sábado, 18 de maio de 2024

  SOLENIDADE DE PENTECOSTES

Hoje celebramos a Festa do Pentecostes, fazemos memória do nascimento da Igreja, da descida do Espírito Santo sobre Maria Santíssima e os Apóstolos reunidos no Cenáculo. 

Para dar continuidade ao que era pedido no domingo passado, os apóstolos e nós, homens e mulheres de hoje, necessitamos de nos deixar repassar pelo Espírito Santo, que Jesus nos envia, de junto do Pai. Terminado o tempo pascal é a hora de, cheios do Espírito Santo, anunciarmos na vida, do dia a dia, no que somos e na forma como agimos: o Amor infinito de Deus, por cada ser vivente; o triunfo do Amor em Jesus que está ressuscitado, vive em nós e venceu a morte. 

Na 1ª leitura (Atos 2, 1-11) S. Lucas situa-nos num mesmo lugar, com os apóstolos, ainda cheios de medos e angústias, sem saberem o que fazer. E é neste contexto que percebemos a ação do Espírito Santo. 

É Deus que se faz ouvir, entender, por todos aqueles povos de diferentes línguas, através dos apóstolos, que se lhe entregaram, com a toda a sua fragilidade, mas também com toda a confiança. É Deus que se revela através deles e continua a manifestar-se através de outras pessoas, tendo chegado até aos dias de hoje. Façamos como os apóstolos. Agora é a nossa vez!

Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».” 

Na 2ªleitura (1 Cor 12, 3b-7.12-13) S. Paulo projeta-nos para a nossa missão de batizados no Espírito Santo. Cada batizado, que se deixa guiar por Jesus, que se deixa moldar pelo Seu Santo Espírito, que se encontra com Ele, no mais íntimo de si mesmo, porá a render os dons que o Senhor lhe confiou, para a continuação da construção do Seu Reino de Amor. Somos todos necessários ao “bem comum”, à Igreja, cada um ao seu jeito, com a sua missão. 

“Irmãos: Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela ação do Espírito Santo. De facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – Todos ficaram cheios do Espírito Santo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.”

No Evangelho (Jo 20, 19-23)  somos reconduzidos ao mesmo acontecimento da 1ªleitura, só que, desta vez, por S. João, que nos centra no nascimento da Igreja, na missão que Jesus confiou aos seus apóstolos. Deixemos que o Espírito Santo continue, em nós, a missão iniciada com os primeiros apóstolos, com os que, naqueles primeiros tempos, se deixaram habitar totalmente pelo Espírito Santo de Deus. 

“Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».”


"Senhor, Deus do universo, que no mistério de Pentecostes, santificais a Igreja, dispersa entre todos os povos e nações, derramai sobre a terra os dons do Espírito Santo, de modo que também hoje se renovem nos corações dos fiéis os prodígios realizados nos primórdios da pregação do Evangelho".


Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

O livro dos Atos dos Apóstolos (cf. 2, 1-11) narra o que aconteceu em Jerusalém cinquenta dias depois da Páscoa de Jesus. Os discípulos estavam reunidos no cenáculo e com eles estava a Virgem Maria. O Senhor ressuscitado disse-lhes para permanecer na cidade até receber do alto o dom do Espírito. E isto manifestou-se com um «fragor» que, repentinamente, se ouviu vindo do céu, como um «vento impetuoso» que encheu a casa onde eles estavam (cf. v. 2). Portanto, trata-se de uma experiência real mas também simbólica. Algo que aconteceu, mas que também nos transmite uma mensagem simbólica para toda a vida.

Esta experiência revela que o Espírito Santo é como um vento forte e livre, ou seja, dá-nos força e liberdade: um vento forte e livre. Não pode ser controlado, impedido, nem medido; nem sequer se pode prever a sua direção. Não se deixa enquadrar nas nossas exigências humanas - procuramos sempre enquadrar as coisas - não se deixa enquadrar nos nossos esquemas e preconceitos. O Espírito procede de Deus Pai e do seu Filho Jesus Cristo, e irrompe na Igreja, irrompe em cada um de nós, dando vida à nossa mente e ao nosso coração. Como diz o Credo: «É Senhor e dá a vida». Tem o senhorio porque é Deus, e dá vida.

No dia de Pentecostes, os discípulos de Jesus ainda estavam desorientados e apavorados. Ainda não tinham a coragem de sair em público. E também nós, às vezes acontece, preferimos permanecer entre as paredes de proteção dos nossos ambientes. Mas o Senhor sabe chegar até nós e abrir as portas do nosso coração. Ele envia sobre nós o Espírito Santo que nos envolve e vence todas as nossas hesitações, abate as nossas defesas, desmantela as nossas falsas seguranças. O Espírito faz de nós novas criaturas, tal como fez naquele dia com os Apóstolos: renova-nos, faz de nós criaturas novas.

Depois de ter recebido o Espírito Santo, eles deixaram de ser como antes - Ele transformou-os - mas saíram, saíram sem medo e começaram a anunciar Jesus, a pregar que Jesus ressuscitou, que o Senhor está connosco, de tal modo que cada um os compreendia na própria língua. Pois o Espírito é universal, não nos priva das diferenças culturais, diferenças de pensamento, não, é para todos, mas todos o compreendem na própria cultura, na própria língua. O Espírito muda o coração, dilata o olhar dos discípulos. Torna-os capazes de comunicar a todos as grandes obras de Deus, sem limites, indo além das fronteiras culturais e religiosas com as quais estavam habituados a pensar e a viver. Torna os Apóstolos capazes de alcançar os outros, respeitando as suas possibilidades de escuta e de compreensão, na cultura e linguagem de cada um (vv. 5-11). Em síntese, o Espírito Santo coloca em comunicação pessoas diferentes, realizando a unidade e a universalidade da Igreja.

E hoje diz-nos muito esta verdade, esta realidade do Espírito Santo, onde na Igreja existem pequenos grupos que procuram sempre a divisão, separar-se dos outros. Este não é o Espírito de Deus. O Espírito de Deus é harmonia, unidade, une as diferenças. Um bom Cardeal, que foi Arcebispo de Génova, dizia que a Igreja é como um rio: o importante é permanecer dentro; não interessa se estás um pouco deste lado e um pouco do outro, o Espírito Santo faz a unidade. Ele usava a figura do rio. O importante é permanecer na unidade do Espírito e não olhar para as pequenas coisas, se estás um pouco deste lado e um pouco do outro, se rezas desta maneira ou daquela... Isto não vem de Deus. A Igreja é para todos, para todos, como mostrou o Espírito Santo no dia de Pentecostes.

Hoje peçamos à Virgem Maria, Mãe da Igreja, que interceda para que o Espírito Santo desça em abundância, encha o coração dos fiéis e acenda em todos o fogo do seu amor.

Papa Francisco

( Regina Caeli, 23 de maio de 2021)

sábado, 11 de maio de 2024

  DOMINGO VII DA PÁSCOA

ASCENSÃO DO SENHOR

As leituras do Domingo da Ascensão centram-nos, ao mesmo tempo, em duas realidades diferentes: por um lado somos convidados a contemplar a subida de Jesus aos céus, é o momento da partida, da separação; mas, por outro lado, porque Jesus foi preparando a Sua subida para o Pai, damo-nos conta de um movimento, de um impulso, para sairmos de nós próprios e, conscientes de que Ele continua connosco, “partirmos”, em conjunto com os apóstolos, a anunciar o amor de Deus a todos aqueles que, nos nossos caminhos, O procuram de coração sincero.

Na 1ªleitura (Atos 1, 1-11) também nós escutamos a pergunta feita pelos dois homens vestidos de branco: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu». E, porque os Apóstolos continuaram a missão que Jesus lhes confiou e, assim, a Boa Nova de Jesus Ressuscitado, por nosso amor, chegou até nós, homens e mulheres do séc.XXI, recebemos, naquela refeição, mas também em cada  eucaristia em que participamos, as palavras de Jesus como missão também dirigida a cada um de nós, hoje e sempre: «mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». Que na nossa vida quotidiana sejamos testemunhas do Amor de Deus!

“No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, desde o princípio até ao dia em que foi elevado ao Céu, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera. Foi também a eles que, depois da sua paixão, Se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus. Um dia em que estava com eles à mesa, mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, «da qual – disse Ele – Me ouvistes falar. Na verdade, João batizou com água; vós, porém, sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias». Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?». Ele respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a Sua autoridade; mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». Dito isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos. E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco, que disseram: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».”

Na 2ªleitura (Ef 1, 17-23) S.Paulo relembra-nos a imensa graça que temos pelo facto de sermos crentes, de termos fé e o Espírito Santo nos habitar. E, quando nos reconhecemos assim amados por Deus, todo o nosso ser exclama e agradece, desejando que as outras pessoas, principalmente aquelas que conhecemos, na família, no trabalho, na nossa rua, ou que, ocasionalmente, se cruzam connosco, se sintam também assim, verdadeira e infinitamente amadas por Deus, tal qual são.

“Irmãos: O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de revelação para O conhecerdes plenamente e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o mostra a eficácia da poderosa força que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há de vir. Tudo submeteu aos seus pés e pô-l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.” 

No Evangelho (Mc 16, 15-20) recebemos de Jesus a missão de levar o Evangelho a todo o lugar onde estivermos e/ou por onde andarmos. Não podemos deixar de o fazer, pois todos têm o direito a ser felizes, a conhecerem o quanto Deus os ama. Façamos a nossa parte.

“Naquele tempo, Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.” 

Envia Senhor sobre mim o Teu Santo Espírito, para que, sob a Sua ação, eu seja Tua testemunha, por onde quer que ande.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, em Itália e em muitos outros países, celebra-se a solenidade da Ascensão do Senhor. Esta festa inclui dois elementos. Por um lado, orienta o nosso olhar para o céu, onde Jesus glorificado está sentado à direita de Deus (cf. Mc 16, 19). Por outro, recorda-nos o início da missão da Igreja: porquê? Porque Jesus ressuscitado e elevado ao céu envia os seus discípulos a difundir o Evangelho por todo o mundo. Portanto, a Ascensão exorta-nos a elevar o olhar para o céu, para o dirigir logo a seguir para a terra, cumprindo as tarefas que o Senhor ressuscitado nos confia.

Eis quanto nos convida a fazer a página evangélica hodierna, na qual o evento da Ascensão vem imediatamente depois da missão que Jesus confia aos discípulos. Trata-se de uma missão incomensurável — ou seja, literalmente sem confins — que supera as forças humanas. Com efeito, Jesus diz: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura» (Mc 16, 15). Parece deveras demasiado audaz a missão que Jesus confia a um pequeno grupo de homens simples e sem grandes capacidades intelectuais! Contudo, esta restrita companhia, irrelevante diante das grandes potências do mundo, é enviada para levar a mensagem de amor e de misericórdia de Jesus a todos os recantos da terra.

Mas este projeto de Deus só pode ser realizado com a força que o próprio Deus concede aos Apóstolo. Neste sentido, Jesus garante-lhes que a sua missão será apoiada pelo Espírito Santo. Diz: «descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo» (At 1, 8). Por conseguinte, foi possível realizar esta missão, e os Apóstolos deram início a esta obra, que depois foi continuada pelos seus sucessores. A missão confiada por Jesus aos Apóstolos prosseguiu através dos séculos, e prossegue ainda hoje: ela exige a colaboração de todos nós. Com efeito, cada um de nós, em virtude do Batismo que recebeu, está habilitado por sua vez a anunciar o Evangelho. É precisamente o batismo que habilita e também nos impele a ser missionários, que anuncia o Evangelho.

A Ascensão do Senhor ao céu, enquanto inaugura uma nova forma de presença de Jesus no meio de nós, pede-nos para ter olhos e coração para o encontrar, para o servir e para o testemunhar aos outros. Trata-se de ser homens e mulheres da Ascensão, ou seja, buscadores de Cristo pelas sendas do nosso tempo, levando a sua palavra de salvação até aos confins da terra. Neste itinerário, encontramos o próprio Jesus nos irmãos, sobretudo nos mais pobres, em quantos sofrem na própria carne a dura e mortificadora experiência de antigas e novas pobrezas. Assim como inicialmente Cristo Ressuscitado enviou os seus apóstolos com a força do Espírito Santo, também hoje Ele nos envia, com a mesma força para dar sinais concretos e visíveis de esperança. Porque Jesus que nos dá a esperança, foi elevado ao céu, abriu as portas do céu e a esperança que nós para lá iremos.

A Virgem Maria que, como Mãe do Senhor morto e ressuscitado, animou a fé da primeira comunidade dos discípulos, nos ajude também a manter «elevados os nossos corações», como a Liturgia nos exorta a fazer. E, ao mesmo tempo, nos ajude a ter “os pés no chão”, e a semear com coragem o Evangelho nas situações concretas da vida e da história.

Papa Francisco

( Regina Caeli, 13 de maio de 2018)

sábado, 4 de maio de 2024

 DOMINGO VI DA PÁSCOA

Os textos deste domingo são uma interpelação a contemplarmos Deus Amor, mas de forma ativa, deixando-nos repassar por Ele, que é o Amor vivo, presente, a tempo inteiro, em todo o nosso ser. Se nos deixarmos fazer, habitar, por Deus Amor, então seremos transmissores, para todos os que convivem, se cruzam, trabalham connosco, do quanto Deus os ama, isto é, infinitamente, perdidamente. As leituras de hoje, sendo extraordinariamente belas e, ao mesmo tempo, verdadeiramente desafiantes para todo e qualquer cristão, centram-se no nosso mandamento principal: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

 

Na 1ªleitura (Atos 10, 25-26.34-35.44-48)  S. Pedro é testemunha de que o Espírito Santo age em todos os homens, que O procuram de coração sincero, seja qual  for a sua raça, tribo, ou nação. Na casa de Cornélio, S.Pedro alarga a Igreja à sua dimensão universal, para lá do povo escolhido. Jesus, quando veio até nós, trouxe a salvação a toda a humanidade.

“Naqueles dias, Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus. Pedro então declarou: «Poderá alguém recusar a água do Batismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós?». E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então, pediram-Lhe que ficasse alguns dias com eles.”

Na 2ªleitura (1 Jo 4, 7-10) S.João fala-nos d’Aquele que verdadeiramente transformou a sua vida: Deus Amor. E a forma como o faz é reveladora do seu amor a Deus, cimentado em  Jesus, transmitindo-nos a sua experiência:o essencial do viver cristão é acreditarmos no Amor de Deus, centrado em Jesus Seu Filho, e n’Ele comunicado a todos os que nos rodeiam. O quanto amamos os outros reflete a medida do nosso  amor a Deus, que nos amou primeiro e nos enviou Seu Filho para n’Ele vivermos. Deixemo-nos amar por Deus Amor e a nossa vida testemunhá-l'O-á. Então, sim, seremos verdadeiros veículos de transmissão do Seu Amor.

“Caríssimos: Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.” 

O Evangelho (Jo 15, 9-17) revela-nos a dimensão do amor de Jesus ao Pai. A Sua intimidade com o Pai foi total, a Sua preocupação foi sempre, até ao fim da vida na terra, fazer a vontade do Pai. Aceitemos o convite de Jesus, permaneçamos no Seu amor e deixemos que outros   conheçam e experimentem o Seu amor infinito por eles.

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».”

Senhor, bendito e louvado sejas porque nos amas infinitamente, tal qual somos. Que eu me deixe amar totalmente por Ti. Que eu nunca duvide do Teu amor.

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

No Evangelho deste domingo (Jo 15, 9-17) Jesus, depois de se ter comparado a si mesmo com a videira e a nós com os ramos, explica qual fruto dão aqueles que permanecem unidos a Ele: este fruto é o amor. Retoma de novo o verbo-chave: permanecer. Convida-nos a permanecer no seu amor, para que a sua alegria esteja em nós e a nossa alegria seja plena (vv. 9-11). Permanecer no amor de Jesus.

Perguntemo-nos: qual é este amor no qual Jesus nos diz para permanecer a fim de ter a sua alegria? Qual é este amor? É o amor que tem origem no Pai, pois «Deus é amor» (1 Jo 4, 8). Este amor de Deus, do Pai, corre como um rio no Filho Jesus e através d'Ele chega até nós, suas criaturas. De facto, Ele diz: «Como o Pai me amou, também eu vos amei» (Jo 15, 9). O amor que Jesus nos dá é o mesmo amor com que o Pai O ama: amor puro, incondicional, amor gratuito. Não pode ser comprado; é gratuito. Doando-o a nós, Jesus trata-nos como amigos – com este amor – fazendo-nos conhecer o Pai, incluindo-nos na sua missão para a vida do mundo.

E depois, podemos formular a pergunta, como permanecemos neste amor? Jesus diz: «Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor» (v. 10). Jesus resumiu os seus mandamentos num só, este: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (v. 12). Amar como Jesus ama significa pôr-se ao serviço, ao serviço dos irmãos, tal como Ele o fez ao lavar os pés dos discípulos. Significa também sair de si mesmo, desapegar-se das próprias seguranças humanas, das comodidades mundanas, para se abrir aos outros, especialmente aos mais necessitados. Significa pôr-se à disposição, com o que somos e o que temos. Isto significa amar não com palavras, mas com gestos.

Amar como Cristo significa dizer não a outros “amores” que o mundo nos propõe: amor ao dinheiro – quem ama o dinheiro não ama como Jesus ama – amor ao sucesso, à vaidade, ao poder... Estas formas enganadoras de “amor” afastam-nos do amor do Senhor e levam-nos a tornar-nos cada vez mais egoístas, narcisistas, prepotentes. E a prepotência leva a uma degeneração do amor, a abusar dos outros, a fazer sofrer a pessoa amada. Penso no amor doentio que se transforma em violência – e quantas mulheres são hoje vítimas de violências. Isto não é amor. Amar como o Senhor nos ama significa apreciar a pessoa ao nosso lado, e respeitar a sua liberdade, amá-la como é, não como queremos que seja; como é, gratuitamente. Em última análise, Jesus pede-nos que permaneçamos no seu amor, que habitemos no seu amor, não nas nossas ideias, não no culto de nós mesmos. Quem habita no culto de si mesmo, habita no espelho: sempre a olhar para si. Ele pede-nos para sairmos da pretensão de controlar e gerir os outros. Não controlar, servi-los. Abrir o coração aos outros, isto é amor, e entregar-nos aos outros.

Amados irmãos e irmãs, onde leva este permanecer no amor do Senhor? Onde nos leva? Jesus disse-nos: «Para que a minha alegria esteja em vós e que a vossa alegria seja plena» (v. 11). E a alegria que o Senhor possui, porque Ele está em total comunhão com o Pai, também quer que esteja em nós, pois estamos unidos a Ele. A alegria de saber que somos amados por Deus apesar da nossa infidelidade faz-nos enfrentar as provações da vida com fé, faz-nos atravessar as crises para delas sairmos melhores. É no viver esta alegria que consiste o nosso ser verdadeiras testemunhas, porque a alegria é o sinal distintivo do verdadeiro cristão. O verdadeiro cristão não é triste, tem sempre a alegria dentro dele, até nos maus momentos.

Que a Virgem Maria nos ajude a permanecer no amor de Jesus e a crescer no amor a todos, testemunhando a alegria do Senhor Ressuscitado.

Papa Francisco

( Regina Caeli, 9 de maio de 2021)