DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM-2025-ANO C
As leituras deste
domingo põem em questão a forma de viver em sociedade, nos tempos antigos, modernos,
ou contemporâneos, ou seja, sempre, em todos os tempos. Hoje, como ontem, os
mais pobres dos pobres continuam a ser marginalizados e ignorados. Como é
difícil ajudarmo-nos uns aos outros, compartilhando o que temos e somos! Nas
mais pequenas vivências do dia a dia, ou nos grandes acontecimentos da vida,
seja qual for a nossa atividade diária, comportamo-nos, tanta vezes, como se
fossemos os donos da história. Como seria diferente se nós, os cristãos, nos
amássemos como irmãos, tal como Jesus nos pediu que fizéssemos!
Se vivesse hoje, entre nós, o profeta Amós (Am 6,11-16) dir-nos-ia exatamente o
mesmo que disse às pessoas do seu tempo. Efetivamente as situações de
injustiça, exploração e escândalo de luxos e esbanjamento, face aos que nada
têm, continuam a ser demasiado frequentes nos nossos dias. Que o Senhor, na Sua
misericórdia infinita, nos converta e abra os nossos corações ao Seu Amor sem
fim, para que este irradie e chegue a todos os que nos rodeiam e connosco
convivem.
“Eis o que diz o Senhor omnipotente: «Ai daqueles que vivem comodamente em
Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria. Deitados em leitos de
marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos
do estábulo. Improvisam ao som da lira e cantam como David as suas próprias
melodias. Bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas
não os aflige a ruína de José. Por isso, agora partirão para o exílio à frente
dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».
Hoje, na 2ª leitura (1 Tim 6, 11-16), S.Paulo desafia-nos a vivermos como discípulos de Jesus, a tudo fazermos para dar louvor e glória a Deus. Só em Jesus encontraremos a força para seguirmos o caminho proposto por S.Paulo e darmos testemunho do Amor de Deus no meio dos homens.
"Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas. Ordeno-te na presença de Deus, que dá a vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu testemunho da verdade diante de Pôncio Pilatos: Guarda o mandamento do Senhor, sem mancha e acima de toda a censura, até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo, a qual manifestará a seu tempo o venturoso e único soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que possui a imortalidade e habita uma luz inacessível, que nenhum homem viu nem pode ver. A Ele a honra e o poder eterno. Ámen."
O Evangelho (Lc 16, 19-31) é uma catequese, de Jesus, sobre o que é importante
para alcançar a felicidade verdadeira. Seja rico, seja pobre, o homem só será
feliz se se entregar, de alma e coração, à Misericórdia, ao Amor de Deus, seja
qual for o seu estado de vida. Em Jesus amaremos aqueles que connosco se cruzam
nas estradas da vida, pondo tudo, o que temos e somos, ao serviço de todos. Só
n’Ele o nosso coração todo se entregará ao Senhor, para que um dia, na
plenitude dos tempos, Deus seja tudo em todos.
“Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: «Havia um homem rico, que se
vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias.
Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem
desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham
lamber-lhe as chagas. Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos
ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos,
estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado.
Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro,
para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou
atormentado nestas chamas’. Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que
recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele
encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, há entre
nós e vós um grande abismo, de modo que se alguém quisesse passar daqui para
junto de vós, ou daí para junto de nós, não poderia fazê-lo’. O rico insistiu:
‘Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho
cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este
lugar de tormento’. Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas: que os
oiçam’. Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com
eles, arrepender-se-ão’. Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés nem
aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos’».”
Senhor,
ensina-me a amar, como só Tu amas, os que colocas no meu caminho.
Bom
dia, estimados irmãos e irmãs!
Hoje desejo
meditar convosco sobre a parábola do homem rico e do pobre Lázaro. A vida
destas duas pessoas parece correr por vias paralelas: as suas condições de vida
são opostas e totalmente incomunicantes. O portão da casa do rico está sempre
fechado ao pobre, que permanece ali, fora, procurando comer algumas migalhas
que caem da mesa do rico. O rico veste-se com roupas de luxo, enquanto Lázaro
está coberto de chagas; cada dia o rico dá banquetes requintados, enquanto
Lázaro morre de fome. Só os cães cuidam dele e vão lamber as suas feridas. Esta
cena recorda a dura admoestação do Filho do homem no Juízo final: «Tive fome e
não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, estava [...] nu e
não me revestistes» (Mt 25, 42-43). Lázaro representa bem o grito
silencioso dos pobres de todos os tempos e a contradição de um mundo em que
riquezas e recursos imensos se encontram nas mãos de poucos.
Jesus diz que
um dia aquele homem rico faleceu: os pobres e os ricos morrem, têm o mesmo
destino, como todos nós, para isto não há exceção. E então aquele homem
dirigiu-se a Abraão, suplicando-o com o apelativo de «pai» (vv. 24.27).
Portanto, reivindica ser seu filho, pertencente ao povo de Deus. E no entanto,
durante a vida não demonstrou consideração alguma por Deus, ao contrário, fez
de si mesmo o centro de tudo, fechado no seu mundo de luxo e de desperdício.
Excluindo Lázaro, não teve em conta nem o Senhor, nem a sua lei. Ignorar o
pobre significa desprezar a Deus! Devemos aprender bem isto. Ignorar o pobre
significa desprezar a Deus! Há um pormenor na parábola que deve ser observado:
o rico não tem um nome, mas somente um adjetivo: «o rico»; enquanto o nome do
pobre é repetido cinco vezes, e «Lázaro» quer dizer «Deus ajuda». Lázaro, que
jaz diante da porta, é uma evocação viva ao rico, para se recordar de Deus, mas
o rico não aceita tal evocação. Portanto, será condenado não pelas suas
riquezas, mas por ter sido incapaz de sentir compaixão por Lázaro e de o
socorrer.
Na segunda
parte da parábola, voltamos a encontrar Lázaro e o rico, depois da sua morte
(vv. 22-31). No além, a situação inverteu-se: o pobre Lázaro é levado pelos
anjos para o céu, para junto de Abraão, enquanto que o rico é precipitado no meio
dos tormentos. Então, o rico «ergueu o olhar e viu Abraão à distância, e Lázaro
ao seu lado». Parece que ele vê Lázaro pela primeira vez, mas as suas palavras
atraiçoam-no: «Pai Abraão — diz — compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe
na água a ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou
cruelmente atormentado nestas chamas». Agora, o rico reconhece Lázaro e
pede-lhe ajuda, mas quando vivia fingia que não o via. Quantas vezes tantas
pessoas fingem que não veem os pobres! Para elas, os pobres não existem. Antes,
negava-lhe até as migalhas da sua mesa, e agora gostaria que ele lhe desse de
beber! Ainda crê que pode aduzir direitos, devido à sua condição social
precedente. Declarando que é impossível atender ao seu pedido, o próprio Abraão
oferece a chave de toda a narração: explica que bens e males foram distribuídos
de modo a compensar a injustiça terrena, e a porta que durante a vida separava
o rico do pobre transformou-se num «grande abismo». Enquanto Lázaro jazia
diante da sua casa, para o rico havia a possibilidade de salvação, de abrir a
porta de par em par e de ajudar Lázaro, mas agora que ambos faleceram, a
situação tornou-se irreparável. Deus nunca é diretamente interpelado, mas a
parábola alerta de maneira clara: a misericórdia de Deus por nós está vinculada
à nossa misericórdia pelo próximo; quando esta falta, também aquela não
encontra espaço no nosso coração fechado, não pode entrar. Se eu não escancarar
a porta do meu coração ao pobre, aquela porta permanece fechada. Inclusive para
Deus. E isto é terrível!
Nesta altura,
o rico pensa nos seus irmãos, que correm o risco de ter o mesmo destino, e pede
que Lázaro possa voltar ao mundo para os repreender. Mas Abraão responde: «Eles
têm Moisés e os profetas; que os ouçam!». Para nos convertermos, não devemos
aguardar acontecimentos prodigiosos, mas abrir o nosso coração à Palavra de
Deus, que nos chama a amar a Deus e ao próximo. A Palavra de Deus pode fazer
renascer um coração que se tornou insensível e curá-lo da sua cegueira. O rico
conhecia a Palavra de Deus, mas não permitiu que ela entrasse no seu coração,
não a ouviu, e por isso foi incapaz de abrir os olhos e de sentir compaixão
pelo pobre. Nenhum mensageiro nem mensagem alguma poderão substituir os pobres
que encontramos no caminho, porque neles é o próprio Jesus que vem ao nosso
encontro: «Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais
pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes» (Mt 25, 40), diz Jesus.
Assim, na inversão dos destinos que a parábola descreve está escondido o
mistério da nossa salvação, na qual Cristo une a pobreza à misericórdia.
Caros irmãos e irmãs, ouvindo este Evangelho, todos nós, juntamente com os pobres da terra, podemos entoar com Maria: «Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos» (Lc 1, 52-53).




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