DOMINGO IV DO TEMPO COMUM -2026- Ano A
As leituras deste domingo apresentam-nos uma proposta de felicidade que vai
totalmente contra a corrente. De facto, a pobreza não é boa para ninguém se a
restringirmos à falta de dinheiro, ou das condições essenciais para se poder
viver com dignidade. Mas a pobreza, de que nos falam as leituras de hoje, vai
muito para além de qualquer critério meramente economicista ou hedonista, pois projeta-nos para: o amor sem limites; a entrega de nós próprios, a cem por cento, ao outro; o encontro de comunhão total com Deus e o(s) outro(s). Só
quem é verdadeiramente pobre de si mesmo se deixa amar, na totalidade do seu
ser, pelo Amor, que é Deus. É esta a proposta de felicidade que a liturgia hoje
nos oferece.
Na 1ªleitura (Sof 2, 3; 3, 12-13) Sofonias embora fale no reino de Judá, em Jerusalém, durante o reinado de
Josias, século VII a.C., ao anunciar o “dia do Senhor” fá-lo para os povos de todos e de cada tempo. Diz-nos, também a nós, cidadãos do séc.
XXI, que esse há de ser um dia de salvação universal para os humildes da terra
e para todo o que permanecer fiel ao Senhor.
“Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra,
que obedeceis aos seus mandamentos. Procurai a justiça, procurai a humildade;
talvez encontreis proteção no dia da ira do Senhor. Só deixarei ficar no meio
de ti um povo pobre e humilde, que buscará refúgio no nome do Senhor. O resto
de Israel não voltará a cometer injustiças, não tornará a dizer mentiras, nem
mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora. Por isso, terão pastagem
e repouso, sem ninguém que os perturbe.”
Na 2ªleitura (1 Cor 1, 26-31) S. Paulo é muito claro na forma
como nos apresenta o critério que Deus tem para escolher os seus ungidos. Esta
leitura ajuda-nos imenso a centrar em Deus tudo o que somos e temos, só n’Ele a
verdadeira felicidade é possível.
“Irmãos: Vede quem sois vós, os que Deus chamou: não há muitos sábios, naturalmente falando, nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos. Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios; escolheu o que é fraco, para confundir o forte; escolheu o que é vil e desprezível, o que nada vale aos olhos do mundo, para reduzir a nada aquilo que vale, a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus. É por Ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção. Deste modo, conforme está escrito, «quem se gloria deve gloriar-se no Senhor».”
No evangelho (Mt 5, 1-12a) Jesus apresenta aos
homens do seu tempo, mas também aos de hoje, a única proposta de felicidade
realmente verdadeira. Num tempo, como este em que vivemos, quem ousa propor
este projeto de felicidade? Penso que toda a Igreja de inspiração cristã o faz,
mas será que a nossa vida de cristãos reflete que o seguimos de facto?! E, no
entanto, são imensas e das mais variadas, as outras propostas de que ouvimos
falar e que têm seguidores, algumas muitos até… Afinal, o homem de hoje, tal
como o de ontem continua à procura da felicidade… Senhor, que nos deixemos
iluminar e repassar por Ti de forma a darmos testemunho do Amor infinito que és
Tu, hoje e sempre.
“Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao
monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los,
dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos
Céus. Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os
que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de
justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque
alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a
Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de
Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque
deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos
insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».”
Senhor, que eu nunca duvide do Teu Amor. Que Tu sejas o único amor da minha vida.
Catequeses
sobre as Bem-aventuranças - 1
Amados
irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje iniciamos
uma série de catequeses sobre as Bem-aventuranças no Evangelho de Mateus (5,
1-11). Este texto abre o “Sermão da Montanha” e iluminou a vida dos crentes, e
também de muitos não-crentes. É difícil não se comover com estas palavras de
Jesus, e é justo o desejo de as compreender e acolher cada vez mais plenamente.
As Bem-aventuranças contêm o “bilhete de identidade” do cristão — este é o
nosso bilhete de identidade — porque delineiam o rosto do próprio Jesus, o seu
estilo de vida.
Agora
enquadremos estas palavras de Jesus globalmente; nas próximas catequeses
comentaremos cada uma das bem-aventuranças, uma de cada vez.
Antes de tudo,
é importante como surgiu o anúncio desta mensagem: Jesus,
vendo a multidão que o seguia, sobe à suave encosta que rodeia o lago da
Galileia, senta-se e, dirigindo-se aos discípulos, anuncia as bem-aventuranças.
Portanto, a mensagem é dirigida aos discípulos, mas no horizonte
está a multidão, ou seja, toda a humanidade. É uma mensagem para toda a
humanidade.
Além disso, a
“montanha” faz recordar o Sinai, onde Deus entregou os Mandamentos a Moisés.
Jesus começa a ensinar uma nova lei: ser pobre, ser manso, ser
misericordioso... Estes “novos mandamentos” são muito mais que normas. De
facto, Jesus nada impõe, mas revela o caminho da felicidade — o seu caminho
— repetindo a palavra “felizes” oito vezes.
Cada
Bem-aventurança compõe-se de três partes. Inicia sempre com a palavra “felizes”;
depois vem a situação na qual os felizes se encontram: pobreza
de espírito, aflição, fome e sede de justiça, e assim por diante; por fim há
o motivo da bem-aventurança, introduzido pela conjunção
“porque”: “Felizes estes porque, felizes aqueles porque...” Assim as
Bem-aventuranças são oito e seria bom aprendê-las de cor para as repetir, a fim
de ter na mente e no coração esta lei que Jesus nos deu.
Prestemos
atenção a este facto: o motivo da bem-aventurança não é a situação atual, mas a
nova condição que os bem-aventurados recebem como dom de Deus: “porque deles é
o reino do céu”, “porque serão consolados”, “porque possuirão a terra”, e assim
por diante.
No terceiro
elemento, que é precisamente o motivo da felicidade, Jesus usa muitas vezes um
futuro passivo: “serão consolados”, “possuirão a terra”, “serão saciados”,
“alcançarão a misericórdia”, “serão chamados filhos de Deus”.
Mas o que
significa a palavra “feliz”? Por que começa cada uma das oito
Bem-aventuranças com a palavra “feliz”? O termo original não indica alguém que
tem a barriga cheia ou está bem na vida, mas é uma pessoa que está em condição
de graça, que progride na graça de Deus e no caminho de Deus: a paciência, a
pobreza, o serviço aos outros, a consolação... Quantos progridem nestes aspetos
são felizes e serão bem-aventurados.
Deus, para se doar a nós, escolhe muitas vezes caminhos impensáveis, talvez os dos nossos limites, das nossas lágrimas, das nossas derrotas. É a alegria pascal da qual falam os nossos irmãos orientais, aquela que tem os estigmas, mas está viva, atravessou a morte e experimentou o poder de Deus. As Bem-aventuranças conduzem-nos à alegria, sempre; são o caminho para alcançar a alegria. Far-nos-á bem hoje abrir o Evangelho de Mateus, capítulo cinco, versículos de um a onze e ler as Bem-aventuranças — talvez várias vezes durante a semana — para compreender este caminho tão bonito, tão seguro da felicidade que o Senhor nos propõe.



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