liberdade para servirmos os nossos irmãos e irmãs, e viver e atuar de tal modo que sejamos sinais de esperança, aquela esperança que encontrará a sua realização no Reino eterno, onde reinar é servir. Ámen." 

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, solenidade da Assunção da Virgem Maria, contemplamo-la a subir em corpo e alma à glória do Céu. Também o Evangelho de hoje no-la apresenta enquanto sobe, desta vez rumo a uma «região montanhosa» (Lc 1, 39). E por que sobe? Para ajudar a sua prima Isabel, e lá proclama o cântico jubiloso do Magnificat. Maria sobe e a Palavra de Deus revela-nos o que a carateriza na sua subida: o serviço ao próximo e o louvor a Deus. Ambos: Maria é a mulher do serviço ao próximo e Maria é a mulher que louva a Deus. De resto, o evangelista Lucas narra a vida de Cristo como uma subida para o alto, em direção a Jerusalém, lugar do dom de si na cruz, e descreve do mesmo modo o caminho de Maria. Em suma, Jesus e Maria percorrem o mesmo caminho: duas vidas que se elevam, glorificando a Deus e servindo os irmãos. Jesus como Redentor, que dá a vida por nós, pela nossa justificação; Maria como a serva que sai para servir: duas vidas que vencem a morte e ressuscitam; duas vidas cujos segredos são o serviço e o louvor. Detenhamo-nos nestes dois aspetos:  serviço e louvor.

O serviço. É quando nos abaixamos para servir os nossos irmãos que subimos: é o amor que eleva a vida. Vamos servir os nossos irmãos e, com esse serviço, “subimos”. Mas servir não é fácil: Nossa Senhora, que acaba de conceber, percorre de Nazaré quase 150 quilómetros para chegar a casa de Isabel. Ajudar custa, a todos nós. Experimentamo-lo sempre, no cansaço, na paciência e nas preocupações que o cuidado dos outros implica. Pensemos, por exemplo, nos quilómetros que muitas pessoas percorrem todos os dias para ir e voltar do trabalho e realizar muitas tarefas em benefício do próximo; pensemos nos sacrifícios de tempo e de sono para cuidar de um bebé ou de um idoso; e no compromisso em servir quantos nada têm para retribuir, tanto na Igreja como no voluntariado. Admiro o voluntariado. É cansativo, mas é uma subida, é ganhar o Céu! É o verdadeiro serviço.

Mas o serviço corre o risco de ser estéril sem o louvor a Deus. De facto, quando Maria entra em casa da sua prima, louva o Senhor. Não fala do cansaço da viagem, mas do coração brota um cântico de júbilo. Porque quem ama a Deus conhece o louvor. E o Evangelho de hoje mostra-nos “uma cascata de louvores”: a criança salta de alegria no seio de Isabel (cf. Lc 1, 44), que pronuncia palavras de bênção e “a primeira bem-aventurança”: «Feliz daquela que acreditou» (Lc 1, 45); e tudo culmina em Maria, que proclama o Magnificat (cf. Lc 1, 46-55). O louvor aumenta a alegria. O louvor é como uma escada: eleva os corações. O louvor eleva o espírito e vence a tentação de se abater. Já vistes que as pessoas aborrecidas, as que vivem de mexericos, são incapazes de louvar? Perguntai-vos: sou capaz de louvar? Como é bom louvar a Deus todos os dias, e também os outros! Como é bom viver de gratidão e bênção em vez de lamentações e queixas, olhar para cima em vez de amuar! Queixas: há pessoas que se queixam todos os dias. Mas olha que Deus está perto de ti, olha que Ele te criou, olha as coisas que Ele te deu. Louva, louva! Isto é saúde espiritual.

Serviço e louvor. Façamos esta pergunta a nós mesmos: vivo o trabalho e as ocupações diárias com espírito de serviço ou com egoísmo? Dedico-me a alguém de forma gratuita, sem procurar um benefício imediato? Em suma, faço do serviço o “trampolim” da minha vida? E pensando no louvor: sei, como Maria, exultar em Deus (cf. Lc 1, 47)? Rezo bendizendo o Senhor? E, depois de o louvar, difundo a sua alegria entre as pessoas que encontro? Cada um procure responder a estas perguntas.

Que a nossa Mãe, Assunta ao Céu, nos ajude a subir cada dia mais através do serviço e do louvor.

Papa Francisco

(Angelus , 15 de agosto de 2023)

Diocese de Leiria-Fátima dá início à sua reorganização com criação de Unidades Pastorais

 


sábado, 10 de agosto de 2024

  XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM

As leituras de hoje vêm na sequência das dois últimos domingos, na medida em que nos centram no mistério do Amor Infinito de Deus, mais especificamente, no Pão Vivo que desceu do Céu, no Único alimento que nos sacia verdadeiramente, que é Jesus, o Filho de Deus que nos habita ontem, hoje e pelos séculos sem fim. Somos desafiados a acreditar, a confiar, que o verdadeiro alimento vem de Deus, uma e outra vez, sempre que d’Ele necessitarmos, para saciar as mais variadas “fomes” que nos permitem prosseguir a caminhada que nos leva ao encontro com Ele.

Na 1ªleitura (1 Reis 19, 4-8), com Elias, maravilhamo-nos com a forma como Deus, mesmo com os nossos limites e desistências, encontra sempre o melhor meio para nos confortar, alimentar e dar forças para prosseguirmos o caminho do encontro com Ele e com os outros. É assim o nosso Deus, nunca nos deixa sós, nunca nos abandona, insiste uma e outra vez, tantas quantas forem necessárias, para que nos voltemos para Ele, para que prossigamos até ao “Monte de Deus, Horeb”. 

«Naqueles dias, Elias entrou no deserto e andou o dia inteiro. Depois sentou-se debaixo de um junípero e, desejando a morte, exclamou: «Já basta, Senhor. Tirai-me a vida, porque não sou melhor do que meus pais». Deitou-se por terra e adormeceu à sombra do junípero. Nisto, um Anjo tocou-lhe e disse: «Levanta-te e come». Ele olhou e viu à sua cabeceira um pão cozido sobre pedras quentes e uma bilha de água. Comeu e bebeu e tornou a deitar-se. O Anjo do Senhor veio segunda vez, tocou-lhe e disse: «Levanta-te e come, porque ainda tens um longo caminho a percorrer». Elias levantou-se, comeu e bebeu. Depois, fortalecido com aquele alimento, caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até ao monte de Deus, Horeb.»

Na 2ª leitura (Ef 4, 30 – 5, 2) S.Paulo relembra-nos que, se aceitamos que somos filhos, no Filho, então as nossas atitudes, no dia a dia da vida, devem refletir Aquele que é o Único e verdadeiro alimento, Jesus Cristo. Elenca, concretizando, os comportamentos que devemos ter e os que devemos eliminar na relação com os outros. E, hoje, como ontem, a lista está atualizadíssima. 

«Irmãos: Não contristeis o Espírito Santo de Deus, que vos assinalou para o dia da redenção. Seja eliminado do meio de vós tudo o que é azedume, irritação, cólera, insulto, maledicência e toda a espécie de maldade. Sede bondosos e compassivos uns para com os outros e perdoai-vos mutuamente, como Deus também vos perdoou em Cristo. Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados. Caminhai na caridade, a exemplo de Cristo, que nos amou e Se entregou por nós, oferecendo-Se como vítima agradável a Deus.»

No Evangelho (Jo 6, 41-51) é Jesus que nos dá a razão de ser da nossa fé, Ele próprio, que sendo Deus Filho, no seio da Trindade, a nós desce, feito homem e, num mistério tão profundo, de um amor infinito por todos e cada um de nós, connosco permanece e nos permite recebê-l'O em cada eucaristia. Tu já sabias que sem o Teu alimento, sem Ti, não conseguiríamos prosseguir a nossa caminhada para Deus. Oh que maravilha de mistério amoroso é este em que somos convidados a participar em cada eucaristia. Mil graças Senhor pelo Teu infinito Amor! 

«Naquele tempo, os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito: «Eu sou o pão que desceu do Céu». E diziam: «Não é Ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que Ele diz agora: ‘Eu desci do Céu’?». Jesus respondeu-lhes: «Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. Está escrito no livro dos Profetas: ‘Serão todos instruídos por Deus’. Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino vem a Mim. Não porque alguém tenha visto o Pai; só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram. Mas este pão é o que desce do Céu, para que não morra quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo». 

Glória, Glória a Deus nas alturas, Senhor Jesus Cristo, Filho Unigénito, com o Espírito Santo na Glória de Deus Pai.


Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Neste domingo prossegue a leitura do capítulo seis do Evangelho de João, no qual Jesus, depois de ter realizado o grande milagre da multiplicação dos pães, explica às pessoas o significado daquele «sinal» (Jo 6, 41-51).

Como já tinha feito precedentemente com a Samaritana, partindo da experiência da sede e do sinal da água, aqui Jesus parte da experiência da fome e do sinal do pão, para revelar-se a si mesmo e convidar a crer n’Ele.

O povo procura-o, o povo escuta-o, porque ficou entusiasmado com o milagre — queria torná-lo rei! — mas quando Jesus afirma que o verdadeiro pão, doado por Deus, é Ele mesmo, muitos se escandalizam, não compreendem e começam a murmurar entre si: «Porventura — diziam — não é ele Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, diz ele: “Desci do céu?”» (Jo 6, 42). E começam a murmurar. Então Jesus responde: «Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair» e acrescenta: «quem crê em mim tem a vida eterna» (vv44.47).

Esta palavra do Senhor surpreende-nos e faz-nos refletir. Ela introduz na dinâmica da fé, que é uma relação: a relação entre a pessoa humana — todos nós — e a Pessoa de Jesus, onde um papel decisivo é desempenhado pelo Pai, e naturalmente também pelo Espírito Santo — que aqui está subentendido. Não basta encontrar Jesus para acreditar n’Ele, não basta ler a Bíblia, o Evangelho — isto é importante, mas não basta — nem é suficiente assistir a um milagre, como a multiplicação dos pães. Muitas pessoas estiveram em estreito contacto com Jesus e não acreditaram n’Ele, pelo contrário, desprezaram-no e condenaram-no. E eu pergunto-me: por que isso? Não foram atraídas pelo Pai? Não, isso aconteceu porque os seus corações estavam fechados à ação do Espírito de Deus. E se tiveres o coração fechado, a fé não entrará. Deus Pai sempre nos atrai a Jesus: somos nós que abrimos ou fechamos o nosso coração. Ao contrário, a fé, que é como uma semente no profundo do coração, desabrocha quando nos deixamos «atrair» pelo Pai rumo a Jesus, e «vamos ter com Ele» de coração aberto, sem preconceitos; então reconhecemos no seu rosto a Face de Deus e nas suas palavras a Palavra de Deus, porque o Espírito Santo nos fez entrar na relação de amor e de vida que existe entre Jesus e Deus Pai. E ali nós recebemos o dom, o presente da fé.

Então, com esta atitude de fé, podemos compreender também o sentido do «Pão da vida» que Jesus nos doa, e que Ele exprime assim: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo» (Jo 6, 51). Em Jesus, na sua «carne» — ou seja, na sua humanidade concreta — está presente todo o amor de Deus, que é o Espírito Santo. Quem se deixa atrair por este amor caminha rumo a Jesus, vai com fé e d’Ele recebe a vida, a vida eterna.

Quem viveu essa experiência de forma exemplar foi a Virgem de Nazaré, Maria: a primeira pessoa humana que acreditou em Deus acolhendo a carne de Jesus. Aprendamos d’Ela, nossa Mãe, a alegria e a gratidão pelo dom da fé. Um dom que não é «privado», um dom que não é propriedade particular mas é um dom a ser partilhado: um dom «para a vida do mundo»!

Papa Francisco

(Angelus , 9 de agosto de 2015)

sábado, 3 de agosto de 2024

   XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM


 As leituras de hoje, vêm na continuidade das do passado domingo, mas centram-se mais em Jesus, o Pão Vivo descido do Céu, o nosso alimento, o único que verdadeiramente nos sacia. É um desafio: a encontramo-nos com o Único que nos dá a vida; a deixarmo-nos alimentar por Ele; a recebermos de Jesus a água da Fonte de Vida, que é Ele. Só em Deus encontraremos o alimento e a água que nos saciam, porque só Ele é a Vida verdadeira, a fonte que nos sustenta e dessedenta. Arrisquemos e deixemo-nos encontrar, inundar por Ele, que está atento e escuta os nossos clamores.

Na 1ªleitura (Ex 16, 2-4.12-15) revemo-nos nas atitudes do povo de Israel. Quando tudo está bem o povo louva e agradece, está feliz, mas quando aparecem as dificuldades, os obstáculos, aí, os clamores, os impropérios, as murmurações,... são mais do que muitos. Mesmo assim, o Senhor escuta a revolta do Seu povo e envia-lhes alimento. Nunca o Senhor deixou o Seu povo sem resposta. Ele está sempre atento às necessidades dos que O procuram, ontem, hoje e sempre. Confiemos-Lhe todas as nossas angústias, preocupações e dificuldades e acreditemos no Seu incomensurável Amor por cada um de nós. Ele ama-nos infinitamente e fará sempre o que for melhor, na altura certa. Mesmo que não entendamos nada, entreguemo-nos confiadamente. N’Ele tudo é possível, até “chover pão do céu”.

“Naqueles dias, toda a comunidade dos filhos de Israel começou a murmurar no deserto contra Moisés e Aarão. Disseram-lhes os filhos de Israel: «Antes tivéssemos morrido às mãos do Senhor na terra do Egipto, quando estávamos sentados ao pé das panelas de carne e comíamos pão até nos saciarmos. Trouxestes-nos a este deserto, para deixar morrer à fome toda esta multidão». Então o Senhor disse a Moisés: «Vou fazer que chova para vós pão do céu. O povo sairá para apanhar a quantidade necessária para cada dia. Vou assim pô-lo à prova, para ver se segue ou não a minha lei. Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Vai dizer-lhes: ‘Ao cair da noite comereis carne e de manhã saciar-vos-eis de pão. Então reconhecereis que Eu sou o Senhor, vosso Deus’». Nessa tarde apareceram codornizes, que cobriram o acampamento, e na manhã seguinte havia uma camada de orvalho em volta do acampamento. Quando essa camada de orvalho se evaporou, apareceu à superfície do deserto uma substância granulosa, fina como a geada sobre a terra. Quando a viram, os filhos de Israel perguntaram uns aos outros: «Man-hu?», quer dizer: «Que é isto?», pois não sabiam o que era. Disse-lhes então Moisés: «É o pão que o Senhor vos dá em alimento».”

Na 2ªleitura (Ef 4, 17.20-24) S.Paulo insiste para que permaneçamos firmes no Único que nos pode dar a verdadeira vida, para sermos fiéis ao Único Amor que nos pode dar a verdadeira felicidade. Em Jesus tudo tem sentido, n’Ele, através da ação do Espírito Santo no mais íntimo do nosso coração, cada um de nós será uma nova criatura, revestido “do homem novo, criado à imagem de Deus na justiça e santidade verdadeiras.” Deixemos que, o conselho que S.Paulo deu aos Efésios, também se concretize connosco, no dia a dia da nossa vida. Afinal, ontem, hoje e sempre somos chamados a ser testemunhas do Amor infinito de Deus, no nosso quotidiano, junto dos que o Senhor coloca na nossa vida.

“Irmãos: Eis o que vos digo e aconselho em nome do Senhor: Não torneis a proceder como os pagãos, que vivem na futilidade dos seus pensamentos. Não foi assim que aprendestes a conhecer a Cristo, se é que d’Ele ouvistes pregar e sobre Ele fostes instruídos, conforme a verdade que está em Jesus. É necessário abandonar a vida de outrora e pôr de parte o homem velho, corrompido por desejos enganadores. Renovai-vos pela transformação espiritual da vossa inteligência e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus na justiça e santidade verdadeiras.

No Evangelho (Jo 6, 24-35)  Jesus continua a catequese  que já iniciou no domingo passado sobre o Único alimento que sacia verdadeiramente: o Pão da Vida – Ele próprio. E fica muito claro, para mim, que o essencial a que somos chamados é a acreditar, a viver, a alimentarmo-nos do Filho de Deus, ressuscitado e vivo no meio de nós. Se a Ele nos entregarmos de alma e coração, se Ele for o nosso alimento, a razão de ser da nossa vida, se nos deixarmos inundar, empapar por Ele, o Amor de Deus aos que nos rodeiam, aos que connosco convivem, aos que fazem parte da nossa família, há de acontecer, porque é Ele que se dá, se comunica e chega ao coração  de todo o que se Lhe abre. Não duvidemos nunca do Seu Amor infinito por cada um de nós.

"Naquele tempo, quando a multidão viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago, subiram todos para as barcas e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus. Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe: «Mestre, quando chegaste aqui?». Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará. A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo». Disseram-Lhe então: «Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?». Respondeu-lhes Jesus: «A obra de Deus consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou». Disseram-Lhe eles: «Que milagres fazes Tu, para que nós vejamos e acreditemos em Ti? Que obra realizas? No deserto os nossos pais comeram o maná, conforme está escrito: ‘Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu’». Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu. O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo». Disseram-Lhe eles: «Senhor, dá-nos sempre desse pão». Jesus respondeu-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede»."

Senhor, eu creio que és Jesus, o Filho de Deus Vivo, o único e verdadeiro alimento com que posso saciar a sede de Deus, que colocaste no mais íntimo do meu coração. Senhor, que eu nunca duvide do Teu infinito amor por cada ser por Ti criado. Inunda-me de Ti.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

A cena inicial do Evangelho na Liturgia de hoje (cf. Jo 6, 24-35) mostra-nos algumas barcas que se dirigem para Cafarnaum: a multidão vai à procura de Jesus. Poderíamos pensar que isto é uma coisa muito boa, mas o Evangelho ensina-nos que não basta procurar Deus, devemos também perguntar porque O procuramos. De facto, Jesus diz: «buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados» (v. 26). Com efeito, as pessoas tinham testemunhado o milagre da multiplicação dos pães, mas não compreenderam o significado do gesto: pararam no milagre exterior e no pão material: unicamente, sem ir mais longe, ao significado disso.

Eis então uma primeira pergunta que todos podemos fazer a nós mesmos: por que procuramos o Senhor? Por que procuro o Senhor? Quais são as motivações da minha fé, da nossa fé? Precisamos de discernir isto, porque entre as muitas tentações que temos na vida, há uma que poderíamos definir tentação idólatra. É o que nos leva a procurar Deus para o nosso próprio uso, para resolver problemas, para obter d’Ele o que não podemos obter por nós mesmos, por interesse. Mas desta forma a fé permanece superficial e até – se me é permitido dizê-lo – a fé permanece milagreira: procuramos Deus para nos alimentarmos e depois esquecemo-nos d'Ele quando estamos satisfeitos. No centro desta fé imatura não há Deus, há as nossas necessidades. Penso nos nossos interesses, em tantas coisas... É correto apresentar as nossas necessidades ao coração de Deus, mas o Senhor, que age muito para além das nossas expetativas, deseja viver connosco, antes de mais, numa relação de amor. E o verdadeiro amor é abnegado, é gratuito: não amamos para depois receber um favor em troca! Isto é interesse, e muitas vezes na vida somos interesseiros.

Uma segunda pergunta pode ajudar-nos, aquela que a multidão faz a Jesus: «Que devemos fazer para executar as obras de Deus?» (v. 28). É como se o povo, provocado por Jesus, dissesse: “Como podemos purificar a nossa busca de Deus? Como passamos de uma fé mágica, que pensa apenas nas próprias necessidades, para uma fé que agrade a Deus?”. E Jesus indica o caminho: responde que a obra de Deus é acolher Aquele que o Pai enviou, ou seja, acolher a Ele, Jesus. Não significa acrescentar práticas religiosas nem observar preceitos especiais; mas acolher Jesus, acolhê-lo na vida, viver uma história de amor com Jesus. Ele purificará a nossa fé. Sozinhos, não somos capazes. Mas o Senhor deseja uma relação de amor connosco: antes das coisas que recebemos e fazemos, existe Ele para ser amado. Há uma relação com Ele que vai para além das lógicas do interesse e do cálculo.

Isto é válido em relação a Deus, mas também nas nossas relações humanas e sociais: quando procuramos sobretudo a satisfação das nossas necessidades, corremos o risco de usar pessoas e de instrumentalizar as situações para as nossas finalidades. Quantas vezes já ouvimos de uma pessoa: “Mas esta usa as pessoas e depois esquece-as”. Usar as pessoas para o próprio benefício: é vergonhoso. E uma sociedade que se concentra nos interesses e não nas pessoas é uma sociedade que não gera vida. O convite do Evangelho é este: em vez de nos preocuparmos apenas com o pão material que nos alimenta, aceitemos Jesus como o pão da vida e, a partir da nossa amizade com ele, aprendamos a amar-nos uns aos outros. Com gratuidade e sem cálculos. Amor gratuito e sem cálculos, sem usar pessoas, com abnegação, generosidade e magnanimidade.

Peçamos agora à Santíssima Virgem, Ela que viveu a mais bela história de amor com Deus, que nos conceda a graça de nos abrirmos ao encontro com o seu Filho.

Papa Francisco

(Angelus , 1 de agosto de 2021)