domingo, 2 de abril de 2023

 QUARESMA PASSO A PASSO - 2023

SEMANA SANTA

Segunda-feira da Semana Santa – dia 35 – 03/04/2023

Evangelho Jo 12, 1-11

«Deixa-a em paz: ela tinha guardado o perfume para o dia da minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a Mim, nem sempre Me tereis»

O texto de João está cheio de elementos para a nossa reflexão. Podemos começar por verificar que a cena narrada se situa perto da Páscoa, portanto, antecede imediatamente a morte de Jesus. Passa-se tudo na casa dos irmãos Marta, Maria e Lázaro. Lázaro é reconhecido como aquele que Jesus ressuscitou. Estando à mesa com Jesus, não disse nem uma palavra. Ao contrário do que podíamos esperar, por ele ter sido ressuscitado, o centro das atenções não é ele, mas Jesus. Em vez de ter conseguido a admiração dos chefes, Lázaro, com a ressurreição, conseguiu que pretendessem também matá-lo e ele. Além de Lázaro está Marta que apenas serve à mesa e Maria que enche a casa com o perfume que deita nos pés de Jesus. Finalmente temos Judas. Não podia aceitar aquele exagero de Maria porque aparentemente está preocupado com os pobres. Jesus censura-o e mostra-lhe quanto está errado na sua avaliação.

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"Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus. Então Maria tomou uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos; e a casa encheu-se com o perfume do bálsamo. Disse então Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que havia de entregar Jesus: «Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários, para dar aos pobres?» Disse isto, não porque se importava com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa comum, tirava o que nela se lançava. Jesus respondeu-lhe: «Deixa-a em paz: ela tinha guardado o perfume para o dia da minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a Mim, nem sempre Me tereis». Soube então grande número de judeus que Jesus Se encontrava ali e vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes resolveram matar também Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus."

Nesta passagem do evangelho, percebo a sorte daqueles a quem Jesus dá a vida como fez com Lázaro. Julgo muitas vezes que Cristo me vem salvar das situações difíceis mais imediatas, mas não. Ele, ao dar-me a vida, mostra-me que o caminho da verdadeira vida passa necessariamente pela morte e morte de cruz. Ninguém que queira seguir Jesus estará livre da morte que os seus inimigos lhe querem infligir. Aconteceu assim também com Lázaro. E receberão a incompreensão pelos seus gestos de amor para com Jesus, como aconteceu com Maria.

Que eu seja capaz de encher toda a casa com o Teu perfume, como Maria, Senhor. Que eu provoque a curiosidade e o interesse por Ti como Lázaro, Senhor. Que eu seja capaz de entender o Teu caminho que sendo vida, passa pela morte de cruz. Que eu seja lugar para que todos vejam a vida a renascer como manifestação do Teu amor.

aliturgia.com

O Evangelho termina com uma observação: «Então os príncipes dos sacerdotes tinham deliberado  matar  também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, afastavam-se e acreditavam em Jesus» (Jo 12, 10-11). Há dias vimos os excertos da tentação: a sedução inicial, a ilusão, depois cresce - segundo excerto - e o terceiro, cresce e contagia e justifica-se. Mas há outro passo: vai em frente, não pára. Para estes não bastava matar Jesus, mas agora também a Lázaro, porque ele era uma testemunha de vida.

Mas hoje gostaria de refletir sobre uma palavra de Jesus. Seis dias antes da Páscoa - estamos mesmo à porta da Paixão - Maria faz este gesto de contemplação: Marta servia - como no outro excerto - e Maria abre a porta à contemplação. E Judas pensa no dinheiro e nos pobres, mas «não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa, tirava o que nela se metia» (Jo 12, 6). Esta história do administrador infiel é sempre atual, sempre os há, até a um nível elevado: pensemos nalgumas organizações caritativas ou humanitárias que têm tantos empregados, tantos, que têm uma estrutura muito rica de pessoas e que no final chegam aos pobres quarenta por cento, porque sessenta é para pagar o salário de tantas pessoas. É uma forma de tirar dinheiro aos pobres. Mas a resposta é Jesus. E aqui quero parar: «Pobres, sempre os tereis convosco» (Jo 12, 8). Esta é uma verdade: «Pobres, sempre os tereis convosco». Os pobres estão aqui. Há muitos: há os pobres que vemos, mas esta é a mínima parte; o grande número de pobres são aqueles que não vemos: os pobres escondidos. E não os vemos porque entramos na cultura da indiferença que é negacionista e negamos: “Não, não, não são muitos, não se veem; sim, aquele caso...”, diminuindo sempre a realidade dos pobres. Mas há muitos, muitos.

Ou então, se não entrarmos nesta cultura da indiferença, há o hábito de ver os pobres como ornamentos de uma cidade: sim, estão ali, como estátuas; sim, existem, veem-se; sim, aquela velhinha a pedir esmola, aquela outra... Mas como se fosse uma coisa normal. Os pobres fazem parte da ornamentação da cidade. Mas a grande maioria são pobres vítimas das políticas económicas, das políticas financeiras. Algumas estatísticas recentes resumem isto desta forma: há muito dinheiro nas mãos de poucos e muita pobreza em muitos, em tantos. E esta é a pobreza de tantas pessoas que são vítimas da injustiça estrutural da economia mundial. E há pobres que se envergonham de mostrar que não chegam ao fim do mês; tantos pobres da classe média, que secretamente vão à Caritas, pedem e sentem vergonha. Os pobres são muito mais numerosos do que os ricos; muito, muito... E o que Jesus diz é verdade: “Pobres, sempre os tereis convosco”. Mas eu vejo-os? Estou  consciente desta realidade? Especialmente da realidade oculta, aqueles que se envergonham de dizer que não conseguem chegar ao fim do mês.

Recordo que em Buenos Aires me disseram que o edifício de uma fábrica abandonada, vazio há anos, era habitado por cerca de quinze famílias que tinham chegado nos últimos meses. Fui lá. Eram famílias com filhos e cada um tinha usado uma parte da fábrica abandonada para viver. E, olhando para eles, vi que cada família tinha mobília boa, móveis da classe média, televisão, mas foram para lá porque não podiam pagar a renda. Os novos pobres que têm de abandonar a casa porque não podem pagar, foram para lá. É essa injustiça da organização económica ou financeira que os leva a isso. E são tantos, tantos,  encontra-los-emos no juízo. A primeira pergunta que Jesus nos fará será: “Como te comportaste com os pobres? Deste-lhes de comer? Quando estavam na prisão, visitaste-os? No hospital, viste-os? Ajudaste a viúva, os órfãos? Porque  eu estava neles”. E sobre isso seremos julgados. Não seremos julgados pelo luxo ou pelas viagens que fazemos nem pela importância social que temos. Seremos julgados pela nossa relação com os pobres. Mas se eu hoje ignorar os pobres, os puser de lado, considerando que eles não existem, o Senhor irá ignorar-me no Dia do Juízo. Quando Jesus disser: “Pobres, sempre os tereis convosco” significa “Eu estarei sempre convosco nos pobres. Neles estarei presente”. E isto não é ser comunista, isto é o centro do Evangelho: seremos julgados por isto.

Papa Francisco

(Santa Marta, 6 de abril de 2020)

sábado, 1 de abril de 2023

  QUARESMA PASSO A PASSO - 2023

 Celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor 

EVANGELHO – Forma longa – Mt 26, 14 – 27, 66

«Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!»;

«Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade»;

«Seja crucificado».

Ao entrarmos na semana, a que os cristãos chamam de, “Semana Maior”, somos convidados a contemplar, num silêncio mais interior e profundo, os mistérios de Deus, que em Jesus, o todo inocente, o todo de Deus, assumem, na brutalidade e injustiça que os textos revelam, até onde vai o Amor de Deus, Uno e Trino, por cada um de nós.

Na 1ªleitura (Is. 50, 4-7) o autor sagrado transporta-nos para o evangelho, é o inocento, o cordeiro puro, que é levado ao matadouro e todo Se entrega. Não resiste, sabe que está inocente, mas por Amor ao Pai e aos homens, não recua um passo, não desvia o rosto, mas entra numa comunhão total com o Pai e entrega-nos a todos e a cada um de nós, como oferta ao Pai. Porque nos amas assim, neste Amor sem fim? Não há explicação, mas podemos aprender, se nos abrirmos à ação do Espírito Santo, que todo o que, em Ti, se entrega a Deus nunca está só, porque Tu o habitas. A vida passa a ter outro sentido!

“O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.”

 

Na 2ªleitura (Filip 2, 6-11) S.Paulo apresenta-nos Jesus, o Filho de Deus e não olha a meios termos, traça claramente qual é o caminho dos que seguem Cristo. Se Jesus, sendo o Filho de Deus assumiu a condição de servo, nós que somos filhos, no Filho, só temos de aprender com o nosso irmão mais velho. Não há outra volta a dar, o caminho é o da cruz, mas por amor. Em Jesus, e só n’Ele, é possível, pois se assim não fosse Ele não no-lo pediria.

“Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.”


O texto do evangelho (Mt 26, 14 – 27,66), introduz-nos em duas multidões diferentes: uma, a dos que vêm a Jerusalém celebrar a Páscoa, gente simples, temente a Deus, que louva Jesus e o aclama como Filho de David; a outra, gente importante, socialmente falando, muitos deles fariseus, que querem acabar com Jesus, querem que Ele morra. E é nesta dialética de morte e de vida, de festa e de tristeza, que somos conduzidos, sem nunca perder de vista o Amor maior de Deus que atinge o pico, quando Jesus todo se entrega, por Amor, no Jardim das Oliveiras. É aí que Jesus, o inocente, que é também homem, num sofrimento sem paralelo, verdadeiramente se sente só e abandonado e no limite das Suas forças, todo se entrega por Amor ao Pai, para restabelecer, de uma vez para sempre, a Aliança entre Deus e a humanidade, por nosso Amor. E esta entrega completa-se quando, no alto da cruz, atrai todos para Deus. Meu Senhor e meu Deus, como nos amais! Bendito e louvado sejais pelo vosso eterno amor.

“Naquele tempo, um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes:
R «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?».
N Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.

E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar.
No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe:

R «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?».

N Ele respondeu:

J «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’».
N Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado e prepararam a Páscoa.

Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, declarou:

J «Em verdade vos digo: Um de vós há de entregar-Me».

N Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar-Lhe:

R «Serei eu, Senhor?».

N Jesus respondeu:

J «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que há de entregar-Me. O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido».

N Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:

R «Serei eu, Mestre?».

N Respondeu Jesus:

J «Tu o disseste».

N Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:

J «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».

N Tomou em seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo:

J «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados.

Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».

N Cantaram os salmos e seguiram para o monte das Oliveiras.

N Então, Jesus disse-lhes:

J «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho’. Mas, depois de ressuscitar, preceder-vos-ei a caminho da Galileia».

N Pedro interveio, dizendo:

R «Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei».

N Jesus respondeu-lhe:

J «Em verdade te digo: Esta mesma noite, antes de o galo cantar, Me negarás três vezes».

N Pedro disse-lhe:

R «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».

N E o mesmo disseram todos os discípulos.

Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani, e disse aos discípulos:

J «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».

N E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. Disse-lhes então:

J «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo».

N E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra, enquanto orava e dizia:

J «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres».

N Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro:

J «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo!

Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

N De novo Se afastou, pela segunda vez, e orou, dizendo:

J «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade».

N Voltou novamente e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados de sono. Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:

J «Dormi agora e descansai. Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos. Aproxima-se aquele que Me vai entregar».

N Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. O traidor tinha-lhes dado este sinal:
R «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O».

N Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:

R «Salve, Mestre!».

N E beijou-O.

Jesus respondeu- lhe:

J «Amigo, a que vieste?».

N Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-n’O.
Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus disse-lhe:

J «Mete a tua espada na bainha, pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada. Pensas que não posso rogar a meu Pai que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos? Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim tem de acontecer?».

N Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:

J «Viestes com espadas e varapaus para Me prender como se fosse um salteador! Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar e não Me prendestes... Mas, tudo isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas».

N Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.

N Os que tinham prendido Jesus levaram-n’O à presença do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos se tinham reunido. Pedro foi-O seguindo de longe, até ao palácio do sumo sacerdote. Aproximando-se, entrou e sentou-se com os guardas, para ver como acabaria tudo aquilo. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para O condenarem à morte, mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Por fim, apresentaram-se duas que disseram:

R «Este homem afirmou: ‘Posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias’».

N Então o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:

R «Não respondes nada? Que dizes ao que depõem contra Ti?».

N Mas Jesus continuava calado.

Disse-Lhe o sumo sacerdote:

R «Eu Te conjuro pelo Deus vivo, que nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».

N Jesus respondeu-lhe:

J «Tu o disseste. E Eu digo-vos: vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu».
N Então o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo:

R «Blasfemou. Que necessidade temos de mais testemunhas? Acabais de ouvir a blasfémia. Que vos parece?».

N Eles responderam:

R «É réu de morte».

N Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas. Outros esbofeteavam-n’O, dizendo:

R «Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?».

N Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:

R «Tu também estavas com Jesus, o galileu».

N Mas ele negou diante de todos, dizendo:

R «Não sei o que dizes».

N Dirigindo-se para a porta, foi visto por outra criada que disse aos circunstantes:

R «Este homem estava com Jesus de Nazaré».

N E, de novo, ele negou com juramento:

R «Não conheço tal homem».

N Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro:

R «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia».

N Começou então a dizer imprecações e a jurar:

R «Não conheço tal homem».

N E, imediatamente, um galo cantou.

Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera: «Antes de o galo cantar, tu Me negarás três vezes». E, saindo, chorou amargamente.

Ao romper da manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para Lhe darem a morte. Depois de Lhe atarem as mãos, levaram-n’O e entregaram-n’O ao governador Pilatos. Então Judas, que entregara Jesus, vendo que Ele tinha sido condenado, tocado pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:
R «Pequei, entregando sangue inocente».

N Mas eles replicaram:

R «Que nos importa? É lá contigo».

N Então arremessou as moedas para o santuário, saiu dali e foi-se enforcar. Mas os príncipes dos sacerdotes apanharam as moedas e disseram:

R «Não se podem lançar no tesouro, porque são preço de sangue».

N E, depois de terem deliberado, compraram com elas o Campo do Oleiro, que servia para a sepultura dos estrangeiros.

Por este motivo se tem chamado àquele campo, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue». Cumpriu-se então o que fora dito pelo profeta: «Tomaram trinta moedas de prata, preço em que foi avaliado Aquele que os filhos de Israel avaliaram e deram-nas pelo Campo do Oleiro, como o Senhor me tinha ordenado».

N Entretanto, Jesus foi levado à presença do governador, que lhe perguntou:

R «Tu és o Rei dos judeus?».

N Jesus respondeu:

J «É como dizes».

N Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. Disse-Lhe então Pilatos:
R «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?».

N Mas Jesus não respondeu coisa alguma, a ponto de o governador ficar muito admirado. Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha do povo. Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. E, quando eles se reuniram, disse-lhes Pilatos:

R «Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?».

N Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja.

Enquanto estava sentado no tribunal, a mulher mandou-lhe dizer:

R «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele».

N Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:

R «Qual dos dois quereis que vos solte?».

N Eles responderam:

R «Barrabás».

N Disse-lhes Pilatos:

R «E que hei de fazer de Jesus, chamado Cristo?».

N Responderam todos:

R «Seja crucificado».

N Pilatos insistiu:

R «Que mal fez Ele?».

N Mas eles gritavam cada vez mais:

R «Seja crucificado».

N Pilatos, vendo que não conseguia nada e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:

R «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco».

N E todo o povo respondeu:

R «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».

N Soltou-lhes então Barrabás.

E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O para ser crucificado. Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta d’Ele toda a coorte. Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n’O num manto vermelho. Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo:

R «Salve, Rei dos judeus!».

N Depois, cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n’O para ser crucificado.

N Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber. Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardá-l’O. Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus». Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:

R «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz».

N Os príncipes dos sacerdotes, juntamente com os escribas e os anciãos, também troçavam d’Ele, dizendo:

R «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele. Confiou em Deus: Ele que O livre agora, se O ama, porque disse: ‘Eu sou Filho de Deus’».

N Até os salteadores crucificados com Ele O insultavam.

Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:

J «Eli, Eli, lemá sabactáni?»,

N que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?».

Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:

R «Está a chamar por Elias».

N Um deles correu a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre, pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber. Mas os outros disseram:

R «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O».

N E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.

N Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.

Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram:

R «Este era verdadeiramente Filho de Deus».

N Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus. Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. E Pilatos ordenou que lho entregassem. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu sepulcro novo, que tinha mandado escavar na rocha. Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro e retirou-se. Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro. No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos e disseram-lhe:

R «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia, para que não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’. E a última impostura seria pior do que a primeira».

N Pilatos respondeu:

R «Tendes à vossa disposição a guarda: ide e guardai-o como entenderdes».

N Eles foram e guardaram o sepulcro, selando a pedra e pondo a guarda.

Senhor, Tu que és o Filho de Deus e, como homem, sofreste como ninguém, mas, como Deus tudo podes, salva-nos, lembra-te de nós no Teu Reino. 

Jesus «esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo» (Flp 2, 7). Deixemo-nos introduzir por estas palavras do apóstolo Paulo nos dias da Semana Santa em que a Palavra de Deus, quase como um refrão, nos mostra Jesus como servo: na Quinta-feira Santa, é o servo que lava os pés aos discípulos; na Sexta-feira Santa, é apresentado como o servo sofredor e vitorioso (cf. Is 52, 13); e, já amanhã, ouvimos Isaías profetizar acerca d’Ele: «Eis o meu servo que Eu amparo» (42, 1). Deus salvou-nos, servindo-nos. Geralmente pensamos que somos nós que servimos a Deus. Mas não; foi Ele que nos serviu gratuitamente, porque nos amou primeiro. É difícil amar, sem ser amado; e é ainda mais difícil servir, se não nos deixamos servir por Deus.

Uma pergunta: e como nos serviu o Senhor? Dando a sua vida por nós. Somos queridos a seus olhos, mas custamos-Lhe caro. Santa Ângela de Foligno testemunhou que ouviu de Jesus estas palavras: «Amar-te não foi uma brincadeira». O seu amor levou-O a sacrificar-Se por nós, a tomar sobre Si todo o nosso mal. É algo que nos deixa sem palavras: Deus salvou-nos, deixando que o nosso mal se encarniçasse sobre Ele: sem reagir, somente com a humildade, paciência e obediência do servo, exclusivamente com a força do amor. E o Pai sustentou o serviço de Jesus: não desbaratou o mal que se abatia sobre Ele, mas sustentou o seu sofrimento, para que o nosso mal fosse vencido apenas com o bem, para que fosse completamente atravessado pelo amor. Em toda a sua profundidade.

O Senhor serviu-nos até ao ponto de experimentar as situações mais dolorosas para quem ama: a traição e o abandono.

A traição. Jesus sofreu a traição do discípulo que O vendeu e do discípulo que O renegou. Foi traído pela multidão que primeiro clamava hossana, e depois «seja crucificado!» (Mt 27, 22). Foi traído pela instituição religiosa que O condenou injustamente, e pela instituição política que lavou as mãos. Pensemos nas traições, pequenas ou grandes, que sofremos na vida. É terrível quando se descobre que a confiança deposta foi burlada. No fundo do coração, nasce uma tal deceção que a vida parece deixar de ter sentido. É assim, porque nascemos para ser amados e para amar, e o mais doloroso é ser traído por quem nos prometera ser leal e solidário. Não podemos sequer imaginar como terá sido doloroso para Deus, que é amor.

Olhemos dentro nós mesmos; se formos sinceros para connosco, veremos as nossas infidelidades. Tanta falsidade, hipocrisia e fingimento! Tantas boas intenções traídas! Tantas promessas quebradas! Tantos propósitos esmorecidos! O Senhor conhece melhor do que nós o nosso coração; sabe como somos fracos e inconstantes, quantas vezes caímos, quanto nos custa levantar e como é difícil sanar certas feridas. E que fez Ele para nos ajudar, para nos servir? Aquilo que dissera através do profeta: «Curarei a sua infidelidade, amá-los-ei de todo o coração» (Os 14, 5). Curou-nos, tomando sobre Si as nossas infidelidades, removendo as nossas traições. Assim nós, em vez de desanimarmos com medo de não ser capazes, podemos levantar o olhar para o Crucificado, receber o seu abraço e dizer: «Olha! A minha infidelidade está ali. Fostes Vós, Jesus, que pegastes nela. Abris-me os braços, servis-me com o vosso amor, continuais a amparar-me... Assim poderei seguir em frente!»

O abandono. Segundo o Evangelho de hoje, na cruz, Jesus diz uma frase, uma apenas: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mt 27, 46). É uma frase impressionante. Jesus sofrera o abandono dos seus, que fugiram. Restava-Lhe, porém, o Pai. Agora, no abismo da solidão, pela primeira vez designa-O pelo nome genérico de «Deus». E clama, «com voz forte», «porquê», o «porquê» mais dilacerante: «Porque Me abandonaste também Tu?» Na realidade, trata-se das palavras de um Salmo (cf. 22, 2), que nos dizem como Jesus levou à oração inclusive a extrema desolação. Mas, a verdade é que Ele a experimentou: experimentou o maior abandono, que os Evangelhos atestam reproduzindo as suas palavras originais.

Porquê tudo isto? Uma vez mais… por nós, para servir-nos. Porque quando nos sentimos encurralados, quando nos encontramos num beco sem saída, sem luz nem via de saída, quando parece que nem Deus responde, lembremo-nos que não estamos sozinhos. Jesus experimentou o abandono total, a situação mais estranha para Ele, a fim de ser em tudo solidário connosco. Fê-lo por mim, por ti, por todos nós; fê-lo para nos dizer: «Não temas! Não estás sozinho. Experimentei toda a tua desolação para estar sempre ao teu lado». Eis o ponto até onde nos serviu Jesus, descendo ao abismo dos nossos sofrimentos mais atrozes, até à traição e ao abandono. Hoje, no drama da pandemia, perante tantas certezas que se desmoronam, diante de tantas expetativas traídas, no sentido de abandono que nos aperta o coração, Jesus diz a cada um: «Coragem! Abre o coração ao meu amor. Sentirás a consolação de Deus, que te sustenta».

Queridos irmãos e irmãs, que podemos fazer vendo Deus que nos serviu até experimentar a traição e o abandono? Podemos não trair aquilo para que fomos criados, nem abandonar o que conta. Estamos no mundo, para O amar a Ele e aos outros: o resto passa, isto permanece. O drama que estamos a atravessar neste período impele-nos a levar a sério o que é sério, a não nos perdermos em coisas de pouco valor; a redescobrir que a vida não serve, se não se serve. Porque a vida mede-se pelo amor. Então, nestes dias da Semana Santa, em casa, permaneçamos diante do Crucificado – contemplai, contemplai o Crucificado! –, medida do amor de Deus por nós. Diante de Deus, que nos serve até dar a vida, contemplando o Crucificado peçamos a graça de viver para servir. Procuremos contactar quem sofre, quem está sozinho e necessitado. Não pensemos só naquilo que nos falta; pensemos no bem que podemos fazer.

Eis o meu servo que Eu sustento. O Pai, que sustentou Jesus na Paixão, anima-nos, também a nós, no serviço. É certo que amar, rezar, perdoar, cuidar dos outros, tanto em família como na sociedade, pode custar; pode parecer uma via-sacra. Mas a senda do serviço é o caminho vencedor, que nos salvou e salva, que nos salva a vida. Gostaria de o dizer especialmente aos jovens, neste Dia que, há 35 anos, lhes é dedicado. Queridos amigos, olhai para os verdadeiros heróis que vêm à luz nestes dias: não são aqueles que têm fama, dinheiro e sucesso, mas aqueles que se oferecem para servir os outros. Senti-vos chamados a arriscar a vida. Não tenhais medo de a gastar por Deus e pelos outros! Lucrareis… Porque a vida é um dom que se recebe doando-se. E porque a maior alegria é dizer sim ao amor, sem se nem mas... Dizer sim ao amor, sem se nem mas, como fez Jesus por nós.

Papa Francisco

(Roma, Domingo de Ramos, 5 de abril de 2020)

Liturgia: Igreja celebra «Semana Maior», rumo à Páscoa - Ecclesia

 

Semana Santa - Pastoral da Cultura

 

Semana Santa: Estão a chegar os dias supremos da História

O domingo de Ramos mergulha-nos num dos momentos mais festivos da vida de Jesus: um rio de sorrisos, do monte das Oliveiras ao templo. E à volta era primavera, alegre e poderosa, como agora.

Nunca esqueci um diálogo, há muitos anos, com um monge trapista. Dava uma mão na cervejeira, tentando tornar-me útil, quando me ocorreu perguntar-lhe: «Padre, nunca se cansou de Deus? De rezar, de pensar nele, de dar-lhe todo o tempo? Quando nos cansamos de Deus, o que devemos fazer?».

Esperava que me dissesse: mas como é que se cansa de Deus? Em vez disso, olhou-me com os seus olhos profundos e contou-me uma homilia de S. Bernardo aos seus monges: «No dia dos Ramos, no cortejo que acompanha o Mestre e os discípulos até ao monte das Oliveiras, há quem cante, quem aplauda, quem abra alas e estenda os mantos, quem agite ramos de palmeira: um jardim que caminha. Quem está mais próximo de Jesus, quem está mais afastado. Mas todos contentes.

«Há, no entanto, uma personagem que se cansa mais que todos, ainda que seja forte, ainda que seja a mais próxima, e é a burra com o seu potro, sobre a qual estenderam os mantos, sobre a qual subiu Jesus. Quem sente todo o peso daquele homem sobre si pela encosta que sobe da torrente do Cédron até ao templo e se cansa, é a burra. É a mais próxima de Jesus, e no entanto é aquela que mais se cansa.

«Assim também nós» – prosseguiu –, «quando nos cansamos, quando sentimos o peso das coisas de Deus, talvez isso aconteça porque estamos muito próximos do Senhor, estamos a levá-lo juntamente com o peso do céu sobre nós, com as suas nuvens escuras. O importante é continuar: pouco depois está Jerusalém.»

A Semana Santa traz consigo os dias supremos da História, a Sua vida e a nossa no mesmo rio, os dias da “desforra” de Deus: quando Deus se desforra de toda a distância, de toda a separação, de toda a indiferença, inventando a cruz que ergue a Terra, que baixa o Céu, que recolhe os horizontes, encruzilhada de todos os nossos caminhos dispersos. A cruz é o abismo onde Deus se torna o amante.

Lá em cima, os braços de Jesus, pregados e estendidos num abraço irrevogável, nunca mais revogado, são as portas do Paraíso escancaradas para sempre, são dilatação do coração até se ferir, antes mesmo do golpe de lança.

Novo génesis do ser humano em Deus: o amado nasce sempre da ferida do coração de quem o ama. O ser humano nasce do coração ferido do seu criador. Revelação última que Deus e a vida são sempre dom de si, e nunca serás abandonado. Por isso, na cruz de Jesus resplandece verdadeiramente a glória da vida. 

Ermes Ronchi
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: El Greco
Publicado em 30.03.2023

Playlist da Quaresma 2023 por jovens sacerdotes - Ecclesia