quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Quaresma 2021- Mensagem do bispo de Leiria-Fátima

 


Mensagem Quaresma 2021

A cultura do cuidado recíproco, caminho de conversão

A Quaresma é para os cristãos uma ocasião bela e propícia para cuidarmos do nosso espaço interior a fim de reencontrar o essencial das nossas vidas e renovar a nossa relação com o Senhor e com os outros, nossos irmãos.

Este ano viveremos a Quaresma no contexto da terceira vaga da pandemia mais complicada e cheia de incerteza. Gerou-se um ambiente onde se respira cansaço, perplexidade, desconcerto, esgotamento face às feridas pessoais e familiares e aos efeitos económicos e sociais que a crise pandémica deixa atrás de si. Mesmo ao nível da fé sentimos os efeitos das restrições sanitárias na ausência de celebrações e adiamento de atividades pastorais comunitárias, com certo enfraquecimento da vivência da fé e dos laços comunitários de proximidade e fraternidade. Todo este panorama nos leva a interrogar: Será que Deus nos quer dizer algo? “O silêncio da crise que o mundo vive pode ser um espaço vazio ou de escuta. É um vazio ou estamos em fase de escuta?”, interroga-se o Papa Francisco.

Olhando para o nosso mundo ferido, o convite que chega à Igreja para enfrentar e resolver a atual situação de pandemia é o de colocar a atenção na “cultura do cuidado recíproco”, como se depreende da mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz e da encíclica “Todos Irmãos”. Não se pode viver ignorando o outro porque “estamos todos na mesma barca”, todos interdependentes. A cultura do cuidado é a expressão de responsabilidade evangélica e cívica que cada um de nós deve viver e testemunhar.

Cuidar da Fé, Esperança e Caridade

Na mensagem para a Quaresma, o Santo Padre convida-nos a cuidar antes de mais as virtudes fundamentais do cristão: a fé, a esperança e a caridade. Elas estão no fundamento do cuidado recíproco, inspiram-no e alimentam-no. Eis apenas três citações da mensagem que ilustram bem este aspeto:

A Quaresma é um tempo para acreditar, ou seja, para receber a Deus na nossa vida permitindo-Lhe «fazer morada» em nós (cf. Jo 14, 23). Jejuar significa libertar a nossa existência de tudo o que a atravanca, inclusive da saturação de informações – verdadeiras ou falsas – e produtos de consumo, a fim de abrirmos as portas do nosso coração Àquele que vem a nós pobre de tudo, mas «cheio de graça e de verdade» (Jo 1, 14): o Filho de Deus Salvador”. Abrimos o nosso coração a Deus escutando-o através da leitura orante da Palavra de Deus e do colóquio pessoal ou comunitário. Para este efeito propomos o já habitual retiro popular com o lema: “À mesa da Palavra e do Pão da Vida”.

Viver uma Quaresma com esperança significa sentir que, em Jesus Cristo, somos testemunhas do tempo novo em que Deus renova todas as coisas (cf. Ap 21, 1-6), «sempre dispostos a dar a razão da [nossa] esperança a todo aquele que [no-la] peça» (1 Ped 3, 15): a razão é Cristo, que dá a sua vida na cruz e Deus ressuscita ao terceiro dia... No recolhimento e oração silenciosa, a esperança é-nos dada como inspiração e luz interior, que ilumina desafios e opções da nossa missão; por isso mesmo, é fundamental recolhermo-nos para rezar (cf. Mt 6, 6) e encontrar, no segredo, o Pai da ternura”.

Por fim, o Papa apresenta a caridade como a mais alta expressão da nossa fé e esperança: “A caridade alegra-se ao ver o outro crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia: sozinho, doente, sem abrigo, desprezado, necessitado... A caridade é o impulso do coração que nos faz sair de nós mesmos gerando o vínculo da partilha e da comunhão”. 

A medicina espiritual do cuidado recíproco

A experiência da fragilidade na pandemia fez-nos sentir que todos temos necessidade uns dos outros. Conduz-nos a viver a caridade como cultura do cuidado recíproco para construir uma sociedade de relações fraternas. Nenhum de nós reparará o mundo sozinho. Ao vírus do individualismo e da indiferença aplica-se a medicina do cuidado recíproco. Devemos ter presente que cuidar não se limita a prestar cuidados indispensáveis. Começa antes demais por aproximar-se do outro, olhá-lo não como estranho, mas como nosso próximo, escutar o seu sofrimento como quem escuta um coração que bate, estabelecer uma relação de acolhimento, respeito, ternura, confiança, delicadeza e serviço. Só o amor nos dá olhos para ver, um coração para ser sensíveis, inteligência para ser criativos de cuidados e serviços, mãos para levar ajuda.

Recuperar a amabilidade nas relações humanas

Nesta linha, o Papa Francisco assinala a urgência de recuperar a virtude da amabilidade para nos tornarmos “estrelas no meio da escuridão” (FT 222).

“A amabilidade é uma libertação da crueldade que às vezes penetra nas relações humanas, da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros, da urgência distraída que ignora que os outros também têm direito de ser felizes... Uma pessoa amável deixa de lado as suas preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença. Este esforço, vivido dia a dia, é capaz de criar aquela convivência sadia que vence as incompreensões e evita os conflitos. O exercício da amabilidade não é um detalhe insignificante nem uma atitude superficial ou burguesa. Dado que pressupõe estima e respeito, quando se torna cultura numa sociedade, transforma profundamente o estilo de vida, as relações sociais, o modo de debater e confrontar as ideias. Facilita a busca de consensos e abre caminhos onde a exasperação destrói todas as pontes” (FT 224). 

Partilha solidária: a renúncia quaresmal para a Cáritas diocesana

O cuidado recíproco leva-nos a percorrer o caminho da solidariedade ativa quer na responsabilidade pelo bem comum quer no apoio aos mais pobres e necessitados.

Neste contexto situa-se a chamada “renúncia quaresmal” como expressão da partilha solidária de bens. No ano passado, o resultado da renúncia estava destinado à diocese de Tete em Moçambique. Em virtude das restrições a que o confinamento nos obrigou, não foi possível proceder à recolha dos donativos em todas as comunidades. Por esse motivo, entendemos e anunciámos na altura que a renúncia quaresmal deste ano seria para a mesma diocese de Tete. Entretanto chegou-nos um apelo da Presidente da Cáritas nacional para a destinar à Cáritas de cada diocese, invocando o motivo do aumento exponencial do número cada vez maior de pessoas e famílias que recorrem às Cáritas diocesanas. Estas, por sua vez, encontram-se em dificuldades económicas porque no ano passado não foi possível fazer o habitual peditório de rua (como também não será este ano), nem o previsto ofertório. Por isso, tendo ouvido o Conselho de Vigários, decidimos enviar à diocese de Tete a recolha do ano transato, com a promessa de a completar com a renúncia quaresmal do próximo ano, 2022; e que a renúncia da quaresma deste ano de 2021 será destinada à Cáritas diocesana pelos motivos expostos.

  

Sacramento da Penitência e da Reconciliação

A Quaresma é um tempo propício para celebrar o sacramento da penitência e reconciliação. Nele é Deus, rico de misericórdia, que vem ao encontro de cada um com a graça do perdão dos pecados pessoais. Recebemos a alegria da reconciliação com Deus e com os irmãos, da cura das feridas interiores, de avançar no caminho da conversão e da vida nova, de readquirir a serenidade e a paz interior.

Na atual emergência, sacerdotes e penitentes “devem adotar as prudentes atenções na celebração individual do sacramento, tais como a celebração num lugar ventilado fora do confessionário, a adoção de uma distância adequada, a utilização de máscaras protetoras, sem prejuízo da atenção absoluta à salvaguarda do sigilo sacramental e à necessária discrição” (Penitenciaria Apostólica). 

Nestes condicionamentos, os sacerdotes darão a conhecer os horários de atendimento ou os penitentes poderão marcar previamente com o(s) sacerdote(s).

Lembro o esclarecimento emanado da Penitenciaria Apostólica para uma situação concreta em que os fiéis podem vir facilmente a encontrar-se neste tempo: “Onde o fiel se encontrar na dolorosa impossibilidade de receber a absolvição sacramental, deve-se recordar que a contrição perfeita, proveniente do amor do Deus amado acima de tudo, expressa por um sincero pedido de perdão (o que o penitente é atualmente capaz de manifestar) e acompanhada pela firme resolução de recorrer, quanto antes, à confissão sacramental, obtém o perdão dos pecados, até mortais (cf. CIC, n. 1.452)”. 

Peregrinação a Fátima

Do programa pastoral consta sempre a peregrinação diocesana a Fátima, ao encontro de Nossa Senhora e nossa Padroeira. Também este ano não será possível fazê-la na forma habitual com a presença da assembleia dos fiéis. Vamos realizá-la sob a forma de peregrinação interior. Como bispo celebrarei a santa Missa no Santuário com uma representação muito reduzida de cada vigararia. Esta celebração é transmitida pela TV Canção Nova e possibilita que muitos estejam espiritualmente unidos. 

Maria, mãe de Jesus, soube unir o amor e a ternura com a esperança de uma conversão evangélica. É bom que, mesmo em peregrinação interior, elevemos os olhos e o coração para Ela. Como seus filhos estamos certos de que nos acompanhará com o cuidado e a ternura de mãe. Ela cuidará da nossa fé e da nossa esperança e nos ensinará a cuidar uns dos outros como irmãos, com amor fraterno. E assim também nos ensinará a viver a Eucaristia como sacramento do amor na sua dimensão sacramental e na sua dimensão fraterna e missionária. 

Programação Pastoral

Todos sabemos como a pandemia veio alterar os nossos programas com novas surpresas pelo caminho. Também nós tínhamos traçado um programa pastoral para este primeiro ano do biénio dedicado à “Eucaristia, comunidade cristã e missão”, na esperança de que a pandemia regredisse. Aconteceu o contrário. Por isso, sentimo-nos obrigados a adiar para o próximo ano algumas atividades programadas para este. Assim, em vez de um biénio teremos um triénio dedicado ao mesmo tema. Este primeiro ano não é vazio, mas de lançamento, sensibilização e motivação com as atividades possíveis de implementar.

Invocando a proteção de Nossa Senhora de Fátima, de Santo Agostinho e dos santos Pastorinhos desejo a todos uma santa Quaresma!

Leiria, 15 de fevereiro de 2021.

† Cardeal António Marto, Bispo de Leiria-Fátima

 QUARESMA PASSO A PASSO

2ºDia - Quinta-Feira depois das Cinzas – 18/02/2021


EVANGELHO Lc 9, 22-25

"Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia». E, dirigindo-Se a todos, disse: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, tem de perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa salvá-la-á. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou arruinar-se a si próprio?»."


(...)

 “Se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo...”

De que adianta conquistar o mundo inteiro e perder a vida e a eternidade? Para seguir a Jesus é preciso renunciar a si mesmo e carregar a sua cruz.

“Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?” 

A Palavra de Deus hoje convida-nos a seguirmos Jesus. Para seguir o Senhor são precisos dois passos fundamentais: o primeiro é renunciarmos a nós mesmos, é ter coragem e determinação para vencermos o maldito orgulho que temos em nosso coração, que nos enche de amor-próprio e, muitas vezes, nos permite ver e querer o mundo à nossa maneira.

O orgulho cega-nos a ponto de, muitas vezes, não enxergarmos o outro e de não entendermos que Deus é mais do que tudo, é mais do que nós e que todos dependemos d’Ele. O orgulho cega-nos a ponto de não reconhecermos os nossos pecados e mantém-nos cativos de modo a querermos ser o centro das atenções. O orgulho é um pecado maldito que nos mantém privados da graça de Deus.

Por isso quem quiser seguir Jesus terá que renunciar a si mesmo. Muitas vezes, será preciso perder para poder ganhar, levar desvantagem em relação aos outros, mas vantagem em relação a Deus. Somente ao renunciarmos a nós mesmos e ao vencermos esse orgulho, que há em nós, seremos vitoriosos e teremos uma vida mais calma e mais confiante. Assim, as disputas e as comparações, que há no meio de nós, vão cessar.

Quem renuncia a si mesmo dá o segundo passo no seguimento a Jesus: carrega a sua cruz de cada dia e assim segue o Senhor onde quer que Ele vá. Carregar a cruz de cada dia é carregar o peso dos nossos compromissos e responsabilidades, a responsabilidade de sermos aquilo que assumimos ser no mundo. Se sou pai (mãe) preciso de assumir a minha paternidade (maternidade) com força e abnegação e com tudo aquilo que ela exige.

Muitas vezes, a nossa cruz torna-se pesada devido a doenças que não compreendemos, ou a situações complicadas em casa ou no trabalho. Eu abraço a minha cruz quando assumo o que sou e as responsabilidades que tenho sem me desesperar, sem querer jogar fora essa cruz, ou colocá-la de lado e sem deixar de assumir que a graça de Deus é maior do que tudo. 

Abraçar a cruz significa não colocar a busca dos bens materiais como o motor que direciona a minha vida. De que adianta conquistar o mundo inteiro e ficar milionário e perder a minha vida e a eternidade? Cada coisa vivida com equilíbrio e sobriedade coloca-nos mais perto do coração de Deus e não nos permite viver iludidos neste mundo.

in https://www.jesuitasbrasil.org.br/ 

Pai-Nosso, que estais nos céus, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

QUARESMA PASSO A PASSO

Ao procurar uma ajuda  para a reflexão/oração em cada dia da Quaresma, encontrei no site https://www.jesuitasbrasil.org.br/  uma proposta para um “Retiro da Quaresma – 2021”.  Não seguindo tudo o que é proposto, vou-me apoiar nos subsídios que ali são fornecidos para cada dia.

1ºDia - Quarta-Feira de Cinzas – 17/02/2021


“QUANDO JEJUARES, PERFUMA A CABEÇA E LAVA O ROSTO...” 

“QUANDO REZARDES, NÃO SEJAIS COMO OS HIPÓCRITAS...” 

EVANGELHO Mt 6, 1-6.16-18

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».

Quaresma é o tempo favorável para “ordenar a própria vida” na direção do sonho de Deus para toda a humanidade. Para que este processo de “ordenamento” aconteça, o tempo litúrgico quaresmal convida-nos a “considerar” as nossas relações vitais: com Deus, com os outros, com o mundo e connosco mesmos.

No Evangelho fala-se das “práticas quaresmais” da oração, esmola e jejum, onde as nossas relações são iluminadas e questionadas pelo modo de proceder de Jesus. Que sentido têm, para a nossa cultura, estes três gestos que são propostos para uma vivência fecunda da Quaresma?

Em primeiro lugar, são três gestos que nos humanizam e tornam a vida mais leve e com o verdadeiro sentido; eles condensam o sentido da vida cristã. A vida é um abrir-se aos demais (esmola), um mergulhar no mistério de Deus (oração) e ser capaz de ordenar e dirigir a própria existência (jejum).

É preciso criar um espaço novo no coração e na mente, para que as coisas novas aconteçam. Vividos a partir da identificação com Jesus Cristo, os valores da oração, da esmola e do jejum esvaziam o nosso “ego” para: nos aproximar dos pobres dos excluídos; encher-nos    de   compaixão   de  misericórdia; exercitar-nos na prática do bem e da bondade; acolher o outro com sinceridade; perdoar gratuitamente; cuidar com ternura e admiração tudo o que nos cerca; encantar-nos com o mistério da vida; deixar-nos envolver pela graça e permitir que o amor circule em nós e no mundo, gerando vida em abundância.

Pai-Nosso, que estais nos céus, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.

Quarta - Feira de Cinzas - Papa Francisco


Francisco: a Quaresma é uma viagem de regresso a Deus

"A Quaresma é uma viagem que envolve toda a nossa vida, tudo de nós mesmos. É o tempo para verificar as estradas que estamos percorrendo, para encontrar o caminho que nos leva de volta a casa, para redescobrir o vínculo fundamental com Deus, do qual tudo depende", disse o Papa na sua homilia.

Vatican News 

O Papa Francisco presidiu a missa com o Rito de imposição das Cinzas, na manhã desta quarta-feira (17/02), na Basílica de São Pedro, no início do tempo da Quaresma.

“Convertei-vos a mim. A Quaresma é uma viagem de regresso a Deus” que “lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas agora é tempo de regressar a Deus”, disse o Pontífice em sua homilia. A seguir, acrescentou:

A Quaresma é uma viagem que envolve toda a nossa vida, tudo de nós mesmos. É o tempo para verificar as estradas que estamos percorrendo, para encontrar o caminho que nos leva de volta a casa, para redescobrir o vínculo fundamental com Deus, do qual tudo depende. A Quaresma não é compor um ramalhete espiritual; é discernir para onde está orientado o coração. Tentemos saber: Para onde me leva o «navegador» da minha vida, para Deus ou para mim mesmo? Vivo para agradar ao Senhor, ou para ser notado, louvado, preferido? Tenho um coração «dançarino» que dá um passo para a frente e outro para trás, amando ora o Senhor ora o mundo, ou um coração firme em Deus? Sinto-me bem com as minhas hipocrisias ou luto para libertar o coração da simulação e das falsidades que o têm prisioneiro?

O perdão do Pai  coloca-nos sempre de pé

“A viagem da Quaresma é um êxodo da escravidão para a liberdade”, disse ainda o Papa. “São quarenta dias que recordam os quarenta anos em que o povo de Deus caminhou pelo deserto para voltar à terra de origem. Mas, como foi difícil deixar o Egito! Ao longo do caminho, nos seus lamentos, sentiam-se sempre tentados pelas cebolas, tentados a voltar para trás, presos às memórias do passado, a qualquer ídolo. O mesmo se passa connosco: a viagem de regresso a Deus vê-se dificultada pelos nossos apegos doentios, impedida pelos laços sedutores dos vícios, pelas falsas seguranças do dinheiro e da ostentação, pela lamúria que paralisa. Para caminhar, é preciso desmascarar estas ilusões”.

A seguir, Francisco convidou a olhar para o filho pródigo para compreender “que é tempo também para nós de regressar ao Pai".

Como aquele filho, também nós esquecemos o ar de casa, delapidamos bens preciosos em troca de coisas sem valor e ficamos com as mãos vazias e o coração insatisfeito. Caímos: somos filhos que caem continuamente, somos como criancinhas que tentam andar, mas estatelam-se no chão precisando uma vez e outra de ser levantadas pelo papai. É o perdão do Pai que  nos coloca sempre de pé: o perdão de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso. Recomendo aos confessores: sejam como o pai, não com o chicote, mas com o abraço.

O caminho da humildade

“Depois precisamos de regressar a Jesus, fazer como aquele leproso curado que voltou para Lhe agradecer. Somos chamados também a regressar ao Espírito Santo. As cinzas na cabeça  lembram-nos que somos pó e ao pó voltaremos”.

Segundo o Papa, o que nos faz regressar a Deus “não são as nossas capacidades nem os méritos que ostentamos, mas a Sua graça que temos de acolher. Disse-o claramente Jesus no Evangelho: o que nos torna justos não é a justiça que praticamos diante dos homens, mas a relação sincera com o Pai. O início do regresso a Deus é reconhecermo-nos necessitados d’Ele, necessitados de misericórdia. O caminho certo é este: o caminho da humildade”.

Deus espera-nos com a Sua infinita misericórdia

Hoje inclinamos a cabeça para receber as cinzas. Quando terminar a Quaresma, abaixar-nos-emos ainda mais para lavar os pés dos irmãos. A Quaresma é uma descida humilde dentro de nós e rumo aos outros. É compreender que a salvação não é uma escalada para a glória, mas um abaixamento por amor. É fazer-nos humildes. Neste caminho, para não perder o rumo, coloquemo-nos diante da cruz de Jesus: é a cátedra silenciosa de Deus. Contemplemos cada dia as Suas Chagas. 

“Nas Suas Chagas”, disse o Papa, “reconheçamos o nosso vazio, as nossas faltas, as feridas do pecado, os golpes que nos fizeram sofrer. Vemos ali que Deus não aponta o dedo contra nós, mas abre-nos os braços. As Suas Chagas estão abertas para nós e, por aquelas chagas, fomos curados”. Nas chagas mais dolorosas da vida, “Deus espera-nos com a Sua infinita misericórdia. Porque ali, onde somos mais vulneráveis, onde mais nos envergonhamos, Ele veio ao nosso encontro. E agora convida-nos a regressar a Ele, para voltarmos a encontrar a alegria de ser amados”, concluiu o Papa.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Mensagem para esta Quaresma - Papa Francisco

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 2021

 

«Vamos subir a Jerusalém...» (Mt 20, 18).
Quaresma: tempo para renovar fé, esperança e caridade.

 

Queridos irmãos e irmãs!

Jesus, ao anunciar aos discípulos a sua paixão, morte e ressurreição como cumprimento da vontade do Pai, desvenda-lhes o sentido profundo da sua missão e convida-os a associarem-se à mesma pela salvação do mundo.

Ao percorrer o caminho quaresmal que nos conduz às celebrações pascais, recordamos Aquele que «Se rebaixou a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz» (Flp 2, 8). Neste tempo de conversão, renovamos a nossa fé, obtemos a «água viva» da esperança e recebemos com o coração aberto o amor de Deus que nos transforma em irmãos e irmãs em Cristo. Na noite de Páscoa, renovaremos as promessas do nosso Batismo, para renascer como mulheres e homens novos por obra e graça do Espírito Santo. Entretanto o itinerário da Quaresma, como aliás todo o caminho cristão, já está inteiramente sob a luz da Ressurreição que anima os sentimentos, atitudes e opções de quem deseja seguir a Cristo.

jejum, a oração e a esmola – tal como são apresentados por Jesus na sua pregação (cf. Mt 6, 1-18) – são as condições para a nossa conversão e sua expressão. O caminho da pobreza e da privação (o jejum), a atenção e os gestos de amor pelo homem ferido (a esmola) e o diálogo filial com o Pai (a oração) permitem-nos encarnar uma fé sincera, uma esperança viva e uma caridade operosa.

1. A fé chama-nos a acolher a Verdade e a tornar-nos suas testemunhas diante de Deus e de todos os nossos irmãos e irmãs

Neste tempo de Quaresma, acolher e viver a Verdade manifestada em Cristo significa, antes de mais, deixar-nos alcançar pela Palavra de Deus, que nos é transmitida de geração em geração pela Igreja. Esta Verdade não é uma construção do intelecto, reservada a poucas mentes seletas, superiores ou ilustres, mas é uma mensagem que recebemos e podemos compreender graças à inteligência do coração, aberto à grandeza de Deus, que nos ama ainda antes de nós próprios tomarmos consciência disso. Esta Verdade é o próprio Cristo, que, assumindo completamente a nossa humanidade, Se fez Caminho – exigente, mas aberto a todos – que conduz à plenitude da Vida.

O jejum, vivido como experiência de privação, leva as pessoas que o praticam com simplicidade de coração a redescobrir o dom de Deus e a compreender a nossa realidade de criaturas que, feitas à sua imagem e semelhança, n'Ele encontram plena realização. Ao fazer experiência duma pobreza assumida, quem jejua faz-se pobre com os pobres e «acumula» a riqueza do amor recebido e partilhado. O jejum, assim entendido e praticado, ajuda a amar a Deus e ao próximo, pois, como ensina São Tomás de Aquino, o amor é um movimento que centra a minha atenção no outro, considerando-o como um só comigo mesmo [cf. Enc. Fratelli tutti (= FT), 93].

A Quaresma é um tempo para acreditar, ou seja, para receber a Deus na nossa vida permitindo-Lhe «fazer morada» em nós (cf. Jo 14, 23)Jejuar significa libertar a nossa existência de tudo o que a atravanca, inclusive da saturação de informações – verdadeiras ou falsas – e produtos de consumo, a fim de abrirmos as portas do nosso coração Àquele que vem a nós pobre de tudo, mas «cheio de graça e de verdade» (Jo 1, 14): o Filho de Deus Salvador.

2. A esperança como «água viva», que nos permite continuar o nosso caminho

A samaritana, a quem Jesus pedira de beber junto do poço, não entende quando Ele lhe diz que poderia oferecer-lhe uma «água viva» (cf. Jo 4, 10-12); e, naturalmente, a primeira coisa que lhe vem ao pensamento é a água material, ao passo que Jesus pensava no Espírito Santo, que Ele dará em abundância no Mistério Pascal e que infunde em nós a esperança que não desilude. Já quando preanuncia a sua paixão e morte, Jesus abre à esperança dizendo que «ressuscitará ao terceiro dia» (Mt 20, 19). Jesus fala-nos do futuro aberto de par em par pela misericórdia do Pai. Esperar com Ele e graças a Ele significa acreditar que, a última palavra na história, não a têm os nossos erros, as nossas violências e injustiças, nem o pecado que crucifica o Amor; significa obter do seu Coração aberto o perdão do Pai.

No contexto de preocupação em que vivemos atualmente onde tudo parece frágil e incerto, falar de esperança poderia parecer uma provocação. O tempo da Quaresma é feito para ter esperança, para voltar a dirigir o nosso olhar para a paciência de Deus, que continua a cuidar da sua Criação, não obstante nós a maltratarmos com frequência (cf. Enc. Laudato si’32-33.43-44). É ter esperança naquela reconciliação a que nos exorta apaixonadamente São Paulo: «Reconciliai-vos com Deus» (2 Cor 5, 20). Recebendo o perdão no Sacramento que está no centro do nosso processo de conversão, tornamo-nos, por nossa vez, propagadores do perdão: tendo-o recebido nós próprios, podemos oferecê-lo através da capacidade de viver um diálogo solícito e adotando um comportamento que conforta quem está ferido. O perdão de Deus, através também das nossas palavras e gestos, possibilita viver uma Páscoa de fraternidade.

Na Quaresma, estejamos mais atentos a «dizer palavras de incentivo, que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam, em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam» (FT, 223). Às vezes, para dar esperança, basta ser «uma pessoa amável, que deixa de lado as suas preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença» (FT, 224).

No recolhimento e oração silenciosa, a esperança é-nos dada como inspiração e luz interior, que ilumina desafios e opções da nossa missão; por isso mesmo, é fundamental recolher-se para rezar (cf. Mt 6, 6) e encontrar, no segredo, o Pai da ternura.

Viver uma Quaresma com esperança significa sentir que, em Jesus Cristo, somos testemunhas do tempo novo em que Deus renova todas as coisas (cf. Ap 21, 1-6), «sempre dispostos a dar a razão da [nossa] esperança a todo aquele que [no-la] peça» (1 Ped 3, 15): a razão é Cristo, que dá a sua vida na cruz e Deus ressuscita ao terceiro dia.

3. A caridade, vivida seguindo as pegadas de Cristo na atenção e compaixão por cada pessoa, é a mais alta expressão da nossa fé e da nossa esperança

A caridade alegra-se ao ver o outro crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia: sozinho, doente, sem abrigo, desprezado, necessitado... A caridade é o impulso do coração que nos faz sair de nós mesmos gerando o vínculo da partilha e da comunhão.

«A partir do “amor social”, é possível avançar para uma civilização do amor a que todos nos podemos sentir chamados. Com o seu dinamismo universal, a caridade pode construir um mundo novo, porque não é um sentimento estéril, mas o modo melhor de alcançar vias eficazes de desenvolvimento para todos» (FT, 183).

A caridade é dom, que dá sentido à nossa vida e graças ao qual consideramos quem se encontra na privação como membro da nossa própria família, um amigo, um irmão. O pouco, se partilhado com amor, nunca acaba, mas transforma-se em reserva de vida e felicidade. Aconteceu assim com a farinha e o azeite da viúva de Sarepta, que oferece ao profeta Elias o bocado de pão que tinha (cf. 1 Rs 17, 7-16), e com os pães que Jesus abençoa, parte e dá aos discípulos para que os distribuam à multidão (cf. Mc 6, 30-44). O mesmo sucede com a nossa esmola, seja ela pequena ou grande, oferecida com alegria e simplicidade.

Viver uma Quaresma de caridade significa cuidar de quem se encontra em condições de sofrimento, abandono ou angústia por causa da pandemia de Covid-19. Neste contexto de grande incerteza quanto ao futuro, lembrando-nos da palavra que Deus dera ao seu Servo – «não temas, porque Eu te resgatei» (Is 43, 1) –, ofereçamos, juntamente com a nossa obra de caridade, uma palavra de confiança e façamos sentir ao outro que Deus o ama como um filho.

«Só com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade, levando-nos a perceber a dignidade do outro, é que os pobres são reconhecidos e apreciados na sua dignidade imensa, respeitados no seu estilo próprio e cultura e, por conseguinte, verdadeiramente integrados na sociedade» (FT, 187).

Queridos irmãos e irmãs, cada etapa da vida é um tempo para crer, esperar e amar. Que este apelo a viver a Quaresma como percurso de conversão, oração e partilha dos nossos bens, nos ajude a repassar, na nossa memória comunitária e pessoal, a fé que vem de Cristo vivo, a esperança animada pelo sopro do Espírito e o amor cuja fonte inexaurível é o coração misericordioso do Pai.

Que Maria, Mãe do Salvador, fiel aos pés da cruz e no coração da Igreja, nos ampare com a sua solícita presença, e a bênção do Ressuscitado nos acompanhe no caminho rumo à luz pascal.

Roma, em São João de Latrão, na Memória de São Martinho de Tours, 11 de novembro de 2020. 

Francisco