segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Uma primeira leitura sobre a encíclica "todos Irmãos" - Pastoral da Cultura - Rui Jorge Martins

 Encíclica “Todos irmãos”: Duas orações e oito frases marcantes de cada um dos oito capítulos

1 - “As sombras dum mundo fechado”

«Em vários países, uma certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais.»

«Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações.»

«Nota-se a penetração cultural de uma espécie de “desconstrucionismo”, em que a liberdade humana pretende construir tudo a partir do zero. De pé, deixa apenas a necessidade de consumir sem limites e a acentuação de muitas formas de individualismo sem conteúdo.»

«Uma maneira eficaz de dissolver a consciência histórica, o pensamento crítico, o empenho pela justiça e os percursos de integração é esvaziar de sentido ou manipular as “grandes” palavras. Que significado têm hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas e desfiguradas para utilizá-las como instrumento de domínio, como títulos vazios de conteúdo que podem servir para justificar qualquer ação.»

«Nega-se a outros o direito de existir e pensar e, para isso, recorre-se à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los. Não se acolhe a sua parte da verdade, os seus valores, e assim a sociedade empobrece-se e acaba reduzida à prepotência do mais forte.»

«Tanto na propaganda de alguns regimes políticos populistas como na leitura de abordagens económico-liberais, defende-se que é preciso evitar a todo o custo a chegada de pessoas migrantes. Simultaneamente, argumenta-se que convém limitar a ajuda aos países pobres, para que toquem o fundo e decidam adotar medidas de austeridade. Não se dão conta que, atrás destas afirmações abstratas e difíceis de sustentar, há muitas vidas dilaceradas.»

«A sabedoria não se fabrica com buscas impacientes na internet, nem é um somatório de informações cuja veracidade não está garantida. Desta forma, não se amadurece no encontro com a verdade.»

«As conversas giram, em última análise, ao redor das notícias mais recentes; são meramente horizontais e cumulativas. Mas não se presta uma atenção prolongada e penetrante ao coração da vida, nem se reconhece o que é essencial para dar um sentido à existência.»

2 – “Um estranho no caminho”[sobre a parábola do bom samaritano]


«Crescemos em muitos aspetos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, a passar à margem, a ignorar as situações até elas nos caírem diretamente em cima.»

«[A parábola do bom samaritano] é um apelo sempre novo: que a sociedade se oriente para a prossecução do bem comum e, a partir deste objetivo, reconstrua incessantemente a sua ordem política e social, o tecido das suas relações, o seu projeto humano.»

«Viver indiferentes à dor não é uma opção possível; não podemos deixar ninguém caído “nas margens da vida”.»

«Deixemos que outros continuem a pensar na política ou na economia para os seus jogos de poder. Alimentemos o que é bom e coloquemo-nos ao serviço do bem.»

«A proposta é fazer-se presente a quem precisa de ajuda, independentemente de fazer parte ou não do próprio círculo de pertença. (…) Assim, já não digo que tenho “próximos” a quem devo ajudar, mas que me sinto chamado a tornar-me eu um próximo dos outros.»

«Este encontro misericordioso entre um samaritano e um judeu é uma forte provocação, que desmente toda a manipulação ideológica, desafiando-nos a ampliar o nosso círculo, a dar à  nossa capacidade de amar uma dimensão universal capaz de ultrapassar todos os preconceitos, todas as barreiras históricas ou culturais, todos os interesses mesquinhos.»

«Às vezes deixa-me triste o facto de, apesar de estar dotada de tais motivações, a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias formas de violência.»

«A fé, com o humanismo que inspira, deve manter vivo um sentido crítico perante estas tendências e ajudar a reagir rapidamente quando começam a insinuar-se. Para isso, é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos.»

3 – “Pensar e gerar um mundo aberto”

© Raymond Depardon/Magnum Photo

«Há um aspeto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial: a capacidade diária de alargar o meu círculo, chegar àqueles que espontaneamente não sinto como parte do meu mundo de interesses, embora se encontrem perto de mim. Por outro lado, cada irmã ou cada irmão que sofre, abandonado ou ignorado pela minha sociedade, é um estrangeiro existencial, embora tenha nascido no mesmo país.»

«O individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum.»

«Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não há lugar para tais pessoas [pessoa com deficiência, alguém que nasceu num lar extremamente pobre, alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades], e a fraternidade não passará de uma palavra romântica.»

«O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados, e isto tem consequências muito concretas que se devem refletir no funcionamento da sociedade. Mas acontece, muitas vezes, que os direitos secundários se sobrepõem aos prioritários e primordiais, deixando-os sem relevância prática.»

«Como é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos pelo simples facto de ser mulher, de igual modo é inaceitável que o local de nascimento ou de residência determine, por si só, menores oportunidades de vida digna e de desenvolvimento.»

«O direito de alguns à liberdade de empresa ou de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos e da dignidade dos pobres; nem acima do respeito pelo ambiente.»

«Em muitos casos, o pagamento da dívida não só não favorece o desenvolvimento, mas limita-o e condiciona-o intensamente.»

Trata-se, sem dúvida, doutra lógica. Se não se fizer esforço para entrar nesta lógica, as minhas palavras parecerão um devaneio. Mas, se se aceita o grande princípio dos direitos que brotam do simples facto de possuir a inalienável dignidade humana, é possível aceitar o desafio de sonhar e pensar numa humanidade diferente. É possível desejar um planeta que garanta terra, teto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da paz, e não a estratégia insensata e míope de semear medo e desconfiança perante ameaças externas.»

4 – “Um coração aberto ao mundo inteiro”

© digitalista/Bigstock.com

«As várias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos séculos, devem ser salvaguardadas para que o mundo não fique mais pobre. Isso, porém, sem deixar de as estimular a que permitam surgir de si mesmas algo de novo no encontro com outras realidades. Não se pode ignorar o risco de acabarem vítimas duma esclerose cultural.»

Existe a gratuitidade: é a capacidade de fazer algumas coisas, pelo simples facto de serem boas, sem olhar a êxitos nem esperar receber imediatamente algo em troca. Isto permite acolher o estrangeiro, mesmo que não traga de imediato benefícios palpáveis. Mas há países que pretendem receber apenas cientistas ou investidores.»

«O universal não deve ser o domínio homogéneo, uniforme e padronizado de uma única forma cultural imperante, que perderá as cores do poliedro e ficará enfadonha.»

«Há narcisismos bairristas que não expressam um amor sadio pelo próprio povo e a sua cultura. Escondem um espírito fechado que, devido a uma certa insegurança e medo do outro, prefere criar muralhas defensivas para sua salvaguarda. Mas não é possível ser saudavelmente local sem uma sincera e cordial abertura ao universal, sem se deixar interpelar pelo que acontece noutras partes, sem se deixar enriquecer por outras culturas, nem se solidarizar com os dramas dos outros povos. Este «localismo» encerra-se obsessivamente numas poucas ideias, costumes e seguranças, revelando-se incapaz de admirar as múltiplas possibilidades e belezas que oferece o mundo inteiro, e carecendo de uma solidariedade autêntica e generosa.»

«Temos de reconhecer que, quanto menor for a amplitude da mente e do coração de uma pessoa, tanto menos poderá interpretar a realidade circundante em que está imersa. Sem o relacionamento e o confronto com quem é diferente, torna-se difícil ter um conhecimento claro e completo de si mesmo e da sua terra, uma vez que as outras culturas não constituem inimigos de quem seja preciso defender-se, mas reflexos distintos da riqueza inexaurível da vida humana. Ao olhar para si mesmo, do ponto de vista do outro, de quem é diferente, cada um pode reconhecer melhor as peculiaridades da sua própria pessoa e cultura: as suas riquezas, possibilidades e limites.»

«Na realidade, uma sã abertura nunca ameaça a identidade, porque, ao enriquecer-se com elementos de outros lugares, uma cultura viva não faz uma cópia nem mera repetição, mas integra as novidades segundo modalidades próprias. Isto provoca o nascimento de uma nova síntese que, em última análise, beneficia a todos, já que a cultura donde provêm estas contribuições acaba mais devolvida.»

«O mundo cresce e enche-se de nova beleza, graças a sucessivas sínteses que se produzem entre culturas abertas, fora de qualquer imposição cultural.»

«A integração cultural, económica e política com os povos vizinhos deve ser acompanhada por um processo educativo que promova o valor do amor ao vizinho, primeiro exercício indispensável para se conseguir uma sadia integração universal.»

5 – “A política melhor”

D.R.

«[Nos populismos e liberalismos] é palpável a dificuldade de pensar num mundo aberto onde haja lugar para todos, que inclua os mais frágeis e respeite as diferentes culturas.»

«O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se de um pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja. (…) A fragilidade dos sistemas mundiais perante a pandemia evidenciou que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado.»

«Pensar nos que hão de vir não tem utilidade para fins eleitorais, mas é o que exige uma justiça autêntica, porque, como ensinaram os bispos de Portugal, a terra “é um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte”.»

«É caridade acompanhar uma pessoa que sofre, mas é caridade também tudo o que se realiza – mesmo sem ter contacto direto com essa pessoa – para modificar as condições sociais que provocam o seu sofrimento. Alguém ajuda um idoso a atravessar um rio, e isto é caridade primorosa; mas o político constrói-lhe uma ponte, e isto também é caridade. É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua ação política.»

«Só com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade, levando-nos a perceber a dignidade do outro, é que os pobres são reconhecidos e apreciados na sua dignidade imensa, respeitados no seu estilo próprio e cultura e, por conseguinte, verdadeiramente integrados na sociedade. Um tal olhar é o núcleo do autêntico espírito da política. Os caminhos que se abrem a partir dele são diferentes dos caminhos de um pragmatismo sem alma.»

«As maiores preocupações de um político não deveriam ser as causadas por uma descida nas sondagens, mas por não encontrar uma solução eficaz para o fenómeno da exclusão social e económica.»

«Muitas vezes, hoje, enquanto nos enredamos em discussões semânticas ou ideológicas, deixamos que irmãos e irmãs morram ainda de fome ou de sede, sem um teto ou sem acesso a serviços de saúde. Juntamente com estas necessidades elementares por satisfazer, outra vergonha para a humanidade que a política internacional não deveria continuar a tolerar – não se ficando por discursos e boas intenções – é o tráfico de pessoas. Trata-se daquele mínimo que não se pode adiar mais.»

«Ao pensar no futuro, alguns dias as perguntas devem ser: “Para quê? Para onde estou realmente a apontar?” Passados alguns anos, ao refletir sobre o próprio passado, a pergunta não será: “Quantos me aprovaram, quantos votaram em mim, quantos tiveram uma imagem positiva de mim?” As perguntas, talvez dolorosas, serão: “Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Que laços reais construí? Que forças positivas desencadeei? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?”»

6 – “Diálogo e amizade social”

anatoliy_gleb/Bigstock.com

«Aproximar-se, expressar-se, ouvir-se, olhar-se, conhecer-se, esforçar-se por entender-se, procurar pontos de contacto: tudo isto se resume no verbo “dialogar”. Para nos encontrar e ajudar mutuamente, precisamos de dialogar. Não é necessário dizer para que serve o diálogo; é suficiente pensar como seria o mundo sem o diálogo paciente de tantas pessoas generosas, que mantiveram unidas famílias e comunidades. O diálogo perseverante e corajoso não tem a força de notícia como as desavenças e os conflitos; e contudo, de forma discreta mas muito mais do que possamos perceber, ajuda o mundo a viver melhor.»

«Não se deve ocultar o risco de um progresso científico ser considerado a única abordagem possível para se entender um aspeto da vida, da sociedade e do mundo.»

«Temos de nos exercitar em desmascarar as várias modalidades de manipulação, deformação e ocultamento da verdade nas esferas pública e privada. O que chamamos “verdade” não é só a comunicação de factos operada pelo jornalismo. É, antes de mais nada, a busca dos fundamentos mais sólidos que estão na base das nossas opções e também das nossas leis.»

«O poliedro representa uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discussões e desconfianças. Na realidade, de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo. Isto implica incluir as periferias. Quem vive nelas tem outro ponto de vista, vê aspetos da realidade que não se descobrem a partir dos centros de poder onde se tomam as decisões mais determinantes.»

«A palavra “cultura” indica algo que penetrou no povo, nas suas convicções mais profundas e no seu estilo de vida. Quando falamos de uma «cultura» no povo, trata-se de algo mais que uma ideia ou uma abstração; inclui as aspirações, o entusiasmo e, em última análise, um modo de viver que caracteriza aquele grupo humano. Assim, falar de “cultura do encontro” significa que nos apaixona, como povo, querermos encontrar, procurar, pontos de contacto, lançar pontes, projetar algo que envolva a todos. Isto tornou-se uma aspiração e um estilo de vida. O sujeito desta cultura é o povo, não um setor da sociedade que tenta manter tranquilo o resto com recursos profissionais e mediáticos.»

«Isto implica o hábito de reconhecer ao outro o direito de ser ele próprio e de ser diferente. A partir deste reconhecimento feito cultura, torna-se possível a criação de um pacto social. Sem este reconhecimento, surgem maneiras subtis de fazer com que o outro perca todo o seu significado, se torne irrelevante, fazer com que na sociedade não lhe seja reconhecido qualquer valor. Por trás da repulsa de certas formas visíveis de violência, muitas vezes, esconde-se outra violência mais dissimulada: a daqueles que desprezam o diferente, sobretudo quando as suas reivindicações prejudicam de alguma maneira os próprios interesses.»

«Um pacto social realista e inclusivo deve ser também um “pacto cultural”, que respeite e assuma as diversas visões do mundo, as culturas e os estilos de vida que coexistem na sociedade. (…) Um pacto cultural pressupõe que se renuncie a compreender de maneira monolítica a identidade de um lugar, e exige que se respeite a diversidade, oferecendo-lhe caminhos de promoção e integração social.»

«Ainda é possível optar pelo cultivo da amabilidade; há pessoas que o conseguem, tornando-se estrelas no meio da escuridão. (…) A amabilidade é uma libertação da crueldade que às vezes penetra nas relações humanas, da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros, da urgência distraída que ignora que os outros também têm direito de ser felizes.»

7 – “Percursos de um novo encontro” 

  electric egg/Bigstock.com

«Se se trata de recomeçar, há de ser sempre a partir dos últimos.»

«A Shoah não deve ser esquecida. (…) Não se devem esquecer os bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui.»

«Também não devemos esquecer as perseguições, o comércio dos escravos e os massacres étnicos que se verificaram e verificam em vários países, e tantos outros factos históricos que nos fazem envergonhar de sermos humanos. Devem ser recordados sempre, repetidamente, sem nos cansarmos nem anestesiarmos.»

«Hoje, é fácil cair na tentação de voltar a página, dizendo que já passou muito tempo e é preciso olhar para diante. Isso não, por amor de Deus! Sem memória, nunca se avança; não se evolui sem uma memória íntegra e luminosa.»

«É muito salutar fazer memória do bem.»

«O perdão é precisamente o que permite buscar a justiça sem cair no círculo vicioso da vingança nem na injustiça do esquecimento.»

«Há duas situações extremas que podem chegar a apresentar-se como soluções em circunstâncias particularmente dramáticas, sem se dar conta que são respostas falsas, não resolvem os problemas que pretendem superar e, em última análise, nada mais fazem que acrescentar novos fatores de destruição no tecido da sociedade nacional e mundial. Trata-se da guerra e da pena de morte.»

«Os medos e os rancores levam facilmente a entender as penas de maneira vingativa, se não cruel, em vez de as considerar como parte de um processo de cura e reinserção na sociedade.»

8 – “As religiões ao serviço da fraternidade no mundo”

D.R.

«Como crentes das diversas religiões sabemos que tornar Deus presente é um bem para as nossas sociedades. Buscar a Deus com coração sincero, desde que não o ofusquemos com os nossos interesses ideológicos ou instrumentais, ajuda a reconhecermo-nos como companheiros de estrada, verdadeiramente irmãos.»

«Não se pode admitir que, no debate público, só tenham voz os poderosos e os cientistas. Deve haver um lugar para a reflexão que provém de um fundo religioso que recolhe séculos de experiência e sabedoria.»

Embora a Igreja respeite a autonomia da política, não relega a sua própria missão para a esfera do privado. Pelo contrário, não pode nem deve ficar à margem na construção de um mundo melhor nem deixar de despertar as forças espirituais que possam fecundar toda a vida social. É verdade que os ministros da religião não devem fazer política partidária, própria dos leigos, mas mesmo eles não podem renunciar à dimensão política da existência que implica uma atenção constante ao bem comum e a preocupação pelo desenvolvimento humano integral.»

«Existe um direito humano fundamental que não deve ser esquecido no caminho da fraternidade e da paz: é a liberdade religiosa para os crentes de todas as religiões.»

«Pedimos a Deus que fortaleça a unidade dentro da Igreja, unidade que se enriquece com diferenças que se reconciliam pela ação do Espírito Santo.»

«Como crentes, somos desafiados a retornar às nossas fontes para nos concentrarmos no essencial: a adoração de Deus e o amor ao próximo, para que alguns aspetos da nossa doutrina, fora do seu contexto, não acabem por alimentar formas de desprezo, ódio, xenofobia, negação do outro. A verdade é que a violência não encontra fundamento algum nas convicções religiosas fundamentais, mas nas suas deformações.»

«Neste espaço de reflexão sobre a fraternidade universal, senti-me motivado especialmente por São Francisco de Assis e também por outros irmãos que não são católicos: Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Mohandas Gandhi e muitos outros. Mas quero terminar lembrando uma outra pessoa de profunda fé, que, a partir da sua intensa experiência de Deus, realizou um caminho de transformação até se sentir irmão de todos. Refiro-me ao Beato Carlos de Foucauld.»

«O seu ideal [Carlos de Foucauld] de uma entrega total a Deus encaminhou-o para uma identificação com os últimos, os mais abandonados no interior do deserto africano. Naquele contexto, afloravam os seus desejos de sentir todo o ser humano como um irmão, e pedia a um amigo: “Peça a Deus que eu seja realmente o irmão de todos”. Enfim, queria ser “o irmão universal”. Mas somente identificando-se com os últimos é que chegou a ser irmão de todos. Que Deus inspire este ideal a cada um de nós. Ámen.»

Papa Francisco | Assis, 3.10.2010 | © Sala de Imprensa da Santa Sé

Oração ao Criador

«Senhor e Pai da Humanidade,
que criastes todos os seres humanos com a mesma dignidade,
infundi nos nossos corações um espírito de irmãos.
Inspirai-nos o sonho de um novo encontro,
de diálogo, de justiça e de paz.
Estimulai-nos a criar sociedades mais sadias
e um mundo mais digno,
sem fome, sem pobreza, sem violência, sem guerras.

Que o nosso coração se abra
a todos os povos e nações da Terra,
para reconhecer o bem e a beleza
que semeastes em cada um deles,
para estabelecer laços de unidade, de projetos comuns,
de esperanças compartilhadas. Ámen.»

 

Oração cristã ecuménica

«Deus nosso, Trindade de amor,
a partir da poderosa comunhão da vossa intimidade divina
infundi no meio de nós o rio do amor fraterno.
Dai-nos o amor que transparecia nos gestos de Jesus,
na sua família de Nazaré e na primeira comunidade cristã.
Concedei-nos, a nós cristãos, que vivamos o Evangelho
e reconheçamos Cristo em cada ser humano,
para o vermos crucificado nas angústias dos abandonados
e dos esquecidos deste mundo
e ressuscitado em cada irmão que se levanta.

Vinde, Espírito Santo!
Mostrai-nos a vossa beleza
refletida em todos os povos da Terra,
para descobrirmos que todos são importantes,
que todos são necessários, que são rostos diferentes
da mesma Humanidade amada por Deus. Ámen.»

Rui Jorge Martins
Publicado em 04.10.2020

Um primeiro olhar sobre a Encíclica "Todos Irmãos" - Expresso

TODOS IRMÃOS

Artigo de Opinião – Expresso - 03.10.2020

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

DA TRÍADE LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE, AS NOSSAS SOCIEDADES INTEGRARAM AS DUAS PRIMEIRAS, MAS DEIXARAM DE FORA A FRATERNIDADE

Este sábado, o Papa está em Assis para uma operação carregada de simbolismo: assinar junto ao túmulo de São Francisco a sua encíclica “Omnes Fratres” (“Todos irmãos”). É uma espécie de dívida de gratidão que se salda desta forma, pois como explica o papa “este santo do amor fraterno, da simplicidade e da alegria, que me inspirou a escrever a encíclica ‘Laudato Si’, novamente me motiva a dedicar esta nova encíclica à fraternidade e à amizade social”. O que podemos, desde já, desejar é que este texto urgente e inovador encontre leitorados amplos, dentro e fora da Igreja, capazes de refletir em profundidade o significado dos seus desafios. Isto porque a reflexão acerca da fraternidade tem sido sistematicamente adiada. Da tríade liberdade, igualdade e fraternidade, as nossas sociedades integraram as duas primeiras, mas deixaram de fora a fraternidade como se fosse um assunto estritamente privado, sobre o qual não é possível construir um consenso social. Mas, como diz o Papa Francisco, sem a fraternidade, a visão da liberdade e da igualdade correm o risco de se tornarem inconclusivas e abstratas. O reconhecimento da fraternidade é, por isso, uma das tarefas atuais mais prementes.

Esta proposta sobre a fraternidade universal, Bergoglio situa-a na continuidade do documento sobre a fraternidade humana para a paz mundial e a convivência comum, assinado conjuntamente com o grande imã Ahmad Al-Tayyeb, em Abu Dhabi, em fevereiro de 2019. A encíclica perspetiva assim o tema da fraternidade a partir da tradição católica, mas pretende claramente ultrapassar fronteiras, abrindo-se em diálogo com outras tradições. E além de Ahmad Al-Tayyeb são nomeadas, entre outras, as inspirações de Martin Luther King, Desmond Tutu e Mahatma Gandhi. Do mesmo modo, no que respeita aos destinatários desta encíclica, que corporiza “um novo sonho de fraternidade e de amizade social que não se fique apenas pelas palavras”, o Papa deseja que ela se torne um ponto de diálogo aberto com todas as pessoas de boa vontade.

Ou nos constituímos como um “nós” que habita a Casa comum que é a terra ou veremos apenas crescer a guerra de interesses e egoísmos que nos põe a “todos contra todos”

O presente texto coloca-se claramente na linhagem das chamadas “encíclicas sociais”, que abordam diretamente as problemáticas que afligem as sociedades, iluminando-as com um património doutrinal que, desde a célebre encíclica de Leão XIII, “Rerum Novarum” (1891), se tem vindo sempre a consolidar. A maior parte dos papas do século XX apresentou encíclicas sociais e alguns fizeram-no mais de uma vez, como foi o caso de João XXIII (2), Paulo VI (2) ou de João Paulo II (3). Também o Papa Francisco bisa com este novo e incisivo texto que revisita, em chave de atualidade, temas recorrentes da doutrina social da Igreja: os direitos da pessoa humana, a cidadania, o bem comum, o trabalho, os modelos de desenvolvimento, a destinação universal dos bens, a propriedade, a construção da justiça e da paz, as migrações, a regulação económica, a reabilitação da política, a condenação do racismo, a ecologia, o avanço tecnológico, os reptos que se colocam à informação na era digital, etc.

Francisco sabe bem os riscos que corre propondo uma encíclica sobre uma categoria que (ainda) não tem estatuto político. Em diversos momentos ele alerta para que o seu discurso não seja treslido como uma utopia bem intencionada, porém impraticável. Ora, aqui joga-se com coragem profética exatamente o contrário: a certeza de que ou nos constituímos como um “nós” que habita a casa comum que é a terra ou veremos apenas crescer a guerra de interesses e egoísmos que nos põe a “todos contra todos”. Quem tem ouvidos para ouvir, oiça este apelo “a repensar os nossos estilos de vida, as nossas relações, a organização das nossas sociedades e sobretudo o sentido da nossa existência”.

domingo, 4 de outubro de 2020

Um primeiro olhar sobre a Encíclica "Fratelli Tutti" - Ecclesia


«Fratelli Tutti»: Francisco reforça posição católica sobre «função social da propriedade»

Out 4, 2020 - 11:26

«É possível desejar um planeta que garanta terra, teto e trabalho para todos», escreve o Papa

Cidade do Vaticano, 04 out 2020 (Ecclesia) – O Papa Francisco publicou hoje a sua nova encíclica ‘Fratelli Tutti’, que tem como temática central a fraternidade e amizade social, reforçando a posição católica sobre a “função social” da propriedade.

“A tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada”, indica, num texto divulgado pelo Vaticano.

Citando João Paulo II, Paulo VI e o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, Francisco propõe uma “reflexão sobre o destino comum dos bens criados”.

“É possível desejar um planeta que garanta terra, teto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da paz, e não a estratégia insensata e míope de semear medo e desconfiança perante ameaças externas”, sublinha.

O Papa destaca que o direito à propriedade privada só pode ser considerado como “um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados”, pedindo consequências concretas deste conceito.

“A sociedade mundial tem graves carências estruturais que não se resolvem com remendos ou soluções rápidas meramente ocasionais”, assinala.

Francisco diz que não é possível aceitar que a Economia “assuma o poder real do Estado”, denunciando sistemas corruptos que impedem o desenvolvimento digno dos povos.

A reflexão aborda ainda o problema da dívida externa, indicando que, “em muitos casos, o pagamento da dívida não só não favorece o desenvolvimento, mas limita-o e condiciona-o intensamente”.

A encíclica é o grau máximo das cartas que um Papa escreve e a expressão ‘Fratelli Tutti ‘ (todos irmãos) remete para os escritos de São Francisco de Assis, o religioso que inspirou o pontífice argentino na escolha do seu nome.

Francisco pede políticas que apontem ao desenvolvimento solidário de todos os povos, defendendo que “os bens dum território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha doutro lugar”.

“Se todo o ser humano é meu irmão ou minha irmã e se, na realidade, o mundo pertence a todos, não importa se alguém nasceu aqui ou vive fora dos confins do seu próprio país”, indica.

O Papa pede o uso do conceito de “cidadania plena” em vez do recurso “discriminatório do termo minorias, que traz consigo as sementes de se sentir isolado e da inferioridade”.

A nova encíclica ‘Fratelli Tutti’ defende um pacto social “realista e inclusivo” e um “pacto cultura”, que respeite e assuma as diversas visões do mundo, as culturas e os estilos de vida que coexistem na sociedade.

As duas anteriores encíclicas do atual pontificado foram a ‘Lumen Fidei’ (A luz da Fé), de 2013, que recolhe reflexões de Bento XVI, Papa emérito; e a ‘Laudato Si’, de 2015, sobre a ecologia integral.


sábado, 3 de outubro de 2020


Hoje as leituras continuam a situar-nos na vinha, que afinal é o povo de Deus, ou seja, somos também nós. O Senhor tudo fez e faz para que nada falta na Sua vinha, então porque será que esta só produz “agraços”? O repto está do nosso lado. Cabe-nos a nós, homens de hoje, que vivemos a braços com uma pandemia que parece ter vindo para ficar, confiar totalmente no nosso Deus, no Seu Amor infinito por todos e cada um de nós, entregarmo-nos de corpo inteiro, abrir-Lhe a porta do nosso coração, fazer a nossa parte, para que a Sua vinha possa dar “bom fruto” e todos possam conhecê-l’ O e amá-l’O.

Na 1ª leitura (Is 5, 1-7), sentimos que o profeta também nos faz a mesma pergunta: ”Que mais podia O Senhor fazer por vós, que não o tivesse feito?” Que o Senhor nos ilumine na procura da resposta, e nos dê a coragem de optar sempre por Ele, sejam quais forem as circunstâncias da vida, pois Jesus continua presente no meio de nós, é a nossa força, é o Amor vivo e atuante e quer comunicar-Se a todos os que fazem parte do nosso quotidiano.

“Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha. O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços. E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e a minha vinha: Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito? Quando eu esperava que viesse a dar uvas, porque é que apenas produziu agraços? Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha: vou tirar-lhe a vedação e será devastada; vou demolir-lhe o muro e será espezinhada. Farei dela um terreno deserto: não voltará a ser podada nem cavada, e nela crescerão silvas e espinheiros; e hei de mandar às nuvens que sobre ela não deixem cair chuva. A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror.”


Na 2ªleitura (Filip 4, 6-9) S.Paulo ensina-nos como devemos fazer, qual o caminho a seguir, para que o Deus da Paz esteja connosco: oremos ao nosso Deus, sem cessar e deixemo-nos “habitar”, “fazer” por Ele. Que Ele seja o nosso mais que tudo, no dia a dia da vida, sempre e em todas as situações, mas fundamentalmente na relação com o nosso próximo.
“Irmãos: Não vos inquieteis com coisa alguma. Mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim é o que deveis praticar. E o Deus da paz estará convosco.”

No evangelho (Mt 21, 33-43) Jesus desinstala-nos, desafia-nos a sairmos das nossas mordomias, das nossas zonas de conforto, mas também dos nossos medos paralisantes, das nossas angústias sufocantes e a arriscar totalmente n’Ele, a confiar verdadeiramente em Deus Amor, a deixarmos que Ele seja o nosso único senhor.

“Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».”

Senhor, que eu aprenda a viver de Ti e só em Ti.

No túmulo de São Francisco, o Papa assina a Encíclica “Fratelli tutti”

Na tarde deste sábado, em Assis, Francisco celebrou a missa e assinou a sua terceira Encíclica, agradecendo à Primeira Seção da Secretaria de Estado pelo trabalho realizado na preparação do documento.

Debora Donnini/Mariangela Jaguraba – Vatican News

É um lugar pequeno, um lugar de recolhimento, mas visitado todos os anos por milhares de pessoas dos quatro cantos da terra. Na cripta da Basílica inferior, o Papa Francisco celebrou a missa e no final, no túmulo do Pobrezinho de Assis, assinou a sua terceira Encíclica, “Fratelli tutti”, dedicada à fraternidade e à amizade social, valores imprescindíveis para restaurar a esperança e o impulso a uma humanidade ferida também pela pandemia da Covid-19. Uma encíclica que extrai o seu nome das palavras escritas por São Francisco e que será apresentada neste domingo (04/10). 

Gratidão à Primeira Seção da Secretaria de Estado

O Papa Francisco não fez a homilia. A oração, o silêncio e a simplicidade marcaram esta visita que, por vontade do Papa devido à situação de saúde, se realizou sem nenhuma participação dos fiéis, seguindo as palavras da liturgia dedicada a São Francisco, na véspera da Festa do Pobrezinho de Assis. Pouco antes da assinatura, o Papa agradeceu à Primeira Seção da Secretaria de Estado que trabalhou na redação e tradução da Encíclica.

Agora, assinarei a Encíclica que o monsenhor Paolo Braida, encarregado das traduções e também dos discursos do Papa, na Primeira Seção, traz ao altar. Ele supervisiona tudo e é por isso que eu quis que ele estivesse presente aqui hoje e me trouxesse a Encíclica. Vieram com ele dois tradutores: pe. António, tradutor da língua portuguesa, que traduziu do espanhol para o português; e o pe. Cruz que é espanhol e supervisionou um pouco as outras traduções do original em espanhol. Faço isso como um sinal de gratidão a toda a Primeira Seção da Secretaria de Estado que trabalhou nesta redação e tradução.